07/08/2008 - 17:44h “Dona Cida”, a cozinheira da história de Habib’s

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“Dona Cida”, a cozinheira do presidente do Habib’s diz que vai votar na Marta porque o PT é o pai dos pobres.

Os argumentos de “Dona Cida” seguramente sensibilizaram Antônio Alberto Saraiva, presidente do Habib’s. Na elite poucos prestam atenção as opiniões da cozinheira.

“Dona Cida” poderia acrescentar que a diminuição da desigualdade, o crescimento da renda, do emprego e a ascensão social de milhões à classe média asseguram a rede habib’s um crescimento do seu lucro e a expansão dos seus negócios.

Ou seja, além de ser o “pai dos pobres”, o PT no governo Lula tem permitido um crescimento econômico com benefícios para todos. Talvez “Dona Cida” não consiga explicar isto a seu patrão, mas Antônio Alberto Saraiva sabe isto muito bem e pode explicar para sua cozinheira o quanto seu negócio prosperou com o governo Lula.

O PT é o “pai dos pobres”, dos trabalhadores e assalariados, mas é também a mãe dos empresários empreendedores, dos comerciantes e dos agricultores. Ou seja da imensa nação brasileira que produz a riqueza nacional e que encontra no governo Lula as condições para o progresso, com distribuição de renda.

Antônio Alberto Saraiba e “Dona Cida” têm, como se vê, um ponto de encontro e não é só na sala de jantar. LF

07/08/2008 - 15:48h Presidente do Habib’s diz a Alckmin que sua cozinheira vota na Marta

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THIAGO FARIA - colaboração para a Folha Online

Acostumado a evitar críticas diretas a seus adversários, o candidato tucano à Prefeitura de São Paulo, Geraldo Alckmin, precisou medir as palavras ao responder perguntas sobre Gilberto Kassab (DEM) e Marta Suplicy (PT) em evento com empresários na manhã desta quinta-feira.

Na primeira delas, foi instado a comentar medidas polêmicas de Kassab na prefeitura, como a Lei Cidade Limpa e o pacote de restrições ao trânsito de caminhões na cidade. As perguntas vieram acompanhadas de críticas a ambas as leis, que desagradaram empresários e lideranças da Alshop (Associação Brasileira de Lojistas de Shoppings), organizadores do encontro.

Ciente de que, apesar de desagradar empresários, a lei que restringiu a publicidade visual em fachadas e prédios foi bem vista pela população, Alckmin afirmou que vai manter a medida caso seja eleito, mas não descartou flexibilizá-la. “Acho importante diminuir a poluição em todos os níveis, mas vale rever os critérios. Acho que podemos chegar em um acordo”, afirmou o candidato.

Já em relação às restrições ao transporte de carga e descarga, o tucano afirmou que ainda é cedo para avaliar, preferindo não criticá-las, mas ressaltou que também pretende “rever” as medidas. “É preciso conversar com o setor.”

“Problema em casa”

Chamando o candidato pelo primeiro nome, o presidente do Habib’s, Antônio Alberto Saraiva, também colocou Alckmin em situação delicada. “Geraldo, quero sua ajuda para resolver um problema lá em casa”, disse Saraiva ao iniciar sua pergunta.

O empresário contou que sua cozinheira –chamada por ele de “Dona Cida”– votaria em Marta porque, segundo ela, o “PT é o pai dos pobres”. Saraiva pediu que Alckmin lhe dissesse o que falar a sua cozinheira para convencê-la a não votar na ex-prefeita.

Demonstrando certo constrangimento, Alckmin saiu pela tangente e, mais uma vez, evitou falar mal da adversária. “Eleição é convencimento.É preciso mostrar a ela [Dona Cida] quem tem as melhores propostas para a cidade”, respondeu o tucano.

23/07/2008 - 21:27h “A política está reduzida ao noticiário policial”

A imagem “http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/agosto2005/fotosju299online/ju299pg07.jpg” contém erros e não pode ser exibida.Entrevista- Prof. Luiz Werneck Vianna - Iuperj

Agência Carta Maior
22/07/2008

Em entrevista à revista eletrônica IHU On-Line, o professor Luiz Werneck Vianna fala sobre o caso Daniel Dantas e critica o recuo da política e sua redução a uma agenda policial. O pesquisador acredita que “os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso”. E que a solução virá “com mais política” e não com menos. Para Werneck Vianna, o caso Dantas virou um “affair” midiático, com cortinas de fumaça.

IHU On-Line

Ao analisar os recentes episódios de corrupção no Brasil, a partir da prisão (ou da tentativa de) do banqueiro Daniel Dantas, o professor Luiz Werneck Vianna, do Iuperj, em entrevista concedida por telefone à revista eletrônica IHU On-Line, identifica apenas “o capitalismo operando”. Para ele, o mal não está em figuras como a de Dantas ou de Eike Batista, “como se a sociedade fosse melhorar se nos livrássemos delas”.

Ele garante: “Não vai melhorar. A sociedade vai melhorar se organizando em torno das suas questões centrais”, que são, na sua opinião, o crescimento econômico, a reforma agrária e a democratização da propriedade. O pesquisador acredita que “os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso”. E que a solução virá “com mais política”. “O que constatamos, ao longo desse episódio, é que a política recua. Não há política. Está faltando sociedade organizada, reflexiva. A política está reduzida ao noticiário policial”, explica.

Werneck Vianna é professor pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outros, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997), A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999) e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Personagens como Daniel Dantas e Eike Batista avançaram sobre nacos importantes do patrimônio do Estado brasileiro. Quais foram as condições políticas e econômicas que permitiram o surgimento desses personagens?

Luiz Werneck Vianna - O Brasil é um país capitalista. E esses são empresários audaciosos, jovens, e têm encontrado um terreno favorável a tratativas com o executivo no sentido de fazer negócios de interesse comum. E nisso ambos parecem que têm se complicado muito. No entanto, há uma zona de sombra que ainda precisa ser esclarecida. Meu problema em relação a tudo é essa sucessão de intervenções espetaculosas da Polícia Federal, a mobilização da mídia, do Ministério Público, do Judiciário e da opinião pública para esses fatos. As questões centrais não são essas.

Com essa cortina espetacular, o mundo continua como dantes. Nada muda no que se refere à questão agrária, às políticas sociais. A população anda desanimada, desencantada. Além disso, o que aparece aqui, que é muito perigoso, é um espírito salvacionista. Há um “Batman institucional” atuando sobre a nossa realidade. Esse “Batman” é a Polícia Federal associada ao Ministério Público. Há elementos muito perigosos aí, de índole messiânica, salvacionista, apolítica, que podem indicar a emergência de uma cultura política fascista entre nós. Todos esses escândalos e espetáculos atraem a opinião pública como se dependesse da salvação de todos apurar os negócios do Eike Batista e do Daniel Dantas. Não depende, isso é mentira!

Com isso, se mobiliza a classe média para um moralismo que não pára de se manifestar. A política cai fora do espaço de discussão. Enquanto isso, aparecem dois personagens institucionais, ambos vinculados ao Estado: o Ministério Público e a Polícia Federal. Este caminho é perigoso, e a sociedade não reage a ele faz tempo. A cultura do fascismo pode se manifestar com traços mais bem definidos, a partir da idéia de que nosso inimigo é a corrupção, especialmente aquela praticada pelas elites. Então, a sociedade acha que se resolve esse problema colocando a elite branca na cadeia. Desse modo, o país viveria numa sociedade justa. Não vai, mentira!

IHU On-Line - O que o senhor considera como as questões centrais na sociedade brasileira, que devem ser discutidas com mais ênfase?

Luiz Werneck Vianna - O tema do crescimento econômico, da reforma agrária, da democratização da propriedade. Para isso ninguém mobiliza ninguém.

IHU On-Line - Pode-se afirmar que os anos dourados do neoliberalismo brasileiro produziram uma nova burguesia nacional da qual Daniel Dantas e Eike Batista são hoje personagens centrais? O que distingue essa nova burguesia da “velha burguesia nacional” do período desenvolvimentista?

Luiz Werneck Vianna - Eike Batista não é um homem das finanças, e sim um homem da produção. O Daniel Dantas, não. Ele é um homem do setor financeiro. Este setor apresentou enormes possibilidades. Esses executivos do setor financeiro não têm 40 anos. Se examinarmos os currículos deles, veremos que são formados por boas universidades, com doutorado no exterior. Apareceu um novo mundo para esses setores médios e educados da população, especialmente os economistas. Se passa da posição de economista para a posição de banqueiro hoje muito facilmente.


IHU On-Line - Como o senhor interpreta essas relações aparentemente ambíguas que o banqueiro Dantas tinha, ao mesmo tempo, com o mercado financeiro internacional e os fundos de pensão do Estado do qual fazem parte sindicalistas? Acabou-se a velha contradição capital - trabalho?

Luiz Werneck Vianna - Essa questão dos fundos previdenciários existe em toda a parte, não apenas no Brasil. E o controle disso tem sido em boa parte corporativo. Quem mexeu com a questão e falou no surgimento de uma nova classe foi o Francisco de Oliveira. Não sei se devemos concordar inteiramente com o que ele diz, mas, pelo menos, é uma alusão importante. O capital hoje tem uma outra forma de circular, e isso não ajuda o mundo sindical a se reorganizar. O que vemos é um sindicalismo inteiramente cooptado pelo Estado. Dantas jogou com as oportunidades que viu. Até agora, as únicas coisas concretas pelas quais ele pode ser pego são o suborno ao policial e seu problema com o Imposto de Renda. Esse é o capitalismo operando. Daqui a pouco vão querer “prender” o capitalismo. E não creio que isso esteja na intenção da Polícia Federal. O mal não está nessas figuras, como se a sociedade fosse melhorar se nos livrássemos delas. Não vai melhorar. A sociedade vai melhorar se organizando em torno das suas questões centrais.

IHU On-Line - O banqueiro Dantas estabeleceu uma rede de conexões políticas tecida ao longo de três governos - Collor, FHC e Lula. Como entender o poder de Daniel Dantas, sua capacidade de manipulação e envolvimento de tantas pessoas, de diferentes governos, nessa malha de corrupção?

Luiz Werneck Vianna - Era necessário que nessa rede público-privada aparecessem personagens. Essa rede não podia se montar sem pessoas concretas. Dantas foi uma. O ponto da privatização estabeleceu um caminho para que esses homens encontrassem a sua oportunidade.

IHU On-Line - O senhor considera que o caso Dantas ameaça o conceito de República, ou se pode afirmar que efetivamente o Brasil nunca desfrutou do status de República?

Luiz Werneck Vianna - Não ameaça nada. Esse é um affair midiático, com cortinas de fumaça. Os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso. Vejo as primeiras fumacinhas de uma síndrome fascista entre nós. E isso deve ser denunciado, combatido, e com política, com mais política. O que constatamos, ao longo desse episódio, é que a política recua. Está faltando sociedade organizada, reflexiva, e a política está reduzida ao noticiário policial.


