17/08/2012 - 09:28h Emprego volta a crescer acima de 2011

Por Carlos Giffoni, Thiago Resende e Murilo Rodrigues Alves | VALOR

De São Paulo e Brasília

O mercado de trabalho em julho reverteu o movimento de retração no ritmo de criação de vagas que marcou o primeiro semestre deste ano. No acumulado de janeiro a junho, a criação de vagas foi 25,9% menor que no primeiro semestre de 2011. No entanto, em julho, foram criados 1,37% mais empregos que no mesmo mês do ano passado. A indústria de transformação foi um dos maiores responsáveis por esse resultado. No primeiro semestre, o setor gerou cerca de 49% vagas a menos que em igual período de 2011. Em julho, o resultado se inverteu, com a geração de vagas crescendo 4,7% frente a julho do ano passado.

A economia brasileira criou 142.496 vagas formais em julho. No mesmo mês do ano passado, foram gerados 140.563 postos de trabalho. Pela primeira vez no ano, todos os Estados brasileiros contrataram mais do que demitiram no mês. São Paulo liderou o ranking dos Estados, com a criação líquida de 47.837 vagas. O resultado de julho veio acima da média das projeções apurada pelo Valor Data, de 102 mil novas vagas. No acumulado do ano foram gerados 1.232.843 postos de trabalho com carteira assinada. O salário médio de admissão caiu 0,71% em julho deste ano, na comparação com junho. O indicador registrou a média de R$ 1.011,54, frente aos R$ 1.018,77 registrados em junho.

Na avaliação do economista-chefe da corretora Convenção Tullet Prebon, Fernando Montero, o resultado do emprego se soma a outros bons indicadores econômicos, o que pode indicar uma recuperação da atividade. Ele cita as vendas em junho no varejo restrito e ampliado, que apresentaram crescimento de 1,5% e 6,1% na comparação dessazonalizada ante maio, respectivamente, e sua previsão positiva de emplacamento de veículos em agosto. “O emprego formal fica congelado em um cenário econômico ruim, porque é caro contratar e demitir no Brasil. Esses números podem indicar uma retomada no ânimo”, diz.

Caio Machado, economista da LCA Consultores, destaca o desempenho do setor de material de transportes dentro da indústria de transformação, onde houve um aumento no número de admissões na passagem de junho para julho (de 13.038 para 15.020) e uma redução no número de demissões (de 14.102 para 13.355). Com isso, o saldo do setor, que tinha sido negativo em 1.064 vagas em julho, tornou-se positivo em 1.665 vagas em julho. “Esse avanço, que também foi visto em outros setores industriais, pode ser reflexo das medidas de incentivo do governo. E isso pode ser um indicativo da produção industrial em julho”, avalia.

Os setores de calçados e têxtil, contemplados pela desoneração da folha de pagamento contrataram, respectivamente, 16% e 604% mais em julho deste ano do que em igual período de 2011. No caso de setor têxtil, foram 334 vagas novas abertas naquele mês de 2011 para um saldo positivo de 2.354 em igual período deste ano.

O resultado do emprego formal na construção civil em julho surpreendeu positivamente, diz Machado, da LCA. No Caged, a construção civil apresentou contratação líquida de 25.433 empregados no mês. A previsão da LCA estava em 9,8 mil vagas a mais no setor.

Contudo, a economista-chefe da Rosenberg & Associados, Thais Marzola Zara, vê essa forte criação de vagas em julho como um movimento pontual. “Ainda é cedo para dizer que o resultado muda a tendência de enfraquecimento do mercado de trabalho. Pode ser que alguns setores tenham adiado as demissões, mas esse não é um movimento com fôlego devido à atividade fraca”, avalia. Thais lembra que os benefícios tributários cedidos a alguns setores da indústria têm validade. “Não acredito que os empresários estejam contratando mais por conta dessas medidas.”

Para agosto, Rodolfo Torelly, diretor do departamento de Emprego e Salário do MTE, acredita num aumento ainda maior na geração de empregos. “Nossa expectativa é boa. No mês, há aumento de contratações no comércio, a indústria de transformação começa a se preparar para o Natal e, no setor de ensino, há novas contratações de professores para o início do segundo semestre letivo”, explica.

15/08/2012 - 08:55h A aparente contradição entre PIB e emprego

Por Cristiano Romero – VALOR

A economia brasileira parece viver uma aparente contradição. Mesmo com o PIB crescendo no atual biênio bem abaixo do potencial – 2,7% em 2011 e menos de 2% neste ano -, o desemprego continua baixo (5,8%), situação que muitos especialistas classificam como pleno emprego.

Como fazem mensalmente, economistas do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV se debruçaram sobre o principal tema da conjuntura para tentar entender o que parece ser um paradoxo. Chegaram à conclusão de que não há explicação fácil nem única. A primeira dúvida sobre o complexo momento que vivemos diz respeito à própria desaceleração do PIB.

Muitos analistas atribuem esse fato ao desaquecimento da demanda, provocado pelo recuo da demanda externa e dos investimentos. O ciclo de estoques da indústria, que chegou ao pico na virada do ano e foi gradativamente sendo eliminado no primeiro semestre de 2012, também seria um indício de demanda fraca.

Não há explicação única para a conjuntura brasileira

Quando se observa a inflação medida em 12 meses, houve recuo de um ponto percentual nos preços dos serviços. Uma parte disso se deve à nova ponderação feita pelo IBGE dos hábitos de consumo dos brasileiros, mas, no geral, a pressão desses preços diminuiu, um sinal de moderação da demanda. Ademais, o aumento da inadimplência, mesmo com o baixo desemprego e a renda elevada, é indicação de que o ciclo do crédito estaria se esgotando. Não se deve subestimar o fato de que as vendas do varejo estão caindo.

É preciso lembrar, ainda, que nos últimos 12 meses o Banco Central cortou a taxa básica de juros (Selic) de 12,5% para 8% ao ano. O processo não acelerou a inflação, mas também não reanimou a economia. O que chama atenção na tese da queda da demanda é o mercado de trabalho, que segue aquecido.

Alguns analistas acreditam que a razão é de natureza demográfica. O mercado de trabalho continua apertado porque o número de entrantes potenciais está diminuindo e não porque a demanda esteja aquecida. Outra visão possível, que confronta a tese do recuo da demanda, é a de que a economia está em pleno emprego e a desaceleração do PIB representa um processo de ajuste estrutural.

Por esse raciocínio, a economia estaria transferindo postos de trabalho do setor industrial para o de serviços. “Na transição, há uma fase em que necessariamente parcelas de capital ficam ociosas na indústria, o que reduz o crescimento pelo lado da oferta. Adicionalmente, como o setor de serviços emprega mais para uma mesma quantidade de capital do que a indústria, a mudança estrutural contribuiu para dar fôlego ao mercado de trabalho. A recomposição setorial explicaria tanto a desaceleração quanto a manutenção de um mercado de trabalho pressionado”, diz o diretor do Ibre, Luiz Guilherme Schymura.

A dificuldade dessa tese, aponta Schymura, são os indicadores de desaquecimento da demanda. “Isso torna pouco crível a visão de que os últimos desdobramentos da economia brasileira possam se resumir a um fenômeno apenas do lado da oferta.”

Há outras explicações para o suposto descasamento entre PIB e mercado de trabalho. Uma delas, “reiteradamente negligenciada” pelo debate na opinião de Schymura, é a longa defasagem dos efeitos do corte de juros e também do próprio esfriamento da economia.

Do lado do desaquecimento, a indústria, afetada pelo câmbio apreciado, a concorrência dos importados e a alta salarial provocada pelo setor de serviços, foi a primeira a sentir o golpe e está praticamente estagnada há dois anos. Os investimentos não se recuperam por causa da crise de confiança provocada pela turbulência internacional.

Por essa tese, o emprego industrial já estaria sendo afetado e o desaquecimento chegará ao setor de serviços, se espalhando para o mercado de trabalho de forma generalizada. “É precisamente esse passo, que tanto tarda, felizmente, no atual ciclo de negócios, que gera perplexidade entre os analistas”, comenta Schymura.

A ideia da defasagem prolongada, acentuada pela mudança estrutural da economia pró-serviços, ganha força. O diretor do Ibre observa que os números do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) revelam que 2012 tem sido o pior ano, desde 2006, em criação líquida de empregos formais. Se isso for uma tendência, haverá problemas mais amplos de emprego nos próximos meses.

Uma outra tese sobre a manutenção do emprego, em meio ao PIB fraco, é a de que, dada a forte absorção de novos trabalhadores nos anos recentes, restaram desocupados com baixa qualificação, desestimulando contratações formais adicionais. Uma outra hipótese seria a de que as empresas estariam retendo empregados, esperançosas de que a “recessão” seja temporária, um sentimento estimulado pelo governo.

As razões da retenção seriam variadas – elevados custos de contratação, treinamento e demissão; custos de manutenção de estoques superiores aos de manutenção de trabalhadores; baixa disponibilidade de mão de obra qualificada. A retenção, em meio ao desaquecimento da economia, tem um efeito colateral, embora temporário: a queda da produtividade, como vem ocorrendo.

O risco, no caso da retenção de mão de obra, é o de uma reversão rápida e brusca, motivada pela desistência das empresas em esperar pela recuperação da economia. Nessa hipótese, a taxa de desemprego subiria rapidamente, podendo jogar o mercado de trabalho num ciclo vicioso.

“Se a razão para o alto nível de emprego for demográfica, e, portanto, fundamentalmente de oferta, nada há a fazer”, diz Schymura. “Por outro lado, se consiste num ajuste estrutural da composição dos setores da economia, aceitá-lo ou tentar neutralizá-lo parcial ou totalmente depende da estratégia econômica do ponto de vista mais amplo. Num foco mais imediato, uma mudança desse tipo pode até ajudar a preservar o consumo no ponto mais fraco do ciclo econômico – já que o aumento relativo do setor de serviços é gerador de emprego e, portanto, de renda. Uma vez concluída a transição, no entanto, essa benesse cíclica cessará, e, se esse momento coincidir com um período de economia ainda combalida, pode precipitar uma piora ou até mesmo recessão”, adverte ele.

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

E-mail: cristiano.romero@valor.com.br

07/08/2012 - 08:23h Nas montadoras do ABC, acordo de 2011 garante ganho real este ano

Por Carlos Giffoni | VALOR

De São Paulo

Os metalúrgicos do ABC que trabalham nas montadoras de automóveis garantiram ganho real de 2,39% em 2012, segundo o acordo válido por dois anos que foi fechado na campanha salarial do ano passado. Dessa forma, a categoria está protegida de eventuais efeitos do arrefecimento no setor automotivo sobre a negociação salarial mais influente do país.

Cerca de 36 mil trabalhadores já têm esse índice garantido, de acordo com o sindicato da categoria – cuja base no ABC ultrapassa 105 mil pessoas. Com data-base em 1º de setembro, o sindicato está em negociação para que os demais grupos patronais, como de autopeças, fundição e estamparia, também conquistem o mesmo índice de aumento real.

Tradicionalmente, os acordos fechados entre os metalúrgicos nas montadoras são seguidos pelos demais setores patronais. De acordo com o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a proposta de ganho real de 2,39% já foi entregue e as negociações ocorrerão ao longo deste mês.

No ano passado, a categoria negociou aumento nominal de 10%, sendo 2,55% de ganho real. O acordo para o biênio estipulava 5% de aumento real para o período. Neste ano, o aumento nominal será menor, uma vez que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acumulado em 12 meses, utilizado para deflacionar salários, recuou.

Enquanto em agosto de 2011 o índice estava em 7,39%, em junho deste ano o INPC em 12 meses acumulava alta de 4,91% – se mantido esse índice até agosto, o aumento nominal dos trabalhadores metalúrgicos em setembro ficará em 7,42%.

O acordo por dois anos, fechado em 2011, já considerava possíveis impactos da crise internacional no mercado automotivo. À época, o presidente do sindicato, Sérgio Nobre, afirmou que esse ganho real imunizava a remuneração dos metalúrgicos de um provável arrefecimento da atividade do setor em 2012.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção de veículos caiu 18% no primeiro semestre deste ano, na comparação com igual período de 2011. O desempenho foi puxado pelo setor de caminhões, que antecipou a produção no fim de 2010, devido à exigência do uso do motor Euro 5, mais caro, a partir deste ano.

Após um período de acúmulo de estoques, que bateram níveis recordes, o setor automotivo dá sinais de recuperação. Ontem, a Anfavea, entidade que reúne as montadoras instaladas no país, divulgou que as vendas de veículos subiram 18,9% em julho, atingindo 364,2 mil unidades – segundo melhor desempenho mensal da história.

Os números confirmam uma reação do setor após o pacote de incentivos à indústria anunciado pelo governo. Em maio, o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) da indústria automobilística foi reduzido. Na semana passada, contudo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que não pretende estender a vigência do benefício, que acaba no fim deste mês. Desde o início de agosto, entretanto, o setor de autopeças conta com a desoneração da folha de pagamentos.

06/08/2012 - 09:08h Varredura do BNDES acende sinal de alerta

Eólicas

Valor

A suspensão de cinco dos dez maiores principais fornecedores de geradores e equipamentos eólicos da lista de fabricantes credenciados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) causa apreensão no setor.

Segundo fontes ouvidas pelo Valor, o BNDES vem conduzindo há dois meses uma devassa nas contas de empresas do setor, que levaram ao banco pilhas de notas fiscais de todos os equipamentos.

A medida é vista como um forte sinal, vindo de Brasília, de que o governo vai fechar o cerco àqueles que receberam recursos do banco estatal. O governo quer garantir que o dinheiro do BNDES esteja sendo utilizado para criação de empregos, essencial para recuperação econômica. A auditoria do BNDES foi feita para verificar se os fornecedores de aerogeradores estão cumprindo com o mínimo de 60% de conteúdo nacional.

Há dois meses, estão suspensas da Finame, linha de crédito do BNDES, a empresa dinamarquesa Vestas, as multinacionais alemãs Fuhrländer e Siemens, a indiana Suzlon e a espanhola Acciona.

Mas o Valor apurou a situação preocupa tanto o setor que até a multinacional americana GE, que permanece na lista de fabricantes aptos a receber recursos, enviou ao Brasil um executivo da matriz para monitorar a situação. Procurada, a GE não confirmou a informação e não se pronunciou sobre o assunto.

Os fabricantes descredenciados terão de cobrar mais pelos equipamentos, o que pode elevar os preços nos próximos leilões do governo. Os projetos eólicos inscritos para este ano totalizam 14.260 MW para entrega 2015 (A-3) e 12.547 em 207 (A-5), mas, como o leilão foi adiado para outubro, ainda não se sabe quantos, de fato, serão ofertados. O governo precisa também definir o preço máximo.

A situação é mais delicada para os parques que estão sendo construídos e cuja energia já foi vendida nos leilões anteriores, afirma Elbia Melo, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica). A entidade negocia com BNDES para que os empreendedores não sejam prejudicados.

Os controladores dos parques eólicos esperam que os fornecedores descredenciados comprometam-se a atender às exigências. “Esperamos que se chegue a um entendimento”, afirma o presidente da Queiroz Galvão Energia Renováveis, Xavier Lins, que possui contrato com a indiana Suzlon. “Existem saídas, soluções, que estão sendo resolvidas”, afirmou Eduardo Sattamini, diretor financeiro da Tractebel, que possui contrato com a Siemens. A Vestas respondeu, por e-mail, que espera chegar a um acordo com o BNDES sobre as ações a serem tomada para voltar à Finame. (CF)

27/07/2012 - 09:31h Dilma diz que setores que recebem incentivo devem garantir emprego

Fala da presidente foi um recado à indústria automobilística

O GLOBO

LONDRES — A presidente Dilma Rousseff disse nesta sexta-feira, em Londres, que o governo anunciará em agosto e setembro medidas anticíclicas (de combate à crise) para estimular a economia, e afirmou que os setores que recebem incentivos governamentais devem garantir a manutenção do emprego no país. A fala parece ter sido um recado para a indústria automobilística, que, apesar de ter recebido incentivos fiscais, tem sinalizado com o fechamento de postos em sua linha de montagem.

