15/03/2013 - 21:05h Revocatoria: “La estrategia del NO fue arrastrar al SÍ a un nuevo escenario de debate”

Viernes, 15 de marzo del 2013 – Gestión (Perú)

Análisis. El gerente de Asuntos Públicos de Llorente & Cuenca, Rubén Caro, explicó el uso del “cambio de ‘frame’ o de encuadre” en la campaña. Con la asesoría brasileña, el SÍ dejó de lado la discusión alrededor de la “ineficiencia”, la llevó a un terreno visual, y se amparó en figuras mediáticas y en las redes sociales para ganar terreno.

En medio de la avalancha mediática que impide un análisis más profundo sobre lo que realmente marcan las tendencias en el proceso de revocatoria, el gerente de Asuntos Públicos de Llorente & Cuenca, Rubén Caro, estableció dos escenarios y modelos distintos en las campañas publicitarias del Sí y el NO, en un careo que podría dividirse en dos momentos.
Primer round
Cano narró que todo comenzó con el discurso del Grupo del SÍ o los revocadores, que eligieron un modelo tradicional, con mensajes bastante claros y menos pulcros, centrados en la capacidad de gestión de Susana Villarán. En otras palabras, su intención convenía en restarle popularidad a la alcaldesa, relacionando su imagen con elementos negativos, pues la naturaleza de una revocatoria es cuestionar el poder.
“El bando del SÍ tiene estrategias de comunicación utilizados en campañas electorales anteriores y se establece con varias banderas ideológicas, que prioriza la efectividad antes que las formas”, analizó Cano.
En cambio, el Grupo del NO o los antirevocadores -agregó el experto- entraron a tallar con un modelo más sofisticado y cuidado en sus formas, pero sobre todo trazando un nuevo escenario de debate. Al inicio, no se quisieron enfrentar con los dimes y diretes de los revocadores, sino optaron por el desarrollo de conceptos: “No a la violencia”, “No al atraso” o “No al caos”. Es decir, el Grupo del NO dejó de jugar en la cancha del Sí y los arrastró a su campo de acción.
“Este punto de inflexión está marcado por la llegada de los asesores brasileros. Es clarísimo lo que llamaríamos el cambio de ‘frame’ o de encuadre en una campaña. Entonces, ya no se discute sobre los temas de la gestión municipal, sino se lleva el debate a otra arena de mensajes. Esa es una estrategia para no ‘pelear’ en el mismo escenario que te han impuesto”, explicó.
Segundo round
El momento siguiente estuvo marcado por el Grupo del NO, pues comenzó a enfrentar o responder a las críticas de los revocadores, una vez que ya los tenía en su cancha, no solo a ellos, sino también a la opinión pública.
“El siguiente paso fue aclarar la información de fondo. De un momento en que se decía que la alcadesa era una ineficiente, se pasó a un segundo nivel donde se mostraron los números y las obras para reforzar el quiebre de escenario”, sostuvo.
Y explicó esa estrategía de manera más gráfica: “Es como en el fútbol: de un partido en el que estás perdiendo y encima estás de visita, lo que haces es sacas a tu equipo y ponerlo de local. Encima traes al otro equipo a tu cancha, y ahí empiezas a aclarar los temas que te habían impuesto anteriormente”.
Por puntos
Cano argumentó que el Grupo del No prefirió el lenguaje visual, mientras el Grupo del SÍ hizo énfasis en el lenguaje oral. En ese aspecto, también son notorio dos estilos de comunicación:
“Los del SÍ han valorado más el mensaje repetitivo de falta de gestión e ineficiencia, mientras el NO ha lanzado mensajes positivos y ha limpiado un poco de manera visual el escenario, con rostros reconocibles a través de figuras mediáticas. Se podría decir que el NO se ha enfocado mucho más en el tema visual. Y eso responde a su mensaje que es bastante homogéneo, porque la campaña entera parece un mensaje en sí mismo”.
El ejecutivo de Llorente & Cuenca también enfatizó en la importancia de Internet en la revocatoria, puesto que en Lima tiene una población de 10 millones de habitantes con una penetración de Internet de más del 90%. Y, en este punto, se refirió al uso de las redes sociales.
“Ambos bandos han aprovechado el Internet. Y los memes es como si encendieras una chispa y después se produjera un incendio. Y lo interesante es que lo genera la misma gente, se apropia del mensaje y le da la forma que quiere. Eso amplifica el mensaje en una forma exponencial. No se podría decir que un bando ha utilizado mejor o peor las redes, cada uno lo ha hecho a su estilo”, explicó.

12/11/2012 - 17:41h Dados viram estrela do novo marketing político


Discurso genérico dá lugar a abordagens individualizadas

12 de novembro de 2012

JULIA DUAILIBI – O Estado de S.Paulo

O eleitor recebe uma carta de determinado candidato, na qual são apontadas propostas para problemas específicos no bairro onde vive. A sua mulher ouve uma gravação em seu celular do mesmo candidato, que a convida para um evento de campanha onde debaterá projeto de construção de uma creche na sua rua. O pai do eleitor é visitado por um voluntário da campanha que leva informações detalhadas sobre programas voltados para a terceira idade, e os filhos são abordados nas redes sociais com ideias de políticas para jovens.

Na última eleição municipal, o marketing eleitoral começou a deixar de lado o discurso genérico, feito por mala direta ou telemarketing disparados aleatoriamente para milhares de pessoas, e passou a adotar abordagens individualizadas, como as descritas acima, que são moldadas para grupos menores de eleitores. É o chamado microtargeting – ou microalvo, em português.

Se nos anos 90 o marketing político vivia da criatividade de gurus estrelas, muitos deles vindos da publicidade, 20 depois o mercado passa a valorizar estatísticos que criam bancos de dados e sistemas que processam e cruzam informações sobre o perfil do eleitor. Ainda estratégico, o horário eleitoral gratuito, que hoje concorre com a TV a cabo e com a internet, passa a ter um peso menor na eleição.

Em Guarulhos, na Grande São Paulo, a campanha de Sebastião Almeida (PT) identificou e alcançou por mala direta 35 mil eleitores que moravam fora da cidade. Em São José dos Campos, de Carlinhos Almeida (PT), foram disparados telefonemas de Lula para bairros simpáticos ao petista. Onde havia resistência, a gravação era da presidente Dilma Rousseff. No telemarketing de Eduardo Paes (PMDB), no Rio, o candidato convidava o eleitor a conhecê-lo em um evento de campanha que faria no bairro.

Perfis. “O mundo mudou. As pessoas hoje são tratadas de uma maneira muito individual. Isso tem que se traduzir nas propostas de políticas públicas numa campanha”, diz o economista Maurício Moura, professor da George Washington University, que neste ano atuou em 11 campanhas pelo País – dez delas vitoriosas. Moura desenvolveu banco de dados com informações públicas de 114 milhões de eleitores brasileiros, no qual há desde o histórico de votação na seção eleitoral da pessoa até seu endereço e telefone.

“Agora entraram as equipes de inteligência que investem no conhecimento do eleitorado. Reúnem dados, combinam informações, traçam perfis individuais que permitem formas de comunicação muito mais eficientes. Mas nesse aspecto ainda estamos na pré-história da comunicação política no Brasil”, afirma o antropólogo Renato Pereira, da Prole, responsável pelas duas campanhas de Paes e pela reeleição de Sérgio Cabral em 2010. Pereira também fez a campanha de Henrique Capriles na Venezuela, que encostou no candidato à reeleição, Hugo Chávez.

O sociólogo Oliveiros Marques, que comandou a campanha de Gustavo Fruet (PDT) em Curitiba, avalia que a ação do marqueteiro hoje não é restrita aos programas na TV. Estende-se à agenda do candidato, à forma como será feita a distribuição do material de campanha e até à articulação política. “O trabalho é mais artesanal do que de linha de produção”, afirmou Marques, que venceu também em São Bernardo, São Caetano e Marília.

Para Valdemir Garreta, que ganhou com as campanhas do PT em São José dos Campos e Guarulhos – e foi para o 2.º turno em Campinas -, o efeito do microtargeting deve ser relativizado. “Funciona bem em países como Estados Unidos, onde o voto é facultativo. Nas cidades onde há propaganda eleitoral na TV, a ação regional tem um peso menor.” Responsável pela campanha de Ollanta Humala no Peru em 2011, também acha que o peso do horário eleitoral diminuiu.

Pioneiro. O microtargeting começou a ser adotado como ferramenta pela campanha de George W. Bush em 2004. Na disputa deste ano, Barack Obama e Mitt Romney aprimoraram a abordagem a ponto de conseguirem mandar e-mails diferentes para eleitores da mesma casa, tratando dos anseios de cada um.

Os bancos de dados são alimentados com informações dos eleitores que são públicas, como perfil de consumo e histórico de pagamento. A depender da localidade, as campanhas trabalham com até 700 variáveis para cada eleitor. “Em política, a era dos grandes dados chegou”, disse a última edição da revista americana Time, que descreveu o trabalho da equipe de dados de Obama.

17/08/2012 - 17:00h O caixa dois fora dos autos

Nelson Jr./SCO-STF / Nelson Jr./SCO-STF
Márcio Thomaz Bastos apresenta no STF a defesa de José Roberto Salgado, ex-diretor do Banco Rural (à frente, os ministros Ricardo Lewandowski, Cármen Lucia, Gilmar Mendes e Celso de Mello; em pé, o ministro Joaquim Barbosa)


Por Wanderley Guilherme dos Santos | Para o Valor, do Rio

Política não é Olimpíada. Atletas vitoriosos recebem com exclusividade os benefícios materiais da vitória, além da glória, cabendo aos torcedores a recompensa simbólica da emoção satisfeita. Não é assim em política. Vitória e derrota produzem relevantes consequências materiais para eleitores e não eleitores. Ninguém pode evitar os desdobramentos de uma eleição, não basta desligar a televisão. E para influenciar os resultados dessa competição é que se organizam os interesses e se formam os partidos políticos. Partidos são organizados para a conquista das posições de poder decisório sobre o que acontecerá material e socialmente na vida de cada um no futuro imediato e próximo. Respondem à necessidade de dar tratamento e solução aos inevitáveis conflitos de interesse constitutivos das sociedades, valendo-se da aplicação de regras previamente aprovadas em eleições especiais. São os partidos que garantem, mediante o funcionamento das instituições para tal desenhadas, a civilidade da convivência social. Quando os partidos e as demais instituições não funcionam eficazmente, segue-se a multiplicação de conflitos selvagens, isto é, sem regras. Ambicionar a conquista do poder político não revela patologia alguma, em princípio, do mesmo modo que o desejo de enriquecer não compromete, por isso, o caráter de um empresário ou investidor.

Nem todos os vigários são pedófilos e os que o são não o são porque sejam vigários ou cardeais. Há políticos negligentes, assim como alguns médicos, e, outros, desonestos, mas não porque são médicos ou políticos. Ninguém julga um caso de imperícia médica tendo por premissa que a própria atividade é, de si, maculada, sendo o desvio cometido não mais do que agravante. Frequente, contudo, mesmo entre cidadãos ilustrados, é a manifestação do preconceito de que a atividade política é contaminada por essencial impureza. Em várias análises de nobre patrocínio o núcleo acusatório resume-se à denuncia de que alguém ou alguma organização, partidos políticos, no caso, movem-se pela busca do poder. Na realidade, trata-se do reconhecimento de uma inocente obviedade. Nada mais.

É magnífica a oportunidade para convocar certas normas à responsabilidade, neste e em episódios semelhantes


Organizações diferem entre si em graus de hierarquia, especificação de funções, concentração de decisões, formulação de estratégias, extensão da divisão do trabalho e em muitas outras dimensões. A eficácia dessas estruturas de ação coletiva depende da inteligência com que foram articuladas e organizadas. Analisei os organogramas funcionais de 76 empresas públicas (em pesquisa já antiga), distribuídas por setores diversos da economia: bancos, empresas industriais, agrícolas, de transporte, de previdência e ainda outras. O porte de todas elas impunha um formato básico quase semelhante nas áreas chamadas de administrativas, as quais, não obstante a nomenclatura variável, se mostravam aparentadas nas funções desempenhadas. Diferenças significativas entre organizações bancárias e industriais só adquirem destaque em estágios próximos da produção do bem ou mercadoria característica de cada uma delas. Há regras para organizar a ação coletiva tendo em vista alcançar o objetivo com eficiência e eficácia e que se replicam nas demais organizações em busca dos mesmos objetivos. O abundante noticiário policial e os livros-reportagens sobre a matéria justificam a impressão de que a estrutura organizacional do negócio do tráfico e distribuição de drogas acompanha o desenho formal das grandes redes varejistas: a coordenação para o recebimento regular da mercadoria em vista das oscilações da demanda; a distribuição a inúmeros e descentralizados pontos de distribuição; a responsabilidade pela segurança de toda a cadeia de transporte e trocas, minimizando perdas, roubos e deterioração do produto; a contabilidade sofisticada dos ganhos e das perdas da extensa rede de unidades responsáveis pela entrega do produto ao consumidor final e, enfim, o recebimento da compensação financeira esperada.

É evidente que as organizações dos exemplos são profundamente heterogêneas no serviço prestado ou bem distribuído, mas a heterogeneidade não resulta da comum família organizacional. Isto significa que formatos organizacionais relativamente semelhantes podem ser eficazes e bem-sucedidos na provisão de bens pessoal e socialmente úteis, tanto quanto no atendimento à demanda por bens semilícitos ou totalmente ilegais. O formato é inocente.

Partidos são organizações com autonomia para decidir o que, para quem, mas não como fazer o que se propõem. Operam segundo normas estabelecidas pelo Legislativo e pelos tribunais eleitorais. Essas normas estão fora dos autos, imagino, pois raramente mencionadas pelos advogados e ignoradas no pronunciamento do procurador Roberto Gurgel. Não obstante, algumas estão na origem das condições institucionais da ação penal, que, aliás, nada tem de inédita. A relevância que a conjuntura política adquiriu, ideologicamente estruturada em grande parte pelos meios de comunicação, oferece magnífica oportunidade para convocar tais normas à responsabilidade que lhes cabe nesse e em episódios semelhantes.



As campanhas eleitorais foram expulsas das ruas. Substituiu-se a militância voluntária pela propaganda paga, com benefício evidente para os candidatos economicamente poderosos

Legislativo e Superior Tribunal Eleitoral terminaram por expulsar as campanhas eleitorais das ruas. Sempre com o bem-intencionado motivo de reduzir a influência do poder econômico nas eleições, sucessivas normas efetivamente vedaram ou inviabilizaram a eficácia das militâncias partidárias em propaganda andarilha. Comícios e carreatas dependem de desanimadora burocracia, são proibidas as tentativas pessoais de convencimento em dia de eleição ou portar símbolos partidários, entre outras disposições, bem como, a qualquer tempo, a distribuição de chaveirinhos e quinquilharias do gênero. O resultado revela-se na patética exposição de moças e rapazes abraçados em vias públicas a cartazes de propaganda eleitoral, durante o período permitido pela Justiça, com a mesma indiferença com que anunciariam uma promoção de queima de estoques. A boa intenção promoveu a substituição da militância voluntária pela propaganda paga, com benefício evidente para os candidatos economicamente poderosos.

A contribuição mais desastrosa das boas intenções refere-se à criação de multimilionário mercado por via legislativa, o mercado da marquetagem eleitoral, e à transformação do tempo de televisão em ativo eleitoral negociável. Com a prática expulsão das campanhas das ruas, a legislação elevou a televisão a canal virtualmente exclusivo de comunicação dos candidatos com grandes massas. Os consultores de campanha se encarregaram de introduzir nos horários partidários uma competição entre minisséries, com enredo e produção de custos astronômicos. Nunca o poder econômico foi tão crucial ou o valor de um segundo de propaganda em televisão equivalente ao anúncio de um novo sabão em pó. Daí a mudança no significado das coligações.