IHU On-Line - Como o senhor analisa a postura do Supremo Tribunal Federal nesse caso? Como interpreta o comportamento do ministro Gilmar Mendes?

Luiz Werneck Vianna - Interpreto bem. O papel da Suprema Corte é defender a Constituição, as liberdades individuais, e também não deixa de incorporar essa preocupação com o testemunho do espetacular que essas operações policiais manifestam. Uma outra questão vinculada a isso é a escuta telefônica. Estamos indo para um estado policial? E a sociedade aprende a apontar como culpado o “malvado” lá da ponta, responsável por todos os males, que, caso preso e execrado, vai fazer com que a sociedade melhore.

Num ano eleitoral, tudo se discute, menos a política. Não podemos defender a idéia de que um grande inquérito, um grande processo pode resolver as máculas da nossa história, criar um novo tipo de um encaminhamento feliz para nós (e isso é feito pela polícia, pelos grampos telefônicos, pela repressão!). Isso não lembra a linguagem do regime militar, quando ele se impôs? De que o grande inimigo é a corrupção? Só que agora tudo está sendo feito numa escala nova, imensa, com um domínio total dos meios de comunicação. O próprio Congresso se tornou uma ampla comissão parlamentar de inquérito, apurando, investigando e não discutindo políticas e soluções para os problemas. Além do mais, temos um grupamento novo na sociedade: a Polícia Federal é nova. Ela foi extraída da classe média. Seu pessoal é concursado, bem formado, com curso superior. Seus integrantes estão autonomizados a ir para as ruas com esse sentimento messiânico, que aparece no relatório do delegado Protógenes, de que a Polícia pode salvar o mundo.

IHU On-Line - Qual é a sua opinião sobre o combate à corrupção no Brasil? Este episódio recente abre a possibilidade de mudanças?

Luiz Werneck Vianna - Nesse processo, a ordem racional legal avança, se aprimora, se aperfeiçoa. No entanto, o que tento combater é uma visão salvadora, justiceira, messiânica do papel policial para a erradicação dos nossos males, como se não devesse haver nenhum impedimento entre a ação da polícia e a sociedade, como se não devêssemos ter habeas corpus, como se as pessoas pudessem ser presas, retiradas das suas casas nas primeiras horas da manhã, algemadas, e tudo isso passando por câmeras de televisão… Não creio que isso seja um indicador de democracia.


IHU On-Line - Que tipo de sentimento esse episódio provoca na população brasileira? Revolta, descrédito nas instituições?

Luiz Werneck Vianna - Descrédito. E também aprofunda o fosso entre a sociedade e a política, mantém a sociedade fragmentada, isolada, esperando que a ação desses novos homens, dessas corporações novas, nos livre do mal. Talvez eu tenha dado muita ênfase à dimensão negativa de tudo isso, mas também vejo que esse processo pode ser corrigido se a ordem racional legal for defendida por recursos democráticos, sem violência, com respeito às leis, à dignidade da pessoa humana. É possível se avançar na ordem racional legal, investigando a corrupção, prendendo seus responsáveis, mas sem que isso assuma o caráter de escândalo, de espetáculo, no qual parece que temos um agente de salvação em defesa da sociedade. Isso sim é perigoso.

23/07/2008 - 16:05h Marta encontra representantes das empresas do setor da construção

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O repórter César Felicio, do jornal Valor, acompanhou a atividade de Marta com representantes do setor da construção civil e de habitação e publicou um artigo no Valor de hoje.

“A ex-prefeita Marta Suplicy, candidata do PT à prefeitura paulistana, apresentou o seu plano de obras ontem, no auditório do Instituto de Engenharia, para empresários reunidos pelas entidades do setor de construção civil (Sinduscon), habitacional (Secovi), construção pesada (Sinicesp), de empresas de arquitetura e engenharia (Sinaenco) e empreiteiros em geral (Apeop). Todos setores afetados pela paralisia econômica que marcou o final do governo de Marta e o início da administração de Serra.”

Para que não pairem dúvidas sobre o que esconde o termo “paralisia econômica”, o repórter reproduz declarações de dirigentes do setor:

“”Não foi ela que postergou os pagamentos de uma maneira não usual, para se dizer o mínimo”, disse o novo presidente do Sinduscon, Sergio Watanabe. “A administração municipal não respeitou a ordem cronológica em 2005″, comentou Moura.”

O artigo destaca entre as propostas de Marta, o pacote de obras anunciados na reunião:

“Marta prometeu um pacote de obras, sendo que o item mais vistoso é a aplicação anual de R$ 500 milhões em recursos municipais no metrô, órgão de responsabilidade estadual. Ao comentar o pacote o presidente da Apeop, Arlindo Moura festejou o discurso de tocadora de obras da prefeita, mas pediu que o passado não se repetisse. ” O que se espera de um prefeito é que os recursos públicos da cidade não fiquem entesourados. E que os nossos mandatários cumpram a lei. É preciso cumprir a lei de responsabilidade fiscal: empenhar os recursos e pagar. Pagar. Isto é fundamental”, disse. “A gente não deve ter compromissos além do que a gente pensa que pode ser feito”, comentou a petista nos agradecimentos finais.”

Quando se sabe que o atual prefeito mantém em aplicações financeiras quase R$ 5 bilhões apesar da cidade ter tantas necessidades e os investimentos em obras necessárias são também uma alavanca da geração de emprego, além de melhorar a infraestrutura do município, se entende a quem foi dirigida a frase do presidente da Apeop.

César Felicio, do seu lado, acrescenta: “No seu último dia útil como prefeita, Marta Suplicy cancelou R$ 548,2 milhões em empenhos não liquidados (despesas contratadas para serviços e obras que não chegaram a ser realizados) e inscreveu R$ 562 milhões como restos a pagar processados (com cobertura orçamentária). Logo ao assumir, o então prefeito José Serra acusou a antecessora de ter produzido um rombo de R$ 1,9 bilhão nas contas municipais. Neste montante, estariam até mesmo R$ 278 milhões para serviços executados sem empenho orçamentário, ou seja, sem nenhuma previsão legal.”

Pena que o jornalista não aproveitou para lembrar também que o Tribunal de Contas do Município (TCM), a Câmara de vereadores com o voto dos vereadores de kassab e o Supremo Tribunal Federal concluíram sobre essa polêmica que Marta estava certa, respeitou a Lei de Responsabilidade Fiscal e suas contas foram aprovadas.

Esta polêmica já está assim superada, nada mais natural de concluir, como registrou o repórter:


“Na saída do evento, a ex-prefeita acenou com uma parceria administrativa com Serra, apesar da transição conturbada de 2005. “A conversa vai rolar tranqüilamente”, disse, afirmando que ” os problemas de São Paulo são tão gigantescos que só uma instância não dá conta”.

Pena que poucos deram destaque, fora VALOR, a este tema relevante para o eleitorado e para o debate das propostas dos candidatos. LF

O portal da Globo, G1,  deu conta do evento assim:

Marta propõe pelo menos R$ 490 milhões ao ano para o metrô

Candidata formulou proposta em debate no Instituto de Engenharia de SP
Para presidente do instituto, ‘é pouco’. Ela disse que pode rever cifra.

A candidata à Prefeitura de São Paulo pelo PT, Marta Suplicy, se reuniu nesta terça-feira (22) com integrantes de entidades da engenharia, da construção civil e da indústria imobiliária.

A ex-prefeita mostrou intenção, se eleita, de investir R$ 490 milhões por ano no Metrô durante sua gestão para preparar a cidade para a Copa de 2014.  De acordo com o plano de Marta, o governo estadual investiria outros R$ 980 milhões por ano e o governo federal mais R$ 490 milhões por ano.

O presidente do Instituto de Engenharia, Edemar Amorim, considerou o estudo adequado do ponto de vista técnico , mas criticou o valor da proposta. “Acho que R$ 490 milhões é pouco”, afirmou. Sem firmar compromisso, Marta se dispôs, assim que ouviu a crítica, a rever a cifra a ser investida pela prefeitura em sua eventual gestão. ” Podemos ver porque agora há mais orçamento”, disse.

Após o encontro, Amorim afirmou que a prefeitura precisa investir “pelo menos o dobro” do que Marta previu por ano. De acordo com ele, “o governo do estado precisa investir também R$ 2 bilhões” e o governo federal precisa aumentar sua participação, uma vez que a cidade contribuiu com arrecadação “astrônomica” para os cofres federais. “Isso tem que retornar porque sem Metrô a cidade pára.”

Amorim também afirmou que o próximo prefeito de São Paulo deverá investir na formação de uma nova equipe de engenheiros na administração municipal, porque atualmente há déficit de profissionais e de projetos.

“Nestes últimos 30 anos, a Prefeitura sofreu diminuição da qualidade de seu corpo técnico. Não tem gente para projetar, fiscalizar e dar assessoria técnica. A gente tem que ter com quem falar”, afirmou.

Durante sua exposição, Marta afirmou que São Paulo tem um problema “crítico”, que é o trânsito, e três problemas “crônicos”, que são a educação, a segurança e a habitação. Entre as idéias para lidar com o problema crítico, estão a integração da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) com a São Paulo Transportes (SPTrans) e a modernização dos corredores de tráfego já existentes.

Na reunião, Marta comentou ainda o crescimento do país e os reflexos para o setor de construção em São Paulo.”Daqui a pouco, vamos estar como Pequim, cheia de guindastes”, disse.

Entre os participantes estavam o empresário Sérgio Watanabe, que assumirá em agosto a presidência do Sindicato da Indústria da Construção Civil do estado de São Paulo (Sinduscon-SP); Romeu Chap Chap, presidente do Conselho Consultivo do Secovi (Sindicato da Habitação); e Marlus Renato Dall´Stella, presidente do Sindicato da Indústria da Construção Pesada do estado de São Paulo (Sinicesp).

O encontro, promovido pelo Instituto de Engenharia, é primeiro de uma série. No dia 28, é a vez do candidato Paulo Maluf (PP); no dia 6, de Geraldo Alckmin (PSDB); e, no dia 13, de Gilberto Kassab (DEM).

22/07/2008 - 10:03h ABC e D: 40% dos postos de trabalho recuperados e novos horizontes para a região

ABC recupera vigor, mas perde poder sindical

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Marli Olmos e Raquel Landim, de São Paulo, São Bernardo do Campo e Diadema - VALOR

Regiane Maria da Silva, 22 anos, casada, trocou de emprego no começo do ano e está trabalhando na linha de montagem da Federal Mogul, em Diadema. Passam por sua mãos 220 faróis de moto por hora. O trabalho é corrido, mas ela não reclama. Regiane aproveitou as contratações da indústria automotiva para ganhar mais. Com a mudança, o salário aumentou 25%, para R$ 926. Ela conta que utiliza o dinheiro extra para pagar dívidas, comprar roupas e passear com o filho, Gustavo - um luxo praticamente impossível antes.