— Todos os setores que receberem incentivos do governo têm que saber que nós fazemos isso por um único motivo no mundo: garantir o emprego e a renda do brasileiro — disse ela em entrevista à imprensa no hotel onde está hospedada em Londres por ocasião da abertura dos Jogos Olímpicos, nesta sexta-feira. — Nós iremos, no mês de agosto e um pedaço de setembro, tomar algumas medidas, continuando nosso programa contracíclico. Estamos muito preocupados em reduzir o custo do país — acrescentou ela, citando planos do governo de reduzir o custo da energia elétrica.

Na terça-feira, a General Motors dispensou, sob licença remunerada, todos os seus funcionários em São José dos Campos (SP). Segundo a empresa, os trabalhadores ameaçavam invadir a fábrica em meio às negociações sobre o destino dos 1.500 operários da unidade, que será fechada. De acordo com o sindicato, haveria demissão em massa.

Na quinta, a montadora foi chamada pelo Ministério da Fazenda para esclarecer, na próxima terça-feira, a situação da fábrica de São José dos Campos. O ministério, segundo sua assessoria de imprensa, quer uma explicação da montadora sobre os últimos acontecimentos, como o encerramento da produção de três modelos — Zafira, Meriva e Corsa —, além do fechamento da fábrica na última terça-feira. A pasta também vai cobrar explicações da Anfavea, entidade que representa a indústria automobilística nacional.

Governo anuncia investimento em infraestrutura de transporte

Dilma ainda afirmou que o governo fará uma política de investimentos nas áreas de portos, aeroportos, ferrovias e rodovias, o que incluirá concessões e outros marcos regulatórios, como parcerias público-privadas.

— Temos certeza de que estamos no caminho da estabilidade. Nós vamos fazer tudo isso mantendo a solidez fiscal, a inflação sob controle e continuando nossas políticas sociais — disse Dilma.

A presidente reconheceu que o Brasil tem sofrido os impactos da crise da zona do euro, e que todos os países do Brics — grupo de emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — vêm sendo afetados. Dilma, no entanto, disse esperar a recuperação da taxa de crescimento do país nos próximos meses.

— Acredito que nós iremos, nos próximos meses, crescer a uma taxa maior. Mas mesmo hoje nós estamos segurando o nível de crescimento, que é bastante significativo considerando a situação internacional — disse ela.

O governo vem buscando adotar medidas de estímulo diante da dificuldade da economia brasileira em deslanchar depois de o Produto Interno Bruto (PIB) ter crescido apenas 0,2% no primeiro trimestre na comparação com os últimos três meses de 2011.

Entre as medidas já adotadas, o governo anunciou benefícios fiscais a indústrias e consumidores, além de aumento das compras federais. Em outra frente, o Banco Central realizou oito cortes seguidos na taxa básica de juros desde agosto passado, para a atual mínima recorde de 8% ao ano.

26/07/2012 - 08:43h Analistas esperam pequeno recuo do desemprego

Por Tainara Machado | VALOR

De São Paulo

A desaceleração no ritmo de abertura de vagas formais no primeiro semestre não deve alterar substancialmente o quadro para o mercado de trabalho, que deve seguir pressionado, com desemprego baixo e ganhos reais de salários, avaliam economistas. De acordo com a média das projeções coletadas pelo Valor Data com 11 instituições, a taxa de desemprego deve cair para 5,7% em junho. No mesmo mês do ano passado, a desocupação era de 6,2% da População Economicamente Ativa (PEA), de acordo com dados da Pesquisa Mensal

do Emprego (PME). O intervalo das projeções para a desocupação varia entre 5,5% e 5,85% e o IBGE divulga o resultado hoje.

Alexandre Teixeira, sócio-consultor da MCM Consultores, tem o piso das estimativas para a taxa de desemprego em junho, de 5,5%. Para ele, no entanto, o desemprego tende a subir ligeiramente ao longo do segundo semestre, embora continue abaixo de 6%, na esteira de um volume menor de admissões mostrado pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Em junho, foram abertas 120 mil vagas, 44% a menos do que no mesmo mês do ano passado. Em sua avaliação, mesmo que a previsão se confirme, o desemprego permanecerá em nível bastante baixo e permitirá que o mercado de trabalho dê sustentação ao consumo e à expectativa de retomada da atividade nos próximos meses.

Robson Pereira, economista do Bradesco, acredita que o quadro para o mercado de trabalho também é de certa acomodação num patamar bastante apertado. Pereira avalia que a desaceleração das contratações com carteira assinada no primeiro semestre é uma reação defasada ao fraco ritmo de atividade econômica nos últimos três trimestres, o que deve ser revertido ao longo do segundo semestre. “Temos expectativa de que o mercado de trabalho apresente retomada mais adiante, à medida que a economia acelerar”.

Para Pereira, os cenários mostrados pelo Caged e pela PME apresentam trajetórias aparentemente divergentes por causa das metodologias e amostras distintas. Ele ressalta que o Caged avalia apenas o registro de trabalhadores com carteira assinada e, nesse segmento, o crescimento da população ocupada, na PME, também está desacelerando. Em janeiro deste ano, a população ocupada com carteira assinada aumentou 5,15% em relação a igual mês de 2011. Em maio, na mesma base de comparação, a alta foi menor, de 3,87%.

O economista do Bradesco ressalta ainda que o quadro é de acomodação, mas avalia que há espaço para reajustes reais dos salários. Caio Machado, economista da LCA Consultores, estima que o rendimento médio real deve ter alta de 4,4% em relação a junho do ano passado. “O rendimento continua a crescer por causa do salário mínimo e do baixo desemprego, que favorece o poder de barganha dos trabalhadores”, afirma.

Procura por emprego voltou a crescer, aponta Dieese

Por Carlos Giffoni | VALOR

De São Paulo

Após vários meses de estabilidade, a população economicamente ativa (PEA) voltou a crescer em junho num ritmo mais forte que a ocupação, o que aumentou a taxa de desemprego no mês, de acordo com a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), do Dieese e da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade). Em junho, a desocupação no conjunto das sete regiões metropolitanas monitoradas ficou em 10,7%, ante 10,6% em maio, e 10,9% em junho do ano passado.

De acordo com a pesquisa, a PEA aumentou em 109 mil pessoas na comparação com maio. No entanto, a ocupação cresceu em 86 mil. A diferença (23 mil) é a quantidade de desempregados a mais no mercado de trabalho nas regiões metropolitanas.

Alexandre Loloian, economista da Fundação Seade, atribuiu o crescimento da PEA à volta de pessoas que seguraram a sua entrada no mercado de trabalho neste ano, seja devido às incertezas quanto aos rumos da economia, seja para se dedicar mais tempo a outras atividades, como aos estudos.

Ana Maria Belavenuto, economista do Dieese, afirma que o comportamento do mercado de trabalho neste ano tem sido semelhante ao que ocorreu em 2011, mas com patamar menor de desemprego. “Se as previsões de crescimento em ritmo mais forte no segundo semestre forem confirmadas, a taxa pode voltar a cair a partir de setembro (movimento observado em 2011)”, disse. Há também o fator sazonal. A taxa de desemprego tende a cair no segundo semestre. A economista ainda observou pontos positivos nos dados mostrados pela pesquisa. “Vemos o avanço da formalidade no mercado, com crescimento do rendimento”.

Embora na comparação de maio com abril o rendimento médio real dos ocupados e dos assalariados tenha caído 0,4% e 0,1%, respectivamente, no confronto com o mesmo período do ano passado, ambos apresentaram alta de 2,5%. Na PED, os dados relativos à renda são sempre referentes ao mês anterior ao da pesquisa de desemprego.

24/07/2012 - 08:54h Emprego cresce menos, mas absorve toda nova mão de obra

Ruy Baron/Valor / Ruy Baron/Valor
Jorge Arbache, da UnB: ” Demografia tem ajudado a controlar o desemprego”


Por Carlos Giffoni | VALOR

De São Paulo

No primeiro semestre deste ano, o país criou 1,047 milhão de novas vagas, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) relativo a junho, divulgado ontem pelo Ministério do Trabalho. O volume de novas vagas foi 35% inferior ao mesmo período de 2011. Apesar dessa desaceleração, a abertura de vagas formais no mercado de trabalho é suficiente para absorver a oferta de mão de obra, que tem crescido menos. Números do Censo 2010 mostram que a população economicamente ativa (PEA) cresceu, em média, 1,38 milhão de pessoas por ano na última década.

Caso não haja alteração na taxa de fecundidade da população brasileira, nos fluxos migratórios e na produtividade do trabalhador, o país precisa criar cerca de 1,4 milhão de empregos formais por ano para atender a toda a oferta de mão de obra, segundo André Portela, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV). “Quando o trabalhador se especializa, ele se torna mais produtivo e é preciso menos gente para fazer a mesma quantidade de trabalho”, explica. O professor reforça que a oferta de mão de obra estrangeira e uma mudança no perfil demográfico no país podem alterar esse cenário.

Segundo o Censo, entre 2000 e 2010, a população brasileira entre 15 e 60 anos – intervalo considerado idade ativa – passou de 105 milhões para 124,2 milhões, o que é equivalente a um crescimento médio anual de 1,92 milhão de pessoas. A taxa de atividade – fatia do total que está ocupada ou à procura de um emprego e para quem é necessário criar vagas – se manteve em 72% nesse período.

Jorge Arbache, professor da Universidade de Brasília (UnB), lembra que essa desaceleração no crescimento da população em idade ativa (PIA) e da população economicamente ativa favorece o recuo do desemprego no país, que já registra mínimas históricas – em maio, a taxa de desocupação calculada pelo IBGE ficou em 5,8%. “Se a criação de vagas estivesse caindo e a PEA crescendo mais fortemente, teríamos um problema de desemprego no país, o que não ocorre. A demografia tem ajudado a controlar o desemprego”, afirma.

Segundo Arbache, a PEA no Brasil já é muito alta quando comparada aos padrões internacionais. O índice médio de 72% deixa pouco espaço para que o número de pessoas à procura de emprego cresça sem que haja respaldo do mercado de trabalho. “A PEA cresce a taxas cada vez menores. O número de pessoas que estão chegando no mercado de trabalho ainda é grande, mas as taxas são decrescentes, o que também cria espaço para que o desemprego recue”, diz. Arbache calcula que a PIA se estabilizará por volta do ano de 2020.

A partir de dados do Censo e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) de 2009, Portela, da FGV, calcula que a PEA no Brasil cresceu a um ritmo médio anual de 1,8% na última década. A Pesquisa Mensal de Emprego (PME) de maio, realizada pelo IBGE nas seis maiores regiões metropolitanas do país, já indica um crescimento mais modesto desse indicador. Na comparação com maio de 2011, a PEA cresceu 1,4% (cerca de 300 mil pessoas) e a PIA, 1,2% (cerca de 500 mil pessoas).

O professor da FGV destaca que há uma mudança corrente no perfil da mão de obra brasileira. A fatia de jovens entre 15 e 19 anos inserida na PEA tem diminuído, enquanto que a população entre 20 e 39 anos ganha espaço. Ele atribui esse movimento à maior dedicação dos jovens aos estudos, o que tem adiado a sua entrada no mercado de trabalho.

Arbache, da UnB, ressalta que a baixa produtividade da economia brasileira ainda pode tornar um problema esse crescimento em ritmo mais modesto da oferta de trabalhadores. “A desaceleração da economia já chegou ao mercado de trabalho. Os dados de criação de emprego hoje refletem isso. Notamos um nítido adiamento das contratações”, diz.

23/07/2012 - 10:49h Melhoria da educação do brasileiro contribui para queda da informalidade no trabalho

Pesquisa da FGV revela que 60% da queda da informalidade entre 2002 e 2009 decorrem da maior escolarização do brasileiro

23 de julho de 2012

Agência Brasil – O Estado SP

A formação nem sempre é de qualidade, mas o aumento do número de anos estudados tem contribuído de forma relevante para a geração de empregos com carteira assinada. Pesquisa recente do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV), revela que 60% da queda da informalidade entre 2002 e 2009 decorrem da maior escolarização do brasileiro.

Com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os pesquisadores dividiram a queda da informalidade em dois componentes. O efeito composição está relacionado à formação educacional. O efeito nível mede os demais fatores, como crescimento da economia, expansão do crédito e medidas de estímulo pelo governo. A predominância da educação surpreendeu os pesquisadores.

“Esse resultado nos causou perplexidade, e mostra, acima de tudo, que a educação está mudando diversos aspectos da economia do país, inclusive a estrutura do mercado de trabalho”, diz Rodrigo Moura, que fez a pesquisa com o professor Fernando Holanda Barbosa Filho. O estudo considerou como trabalhadores informais apenas os empregados sem carteira assinada. Profissionais que trabalham por conta própria, como eletricistas e encanadores, foram enquadrados como trabalhadores formalizados.

Pelo critério dos pesquisadores, a taxa de informalidade entre os trabalhadores caiu de 43,6% em 2002 para 37,4% em 2009. No mesmo período, foram criados cerca de 9 milhões de empregos com carteira assinada em todo o país. Em todas as faixas educacionais, a taxa de informalidade caiu. Esse recuo está ligado ao efeito nível porque, para um mesmo nível de escolaridade, a economia criou mais empregos formais.

O efeito composição aparece ao comparar o tempo de estudo ao total da força de trabalho. De 2002 a 2009, a parcela de trabalhadores sem o ensino médio completo caiu de 66% para 53%. Nesse caso, o mero ganho de anos de estudo impulsiona significativamente a formalização, porque a proporção de trabalhadores informais é bem maior na população de menor escolaridade.

Com ensino médio completo, o vendedor Rodrigo Castro, 21 anos, trabalha em uma banca de produtos de informática na Feira dos Importados, em Brasília. Ele acredita que o estudo foi determinante para conseguir emprego com carteira assinada. “A educação não me qualificou muito bem, mas ajudou”, diz. Antes do primeiro emprego formal, Rodrigo trabalhou por cerca de um ano e meio sem carteira assinada em uma lan house no interior da Bahia.

Para Rodrigo Moura, coautor da pesquisa da FGV, depois de elevar o tempo de estudo da população, o próximo desafio do país será a melhoria da qualidade do ensino. “O Brasil hoje tem maior proporção de trabalhadores com nível médio e superior, mas o percentual de instituições privadas de ensino superior de alta qualidade é bem baixo”, diz.

Apesar da qualidade questionável de boa parte das instituições de ensino superior, a gerente de lanchonete Fernanda dos Santos, 30 anos, não pretende desistir de estudar. Atualmente no primeiro emprego formal, ela tem o ensino médio completo, mas pretende cursar administração para conseguir um trabalho melhor e se adaptar a um mercado cada vez mais exigente. “Hoje, boa parte dos empregadores só aceita quem tem nível superior”, constata.

23/07/2012 - 10:41h Avanço do emprego formal é irreversível, diz especialista


Nem a atual desaceleração da economia é capaz de fazer a informalidade voltar a subir.

23 de julho de 2012

Agência Brasil – O Estado SP

Impulsionado pelo aumento da escolaridade do brasileiro, o avanço no emprego formal desde 2002 é irreversível. Na avaliação dos autores de pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV), nem a atual desaceleração da economia, que tem reflexos na criação de empregos, é capaz de fazer a informalidade voltar a subir.

Segundo Rodrigo Moura, um dos autores do estudo, a educação é justamente o fator que impede o retorno dos empregos precários, por causa da conscientização em relação aos direitos trabalhistas e previdenciários. “A população mais educada aceita menos o contrato informal. Essa tendência é observada para qualquer ano em que a taxa de informalidade cai”, explica.