Originalmente, as coligações, em sistemas proporcionais, objetivam reduzir o desperdício de votos, aqueles que não elegem ninguém, proporcionando, ao mesmo tempo, maior chance de vitórias a partidos de menor porte e eleitorado. Sendo raríssimos os casos de candidatos que obtêm a votação exigida pelo quociente eleitoral daquela eleição, todos se elegem às custas dos votos totais obtidos pela legenda ou pela coligação à qual pertence a legenda. Isso permite a partidos médios ou pequenos concentrarem seus votos em poucos candidatos, esperando conseguir para eles boa colocação na ordem de todos os votados nos partidos da coligação e, assim, conquistar cadeiras. Essa tem sido a estratégia histórica, por exemplo, do PC do B, orientando seus eleitores a descarregarem votos em um ou dois candidatos, posicionando-os vitoriosamente na lista final dos eleitos pela coligação a que pertence. O mecanismo reduz o desperdício de votos, posto que somente o último resto das divisões dos votos totais das coligações pelo quociente eleitoral, aquele que fica abaixo do próprio quociente, deixa de ser eficaz. Claro, a maioria do eleitorado contribui para eleger candidatos nos quais não votou, mas é igualmente cristalino que os eleitores vitoriosos só o foram porque seus candidatos se aproveitaram de votos alheios. Ora se contribui, ora se é contribuído. Jogo equilibrado.


Partidos são organizações com autonomia para decidir o que, para quem, mas não como fazer o que se propõem


O mercado televisivo criado pela legislação desequilibrou a competição. Cada segundo de propaganda na televisão, se é tático para o pequeno partido, por aparecer em coligação que poderá proporcionar-lhe restos de votos, virou estratégico para o partido líder, com o objetivo de roubar tempo disponível à coligação adversária. Sendo muito custosa a propaganda em minisséries eleitorais, a participação em coligações não diminui, ao contrário, aumenta a pressão financeira sobre partidos modestos. E aí a legislação intervém outra vez aleatoriamente.

Normas sobre coligações são meio nebulosas, reconhecem os estudiosos. De certo, elas permitem que dois ou mais partidos, sem limite de número, se coliguem para disputar eleições majoritárias ou proporcionais. À parte isso, tudo o mais é complicado ou controverso. Partidos em coligações majoritárias podem não ser os mesmos nas proporcionais naquela mesma eleição e naquele mesmo distrito, por exemplo. Se não há limite para o número de partidos em uma coligação, é duvidoso se um partido pode prestar, mediante documentação cristalina, ajuda financeira a outro partido da mesma coligação. Em qualquer caso, é praticamente certo que os recursos necessários aos partidos pequenos participarem da competição com alguma chance, dados os valores agora em jogo, excedem de muito o que os partidos líderes poderiam eventualmente proporcionar segundo alguma norma por aí esquecida. Um mercado de competição eleitoral superaquecido por meio de legislação é objeto, por intermédio de outras normas, de restrições reais ao número de participantes efetivos na competição.


Carlos Ceconello/Folhapress / Carlos Ceconello/Folhapress
Carlos Ceconello/Folhapress – Partidos maiores prestam ajuda financeira aos partidos modestos, cujos líderes fazem a distribuição interna dos recursos. Foi o que disse, com todas as letras, o então deputado Roberto Jefferson (foto)

Interessados em política sabem o que acontece. Eleitores, políticos, jornalistas, advogados, juízes de qualquer instância, todos sabem: os partidos com maiores recursos assumem compromissos de ajuda financeira às campanhas dos partidos modestos. São acordos firmados entre líderes de partido, normalmente, e os líderes dos partidos socorridos se responsabilizam pela distribuição interna dos recursos. Foi isso o que disse, com todas as letras, o então deputado Roberto Jefferson, em sua denúncia original: retivera e não repassara R$ 4 milhões que recebera do Partido dos Trabalhadores para a campanha eleitoral do Partido Trabalhista Brasileiro. Só os participantes conhecem em pormenor como são negociados e levados adiante esses compromissos, mas alegar desconhecimento de que assim são as eleições no país, em todos os níveis e há vários anos, só interessa a quem deseja omitir a responsabilidade do Legislativo e do Superior Tribunal Eleitoral na criação dos incentivos que antecederam a criação do mais espantoso mercado de marquetagem eleitoral em países de economia média e transformaram cada segundo de televisão em ativo negociável.

Em todo processo longo, complexo e invisível, são muitas as oportunidades para infrações de toda ordem. Envolvendo, por necessidade operacional, enorme cadeia de personagens, a execução dos compromissos de caixa 2 devem vir propiciando roubos e outros crimes, em todas as eleições pós 1988, em todos os estados, em todos os níveis, envolvendo todos os partidos, à exceção, talvez, de alguns poucos principistas, o PSTU, por exemplo, que não participam de coligações e tampouco elegem representantes. O Supremo Tribunal Federal julgará soberanamente a Ação Penal 470, mas ficarei espantado se algum ministro manifestar surpresa diante dos autos. Todos conhecem o que está fora deles.

Wanderley Guilherme dos Santos é professor titular (aposentado) de teoria política do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ

27/07/2012 - 09:48h Eleições locais com impacto nacional

Por Alberto Carlos Almeida | Para o Valor, de São Paulo

Eleições municipais são regidas por questões municipais. Todavia, é comum vermos discussões sobre o grau de nacionalização de uma eleição municipal. No momento, não são poucos os analistas que afirmam que a eleição em São Paulo será uma disputa nacionalizada. Afirmações dessa natureza desconsideram inteiramente o que leva o eleitor médio a escolher seu candidato.

Na grande maioria dos municípios brasileiros, agora em 2012 e também na eleição municipal passada, o principal problema que o eleitor deseja ver resolvido (se é que isso é possível) é o atendimento da saúde pública. A decisão do voto é bastante simples. O eleitor vai avaliar qual dos candidatos transmite maior credibilidade para melhorar a situação do atendimento de saúde.

Quando se coloca uma lupa na saúde pública brasileira, perguntando diretamente ao usuário o que é preciso melhorar, a resposta é clara e unânime: tempo de espera de consultas e exames. A verbalização dessa demanda vem associada à palavra “dignidade”. É muito comum que as pessoas esperem pelo menos três meses para serem recebidas por um médico especialista. Eu mesmo tive a oportunidade de constatar que o tempo de espera para uma consulta com um cardiologista ou oftalmologista em vários municípios brasileiros atingia a marca de nove meses.

No caso de uma consulta com um cardiologista, não são poucas as situações nas quais a longa espera resulta em morte. Com um oftalmologista, a longa espera pode resultar em cegueira ou na simples humilhação de, para aqueles que são atingidos pelo mal da vista cansada, passar quase um ano sem ter condições de ler. Depois da consulta, há uma nova e igualmente longa espera pelo exame. Todo esse processo pode levar, facilmente, mais de um ano. É exatamente por isso que as emergências dos hospitais públicos estão lotadas. Como as pessoas não conseguem ser recebidas por um médico em uma ou duas semanas, elas vão para as emergências, que têm que atender naquele mesmo dia.

É uma experiência antropológica, para dizer o melhor, conversar com alguém que esteja em uma fila de atendimento de um posto de saúde da rede pública. A grande maioria das pessoas, na maior parte dos municípios, está há muitas horas na fila, esperando por atendimento. Chegam de madrugada, antes de a unidade de saúde abrir, para que fiquem no início da fila. Chegar nesse horário não significa ser atendido antes da hora do almoço. A percepção do usuário, com razão, é de um serviço que o humilha, que o trata sem dignidade alguma.

Clique com o botão direito do mouse sobre a imagem para ampliar

Há uma enorme proporção de prefeitos que são médicos. Disputar e vencer uma eleição municipal a partir da atividade médica é muito comum no Brasil. Por exemplo, na eleição de 2000 no segundo mais populoso município do Estado do Rio de Janeiro, São Gonçalo, o candidato vencedor, que era médico, teve um lema de campanha tão genial quanto simples: “Chame o doutor”. Não é preciso um lema tão eloquente para vencer. O médico que transmitir credibilidade na promessa de melhoria do tempo de espera para consultas e exames acaba tendo um bom desempenho eleitoral que muitas vezes é coroado com a vitória.

Não vai ser diferente em 2012. Eleições tão importantes quanto as de São Paulo, Belo Horizonte e Recife serão decididas por questões exclusivamente municipais. Saúde será a mais importante, acompanhada de outras questões, como pavimentação e saneamento. Há uma agenda local no Brasil que envolve também fazer com que todos os brasileiros vivam em ruas pavimentadas. O atendimento dessa demanda está em andamento.

Prometer resolver os maiores problemas do município e fazer isso com credibilidade é o que assegura a vitória eleitoral. O eleitor não é bobo, vota em quem resolver o problema dele, alguém que resolva um ou dois problemas, desde que sejam os principais, já está de bom tamanho. É preciso prometer com credibilidade e é agora que entram vários elementos importantíssimos da comunicação política. Um candidato do PT ou do PSDB tem mais credibilidade para prometer tais melhorias do que candidatos de partidos nanicos. O eleitor considera que estes não têm apoio político suficiente para cumprir o que prometem.

Um candidato que tenha uma boa articulação política com o governo estadual e federal também tem mais credibilidade para cumprir suas promessas do que alguém que seja de oposição a ambos. O eleitor acredita que a união dos três níveis de governo acaba resultando em mais recursos para o município. Um prefeito bem avaliado tem mais condições de dar credibilidade a suas propostas de melhorias para o futuro do que um prefeito mal avaliado. A lista de atributos para transmitir credibilidade é longa e as campanhas se utilizam dela da melhor maneira possível.

O resultado final das eleições em São Paulo, Belo Horizonte e Recife estará relacionado a tudo o que foi dito anteriormente. As três eleições, como qualquer eleição em qualquer município brasileiro, serão regidas pelos problemas mais imediatos que afetam o eleitor, serão eleições inteiramente locais. Contudo, os resultados terão impacto na política nacional.

O PT é o único partido que disputa as três eleições. Em cada uma delas enfrenta uma ambição política diferente. Em São Paulo, enfrenta a eterna candidatura a presidente de Serra, em Belo Horizonte enfrenta a candidatura de Aécio pelo PSDB e em Recife enfrenta Eduardo Campos do PSB e seus competentes passos rumo a uma disputa nacional em, pelo menos, 2018. Se o PT vencer nas três cidades, será o grande vitorioso de 2012, porque prejudicará esses três líderes políticos.

A outra situação extrema é a derrota dos candidatos petistas nas três cidades. Isso resultaria no fortalecimento do projeto conjunto de Serra, Kassab e Eduardo Campos e também da candidatura de Aécio pelo PSDB. Não é algo fora de cogitação a aliança entre Kassab e Eduardo Campos em 2018. Serra seria útil para os dois porque poderia ser candidato a presidente em 2014, ajudando a montar palanques fortes em todos os Estados, além de prejudicar as pretensões de Aécio como único candidato de oposição. Esse cenário é ruim para o PT porque aumenta a incerteza ao fortalecer os projetos não petistas em suas diferentes versões.

Entre os dois cenários extremos há uma miríade de variações. Vencendo somente em São Paulo, o PT acabaria de sepultar politicamente Serra e traria Kassab em definitivo para os braços de Dilma. Aécio ficaria como candidato único da oposição em 2014 e Eduardo Campos ficaria fortalecido para continuar tocando seu projeto presidencial de 2018. Vencendo somente em Belo Horizonte, o PT prejudicaria Aécio e fortaleceria a aliança Serra, Kassab, Eduardo Campos. Vencendo somente em Recife, travaria temporariamente o entusiasmo e a eficácia política da movimentação de Campos.

Há ainda as três possibilidades de duas vitórias do PT: São Paulo e Belo Horizonte, São Paulo e Recife ou Belo Horizonte e Recife. No primeiro caso, Kassab ficaria em definitivo próximo do PT e Aécio seria temporariamente prejudicado quanto às expectativas do mundo político acerca de sua efetividade como candidato de oposição. Temporariamente, porque em 2013 o principal líder tucano poderia se recuperar desse eventual resultado eleitoral, colocando-se com clareza como o principal projeto de oposição. Ou seja, a pressão sobre Aécio aumentaria no que tange a fazer oposição. Isso seria mais facilmente atendido por Aécio em função da crescente proximidade de 2014.

Caso o PT vença apenas em Recife e Belo Horizonte, o principal vencedor da eleição terá sido Serra. Opa, o pseudo-líder tucano terá pela frente uma campanha dura em vários aspectos, inclusive no que diz respeito aos concorrentes dentro de sua faixa eleitoral. O PT perder em São Paulo não significa necessariamente vitória de Serra. Chalita é um candidato bom de televisão, que pode surpreender. O simples fato de Celso Russomano estar colado em Serra nas pesquisas de intenção de voto mostra a dificuldade que Serra tem. Ainda assim, pode ocorrer a vitória isolada de Serra nas três cidades-chave desta eleição. Isso criaria uma situação politicamente esdrúxula: o prefeito da capital no mesmo PSDB do governador, mas ambos em campos políticos totalmente opostos. Serra aliado preferencial de Kassab, mas Kassab agindo para estar cada vez mais próximo do governo federal. Aécio com controle nacional do PSDB, mas Serra com uma máquina política formidável em suas mãos, para prejudicar no que for possível as pretensões de Aécio. É isso que ocorre quando figuras politicamente mortas acabam tendo uma sobrevida artificial.

Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de “A Cabeça do Brasileiro” e “O Dedo na Ferida: Menos Imposto, Mais Consumo”. E-mail: Alberto.almeida@institutoanalise.com

www.twitter.com/albertocalmeida

13/02/2012 - 09:36h Uma questão de números

Merval Pereira – O GLOBO

12.2.2012

A disputa pelo controle político da nova classe C, explicitada pela preocupação do ministro Gilberto Carvalho de não a deixar “à mercê” de influências conservadoras, tem razões quase matemáticas: cerca de 39,6 milhões ingressaram nas fileiras da chamada nova classe média entre 2003 e 2011, número que vira 59,8 milhões se contarmos desde 1993.

Ela já corresponde, desde o ano passado, a 55,05% da população brasileira, ou seja, 100,5 milhões de brasileiros têm hoje renda entre R$ 1.200 e até R$ 5.174 mensais.

Para o economista da Fundação Getulio Vargas no Rio Marcelo Neri, isso significa que a nova classe média brasileira não só inclui o eleitor mediano, aquele que decide o segundo turno de uma eleição, mas também que ela poderia sozinha decidir um pleito eleitoral.

Complementarmente, a nova classe média é a classe também dominante do ponto de vista econômico, pois já concentrava 46,6% do poder de compra dos brasileiros em 2011, superando as classes A e B, essas com 45,6% do total do poder de compra.

As demais classes, D e E, têm hoje 7,8% do poder de compra, caindo do nível de 19,79%, de logo antes do lançamento do Plano Real.

As escolhas eleitorais serão, portanto, pela nova classe média e para a nova classe média. Para o economista da FGV do Rio, “Lula é a cara da nova classe média, FH e Dilma lembram mais a classe média mais tradicional do ponto de vista simbólico”.

Marcelo Neri ressalta que, quando as pessoas sobem na vida, começam a ter o que perder e ficam mais conservadoras. “Portanto, vai depender da capacidade do governo de manter os movimentos nos últimos anos. Não só de crescimento, mas em particular a redução de desigualdade observada desde 2001”.

Perspectiva para o futuro é um ponto especialmente forte no Brasil, Neri ressalta, lembrando que, segundo pesquisa de Felicidade Futura entre 150 países, o Brasil é tricampeão mundial.

Para o cientista político Amaury de Souza, a disputa pela classe média, sobretudo pelo voto dos evangélicos, “diz respeito aos projetos do PT que têm sido duramente criticados pelos evangélicos dentro e fora do Congresso como descriminação do aborto, união civil de homossexuais, criminalização da homofobia (nos termos do projeto de lei 122, de 2006) e o kit anti-homofobia que seria distribuído nas escolas públicas pelo Ministério da Educação”.

Vida, reprodução e morte constituem o cerne de qualquer religião, ressalta Amaury de Souza.

A aprovação maciça da operação da Polícia Militar na Cracolândia, revelada por pesquisa do Datafolha, segundo a qual a ação contou com o apoio de nada menos que 82% da população da cidade, é reflexo, na visão de Amaury de Souza, do posicionamento conservador não só da nova classe média, mas de praticamente toda a população de São Paulo e, provavelmente, do Brasil.

Mas ele ressalta que a pesquisa mostrou também que não se deve equacionar conservadorismo com repressão pura e simples.