A operária ocupa uma das mais de 22 mil vagas abertas na base metalúrgica que abrange São Bernardo do Campo, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra nos últimos cinco anos, período em que o nível de emprego nesse setor industrial na região do ABC paulista voltou a crescer.

Desde 2003 a categoria metalúrgica dessas cidades recuperou em torno de 37% dos postos de trabalho perdidos na década de 90. Os números oficiais serão divulgados pelo sindicato hoje. O último dado oficial da entidade mostrava 97,6 mil trabalhadores em março. Como a média de abertura de novas vagas está em mil empregos por mês, a categoria dessa base já passa de 100 mil.

A capacidade de o ABC voltar a criar empregos e atrair investimentos, inclusive como berço de novos projetos de veículos, coincide, porém, com um momento de enfraquecimento político daquele que já foi o principal sindicato do país e onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou a atividade de líder sindical.

Disputas de poder moldaram um novo mapa na representação dos trabalhadores. O grupo de São Bernardo, onde nasceu o Partido dos Trabalhadores (PT) e seu braço sindical, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), perdeu em agosto do ano passado uma parte importante da base. Depois de uma disputa na Justiça, que se estendeu de 1996 a agosto do ano passado, a Força Sindical tomou o controle da base de Santo André.

Para evitar que o impasse se arrastasse ainda mais na Justiça, os sindicalistas resolveram fazer uma partilha da base de forma consensual. O grupo de São Bernardo continuou com Diadema e levou mais dois pequenos municípios: Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. A turma de Santo André ficou com Mauá e mais um prédio de treinamento que também estava na disputa.

A Força Sindical comanda também o Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano do Sul, que há anos está totalmente descolado do resto do movimento sindical da região. Outro ponto de enfraquecimento é que, uma vez feita essa divisão de grupos, surgiram três datas-base na região: agosto, setembro e novembro, o que, por si só já contrapõe com as históricas mobilizações que reuniam milhares dentro de um estádio durante as negociações trabalhistas dos tempos de Lula.

Dessa forma, a entidade que leva o nome Sindicato dos Metalúrgicos do ABC representa cada vez menos o ABC, apesar de ser a maior entidade, a mais estruturada e a mais afinada com as poderosas comissões de fábrica, especialmente das montadoras.

Os sete municípios que compõem o ABC têm, juntos, mais de 140 mil trabalhadores. O atual presidente do Sindicato do ABC, José López Feijóo, argumenta que a sua base é a maior. De fato, essa entidade é dona de 72% da categoria na região, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), subseção ABC. Santo André e Mauá, a segunda maior base, reúne 23 mil.

No próximo dia 2, Feijóo será substituído por um novo presidente, Sérgio Nobre, um empregado da Mercedes-Benz. Nobre tem a própria história ligada aos momentos de crise na região. Seu pai trabalhou na Brastemp , uma das empresas que desistiram da região na década de 90 e ele, aprendiz do Senai, começou a trabalhar na indústria automobilística quando só se falava em demissões .

As empresas que não desistiram do ABC hoje crescem junto com a região. José Carlos Ferreira Catib, diretor geral da ZF Sachs, uma multinacional do setor de autopeças, conta que a empresa chegou a cogitar a possibilidade de sair da região 15 anos atrás. Na época, pesavam a ação sindical e os custos, afirma Catib. “Mas a mudança nessa postura sindical nos levou a ficar”, destaca. “Os sindicalistas perceberam que tinham que atuar em conjunto com as empresas”, destaca.

Do seu lado, os sindicalistas dizem que as empresas também mudaram. “Antigamente as empresas não aceitavam sequer receber uma pauta de reivindicações e, por isso, tínhamos que partir logo para a greve”, destaca Adilson Torres dos Santos, diretor do Sindicato de Santo André.

Catib lembra que a região tem mão-de-obra qualificada e proximidade do porto de Santos. Mas o que freia um pouco esse crescimento é o esgotamento da capacidade. A própria ZF instalou uma nova unidade em Araraquara, no interior paulista, porque precisava ampliar a produção.

Em São Bernardo, a ZF faz componentes de embreagem , que são, posteriormente montados em Araraquara. Dali, as peças seguem para as montadoras do Brasil e do exterior. Qualquer paralisação pode pôr a perder essa sintonia.

“O setor automotivo é a porta na nossa cadeia produtiva. Ainda é o alicerce da economia”, diz Fernando Longo, secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo de São Bernardo. Ele recebe solicitações diárias de empresas procurando área livre para se instalar na cidade, mas ressalta que é bastante complicado.

Graças aos novos empregos, a região voltou a crescer e atrair investimentos imobiliários e do comércio. Dimitrios Markakis, presidente da Dicico, está investindo na região do ABC paulista. Ele instalou uma loja em Diadema em 2007 e vai abrir outra em São Bernardo este ano. Em 2009, será a vez de Santo André. O executivo encomendou pesquisas sobre a região e, apesar do alto custo dos imóveis, a indicação é de retorno positivo, porque o potencial econômico é promissor.

“Quando abrimos uma loja, não podemos errar, porque o custo chega a R$ 12 milhões”, diz. Markakis avalia que, com o boom do setor automotivo, a tendência é de melhora do poder aquisitivo. Ele não duvida de que será seguido pelos concorrentes em breve. “Provavelmente todos os grandes varejistas de material de construção estarão em todas as cidades do ABC”.

Com 100% de ocupação nas lojas e alta de 14% nas vendas em 2007, o ABC Plaza Shopping, em Santo André, faz planos de ampliação. Segundo Márcia Pacheco, gerente de marketing do shopping, serão construídas mais 86 lojas - quase um terço das atuais 305. A incorporadora Cyrella vai investir R$ 30 milhões no projeto. “Com o boom imobiliário, as pesquisas detectaram a necessidade de novas lojas”, diz Márcia. Ela explica que o objetivo não é elitizar o shopping, cujo público majoritário é das classes B e C, mas atender à sofisticação nos hábitos de consumo.

Augusto Toldo, diretor e um dos donos da Super Mad, varejista de madeiras, está em São Bernardo desde 1951. Hoje a rede possui sete lojas no Estado. “O ABC sempre foi o carro-chefe, porque temos tradição aqui”, diz. Toldo se lembra das crises econômicas, mas afirma que sempre acreditou na região e agora está mais animado com o crescimento da construção civil nas cidades do ABC paulista.

O carinho com o ABC não impede que o empresário tente a sorte em outros lugares, mas sempre atento à movimentação das montadoras. Toldo tira da gaveta uma matéria de jornal recortada sobre a fábrica da Toyota em Sorocaba. “Veja isso. Vai gerar muito emprego. Nós vamos para lá no ano que vem”, diz.

Uma conseqüência do crescimento econômico é o aumento de arrecadação e folga no caixa das prefeituras do ABC para investir. Entre 2000 e 2007, o repasse estadual de ICMS aumentou 85% para Santo André, 53% para São Bernardo, 119% para São Caetano e 72% para Diadema, conforme dados da secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo.

Fábio Piangentini, secretário de Desenvolvimento Econômico de Santo André, afirma que a prefeitura investiu R$ 28 milhões em um complexo viário para reduzir o trânsito na cidade e facilitar a logística para as empresas. Além disso, a cidade vai inaugurar um novo hospital na periferia, voltado para a saúde da mulher.

12/07/2008 - 19:03h Aos poucos, cada vez mais luz

http://geraldofreire.uol.com.br/daniel_dantas.jpg (…) Poucos homens de negócios representam com mais nitidez a natureza perversa do capitalismo brasileiro dependente do estado macrófago do que o banqueiro Daniel Dantas.

Pelas mãos do ex-ministro Mario Henrique Simonsen, que o considerava seu aluno mais capaz, Dantas despontou há duas décadas como um jovem e astuto economista saído do conceituado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos.

Durante as privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso, o banqueiro de origem baiana reinventou-se. À frente de seu próprio banco, o Opportunity, recebeu a bênção do governo para unir-se aos poderosos fundos de pensão de estatais, como Previ e Petros, formando uma espécie de parceria público-privada cujos efeitos desastrosos perduram até hoje. Dantas conseguiu do governo um mandato para ser o gestor dos recursos investidos por esses fundos em um conglomerado de empresas recém-privatizadas, que reunia desde a Santos Brasil, terminal portuário em Santos, até as operadoras de telecomunicações Brasil Telecom, Telemig Celular e Amazônia Celular. A parceria funcionava desta forma: o governo entrava com o dinheiro e Dantas dava as cartas.

Foi assim, como empresário privado de patrimônio público, que Dantas despontou como o mais astuto entre os inúmeros capitalistas brasileiros cujo sucesso se deve a privilégios oficiais obtidos pela bajulação e, principalmente, pela corrupção de autoridades de plantão.”

Do artigo de VEJA “Dantas contra a parede”

08/06/2008 - 12:35h Corrupção e desvio de dinheiro público provoca crise e derruba principais secretários do governo tucano em RS

No dia 26 de maio, o chefe da Casa Civil do governo Yeda Crusius (PSDB), Cézar Busatto (PPS), foi conversar com o vice-governador Paulo Feijó (PFL). O objetivo da conversa: tentar convencer Feijó a parar com as denúncias sobre irregularidades no Banrisul. Busatto tenta comprar a posição de Feijó:“…Se pudéssemos encontrar um modus vivendi que nos permitisse tu não romper com tuas convicções….para tu estar dizendo pra ti mesmo, pra tua consciência…qual é o custo disso? Eu não sei, de repente o Fernando (o presidente do Banrisul chama-se Fernando Lemos) faz um gesto concreto pra ti, não quero pensar alto porque isso não tá no horizonte…uma coisa concreta que pudesse permitir ou outra coisa, quem sabe?

Além de fazer essa oferta, Busatto, didaticamente explica a Feijó que o Banrisul é fonte de financiamento das campanhas do PMDB e o Detran e o Daer do PP.