Com direitos previdenciários e trabalhistas assegurados por lei, quem passa por um emprego com carteira assinada não quer voltar ao mercado informal. Funcionária de uma lanchonete, Fernanda dos Santos, 30 anos, está no primeiro emprego formal. Há dois anos começou como auxiliar, mas foi subindo de posto até ser promovida a gerente. Ao comparar a experiência com o trabalho anterior, ela constata que o emprego legalizado dá segurança.

Antes da lanchonete, Fernanda trabalhou oito meses como recepcionista, sem carteira assinada, num curso de inglês, de onde foi mandada embora sem aviso prévio. “Quando você trabalha sem carteira assinada, você está entrando sem nada e, com certeza, vai sair sem nada”, constata. Outro problema de não ter carteira assinada, destaca, é a dificuldade em comprovar o tempo de experiência no trabalho. “O empregador pede o registro na carteira para verificar os trabalhos anteriores”.

O vendedor de produtos de informática Rodrigo Castro, 21 anos, também está no primeiro emprego formal e lista os benefícios do trabalho legalizado. “Trabalhar com carteira assinada tem muitos benefícios de que não posso abrir mão, como aposentadoria”, ressalta Rodrigo, que também não quer voltar à informalidade. Antes do atual emprego, ele trabalhava em uma lan house no interior da Bahia sem carteira assinada. “Não trabalharia novamente num emprego informal”, diz.

Em épocas de desaceleração da economia, como a atual, a geração de empregos formais está em queda. Segundo o Cadastro Geral de Emprego e Desemprego (Caged), do Ministério do Trabalho, 250,3 mil postos de trabalho formais foram criados no país nos cinco primeiros meses do ano, o nível mais baixo para o período desde 2009. Apesar de uma possível estagnação no mercado de trabalho, o professor da FGV acredita que não haverá reversão no processo de formalização da economia.

“Mesmo que o nível de emprego se acomode, há um fluxo muito alto do trabalho informal para o formal. Quando uma vaga de emprego informal é destruída e uma vaga formal é criada, só ocorre uma mudança entre setores, o que deve continuar”, alega.

19/07/2012 - 01:13h Emprego com carteira sobe mais na construção

Número de trabalhadores formais no setor quase dobrou entre 2003 e 2011, segundo dados do IBGE

Ana Carolina Negri/Valor / Ana Carolina Negri/Valor
Antonio Ramalho: “O pedreiro aceitava trabalhar informalmente, mas agora houve uma conscientização”


Por Carlos Giffoni | VALOR

De São Paulo

A construção civil viveu um boom de formalização ímpar no mercado de trabalho brasileiro nos últimos nove anos. O número de trabalhadores com carteira assinada cresceu 95,2% entre 2003 e 2011. No mesmo período, na média dos demais setores, a população ocupada com carteira cresceu muito menos – 48,2%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A falta de mão de obra no setor fez com que empresas tomassem iniciativas para reter seus trabalhadores e, a mão de obra, ciente da sua valorização, passou a exigir maiores benefícios.

Em 2003, 4,8% dos trabalhadores com carteira assinada atuavam na construção civil, de acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego (PME). No ano passado, esses trabalhadores representavam 6,3% do mercado de trabalho formal das seis regiões metropolitanas contempladas pela pesquisa. Apesar de o setor ainda ocupar um pequeno espaço no estoque de vagas, esse aumento de 1,5 ponto percentual representou 337 mil funcionários com carteira assinada a mais na construção civil (alta de 95,2%). Na indústria, o número de trabalhadores formais cresceu 28,5% entre maio de 2003 e maio de 2012 e, no comércio, 47%. No mesmo período, a população ocupada cresceu apenas 21,3%, chegando a 23 milhões em maio.

A redução do nível de atividade das incorporadoras imobiliárias ainda não teve reflexo no emprego, que cresce com ajuda das obras relacionadas ao setor público. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), a geração líquida de vagas na construção civil aumentou 30,4% de janeiro até maio deste ano, na comparação com igual período de 2011 – o saldo é de 192,9 mil trabalhadores formais incorporados ao setor nos primeiros cinco meses de 2012. Nesse período, o emprego na construção civil cresceu mais que em outros setores da economia e ganhou participação no mercado de trabalho formal, representando 22% das 877,9 mil vagas criadas até maio no país. Em igual intervalo de 2011, a participação do setor foi de 12,6%.

“Quando têm boas perspectivas de crescimento, as empresas contratam mais com carteira assinada. A construção civil foi o setor que mais sentiu o estrangulamento de pessoal no passado recente, independentemente das incertezas quanto à atividade durante as crises internacionais”, diz Alexandre Loloian, economista da Fundação Seade.

Para Silvano Aragão, diretor de recursos humanos da construtora mineira Caparaó, a crise de 2008 trouxe efeitos positivos para o mercado de trabalho da construção civil no Brasil ao redirecionar o foco de investimentos no país. “Desde a crise, a construção civil passou a ser mais demandada. Muitos investimentos foram destinados à infraestrutura e construção com a queda da rentabilidade das ações”, explica.

Aragão diz que o aumento da demanda por obras expandiu a procura por trabalhadores e, consequentemente, os esforços das empresas para retê-los – implicando o aumento da formalização. “Antes, bastava colocar um anúncio em porta de obra que ‘chovia’ candidato. Muitas empreiteiras empregavam sem registro em carteira. Com o boom desse mercado, os trabalhadores viram a força que tinham e começaram a fazer exigências. O medo do desemprego desapareceu.” Ele explica que nesse momento as empresas começaram a expandir os benefícios como plano de saúde e auxílio alimentação, que incentivam o trabalhador a permanecer na empresa.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil em São Paulo (Sintracon-SP), Antonio Ramalho, acredita que a mão de obra ficou mais consciente. “O pedreiro aceitava trabalhar informalmente, porque achava que recebia mais sem carteira assinada, mas houve uma conscientização.”

No passado, não era raro que o trabalhador negociasse um salário “maior”, sem carteira assinada. Isso desonerava o empregador de impostos e benefícios obrigatórios. No entanto, para o presidente do Sintracon-SP, o salário absoluto maior é uma vantagem aparente. “O trabalhador informal perde as férias, o 13º salário, o fundo de garantia. É sempre ruim.”

De acordo com o IBGE, 1,8 milhão de pessoas trabalham na construção civil nas seis regiões metropolitanas englobadas pela PME. Foram criadas cerca de 325 mil vagas no setor desde 2003 – preenchidas em sua totalidade pelos novos 337 mil formalizados.

Apesar de a formalização ter avançado fortemente na construção civil nos últimos anos, o trabalhador com carteira assinada no setor privado ainda representa menos da metade da população ocupada no setor (40,1%, em maio), enquanto os sem carteira representam 16,6%. Um grupo representativo na construção civil é o de trabalhadores por conta própria que são 37,6% do total.

Entre 2003 e 2011, houve uma migração de trabalhadores sem carteira assinada (queda de 22 mil) para trabalhadores por conta própria no setor (aumento de 29 mil), segundo especialistas consultados. “Quando você libera o financiamento do FGTS para aquisição de material de construção, muitas pessoas viram nisso uma oportunidade de trabalhar por conta própria, já que a construção civil continua crescendo muito em todo o país”, diz Ramalho.

Loloian, da Seade, observa que as empresas também viram vantagem em se formalizar. “Houve um forte aumento no número de assalariados formais por conta da formalização obrigatória para as empresas que buscavam financiamento, com a série de aberturas de capital na bolsa nos últimos três anos”, diz.

O resultado da formalização na construção civil é visível não somente na disputa por mão de obra mas também na remuneração do setor. O salário de admissão no setor já é maior que na indústria de transformação. Segundo Aragão, da Caparaó, um pedreiro recebe cerca de R$ 1,2 mil por mês em Belo Horizonte. Somando as horas extras, sua remuneração mensal chega a R$ 2 mil. “A qualidade de vida dessas pessoas melhorou muito. Existe muito universitário que se forma na faculdade e começa ganhando menos no mercado de trabalho”, diz. No entanto, a PME já aponta que o rendimento médio real dos trabalhadores na construção civil tem recuado (3,2% na comparação entre os meses de maio de 2012 e do ano passado).

15/07/2012 - 10:02h Crise ainda ‘poupa’ mercado de trabalho

Desaceleração econômica não afeta empregos substancialmente. Cenário pode mudar se incertezas permanecerem no ano que vem
15 de julho de 2012

MÁRCIA RODRIGUES – O Estado de S.Paulo

A economia em marcha lenta e a crise financeira internacional não devem afetar o mercado de trabalho de forma significativa neste ano, embora setores da indústria registrem desemprego.

“Se o cenário de desaceleração econômica persistir, podemos começar a sentir um encolhimento, ainda que pequeno, apenas a partir do primeiro quadrimestre do ano que vem. Antes, o cenário continua positivo para a maioria dos setores”, prevê o professor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), Luiz G. Brom, doutor em sociologia e especialista em mercado de trabalho.

Segundo Brom, apesar da desaceleração, não há ainda um reflexo no mercado de trabalho. “Se vai apresentar em médio prazo, vai depender da própria performance econômica nos próximos meses. Porém, nós não podemos esquecer de que o Brasil teve altas taxas de crescimento muito recentemente.”

Para o economista, mesmo que o País cresça pouco em 2012, ele vai crescer pouco, mas depois de ter crescido muito nos últimos anos. “Estamos em um patamar de atividade muito mais elevado do que há alguns anos. Por outro lado, se o esfriamento continuar, o mercado de trabalho deverá sofrer consequências. Mas no momento nenhuma pesquisa ou indicador demonstra este quadro”, diz.

Brom cita como exemplo os indicadores de maio da pesquisa mensal de emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Eles são positivos. Alguns setores, inclusive, demonstram acréscimo.” Entre os setores que continuaram com a criação de vagas em alta estão: construção, que passou de 7,7% em maio do ano passado para 7,9% para o mesmo mês neste ano; atividades financeiras, que foi de 15,9% para 16,3% no mesmo período; e serviços, que foi de 17,4% para 17,6% (veja tabela completa acima).

“O único setor que vem registrando queda no número dos postos de trabalho é a indústria”, afirma o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), Hélio Zylberstajn.

Segundo o professor, a indústria tem mostrado incapacidade de criar vaga já há algum tempo. “O setor não está conseguindo ser competitivo. Não consegue exportar e vem perdendo mercado interno por conta do aumento das importações.”

De acordo com o indicador do IBGE, a criação de postos de trabalho foi de 16,7%, em maio de 2011, para 16,1% no mesmo mês deste ano. Outra pesquisa, divulgada na última quinta-feira pela Federação e o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp), apontou que a indústria paulista fechou sete mil postos de trabalho em junho, registrando uma queda no mês de 0,39% (veja matéria abaixo).

“Apesar do encolhimento na criação de vagas registrado na indústria, o mercado de trabalho não vem sentindo a retração, porque o setor representa apenas 20% dos postos abertos no País”, afirma Zylberstajn.

Outro economista que acredita que o único impacto da crise vem sendo sentido apenas pela indústria é o professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Rodrigo Leandro Moura. “Enquanto a indústria sinaliza uma pequena retração, já que a taxa de desemprego continua baixa, percebemos um acréscimo na população ocupada (pessoas economicamente ativas) no trabalho informal.”.

De acordo com o professor, é possível medir este crescimento, porque a pesquisa do IBGE contabiliza, além dos trabalhadores que atuam com ou sem carteira assinada, os profissionais que exercem suas atividades por “conta própria” e os empregadores, ou seja, todas as pessoas que possuem algum tipo de rendimento. O porcentual de ocupados passou de 53,6%, em maio de 2011, para 54,2%, em maio deste ano. Enquanto o de desocupados caiu de 3,6% para 3,3% no mesmo período. “Um fator que pode ter contribuído para este acréscimo é o aumento da adesão ao microempreendedor individual (MEI)”, comenta Moura.

Economista da LCA Consultores, Caio Machado acredita que o cenário deve melhorar no segundo semestre, por conta das medidas econômicas anunciadas pelo governo. “Além dos fatores sazonais, como a abertura de vagas temporárias que ocorrem neste período, a expectativa é de as medidas monetárias e fiscal do governo comecem a se refletir no desempenho das empresas nos próximos meses.”

Opinião semelhante tem a vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Elaine Saad. Segundo ela, alguns setores continuam sofrendo com a escassez de mão de obra qualificada. E, mesmo com a economia desacelerada, ainda devem continuar com as contratações em alta. “O déficit em alguns casos é tão grande, que não será possível sentir a falta de postos de trabalho.”

Entre os setores que manterão as contratações estão engenharia, principalmente a civil e de petróleo e gás, e tecnologia da informação. “Esta crise não está tão perceptível para o mercado de trabalho como a de 2009. Não estamos percebendo fechamento de vagas”, diz.

22/06/2012 - 09:14h Desemprego surpreende e cai a 5,8%


Caged, porém, apura menor saldo de vagas criadas para maio em 3 anos, 139.679 postos; diferença de metodologia explicaria divergência

22 de junho de 2012

DANIELA AMORIM / RIO – O Estado de S.Paulo

Duas pesquisas que medem o nível do emprego no País apresentaram resultados aparentemente contrastantes em maio. Enquanto os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego mostraram o menor saldo de vagas criadas para o mês desde 2009 – apenas 139.679 postos – a Pesquisa Mensal de Emprego, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, registrou número recorde de ocupados, com 22,984 milhões de pessoas.

As diferenças metodológicas entre as duas pesquisas podem explicar a diferença. O dados do Caged são fornecidos pelos empregadores em todo o País e reúnem apenas postos com carteira assinada. A PME é baseada nas informações dos próprios empregados e apenas em seis regiões metropolitanas do País, mas abrange todo o tipo de trabalho, inclusive o informal.

“Os dados da indústria e da agropecuária no Caged estão muito fracos, mas normalmente ficam fora das regiões metropolitanas. E a PME ainda capta mais os serviços, porque se concentram nas regiões metropolitanas. Há uma resistência ainda no emprego no setor de serviços”, explicou Rafael Bacciotti, economista da Tendências Consultoria Integrada.

A despeito do ritmo fraco da atividade econômica no País, a taxa de desemprego medida pelo IBGE recuou de 6% em abril para 5,8% em maio, o menor patamar para o mês desde 2002. O resultado intrigou economistas, que não esperavam fôlego na retomada das contratações num momento em que a economia patina, e ainda procuram explicações.

Produtividade. “Pode ser que a produtividade esteja caindo, que tenha que colocar mais gente para produzir a mesma coisa, ou que tenha mais gente trabalhando no setor de serviços”, avaliou Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central.

O aumento na renda real do trabalhador, impulsionado pelo reajuste do salário mínimo em janeiro, estimula a demanda por serviços, justamente o setor que aponta um saldo maior de vagas na PME. A renda média do trabalhador teve um aumento real de 4,9%, na comparação com maio de 2011. No mesmo período, houve aumento nas contratações nas atividades de educação, saúde e administração pública (217 mil novas vagas); outros serviços, que incluem hotel e recreação (140 mil vagas), e serviços prestados a empresas (176 mil vagas).

“Esse setor da economia está muito aquecido ainda. É só ver os dados da Pesquisa Mensal do Comércio, com alguns setores crescendo 6%, 7%, 8% em relação ao ano passado. É um negócio que se retroalimenta: aumento do pessoal ocupado e aumento da renda, consequentemente a expansão da massa salarial estimula a demanda por serviços e bens de comércio, e esses setores seguem aquecidos”, avaliou Rafael Bistafa, economista da Rosenberg & Associados.

Segundo dados do PIB divulgados pelo IBGE, o setor de Serviços cresceu 1,6% no primeiro trimestre de 2012, em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto o Consumo das Famílias avançou 2,5%. No mesmo período, a indústria ficou estagnada (0,1%).

Os dados se refletem no emprego industrial, caracterizado pela formalização da mão -de obra. A pesquisa do IBGE mostrou um corte de 51 mil postos de trabalho na indústria em maio, em relação ao mesmo mês de 2011. Entretanto, a troca do emprego na indústria por vagas no comércio e nos serviços pode ter reflexos no mercado de trabalho no futuro.