“Os mesmos entrevistados mostram-se céticos quanto à eficácia dessa ação para acabar com o tráfico e o uso de crack e não acreditam que os usuários devam ser punidos pelo vício, sendo preferíveis medidas como a internação para tratamento, mesmo que compulsória”, ressalta.

Amaury de Souza considera difícil que a grande popularidade da presidente Dilma Rousseff possa melhorar a imagem do PT.

Para ele, o próprio PT não está isento de responsabilidade pelo desgaste de sua imagem. “Desde a eleição de Lula em 2002, o partido enceta um “aggiornamento” à socapa, abandonando posicionamentos históricos sem uma precedente autocrítica como o fez ao abraçar a ortodoxia econômica e, mais recentemente, a privatização e a punição de grevistas do setor público.”

É também de sua própria lavra, lembra o cientista político, a perda do discurso da ética pelo engajamento de seus dirigentes e políticos no mensalão.

Assim, ele acha que “é provável que o PT até sofra maior desgaste à medida que a presidente Dilma se torne mais popular”.

Já Marcelo Neri lembra que, quando as expectativas são altas, também pode ser a queda, a decepção. “As pessoas adquirem novos hábitos quando sobem na vida e são mais sensíveis às quedas do que a aumentos de níveis de vida”, avalia Neri.

A avaliação dependeria também do passado, mas não tanto do passado remoto, pois ao longo do tempo o presente se torna gradativamente passado remoto.

Seria o caso, por exemplo, dos brasileiros que não se conformam com as votações na internet que colocam Maradona à frente de Pelé como melhor jogador de futebol de todos os tempos.

“Pleitos são decididos pela experiência prática de cada um: a geração mais nova não viu Pelé jogar, mas viu ao vivo e a cores os gols do craque argentino.”

A mesma lógica valeria para a estabilização econômica de Fernando Henrique Cardoso. Como explica o economista Marcelo Neri, o Brasil foi o país com maior inflação no mundo entre 1970 e 1995, tanta inflação que, mesmo após 16 anos de estabilidade, somos o segundo em inflação acumulada desde 1970, perdendo apenas para a República do Congo.

“O fato é que o jovem brasileiro de hoje não tem na memória o pesadelo inflacionário pregresso e também não o vê como ameaça futura”, ressalta Neri.

Na redução da desigualdade de renda brasileira de 2001 a 2009, a renda per capita dos 10% mais ricos aumentou 1,5% ao ano, e a dos 10% mais pobres, 6.8% por ano.

Mais do que o “É a economia, estúpido!” da eleição dos EUA de 1992, Neri diz que o mais adequado para representar a eleição brasileira talvez seja: “É o social, companheiro!”.

Por isso o ministro Gilberto Carvalho não se cansa de repetir que o governo precisa manter o crescimento econômico para não perder o controle eleitoral desses novos emergentes.

03/04/2011 - 17:49h 1° Turno das eleições presidenciais no Peru: candidato de centro-esquerda lidera a uma semana do escrutino

O primeiro turno das eleições presidenciais no Peru acontecerão no domingo próximo. Hoje é o ultimo dia autorizado para a publicação de pesquisas eleitorais. A seguir os resultados publicados pela pagina web do jornal conservador, El Comercio

Balance de las encuestas presidenciales: mire y compare los resultados

Desde ayer se han dado a conocer los últimos sondeos antes de los comicios del 10 abril. Los cuatro estudios coinciden y ubican a Humala en primer lugar

Domingo 03 de abril de 2011 -

Peru_pesquisas_primeiroturno

Hoy vence el plazo para la publicación de sondeos de opinión y la mayoría de empresas encuestadoras ya ha dado sus resultados. La primera fue IMA, que ayer por la tarde reveló que Ollanta Humala de Gana Perú tiene el 26,1% de las preferencias y le siguen Alejandro Toledo de Perú Posible (22%), Keiko Fujimori de Fuerza 2011 (17,8%), Pedro Pablo Kuczynski de Alianza por el Gran Cambio (15,7%) y Luis Castañeda de Solidaridad Nacional (11,9%).

Esta mañana sendas encuestas, Ipsos Apoyo, CPI e Imasen, confirman esta tendencia y ubican al líder nacionalista en el primer lugar mientras que en el segundo hay un triple empate, tomando en cuenta el margen de error, entre Toledo, Fujimori Higuchi y Kuczynski.

Además, los sondeos de opinión confirman que el descenso del ex alcalde de Lima y candidato presidencial de Solidaridad Nacional, Luis Castañeda Lossio, no se detiene y se ha prolongado hasta dejarlo prácticamente sin opciones, a una semana de las elecciones.

Esta noche se dará a conocer la última encuesta antes de los comicios del 10 abril. Estará a cargo de la empresa Datum.

28/03/2011 - 11:09h Eleição indefinida no Peru

Agências internacionais – VALOR

O candidato nacionalista Ollanta Humala avançou nas pesquisas eleitorais e está em um empate técnico triplo na corrida presidencial do Peru. O quadro mostra a volatilidade dos eleitores e anuncia uma disputa acirrada entre os principais candidatos. O primeiro turno será mês que vem.

Humala, um esquerdista que moderou sua postura radical contra o livre mercado, passou a liderar a intenção de voto com 23,3%, acima do ex-presidente Alejandro Toledo, que tem 20,4%, segundo o instituto CPI, um dos mais prestigiados do país. Humala subiu 7 pontos percentuais e Toledo ficou estável em relação à pesquisa de janeiro. Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, tem 20,9%, 0,9 ponto de oscilação para cima. A margem de erro é de 2,2 pontos para cima ou para baixo. O ex-ministro da Economia Pedro Pablo Kuczynski tem 17,7%.

01/12/2010 - 15:05h PT volta a crescer na capital paulista e reforça expectativa de eleição em 2012


Presidente do Diretório Municipal do PT, Antônio Donato analisa resultado das eleições de 2010 em São Paulo e afirma que o partido volta a ter condições de disputar a hegemonia na cidade

Por Leandro Rodrigues – PT – SP

Com o resultado das eleições de 2010, o PT volta a ter condições de disputar a hegemonia na cidade São Paulo, segundo avalia o presidente do Diretório Municipal do partido, vereador Antônio Donato. Em entrevista ao portal, Donato explica que o partido seguia em curva decrescente de votação na capital desde 2004, mas que o processo foi revertido neste ano com a ampliação do eleitorado e os 46,4% (2.961.897) de votos paulistanos em Dilma Rousseff. “Existe a perspectiva real do PT se colocar na disputa de 2012 retomando um diálogo com os setores médios”, afirma.

“Em 2002, foi a única vez que vencemos os tucanos num confronto direto na capital. Lula teve 51% dos votos, contra 49% de Serra. O cenário era favorável, estávamos na prefeitura [com Marta Suplicy] e foi a primeira vitória de Lula como presidente”, conta Donato, que em seguida fala da queda do PT nos pleitos consecutivos: “Em 2004, Serra teve 55% e Marta 45%; em 2006, foi 54,5% para Alckmin e 45,5% para Lula; 2009 tivemos 60,5% para o Kassab e 39,5% para Marta. Ou seja, a gente veio de 51% e fomos para esses 39,5%. Mas revertemos esse quadro neste ano, saímos dessa curva decrescente e voltamos aos 46,5%”.

Donato explica que o reflexo do Governo Lula fez com que o eleitorado do PT aumentasse entre a população mais carente da cidade e, em contrapartida, encontrasse mais resistência nas regiões mais abastadas. “Isso é apenas uma questão ideológica. Historicamente, um partido de esquerda vai sempre ter essa resistência num determinado setor da sociedade. Eles, que enxergam o PT como o partido que de alguma forma enfrenta seus interesses, são minoritários, porém, bem articulados e podem irradiar sua ideologia por toda a cidade”, alerta o petista.

Mas o vereador também ressalta que o êxito de Lula foi fundamental para a reaproximação entre o PT e os setores médios da capital. “O Governo Lula permite que esses setores voltem a ter uma disposição de conversar e de votar na gente, mas é evidente que teremos que aprofundar isso do ponto de vista político. Para 2012, é necessária a construção de um programa que dialogue efetivamente com os setores médios, valorizando questões como transito, segurança e carga tributária”, disse Donato.

Dilma venceu Lula

Durante a conversa com a reportagem do PT-SP, que ocorreu nesta terça-feira (30) em seu gabinete, Antônio Donato observa que Dilma obteve mais votos do que Lula em várias regiões. “Por exemplo, em 2002, a maior votação de Lula em São Paulo foi em São Mateus, com 67%. Já em 2010, o melhor resultado de Dilma foi em Parelheiros, com mais de 75%”.

O dirigente credita esse fenômeno à mudança de critério na reflexão para a escolha, que antes era pautada na personalidade política de Lula e agora passa a ser a personificação do projeto e o modo de governar petista. “Nesta eleição, o voto em São Paulo foi de adesão política a um projeto muito claro. Então, quando você tem um setor que vota na Dilma, ele está aderindo ao projeto de governo iniciado pelo presidente Lula. É a aprovação do governo dele”, conclui.

07/11/2010 - 10:11h Entre mais pobres, Dilma teve 26 pontos de folga

Daniel Bramatti, José Roberto de Toledo – O Estado de S.Paulo

Na votação do último domingo, a petista Dilma Rousseff teve 26 pontos de vantagem sobre o tucano José Serra no eleitorado mais pobre, com renda de até um salário mínimo.
Dilma também venceu por larga margem entre os eleitores católicos, mas praticamente empatou com o adversário entre os evangélicos.
Esses e outros detalhes do capítulo final da história da campanha presidencial de 2010 só podem ser conhecidos porque o Ibope, além de sua tradicional pesquisa de boca de urna, realizou no dia da votação uma segunda sondagem domiciliar, com 3.010 eleitores, perguntando não apenas seu voto, mas também, sua renda, religião, escolaridade e cor.

Os números mostram que houve empate – ou vantagem mínima para um dos lados – nos segmentos de mais alta renda e escolaridade.
A diferença pró-Dilma se deve ao comportamento dos mais pobres. Na faixa de renda familiar que vai até dois salários mínimos, a candidata do presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve quase 10 milhões de votos a mais que Serra – mais de 80% da vantagem total que abriu sobre o tucano, de aproximadamente 12 milhões de votos.

Gênero. Dilma venceu entre mulheres e homens, mas com margem maior entre eles do que entre elas. No segmento masculino, a petista teve cerca de 8,6 milhões de votos a mais que o adversário, segundo projeção feita a partir de dados do Ibope. Já as eleitoras deram 3,4 milhões de votos de vantagem à primeira mulher eleita para governar o Brasil.

Em um segundo turno marcado por discussões de fundo religioso, eleitores de diferentes orientações mostraram comportamentos distintos nas urnas.

Os católicos preferiram Dilma por um placar de 58% a 42%. Já entre os evangélicos a pesquisa apontou um resultado de 52% para a petista e 48% para o tucano – como os números estão no limite da margem de erro, não é possível saber quem ganhou, apenas que o vencedor teve margem bastante apertada.

A segmentação do eleitorado por cor indica um placar muito próximo entre os eleitores que se denominam brancos: 52% para Dilma e 48% para Serra. Entre negros, a petista venceu por 30 pontos de vantagem (65% a 35%), e entre pardos, por 20 (60% a 40%).

05/11/2010 - 12:39h Um país em transição

Capa: Mesa-redonda com Brasilio Sallum, Lourdes Sola, Renato Janine Ribeiro e Vladimir Safatle discute os desafios da presidente.

Ana Paula Paiva/Valor

Vladimir Safatle, Renato Janine Ribeiro, Lourdes Sola e Brasílio Sallum, durante mesa-redonda realizada na segunda-feira na sede do “Valor”, em São Paulo


Por Diego Viana e Robinson Borges | VALOR

De São Paulo

Depois de uma campanha tensa, marcada mais pela agressividade que pelas propostas, começa o período de transição para o novo governo. A presidente eleita, Dilma Rousseff, vai encontrar pela frente desafios sérios e problemas antigos. Para cumprir a promessa de manter o crescimento acelerado e a forte redução da miséria, será obrigada a atacar as barreiras que conseguiram segurar seus dois antecessores, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.

O Valor convidou quatro professores da Universidade de São Paulo (USP) para debater o novo momento político que se abre no país. A mesa-redonda contou com os filósofos Renato Janine Ribeiro e

Vladimir Safatle e os cientistas políticos Lourdes Sola e Brasilio Sallum. Os quatro, que acompanharam de perto o processo eleitoral, consideram que a nova presidente terá tanta dificuldade para aprovar reformas estruturais quanto seus antecessores. Mesmo a maioria considerável de sua coalizão nas duas casas do Congresso não garantem o sucesso em temas mais delicados, como a reforma tributária e a reforma política, em virtude do caráter heterogêneo dos partidos que a sustentam.

Por outro lado, uma influência excessiva, seja de Lula ou de Michel Temer, no governo foi considerada como algo pouco provável. Apesar da força com que o PMDB entra na futura gestão e apesar da força do presidente sobre sua sucessora e seu partido, o poder de decisão caberá, na avaliação dos intelectuais, à presidente eleita. Seu grau de autonomia dependerá da equipe que consiga montar e do desempenho da economia nos primeiros momentos do novo governo.

Leia, a seguir, trechos editados do debate que ocorreu no fim da tarde de segunda-feira, ao longo de 3h30, na sede do Valor, em São Paulo.

Novo governo

Vladimir Safatle: O governo Dilma tem um conjunto de condições favoráveis, como a maioria na Câmara e no Senado. Além disso, Dilma terá um país que cresce a 7% e não tem oposição à esquerda. As possibilidades que tem de governar bem são reais.

Lourdes Sola: No Brasil não se governa sem dois eixos: o parlamentar e o federativo. Do ponto de vista parlamentar, o desafio de Dilma será manter uma base bastante heterogênea. Dependendo dos recursos e do desempenho da economia – que deve ser não de 7%, mas de 5% -, a margem de manobra é alta. A questão que está em aberto é como ficará o eixo federativo. Falo de Estados poderosos, com orçamentos poderosos. Como isso vai se delinear? Não dá para dizer.

Ana Paula Paiva/Valor

“O fato de Dilma ser a presidente tem peso grande, por mais que Michel Temer seja um fiador do governo no Congresso”, diz Renato Janine Ribeiro”

Brasilio Sallum: A conversão da maioria eleitoral em coalizão de governo vai ser problemática. Quando Lula foi incorporando esses partidos, ele o fez de cima para baixo, cedendo cargos e verbas orçamentárias. Mas ele o fez a partir da condição de já presidente. Estendeu a mão para tal e tal grupo para conseguir a maioria no Congresso. Agora a situação é diferente. Partidos vitoriosos, como o PSB, que, como vitoriosos, vão negociar com a nova presidente. E Dilma, embora tenha a legitimidade de ter sido eleita, não tem tradição de liderança nem sobre seu partido. Não se trata só de distribuir cargos entre aliados, mas de fazer essa distribuição conservando a capacidade de dar uma diretriz. Uma das dificuldades das coalizões heterogêneas é fazer com que a liderança perca a capacidade de dar essa diretriz. Isso produz efeitos imediatos no primeiro ano de governo, quando se pode fazer algo, como acontece em governos de quatro anos. Depois há coincidência com os períodos eleitorais.

Renato Janine Ribeiro: Discordo de que seja no primeiro ano do mandato quadrienal que as coisas devem ser feitas. Estive no governo [como diretor de avaliação da Fundação Capes] e o que vi foi diferente. Quando há alternância, não há quase o que fazer no primeiro ano. O orçamento foi votado pelo antecessor, as alianças ainda não estão solidificadas, muita gente do governo anterior continua presente. O segundo ano é eleitoral e o ano em que o governo nada de braçada é o terceiro. Com a reeleição, você tem a possibilidade de que, em tese, o segundo mandato inteiro seja mais tranquilo nesse sentido. Neste caso, o governo Dilma é de continuidade, quadros do governo Lula vão ficar. Além disso, ao longo desses oito anos, passamos a ter quadros de centro-esquerda aptos a gerir o Estado brasileiro. Antes tínhamos quadros basicamente de direita e centro-direita. Agora temos condições, qualquer que seja o partido vencedor, de ter quadros gestores qualificados. Isso é uma novidade no Brasil e muda a configuração do exercício do poder.

