30/08/2012 - 10:16h ‘Eles devem fazer mais um corte de 0,25 ponto, e depois parar’


Economista vê taxa Selic se estabilizando em 7,25% por período longo, com a inflação chegando a 5,5% em 2013

30 de agosto de 2012

FERNANDO DANTAS / RIO – O Estado de S.Paulo

Para Monica de Bolle, o Comitê de Política Monetária (Copom) apontou claramente no seu comunicado que deve fazer mais um corte de 0,25 ponto porcentual na Selic, na próxima reunião, e parar em 7,25%. Monica acha que este nível pode ser mantido durante todo o próximo ano. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O que a sra. achou da decisão?

Ela já estava dada. O importante dessa reunião era o tipo de mudança de linguagem que o BC poderia fazer no comunicado, e o que isso significaria.

E qual a sua interpretação do comunicado?

Eu interpreto a mudança no comunicado como um sinal de que eles vão fazer mais um corte de 0,25 ponto porcentual e depois vão parar. O Copom diz que, se o cenário prospectivo permitir, pode haver um ajuste adicional com a máxima parcimônia. “Máxima parcimônia” para mim é 0,25 ponto porcentual, já que o mercado vem interpretando cortes de 0,5 ponto como parcimônia. O BC acabou deixando a porta menos aberta do que eu imaginava.

Como assim?

Achei que eles pudessem fazer como têm feito sempre, se reservando o máximo possível de opções. Eles não fizeram, e indicaram claramente ao mercado que estão indo para 7,25%.

Qual deve ser a reação do mercado à decisão e ao comunicado?

O mercado deve interpretar agora que baixar a Selic até 7% ficou fora de cogitação. Mas alguns ainda devem ficar na dúvida se ele parou no 7,5% ou se vai baixar até 7,25%. Eu, pessoalmente, tentando pensar como os BCs agem nesse tipo de situação, considero que parar em 7,5% para eles seria algo muito abrupto. Só mesmo se de fato eles começarem a enxergar algum tipo de aceleração inflacionária, ou de contaminação inflacionária dos choques. dos último dois meses. Nesse caso, eles poderiam usar isso para parar e dizer que pararam pois acham que já fizeram o suficiente. Mas não há indicação nesse sentido no comunicado. Talvez tenhamos de esperar a ata para ver o que dirão a mais sobre isso.

A sra. diria que o Copom, portanto, deixou a porta ligeiramente entreaberta para parar em 7,5%?

Sim, ele não descartou completamente essa possibilidade.

Qual deve ser a evolução da política monetária a médio e longo prazos?

Acho que eles têm espaço para segurar a Selic no nível ao qual a levarem, seja 7,5% ou 7,25%, por um tempo razoável.

Por quanto tempo?

Acho que até pelo ano que vem inteiro.

Quais as suas projeções para a inflação neste e no próximo ano?

Em 2012, a inflação deve ficar em torno de 5,2%, 5,3%. Pode ser até um pouquinho menor, dependendo de como essas reduções de IPI e a redução tributária da energia que eles estão prestes a fazer influenciarem o IPCA. Em 2012, se houver alguma aceleração inflacionária, acho difícil que vá muito além de 5,5%. E isso provavelmente dará conforto ao BC para manter a Selic inalterada.

14/08/2012 - 10:27h Entrevista del presidente de Petroperú

“En setiembre se sabrá el costo total para modernizar Refinería de Talara”

Martes, 14 de agosto de 2012
Evaluación. Campodónico resalta logros de la estatal.
Evaluación. Campodónico resalta logros de la estatal.
Humberto Campodónico Sánchez. Actual Presidente de Petróleos del Perú (Petroperú).

Carlos Bessombes/La República

Tras un año de gestión, el titular de Petroperú resalta los principales avances de la estatal y los pendientes que están por consolidarse en los próximos meses. Dice que la salida a la Bolsa limeña se dará cuando se avance la modernización en la refinería de Talara y se vuelva con fuerza a la explotación y exploración petrolera.