“Como o setor industrial é o que gera empregos com maiores salários, eventualmente essa destituição de empregos na indústria vai pesar no salário, que vai pesar na demanda dos outros setores da economia, e haverá uma reversão na taxa de desemprego”, alertou José Márcio Camargo, professor da PUC-Rio e economista-chefe da Opus Investimentos.

08/06/2012 - 07:38h Trabalhador muda mais de emprego

Por Carlos Giffoni | VALOR

De São Paulo

O aquecimento do mercado de trabalho e a falta de mão de obra em alguns setores estão levando os trabalhadores a trocar mais de emprego. De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o índice de pessoas que fica menos de um ano no emprego vem aumentando desde 2006. Por outro lado, cai o índice de profissionais que estão há mais de cinco anos no mesmo trabalho. Esse movimento é visível na taxa de rotatividade calculada pelo ministério, que aumentou cerca de 30% desde 2006.

Em 2011, 19,8 milhões de trabalhadores foram desligados (demitidos ou a pedido) e outros 21,8 milhões foram admitidos, indicando que 55% do total de vagas existentes no mercado de trabalho no final de 2010 “trocou” de ocupante ao longo do ano seguinte. Esse índice, conhecido como taxa de rotatividade, era de 42% em 2006.

Em abril de 2012, último dado disponível, 16,7% dos trabalhadores estavam no máximo há um ano no atual emprego (considerando a população ocupada em empregos formais). A fatia de profissionais nessa condição vem aumentando. Em 2006, eles eram 13,3% do total.

Fabio Romão, da LCA Consultores, acredita que a formalização do mercado de trabalho contribui para que esse resultado se acentue. “O aumento do emprego formal incorporou muitos trabalhadores nas estatísticas do MTE. E eles [os trabalhadores que foram formalizados ] normalmente estão há pouco tempo no emprego. Na maior parte, são pessoas de nível de instrução e qualificação mais baixos, o que, no passado, dificultava que elas tivessem a carteira assinada.”

Segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de ocupação sem carteira de trabalho assinada no setor privado passou de 14,6% para 10,5% entre os meses de abril de 2006 e deste ano, enquanto os com carteira assinada, que representavam 41,7% dos ocupados, hoje são 48,9%, na mesma comparação.

O economista da LCA explica que a escassez de mão de obra em alguns segmentos do mercado de trabalho força o empregador a ocupar essas vagas formais com profissionais que, muitas vezes, não estão preparados para o cargo. “O empresário não tem escolha. Esse grupo de pessoas, que entra no mercado de trabalho formal, é o principal responsável pelo aumento da rotatividade”, diz Romão.

Para Romão, o setor de serviço doméstico no Brasil ilustra bem esse movimento. “O empregado doméstico claramente migrou para outros serviços. Existe a questão de status, mas, principalmente, esse profissional está buscando ter a carteira assinada, o que é raro nessa ocupação.” Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2009, do IBGE, apenas 26,8% dos trabalhadores domésticos eram formalizados.

Na outra ponta, cai o índice de trabalhadores que estão há mais de 60 meses no emprego. Em abril de 2006, eles eram 41,9% dos ocupados formais, segundo o MTE. Em abril deste ano, 36,4%. “É cada vez mais raro uma pessoa fazer carreira dentro da empresa. O funcionário sobe alguns postos e consegue migrar”, diz Luiz Scorzafave, professor da Faculdade de Economia da USP em Ribeirão Preto. Ele explica que um mercado de trabalho aquecido como o brasileiro permite que as pessoas estejam sempre atentas a novas oportunidades. “Baixo desemprego e pressão salarial aumentam a rotatividade.”

Entre abril de 2006 e igual mês em 2012, a taxa de rotatividade no mercado de trabalho no Brasil cresceu 29,5%. De acordo com os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), em abril deste ano, 4,13% do total de 38,3 milhões de vagas formais passaram por um “rodízio” de profissionais nesse período – um trabalhador saiu e outro o substituiu. Em abril de 2006, essa “troca” envolveu 3,2% das vagas.

Correr esse risco depende do cenário macroeconômico, na avaliação de Scorzafave. “A alta rotatividade tende a se acomodar de acordo com a economia do país. Quando o desemprego começa a crescer, as pessoas param de trocar de emprego”, diz.

A alta rotatividade de um trabalhador pode dificultar a sua ascensão no emprego. Isso ajuda a explicar como é na mão de obra menos qualificada – e que recebe menores salários – onde se concentra a maior parte desse rodízio. Está aumentando a fatia de trabalhadores que ganha até dois salários mínimos entre aqueles que ficam até 12 meses. Em abril deste ano, 86,5% dos trabalhadores que estavam há menos de um ano no trabalho se concentravam nessa faixa salarial.

Romão não descarta que a diferença entre gerações contribui para o aumento da taxa de rotatividade. “Quem entra no mercado de trabalho hoje não viveu um histórico de inflação alta e incertezas quanto ao futuro, isso acaba deixando a pessoa com mais disposição a arriscar”, explica.

O custo do trabalho tem aumentado não somente via salários, devido à escassez de mão de obra, mas também devido à alta rotatividade, para Romão. Ele explica que o empregador precisa gastar mais com treinamento e, em alguns casos, contrata pessoas menos aptas àquela atividade do que as que ocupavam os mesmos cargos anteriormente. “O custo do trabalho aumenta sem que haja ganho de produtividade”, explica.

Apesar de o emprego formal no Brasil mostrar uma evolução na taxa de rotatividade e de haver perda de participação daqueles que estão há mais tempo no mesmo emprego, a PME mostra um movimento diferente nas seis regiões metropolitanas analisadas pelo IBGE. Desde 2002, quando a série foi iniciada, verificou-se um aumento de 14,1% no tempo médio de permanência do trabalhador no mesmo emprego. Em abril deste ano, ele estava em 358,9 semanas (cerca de sete anos), resultado próximo ao recorde apurado em fevereiro deste ano, de 359,1 semanas.

Adriana Beringuy, técnica da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do IBGE, acredita que a menor abrangência geográfica da pesquisa e a incorporação do trabalho informal na pesquisa explicam essa diferença entre os dados. “Os trabalhadores sem carteira assinada ou que não têm vínculo empregatício em regime de CLT, como quem trabalha por conta própria, somam 7 milhões entre os 22 milhões que compõem a população ocupada na PME. O aumento do tempo médio de permanência no emprego desses grupos, que não são considerados pelo Ministério do Trabalho, têm peso grande no resultado da pesquisa”, explica.

30/05/2012 - 08:46h Emprego para a classe C preocupa o governo


Objetivo de programa é evitar que trabalhadores mudem de emprego com frequência e possam manter uma relação de longo prazo com empregadores

30 de maio de 2012

BIANCA RIBEIRO – O Estado de S.Paulo

A Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) estuda programas que assegurem aos participantes da nova classe média que continuem a fazer parte dessa classe social mesmo em uma situação de riscos que podem surgir com o agravamento da crise econômica. Dentre as preocupações do governo federal, está a ampliação de relações mais estáveis de trabalho formal.

De acordo com o Secretário de Ações Estratégicas, Ricardo Paes de Barros, o governo quer evitar que os trabalhadores mudem de emprego com tanta frequência em busca de salários e condições melhores de trabalho e possam construir uma relação de longo prazo com seus empregadores. Para isso, uma das propostas em estudo envolveria investimento do governo na capacitação dos empregados que permaneçam na mesma empresa.

“Hoje, a rotatividade no emprego é muito grande. Se antes o grande sonho era ter um emprego formal, agora a meta é ter um emprego formal estável”, disse o secretário, reforçando que o interesse do governo é tornar mais interessante ao trabalhador a permanência no trabalho.

Uma das ideias avaliadas é um sistema de cupom anual, em que o trabalhador ganharia uma qualificação para cada ano de permanência. Com isso, a expectativa é de que o empregado desenvolva um plano de carreira na própria empresa sem precisar se deslocar em busca de melhores ofertas. O governo pagaria essa qualificação, visando a um aumento de produtividade das empresas.

Divisão. O governo federal fatiou a nova classe média em três subclasses definidas pela renda familiar mensal per capita. Agora, a categoria classe média é formada por baixa classe média, com renda entre R$ 292 e R$ 441, seguida de uma média classe média, formada por uma renda per capta de R$ 442 a R$ 641, e por uma alta classe média, com renda entre R$ 642 e R$ 1.019.

Com essa nova configuração, o governo também estima que, neste ano, a chamada classe média é representada por 54% da população. Em 2001, essa fatia estava quantificada em 37% do total.

De acordo com a SAE, a classe alta também foi subdividida em duas categorias: a baixa classe alta, com renda entre R$ 1.020 e R$ 2.480, e a alta classe alta, acima desse valor.

Na classe pobre, os limites também mudaram. São considerados extremamente pobres aqueles com renda de até R$ 81. Os pobres, mas não extremamente pobres, têm renda entre R$ 82 e R$ 162.

08/05/2012 - 11:04h Desigualdade como fator de flutuações econômicas

Por Roger Lowenstein | Bloomberg Businessweek | VALOR

Deveríamos ficar preocupados com o fato de nos EUA 1% da população responder por 21% da renda nacional? Deveríamos ficar mais preocupados com o fato de a faixa intermediária da pirâmide social estar ficando para trás, ou o topo da pirâmide estar em disparada? Até recentemente, a maioria dos economistas ignorava essas questões. As exceções eram geralmente de tendência esquerdista – isto é, defendiam uma distribuição mais igualitária da renda.

James K. Galbraith, economista da Universidade do Texas em Austin e filho de John Kenneth Galbraith, se encaixa nesse padrão. “Inequality and Instability”, seu livro mais recente, é produto de anos de estudo de um campo que, diz, estava “esquecido”. Ele rejeita a visão convencional de que a desigualdade é o preço justificável que a sociedade precisa pagar para ter mercados flexíveis.

Em vez disso, Galbraith culpa o setor financeiro pela disparidade de renda, o que desestabilizaria a economia. (Ele posou para a foto do autor no Zucotti Park durante o acampamento promovido na praça pelo movimento Ocupe Wall Street, no ano passado.)

Com o presidente Barack Obama propondo taxar os milionários e até mesmo os republicanos condenando Mitt Romney pelo pecado de ter ficado rico, o momento escolhido por Galbraith certamente é oportuno: a desigualdade caminha para se tornar um tema que vai definir o ano eleitoral.

Neste livro, Galbraith se propõe uma tarefa simples: determinar se a desigualdade leva a níveis maiores ou menores de crescimento para a sociedade como um todo. A resposta não é nada simples. Por exemplo, os países que são “desiguais” em termos de renda não se parecem, assim como aqueles que são desiguais em termos de gastos do consumidor. E dois trabalhadores podem ter salários equivalentes e mesmo assim ter carteiras de ações desiguais. Um tipo de desigualdade tem mais importância que o outro?

Baseando-se em uma rica variedade de dados, Galbraith imagina se as instituições democráticas promovem a igualdade e constata que, no geral, isso não acontece. Ele não rebate diretamente o argumento de que mercados flexíveis podem beneficiar a sociedade, mas apenas os declara insignificantes, vazios. Parece-lhe bastante alegar que todo aumento da desigualdade deve ser lamentado – até mesmo em Cuba, no momento em que o país sai lentamente do torpor stalinista.

Segundo Galbraith, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês) “aumentou muito a desigualdade entre o norte do México e o resto do país”. Ele parece dizer que o norte ficou mais rico. Isso é ruim? Certamente não. Uma disparidade de renda maior pode apenas refletir uma economia em transição – para melhor ou para pior. Galbraith reconhece isso quando diz que a desigualdade nos Estados Unidos caiu junto com o colapso da indústria automobilística, porque passou a haver menos empregos com salários relativamente altos. “É claro que isso não é uma boa notícia, e soa como um alerta contra a consideração de qualquer estatística de desigualdade, por si, como um indicador de bem-estar social.”

Galbraith afirma que, ao contrário do que geralmente se pensa, prosperidade e igualdade andam de mãos dadas. Entre as evidências há o fato de que o nível de emprego tende a aumentar quando as diferenças salariais são comprimidas. (Não fica claro o que é causa e o que é efeito, o que é o problema desses estudos.) A Escandinávia, igualitária e próspera, é o melhor exemplo citado por Galbraith. Os EUA, onde “a prosperidade está associada ao aumento da desigualdade de renda”, seriam uma exceção. Mas Galbraith desconsidera essa exceção, uma vez que a desigualdade, no caso, não está amplamente presente na sociedade: foi provocada pelos poucos que faturam em Wall Street.

“Um morador de Ohio ou da Geórgia”, diz Galbraith, “apercebeu-se pouco disso diretamente.” As escalas de remuneração mantinham-se relativamente estáveis. A desigualdade, diz, foi fruto da posse de ações; literalmente, acompanhou a Nasdaq. Poucos perceberam que os dois fenômenos eram, na verdade, espelhados. Ao atribuir toda a culpa ao mercado de ações, Galbraith descarta a noção, bastante comum, de que a renda vem subindo porque, em uma economia globalizada, a capacitação comanda salários melhores. Ele não vê motivo para estender-se sobre essa noção. Nem se ocupa dos advogados, professores universitários e atletas cujas rendas dispararam, independentemente do mercado.

Há poucas soluções neste livro, além do que é sugerido pela afeição de Galbraith pelo envolvimento do Estado. Ele acredita que a desigualdade varia de acordo com o nível de desenvolvimento. Assim, “todas as sociedades agrárias feudais, todas as economias tecnológicas (…) vão se parecer mais umas com as outras do que se parecem com outros países.”

Isso o leva a criticar as instituições financeiras multinacionais, que ele culpa por alimentar a desigualdade no mundo. Galbraith se volta contra o projeto de unificação da Europa, que, segundo ele, coincidiu com o aumento do desemprego. Critica a “monomania antiinflacionária do Banco Central Europeu”. Critica o thatcherismo, o reaganismo e o encolhimento do estado do bem-estar social que todos esses “ismos” produziram. Critica as “políticas agressivas de juros altos (…) que começaram no início da década de 1980″.

A crítica aos juros é enganosa; depois de inicialmente subirem bastante, as taxas, nos EUA e outros países, começaram a cair no início da década de 1980, e continuaram caindo no transcorrer dos excessos financeiros das últimas décadas. Mesmo assim, Galbraith dificilmente está errado ao afirmar que, com o encorajamento dos bancos centrais e outros órgãos oficiais, o setor financeiro hoje abocanha uma parcela muito maior da renda total do que antes. E essa maior financeirização das economias mundiais é, acredito eu, o “x” do problema da queixa de Galbraith.

“A desigualdade crescente”, escreve, “é um sinal de alerta de que algo está errado.” O que pode ser isso? Sua tese é de que a desigualdade das últimas três décadas – motivada pelo mercado de ações e o papel crescente das finanças – leva inexoravelmente à instabilidade. E o caos e a instabilidade, ou as bolhas e os “crashes”, estiveram claramente em alta durante esse período. Isso Galbraith não pode tolerar. Ele compara os ciclos de negócios recentes a “ondas, em que certos setores e áreas percorrem a crista, antes de espatifar na praia”, deixado vítimas inocentes em sua esteira. A destruição criativa da qual os capitalistas se orgulham é, segundo Galbraith, destruição total.

“Inequality and Instability – A Study of the World Economy Just Before the Great Crisis”

James K. Galbraith. Oxford University Press. 336 págs., US$ 29,95

02/05/2012 - 08:45h Uma visão benigna do mercado de trabalho

Por Cristiano Romero – VALOR

O índice de desemprego, que vem caindo de forma persistente desde 2003, seguirá em queda neste e no próximo ano. Recuou, nas seis principais regiões metropolitanas, de uma média de 12,3% naquele ano para 6% em 2011. Isso, por si só, já é uma ótima notícia, mas a boa nova não para por aí. Ao contrário do que se imagina, o aquecimento contínuo do mercado de trabalho não representa neste momento um fator de risco para a inflação.