Lourdes: Lula teve aquilo que é característico do governo que começa: transformar coalizão eleitoral em coalizão de governo que dê estabilidade a ele e a seu projeto. Todo governo que começa tem de fazer isso e é quando entra a liderança. No caso em pauta, é o contrário: uma coalizão governamental que foi montada para ser coalizão eleitoral. Não deixa de ser heterogênea. A capacidade de liderar de Dilma e de seus auxiliares terá de se manifestar para manter a coesão desse eixo parlamentar. Outra dúvida é a relação entre o governo e o PT. Sempre foi clara a relação de Lula com o partido, por conta de sua história e sua relação carismática.

Janine: Tivemos a sorte de ter duas pessoas [Fernando Henrique e Lula] que puderam fazer uma série de mudanças no Brasil com grande apoio e vamos ter uma pessoa de perfil mais baixo, que vai ter de negociar mais. Mas o normal da política é esse. Estamos diante de uma nova presidente que é uma pessoa normal. Não podemos esperar dela o que podíamos esperar de seus dois antecessores. Que ela toque bem seus dossiês, cuide bem das coisas, sim. Ela tem uma vantagem, a maioria ampla que Lula nunca teve, mas por outro lado a personalidade dela não é tão forte quanto a dele. Uma coisa pode equilibrar a outra. Líderes são personagens raros mundo afora. A França, desde o fim da Primeira Guerra, com [George] Clemenceau, teve dois líderes: [Charles] de Gaulle e [François] Mitterrand. O resto é gente normal. O atual presidente é normalíssimo, normal para baixo.

Safatle: A coalizão de Dilma é menos heterodoxa do que a de Lula, se pensarmos que ela pode fazer funcionar o governo com cinco partidos, tendo com quatro deles afinidade ideológica: PT, PC do B, PSB e PDT. O quinto é o PMDB. Tudo bem que o PMDB nunca vai como um bloco, mas podemos ver que a coalizão é muito mais homogênea do que parece. Ela não é tão dependente quanto era o Lula desses partidos menores, PP, PR etc., que são muito fora do universo normal do PT.

Janine: Quando FHC foi eleito, Maria da Conceição Tavares disse que dificilmente ele poderia passar a perna em ACM [Antonio Carlos Magalhães]. Durante dois anos pareceu que ACM tinha todo o peso. Aos poucos, ele e seu partido, o PFL, foram tendo seu peso reduzido. O fato de Dilma ser a presidente tem peso grande, por mais que Michel Temer [PMDB] seja um fiador do poder do governo no Congresso. No fim das contas, quem tem o poder presidencial é Dilma. Por outro lado, não temos uma liderança como Lula ou FHC para enfrentar o Congresso. Dilma se beneficia de uma maioria mais ampla, mas se prejudica por não ter o mesmo carisma ou habilidade discursiva. A situação não vai se definir no primeiro ano. E entra no paradoxo do PMDB, que é um partido como nenhum outro no mundo, com bancada grande, geralmente a maior do Congresso, e reúne tudo o que há em política. Trata-se de um partido que nunca vai junto todinho, sempre tem um segmento na oposição e uma maioria no governo.

Oposição

Ruy Baron/Valor

Dilma Rousseff, em Brasília, em seu primeiro discurso depois da vitória, com 55,7 milhões de votos


Sallum: As oposições se comportaram de maneira tradicional nos últimos oito anos. Identificou política com “Diário Oficial”, isto é, governa quem administra. A política fica para o período eleitoral. Já a situação fez o que deve ser feito: política o tempo inteiro. Lula moldou as expectativas do eleitorado, por meio da capacidade que tem de pautar a opinião pública. Isso foi algo importante. Lula não tem 80% de popularidade apenas porque as pessoas estão numa situação econômica melhor. Elas foram pautadas para não ver defeitos. Bordões como o “nunca antes” são mecanismos de produção de cenário político, como qualquer político tenta fazer. A oposição não fez isso, não se comportou como o PT se comportava antes, produzindo a própria pauta. A oposição deixou essa disputa para o período eleitoral. Você não acredita que está tudo bem, mas de repente muda de ideia porque os candidatos o dizem. Isso produziu incerteza no marketing do Serra. Como ele vai se opor a uma situação em que parece que está tudo bem? A oposição produziu uma boa parte da sua derrota.

Janine: Vi diversas manifestações de opositores, como o próprio Fernando Henrique ou o [senador] Arthur Virgílio [PSDB-AM], batendo o tempo inteiro em Lula e em seu governo. O que você quer dizer é que fazer oposição é algo mais sofisticado?

Sallum: Estou falando de estabelecer uma pauta para a discussão política, produzir na mente da população uma forma diferente de fazer pensar o país, disputar espaço simbólico.

Janine: A imprensa, por exemplo, não tentou produzir essa forma de pensar, com os ataques constantes ao governo?

Sallum: A oposição pontual, como foi feita, não tem sentido. Entendo por oposição aquilo que o PT fazia: disputar o tempo todo a pauta simbólica. Sem isso, a Presidência da República, seja quem for que a ocupe, domina demais a agenda do debate político.

Safatle: Essa questão não seria também uma dificuldade produzida pelo governo Lula? Ele conseguiu em grande medida ser o governo e a oposição, monopolizava a pauta do que seria uma oposição conservadora e a da esquerda também.

Valor: Seria a oposição pela oposição?

Lourdes: Não. Se houver projeto e coerência para discutir e propor, pode-se fazer oposição. Senão, não se faz. O que tivemos foram respostas reativas, que podiam ser mais ou menos agressivas, mas eram só isso. Isso aconteceu a partir do momento em que se perdeu um horizonte comum para as reformas, como havia no caso da tributária e da previdenciária, com negociações, ao menos em torno do ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços]. Não se chega a acordo em grande medida porque o país é desigual do ponto de vista federativo. Também contesto a ideia de que Aécio é inteiramente conciliador. No início da campanha, quando era preciso fazer discurso radical, ele foi mais radical do que Serra.

Janine: Aécio é a incógnita da política brasileira. Não temos como saber o que representa.

Lourdes: É por isso que precisamos da concorrência interna. Viva a concorrência interna.

Safatle: No segundo mandato de Lula, a oposição ficou desnorteada porque perdeu espaço. O governo Lula ocupou todos. Foi, no fundo, uma espécie de Mata-Hari do capitalismo global. Um agente duplo. Não há nenhum líder global que consiga ser aplaudido em Davos e no Fórum Social Mundial. Essa capacidade que ele tem de jogar em todos os campos é única. Não conheço nenhum presidente que depois de oito anos de mandato consiga ir à porta da fábrica da Mercedes-Benz às 5h30 e seja aplaudido. A capacidade de Lula foi caminhar de um lado a outro da sociedade brasileira oferecendo alguma coisa para os dois polos. Não era só reconhecimento simbólico. Era um dado efetivo de verificação da mudança das condições de vida. Talvez não haja mais espaço para isso no Brasil, mas em todo caso desarticulou qualquer possibilidade de ter uma oposição com discurso, com visão de partido. Porque Lula conseguiu oferecer as duas visões ao mesmo tempo, a visão de país que o governo fornecia e a que a oposição deveria oferecer.

Valor: Como vai ser isso agora?

Safatle: É a grande incógnita. Lula conseguiu transpor todos os conflitos sociais para dentro do Estado. O conflito entre a reforma agrária e o agronegócio tornou-se um conflito entre o Ministério da Agricultura e o Ministério do Desenvolvimento Agrário. O conflito entre os defensores dos direitos humanos e as viúvas da ditadura militar tornou-se um conflito entre a Secretaria dos Direitos Humanos e o Ministério da Defesa. O conflito entre os desenvolvimentistas e os monetaristas tornou-se conflito entre o Ministério da Fazenda e o Banco Central. Isso desnorteou a oposição. Como ser contra o governo? O governo já era contra si mesmo. O que se podia fazer seria tomar partido por um dos lados do governo. É um terremoto.

Liderança e sucessão

Ana Paula Paiva/Valor
“Liderança pressupõe dotação de recursos simbólicos. Não tenho elementos para considerar que Dilma a tenha”, afirma Lourdes Sola”


Lourdes: Liderança pressupõe dotação de recursos simbólicos. Não tenho dúvida do peso simbólico de Lula, que levou a uma deferência para com ele, inclusive na oposição. Não é apenas por cálculo político e eleitoral que a oposição evitou hostilizá-lo. Não tenho elementos para considerar que Dilma tenha essa dotação. Acho que não tem. Talvez isso não seja tão problemático, considerando a assessoria qualificada que tem, passando por Luiz Dulci e Antonio Palocci. Mas temos que perguntar quem vai mandar. Essas transições têm acordos implícitos, que não vemos. Quem vai mandar depende do acordo que houve entre Dilma e Lula. Se existe um horizonte imaginado em 2014 para Lula ou quem quer que seja. E nesse caso o grau de independência e autonomia é variável. Nos próximos dois ou três meses, teremos imprevisibilidades, não das regras democráticas, mas da conjuntura, que é contingente, mas pode definir alinhamentos e lealdade.

Janine: Essa eleição parece ter esgotado o estoque de candidatos com que lidávamos havia um quarto de século. Lula foi candidato a presidente por todo esse tempo. Serra é um nome cogitado para a Presidência desde o fim dos anos 80. O PT terá em 2014 como candidata natural a presidente eleita. Se não puder ser candidata, se o PT estiver numa crise, vão forçar uma nova candidatura do Lula. Não creio que seja o plano A, mas o plano B pode ser. Para o PT, a data para a qual ele precisa ter um candidato presidencial é 2018. Para o PSDB, é 2014. As declarações de Serra no domingo deixaram claro que ele pretende ser candidato de novo. Diz que o eleitorado não o quis “agora”. Usou metáforas que me assustaram, como “cavar trincheiras”, “construir uma fortaleza”, demonstrando disposição quase guerreira em relação à política, ao contrário da mensagem de Aécio e da mão estendida no discurso da Dilma. O fato de não ter saudado o Aécio na declaração dele me pareceu espantoso. O PT parece ter déficit de nomes para o futuro e o PSDB tem, neste momento, superávit preocupante, com dois nomes que, se entrarem em disputa, vão sangrar o partido. Se houver disputa entre os dois, o risco de o partido rachar e perder a competitividade é grande.

Carregando…Lourdes: Essa situação de ter dois, três candidatos dentro do PSDB, dependendo de como o partido se reestruture, pode ser saudável. Não aposto que venha a ser Serra o próximo candidato. O que se diz na hora de um discurso é uma coisa, mas o que vai acontecer depende da dinâmica interna do partido e da capacidade de reestruturação de uma certa liderança. Mas vejo com excelentes olhos a disputa interna e melhores olhos ainda a possibilidade de que desloque o eixo federativo para outros Estados. Pode até emergir outra liderança, não a vejo no momento, mas pode surgir, com um poder intergeneracional maior. Vai depender de muitos fatores, inclusive da eventual reforma política, que está no horizonte do próximo governo. Nossos partidos precisam dessa disputa interna e é uma das minhas críticas ao PSDB, essa falta de fazer a disputa interna abertamente. Muito provavelmente o Serra ganharia, mas a legitimidade seria de outra ordem. Da mesma maneira como, no episódio da reeleição, o plebiscito faltou. Não haveria argumentos sobre manipulação da votação.

Janine: No PSDB, pode haver um conflito entre eleitos e não eleitos. Observe-se que os mais radicais não foram eleitos: Tasso Jereissati [CE], Arthur Virgílio [AM], o próprio Serra. Precisamos ver como vão se reacomodar. Em princípio, os eleitos deveriam ter mais peso, mas isso não é óbvio. Como se dá essa passagem de geração? Uma geração culmina e termina. A partir de agora, teremos uma geração chegando aos grandes cargos que não passou pela luta contra a ditadura. No caso do PT, o que parece é o seguinte: candidatos à Presidência são em geral governadores bem-sucedidos ou ministros bem-sucedidos. Hoje o PT tem dois governadores de destaque, talvez pudéssemos agregar ex-governadores, como Jorge Viana [AC], mas que é de um Estado pequeno, mas tem o Tarso Genro [RS] e o Jacques Wagner [BA], que em 2018 estarão com idade avançada. Talvez o melhor jogo para o PT seja tentar habilitar ministros da nova gestão a serem competitivos. Lula foi um líder carismático a tal ponto que pôde apontar no dedaço a sua sucessora. Mas é improvável que isso suceda de novo em 2018. Toda uma geração que se formou na luta contra a ditadura está passando o bastão. A Dilma, que se formou na luta contra a ditadura, só foi disputar uma eleição muito depois do fim da ditadura.

Eleições 2010

Lourdes: Vejo um esgotamento do modo de competição que houve até agora no Brasil. A relação com o marqueteiro e com o pesquisador e o consultor político. Em 2002, primeira candidatura Serra. Assisti a cenas em que marqueteiros importantes do PSDB vinham dizer que não se podia apresentar Fernando Henrique, visto como elite pelo eleitor. Isso é o inverso da atividade política. No mesmo momento, o PT fazia pesquisas políticas e, muito corretamente, para interferir e mudar o éthos e o páthos do eleitor. As pesquisas qualitativas indicavam preconceito das mulheres para com o Lula. Duda Mendonça alterou o padrão da campanha para atrair as mulheres. No PSDB houve o contrário. O marqueteiro-mor vinha avisar que não era possível usar FHC, tinham de escondê-lo, em vez de fazer da pesquisa um lugar de conhecimento para interferir. Isso é uma fraqueza. O marketing está se esgotando do ponto de vista do “só emocional” e o debate como tem sido feito. Ninguém mais aguenta isso. Há outros mecanismos de competição eleitoral, diferentes da submissão ao marqueteiro.

Sallum: Estas eleições não foram críticas. Não estavam em jogo visões radicalmente distintas de relação entre o Estado e a sociedade. Em 1989 era assim, Collor e Lula tinham projetos distintos, e em 1994 a questão era o Plano Real ou não. Agora, não. Foram eleições regulares, em que houve diferenças entre as coalizões, mas não grandes diferenças estratégicas em jogo. Ou seja, vivemos no Brasil uma forma de Estado verdadeiramente estável, que está fundado em dois pilares: a Constituição de 1988 e o Plano Real, com as reformas que se seguiram imediatamente. Com esses dois pilares, a forma do Estado que temos é estável, tanto do ponto de vista da economia, em que é moderadamente liberal, quanto da democracia. Havia coisas em jogo nesta eleição diferentes: formas distintas de combinação dos três ideários básicos que disputam o predomínio desde os 1990 até agora na vida política nacional.

Valor: Quais são?

Carregando…Sallum: Primeiro, o ideário neoliberal, que é cadente; depois um ideário que denomino “liberal-desenvolvimentista”, preocupado em reciclar o desenvolvimentismo em período de globalização, poderíamos chamar também de desenvolvimentismo de integração competitiva, como se dizia nos anos 1980; e um terceiro ideário, que poderíamos chamar de estatal-distributivista. Esses três ideários marcaram todos os governos dos anos 90 para cá. O Serra, basicamente, está marcado pelo liberal-desenvolvimentista. É um desenvolvimentista reciclado pelo mundo da globalização, mas o predomínio de uma vertente não significa que as outras estejam ausentes. No governo Lula, por exemplo, o Banco Central está totalmente dominado por uma perspectiva neoliberal. O BNDES é marcado pelo liberal-desenvolvimentismo, como ocorreu no governo FHC. Mas essas orientações têm de conviver com um impulso distributivo que é forte, porque vem da extraordinária desigualdade que existe no país e das forças sociais que buscam mudá-la.