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A seguir artigo da Folha

Crise derruba parte do secretariado de Yeda

Governadora demitiu três membros do primeiro escalão da administração e o comandante-geral da Brigada Militar

A mudança é uma resposta à crise política agravada pela divulgação, por parte do vice-governador, de diálogo com o ex-chefe da Casa Civil

GRACILIANO ROCHA - FOLHA DE SÃO PAULO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM PORTO ALEGRE

Em mais um capítulo da maior crise política de sua gestão, a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB), anunciou ontem a demissão de três membros do primeiro escalão do governo e do comandante-geral da Brigada Militar (a PM gaúcha).
Segundo a tucana, as cartas de demissão do chefe da Casa Civil, Cézar Busatto, do secretário-geral de Governo, Delson Martini, do chefe do escritório do Estado em Brasília, Marcelo Cavalcante, e do comandante-geral da Brigada Militar, coronel Nilson Bueno, foram apresentadas na noite de sexta.
A mudança -a maior no primeiro escalão desde a posse de Yeda, em 2007- veio como resposta à crise política agravada na semana passada com a divulgação de grampos telefônicos feitos pela Polícia Federal e de conversa gravada pelo vice-governador e inimigo político de Yeda, Paulo Feijó (DEM), em que Busatto reconhece o uso de estatais no financiamento de campanhas eleitorais.
O ex-chefe da Casa Civil, que não sabia que sua conversa com Feijó estava sendo gravada, menciona o PP e o PMDB -os maiores partidos da base de Yeda- como beneficiários da prática em órgãos estatais que comandam, o Banrisul (Banco do Estado do Rio Grande do Sul) e o Detran (Departamento Estadual de Trânsito). Depois, Busatto disse que se referia a contribuições de servidores filiados aos partidos.
Os 18 deputados estaduais das duas siglas pressionaram Yeda pela demissão.
Ela classificou o comportamento do vice como “indigno” e “insólito”. Disse que a gravação “não tem valor ético ou moral”. “Quando alguém não sabe que estava sendo gravado, quem estava gravando pôde fazer o teatro que bem quis.” Feijó não se manifestou ontem.

Relação com Ferst
A governadora negou ter tomado conhecimento da carta enviada pelo empresário tucano Lair Ferst, apontado pela PF como um dos pivôs do desvio de R$ 44 milhões no Detran. Na carta, recebida por Cavalcante, Ferst fala do funcionamento da fraude e cita sua participação na campanha de Yeda em 2006.
A governadora defendeu Cavalcante. Afirmou que a carta não trazia provas da existência do esquema no Detran. Sustentou que sua relação com Ferst é partidária. “Lair é militante do PSDB. Hoje está afastado, esteve presente em todos os momentos como militante.”
Yeda afirmou que a crise não abalou o relacionamento com os aliados nem a confiança da população no governo. “Mostrem que o povo gaúcho não confia no meu governo.”
A mudança no secretariado, disse Yeda, não vai alterar seu modelo de gestão “baseado em resultados”, mesmo com a saída de Delson Martini, que coordenava projetos prioritários do governo e foi acusado de participar da fraude do Detran.
Bueno, da Brigada Militar, pediu demissão após ter sido denunciado pelo Ministério Público Militar por uso irregular de diárias.
Em pronunciamento veiculado ontem à noite em rádios e TVs gaúchas, a tucana defendeu sua gestão e disse, na única menção à crise, que “o desenvolvimento do Rio Grande do Sul não será afetado por ataques desleais”.

02/06/2008 - 09:23h A receita de Pastore: mais superávit primário e mais aperto fiscal

‘Lula deveria apertar a política fiscal’

Affonso Celso Pastore: ex-presidente do Banco Central

Leandro Modé - O Estado de São Paulo

No início da semana passada, o Banco Central (BC) informou que o déficit em conta corrente (que inclui transações de comércio, serviços e rendas do Brasil com o exterior) alcançou o recorde de US$ 14,1 bilhões entre janeiro e abril, o equivalente a cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB). Embora o buraco tenha sido coberto pelo investimento estrangeiro, alguns economistas alertaram para a velocidade com que se vem deteriorando. Para se ter uma idéia, no primeiro quadrimestre do ano passado, o saldo estava positivo em US$ 2,04 bilhões. Terça-feira, durante um evento no Rio, o ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore chamou a atenção para o risco de o déficit subir para entre 4% e 5% do PIB, nível que, segundo ele, sempre trouxe problemas para o País. Na sexta-feira de manhã, ele recebeu o Estado em seu escritório, na zona oeste de São Paulo. Pastore diz que, no curto prazo, o déficit não preocupa, mas reafirma que um porcentual de 4% a 5% do PIB seria “muito perigoso”. Para evitar que se chegue até lá, recomenda mais aperto fiscal, o que também contribuiria para a queda da inflação. “Se o presidente Lula quiser passar para a história como o presidente que produziu a virada no crescimento econômico, deve pegar a política fiscal e dar mais uma apertada no parafuso, para que seja mais austera do que agora.”

link Ouça a íntegra da entrevista com o ex-presidente do BC som

link Veja o especial das contas externas do País especial

link Confira a evolução das taxas de juros no governo Lula especial

link Veja o especial sobre inflação no mundo especial

O déficit em conta corrente preocupa?

A curto prazo não. No acumulado em 12 meses, está em pouco mais de 1% do PIB. A média dos últimos quatro meses está em torno de 2% do PIB. Olhado estaticamente, não preocupa, pois o Brasil tem fluxo de capitais. Nesse fluxo, há o investimento estrangeiro direto, que cobre qualquer um desses montantes. O que não se pode é deixá-lo crescer indefinidamente.

O que fazer para não deixá-lo crescer indefinidamente?

É preciso olhar o que está por trás. Se você perguntar para alguns empresários, eles dirão que é óbvio que o déficit em conta corrente está crescendo porque o câmbio real se valorizou. Em vez de olhar para o lado do câmbio e para quaisquer outras interpretações possíveis, fiquemos com uma identidade contábil, que é independente de ideologia. Ela diz que a demanda total doméstica está 2% do PIB acima do investimento. Em outras palavras, o crescimento do déficit é uma manifestação da expansão muito rápida da demanda doméstica. A outra manifestação se dá nas pressões inflacionárias. Ambas são filhas do mesmo problema: crescimento de demanda muito forte, não sustentável no nível atual.

Como desacelerar?

Há duas formas. A mais clara, com menos custo para a sociedade, é cortar gasto público. Vejo com grande simpatia a proposta de alguns membros do PT de que o governo deveria subir a meta de superávit primário (atualmente em 3,8% do PIB). Uma meta entre 5% e 5,5% do PIB representaria um grande avanço para a economia. Como a receita do governo, hoje, está dada, uma meta maior implicaria corte dos gastos de custeio. Uma elevação do superávit para essa faixa entre 5% e 5,5% do PIB tiraria entre 1,2% e 1,7% do PIB de pressão sobre a conta corrente, sobre a demanda. Não diria que isso substitui totalmente a elevação da taxa de juros. Mas o ciclo inteiro de subida, que será longo, certamente seria muito beneficiado por um superávit primário maior. Teríamos, conseqüentemente, alguns ganhos. O primeiro é que, quando sobe a taxa de juros, cai o consumo das famílias e o investimento. O Brasil perde com isso porque cresce menos e o bem-estar das famílias também cai. O caminho aberto para o presidente da República está muito claro: subir a meta de superávit primário. Com isso, vai consolidar uma política econômica que tem uma vertente correta no plano macroeconômico, mas ultimamente se vem desviando desse caminho graças a uma política fiscal que, do ponto de vista do gasto público, é insustentavelmente expansionista.

Qual o impacto da política industrial no déficit em conta corrente?

Antes de mais nada, é preciso dizer que o governo resolveu “escolher os vencedores”. O primeiro foi a indústria automobilística, que ficou com 53% dos recursos. Os outros 47% ficaram com os mortais que não produzem automóveis no Brasil. O governo disse que o objetivo é elevar a taxa de investimento de 17%, 18% do PIB para 21%. Não consigo ver como irá a 21%. Digamos que vá. Se for, o déficit em conta corrente vai crescer na mesma proporção. Ou seja, o déficit atual, de entre 1% e 2% do PIB, iria para entre 4% e 5% do PIB. Pode-se abrir espaço para isso, desde que o governo corte 1,5% ou 2% do PIB do seu gasto, aumentando sua poupança.

4,5% a 5% do PIB é perigoso?

Sempre tivemos problema com esse nível. Alguém dirá: “Mas agora somos grau de investimento.” Somos justamente porque paramos de fazer as besteiras que fazíamos quando tínhamos déficit em conta corrente de 4,5%, 5% do PIB. Pode ser que o mercado demore para perceber a bobagem, mas acaba percebendo. Portanto, 4,5% a 5% do PIB é muito perigoso, não é só pouco perigoso.

Por que, apesar do crescente déficit em conta corrente, o real continua se valorizando ante o dólar?

Porque tem fluxo de capital maior do que o déficit em conta corrente. É por isso que não vejo um risco de crise na conta corrente. A situação normal do Brasil é ter déficit em conta corrente. Por que o Brasil tem déficit em conta corrente? Porque tem uma poupança baixa. O déficit em conta corrente é o excesso de investimento sobre a poupança. A China tem superávit em conta corrente porque tem poupança maior que investimento. As evidências empíricas da literatura mostram que países com poupança alta crescem mais. Para crescer a taxa de investimento, o Brasil precisa ter déficit na conta corrente. Agora, são déficits dentro de limites razoáveis. O atual, de 1,5%, 2% do PIB, é razoável.

Como aumentar a poupança?

Passa pelo aumento da poupança do governo, com corte do gasto público.

Nesse contexto, como vê a decisão anunciada sexta-feira pelo ministro Mantega, de que a meta informal de superávit primário será elevada de 3,8% para 4,3% do PIB e esse 0,5% adicional vai compor o fundo soberano?

Depende de como você veste a moça, ela pode parecer feia ou bonita. Superávit primário é um excesso de arrecadação sobre os gastos primários, que somente pode ser utilizado para reduzir a dívida pública. Ou seja, é dinheiro que sai do circuito econômico: os gastos do governo são cortados. Ponto final. O que o ministro anunciou se parece muito mais com um esquema de “transferência” de recursos: arrecada 0,5% do PIB a mais, porém não destina esses recursos à redução da dívida, e sim a financiamentos de empreendimentos - aqui no Brasil, e mais tarde, quando puder comprar dólares, no exterior. Quem receber esse “financiamento” vai gastá-lo. Onde? Ninguém sabe. Para produzir os efeitos que descrevi, o governo precisaria de um superávit entre 5% e 5,5% do PIB efetivamente cortando gastos.

O que dá para projetar em termos de taxa de juros considerando um aumento do superávit primário para o nível que o sr. considera adequado e levando em conta a meta atual, de 3,8% do PIB?

É muito difícil projetar o ciclo de subida do juro porque há muitas variáveis interferindo. Existe uma inflação mundial nos alimentos e nos custos que mexe nas expectativas. Não quero colocar números nisso, mas vamos ter 5 ou 6 reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) de alta da taxa de juros. Se sobe a meta de superávit primário, corta-se isso ou corta-se a intensidade das últimas elevações do ciclo.

Como avalia o grau de investimento ao Brasil?