Iconoclasta, o economista Nilson Teixeira, com a ajuda de seu time de analistas do banco Credit Suisse, estudou os números do emprego por dentro e chegou a conclusões reveladoras. Seu trabalho derruba mitos, como o de que há escassez de mão de obra qualificada no país e de que o mercado de trabalho aquecido estaria aumentando os salários de forma significativa.

Uma das constatações de Teixeira é que o recente crescimento do emprego no Brasil tem alterado a composição da ocupação. “As pessoas têm migrado de ocupações informais e caracterizadas por baixa produtividade para outros setores que oferecem melhores condições de trabalho e produtividade mais elevada”, explica. “A redução do subemprego e a maior utilização de capital em algumas atividades são processos que estão elevando a disponibilidade de mão de obra na economia.”

Baixo desemprego ainda não traz riscos à inflação

De fato, as Contas Nacionais, apuradas pelo IBGE, mostram que, graças à mecanização, o percentual de trabalhadores ocupados na agropecuária caiu de 22,3% em 2000 para 17,4% em 2009. Isso liberou 833 mil trabalhadores para a indústria e o setor de serviços.

O Brasil é um dos países que mais têm trabalhadores na agropecuária. Entre os ricos, os que têm menos são a Inglaterra (1,4%), os EUA (1,5%) e a Bélgica (1,8%). Entre os emergentes, os que têm mais são a Indonésia (38,6%), Filipinas (31,1%), Turquia (23,7%) e Colômbia (17,5%). O contínuo processo de ganho de eficiência do agronegócio brasileiro tende a fornecer, portanto, mais trabalhadores a outros setores da economia nos próximos anos.

Outros fatores que têm reduzido o risco de escassez de mão de obra são a queda do subemprego e a menor participação da indústria manufatureira no emprego metropolitano. De acordo com a Classificação Brasileira de Ocupações dos microdados da Pesquisa Mensal do Emprego do IBGE, as ocupações que mais contribuíram para o crescimento da população ocupada entre 2003 e 2011 foram as dos profissionais de nível superior, trabalhadores de serviços administrativos, de atendimento ao público e do comércio.

No mesmo período, a participação do emprego na indústria de transformação caiu de 10,1% para 8,7%. Nas ocupações conhecidas como subemprego, como as de serviços domésticos, o recuo foi de 6,6% em 2003 para 6,2% do total em 2011. No caso de vendedores ambulantes e camelôs, a queda foi de 3,2% para 2,2%. O que está ocorrendo no Brasil é salutar: empregadas domésticas e camelôs estão conquistando empregos formais e de melhor qualidade.

“Esses resultados nos sugerem que, além da incorporação do estoque de desempregados, a oferta de trabalhadores no país pode ser elevada nos próximos anos pela mecanização da atividade agropecuária e industrial e pela redução do subemprego. Esses movimentos diminuem ainda mais o risco de a escassez de mão de obra se tornar um obstáculo à continuidade do ciclo de crescimento econômico”, observa Teixeira.

O economista do Credit Suisse acredita que a melhor maneira de medir pressões inflacionárias decorrentes do mercado de trabalho é verificar a evolução do salário real. Entre 2006 e 2011, enquanto a taxa de desemprego média anual recuou de 10,01% para 6%, o crescimento do rendimento médio real da população ocupada oscilou pouco em relação à média de 3,4% do período.

Teixeira cita o caso de Porto Alegre, onde o desemprego tem sido o mais baixo do país (4,4% em janeiro). A estabilidade dessa taxa nos últimos trimestres poderia indicar que a capital gaúcha estaria a pleno emprego e pressionando o custo da mão de obra. Não é o que mostra o rendimento médio real, cujo crescimento em 12 meses em Porto Alegre desacelerou de 7,2% em março de 2011 para 1,3% em fevereiro de 2012. No mesmo período, o ritmo de criação de empregos caiu de 4% para 2,3%.

Outro dado interessante: os salários que mais têm crescido no Brasil são os dos trabalhadores de menor renda e escolaridade. Entre 2006 e 2011, o aumento médio real dos rendimentos foi de 3,4% ao ano – 4% para os trabalhadores com até ensino médio e 0,7% ao ano para os que possuem ensino superior ou títulos como mestrado e doutorado. Em 2010 e 2011, o salário real dos que têm ensino superior recuou, respectivamente, 0,8% e 0,2%.

“Esse desempenho é incompatível com a ideia de que a expansão do mercado de trabalho está tornando os trabalhadores mais qualificados cada vez mais escassos. Pelo contrário, a proporção de trabalhadores com ensino superior ou mestrado e doutorado aumentou de 16,2% em 2004 para 21,1% do total em 2011″, diz Teixeira.

Os números também desmentem a tese de que o desemprego é menor entre os trabalhadores de maior escolaridade. É o contrário. Em dezembro de 2003, a composição do desemprego de 12,3% era assim: 4,9 pontos percentuais referentes a pessoas com mais de 11 anos de estudo; 3,3 pontos a quem possuía entre oito e 10 anos de estudo; e 4,1 pontos a quem tinha menos de oito anos de escolaridade. Em fevereiro deste ano, respectivamente, as participações no desemprego de 5,9% eram: 3,4, 1,4 e 1,1 pontos percentuais.

Conclusão: nos últimos nove anos, o recuo do desemprego foi muito maior entre os trabalhadores menos qualificados. O atenuante a esse fato é que o aumento dos níveis de escolaridade da população, um dado positivo, foi determinante para a concentração dos desempregados na faixa de pessoas com mais anos de estudo.

Teixeira e sua equipe acreditam que o Brasil crescerá apenas 2,5% em 2012 e 4% em 2013, com recuo do desemprego para, respectivamente, 5,8% e 5,2%. “De modo geral, os indicadores recentes e a perspectiva de crescimento moderado da atividade nos sugerem que é baixo o risco de elevação significativa da inflação advinda do mercado de trabalho nos próximos anos”, sustenta ele.

E-mail: cristiano.romero@valor.com.br

27/04/2012 - 02:24h Mesmo com economia fraca, renda real tem forte avanço

Por Arícia Martins | VALOR

De São Paulo

Apesar da redução no ritmo de crescimento da economia, a renda real dos trabalhadores continua crescendo vigorosamente e será fator decisivo para uma recuperação robusta nos próximos meses. Em março, avançou 1,6% sobre fevereiro e 5,6% em relação ao mesmo mês de 2011. A demanda aquecida ainda empurra para o alto os preços dos serviços, que sobem há bastante tempo acima da inflação e podem exercer pressão de alta no futuro sobre os índices bem comportados do último trimestre. A inflação de serviços continua por volta dos 9%.

A renda média real nas seis principais regiões metropolitanas do país alcançou R$ 1.728,40 em março, a mais alta da série histórica iniciada pelo IBGE em 2002. Para economistas, o forte crescimento da renda real em março não reflete apenas o aumento de 14% do salário mínimo, mas também um cenário ainda favorável aos reajustes, que não estão sendo inibidos pela ameaça de perda do emprego.

Os setores com maior ganho de renda também são aqueles com menor desemprego. Na construção civil, a renda real subiu 9,2% e nos serviços domésticos, 8,4%. No segmento “outros serviços” – no qual têm peso relevante serviços pessoais – a renda saltou 9,7%, maior variação entre os sete ramos pesquisados.

Nesses três segmentos da economia, diz Fabio Romão, da LCA Consultores, o salário mínimo tem alto poder de indexação, mas, sobretudo na construção e nos serviços domésticos, a escassez de mão de obra é o que impulsiona a renda. “O poder de barganha do trabalhador está muito forte”, afirma Fernanda Consorte, economista do Santander. Mesmo que o primeiro trimestre não concentre grande número de negociações salariais, os reajustes concedidos no início do ano superaram a inflação. Em sua projeção, a renda real dos trabalhadores vai crescer 6,5% no ano, mais que o dobro de 2011.

Fabio Ramos, da Quest Investimentos, revisou de 2,5% para 4,5% sua estimativa para o aumento dos salários reais em 2012. Neste momento, diz o economista, o maior poder de compra está se transformando em consumo de bens semiduráveis e não duráveis – como alimentos e vestuário – devido ao endividamento do consumidor. Na segunda metade do ano, ele prevê maior expansão do crédito, que irá acelerar também as vendas de duráveis e o ritmo da atividade econômica. Em relatório, a equipe econômica do HSBC aponta que o “impressionante crescimento dos salários reais ainda evidencia os riscos de inflação”.

Salário em serviços sobe 10% acima da inflação

A renda real dos trabalhadores cresceu forte em março – 1,6% sobre fevereiro e 5,6% sobre igual mês de 2011. O resultado veio acima do esperado e reforçou preocupações quanto à inflação, mas deve ajudar o consumo. Para economistas consultados pelo Valor, o forte crescimento da renda real em março não reflete apenas o aumento de 14% do mínimo, mas principalmente uma conjuntura ainda favorável a reajustes salariais robustos, cenário que deve se manter ao longo do ano e ajudar na recuperação da atividade econômica. Por outro lado, ponderam eles, a demanda aquecida seguirá como fator de pressão sobre a inflação de serviços – setor que puxou a escalada dos rendimentos.

Na passagem de fevereiro para março, o rendimento médio real nas seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) subiu 1,6%, maior aumento mensal desde julho de 2011. Ele atingiu R$ 1.728,40, valor mais alto para todos os meses da série histórica da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), iniciada em 2002.

Na comparação com março do ano passado, o avanço foi ainda mais intenso, de 5,6%, influenciado por serviços e construção civil. No segmento outros serviços – no qual têm peso relevante serviços pessoais – a renda saltou 9,7%, maior variação entre os sete ramos de atividade pesquisados, seguido de perto pela construção (9,2%) e serviços domésticos (8,4).

Nesses três ramos da economia, explica Fabio Romão, da LCA Consultores, o mínimo tem um alto poder de indexação, mas, especialmente na construção e nos serviços domésticos, a escassez de mão de obra é o que está turbinando os ganhos dos profissionais. “O setor da construção civil é o pior dos mundos para quem está pagando. Falta mão de obra treinada em um setor muito dinâmico”, diz. Nos serviços pessoais, acrescenta o economista, a procura continua firme, sustentada pela renda crescente, o que também acaba por melhorar os rendimentos. ” Em alguns casos, esses serviços nem sentiram a desaceleração da atividade.”

Os setores com maior ganho de renda no último ano também são aqueles com menor taxa de desemprego. Na construção, a taxa de desemprego passou de 3,7% para 3,1% entre março do ano passado e março deste ano, enquanto para o emprego doméstico a taxa está hoje em 2,5%, e para trabalhadores em serviços ela é de 3,2%.

Na indústria, que atravessa um momento de estagnação, a alta anual da renda é um pouco maior, de 5,5%, mas na comparação com fevereiro, a alta é de apenas 0,2% (bem inferior à média de 1,6%). Romão não vê o ganho anual como tendência, já que a produção segue andando de lado. Em março, segundo o IBGE, o número de ocupados nas fábricas ans seis regiões metropolitanas cresceu 1,9% sobre igual mês de 2011, acima da média de 1,6%.

“O poder de barganha do trabalhador está muito alto”, afirma Fernanda Consorte, economista do Santander. Apesar deste primeiro trimestre não concentrar um grande número de negociações salariais, diz a analista, os reajustes já concedidos no começo do ano acompanhados por ela superaram a inflação. Em sua projeção, a renda real dos trabalhadores vai crescer 6,5% este ano, mais que o dobro do ano passado, com do mínimo.

A LCA estima que o ganho real dos trabalhadores vai crescer 3,8% em 2012, um ponto percentual acima do observado em 2011. O aumento do mínimo tem papel importante nesse cenário, avalia Romão, assim como a perda de fôlego da inflação, que, além de impulsionar o poder de compra, facilita as negociações salariais.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), usado como base para corrigir os salários, acumulou alta de 4,97% nos 12 meses encerrados em março e vem recuando desde setembro de 2011, quando atingiu seu pico de 7,3%. “Quanto menor a inflação acumulada em 12 meses, maiores são as possibilidades de se obter ganho real”, diz Romão, para quem a própria taxa de desemprego baixa joga a favor dos trabalhadores.

A desocupação subiu de 5,7% para 6,2% entre fevereiro e março, mas, para os economistas, ainda é muito baixa, o que abre espaço para reajustes salariais maiores. A taxa de desemprego ainda é a menor para os meses de março desde 2002. Parte do aumento do desemprego entre fevereiro e março decorreu do aumento do contingente que decidiu procurar emprego – no mês, 156 mil pessoas entraram na População Economicamente Ativa (PEA), dos quais 35 mil conseguiram uma ocupação e os demais aumentaram o número de desempregados.

Para Rafael Bacciotti, da Tendências, o aumento do mínimo, concedido em janeiro, pode ter surtido impacto maior na renda apenas em março. “O efeito do reajuste do mínimo pode ter alguma defasagem, entrando tanto no começo, como no fim do trimestre, dependendo da forma como são negociados os salários, formal ou informalmente”, explica.

Após conhecer os dados de março, Fabio Ramos, da Quest Investimentos, revisou de 2,5% para 4,5% sua estimativa para o aumento dos salários reais em 2012. Neste momento, observa Ramos, o poder de compra maior está se transformando em consumo de bens semi e não duráveis – como alimentos e vestuário, por exemplo – devido ao alto endividamento do consumidor. Na segunda metade do ano, porém, está no radar do analista um crescimento maior do crédito, que irá acelerar as vendas de duráveis e, consequentemente, o ritmo da atividade econômica.

Segundo Romão, da LCA, a trajetória de alta da renda deve ajudar a “tirar as pessoas de uma situação complicada” em uma conjuntura da inadimplência ainda elevada, e, em um segundo momento, incentivar o consumo. “Isso reforça nossa projeção de aceleração do PIB [Produto Interno Bruto] na segunda metade do ano”, diz.

Se, por um lado, o aumento real da renda estimula a atividade, não dá refresco à inflação de serviços, que continua rodando na casa dos 9% em 12 meses. Mesmo com um primeiro trimestre tranquilo para o IPCA, diz Ramos, da Quest, “não há tentação nenhuma” em revisar projeções de inflação para baixo devido à resiliência dos serviços.

Em relatório, a equipe econômica do HSBC aponta que o “impressionante crescimento dos salários reais ainda evidencia os riscos de inflação alimentada por salários no Brasil” e, ao mesmo tempo, deve seguir sustentando a expansão da demanda doméstica.


Priscila Cruz: “A família se dá conta que educação é importante para a manutenção na classe média e até para subir de classe”

Renda faz família trocar escola pública pela privada

As escolas públicas brasileiras, principalmente nos níveis fundamental e médio, estão perdendo espaço para os colégios particulares. Nos últimos dez anos, a educação básica municipal, estadual e federal, perdeu um total de 4,834 milhões de estudantes, enquanto o ensino privado ganhou 1,090 milhão de matrículas.

De acordo com levantamento feito pelo Valor, na média calculada de 2002 a 2011 o setor público perdeu 480 mil matrículas por ano e o mercado educacional privado arrebanhou cerca de 110 mil novos alunos anualmente. Especialistas em educação arriscam várias hipóteses para explicar o ocorrido.

Uma das análises mais plausíveis é o crescimento econômico do país associado ao aumento da renda, o que estimula famílias que ascenderam socialmente a tirar seus filhos da escola pública e colocá-los na particular.

Para Priscila Cruz, diretora-executiva do Movimento Todos pela Educação, a nova classe média brasileira cria um movimento de migração na educação. “É uma nova fronteira de classe. Há um consumo maior, a família compra um carro, passa a comer mais fora. Depois disso passa a aspirar mais coisas, como o ensino particular. Ela se dá conta que educação é importante para a manutenção na classe média e até para subir de classe”, avalia.