Safatle: A candidatura Serra, durante todo o primeiro turno, nunca empolgou eleitoralmente. Não cresceu. Começou a crescer de verdade quando o Serra resolveu flertar com setores conservadores da sociedade brasileira, ou seja, os setores mais conservadores da igreja – teve votação expressiva no chamado cinturão do agronegócio – e também com a fina flor do pensamento conservador. Isso poderia parecer uma estratégia eleitoral. De fato, mostrou uma coisa que a gente não sabia: existe um pensamento conservador forte no Brasil e esse pensamento tem voto. Pode ser mobilizado por questões relativas à modernização dos costumes. Um exemplo, ainda no governo Fernando Henrique, quando José Gregori era secretário dos Direitos Humanos, aprovaram o PNDH 2 [Programa Nacional de Direitos Humanos], em 2002. E se você for ver, por exemplo, no capítulo sobre o aborto, ele é idêntico, fora uma ou duas palavras, ao PNDH 3, que foi criticado durante a campanha eleitoral. Parece que foi um processo deliberado, problemático, que coloca questões sobre o que vai ser sua candidatura daqui para a frente. Terminou prometendo que seria contra a lei da homofobia em encontro com pastores evangélicos. Com isso, Serra destampou uma franja eleitoral que estará presente no debate nos próximos quatro anos. Esse tipo de pauta não vai desaparecer. Vai voltar em vários momentos. A primeira questão é saber como isso vai se configurar. Até porque existe uma tendência mundial de construir um pensamento conservador que tem forte densidade eleitoral. A gente vê isso nos EUA, na Europa, e vai ver no Brasil de uma maneira ou de outra.

Lourdes: Jogar fora uma das premissas dos movimentos feministas, que era a questão do aborto, é uma questão complicada. Para Dilma deve ter sido uma tensão grande. Mas era preciso jogar fora, ela teve de jogar fora. Aí é que se veem as velhas tensões entre os objetivos de poder e a questão dos princípios.

Safatle: A questão do aborto foi um dos pontos mais baixos da história recente da política brasileira. Discordo terminantemente de que tenha sido um movimento espontâneo da sociedade civil. Ao que tudo indica, e a própria imprensa investigou isso, o candidato da oposição disparou por meio da central de boatos da internet toda essa questão. Existia um acordo tácito entre os dois grandes partidos políticos brasileiros, PT e PSDB, de que essa questão não seria posta em debate, porque vem de aspectos dos mais arcaicos da sociedade brasileira, e nenhum dos partidos queria jogar isso contra o outro justamente por esse arcaísmo. Quando o papa João Paulo II veio ao Brasil, houve um desconforto porque Ruth Cardoso [ex-primeira-dama] tinha se declarado a favor da legalização do aborto. E de repente temos a mulher do candidato da oposição [Monica Serra] dizendo que Dilma é a favor de matar criancinhas!

Lourdes: Parece que ainda estamos em campanha e o lado que você representa perdeu. Eu me recuso a ficar na campanha. Você está propondo a análise de por que fomos para o segundo turno, quando já acabou o segundo e as pesquisas mostraram que o que contou não foi tanto o aborto, mas sim o caso da [ex-ministra] Erenice [Guerra].

Safatle: A professora Sola colocou de uma maneira muito boa, ao dizer que ajo como se meu lado tivesse perdido. De fato meu lado perdeu, com muita clareza. Não sou filiado ao PT nem a partido algum. Todos aqueles para quem a modernização dos costumes é fundamental no interior do desenvolvimento das sociedades democráticas perderam. Não foi simplesmente uma questão ligada ao aborto. Foi uma maneira que o pensamento conservador encontrou de pautar a agenda do debate político neste país. Mostraram que têm força, têm voto e conseguem bloquear a discussão. E agora não vão sair, vão ficar. Havia uma espécie de ilusão de que não havia espaço para um partido que conseguisse mobilizar o pensamento conservador no Brasil. Isso não é verdade, eles demonstraram que têm força. Quando Serra colocou essa questão no debate, com clareza e todas as palavras, cobrando da adversária que ela se posicionasse, ele criou uma situação que, daqui por diante, é uma questão da política brasileira e todos vão ter de se posicionar a respeito.

Janine: O que me chama a atenção é que os deputados que têm essa agenda religiosa devem ser 20%. De repente, deu-se a uma minoria um peso desproporcional. Até recentemente, a pauta dos evangélicos era, na escala municipal, não ter lei do silêncio para os templos e, na escala federal, não ter perseguição da Receita Federal contra eles. De repente, estão entrando em questões que são mais profundas para eles.

Cenário econômico

Sallum: Vivemos um período de sensação de bem-estar, porque crescemos. Ocorreram alterações institucionais no governo Lula que facilitaram a ascensão e o bem-estar social de camadas que não tinham acesso ao consumo. Uma das coisas foi uma proposta das centrais sindicais, absorvida por Palocci, para fazer empréstimos com desconto em folha. Isso ampliou muito o crédito. O ProUni [Programa Universidade para Todos] é outro tipo de canal de ascensão social. Também a estabilidade econômica, que permitiu a queda paulatina da taxa nominal de juros e o alongamento do crédito.

Lourdes: Uma das coisas boas dessa disputa eleitoral é que ela não passou pela política econômica. Na minha geração, discutir economia era discutir questões estruturais. De repente, resolvidos os problemas básicos, a estabilidade, e uma reforma parcial do Estado, a política econômica se reduziu à questão de juros, câmbio e assim por diante. Isso é fundamental, mas não define projetos. A meu ver, a economia não é assunto resolvido, e não se resolve simplesmente com índices de crescimento. Há mudanças de política econômica e algumas chances de que o tripé – elemento de continuidade entre FHC e Lula – superávit primário, câmbio flutuante, metas de inflação, que está posto, comece a ser erodido por fórmulas que visem resolver questões de conjuntura. A pergunta é: quem será o ator-chave que dará credibilidade à política econômica? Isso não está claro, sobretudo porque, para mim, seria o Palocci, sobretudo aos olhos do capital financeiro. Mas não tenho certeza, dadas as polêmicas anteriores, em que a colocação dele de um déficit nominal zero, colocação que uniria Delfim [Netto], ele e qualquer [Pedro] Malan, foi chamada de rudimentar pela Dilma.

Ana Paula Paiva/Valor

“Todos os que acreditam que a modernização dos costumes é fundamental para as sociedades perderam”, afirma Vladimir Safatle”


Sallum: Dilma vai se haver com problemas seriíssimos de dilemas entre a distribuição e o investimento, que são os focos básicos do liberal-desenvolvimentismo e do “distributivismo”, porque a orientação dela também é desenvolvimentista nesse sentido, mas a coalizão inclui centrais sindicais e movimentos sociais de forma pronunciada, que pressionarão com vigor no sentido “distributivista”, e com toda razão. Haverá tensões por esse lado do governo Dilma, e também por outro lado, da preservação ou não das políticas mantidas pelo Banco Central. Câmbio flutuante e juro como compensação de certo desequilíbrio fiscal, uma política fiscal relativamente frouxa. Vai haver tensões, porque há pressão de dentro do PT e do empresariado que sustenta a coalizão, no sentido de mudar a política de câmbio flutuante, que é oneroso, nas condições atuais, para a indústria. Foi ótimo quando foi instituído, em 1999, mas agora, dadas as novas circunstâncias, onera em demasia a produção. Esses dilemas apareceriam com Serra eleito, mas, dado o tipo de coalizão, as pressões seriam diferentes.

Lourdes: Não vamos esquecer que estamos numa conjuntura internacional particular em que os Bric estão muito bem, interessa conciliar crescimento com condições de desenvolvimento institucional. Do ponto de vista da economia, em termos microeconômicos, a competitividade do Brasil é central. É uma questão de resolver conflitos de interesse, quem você vai deixar ao relento, que setores vão ser protegidos, para reduzir o custo Brasil. Isso é fácil de administrar quando o crescimento é muito acelerado. Fora a questão da melhora da qualidade da educação e do investimento na infraestrutura.

Sallum: No interior do PT, há uma forte tendência a querer mexer no câmbio, por causa da guerra cambial etc. Mas isso certamente não é coisa fácil. Primeiro porque o mercado financeiro está todo articulado em torno desse tipo de política, segundo porque precisa saber o que vai colocar no lugar. E isso eu não sei, de fato, se o próximo governo vai ter uma equipe que faça isso. Mas, como isso é algo muito delicado do ponto de vista do manejo do mercado, vai ser muito difícil realizar. Vai haver muita vontade, mas condições político-gerenciais para isso vai ser difícil conseguir.

Reformas

Sallum: Precisamos mexer na legislação, não uma reforma política em grande escala. Primeiro, não é mais possível, se mantivermos a reeleição, que dependamos do presidente obedecer ou não à chamada liturgia do cargo. O poder concentrado no presidente no Brasil é tão grande no período eleitoral e pré-eleitoral que deveremos alterar a situação de modo que o presidente em exercício não possa participar do processo eleitoral. Não falo agora, em que isso é legal. Do ponto de vista do mínimo de equilíbrio das forças, deveríamos regular isso em lei. Também precisamos pensar a organização do voto proporcional e torná-lo mais manejável. O eleitorado se defronta, num Estado como São Paulo, com mais de mil candidatos a deputado. É como se entrássemos em um supermercado sem gôndolas, sem mapa para os produtos, que estariam misturados, não há como escolher. Deveríamos reduzir a circunscrição eleitoral, que é o Estado. Deveríamos reduzi-la, mantendo o voto proporcional, a uma situação em que cada um elegesse quatro ou cinco deputados. Isso significa que os eleitores teriam alternativas, mas não teriam tantas, que são tantas que nem sequer são alternativas. A vantagem seria aumentar a chance de termos espaço público regulado para períodos não eleitorais que pudesse funcionar para estimular o debate.

Valor: E a reforma da Previdência?

Sallum: Não há hoje, de longe, nenhuma possibilidade de reforma previdenciária. Hoje há cinco ou seis centrais sindicais na coalizão, e essas centrais têm centenas de sindicatos do setor público. Se fosse só a CUT, daria para negociar. Mas essas outras não têm a mesma abertura e têm presença no Congresso, peso na coligação. De todo jeito, há pontos importantes de agenda, como a questão tributária e política, e nesses casos Dilma precisa decidir se vai tentar mudanças que exijam maioria de dois terços ou vai se contentar com medidas legislativas que exijam maioria simples. Lula, no segundo governo, fez a opção da maioria simples, como Fernando Henrique, no segundo governo. O que ele conseguiu de legislação no segundo governo foi a LRF [Lei de Responsabilidade Fiscal], só, tudo o mais de mudança constitucional importante veio no primeiro governo, e mais, no primeiro ano. O plano de voo de Dilma vai ser anunciado no discurso da posse. E o que vai exigir do Congresso e sua coalizão? Vai ter de negociar com a oposição também, embora a oposição hoje seja muito minoritária. Mas, dado que a oposição controla dez Estados importantes, qualquer mudança na área tributária, por exemplo, vai exigir negociação com ela.

Lourdes: No caso da reforma previdenciária, Dilma pode criar um conflito de interesses grande, porque parte significativa desses interesses está absorvida no Estado, que são as centrais sindicais, majoritariamente de funcionários públicos. Uma questão que seria resolvida com o governo arbitrando. Tenho certa dose de ceticismo. O sistema político brasileiro é ótimo para resolver coisas em período de crise, mas no caso da reforma tributária é uma questão até mais delicada porque ela vai tocar no eixo federativo. E não apenas porque temos uma proporção significativa dos orçamentos estaduais controlados pela oposição, mas também porque todas as questões sociais passam pela questão federativa, inclusive a miséria. A meu ver, a não ser que tenhamos uma grande mudança e um poder ainda maior na mão do presidente, reforma tributária, que é necessária, só vai acontecer em situação de crise, e não vejo isso acontecendo imediatamente. O equilíbrio entre o parlamentar e o federativo é muito difícil. Resolve de um lado, vem problema do outro.

Sallum: São questões carregadas desde o governo FHC. A questão tributária, por exemplo, envolve custo enorme de negociação política. Disso depende a amplitude reformista do próximo governo, ao menos no que diz respeito àquilo que vai passar pelo Congresso.

Janine: O Serra dizia, realisticamente, que ele faria a reforma tributária em fatias.

Lourdes: Mesmo que fosse em fatias, sou cética. A maneira de fatiar já criaria problemas, pelo menos para o tipo de liderança que o Serra representaria e a Dilma também, por outras razões. Pode ter havido um recuo [do governo Lula] por causa do mensalão [2005], mas não me parece que, naquele momento, houvesse um projeto tão claro de reformas, de esquerda ou direita. Talvez a trabalhista, a proposta sindical, mas isso foi resolvido pela incorporação das três grandes centrais sindicais por meio de uma redistribuição das benesses do imposto sindical. E foi o momento de queda do cavalo de batalha de todo o movimento sindical conhecido como “novo sindicalismo”, que era o fim do imposto sindical. Ele foi reforçado.

Janine: A ênfase foi posta na reforma financeira e fiscal. O que acho mais viável seria, mantendo mais ou menos a fatia do PIB em que consiste a tributação, simplificar o sistema. A Previdência me parece muito difícil. A reforma política me parece importante, mas cada um entende de uma maneira diferente. [O advogado] Ruy Altenfelder, outro dia, escreveu expondo dez pontos que considera importantes, incluindo a redução do mandato do senador para quatro anos e a eleição direta dos vices e suplentes. Quando ouço falar em reforma política, penso basicamente: há uma reforma política dos leitores de jornais e eleitores que é o fim do voto obrigatório. Nenhum partido quer assumir isso, mas, quando vemos cartas de leitor de jornal, é essencial. Nos partidos principais, o tema é mudar a forma de eleição dos deputados. E talvez, com isso, permitir uma mudança do financiamento político para reduzir a corrupção. Há a proposta do voto distrital, que o Brasilio defendeu, e lembra o voto como era no Império, e funcionava. Eram três eleitos por distrito. Temos o voto proporcional com lista fechadas. Entre essas propostas, o diálogo é muito difícil.

Lourdes: Existem projetos prontos para todas essas propostas, mas eles não são adotados.

Janine: Ninguém vai aprovar isso. Seria bom se todos os partidos entrassem em acordo sobre esses dois pontos, a simplificação dos tributos e a eleição dos deputados. Teríamos grande avanço. Mas isso não se faz sem acordo. Pode haver oposição por oposição, pode ter oposição em forma de guerra, mas qualquer tema só vai avançar se houver acordo.

Sallum: Lula foi muito bem-sucedido do ponto de vista popular e de enfrentamento da crise, mas, se você pensar em termos da pauta legislativa, foi um governo de gestão. Não houve nenhum esforço legislativo, a não ser a famosa CPMF [Contribuição Provisória sobre Movimentação ou Transmissão de Valores e de Créditos e Direitos de Natureza Financeira], que afinal não era tão grave assim. Mesmo nas reformas de esquerda não houve nada relevante.

Lourdes: As forças da sociedade mais participativas politicamente foram integradas ao Estado, e isso é um desafio agora. Ao tratar as tensões que devem existir na sociedade civil, sindicatos, patrões etc., de uma forma interna ao Estado, criam-se tensões internas ao Estado e dificuldades para a governabilidade. É complicado desfazer a mudança de patamar introduzida pelo governo Lula.

Janine: A sociedade foi absorvida pelo governo Lula. Quem fez isso bem foi Getúlio [Vargas]. É um dos aspectos em que o governo Lula lembra o de Getúlio, mas de maneira muito mais democrática. As contradições sociais são trazidas para dentro do governo, e com isso perdem um pouco o rumo, de modo que à esquerda do governo nada viceja. No caso Lula-Dilma, é difícil imaginar o que vai acontecer. O lógico é que ela ande com as próprias pernas e Lula procure fazer algo discreto para contribuir. O interessante para ela é mostrar que governa sozinha. Se Lula aparecer muito, administrando conflitos no governo, Dilma ganha no varejo, mas perde no atacado. Seu poder diminui sensivelmente.

05/11/2010 - 07:42h O mal-estar com o voto universal

Maria Cristina Fernandes | VALOR

Os Estados menos desenvolvidos, os eleitores mais pobres e de baixa escolaridade lhe deram votações mais expressivas que a banda remediada da sociedade. Dilma Rousseff? Sim. Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva também.

Foi há apenas 22 anos que o Brasil universalizou o voto, com a inclusão dos analfabetos pela Constituição da Nova República. De lá para cá o país realizou 12 eleições. A cada dois anos, tem a oportunidade de se reencontrar com suas diferenças e de constatar que se os mais pobres ainda definem a eleição é porque ainda são maioria. Só deixarão de fazê-lo quando não forem mais pobres. Quando a celebração de que o voto no Morumbi vale tanto quanto aquele de Canindé dá lugar à estranheza é de nação que se carece.