Se você olhar pela janela, não há nenhuma diferença marcante após a promoção. Mas, no último ano, quando o mercado já sabia que o Brasil ia virar grau de investimento, percebe-se uma queda substancial nas taxas com as quais recursos são captados lá fora. Teve gente que achou isso ruim. Após a promoção pela (agência) Standard & Poor’s, alguns empresários declararam que viria uma enxurrada de dólares para cá, que o dólar ia derreter. O dólar não é sorvete e não derrete. Esses mesmos empresários têm de lembrar que todas as aberturas de capital feitas nos últimos anos tiveram quase 70% de recursos de estrangeiros. Antigamente, um empresário, para pegar recurso estrangeiro, tinha de tomar empréstimo em dólar, portanto, corria risco de câmbio. Vimos muitas empresas que, por isso, quebraram. O mercado de capitais está produzindo o milagre de as empresas se financiarem na própria moeda com recursos em dólares de estrangeiros, que estão correndo o risco de câmbio. O Brasil tem um benefício enorme de ser grau de investimento. O País tem de defender essa posição e buscar novas promoções. Isso se faz com uma política fiscal muito mais responsável do que a atual. Se o presidente Lula quiser passar para a história como o presidente que produziu a virada no crescimento econômico, o incentivo dele é pegar a política fiscal e dar mais uma apertada no parafuso para que seja mais austera do que agora.

Se o déficit em conta corrente e a inflação estão ligados, a alta dos preços não é culpa do feijãozinho, como disse o ministro Mantega?

No tempo dos militares, existia a inflação do chuchu. Outro dia vi um artigo do Alexandre Schwartsman (ex-diretor do BC), no qual ele dizia: “Tire os preços que subiram e, assim, se põe a inflação onde quiser.” Se você brincar com essa história de atribuir a inflação aos preços que mais subiram, é até engraçado. Como piada fica muito divertido. Mas, como orientação de política econômica, realmente é um erro. Inflação é um fenômeno monetário. Ainda que o governo persista nessa tentativa estóica de tirar um imposto aqui e outro ali para ver se o preço do pãozinho cai, qualquer aluno do primeiro ano de economia sabe que isso mexe em preço relativo, mas não no nível absoluto de preços. A Argentina usou e abusou desse tipo de medida e olha a inflação como está lá agora. No passado, o Brasil abusou de controle de preços e a inflação foi para hiper. Tem de atacar com taxa de juros.

Como avalia o BC nessa história?

O BC está exercendo o papel que tem de exercer. A sociedade não gosta de subida do juro. Paul Volcker (presidente do Fed, o banco central dos Estados Unidos, entre 1979 e 1987), quando subiu a taxa de juros, teve de enfrentar na Massachusetts Avenue (em Washington) um protesto de agricultores, que puseram tratores dentro da cidade. Isso é natural no mundo inteiro.

O mundo hoje vive uma situação semelhante à da década de 70, quando Volcker elevou fortemente os juros nos EUA para conter os preços. Mas há quem argumente que a inflação atual é de custo e, portanto, não seria debelada pela ação da taxa de juros. O que o sr. pensa?

Inflação é inflação. Não tem inflação de custo ou de demanda. Pode começar numa subida de salário e ir para o preço, pode começar no preço e depois ir para o salário. Sempre é assim. Você tem razão: há semelhanças entre o momento atual e o da década de 70, o que não significa que sejam absolutamente iguais. Essa inflação mundial terá de ser tratada pelos bancos centrais em algum momento lá na frente. Não vai tardar muito para que tomem medidas para baixar essas taxas. Mesmo nos EUA, já começa uma discussão sobre quando o Fed iniciará a alta do juro.

Como o cenário externo pode influenciar a economia brasileira?

A situação é complexa e as coisas mudam rapidamente. No início da crise do subprime, temia-se uma recessão profunda nos EUA, desacelerando a economia mundial, inclusive a brasileira. O Fed reagiu cortando agressivamente os juros, o que minimizou a probabilidade de crise sistêmica. Embora a economia americana deva desacelerar - e está desacelerando -, provavelmente desacelera menos do que imaginávamos antes. Ainda assim, deve andar de lado em 2009, 2010. Talvez o cenário para a economia mundial seja um pouco melhor. Sem crise sistêmica e com o crescimento nos EUA desaquecendo menos, a desaceleração mundial é menor, e pega menos o Brasil.

Quem é:
Affonso C. Pastore

Foi presidente do Banco Central entre setembro de 1983 e março de 1985.

Atualmente, dirige a A.C. Pastore & Associados

É formado em economia pela Universidade de São Paulo, onde também fez doutorado e lecionou na Faculdade de Economia e Administração

Nasceu em São Paulo no dia 19 de junho de 1939

TAXA SELIC: “Não quero colocar números, mas vamos ter 5 ou 6 reuniões do Copom com alta da taxa de juros”

DEMANDA: “O crescimento do déficit em conta corrente decorre da demanda muito forte, que não é sustentável”

CONTAS PÚBLICAS: “Uma elevação do superávit primário para 5% ou 5,5% do PIB seria um grande avanço”

31/05/2008 - 12:47h Desvio do Detran-RS teria financiado imóveis de luxo

Segundo Procuradoria, R$ 9 milhões foram usados na compra de casa e apartamentosA fraude no órgão estadual teria desviado R$ 44 milhões entre 2003 e 2007, quando a PF deu início à Operação Rodin, diz Ministério Público

GRACILIANO ROCHA DA AGÊNCIA FOLHA, EM PORTO ALEGRE

A compra de imóveis de luxo foi um dos destinos do dinheiro desviado do Detran (Departamento Estadual de Trânsito) do Rio Grande do Sul, segundo o Ministério Público Federal.
A Rio Del Sur Ltda., que recebeu, em valores atualizados, em torno de R$ 9 milhões de uma fundação contratada pelo Detran entre 2003 e 2007, adquiriu uma casa e dois apartamentos em bairros nobres de Porto Alegre e de Gramado -município da serra gaúcha. Os imóveis, avaliados em R$ 2,7 milhões, foram comprados entre setembro de 2004 e março de 2006.
A empresa pertence a familiares do empresário tucano Lair Ferst, que atuou na campanha da governadora Yeda Crusius (PSDB) e é réu com outras 39 pessoas em ação penal que tramita na Justiça Federal.
As compras da Rio Del Sur foram detectadas na quebra dos sigilos bancário e fiscal da companhia e também em mensagens de e-mail trocadas por Ferst com imobiliárias.
Na capital gaúcha, a empresa comprou uma casa de 740 m2 em um condomínio fechado no bairro Boa Vista (R$ 1,3 milhão) e um apartamento com 493 m2 no bairro Mont’serrat (R$ 1,1 milhão). Em Gramado, o investimento foi de R$ 330 mil na compra de um apartamento. Os bens estão bloqueados pela Justiça.
Segundo a Procuradoria, a Rio Del Sur era uma empresa “de fachada”, que existia para “remunerar indevidamente” Ferst, enquanto a Newmark Tecnologia, outra empresa da família que recebeu cerca de R$ 12 milhões, era utilizada para “pagamento de propina a dirigentes do órgão”. A fraude teria desviado R$ 44 milhões entre julho de 2003 e novembro de 2007, quando a PF deflagrou a Operação Rodin.
Nem Ferst nem seu advogado foram localizados para comentar a compra dos imóveis. O porta-voz do governo, Paulo Fona, não quis comentar o caso alegando que Ferst “não tem relações com o governo”.
Em Santa Maria (a 286 km de Porto Alegre), um grupo de 80 estudantes universitários invadiu durante sete horas a sede da Fundae -fundação que recebia dinheiro do Detran e depois o repassava para empresas do suposto esquema. No final da tarde, os estudantes deixaram o prédio por determinação judicial.

28/05/2008 - 12:51h Uma jóia de jornalismo. A Folha está de parabéns

Eis uma maneira séria, objetiva, informativa de tratar a notícia. Leia a matéria após esta nota. Seu conteúdo é claro, com o destaque adequado à gravidade e importância dos fatos e de suas implicações. Ela está na Folha de São Paulo de hoje, na página A10 do principal caderno, embaixo à esquerda. Matéria sem foto, até para não prejulgar, nem escolher entre os denunciados pelos desvios.

O título da matéria é sóbrio, sem ilações. O fato de vários dos acusados serem filiados a partidos políticos é registrado, mas sem tentar induzir o leitor à falsa idéia que todos os membros deste partido, ou pelo menos suas figuras mais conhecidas, são culpados ou acusados e muito menos corruptos.

Teria sido muito fácil cair na tentação manipuladora, alheia ao verdadeiro jornalismo, de tentar incentivar um sentimento antitucano a partir deste escândalo do Detran de Rio Grande do Sul. Bastaria colocar o artigo na página 5 do principal caderno, ilustrado com uma foto mostrando um dos principais acusados, Lair Ferst, junto com a governadora tucana Yeda Crusius, da campanha da qual participou ativamente ao ponto de ser o avalista do local alugado pelo comitê eleitoral da governadora. Poderia se acrescentar como sublide “PSDB sob suspeita”. Perguntar para os tucanos mais emplumados se sabiam do desvio de recursos no Detran e se o dinheiro poderia ter irrigado o caixa partidário. Dedicar uma semana, dia após dia a alimentar este assunto, inclusive cobrando se os tucanos implicados nos desvios foram expulsos ou não. Em fim fazer do caso um elemento maior da desestabilização do governo gaúcho e por tabela condenar o conjunto do PSDB como falsos moralistas, hipócritas nas suas posturas éticas e demagogos sem escrúpulos quando se trata de dinheiro público, de loteamento de cargos por interesses espúrios.

Esta injustiça não será cometida, pois a mídia zela pelo equilíbrio da cobertura e não se deixa levar pelo udenismo manipulador. Os articulistas, desta vez, contribuíram para que esta sabedoria do bom jornalismo aparecesse com toda sua força, se abstendo de opiniões adjetivadoras, generalizadoras e abusivas. Quase nenhum articulista se prestou ao jogo do massacre, nem o próprio Clóvis Rossi (salvo talvez uma pequena menção feita por Elio Gaspari, mas ele tem esse jeito de não respeitar conveniências, pelo menos às mais grosseiras e evidentes).

Do conjunto do episódio fica uma moral: a mídia pode ser um fator que contribui ao debate nacional e à defesa da ética e da democracia quando se pauta com esta adequada e necessária isenção.