Em dez anos, os maiores movimentos de aumento de matrículas nas escolas particulares e de perda exponencial de alunos nas públicas coincidem com os anos em que a economia brasileira mais cresceu. O Produto Interno Bruto (PIB) avançou acima de 6% de 2007 para 2008, período em que os colégios privados matricularam 700 mil alunos e os públicos perderam cerca de 500 mil. Em 2010, quando o PIB cresceu 7,5%, a maior alta em 24 anos, o país registrou 400 mil novas matrículas no ensino privado e quase 1 milhão de baixas nas escolas públicas.

O economista Naercio Menezes Filho, coordenador da área de políticas públicas do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), afirma que os números refletem “uma lógica natural”: “O fato é que se a família tem ganho de renda prefere matricular o filho na escola privada. É a preferência revelada, escolhe porque acha melhor.”

Embora a mais recente Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE, referente a 2008 e 2009, aponte redução da participação dos gastos com educação nas despesas mensais médias das famílias brasileiras, Menezes Filho pondera que é preciso isolar algumas variáveis para verificar exatamente os aumentos por grupos de despesas. “A família que gasta zero com educação interefere na média final, sem falar que a média é composta por outras variáveis. Se uma família gasta mais com alimentação e transporte do que com educação, isso acaba concorrendo com as despesas de ensino na média.”

Além do fator econômico, a questão demográfica explica parte da perda de matrículas – em 2002, estavam matriculados 54,7 milhões de alunos até o ensino médio, número que caiu para 50,9 milhões em 2011, considerando escolas públicas e privadas. O IBGE projeta queda de 20% da população de 6 a 14 anos até 2022. Outro fator que explica a perda de matrículas no setor público é a correção do fluxo escolar, com menos crianças na escola com distorção de idade, informa o Ministério da Educação (MEC), no documento “Resumo Técnico do Censo Escolar da Educação Básica 2011″, divulgado nesta semana.

Por outro lado, a percepção de que a qualidade do ensino público não vai bem pode influenciar migrações. Mas essa percepção pode ser um mito, diz Priscila. “É importante sinalizar que boa parte dos colégios privados tem resultado de escola pública. O que vemos é um novo mercado crescendo e é importante o governo ficar de olho, afinar a regulação.”

O economista Ernesto Martins Faria, coordenador de projetos da Fundação Lemann, pondera que seria importante conhecer a realidade socioeconômica dos alunos antes de tirar qualquer conclusão. “As pessoas das classes C e D provavelmente estão indo para escolas privadas não tão boas. Mas, sem dúvida, esse aumento reflete uma maior importância da pauta educação no Brasil.”

09/04/2012 - 10:11h Classe D agora tem plano de saúde e seguro de vida

A vez da classe D


A empregada doméstica Miriam Nascimento Prates, que recentemente subiu na pirâmide social brasileira: “Um dia quero comprar uma casa com piscina, mas antes de tudo tenho a preocupação de manter meu atual padrão de vida”


Por Karin Sato e Letícia Casado | De São Paulo

Sônia Gonçalves diz que não sabe “como vai ser o amanhã”. Na dúvida, guarda uma parte do dinheiro que recebe por seu trabalho regular como faxineira em escritórios e pelos “bicos” em residências depois do expediente e em seu dia de folga. A poupança vai engordando, mas vez ou outra, quando “a situação aperta”, ela tira R$ 100 da caderneta para fechar o mês sem dívidas, “já que é complicado fazer poupança e pagar contas recebendo salário mínimo”.

Para fazer seu pé de meia, ela não pede assessoria ao gerente do banco, pois tem muito tempo “para pensar na vida e fazer contas” durante a hora que passa dentro do ônibus para cruzar São Paulo e chegar ao seu trabalho. “Guardo R$ 100, R$ 50, depende de quanto dá no mês”, conta Sônia. “Às vezes não dá, mas sempre tento guardar um pouco porque sei que não gasto mais do que ganho”.

A paulistana Sônia, 53 anos, faz parte de um grupo de 4,2 milhões de brasileiros acima de 18 anos pertencentes à classe D que diz ter “algum dinheiro guardado para eventuais imprevistos”, segundo dados levantados pelo instituto Data Popular a pedido do Valor. Esse grupo de 4,2 milhões representa 21% dos adultos da classe D que vivem em áreas urbanas.

A segurança financeira é o principal foco de 43,1% dessas pessoas, seguida por realizar um sonho de consumo (29,5%), compras à vista (17%) e investir e obter rendimento (10,4%). A estimativa foi feita com base na análise de dados obtidos em um estudo realizado no último trimestre de 2011 com cerca de 18 mil entrevistados de todos os estados brasileiros.

Mauro Halfeld, professor de Finanças da Universidade Federal do Paraná e autor de livros sobre investimentos, relata que sempre escutou questionamentos sobre como pessoas que ganham um salário mínimo conseguem economizar. “Conheço gente com renda mensal de R$ 40 mil que está sempre endividada e pessoas muito simples que fazem hora extra, trabalham nos fins de semana e conseguem economizar. É uma questão de disciplina”, diz.

A pesquisa do Data Popular ajuda, portanto, a desfazer o mito de que para poupar é preciso ganhar bem. Para Halfeld, o resultado do levantamento pode ser explicado pelo fato de as pessoas terem hoje mais acesso a informações sobre finanças pessoais. “Quase ninguém falava disso dez anos atrás”, afirma.

Assim como Sônia, a empregada doméstica Maria Aparecida da Silva, 42 anos, começou a poupar e foi longe: há cerca de dez anos, comprou uma casa em sua cidade natal, Jurema, em Pernambuco. Hoje tem um salário bruto de R$ 900, dos quais de R$ 200 a R$ 300 são direcionados mensalmente à caderneta de poupança. Seu objetivo é comprar uma segunda casa, desta vez em São Paulo. “Estou morando com a minha irmã, mas quero morar na minha própria casa”.

A dedicação em sua vida financeira é reflexo de seu esforço pessoal. Maria Aparecida, que passou a infância colhendo grãos de café, não sabia ler quando se mudou para São Paulo, em 1999. Um dia, começou a relacionar as letras e sílabas aos nomes dos personagens das novelas, na tentativa de ler revistas de celebridades. Foi quando percebeu que entendia algumas palavras. A patroa notou seu interesse e decidiu ajuda-lá. Um ano depois, estava lendo até dois livros por semana. Hoje, cursa a 7ª série do ensino fundamental. “Não imaginava que um dia aprenderia a ler ou que compraria uma casa”, relata Maria. “Por mais que ganhe pouco, consigo comprar muito do que quero”, acrescenta.

Uma pesquisa divulgada recentemente pela Cetelem BGN, empresa do grupo BNP Paribas, realizada em conjunto com a Ipsos Public Affairs, mostra que há um grupo de pessoas da classe D que administra suas finanças de maneira cautelosa e tem mais acesso a bens e serviços que antes eram privilégio apenas das classes mais altas, como planos de previdência privada e de saúde.

Marcelo Neri, pesquisador do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirma que os “sonhos de consumo” da classe D são, basicamente, serviços de empresas privadas que podem substituir os serviços públicos de baixa qualidade. “O que é subir na vida para a classe D? É ter uma vida melhor não só em termos materiais, como também ter mais segurança”, diz Neri.

A pesquisa da Cetelem BGN, chamada O Observador 2012, mostra que as classes D e E gastaram, em novembro de 2011, R$ 59 com previdência privada (média por família), mais que a classe C (R$ 51). A cifra indica um avanço em relação a 2010, quando a classe D não investiu em previdência complementar. Houve também um aumento nos gastos com seguros, em igual período, que passaram de R$ 5 para R$ 21. O estudo foi feito com base em 1.500 entrevistas domiciliares com 334 famílias das classes A e B, 810 da classe C e 356 das classes D e E.

Segundo Marcelo Neri, da FGV, essas classes vêm sendo beneficiadas nos últimos anos pelo reajuste do salário mínimo. Neste ano, o consumo das classes D e E deve ser estimulado pelo aumento de 14,13% do mínimo.

O coordenador do Comitê do Critério Brasil na Abep (Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa), Luis Pilli, ressalta que a classe D constitui hoje 15,2% dos domicílios do país, porém nas capitais do Nordeste esse percentual sobe para cerca de 25%. “A típica família da classe D tem uma renda familiar que ronda os R$ 710, ainda direciona cerca de 30% do orçamento para alimentação, possui aparelho de televisão, geladeira, mas dificilmente tem um carro. Em parte desses lares, já há máquina de lavar”, diz.

A expectativa dos pesquisadores é de que a classe D, que desde 2005 tem diminuído de forma consistente, continue a recuar nos próximos anos, com o crescimento da chamada nova classe média, formada pela classe C.

Miriam Nascimento Prates, que trabalha desde os 15 anos de idade como empregada doméstica, é uma das brasileiras que recentemente subiu na pirâmide social. “De três anos para cá, minha vida melhorou, embora não do jeito que gostaria”, relata a faxineira de 43 anos, mãe de três filhos. “Pretendo montar meu próprio negócio, um restaurante”, diz.

Hoje, Miriam conta com uma renda bruta mensal de R$ 1,6 mil. Em sua casa própria, em um bairro da zona sul de São Paulo afastado da região central, há dois aparelhos de televisão, TV a cabo, máquina de lavar e um computador “que não funciona direito”.

Depois de 22 anos sem viajar “nem mesmo para o litoral sul de São Paulo”, Miriam relata emocionada que, em meados do ano passado, foi à Bahia. “Tenho muitos sonhos. Um dia, quero comprar uma casa com piscina. Mas, antes de tudo, tenho a preocupação em manter meu atual padrão de vida”, afirma.

Classe D agora tem plano de saúde e seguro de vida

Por Letícia Casado e Karin Sato | VALOR

De São Paulo

Até pouco tempo atrás, era impensável ver famílias da classe D contratando um plano de saúde ou uma empregada doméstica. Mas hoje isso já acontece. Elis de Oliveira, 36 anos, por exemplo, paga R$ 150 por mês para uma vizinha ajudá-la a cuidar de sua filha de dois anos. Ela trabalha seis vezes por semana limpando escritórios, ganha um salário mínimo e arca sozinha com gastos com a babá, já que é mãe solteira. A sorte, diz ela, é que não paga aluguel, porque mora na casa de sua mãe.

A população de baixa renda está gastando mais com itens antes acessíveis apenas às classes mais altas, revelam os dados da pesquisa do Cetelem BGN, braço do banco francês BNP Paribas. Por exemplo, em novembro de 2011, as famílias das classes D e E destinaram em média R$ 49 à assinatura de TV a cabo ante R$ 68 da classe C, R$ 300 para empregada doméstica ante R$ 114 da classe C, R$ 152 para combustível ante R$ 102, R$ 157 para educação ante R$ 171 e R$ 101 para convênio médico ante R$ 76.

O incremento da procura por esses serviços por parte de brasileiros da base da pirâmide está ligado ao aumento da renda da população e ao nível de empregabilidade no país, diz Luciana Aguiar, antropóloga e sócia-diretora da Plano CDE, consultoria que estuda a população de baixa renda. “A classe D com emprego formal deve estar pagando o seguro-médico junto com o patrão. Além disso, é comum também as famílias contratarem um plano quando um parente enfrenta problemas de saúde”, diz a executiva.

Ela conta a experiência que teve ao visitar uma família da classe D em Recife (PE). Na casa, moram quatro pessoas: pai, mãe e dois filhos, um deles com asma. “Eles contrataram um plano para o filho asmático. O outro, quando ficava doente, ia ao sistema público de saúde ou a clínicas de periferia, que cobram R$ 40 pela consulta, por exemplo”, relata. “Se o crescimento [da contratação de planos de saúde por famílias da classe D] está acontecendo, merece certo destaque. Esse público tem dificuldades de pagar as contas com certa recorrência”.

De fato, essa expansão está acontecendo. Segundo uma pesquisa do instituto Data Popular feita à pedido do Valor, estima-se que 4,4 milhões de pessoas da classe D possuam plano de assistência médica. O número corresponde a 9,3% dos brasileiros dessa camada social que vivem em áreas urbanas. As mulheres são a maioria, com 57,2%.

“O acesso aos empregos formais possibilitou à Classe D, através de planos empresariais, a contratação de seu primeiro plano de saúde, que na maioria das vezes, é direcionado aos filhos. Conhecendo as vantagens desse benefício, esse brasileiro faz propaganda para o vizinho, que hoje em dia já busca por planos populares com preços que caibam no seu bolso. Para ele, fugir da fila do SUS é um grande alívio”, explica Renato Meirelles, sócio-diretor do Data Popular.

Jorge Pinheiro, presidente da Hapvida, afirma que o mercado de seguros-saúde para classes populares está crescendo a passos largos: só no ano passado, a empresa ampliou a carteira de clientes em 21%. A operadora cearense, focada nas classes C e D e que possui forte presença nas regiões Norte e Nordeste, registrou um aumento de 15 mil para 85 mil clientes individuais somente na Bahia, entre 2010 e 2011.

O Grupo Bradesco Seguros também está investindo em produtos para a classe D. Por exemplo, o Primeira Proteção Bradesco, um seguro de vida por morte acidental com parcela mensal de R$ 3,50 lançado em janeiro de 2010, atingiu cerca de 1,5 milhão de apólices vendidas em março, dentre as quais 65% correspondem a indivíduos da classe C e 35% da classe D, explica Eugenio Velasques, diretor-executivo do Grupo Bradesco Seguros e presidente da Comissão de Microsseguros e Seguros Populares da Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais (CNSeg).

Para desenvolver os produtos para a baixa renda, pesquisadores do Grupo Bradesco moraram em casas de famílias das favelas de Heliópolis, em São Paulo, e da Rocinha, no Rio de Janeiro, durante seis meses. Eles concluíram que o principal temor dos moradores desses locais era não ter dinheiro para pagar as contas (56%). Em segundo lugar, com 30%, ficou o medo de acidente que levasse à morte.

Velasques acredita que as famílias da classe D têm potencial para serem grandes consumidoras de microsseguros. “Estudos mostram que há uma forte correlação entre o crescimento do crédito e o consumo de seguros”, avalia. “Para a classe D, é muito importante proteger qualquer patrimônio e melhora de vida conquistados. Quanto maior tiver sido o esforço para conquistar, maior será a vontade de preservar”, diz.

A classe D também apela cada vez mais ao crédito. Um indício disso é que do total de unidades já entregues pelo Programa Minha Casa Minha Vida, 49,9% foi destinada a famílias com renda de até R$ 1 mil, segundo a Caixa Econômica Federal.

Anibal Fernandes, diretor-executivo da Rede Banorte, banco com forte atuação no Nordeste, relata que os empréstimos consignados para essa camada têm dobrado ano a ano na rede. No ano passado, 80% do volume emprestado foi direcionado a famílias com renda mensal inferior a R$ 1 mil. “Na maioria dos casos, trata-se do primeiro empréstimo”, diz. “Além disso, 50% desses tomadores adquiriram no banco seu primeiro cartão de crédito.”

Maria José da Conceição, 48 anos, moradora de Recife (PE), está entre esses tomadores de primeira viagem. “Tomei um empréstimo consignado no valor de R$ 2,5 mil para reformar minha casa. Estou muito feliz. As parcelas são de cerca de R$ 150 e consigo pagar com o que recebo das faxinas que faço de segunda a sexta. Aos sábados e domingos, lavo carros”, conta.

09/04/2012 - 08:31h Argentina e Brasil desafiam Índia na terceirização

Por John Helyar | Bloomberg Businessweek – VALOR

Durante anos, basicamente havia apenas uma opção para empresas dos Estados Unidos interessadas em transferir empregos ao exterior: a Índia. A terceirização desenvolveu-se tanto na Índia a ponto de tornar-se um mercado de US$ 69 bilhões e transformar cidades estagnadas como Chennai e Hyderabad em centros urbanos dinâmicos. A onda já chegou a seu ponto máximo. Em 2011, empresas na América Latina e Leste Europeu abriram 54 novas instalações de terceirização de serviços, em comparação às 49 abertas na Índia, segundo o Everest Group, que acompanha o mercado.