Duas décadas talvez seja tempo de menos para que a igualdade de direitos seja absorvida. Particularmente num país em que só agora as filas de check-in no aeroporto começam a ficar mais parecidas com a das seções eleitorais. O que dá na vista é que essa estranheza, turbinada pela agressividade, parta precisamente de eleitores mais jovens que não conhecem outra democracia senão a do voto universal.

Direito de apenas 22 anos explica estranheza

O mal-estar foi viralizado ainda no domingo pela internet. A estudante de direito paulistana Mayara Petruso teve direito a seus momentos de fama ao tornar sua frase “Nordestisto (sic) não é gente. Faça um favor a São Paulo: mate um nordestino afogado!” uma das mais citadas no Twitter em todo o mundo. O escritório de advocacia que a tinha por estagiária rompeu o contrato e a OAB de Pernambuco pediu ao Ministério Público de São Paulo a abertura de uma ação penal por racismo e incitação à violência na rede.

Foi pela internet que se destampou a intolerância mais renhida da campanha. Mas assim como a questão do aborto ganhou uma difusão na rede que não guarda relação com seu impacto eleitoral, não há motivos para se acreditar que os sentimentos regressivos de Mayara sejam predominantes no eleitorado.

Se a arma mais eficiente contra o preconceito é a informação, os fatos que se contrapõem são cristalinos. Dilma Rousseff teria levado mesmo se os planos de extermínio de Mayara fossem bem-sucedidos. Ninguém ganha eleição sem pintar com suas cores o Sudeste, onde vivem 43% dos eleitores brasileiros, entre os quais muitos dos pobres pouco escolarizados da maioria.

Sim, José Serra ganhou em São Paulo, mas não foi por lavada. Teve uma votação 17% superior à de Dilma no Estado que o PSDB governa há 16 anos. O tucano impôs à petista em São Paulo uma vantagem inferior à de sua derrota nacional. Nenhuma delas foi acachapante. Quando mal interpretados, os mapas tingidos de azul e vermelho mostram blocos monolíticos que não existem. O Brasil que Mayara desconhece e, por consequência, discrimina, está logo ali na sua esquina.

Se a campanha foi obscurantista, a geografia do voto é transparente. Dela se depreende, por exemplo, que é o impacto de políticas de governo o que move o eleitor de maneira mais definitiva.

Tome-se, por exemplo, Marcelândia, cidade de 10,2 mil eleitores ao Norte do Mato Grosso. Em 2007 o município ocupava o primeiro lugar na lista daqueles que mais desmatavam. Foco da operação federal ‘Arco de Fogo’, Marcelândia zerou o desmatamento dois anos depois. Em 3 de outubro Marina Silva conseguiu lá 1,3% dos seus votos. O candidato do PSDB manteve seu patamar do primeiro para o segundo turno cravando 75,7% no domingo, o que colocou Marcelândia na condição de município mais serrista do país.

É também a atuação do Ibama que parece explicar a extraordinária votação de Serra no Acre (69,6%). E dificilmente a demarcação da reserva Raposa do Sol pode estar dissociada da expressiva votação do candidato tucano em Roraima (66,5%). Num Estado o PT ganhou mais um mandato e no outro, foi o PSDB que teve seu mandato no governo renovado.

Some-se aí o cinturão agrícola do Sul e Centro-Oeste que também fechou com o PSDB e é possível aquilatar as três principais insatisfações que guiaram o voto do Brasil mais serrista: atuação do governo federal na defesa do meio ambiente, a política pela preservação de povos indígenas e o nó cambial que prejudica as exportações agrícolas.

Essa trinca de motivos é mais elucidativa do dilema por que passará o PSDB do que o errático discurso do seu candidato ao reconhecer a derrota. O partido que herdou a maior fatia do voto Marina Silva estará comprometido com políticas regressivas na área ambiental? Como resolver a questão cambial sem deslocar a insatisfação da fronteira agrícola para a classe média dos centros urbanos?

Dilma Rousseff não exibe vocação para prorrogar no seu mandato uma das principais características da gestão Luiz Inácio Lula da Silva, a de trazer para dentro do governo os conflitos da sociedade. Ao absorver os embates entre as políticas monetária e industrial ou entre as diretrizes agrícola e agrária, Lula deixou a oposição desnorteada em relação aos interesses de que poderia ser porta-voz.

Esse desnorteamento submeteu a oposição a uma derrota eleitoral e política. Com uma campanha errática, destampou as convicções mais retrógradas do mercado eleitoral. Na reta final da campanha, a rejeição de Serra disparou e a de Dilma caiu. E o conjunto do seu eleitorado parecia involuntariamente manchado pelo obscurantismo barulhento de poucos.

No rescaldo das urnas, a ojeriza à campanha que passou, verbalizada pelo maior formulador do partido, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, parecia dar curso ao movimento. O serrista hoje parece tomado pela mesma vergonha que invadiu o eleitor dos aloprados petistas de 2006. A diferença é que o PT teve quatro anos de governo para renovar e dar sobrevida a um contrato puído. O PSDB terá que se provar capaz de representar interesses insatisfeitos longe do poder. Oxalá se acerque da razão.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

E-mail mcristina.fernandes@valor.com.br

03/11/2010 - 17:05h A Cor do mapa

Marcos Coimbra – Correio Braziliense

*sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Enquanto proliferam explicações e opiniões a respeito da vitória de Dilma, é preciso estar atentos aos fatos. Sem eles, ficam somente as impressões e as versões.

Algumas sequer nascem da interpretação de alguém, com a qual se pode concordar ou discordar. São as mais perigosas, pois não estão claramente marcadas com um sinal de autoria. Por não tê-lo, terminam parecendo verdades naturais, como se fossem apenas “dados de realidade”.

Tome-se o modo como a mídia costuma apresentar os resultados da eleição, sempre através de mapas. Todos os veículos os usam, colorindo os estados onde Dilma ganhou de uma cor e aqueles onde Serra se saiu melhor de outra. Não por acaso, pintam os primeiros de vermelho e os outros de azul.

Vistos sem maior reflexão, esses mapas mostram um retrato enganoso da eleição. Pior, podem induzir a uma impressão equivocada e a versões incorretas sobre a eleição que acabamos de fazer.

O que vemos é um Brasil dividido quase ao meio, ao longo de uma linha que começa no Acre, passa pela divisa norte de Rondônia, Mato Grosso e Goiás, e vai até o Atlântico, na altura do Espírito Santo. Abaixo dela, tudo fica azul, salvo o Rio de Janeiro, Minas Gerais e o pequeno Distrito Federal.

O Brasil vermelho inclui o restante do Norte (interrompido pelo azul de Roraima) e o conjunto do Nordeste. Esse seria o Brasil da Dilma, enquanto o outro, o de Serra.

É fato que Serra venceu no conjunto nos estados do Sul e em quase todos do Centro-Oeste, assim como em São Paulo e no Espírito Santo. Mas isso está longe de querer dizer muito sobre o significado da eleição.

Certamente, nada tem a ver com uma tese muito cara a alguns analistas, segundo a qual Dilma deveria sua vitória ao “Brasil atrasado” e ao eleitor miserável. Como esses mapas revelariam, o Brasil azul, o mais rico e moderno, preferia Serra. Foi o pobre e arcaico, o vermelho, que impediu que ele se tornasse presidente.

Essa visualização da eleição corrobora, assim, uma visão dualista e preconceituosa, muito frequente na mídia e em parte da opinião pública. Nela, a derrota do azul pelo vermelho viria da mistura de paternalismo e demagogia promovida por Lula e sustentada pelo Bolsa Família. Os mapas coloridos seriam a evidência de que sua estratégia foi bem sucedida, apesar de imoral.

Quem considera os números da eleição vê outra realidade. Dilma não venceu “por causa” do Nordeste e do Norte. Ela venceu porque venceu nos “dois Brasis”.

O modo mais imediato de mostrar isso é comparar o voto que ela obteria se fossemos (como alguns até desejam) dois países: o Brasil sem o Nordeste e o Norte, e o Brasil por inteiro. Nessa hipótese, como seriam os resultados?

Ao contrário do que certas pessoas imaginam, Dilma teria sido igualmente eleita se o Nordeste e o Norte não votassem. Ela não “precisou” do Brasil mais pobre para vencer.

Somando os votos do Sudeste, do Sul e do Centro-Oeste, Dilma derrotou Serra. Ou seja: o predomínio da cor azul nessas regiões é verdadeiro, mas encobre uma realidade mais importante. Serra foi bem votado nesse conjunto de estados, mas perderia assim mesmo.

É com interpretações e versões que se conta a história de uma eleição. E é necessário evitar que prevaleça, a respeito das eleições presidenciais de 2010, uma versão que reduz seu significado e que não é verdadeira.

Dilma se elegeu com o voto de pessoas de todos os tipos, desde os eleitores mais humildes do interior e das cidades pequenas, até os setores mais educados e modernos de nossa sociedade, que vivem em metrópoles ricas e avançadas. Seu desempenho, segmento por segmento do eleitorado, não foi homogêneo (como não foi o de Serra), pois em uns ela se saiu melhor que em outros. Mas isso não invalida que sua candidatura tenha sido amplamente apoiada nos estratos de educação e renda elevados, como mostravam as pesquisas.

Mapas coloridos podem ser bonitos, mas, às vezes, mais atrapalham que ajudam.

03/11/2010 - 12:52h Mapa da votação para presidente nos municípios

Veja resultados da votação para presidente no 2º turno, município a município

Infográfico O Estado SP – fonte O Estado SP

03/11/2010 - 12:46h Bolsa-família teve menos impacto na decisão de voto, mostra estudo

Em 2006 Lula obteve 2 pontos porcentuais adicionais nas cidades mais dependentes do programa. Com Dilma, esse índice caiu pela metade

Daniel Bramatti – O Estado de S.Paulo


Para ampliar, clique na imagem com o botão direito do mouse e depois em exibir

A influência do programa Bolsa-Família como fator motivador do voto diminuiu entre 2006 e 2010, segundo cálculos feitos pelo cientista político Cesar Zucco, brasileiro que leciona na Universidade Princeton, nos Estados Unidos.

Para chegar a essa conclusão, Zucco agrupou cidades com perfil socioeconômico similar, mas com diferentes níveis de cobertura pelo Bolsa-Família, e comparou seus resultados eleitorais.

Tanto em 2006 quanto em 2010, o pesquisador constatou uma correlação direta entre voto e Bolsa-Família: quanto maior o porcentual da população atendida pelo programa nos municípios, maior a probabilidade de voto no candidato do PT. Mas essa correlação mudou nos últimos quatro anos.

No segundo turno de 2006, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva concorreu à reeleição, ele teve, em municípios de perfil similar, 0,2 ponto porcentual de votos a mais para cada ponto porcentual adicional na cobertura do Bolsa-Família.

Por exemplo: comparando-se dois grupos de cidades, um com 50% da população atendida pelo programa e outro com 60%, o petista teve, em média, 2 pontos porcentuais a mais de votos no segundo grupo.

Já em 2010, esse peso caiu pela metade. Tomando como exemplo os mesmos dois grupos de cidades, a candidata Dilma Rousseff teve apenas 0,9 ponto porcentual a mais de votos no segundo grupo.

Segundo o cientista político, não há como apontar o Bolsa-Família como único ou mesmo principal fator de definição de voto em áreas pouco desenvolvidas do País. Os moradores dessas regiões podem ter optado pela candidata governista por diversos outros motivos.

De fato, pesquisas eleitorais do Ibope mostraram , durante a campanha, que Dilma liderava com larga margem sobre José Serra (PSDB) mesmo entre os brasileiros mais pobres que não recebiam o benefício do governo. E, entre os beneficiários do Bolsa-Família, uma parcela significativa (29%) se dispunha a votar no candidato tucano.

O mapa publicado ao lado mostra que Dilma venceu na maioria das cidades com cobertura do Bolsa-Família superior a 40% dos moradores (áreas em vermelho-escuro). Mas Serra também colheu resultados positivos em municípios com esse perfil (áreas em azul-escuro).

03/11/2010 - 12:36h Da fragmentação à bipolarização

Jairo Nicolau – O Estado de S.Paulo

Um cientista político americano me confessou sua surpresa quando soube que 22 partidos elegeram deputados federais nas eleições brasileiras de 2010. A surpresa foi ainda maior quando soube que o PT, partido com mais cadeiras, elegeu apenas 88 deputados (17 %). Existem países com alta dispersão partidária, como Bélgica e Israel. Mas a Câmara dos Deputados brasileira é, atualmente, a mais fragmentada do mundo democrático.

Meu interlocutor não revelou, mas um fato torna ainda mais difícil de entender o sistema partidário no País: por que, com 27 partidos registrados há cinco eleições presidenciais, apenas 2 deles, o PT e o PSDB, disputam efetivamente a Presidência? Ou dito de outra maneira: por que temos o Legislativo mais disperso do planeta, e uma disputa presidencial tão concentrada?

As eleições de 2010 acentuaram uma tendência, que começou em meados da década de 1990, de bipolarização do sistema partidário brasileiro. Em um dos polos estão o PT e seus partidos satélites (PCdoB, PSB e PDT); de outro, o PSDB e os seus satélites (DEM e PPS). Esses dois polos organizam a vida administrativa e programática do País. Lembre-se que a regra de verticalização deixou de vigorar neste ano. Apesar disso, nos principais Estados a bipolarização nacional se reproduziu como nunca.

E os outros partidos? PMDB, PTB, PR e PP fazem parte do que chamarei, na falta de nome melhor, de centro-pragmático. São partidos com baixa intensidade ideológica, que participaram dos governos dos dois polos. Além disso, são partidos que se orientam fortemente para a vida política estadual.

Para muitos analistas, o PMDB saiu como o principal partido desta eleição, pois obteve a maior bancada no Senado, a segunda na Câmara dos Deputados e ainda elegeu, pela primeira vez pelo voto direto (Sarney também pertence ao partido), o vice-presidente.

É inegável a força do PMDB, mas existem alguns sinais de que o partido vem perdendo vitalidade no sistema partidário brasileiro. O PMDB elegeu apenas cinco governadores, um único em um dos grandes Estados da Federação (Rio de Janeiro). Em São Paulo, domicílio eleitoral do vice-presidente, o partido elegeu apenas um deputado federal.

Diversas lideranças históricas do partido ou foram derrotadas ou estão saindo da vida política: José Fogaça (RS), Iris Resende (GO), Geddel Vieira Lima (BA), Hélio Costa (MG) e Orestes Quércia (SP). O partido vive uma clara dificuldade de renovação. Quem são suas lideranças emergentes? Consigo pensar em apenas um nome: o do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.

PSB. A composição da bancada dos partidos no Congresso apresentou algumas pequenas alterações em 2010. Gostaria de destacar três delas. A primeira é o crescimento do PSB. O partido é a única legenda que vem crescendo sistematicamente no País, notadamente no Nordeste, onde elegeu cinco dos nove governadores. O PSB deslocou o PMDB como principal força do campo progressista na região.

A segunda alteração digna de nota é o desempenho dos Democratas. O antigo PFL disputou a primeira eleição nacional (já havia disputado as municipais de 2008) com o novo nome, mas não conseguiu deter seu declínio eleitoral, que vem acontecendo desde 2002. O partido tem encolhido paulatinamente, particularmente no Nordeste e nos Estados do Sudeste.

Por fim, vale destacar o PV. O partido não conseguiu traduzir em representação no Legislativo o bom desempenho de sua candidata presidencial. A novidade, aqui, refere-se menos ao desempenho eleitoral e mais ao potencial de crescimento. O PV sempre foi nacionalmente um partido pragmático. A candidata Marina já deu sinais de que pretende dar um caráter mais programático ao PV, que o aproximaria da agenda ambientalista europeia.

Para analisar a configuração do sistema partidário brasileiro é fundamental entender que a fragmentação numérica não se traduz em fragmentação doutrinária. A polarização entre o PT e o PSDB, entre o governo e a oposição no plano federal é o que tem organizado a política brasileira. São dois grandes guarda-chuvas, com espaço para abrigar aqueles que, circunstancialmente, querem ser acolhidos.

Pensando nas transformações recentes do sistema partidário brasileiro lembrei-me do sistema de partidos da Itália desta década: alta fragmentação, mas com um alinhamento em dois grandes polos (esquerda e direita). Eleições presidenciais americanas, com uma bipolarização congressual italiana: uma combinação interessante.