Luis Favre

Justiça aceita denúncia contra 40 acusados de desvio no Detran-RS

Empresário tucano e ex-reitor estão entre os suspeitos de desviarem R$ 44 mi

GRACILIANO ROCHA
DA AGÊNCIA FOLHA, EM PORTO ALEGRE

A Justiça Federal aceitou ontem a denúncia (acusação formal) contra 40 pessoas investigadas por fazer parte de uma suposta quadrilha que desviou R$ 44 milhões do Detran do Rio Grande do Sul. Entre os que viraram réus estão o empresário tucano Lair Ferst, o ex-reitor da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) Paulo Jorge Sarkis e dois ex-presidentes do órgão.
Segundo a denúncia, a fraude foi operada por duas fundações ligadas à UFSM, contratadas pelo Detran sem licitação e a preços superfaturados para fazer a avaliação dos candidatos a motoristas entre os anos de 2003 e 2007. Essas fundações subcontrataram empresas de consultoria e tecnologia para executar o serviço.
A Procuradoria afirma que se tratava de uma organização criminosa, que muitas vezes recebia sem prestar os serviços. O dinheiro do suposto desvio, segundo a denúncia, servia para enriquecer os donos das empresas envolvidas e para pagar propina a funcionários públicos. A fraude veio à tona em novembro no ano passado, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Rodin, prendendo temporariamente 13 pessoas.
O Ministério Público Federal denunciou 44 pessoas. Mas a juíza Simone Barbisan Fortes, da 3ª Vara Federal de Santa Maria, não viu indícios de crime na conduta de quatro pessoas -Ronaldo Etchechurry Morales, que presidiu a Fatec, uma das fundações citadas no escândalo, e três pessoas apontadas como laranjas que figuravam como sócios dos familiares de Ferst em duas empresas.
Os 40 réus serão interrogados entre 19 e 29 de novembro. Entre os denunciados estão pessoas ligadas a partidos políticos que integraram a base política do governo do peemedebista Germano Rigotto (2003-2006) e de sua sucessora, Yeda Crusius (PSDB). No loteamento político dos cargos dos dois governos, o comando do Detran coube ao PP. Agora réus, os ex-presidentes Carlos Ubiratan dos Santos (2003-2006) e Flávio Vaz Netto (2007) são filiados ao partido.
Ferst, que já integrou o diretório estadual do PSDB, foi apontado pela PF como o dono de fato da Rio Del Sur Ltda. e da Newmark Tecnologia, empresas que receberam juntas R$ 21 milhões do suposto esquema. Ele responderá por seis crimes. Dentre eles extorsão, peculato e formação de quadrilha.
Outro núcleo do suposto desvio, diz a PF, era a Pensant Consultoria, dirigida por familiares de José Antônio Fernandes, acusado de cinco crimes. O ex-reitor da UFSM Paulo Sarkis responderá por quatro crimes.
O porta-voz do governo gaúcho, Paulo Fona, disse que os funcionários do Detran na gestão de Yeda Crusius já haviam sido exonerados em 2007. “A decisão da juíza vai ao encontro das providências que a governadora adotou tão logo foi deflagrada a operação Rodin.”

outro lado

Para advogado, houve “excesso na acusação”

DA AGÊNCIA FOLHA, EM PORTO ALEGRE

O advogado de Lair Ferst, Alexandre Wunderlich, disse que o fato de a Justiça Federal não ter acolhido as denúncias contra 4 dos 44 denunciados pela Procuradoria demonstra que houve “excesso na acusação”. Luiz Felipe Tonelli de Oliveira e Sérgio de Moraes Trindade, sócios de empresas controladas por familiares de Ferst, foram denunciados, mas não serão réus do processo.
“Ao não aceitar a denúncia contra eles, a juíza foi cautelosa e deu uma demonstração do excesso na acusação”, disse Wunderlich. Ele disse que não tomou conhecimento dos fatos contidos na denúncia do MPF, mas que a linha de defesa deverá se basear nos argumentos dados por Ferst em depoimento à CPI da Assembléia.
No depoimento que durou mais de nove horas entre a tarde de terça e a madrugada de ontem, o empresário tucano refutou a acusação de que seria um dos líderes de uma organização responsável pelo suposto desvio no Detran-RS. Ferst também negou que controlava a Rio Del Sur e a Newmark e afirmou que não arrecadou fundos para a campanha de Yeda Crusius em 2006.
Os advogados dos ex-presidentes do Detran Santos e Flávio Vaz Netto disseram ontem que não comentariam as acusações porque não tiveram acesso à íntegra da denúncia feita pelo MPF.
O advogado de José Antônio Fernandes, Cyro Schimitz, disse que “será demonstrado no curso do processo que a Pensant Consultoria prestou os serviços contratados pelo Detran”. Nem o ex-reitor Paulo Jorge Sarkis nem seu advogado foram localizados ontem. (GR)

25/05/2008 - 09:02h Empresários querem mais transparência na verba do Sistema S

Representantes de diversos setores da indústria afirmam que gestão de recursos não deve ser repassada ao governo

Ministério da Educação quer que entidades que oferecem mais cursos gratuitos e têm mais alunos matriculados recebam mais dinheiro

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CLAUDIA ROLLI e FÁTIMA FERNANDES - Folha SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Representantes dos setores automobilístico, eletroeletrônico, plástico, brinquedos e de máquinas afirmam que falta transparência na prestação de contas do Sistema S, mas não querem que o governo tenha o controle do dinheiro arrecadado nem determine como os recursos devem ser usados.
O governo federal quer discutir mudanças no Sistema S, o que causou polêmica no setor empresarial. Uma das propostas é que os recursos destinados à educação profissional só sejam repassados às entidades do Sistema S -como Senai (ligado à indústria), Senac (comércio) e Senar (agricultura)- que oferecem cursos gratuitos.
O dinheiro descontado de forma compulsória da folha de pagamento das empresas -arrecadado pela Receita Federal e repassado para a Previdência- segue integralmente às entidades que formam o Sistema S independentemente da oferta de cursos gratuitos.
Desde a criação do Sistema S, na década de 1940, o Estado que arrecada mais de empresas instaladas em seu território recebe mais recursos.
A proposta do Ministério da Educação é que a distribuição do dinheiro leve em conta o desempenho de cada entidade: quem oferece mais cursos gratuitos e tem mais alunos matriculados deve receber mais.
Carlos Pastoriza, secretário-geral da Abimaq (indústrias de máquinas), diz que a gestão do Sistema S tem de ser feita pelos empresários. “O governo querer administrar os recursos é uma proposta risível. Basta olhar para o caos, a desorganização e a qualidade do ensino público oferecido”, afirma.
Para ele, a falta de transparência deixa o sistema vulnerável. “É preciso, por exemplo, rediscutir taxas de administração que algumas federações e confederações recebem para gerir as entidades que formam o sistema. Em alguns casos, chegam a centenas de milhões [de reais] por ano. Como a receita é garantida, as entidades se acomodam porque sabem que esse dinheiro vai entrar no caixa.”
Humberto Barbato, presidente da Abinee e conselheiro do Senai São Paulo, é contrário à mudança proposta pelo governo. “Quem sabe o tipo de formação profissional que a indústria precisa é a indústria, não o governo. Quem deve gerir o sistema são os empresários. Se há dúvidas sobre o uso dos recursos, vamos discutir e melhorar a transparência, o que não significa transferir para o governo a sua gestão.”
A proposta do governo “faz sentido”, diz Synésio Batista da Costa, presidente da Abrinq, associação dos fabricantes de brinquedos. “As entidades empresariais que não usam o dinheiro do Sistema S para se sustentar estão dispostas a discutir [mudanças]. Mas o quanto vai sair do sistema [para a educação] é um debate que terá de ser feito politicamente.”
Para Jackson Schneider, presidente da Anfavea (veículos), o sistema pode ser aprimorado, e seus pontos positivos, preservados. “O melhor seria a construção de um diálogo que aprimorasse o que há de positivo no sistema no campo educacional. A indústria automobilística usa o Sesi e o Senai para treinar e qualificar mão-de-obra.”
Joseph Couri, presidente do Simpi (sindicato das micro e pequenas indústrias), diz que o assunto é polêmico. “O Sistema S presta bons serviços, mas peca pela falta de transparência. Quantos recursos vão para onde e para quê? O Tribunal de Contas da União tem feito ressalvas quanto à prestação de contas das entidades e por que tudo isso não vem a público?”
Merheg Cachum, presidente da Abiplast (indústria plástica), diz que o Sistema S tem um modelo bem-sucedido e não deve ser modificado. “Por que mexer em algo que oferece um resultado maravilhoso? O nível de ensino das escolas do Senai é referência mundial, enquanto as escolas do governo têm péssima qualidade. O Sistema S aplica bem o dinheiro, com transparência. Provavelmente, quem quer mexer no sistema tem interesse político.”
De acordo com a Confederação Nacional da Indústria, o Sistema S é bem-sucedido porque os cursos oferecidos atendem às demandas do setor produtivo, e não a políticas públicas de educação.

Falta de licitação nas entidades é um dos principais problemas, diz ministro do TCU DA REPORTAGEM LOCAL

Marcos Bemquerer Costa, ministro do TCU (Tribunal de Contas da União), órgão que fiscaliza o uso de recursos públicos, diz que é necessário debater mudanças no Sistema S.
“Essa discussão é necessária porque estamos falando de um modelo de administração privada que cuida de recursos públicos. Os recursos arrecadados pelo Sistema S são públicos, pois são arrecadados de forma compulsória. Como o dinheiro é público, tem de ser gasto em benefício público”, diz.
O ministro afirma que o Sistema S “é muito grande” e que, por isso, é difícil fazer generalizações sobre os problemas encontrados em algumas entidades. “São nove grupos e cada um tem entre 28 e 29 entidades independentes. Nós fiscalizamos as contas de cada uma delas. Em algumas há problemas, em outras, não.”
Os problemas mais sérios encontrados nas entidades do Sistema S, segundo ele, são a falta de licitação para a realização de obras e a contratação de pessoal sem seleção pública.
“O TCU já determinou que as entidades precisam fazer edital e dar oportunidade para qualquer pessoa participar de um processo de seleção. Elas não podem utilizar critérios subjetivos para fazer a seleção”, diz.
Outro problema freqüente encontrado na fiscalização das entidades, segundo Costa, é a relação entre as pessoas da direção das entidades e as da direção das federações. “O diretor de uma entidade é presidente, por exemplo, de outra.”
O TCU também já encontrou, segundo o ministro, entidades do Sistema S que pagam a estrutura e os empregados de federações às quais são ligadas. “Já identificamos essa situação em fiscalizações, e isso está errado. O sistema não pode bancar a estrutura de federações.”
O ministro diz que o Sistema S pode ser considerado “em parte uma caixa-preta” porque “é difícil ter visão de todo o sistema”. E explica: “Quanto cada S arrecadou e gastou? Cada entidade do sistema presta conta de uma maneira. É difícil ter essa idéia do todo.”
Segundo ele, 60% dos recursos arrecadados pelo Sistema S são públicos. Nos cálculos do TCU, o Sesi recebeu R$ 2,87 bilhões em 2006 e R$ 3,15 bilhões em 2007. O Sesc recebeu R$ 1,97 bilhão e R$ 2 bilhões, respectivamente, no período.
Denúncias de mau uso dos recursos do Sistema S levaram o TCU a abrir uma investigação que está em curso no Estado de São Paulo, segundo ele. (CR e FF)

18/05/2008 - 18:36h Emprego formal deve bater recorde histórico de contratação em abril

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JULIANNA SOFIA E LUCIANA OTONI - Folha SP