As duas regiões vêm desafiando o domínio indiano na terceirização, enquanto as empresas americanas enviam cada vez mais empregos de alta qualificação ao exterior. A Índia teve vantagens substanciais na primeira fase da transferência de empregos ao exterior: mão de obra de sobra fluente em inglês para abastecer as centrais de atendimento telefônico e um volume suficiente de trabalhadores da área de tecnologia para centros de processamento de dados e de assistência técnica de computadores que operam a distância – tudo com cerca de 60% de desconto em relação aos Estados Unidos.

Depois de ter encolhido custos com funções de suporte, as empresas americanas passaram a exportar empregos de “colarinho branco”, de alta capacitação, nos setores de pesquisa, contabilidade, compras e análise financeira. Como esses cargos não se tratam de funções de processamento em grandes volumes, o ponto forte da Índia, surgem mais oportunidades para países como Argentina e Polônia, que possuem custos de mão de obra maiores que os da Índia.

Usar uma empresa de terceirização para contratar um contador com qualificação básica na Argentina, por exemplo, custa 13% a menos do que um similar nos EUA, enquanto um na Índia custaria 51% mais barato. Muitas empresas, no entanto, se importam com mais do que apenas conseguir o menor salário. “A terceirização de empregos de maior valor exige maior compreensão do contexto de negócios e maior interação com os clientes”, diz Phil Fersht, executivo-chefe da HfS Research, uma consultoria de terceirização.

Cidades como São Paulo possuem grande concentração de jovens engenheiros e administradores que falam inglês e são capazes de fazer de tudo, desde programar jogos eletrônicos até fazer análises sobre inadimplência em financiamentos imobiliários, para empresas dos EUA. O Brasil tem o maior número de programadores em Java do mundo e é o segundo país com mais programadores em linguagem para computadores de grande porte (Cobol), de acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom). A IBM instalou seu nono centro de pesquisas na cidade em 2010, o primeiro desde 1998, quando havia inaugurado um na Índia.

Também ajuda o fato de haver maior sincronia entre os fusos horários da região e os da América do Norte. Foi por esse motivo que a Copal Partners – desde 2002 oferecendo serviços de terceirização de análise de investimentos em Gurgaon, na Índia – abriu um escritório em Buenos Aires. A diferença de fuso entre a cidade e os clientes da Copal em Nova York é de apenas duas horas. “Se você está trabalhando com um gestor de fundo hedge com quem precisa interagir 10 a 15 vezes por dia, é importante ter alguém em um fuso horário próximo”, diz Rishi Khosla, executivo-chefe da Copal.

Até a Tata Consultancy Services, líder em terceirização na Índia, com vendas em 2011 previstas para US$ 9,8 bilhões, tem 8,5 mil funcionários em países da América do Sul, como Peru e Paraguai. E a Genpact, maior empresa indiana de terceirização de processos organizacionais, abriu um centro de contabilidade e finanças em São Paulo, em 2011, para o laboratório farmacêutico britânico AstraZeneca.

Essa “terceirização nas proximidades” (nearshoring, em inglês) também beneficia o Leste Europeu. Nos anos do comunismo, a economia da Breslávia, quarta maior cidade da Polônia, girava em torno da indústria pesada. Agora, é um centro de terceirização, com 30 faculdades locais fornecendo uma grande concentração de mão de obra qualificada. Os empregos locais de serviços de terceirização dobraram entre 2008 e 2010, quando foram abertos centros da IBM, Microsoft e Ernst & Young. Em 2011, a empresa de auditoria adicionou outro centro em Breslávia, onde os funcionários prestam serviços de recursos humanos e assessoria legal e imobiliária a clientes europeus. A Ernst & Young emprega 1,3 mil pessoas em seis centros na Polônia.

A população polonesa da “Geração Y” tem alto índice de formação universitária – cerca de 50% da faixa entre 20 e 24 anos estão na faculdade, diz Hersht, em comparação aos 10% na Índia – e fala várias línguas. No centro da Hewlett-Packard em Breslávia são faladas 26 línguas, o que o torna ideal para atender suas operações na Europa, África e Oriente Médio, diz Jacek Levernes, que administra a terceirização dessas regiões. O centro em Breslávia emprega 2,3 mil funcionários, mais que o dobro do imaginado (1 mil) pela Hewlett-Packard quando o inaugurou, em 2005. Os trabalhadores inicialmente realizavam tarefas financeiras básicas e de suporte contábil; agora, também lidam com serviços de marketing e de análise da cadeia de fornecimento.

A Capgemini Consulting, da França, fez uma grande aposta no futuro de sua terceirização no “nearshoring”, instalando centros financeiros e contábeis na Cracóvia, na Polônia, e na Cidade da Guatemala. A engarrafadora Coca-Cola Enterprises, por exemplo, transferiu empregos de seus escritórios em Tampa, em Dallas, e Toronto para o centro da Capgemini na Guatemala, e de Paris, Bruxelas e Londres para o da Cracóvia.

Fersht, da HfS, visitou os dois centros e diz que poderiam muito bem ser confundidos com escritórios nos EUA, a não ser pela riqueza de idiomas – cerca de 25 são falados no centro na Cracóvia, enquanto na Guatemala fala-se inglês e espanhol – e pelo fato de quase todos os funcionários serem jovens. A média de idade é de 26 anos, segundo a Capgemini. A empresa elevou o pessoal de 180 funcionários terceirizados em funções de processo organizacional, em 2003, para 2,5 mil atualmente.

O centro na Guatemala emprega pessoas com formação superior capazes de analisar os contratos de fornecedores da engarrafadora e otimizar os custos com compras, segundo o chefe das operações de terceirização mundial de processos organizacionais da Capgemini, Hansjörg Siber. “Os guatemaltecos falam inglês com sotaque americano, o que é bem-aceito [...] e não sotaque indiano, o que não é”, diz.

Fersht cita outra vantagem: os clientes da Capgemini contam com poloneses e guatemaltecos diplomados em universidades pelo preço de americanos apenas com formação de ensino médio.

23/03/2012 - 13:53h Renda média é recorde em fevereiro

Aumento de 14% no salário mínimo em janeiro ajuda a turbinar rendimento médio do trabalhador brasileiro, que chega a R$ 1.699,70
23 de março de 2012

DANIELA AMORIM / RIO – O Estado de S.Paulo

O aumento de 14% do salário mínimo em janeiro ajudou a turbinar o rendimento médio do trabalhador brasileiro em fevereiro, que atingiu R$ 1.699,70, um valor recorde.

Houve ligeiro aumento na taxa de desemprego na passagem de janeiro para fevereiro, o que já era esperado por causa do movimento natural de dispensa de trabalhadores temporários nessa época do ano, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas o índice de desemprego, de 5,7% em fevereiro, manteve a tendência de taxas decrescentes na comparação com o ano anterior. É a menor taxa para o mês desde o início da série histórica, em 2002

A massa de salários pagos aos trabalhadores somou R$ 38,7 bilhões, alta de 5,8% ante fevereiro de 2011. “A expansão do rendimento médio real constituirá fator relevante de impulso ao consumo das famílias nos próximos meses”, previu o Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, chefiado pelo economista Octavio de Barros.

Em São Paulo, a renda média dos ocupados ficou ainda maior do que a nacional, de R$ 1.813,10. Foi a primeira vez que a renda na região metropolitana ultrapassou a barreira dos R$ 1.800. O aumento foi de 5,4% em relação a fevereiro de 2011, e de 2,6% ante janeiro de 2012.

No País, o aumento da renda média do trabalhador foi de 4,4% ante fevereiro do ano passado. Na comparação com janeiro, houve alta de 1,2%. O impacto do salário mínimo já havia sido sentido no mês anterior, mas voltou a aparecer em fevereiro.

Temporários. “O aumento tem explicação também na dispensa dos trabalhadores temporários no início do ano, que normalmente ganham menos e puxam a média para baixo. Então, com a saída deles, a renda tende a ficar mais alta mesmo”, disse Cimar Azeredo, gerente da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE. “Entre as categorias que perceberam os maiores aumentos estão as mais indexadas ao mínimo, como comércio e empregados domésticos.”

Embora a taxa de desemprego em fevereiro tenha sido a menor para o mês em dez anos, Azeredo diz que a desocupação só deve cair novamente quando a economia voltar a ficar aquecida.

“A economia ainda não está aquecida para voltar a gerar postos de trabalho e absorver essa população desocupada. A taxa vai cair quando a economia se aquecer de novo. Segundo a série histórica, esse processo pode se dar no primeiro ou no segundo trimestre”, disse Azeredo.

No entanto, o pesquisador do IBGE não descarta novo aumento na desocupação em março, como reflexo das dispensas de temporários após o carnaval e o fim do verão. “Ainda podem acontecer mais dispensas em março, pelo fato de o carnaval ter acontecido no fim de fevereiro”, avisou.

A indústria voltou a cortar vagas, embora o impacto não tenha sido sentido na taxa nacional. Foram demitidos 19 mil trabalhadores. Para o IBGE, o resultado é considerado próximo da estabilidade: -0,5%. Mas o corte já chegou a 55 mil postos na comparação com fevereiro de 2011 (-1,5%).

21/03/2012 - 10:29h Perú: Mejora sin precedentes en el empleo y las remuneraciones

Población con empleo adecuado en Lima Metropolitana creció 8.3% (SEMANAeconómica.com)

20 de Marzo de 2012

Comentario Diario del Instituto peruano de Economía (IPE)

El ciudadano promedio tiene claro que lo más importante para mejorar el bienestar en el país es la generación de empleos y el aumento sostenible de la remuneración al trabajo. Lo que usualmente no se tiene tan claro es el tremendo éxito que ha tenido el Perú en cuanto a aumentar la cantidad y calidad del empleo. Recientemente comentamos (CD 13/03/2012) que el gran aumento del empleo en el Perú en la década pasada era explicado principalmente por el crecimiento de empleos a plazo fijo. Sin embargo, hay quienes piensan, equivocadamente, que la mayoría de los 3.23 millones de empleos creados en el Perú entre el 2001 y el 2010 son “de mala calidad” y que el aumento del empleo no ha sido acompañado de aumentos en los ingresos de los trabajadores.

La verdad es que ha habido un aumento muy fuerte en la calidad del empleo y, consecuentemente, en la remuneración al trabajo en todo el Perú. En la década pasada, el número de peruanos con un empleo adecuado casi se duplicó, aumentando de 3.73 millones a 7.16 millones, un extraordinario incremento de 92% (ver gráfico 1). Se crearon más puestos de trabajo adecuados -empleos cuya remuneración permite adquirir la canasta básica- que el total de empleos creados. Lo que esto significa es que, además de los empleos nuevos generados, muchos subempleados pasaron a ser adecuadamente empleados al mejorar sus remuneraciones.

Como se puede ver en el gráfico 2, el crecimiento en el empleo adecuado en la década pasada fue, además, mucho mayor fuera de Lima (106%) que en Lima (75%); mayor en las zonas rurales (105%) que urbanas (89%) y; mayor en la sierra (107%) y selva (115%) que en la costa (84%).

http://ipe.org.pe/wp-content/uploads/2012/03/12_03_20.jpg

Las cifras de aumento en el empleo adecuado son consistentes con las cifras de aumento en el ingreso por trabajo. El gráfico 3 muestra que el ingreso por trabajo a nivel nacional creció 55% entre el 2001 y el 2010 y que aumentó más fuera de Lima (73%) que en Lima (34%); más en las zonas rurales (83%) que en las urbanas (46%) y; más en la sierra (83%) y selva (68%) que en la costa (43%).

A la extraordinaria mejora en la cantidad y calidad del empleo en la década pasada debemos agregarle lo que viene ocurriendo en los últimos 14 meses. Si bien aún no está disponible la información nacional de la Encuesta Nacional de Hogares (ENAHO) del INEI para el 2011 ni para lo que va del 2012, tenemos la información de la encuesta permanente de empleo en Lima Metropolitana que, si bien no es directamente comparable, tiene un comportamiento semejante. En el informe del mes de febrero, el empleo adecuado en Lima aumentó 8.3% con respecto a similar periodo del año anterior y el ingreso promedio por trabajador aumentó 12.2%.

Si consideramos las cifras de Lima como base y tomamos en cuenta que en la última década las mejoras en el resto del país han sido sustancialmente mayores tanto en empleo como en remuneraciones, es probable que el resto del Perú siga experimentando un crecimiento sin precedentes en el empleo y en las remuneraciones.

Pese a estos grandes logros, y para no caer en la complacencia del triunfalismo, hay que tener claro que la productividad del trabajador peruano promedio es todavía baja y que esto lleva a que, pese a las mejoras, los ingresos laborales en el Perú aún sean bajos. Sin embargo, el aumento en los ingresos por trabajo refleja un fuerte aumento en la productividad que es el único camino sostenible al aumento en el bienestar. Asimismo, si bien las remuneraciones en Lima siguen siendo mayores que en las zonas rurales y en la sierra, la brecha se está acortando rápidamente y todas las regiones del Perú han visto mejoras antes impensables. El reto ahora es mantenerlas.

20/03/2012

15/03/2012 - 11:10h Brasil está em 2º lugar em expectativa de emprego


Das 850 empresas consultadas no País, 45% preveem contratar e 6% esperam reduzir mão de obra

15 de março de 2012

SÍLVIO GUEDES CRESPO, ESTADÃO.COM.BR – O Estado de S.Paulo

O Brasil aparece em segundo lugar em um ranking dos países com maior perspectiva de aumento de emprego, elaborado pelo ManpowerGroup. Das 850 empresas consultadas no País, 45% preveem elevar o número de funcionários no segundo trimestre deste ano. Outras 6% esperam reduzir a quantidade de empregados.

A diferença, que os pesquisadores chamaram de “expectativa líquida de emprego”, foi de 39%, a segunda maior entre os 41 países analisados. O número subiu seis pontos porcentuais em relação ao levantamento anterior, referente ao primeiro trimestre.

Somente a Índia ficou à frente do Brasil no ranking atual, com o indicador marcando 48%. O país em pior situação entre os analisados foi a Grécia, onde a expectativa líquida de redução de emprego é de 11%. Foram consultadas 65 mil companhias no mundo.

O setor de serviços é o responsável por alçar o Brasil ao segundo lugar no ranking internacional. Os empregadores nessa área têm uma expectativa de emprego líquida de 55%, dez pontos porcentuais acima do verificado na pesquisa anterior, referente ao primeiro trimestre deste ano.

Também contribuiu para a boa colocação do País no ranking o segmento que os pesquisadores chamaram de “administração pública/educação”, com 46% de espectativa de aumento de emprego. Essa categoria abrange o governo e também prestadores de serviço ligados à administração pública, como transportes. No setor de construção civil, outro destaque, a expectativa líquida atinge 40% dos empregadores.

A indústria, setor em que o nível de emprego caiu 2% de agosto do ano passado até janeiro de 2012, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentou perspectiva líquida de contratação de apenas 33% na pesquisa.

Otimismo. Os empresários do Paraná são os mais otimistas com contratações, entre os quatro Estados brasileiros abrangidos pelo levantamento. A expectativa líquida de emprego entre os empregadores paranaenses é de 42%.

Em seguida, aparecem Minas Gerais (41%), Rio de Janeiro (37%) e, por último, São Paulo (35%). Na capital paulista, o indicador marcou 40%.

01/03/2012 - 10:25h Renda que mais cresce é a do empregado doméstico

A ex-diarista Rosângela Dantas, na loja de material de construção da família: “Não tem mais como voltar atrás”


Por Arícia Martins | VALOR

De São Paulo

SÃO PAULO – Em uma economia que caminha rumo à formalização, a renda que mais cresceu em nove anos é justamente a do trabalhador com menor nível de registro em carteira: a dos serviços domésticos. Entre dezembro de 2002 e igual mês de 2011, o rendimento real desse tipo de ocupação cresceu 38%, maior variação entre os sete grupos de atividade pesquisados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e quase o triplo do aumento médio de 13% nas seis principais regiões metropolitanas do país.