03/11/2010 - 12:17h Dilma ganhou em 70% dos municípios brasileiros

por Jose Roberto de Toledo – VOX PÚBLICA

Dilma Rousseff (PT) venceu em 3.878 municípios brasileiros no segundo turno. José Serra (PSDB) venceu em 1.686. Em porcentagem: 70% a 30% para a petista. Como ela teve 56% dos votos válidos, a desproporção se explica pela maciça vitória de Dilma nas pequenas cidades (de todo o país, menos de São Paulo), e pelo equilíbrio dos dois nas cidades grandes e médias.

Em branco por desistência

Comparados aos do primeiro turno, os percentuais de votos em branco no segundo turno foram menores em todas as regiões. Seria natural que o percentual aumentasse, já que havia menos opções de candidatos para os eleitores.

É mais um indicativo de que as seis votações seguidas na urna eletrônica atrapalham o eleitor e levam não poucos a anular ou votar em branco em vez de no candidato a presidente de sua preferência.

Voto errado é diferente de voto nulo

No Nordeste, o percentual de votos nulos no segundo turno foi quase metade do que no primeiro turno (4,67% a 8,02%). A diminuição da taxa indica que pelo menos 1 milhão de eleitores nordestinos erraram o voto para presidente no primeiro turno, provavelmente por terem que votar seis vezes e numa ordem que deixa o voto presidencial por último. Congresso e Justiça eleitoral deveriam mudar a ordem esdrúxula de votação.

Bicadas fluminenses

Por que Serra não cobra Índio da Costa e o DEM como, implicitamente, fez com Aécio Neves (PSDB)? Diferença por diferença, foi praticamente igual no Rio de Janeiro e em Minas Gerais sua distância em relação a Dilma: 1,797 milhão de votos entre os mineiros contra 1,710 milhão entre os fluminenses. Proporcionalmente, a derrota no Rio foi maior.

A resposta tem a ver com o futuro e não com o passado.

Será curioso ver quem o PSDB preferirá seguir: um senador eleito de 50 anos que fez o governador do segundo maior colégio eleitoral do país, ou um candidato derrotado duas vezes a presidente, de 68 anos, que ficou sem cargo e terá que negociar espaço com uma liderança emergente (Geraldo Alckmin) em seu Estado natal.

01/11/2010 - 12:25h Lula da Silva, el líder que convirtió a Brasil en potencia

31/10/10 En 8 años de gobierno logró incorporar a la clase media y al consumo a casi 30 millones de personas. Y el país pegó un salto de calidad. Dejará el poder en enero con una altísima popularidad. Su futuro, una incógnita.

Por Claudio Mario Aliscioni – Clarin – Argentina

Brasilia. Enviado Especial

GRACIAS. LULA DA SILVA RECIBE AYER EL SALUDO DE SUS SEGUIDORES, TRAS VOTAR EN SAO BERNARDO DO CAMPO.

GRACIAS. LULA DA SILVA RECIBE AYER EL SALUDO DE SUS SEGUIDORES, TRAS VOTAR EN SAO BERNARDO DO CAMPO.

Como aquel personaje de Chejov que se arriesgaba a enfriar su té por el placer de beberlo despacio, saboreando el momento, también Lula da Silva degusta su último trago.

Al jefe de Estado brasileño no lo incomoda desde luego el frío ruso del presente. Lo turba, en cambio, la amenaza del futuro. Y esa sensación de desarraigo es tanto más fuerte que, en apenas tres meses, cuando deje el cargo, comenzará un nuevo espectáculo político: la reinvención personal del presidente más popular de la historia del país .

Lula sabrá allí si es fiel a su esencia, ésa según la cual como le fue difícil llegar a la cima, entonces también le será trabajoso bajar. Lo confesó hace poco con toda su frontal franqueza: “Sé que un día me va a caer la ficha y ahí veré que ya no soy más presidente”. No es una admisión baladí. Tras ocho años de gobierno en Brasilia, deja el puesto con el 84% de apoyo nacional y el reconocimiento de todo el planeta.

Por un breve período, Lula pasará por esa cámara de descompensación que es para él San Bernardo Ocampo, en el Estado de San Pablo. Según su declaración jurada, el mandatario saliente tiene allí cuatro propiedades, entre ellas, un departamento donde vivirá con Marisa, su mujer; y una suerte de pequeña quinta, Los Fubangos, comprada en 1993. Esta enumeración inmobiliaria, sin embargo, no debe confundir: el presidente fue gremialista, pero no es un millonario.

Según sus íntimos, hace unos seis meses afloraron síntomas de que lo aplastaba el pesado manto del fin de reino. “Todo acto ya es el último y ya estoy con nostalgia pensando en lo que voy a hacer”, les dijo. Entre bromas, agregaba que dejar el cargo tiene sus ventajas. “Por ejemplo, tomar un baño de playa o una cervecita sin que después digan que el presidente está bebido”.

Pero nada de eso parece entusiasmarlo. Por ejemplo, ha esparcido la noticia de que, cuando acaben las reformas de su casa, irá allí de inmediato. O que luego recorrerá el mundo para recibir unos 30 doctorados honoris causa que lo esperan. O que también considera crear un instituto para combatir la pobreza en Brasil.

Pero nada de eso emparda la gloria pasada que no vuelve, su bossa inventada a medida, sus “Saudades del poder”.

La victoria de Dilma Rousseff significa, en sustancia, el inicio de la experiencia histórica del “lulato”. Reiteradamente, Lula ha dicho que no intervendrá en el gobierno de su sucesora. Pero habrá que ver si acaso acaba inventando un sistema parecido al del cardenal consejero Richelieu con el rey francés: ni tanto que digan que hace lo que digo; ni tan poco que crean que no me oye.

La base de ese fenomenal movimiento político que ya se palpa aquí es el legado que deja. Fue en sus ocho años de gestión cuando la proyección de Brasil pegó un salto fundamental. La vida es mejor para los brasileños ahora que al inicio de su mandato.

En un país de 190 millones de habitantes, incorporó a la clase media a 29 millones, que hoy por primera vez consumen, planifican, obtienen créditos, educan mejor a sus hijos y van al dentista. Todos los indicadores sociales han mejorado.

Este mercado interno en expansión, unido al apetito de China por la soja, el hierro y la carne, más el centenar de empresas brasileñas que se proyectan al mundo apoyadas en el crédito estatal, hacen que éste sea “el mejor momento en la entera historia de Brasil” , según dijo el economista Marcelo Neri, de la fundación Getulio Vargas.

Como contrapartida, también debe decirse que nunca antes los empresarios habían ganado tanto dinero. Ciertas interpretaciones apresuradas gustan ver en Lula a un clásico izquierdista. Pero el presidente en retiro, en rigor, es más bien un buen burgués.

Su biografía política lo prueba. Hizo carrera desde el sindicalismo con un discurso radicalizado, fue tres veces perdidoso candidato presidencial y llegó al Planalto sólo tras sellar una unión con grupos económicos locales.

Su vicepresidente, el empresario José Alencar, es un testimonio de ese cambio, corroborado al inicio de su mandato cuando ratificó políticas ortodoxas introducidas por su antecesor, Fernando Henrique Cardoso, y les imprimió su sesgo social que hoy lo distinguen. En suma, con sensible olfato político, Lula advirtió que, como en tantos lugares de América Latina, el problema de la derecha es que nunca piensa en el mercado interno y siempre acaba excluyendo.

Para sus fines, Lula usó al Estado –con Petrobras como la nave insignia– como ariete de desarrollo. Todo eso explica su enorme arrastre popular.

Como en todo legado, también hay sombras en el horizonte. Dicho con esquemática brevedad: sus críticos le reprochan no haber hecho varias reformas (impuestos, educación, salud). Hay quienes, incluso, observan que el grueso de las exportaciones de Brasil está integrado por commodities y que el país aún no ha iniciado su plena industrialización.

De todos modos, esa experiencia es ahora el pasado. Aunque Lula no forzó un tercer mandato consecutivo, pocos le creen (“no sé si estaré vivo”) cuando lo atoran con la pregunta de si se postulará en 2014.

En el fondo, parece pensar que su 84% de popularidad es un guiño de sus compatriotas para que regrese. Algo de razón tiene: a los 65 años y con excelente salud, nadie lo imagina caminando en la playa con su mujer y bebiendo agua de coco.

01/11/2010 - 10:02h Dilma vence em 16 Estados, atinge 56% e tem 12 milhões de votos a mais que Serra

Tucano vence apertado na Região Sul, mas Dilma o supera com 58% em Minas e mais de 60% no Rio

Daniel Bramatti e José Roberto de Toledo – ESPECIAL PARA O ESTADO

A presidente eleita Dilma Rousseff (PT) venceu em três das cinco regiões do Brasil e em 16 das 27 unidades da Federação. Com 99,9% das urnas apuradas, ela tinha ontem à noite 55,7milhões de votos – o equivalente a 56% dos válidos –, 12 milhões a mais do que o tucano José Serra (PSDB).

Com larga vantagem no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, Dilma conseguiu compensar sua derrota em São Paulo e vencer na Região Sudeste, onde votam 44% dos eleitores do País.

Palco da principal batalha do segundo turno, Minas deu mais de 58% dos votos válidos para a candidata governista. Foram 16 pontos porcentuais de vantagem em relação a Serra, que no Estado teve o apoio do governador Antonio Anastasia e do ex-governador e senador eleito Aécio Neves, ambos do PSDB.

Os mapas de votação por municípios, publicados nesta página e na seguinte, mostram que o tucano venceu por pouco em Belo Horizonte – diferença inferior a um ponto – e colheu vitórias esparsas pelo sul de Minas. Mais ao norte, no Vale do Jequitinhonha, a candidata do PT formou uma “mancha vermelha” de vários municípios contíguos em que teve mais de 65% dos votos.

No Rio de Janeiro, segundo maior Estado em número de eleitores, a vantagem da presidente eleita foi ainda maior do que entre os mineiros. Ela superou a marca dos 60% dos votos e abriu mais de 20 pontos de folga sobre o candidato tucano.

Ex-governador de São Paulo, Serra venceu no Estado que é sua base política, com 54%. Conseguiu cerca de 1,8 milhão de votos a mais que a adversária – praticamente a mesma diferença pela qual foi derrotado em Minas. Ainda no Sudeste, o tucano também ganhou por pequena margem no Espírito Santo, com quase 51%.

Reduto. No Nordeste, Dilma venceu em todos os Estados, como já havia acontecido no primeiro turno. A bandeira da continuidade do governo Luiz Inácio Lula da Silva deu a ela cerca de 70% dos votos na região, a mais beneficiada pelos programas sociais federais, pelo crescimento econômico dos últimos anos e pela política de aumento do salário mínimo acima da inflação.

No Maranhão, um dos Estados mais pobres do Nordeste, a petista teve quase 79% dos votos. Na Bahia, quarto maior colégio eleitoral do País, o placar foi de 70% a 30%. Em outros dos Estados mais populosos da região, como Ceará e Pernambuco, Dilma teve mais de três quartos dos votos.

É da região Norte o Estado que deu a maior proporção de votos à presidente eleita. No Amazonas, ela teve pouco mais de 80% dos votos, 60 pontos porcentuais a mais do que o adversário. Há quatro anos, quando disputou o segundo turno com Geraldo Alckmin (PSDB), Lula também teve entre os amazonenses seu melhor desempenho no País.

A Região Sul deu vitória ao tucano José Serra. Em relação ao primeiro turno, ele conseguiu virar o jogo no Rio Grande do Sul, onde havia sido derrotado por Dilma. Acabou vencendo por uma margem apertada (51% a 49%) no Estado onde Dilma iniciou suas atividades no setor público – ela foi secretária de Finanças em Porto Alegre e secretária estadual de Minas e Energia.

No Centro-Oeste, onde Serra havia sido derrotado no primeiro turno por dois pontos porcentuais, ele acabou vencendo pela mesma margem. Em Goiás, houve virada: Dilma havia vencido por 42% a 40%, ela acabou perdendo por 51% a 49%.

Assim como em 2006, o mapa político do Brasil mostra o PT mais forte no Norte, no Nordeste e na metade superior da Região Sudeste, e o PSDB triunfando no Sul, no Centro-Oeste e em São Paulo. Em relação aos resultados de quatro anos atrás, Dilma perdeu em quatro Estados onde Lula venceu: Espírito Santo, Goiás, Rondônia e Acre.

Do primeiro para o segundo turno, houve aumento na taxa de abstenção, de 18,1% para 21,2%. O temor dos tucanos de que o feriado prolongado esvaziasse redutos de Serra não se mostrou fundado. A abstenção subiu mais nas regiões em que Dilma venceu, principalmente no Norte, onde passou de 20,3% para 26,2%.

mapas de votação por municípios

01/11/2010 - 09:31h “Não é um adeus é um até logo”

José Serra se despediu da eleição com um até logo e não com um adeus - ()

A íntegra do pronunciamento do candidato derrotado do PSDB a presidente, José Serra:

“Quero agradecer aos brasileiros de todos os cantos do nosso território. No dia de hoje, os eleitores falaram. Nós recebemos com respeito e humildade a voz do povo nas ruas. Quero aqui cumprimentar a candidata eleita Dilma Rousseff e desejar que faça bem para o nosso país. Eu disputei com muito orgulho a Presidência da República. Quis o povo que não fosse agora. Mas digo aqui, de coração, que sou muito grato aos 43,6 milhões brasileiros e brasileiras que votaram em mim. Sou muito grato a todos e a todas que colocaram um adesivo, uma camiseta, que carregaram uma bandeira com o Serra 45. Meu imenso muito obrigado a vocês de todo o nosso país.

Quero agradecer também aos milhões de que lutaram nas ruas e na internet em defesa da nossa mensagem de um Brasil soberano, democrático e que seja propriedade do seu povo.

Vou carregar comigo cada olhar, cada abraço, cada frase que recebi em todo o Brasil. Cada mensagem de estímulo, de vibração, inclusive no meu Twitter, que tem centenas de milhares de participantes. E vou dizer a vocês uma coisa que disse muitas vezes: recebi toda energia para essa campanha, com sete meses, foram sete meses, desde que saí do governo de São Paulo, de muita energia, de muita movimentação e de muito equilibro que foi necessário. E chego hoje nesta etapa final com a mesma energia que eu tive ao longo dos últimos meses. O problema é como despender essa energia nos próximas dias e semanas. É uma energia que foi passada em todo o Brasil.

Insisto, nas ruas, em todos os lugares, as pessoas falando, as pessoas abraçando. E quero lembrar que, ao lado desses 43,6 milhões de votantes, recebemos também votos que elegeram dez governadores que nos apoiaram em todo o país.

Dos quais, um está presente: meu querido companheiro de muitas jornadas Geraldo Alckmin.

Quero dizer que se empenhou mais na minha eleição do que se empenhou na sua.

Mas a maior vitória que conquistamos nesta campanha não foi mérito meu, mas foi mérito de vocês. Pode parece estranho para um candidato que não ganhou a eleição, mas vim aqui não para falar de frustração, mas para falar da confiança e da esperança. Nestes meses duríssimos, quando enfrentamos forças terríveis, vocês alcançaram um vitória estratégica no Brasil. Cavaram uma grande trincheira. Construíram uma fortaleza. Consolidaram um campo político de defesa da liberdade e da democracia no Brasil. Um grande campo político em defesa da democracia, da liberdade e das grandes causa sociais e econômicas do nosso país, que estão aí vivas no sentimento de toda a nossa população.

Nossa campanha trouxe ao cenário eleitoral uma juventude que ama o Brasil, que a ma a liberdade. Encontrei os jovens no Brasil inteiro, pessoalmente, na internet, por todo o canto. Ao longo da campanha, vi em muitos deles, dos jovens, em centenas, em milhares, o jovem que também fui um dia, sonhando e lutando por um país melhor, como faço até hoje. Por um país melhor, mais justo e democrático, onde os políticos fossem servidores do povo e não se servissem do nosso povo. Vocês, repito, não imaginam quanto energia tirei daí. Como isso me jogou para diante, mesmo nos momentos mais difíceis.

E para os que nos imaginam derrotados, quero dizer: nós apenas estamos começando uma luta de verdade. Estamos no começo do começo. E vamos dar a nossa contribuição em defesa da pátria, da liberdade, da democracia, do direito que todos têm de falar e de serem ouvidos, da justiça social.