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O número de trabalhadores contratados com carteira assinado superou 302 mil em abril, segundo informações preliminares das estatísticas oficiais do saldo de emprego e desemprego no mercado formal.
Se confirmado na divulgação que o Ministério do Trabalho fará nesta semana, abril terá sido o melhor mês da série histórica da pesquisa mensal de emprego formal, iniciada em 1992. Até agora, o melhor número é o de abril do ano passado, quando as contratações com carteira assinada totalizaram 301.991.
Com o desempenho do último mês, o número de trabalhadores admitidos no mercado formal no primeiro quadrimestre deve ficar em 850 mil. Diante dessa performance, o Ministério do Trabalho pretende elevar de 1,8 milhão para 2 milhões a estimativa para 2008 do número de contratações com carteira assinada, estabelecendo um novo recorde para o total de vagas geradas em um ano.
Para o diretor-técnico do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), Clemente Ganz Lúcio, o dinamismo reflete a continuidade da expansão da economia, influenciada por aumento de renda, crédito e investimento.
Lúcio explica que a consistência do crescimento tem provocado elevação do número de contratações com carteira assinada entre autônomos e também no setor público. Ele, contudo, destaca que o melhor desempenho tem sido o do mercado formal. “O número de empregos com carteira assinada tem aumentado quatro vezes mais que a ampliação de vagas no setor público e se mantém 40% acima das contratações no segmento dos autônomos, o que mostra que a expansão do mercado de trabalho tem sido puxada pelas contratações com carteira assinada”, comentou.
De acordo com o diretor-técnico do Dieese, a continuidade do crescimento e as expectativas favoráveis dos empresários para os próximos meses têm feito com que trabalhadores que atuavam no mercado informal por meio de contratos sejam progressivamente incorporados ao mercado formal, fator que reforça as estatísticas.
O maior nível de contratações tem ocorrido no setor de serviços, na indústria e na construção. Embora em menor nível, o agronegócio também tem ampliado as vagas. A professora da Esalq/USP Márcia Azanha acrescenta que a maior demanda por alimentos estimula a produção nacional e, conseqüentemente, a contratação no campo. Ela lembra que, apesar do alto nível de mecanização de algumas culturas, como cana, soja e milho, a tendência é de ampliação das ocupações em propriedades rurais.

10/05/2008 - 16:57h A via-crúcis de Yeda

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Leandro Fortes, de Porto Alegre - CARTA CAPITAL

A vida da governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, do PSDB, não tem sido fácil. Dona de um estilo político duro, aristocrático e em nada carismático, a tucana vive um misto de inferno pessoal e administrativo em que se incluem dívidas estaduais impagáveis, atrasos no pagamento de salários de servidores, popularidade em franca queda, dependência de uma bancada governista para lá de suspeita e, agora, uma CPI capaz de enlamear os portais do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho.

Até o fim de 2007, Yeda Crusius reclamava apenas de uma herança maldita dos governos anteriores do PT e do PMDB: a dívida estrutural do estado, origem de todos os problemas políticos enfrentados por ela até ali. Apenas com precatórios (títulos de dívidas judiciais do governo), o rombo do Rio Grande do Sul chega a quase 5 bilhões de reais. Isso porque, nos últimos dez anos, o estado conseguiu pagar menos de 400 milhões de reais – valor inferior à correção da dívida de um único ano.

Para enfrentar o problema, antes mesmo de tomar posse, a governadora anunciou um pacote com aumento de impostos e congelamento de salários, um tal “jeito novo de governar”, cantarolado na campanha de 2006, mas transformado em imensa dor de cabeça política para ela e o PSDB. Dois secretários estaduais renunciaram antes de assumir, o vice-governador, Paulo Afonso Feijó, do ex-PFL, foi para a oposição e, seis meses depois, 60% dos gaúchos desaprovavam o governo Yeda Crusius, segundo pesquisa do Instituto Dataulbra, da Universidade Luterana do Brasil.

Mas foi a Operação Rodin, da Polícia Federal, deflagrada em novembro do ano passado, que colocou o governo em outro patamar, o da corrupção endêmica. Trata-se de uma ação criminosa herdada da gestão anterior, do peemedebista Germano Rigotto, e aperfeiçoada no governo tucano, depois da nomeação, pela governadora, de Flávio Vaz Netto para o Departamento Estadual de Trânsito (Detran). Em vez de apurar e denunciar a bandalha instalada no órgão pela turma do PMDB, Netto, indicado pelo PP, decidiu se inserir e dominar o esquema. Acabou preso e indiciado, como os demais comparsas envolvidos nas fraudes.

A ação policial desmontou uma quadrilha ligada a fundações de apoio vinculadas à Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, para prática de diversos crimes, especialmente contra licitações, no Detran gaúcho. No rastro da operação, a oposição a ela, capitaneada pelo PT, emplacou a CPI do Detran e se apegou, sem provas, a uma denúncia de suposta utilização de 400 mil reais de sobras de campanha, por parte da governadora, para a compra mal explicada de uma casa num bairro nobre de Porto Alegre, logo depois das eleições de 2006.

No epicentro do esquema criminoso investigado pela PF está o empresário e lobista Lair Ferst, figurinha carimbada do PSDB gaúcho, apontado sem ressalvas, por gente do governo e da oposição, como principal operador da engrenagem de arrecadação de fundos da campanha tucana de 2006 no estado. Hoje, a luta de Yeda Crusius é basicamente descolar-se do nome e da má sina de Ferst, um dos 13 quadrilheiros presos na operação e figura proeminente entre os 39 indiciados pela Polícia Federal.

Na base do escândalo estão a Fundação de Apoio à Tecnologia e Ciência (Fatec) e a Fundação Educacional e Cultural para o Desenvolvimento e o Aperfeiçoamento da Educação e da Cultura (Fundae), ambas da Universidade Federal de Santa Maria. A fraude, de acordo com as investigações da PF, do Ministério Público Federal e do Ministério Especial do Tribunal de Contas do Estado (TCE), pode ter custado 40 milhões de reais aos cofres públicos do Rio Grande do Sul. Para ajudar no caso, a Receita Federal e o Coaf, ligado ao Ministério da Fazenda, foram convocados para garantir acesso a sigilos fiscal e bancário dos indiciados até agora.

Até 2003, o Detran do Rio Grande do Sul realizava os exames práticos e teóricos de direção por meio de um contrato com a Fundação Carlos Chagas (FCC). Ao assumir, o então governador do estado Germano Rigotto nomeou como secretário de Segurança Pública o deputado federal José Otávio Germano, do PP, a quem o Detran ficou subordinado. O secretário Germano não abriu nova licitação e encerrou o contrato com a FCC. Nomeou, então, para o cargo de presidente do Detran um aliado, Carlos Ubiratan dos Santos, e para diretor-financeiro do órgão, Hermínio Gomes Junior. Ambos decidiram contratar, em caráter emergencial, a Fatec, embora houvesse tempo hábil para licitar o processo. Mais tarde, a Fundação acabou contratada sem licitação e tornou-se um quartel-general onde se planejavam os desvios de dinheiro e a distribuição de propinas entre os participantes das fraudes.

De acordo com a investigação da PF, a intermediação do contrato foi feita pelo então reitor da UFSM Paulo Jorge Sarkis, com a ajuda do lobista José Antônio Fernandes e do tucano Lair Ferst. Os delegados do inquérito não hesitam em colocar Ferst como o curinga de toda esta história, baseados nas informações apuradas pelos agentes federais, após seis meses de investigação, inclusive com a gravação de quase 20 mil horas feitas por escutas telefônicas autorizadas pela Justiça Federal de Santa Maria, no interior do estado.

Chamado de “companheiro” por Yeda Crusius, Ferst é também politicamente ligado a Carlos Ubiratan, ex-presidente do Detran. Ele é apontado como o responsável pela engenharia de subcontratações feitas pela Fatec, até o fim de 2007, junto a empresas de consultoria (designadas de “sistemistas”) formadas por parentes, correligionários e “laranjas”. Uma delas, a Newmark, tem como sócios Elci Terezinha Ferst, irmã de Lair, e o cunhado, Alfredo Pinto Telles. Outra, a Rio Del Sur, abriga duas irmãs do lobista tucano, Rosana Cristina Ferst e Cenira Maria Ferst Ferreira. Para a PF, Ferst é o verdadeiro dono das empresas.

Também por intermédio de Ferst, o outro lobista do esquema, José Antônio Fernandes, conseguiu emplacar entre as empresas “sistemistas” a Pensant Consultores, da qual é sócio com dois filhos, Ferdinando e Fernando Fernandes. A quarta subcontratada, a Carlos Rosa Advogados Associados, foi indicação direta de Ubiratan. Entre os sócios do escritório estão Carlos Dahlem da Rosa e Luiz Paulo Germano, conhecido como “Buti”, irmão do então secretário de Segurança Pública José Otávio Germano – a quem o Detran estava subordinado.

De acordo com o levantamento feito pela Polícia Federal, as quatro “sistemistas” subcontratadas pela Fatec receberam, juntas, 31 milhões de reais entre 2003 e 2006. Por meio da Fundação, acreditam os investigadores, estabeleceu-se um propinoduto fixado bem no meio das gestões de Germano Rigotto e Yeda Crusius, desvendado graças a uma denúncia anônima, feita no fim de 2007, no Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul, por um professor da universidade.
Ao se debruçar sobre as atividades de Ferst, a PF descobriu, ainda, que o lobista do PSDB gaúcho também agregou ao grupo criminoso a empresa NT Pereira, administrada por Patrícia Jonara dos Santos, mulher de – sempre ele – Carlos Ubiratan. Em 2006, a firma efetivou um empréstimo, sem garantias, ao mesmo Ubiratan, no valor de 500 mil reais. A operação, de acordo com a investigação policial, teria servido para lavar dinheiro desviado e, posteriormente, utilizado para o pagamento de propinas e formação de caixa 2.

O ex-reitor da UFSM Paulo Jorge Sarkis também conseguiu que uma empresa da família, montada em nome da mulher e dos filhos, acabasse subcontratada por uma das subcontratadas da Fatec, a Pensant, do lobista José Antônio Fernandes. Entre 2004 e 2005, a Sarkis Engenharia Estrutural recebeu da Pensant 74 mil reais por serviços de consultoria. A Polícia Federal investiga, ainda, a participação de outra empresa da família Sarkis, a World Travel Turismo, nas fraudes contra o Detran.

No início de 2007, o esquema sofreria uma ruptura importante com a mudança na reitoria da Universidade Federal de Santa Maria, mas também por conta dos riscos provocados pela alta exposição dos negócios de Ferst. Entre os tucanos temiam-se, com razão, futuros problemas políticos para a governadora. Arrumou-se, então, um detalhe técnico para tirar a Fatec da jogada. Sob o argumento de aumento nos custos da prestação de serviço, a fundação exigiu mais dinheiro do Detran.