Mesmo com a alta expressiva, o salário médio do empregado doméstico ainda é o menor de todos os segmentos da economia analisados pelo IBGE. Em janeiro de 2012, de acordo com a Pesquisa Mensal do Emprego (PME), era de R$ 669,70, equivalente a apenas 28% da renda de um ocupado na administração pública – R$ 2.300, a maior entre os sete setores.

Para especialistas, a política de valorização do salário mínimo – que indexa os rendimentos nos serviços domésticos e mais que triplicou em termos nominais desde 2002 – impulsionou os ganhos desse trabalhador. Além disso, um número cada vez menor de pessoas dispostas a atuar no ramo, em um cenário de mercado de trabalho apertado e expansão da escolaridade, também aumenta o poder de barganha das domésticas: segundo dados do IBGE, em 2011, 94,8% dos ocupados no setor eram mulheres, e apenas 5,2%, homens.

“Já havia um vetor de valorização dessa renda via mínimo. Com a formalização e o crescimento econômico, abriu-se a possibilidade para que essas pessoas trabalhem com carteira assinada, em ramos que não exigem muita qualificação, principalmente no comércio e em serviços”, diz Fabio Romão, da LCA Consultores.

Dados da PME corroboram a explicação: enquanto a população ocupada cresceu 21,3% entre 2003 e 2011, o emprego nos serviços domésticos avançou apenas 10,8% no período, menor variação de todos os segmentos pesquisados. Em 2003, 7,6% da população ocupada estava no segmento. Em 2011, o número caiu para 6,9%, ou 1,5 milhão de pessoas, fatia menos expressiva dentre os empregos pesquisados pelo IBGE.

Rosângela Dantas chegou a ganhar R$ 1.700 em um mês como diarista, mas abandonou o trabalho em casas de família para se tornar microempresária. Desde setembro de 2011, ela administra com o marido uma pequena loja de materiais de construção em Itapevi, cidade da Grande São Paulo, onde mora.

Há três anos, a ex-diarista, de 44 anos, já havia tentado deixar o serviço doméstico para cuidar do negócio familiar – que existe desde 2007 -, mas como as contas de casa não fechavam, teve que voltar a ser doméstica temporariamente. “Eu estava sem capital de giro, mas agora estamos firmes. Não tem mais como voltar atrás, porque a clientela aumentou muito”, conta Rosângela, que também já foi dona de casa e costureira.

Ela estudou até a oitava série e agora pretende fazer cursos técnicos no Senai para gerir melhor seu negócio. Também incentiva os quatro filhos a ter bom desempenho na escola. A mais velha, de 22 anos, está se graduando em contabilidade e vai ajudar os pais na loja quando se formar.

Naercio Menezes Filho, professor associado da FEA-USP e coordenador do Centro de Políticas Públicas, do Insper, aponta que, além da escassez de oferta, o aumento da renda da população faz com que a procura por esse tipo de profissional também suba e pressione os salários. “A demanda está aumentando muito e a oferta caminha em sentido contrário”, movimento que, no entanto, ainda não foi suficiente para que o rendimento dos serviços domésticos ultrapasse o de algum outro setor da economia, diz ele.

“A maioria das trabalhadoras está no setor informal e, como a renda partiu de um nível muito baixo, não consegue atingir a de outras ocupações”, explica Menezes Filho. Poucas delas saíram da informalidade, de acordo com o IBGE: em 2003, 64,8% não tinham registro em carteira, número que caiu para 61,4% no ano passado.

Para Luiz Scorzafave, professor do Departamento de Economia da FEA-USP-Ribeirão Preto, a pouca instrução é um fator estrutural por trás da remuneração menor dos serviços domésticos, profissão que, historicamente, não tem o mesmo status de outras ocupações. A escolaridade dos ocupados nessa área melhorou em nove anos, mas segue baixa em relação a outros profissionais. Em 2011, 56,4% dos trabalhadores domésticos tinham oito anos ou menos de estudo – em 2003, esse percentual chegava a 69,7%.

Dependendo da evolução da oferta e da demanda, sustenta Menezes Filho, é possível que a renda desse segmento ultrapasse a de outro setor da economia já no curto prazo. Como reflexo dessa escalada, as pessoas terão de fazer elas mesmas suas tarefas domésticas ou, como ocorre em países desenvolvidos, a demanda será suprida por estrangeiras. “Já acontece isso no Brasil, mas vejo mais como casos isolados do que tendência por enquanto”, diz ele.

Romão, da LCA, espera que a diferença entre o rendimento do empregado doméstico com relação a outras ocupações continue diminuindo, mas, segundo ele, é difícil imaginar uma renda maior que a média para esse trabalhador, devido à baixa qualificação. “A relação entre instrução e renda não é direta, mas existe.”

(Arícia Martins | Valor)

07/02/2012 - 10:59h O enigma do desemprego baixo no Brasil

07 de fevereiro de 2012

ILAN GOLDFAJN – O Estado de S.Paulo

Algo interessante está ocorrendo no Brasil. No final do ano passado o desemprego atingiu 4,7% (ou 5,5%, levando em conta a sazonalidade favorável de dezembro), um recorde de baixa. A princípio, mereceria apenas os festejos de sempre. Mas há algo mais enigmático. O desemprego tem melhorado num contexto de piora da economia: o crescimento do PIB desacelerou para cerca de 2,7% no ano passado, o que normalmente levaria a um aumento do desemprego. O que está acontecendo? O mercado de trabalho está-se descolando do resto da economia? Quais as consequências?

O comportamento do desemprego é importante demais numa economia para ser ignorado. Afeta o bem-estar da população de forma relevante: pesquisas mostram a relação de satisfação com a taxa de desemprego. O desemprego também afeta o desempenho da economia via produtividade e crescimento, assim como o impacto na inflação.

Uma parte da explicação é simplesmente a existência de defasagens na economia. O mercado de trabalho é normalmente o último da cadeia a sentir o impacto da desaceleração. As vendas caem e a produção tem de diminuir para evitar acúmulo de estoques desnecessários. O desemprego aumenta quando as empresas diminuem a produção e o emprego fica ocioso. Pode ser que ainda estejamos no início do processo. Se for, devemos esperar uma subida do desemprego daqui em diante. Mas a defasagem parece longa demais e o mercado de trabalho, forte demais para fazer acreditar que nada mudou desta vez. Há duas teorias alternativas (não excludentes).

A primeira diz respeito à produtividade do trabalhador. Alguns temem que a combinação do desemprego em recorde de baixa com economia fraca seja sinal de problemas à frente. Afinal, estamos produzindo menos com mais gente – produtividade menor. A economia poderia estar mostrando sinais de esgotamento mais duradouros. Uma economia com produtividade menor está fadada a crescer menos e/ou a ter mais inflação. O risco é que a retomada da economia venha a diminuir ainda mais o desemprego, tornando a mão de obra mais escassa, elevando custos para empresas, o que poderia resultar em mais inflação. Controlar a inflação exigiria crescer menos.

Mas qual seria a razão para a produtividade do trabalhador estar caindo? Com o crescimento maior da economia nos últimos anos, as empresas têm encontrado dificuldades crescentes para contratar mão de obra, principalmente qualificada. A solução tem sido contratar um contingente da população cuja capacitação é inferior à dos empregados atuais. Resolve as necessidades imediatas, mas a produtividade desses trabalhadores é inferior, o que derruba a produtividade média da economia. Ao longo do tempo esses trabalhadores poderão adquirir qualificação maior com treinamento nos seus próprios empregos, o que diminuiria o problema, mas pode levar tempo.

A falta de mão de obra é resultado, em parte, de um menor crescimento da população economicamente ativa (PEA), aquela apta a se empregar. Em 1980 a taxa de crescimento da PEA era acima de 3% ao ano; hoje o crescimento é de 1,3%, dada a distribuição populacional. Com menos gente disponível para trabalhar, um período de crescimento maior reduz o desemprego e limita o crescimento sustentado.

A falta de mão de obra qualificada no Brasil é resultado de melhorias ainda insuficientes na educação para fazer frente às necessidades atuais. As defasagens são longas. O esforço atual na melhoria da educação será determinante para o futuro, nas próximas décadas.

A segunda teoria alternativa é que os empresários podem estar evitando demitir. O custo para as empresas de demitir e voltar a empregar é alto no País. Se os empresários têm confiança na retomada da economia e no seu crescimento no médio prazo, podem preferir manter os trabalhadores ociosos por um tempo a demiti-los (e depois recontratá-los). A experiência dos últimos anos, principalmente a reação à crise de 2008-2009, poderia estar induzindo esse comportamento. A economia brasileira recuperou-se rapidamente do impacto da crise internacional. Os empresários não demitem, a economia mantém um contingente de trabalhadores ociosos prontos para serem utilizados mais adiante. É uma “poupança de trabalhadores”, como referida na literatura.

Nessa alternativa, o desemprego baixo é função das expectativas quanto à volta do crescimento futuro. Quando a economia voltar a acelerar (acreditamos que o PIB volte a acelerar ainda este ano, principalmente no segundo semestre), essa poupança será utilizada, em vez de maior procura por mão de obra e sobreaquecimento do mercado de trabalho. A evidência dessa alternativa é a queda das horas trabalhadas (em vez de demissões).

É importante citar que parte da queda do desemprego é devida à menor procura por emprego. Não se considera desempregado quem não se encontra ativamente procurando emprego. Parte da queda recente do desemprego é consequência desse “desalento” (por exemplo, a PEA cresceu apenas 0,7% em dezembro de 2011 em relação a dezembro de 2010), mas não explica todo o fenômeno.

Acreditamos que as alternativas acima não sejam excludentes. A facilidade com que a economia incorporou mão de obra no passado (e alavancou o crescimento) pode não se repetir no futuro. Alguma perda de produtividade pode estar ocorrendo como consequência da qualificação ainda insuficiente da mão de obra para o crescimento desejado. Mas parte do que estamos observando pode ser um fenômeno cíclico – preservação do emprego numa economia aprendendo a conviver com altos e baixos. O comportamento do desemprego, da inflação e do crescimento a partir da retomada deste ano depende da força de cada um desses fatores.

*ECONOMISTA-CHEFE DO ITAÚ , UNIBANCO, SÓCIO DO ITAÚ BBA

30/01/2012 - 08:20h Para pesquisadores, menor desemprego já reflete mudanças demográficas

Por Sergio Lamucci | VALOR

De São Paulo

A queda da taxa de desemprego em 2011 se deveu em grande parte à força da ocupação no setor de serviços e na construção civil, mesmo num cenário de fraco crescimento da economia, mas também refletiu um fator mais estrutural – as mudanças demográficas que já afetam o mercado de trabalho brasileiro. A população em idade ativa (PIA) cresce cada vez mais devagar, moderando o ritmo de expansão da oferta de trabalho e, com isso, colaborando para reduzir a desocupação. O desemprego fechou o ano passado em 6% nas seis principais regiões metropolitanas do país, o nível mais baixo da série iniciada em 2002, segundo números do IBGE.

Assessor da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e professor da Universidade de Brasília (UnB), Jorge Arbache tem chamado a atenção para a importância dos efeitos das mudanças demográficas sobre o emprego e a renda. A PIA, diz ele, é o fator mais importante para determinar a oferta de trabalho. Uma PIA que cresce menos tende a reduzir o ritmo de expansão da chamada população economicamente ativa (PEA), o grupo formado pelas pessoas empregadas e pelas que estão em busca de ocupação.

Em 2011, a PIA cresceu 1,26% nas seis principais regiões metropolitanas, taxa idêntica à do ano anterior. Em 2007, ela tinha crescido 1,73%. Segundo Arbache, a expectativa é que a população em idade ativa pare de crescer entre 2020 e 2022, passando então a encolher. Quando isso ocorrer, o impacto sobre a oferta de trabalho será muito mais intenso.

No ano passado, a PEA teve um aumento de 1,2%, inferior à alta de 2,1% registrada pelo nível de emprego. A tendência de fraco crescimento da população em idade ativa ajuda a explicar o avanço modesto da PEA, avalia o economista Sérgio Mendonça, do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Arbache ressalva que, no curto prazo, a PEA “pode variar em razão de incentivos, como o aumento ou queda dos salários reais” – ou seja, não segue automaticamente os movimentos da PIA.

Para Mendonça, a força do mercado de trabalho nos últimos anos, com alta de salários e aumento da formalização, tem levado mais gente a retardar a entrada no mercado de trabalho. Numa família em que os pais têm um emprego com rendimento melhor e contam com a segurança da formalidade, a tendência é que os filhos fiquem mais tempo estudando, sem buscar emprego e, com isso, aliviam a pressão sobre a PEA, acredita ele. É uma avaliação compartilhada pelo economista Fabio Romão, da LCA Consultores, para quem uma situação favorável em termos de renda pode desestimular a busca de ocupação dos filhos para reforçar o orçamento familiar.

Arbache aponta dois outros fatores que tendem a diminuir o potencial de expansão da população economicamente ativa: a taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho já é elevada e não há mais uma grande migração da zona rural para as cidades.

Para ele, os analistas têm subestimado o impacto das mudanças demográficas já em curso no país. “A taxa de fecundidade no Brasil caiu de três para dois filhos por mulher em apenas 18 anos, de 1988 a 2005, enquanto em muitos países europeus essa mudança se deu em cerca de 60 anos ou mais”. Trata-se de um fenômeno importante, com efeitos significativos sobre o ritmo de expansão da população em idade ativa, afirma Arbache.

No curto prazo, diz ele, a redução do ritmo da oferta de trabalho ajuda a transmitir uma sensação de bem estar, por ajudar a reduzir o desemprego. No longo, implica em desafios difíceis, por elevar o custo do trabalho, minando a competitividade internacional do país, além de ter efeitos sobre a Previdência. Para lidar com esses problemas, avalia Arbache, será fundamental trabalhar para elevar a produtividade.

Os especialistas ressaltam também o papel essencial dos fatores conjunturais para a queda do desemprego de 6,7% em 2010 para 6% em 2011 – menos da metade dos 12,3% de 2003. O Produto Interno Bruto (PIB) deve ter crescido menos de 3% no ano passado, mas os serviços ainda tiveram um bom desempenho, o que explica o aumento expressivo da ocupação no setor. No segmento de serviços às empresas, o nível de emprego aumentou 6,4% em 2011, um alta mais forte que os já significativos 4,5% do ano anterior.

Arbache diz que o “crescente protagonismo dos serviços na economia”, num momento em que a indústria patina, foi decisivo para a ocupação crescer a um ritmo ainda razoável. Mendonça observa que a construção civil também ajudou – números do IBGE mostram uma alta de 3,9% do nível de emprego no setor no ano passado. Para comparar, o crescimento na indústria de transformação foi de apenas 1,2%.

O professor Claudio Salm, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que a força dos serviços e da construção derrubou o desemprego em 2011, mas ele não acredita que o mesmo pode ocorrer se a economia crescer menos de 3,5% a 4% em 2012. Ele diz que, na primeira metade de 2011, a economia ainda teve um crescimento razoável (de 3,8% em relação ao mesmo período de 2010), e que a desaceleração mais forte ocorreu apenas no segundo semestre. Neste ano, o desemprego tende a subir se o PIB tiver mais uma expansão modesta, na casa de 3%, acredita Salm.

Mendonça e Romão discordam, apostando em nova queda da desocupação em 2012. Para o primeiro, um motivo importante é que não haverá uma grande pressão da oferta de trabalho, em parte pela questão demográfica e em parte porque a condição favorável de emprego e renda tende a fazer com muitas famílias retardem a entrada dos filhos no mercado de trabalho. Romão acredita que a PEA vai crescer 1,6% em 2012, acima do 1,2% deste ano, mas ainda assim menos que o 1,8% estimado para a ocupação. A atividade econômica deve ganhar força no segundo trimestre, decolando especialmente depois de julho, contribuindo para que setores como a indústria e o comércio gerem um volume maior de empregos.