Vamos dar contribuição como partidos da nossa frente de partidos, como indivíduos, como parlamentares, como governadores.

Essa será a nossa luta dos próximos anos. Por isso a minha mensagem de despedida neste momento, não é um adeus é um até logo. A luta continua, viva o Brasil.

Vou aqui falar o último verso do nosso hino, que é muito significativo, que mais de uma vez eu disse na nossa campanha: “Mas se ergues da Justiça a clava forte,Verás que um filho teu não foge à luta, nem teme, quem te adora, a própria morte.

Terra adorada, entre outras mil, és tu, Brasil, ó Pátria amada! Dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada, Brasil! ”

26/10/2010 - 07:28h A eleição dos debates e dos mitos

“Esta já é a eleição presidencial com o maior número de debates entre os candidatos à Presidência da República. Na sexta-feira, quando se realizar o confronto entre Dilma Rousseff e José Serra na TV Globo, serão dez os debates transmitidos pela televisão. Depois de tantos enfrentamentos, os petistas comemoram e os tucanos reconhecem que não se confirmou uma das previsões pré-eleitorais: a de que Serra iria engolir Dilma”.

Panorama Político – O GLOBO

16/10/2010 - 10:20h Mau perdedor

Derrotado nas urnas, o senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) acusa os rivais de comprarem votos e pode ser processado por coagir testemunhas

Hugo Marques – ISTOÉ

img.jpg
TRANSPORTE
Virgílio fretou um avião para levar as testemunhas a depor.
Entre elas, Antônio Assis, que foi orientado a não falar com a imprensa

Um dos princípios das artes marciais é evitar a ida ao ataque e utilizar a força do adversário para derrubá-lo. Faixa preta de jiu-jítsu, o senador amazonense Arthur Virgílio (PSDB) parece que não aprendeu essa lição e se caracteriza por sempre atacar seus oponentes. Suas atitudes nas últimas semanas mostram que o senador tucano também não aprendeu a perder. Derrotado na eleição por Eduardo Braga (PMDB) e Vanessa Grazziotin (PCdoB), Virgílio tenta agora retomar o mandato no tapetão. Quer continuar a atacar. Ele acusa os dois eleitos de terem comprado votos e busca no Ministério Público uma porta para reaver o posto. Na sexta-feira 8, Virgílio chegou à sede do MP em Manaus com sete eleitores, que dizem ter tido seus votos comprados. Eles apresentaram ao Ministério Público cartões do Bradesco com saldo de R$ 600, que seriam a prova dos pagamentos. O problema é que os cartões nada provam e Virgílio poderá ainda ser enquadrado por coação de testemunhas.

O mesmo Ministério Público que ouviu as denúncias já sabe que os denunciantes foram levados de Parintins para Manaus em dois voos fretados da Manaus Aerotáxi. O pagamento do fretamento foi feito por Virgílio e sua esposa, Goreth Ribeiro. “Ele está desesperado e trouxe esse pessoal para forjar denúncias”, diz o ex-governador Eduardo Braga. Três eleitores prestaram depoimentos absolutamente iguais. Disseram ter recebido um cartão do Bradesco com R$ 600, como se tivessem trabalhado nas campanhas de Braga e Vanessa, mas não trabalharam. ISTOÉ telefonou para os celulares dos sete eleitores que prestaram depoimento, mas o único que atendeu a ligação foi Antônio Carlos Rodrigues Assis. “Fui orientado a não falar”, respondeu. A senadora eleita Vanessa Grazziotin também atribui a trama ao desespero do derrotado. “O Arthur está doido. Ele quer o mandato dele de volta de qualquer jeito”, diz. A campanha eleitoral, segundo ela, seguiu orientação do Ministério Público no Amazonas para que os candidatos firmassem contratos de trabalho com as equipes de campanha. Cada cabo eleitoral recebeu um cartão Bradesco para sacar o salário pago pela coligação. Vanessa explica que, além do cartão, o MP orientou que as equipes recebessem protetor solar, alimentação e transporte. Acusado nos depoimentos, o empresário Abrahim Calil Nadaf Neto, dono do sistema de pagamentos por cartão, ameaça processar Arthur Virgílio por calúnia. “Não houve compra de votos, os cartões eram para pagamento de salários. Todas as pessoas tinham contrato de prestação de serviços com os candidatos”, diz Nadaf. O Ministério Público informou que o inquérito corre sob sigilo. Tudo indica que Arthur Virgílio, rejeitado nas urnas, também será derrotado na Justiça.

09/10/2010 - 08:44h Brasil desmente ameaça de rever acordo do Vaticano

Notícia mencionava encontro de Gilberto Carvalho com bispos

Luiza Damé e Gerson Camarotti – O Globo

BRASÍLIA. O chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho, negou ontem que tenha se reunido com integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e ameaçado revisar o acordo entre o Brasil e o Vaticano, caso não cessassem os ataques à presidenciável petista, Dilma Rousseff.

Ele afirmou que essa “é mais uma acusação mentirosa devido ao processo eleitoral”.

O secretário-geral da CNBB e bispo auxiliar do Rio de Janeiro, dom Dimas Lara Barbosa, também negou o encontro e a suposta ameaça.

Por meio da assessoria de imprensa do Palácio do Planalto, Gilberto Carvalho repudiou a notícia — publicada por agências internacionais — e qualquer tentativa de criar uma situação de atrito entre o governo e a Igreja Católica. Ele disse ainda que o acordo foi aprovado pelo Congresso e não tem relação com a campanha eleitoral.

Para Marco Aurélio Garcia, estão fazendo terrorismo O acordo foi assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Papa Bento XVI, em 2008, e regulamenta aspectos jurídicos da Igreja Católica no país, incluindo isenções fiscais, liberdade de credos e ensino religioso nas escolas públicas.

Ao GLOBO, dom Dimas foi enfático ao negar que o chefe de gabinete tenha feito qualquer ameaça: — Eu não recebi nada a esse respeito. Fiquei surpreso com a notícia. Não houve ameaça.

Isso seria a última coisa que alguém anunciaria em plena campanha presidencial. Eu diria que esse seria um tiro no pé — disse.

Amigo de Gilberto, o secretário-geral da CNBB informa que desde que começou a eleição não se encontrou com o chefe de gabinete. Foi Gilberto quem escreveu o perfil de Dimas, quando o bispo foi considerado pela “Época” um dos cem brasileiros mais influentes em 2009.

O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, disse que os acordos internacionais têm a chamada cláusula de denúncia, mas que o governo não tem qualquer intenção de revisar o tratado. Marco Aurélio disse que o Estado é laico e deve ser preservado dessa forma: — Isso que estão fazendo se chama terrorismo. E é muito grave porque fere o sentimento religioso da sociedade e introduz uma coisa que não temos aqui no Brasil, que é a divisão religiosa.

Ontem, a Catholic News Agency publicou em seu site que o Brasil ameaçava rever acordos com o Vaticano se a candidata do PT continuasse a ser pressionada sobre a questão do aborto. O texto citava uma nota da agência de notícias italiana Ansa, que por sua vez remetia ao “Valor Econômico”.

07/10/2010 - 15:54h ‘Lula prevalecerá’ em 2011, diz revista ‘The Economist’

Sílvio Guedes Crespo – Radar Econômico

A revista britânica “The Economist” reafirma na edição desta semana que a candidata Dilma Rousseff (PT) será provavelmente a próxima presidente do Brasil e diz que o atual, Luiz Inácio Lula da Silva, deve continuar influente em 2011. O fato de a eleição ter ido para o segundo turno, avalia a revista, serviu para Lula perceber que seu poder tem limite.

“Lula, que transformou a senhora Rousseff de uma tecnocrata de bastidores em uma vitoriosa eleitoral ao fazer campanha ao lado dela, percebeu que o seu poder de fazer uma rainha tem limite. Mas no final ele provavelmente prevalecerá”, diz a “Economist”.

Para a revista, Dilma terá um Congresso “mais amigável” do que o atual governo tem, mas ela pode ter dificuldade para manter os petistas mais esquerdistas em linha com o seu programa de governo, e aí entraria o papel de Lula.

As afirmações estão em uma das duas reportagens que a revista traz sobre o Brasil nesta semana. O hebdomadário repete uma análise que tem sido feita no Brasil, a de que foi Marina Silva (PV), e não José Serra (PSDB), a responsável pela queda de Dilma nas eleições, e avalia que essa é uma “má notícia” para o tucano.

“Ele [Serra] não conseguiu atrair jovens que não se lembram da hiperinflação que o seu partido resolveu nos anos 1990, nem os pobres do Nordeste em cujos corações Lula reina”, diz a reportagem.

O outro texto da revista sobre o Brasil critica a Justiça devido à demora no julgamento sobre a Lei Ficha Limpa, além de outros recursos de parlamentares, o que faz com que as eleições permaneçam incertas até agora. No total, 11 milhões de votos foram para postulantes cuja candidatura estava indeferida. Se a Justiça as deferir, pessoas que já comemoraram a vitória acabarão ficando de fora do Legislativo.

Estado grande, populismo baixo

O Brasil foi o tema principal também da análise que a Economist Intelligence Unit, empresa do mesmo grupo da revista “The Economist”, divulga semanalmente a seus clientes. O relatório parte do pressuposto de que Dilma será eleita e analisa como tende a ser o seu governo.

Com o título “Política no Brasil: rumo à presidência de Rousseff”, texto diz que a EIU “não prevê que ela [Dilma] persiga políticas significativamente populistas a ponto de colocar em perigo a estabilidade macroeconômica que o Brasil conquistou duramente”.

A análise, no entanto, afirma que a tendência de crescimento do Estado, vista recentemente, deve continuar. Em um governo Dilma, o setor privado continuaria avançando em áreas que antes eram totalmente controladas pelo setor público, como rodovias, portos e aeroportos, mas o Estado tende a aumentar sua influência em indústrias estratégicas, a exemplo do avanço da participação estatal na Petrobrás verificada após a capitalização.

Leia no site da ‘Economist’ (em inglês):

Eleições presidenciais Brasileiras

Leis eleitorais do Brasil

Política no Brasil: rumo à presidência Rousseff

07/10/2010 - 08:39h Aborto ofusca debate sobre mulheres

Temas como falta de creches e ingresso feminino no mercado de trabalho estão fora da pauta eleitoral

Alessandra Duarte e Duilo Victor – O GLOBO

Enquanto os presidenciáveis se esforçam para explicar o que pensam sobre o aborto, estão deixando de responder sobre mercado de trabalho para a mulher, equiparação salarial entre homens e mulheres, rede de creches…

Para cientistas políticas, pesquisadoras de políticas para a população feminina e artistas, o debate moral em torno do aborto que tem ocorrido na campanha presidencial nos últimos dias tem deixado de lado problemas crônicos vividos pelas mulheres brasileiras.

Questão enfrentada pela mulher de baixa renda que está entre as mais citadas como fora da discussão presidencial é a falta de creches públicas para as mães pobres. A atriz Claudia Jimenez diz assistir a esse problema entre as funcionárias da academia de ginástica da qual é sócia: — Vejo funcionárias que passam por isso, brinco que vou abrir uma creche para elas. O tema da creche, no começo da campanha, até que foi falado , mas depois se diluiu. E o que mais tem é mulher querendo trabalhar e não tendo com quem deixar o filho, tendo que arranjar vizinha para cuidar da criança. Ou então a mulher precisa sair mais cedo do trabalho, mas aí o empregador manda embora — conta Claudia Jimenez. — Tendo onde pôr o filho, a mulher pode trabalhar, se instruir… Não tem que discutir o aborto, tem que discutir por que tem mulher que engravida sem querer.

— Não se pode falar em igualdade no mercado de trabalho sem uma rede de creches — conclui Gilda Cabral, fundadora do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFemea), que também cita a violência doméstica como tema fora de pauta na campanha. — Assim como programas de assistência a idosos ou doentes que precisam de cuidador; nesses casos a carga sempre fica para a mulher.

Professora de pós-graduação em políticas públicas do Instituto de Economia da UFRJ, Lena Lavinas diz que o investimento em creches e escolas em tempo integral é o que aproximou países europeus, por exemplo, da melhoria econômica e do desenvolvimento: — Mulheres pobres trabalham menos horas que homens.

Se puderem ter os filhos em uma creche o dia todo, vão ter mais chances de melhorar a renda per capita da família. Sob o ponto de vista da erradicação da pobreza, o acesso à creche e à escola em tempo integral é mais eficiente que o Bolsa Família, apesar de esse programa também ser necessário.

Segundo a pesquisadora, apenas 15% das crianças entre 0 e 3 anos no Brasil são contempladas com acesso a creches: — Esse debate sobre aborto não é objetivo, é ideológico.

Acho que a única com proposta sobre relação de gênero é Dilma.

Mesmo assim, por conta desse debate, não foi adequadamente apresentada — diz Lena, em alusão à proposta da petista de construir creches.

A escritora Rose Marie Muraro crê que falta à campanha presidencial debater formas de aumentar a renda e a escolaridade das mulheres — que, segundo a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (Pnad) 2009, do IBGE, já é a chefe de família em 22 milhões de lares. Desde 1999, esse número cresceu 81%, contra 15% para os homens.

— No Bolsa Família, o dinheiro é dado à mulher, que é considerada a que toma conta da família. Esse modelo deveria ser completado por serviços de agências de microcrédito ou bancos comunitários, por exemplo, para moradoras nos bolsões de pobreza — comenta Rose Marie. — Na população de baixa renda, a da mulher é a mais baixa. Só que, por outro lado, a mãe influencia mais na renda e na escolaridade do filho do que o pai: o filho de uma mulher pobre tem 11 vezes mais chance de continuar na pobreza do que aquele com o pai pobre.

Além disso, o filho de uma analfabeta tem chance 23 vezes maior de ser analfabeto do que aquele com pai analfabeto.

A cientista política Fernanda Feitosa, que pesquisa a participação feminina na representação política partidária, afirma que o debate eleitoral em torno das necessidades femininas está incipiente. Não se fala, por exemplo, diz Fernanda, na elaboração de programas que combatam a dupla jornada feminina: — As políticas para mulher têm sido tratadas no plano moral, não num conceito estadista.

Lucinha Araújo, presidente da Sociedade Viva Cazuza, diz que a discussão política sobre propostas para mulheres erra no tom: — O Brasil ainda não conseguiu separar Estado de religião.

Devemos achar o meio termo e discutir se o Estado deve interferir tanto na vida íntima das pessoas, como na questão do aborto. O corpo é da mulher, não uma questão de Estado. Deveríamos pensar mais na assistência, como o direito à creche e à saúde.

04/10/2010 - 09:50h Dilma é a mais votada em seis cidades do ABC

Repórter Diário

Depois de 99,55% das urnas apuradas em todo o País, o favoritismo de Dilma Roussef (PT) – que enfrentará José Serra (PSDB) no segundo turno no próximo dia 31 de outubro – se confirma também no ABC. Das sete cidades da região, apenas em São Caetano o candidato tucano foi mais o votado do que a concorrente para o cargo de Presidente da República. Nas demais seis cidades (Santo André, São Bernardo, Mauá, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra) da região, a petista é a favorita.

No município de São Caetano, Serra aparece com 52,91% dos votos (50.202 votos) contra 23,44% (22.244 votos) da ex-ministra chefe da Casa Civil. Marina aparece com 20.716 votos (21,83%).

Em Diadema, Dilma obteve 56,1% dos votos válidos, enquanto que Serra alcançou 23,24%. Marina foi votada por 19,6% dos munícipes. Na cidade de São Bernardo a petista também obteve vantagem. Dilma obteve 46,13% dos votos, Serra 32,51% e Marina 19,91%.

A maioria dos moradores de Santo André (39,47%) também prefere a petista. Serra alcançou 36,79% dos votos na cidade e Marina 22,28%. Em Mauá, Dilma ficou com 47,71%, contra os 30,01% de Serra e 20,99% de Marina.

Na cidade de Ribeirão Pires, a candidata do PT obteve 38%, seguida por Serra (36,91%) e Marina (23,6%). A maioria dos moradores de Rio Grande da Serra apontou Dilma como preferida (43,99%). Serra obteve 34,19% dos votos e Marina 20,8%.