O pedido foi indeferido pelo novo presidente do órgão, Flávio Vaz Netto, recém-nomeado por Yeda Crusius, e, exatamente um dia depois da decisão, a Fundae, também ligada à UFSM, foi contratada. Mas era só espuma. Imediatamente, a Fatec foi subcontratada para prestar parte dos serviços que fazia antes como cabeça do sistema, e com os mesmos executivos. Foi uma forma de manter a quadrilha unida e evitar ressentimentos capazes de expor os movimentos do bando.

Não adiantou muito. Indiciado pela PF, Vaz Netto não aceita ser responsabilizado sozinho pelos crimes e nem ser largado à própria sorte. Nos dias 7 e 14 de abril, ele enviou dois e-mails para o secretário de governo de Yeda Crusius, Delson Martini, com quem tentou marcar uma audiência por 15 dias, sem sucesso. Nas mensagens, interceptadas pela polícia, ele ameaça fazer um “retorno voluntário” à CPI, onde depôs logo depois de ser preso, para falar de “imputações” feitas a ele “cujos pontos são de inteiro conhecimento do governo”.

A mudança na rotina de fraudes e desvios no Detran ocorreu porque o novo reitor da UFSM, Clóvis Silva Lima, colocou-se contra a atuação das “sistemistas” e recusou-se a assinar documentos da Fatec, enquanto o esquema de Ferst não fosse desmontado. Por esta razão, Vaz Netto optou por contratar a Fundae, entidade sem ligações administrativas com a reitoria. Sem a Fatec, o lobista Fernandes, dono da Pensant, e Sarkis, ex-reitor da UFSM, perderam influência na quadrilha. Assim como Ubiratan, ao deixar o Detran. Iniciou-se, então, um movimento para afastar Ferst do esquema e deixar os contratos das “sistemistas” nas mãos apenas do novo presidente do Detran. O lobista, é claro, reagiu.

De acordo com informações levadas à CPI do Detran pela Polícia Federal, para sair do esquema, Ferst teria pedido 6% do faturamento mensal dos pagamentos feitos às empresas sistemistas, inclusive à Fatec, o equivalente a 120 mil reais mensais. O dinheiro seria entregue por Rubem Höher, coordenador do Projeto Detran junto à Fundae e sócio da Doctus, nova “sistemista” integrada ao esquema de prestação de serviços do órgão pela fundação, administrada pelo filho dele, Ricardo Höher. Ferst teria recebido os pagamentos por seis meses (720 mil reais), segundo depoimento de Rubem Höher à PF.

Sob o comando de Vaz Netto, o esquema fraudulento do Detran assumiu uma nova configuração. As empresas ligadas à Ferst (Newmark e Rio Del Sur) foram excluídas, mas no lugar delas entraram a Doctus (subcontratada pela Fatec), da família Höher, e a IGPL (subcontratada pela Fundae), também ligada ao lobista José Antônio Fernandes, o mesmo da Pensant. E mais: outro escritório de advocacia entrou na farra, o Nachtigall Advogados Associados, do qual é sócia Denise Nachtigall Luz, esposa de Ferdinando Fernandes – ele mesmo, filho de José Fernandes, da Pensant.

Como em uma disputa de máfias, a família Fernandes se sobrepôs ao poder da família Ferst no esquema de fraudes do Detran, a partir do segundo semestre de 2007. Isso porque, de um lado, a Pensant, conforme contrato firmado com a Fundae, passou a abocanhar 14% do faturamento da prestação de serviço no órgão (em torno de 2,5 milhões de reais por mês). De outro, aumentou a participação com o ingresso da IGPL e do escritório Nachtigall. As investigações tocadas pelo Ministério Público Especial do TCE, no entanto, obrigaram o Detran a rever essas contratações. À frente da autarquia, Vaz Netto fez novas adequações contratuais e realizou reuniões para tratar, também, de troca de linhas telefônicas por conta de uma preocupação flagrante com escutas.

Mais adiante, Vaz Netto optou, ainda, por se livrar da família Fernandes. Para tal, rescindiu os contratos com a IGPL e a Nachtingall, firmados pela Fatec (esta, é bom lembrar, subcontratada pela Fundae), mas permitiu a entrada de outra empresa, a Pakt. Curiosamente, a nova “sistemista” tinha como sócios quatro funcionários da Fatec – Luciana Carneiro, Marilei de Fátima Brandão Leal, Damiana Machado de Almeida e Fernando Osvaldo Oliveira Júnior. Mais estranho ainda, apurou a PF, é o fato de Luciana Carneiro ser secretária-executiva do Projeto Detran na Fatec e responsável pela proposta de rompimento do contrato com a IGPL. Na mesma investigação, a PF descobriu, por meio de interceptação de e-mails, o plano de contratação de outro escritório de advocacia, o Höher & Cioccari Advogados, da família Höher, dona da “sistemista” Doctus. Ou seja, a quadrilha criou uma espécie de rodízio criminoso para se perpetuar no esquema.

Em um dos momentos mais tensos da crise, na semana passada, o delegado Luiz Fernando Tubino, ex-chefe da Polícia Civil no governo do petista Olívio Dutra, depôs na CPI do Detran e acusou Yeda Crusius de ter recebido 400 mil reais de Ferst para comprar uma casa em Porto Alegre. O dinheiro seria sobra de campanha da eleição de 2006, arrecadado em esquema de caixa 2. Tubino, na verdade, verbalizou uma fofoca antiga nos meios políticos gaúchos. O delegado costuma atirar para todo lado. Ainda no governo do PT, ele chegou a acusar Dutra de se beneficiar com dinheiro da máfia do jogo do bicho no estado.

Assessor de imprensa da governadora tucana, o jornalista Paulo Fona não vê sentido algum na acusação de compra da casa. “Isso é uma politização absurda”, diz Fona. De fato, ele tem um argumento poderoso: um documento da Polícia Federal no qual é negada a existência de qualquer investigação sobre a casa da governadora. No papel, o superintendente da Polícia Federal no Rio Grande do Sul, Ildo Gasparetto, apoiado em ofícios dos delegados responsáveis pela Operação Rodin, Sérgio Busato e Gustavo Schneider, afirma desconhecer a origem das declarações feitas pelo delegado Tubino na CPI do Detran. Yeda Crusius, no entanto, ainda não se livrou da suspeita de ter se beneficiado com dinheiro de caixa 2 arrecadado pela quadrilha do Detran, base das acusações feitas pela oposição na CPI do Detran. A PF só analisou, até agora, 20% das escutas telefônicas autorizadas pela Justiça.

A informação do delegado sobre a casa de Yeda Crusius ganhou força por agradar a oposição, mas também por conta de um acontecimento paralelo. No mesmo dia do depoimento de Tubino, o secretário estadual de Planejamento e Gestão, Ariosto Culau, foi flagrado por repórteres do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, enquanto tomava chope em um shopping com Ferst. Segundo diálogo reproduzido pelo jornal, Culau foi ao lobista para acalmar e dar apoio ao aliado tucano. O secretário foi demitido. Para o presidente da CPI do Detran, o deputado estadual Fabiano Pereira (PT), a intenção era mesmo a de manter Ferst sob controle. “Foi um deboche”, afirma.

Fabiano Pereira também não está numa cruzada fácil. Dos 55 deputados da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, 35 votam com Yeda Crusius. A base governista é formada por parlamentares do PSDB, PTB, PP e PMDB. A oposição conta uma base flutuante de 19 a 20 deputados, a depender do tema de votação, porque um dos parlamentares, do PDT, costuma fechar também com o governo estadual. E há três deputados do ex-PFL, ligados ao vice-governador, instados a votar, eventualmente, contra a governadora. É uma confusão e tanto.

Na CPI, o equilíbrio de forças também é precário. Dos 12 integrantes, cinco estão, normalmente, com a oposição, e sete com o governo. Mas quando há empate, vale o voto de Minerva do presidente da comissão, que é do PT. Não tem sido fácil, portanto, vencer os governistas. Por duas vezes, o plenário da CPI refutou a tentativa do deputado Fabiano Pereira de prorrogar os trabalhos da comissão. Sem essa prorrogação, dificilmente a oposição vai ter fôlego para dar conseqüência às denúncias do Detran. “Não queremos que isso seja uma guerra entre oposição e governo”, afirma Pereira. “Estamos divididos entre os que querem e os que não querem investigar o caso.”

08/05/2008 - 12:13h Administração Kassab: tarifa de ônibus sobe após eleição

Acordo adia reajuste de ônibus em SP

Com aumento no contrato das empresas de 4,24%, tarifa só subirá após as eleições, de R$ 2,30 para R$ 2,50

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Diego Zanchetta, Eduardo Reina e Marcela Spinosa - O Estado de São Paulo

Após quase três meses de negociações com a gestão Gilberto Kassab (DEM), os empresários de ônibus conseguiram ontem, em meio à ameaça de paralisação geral dos ônibus a partir de terça-feira, a promessa de receber do governo um reajuste de 4,24% sobre o contrato entre a Prefeitura e as empresas. O aumento incidirá sobre os valores pagos por passageiro transportado - de R$ 1,29 para R$ 1,31, dependendo da região da cidade - e vai segurar a elevação da passagem de ônibus até o fim das eleições de outubro.

A previsão agora é de que as tarifas de ônibus na capital subam entre 8% e 10% na segunda quinzena de novembro, provavelmente de R$ 2,30 para R$ 2,50. O último reajuste foi em novembro de 2006. Segundo o secretário dos Transportes, Alexandre de Moraes, os empresários pediram, há 45 dias, um reajuste na tarifa, o que foi negado pelo governo.

O presidente do Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores no Transporte Rodoviário Urbano de São Paulo (Sindmotoristas), Issão Hosgei, é contra o aumento da tarifa. “A demanda de passageiros aumenta a cada dia. O transporte coletivo não é de qualidade. Os empresários tinham de baixar o preço da passagem.”

Moraes também tentava nos últimos dois meses reduzir de 4,24% para 2% o reajuste sobre o contrato com as viações. “Sobre aumento da tarifa não tem nada decidido. O aumento dos 4,24% está previsto na data-base do contrato.”

A negociação entre os empresários e a Secretaria de Transportes só avançou ontem, após a paralisação, entre 11 e 14 horas, de 70% da frota. O Sindicato dos Motoristas de Ônibus pleiteia reajuste salarial de 10,36% para a categoria. Em assembléias nas garagens espalhadas pela capital paulista, a categoria recusou a proposta dos patrões de 4,36%. Nova assembléia ocorre amanhã e, se não houver acordo, os motoristas e cobradores entrarão em greve à zero hora de terça.

Mas logo após a paralisação, no início da tarde, os sindicalistas já estavam sentados à mesa de negociação com o secretário de Transportes e os empresários. Os empresários vincularam qualquer reajuste maior às mudanças no contrato com o governo municipal. Querem ainda que a Prefeitura mantenha os R$ 37 milhões mensais pagos de subsídios pelas gratuidades - até junho de 2007, eram R$ 27 milhões.

Para este ano, o orçamento do Município prevê R$ 350 milhões em subsídios, valor que pode ser suplementado. As