-¿En qué ha avanzado Petroperú en este primer año bajo su gestión?

En una serie de aspectos relacionados al avance de la Refinería de Talara. Hemos logrado tener ya firmado el mandato con el banco francés Société Générale para que pueda estructurar el financiamiento de este proyecto. En estos momentos estamos terminando ya el afinamiento del modelo económico financiero, a cargo de Cofide, que va a permitir que se determine la viabilidad del proyecto; en otras palabras, si es que el flujo de fondos de Petroperú puede o no financiar este proyecto.

-¿Y tiene algún resultado previo sobre este afinamiento?

En estos primeros afinamientos, que tienen que ver con estimaciones de demanda y de precios, el flujo sale positivo. Si eso saliera negativo evidentemente habría un problema. La idea es no hacer una cosa que salga a la loca o sacar el proyecto de cualquier manera. Ese aspecto además le da seguridad y deja de lado preocupaciones sobre que Petroperú no lo podía financiar.

-¿Y en qué parte va todo lo que es la ingeniería del proyecto?

Desde el punto de vista de la ingeniería ya se está en un 95% de avance. Ya se terminó, por parte de Técnicas Reunidas de España, todo lo que tiene que ver con el diseño de ingeniería, y esto va a permitir que la ingeniería que inicialmente era de clase 4 hoy sea de clase 2, es decir una ingeniería mucho mejor, lo cual le da mucho más seguridad al conjunto.

-¿Qué es es lo que está faltando entonces?

Lo que falta, y en lo que se viene trabajando, es la valorización de esa ingeniería para poder tener una idea ya definitiva del costo final del proyecto. Eso en este momento se está trabajando y debe estar listo  en setiembre.

-¿En qué otros proyectos han avanzado?

En este lapso también se ha podido calificar como empresa petrolera debido a que hoy se cumplen una serie de requisitos. Eso nos permite retornar al Upstream (explotación petrolera). Hemos avanzado también en todo lo que respecta al buen gobierno corporativo y responsabilidad social. Queremos presentarnos a bolsa cuando estén definidos los dos proyectos más importantes de PetroPerú que son el de Talara y la vuelta a la explotación petrolera.

-¿Qué pasó con la participacón del Estado en el Gasoducto Surandino?

Nuestra participación en este proyecto no se va a realizar porque dependíamos del aporte del Estado. Nosotros participábamos como agente del Estado pero no con nuestro flujo de caja sino con aquellos recursos que decidiera el Estado. Para eso hicimos un convenio con la CAF para hacer la diligencia debida con la empresa Kuntur. Finalmente el gobierno, a través de los estudios del MEF y Cofide, ha decidido no hacer este crédito puente.

-¿Y qué se ha avanzado la masificación de gas natural?

Se ha avanzado con los gasoductos virtuales que son parte importante de los programas sociales para masificar el gas natural en el sur peruano. Este gas es básicamente para uso doméstico y para las pequeñas industrias, no para las grandes industrias porque sería insuficiente.

Pendientes

-¿Cuáles considera son los temas pendientes o próximos a trabajarse?

Si bien ha pasado un año, uno de los puntos en que no hemos podido avanzar sustantivamente es en el hecho de concretar la vuelta de Petroperú a estos lotes de explotación petrolera que está revirtiendo al Estado, sobre todo el Lote 1-AB y los lotes en el noroeste.

-¿Qué ha sucedido?

Aquí a pesar de todos los esfuerzos todavía no hemos logrado que fundamentalmente Perupetro establezca una definición sobre cómo esto se va a hacer. Estamos en conversaciones muy detalladas y ya casi finales con ellos para que se defina el mecanismo de acuerdo a la legislación de Perupetro que permita que se dé el mecanismo de licitación u otro, en el cual ya Petroperú pueda satisfacer esta aspiración.

13/08/2012 - 08:48h Baixo crescimento no Brasil é um ciclo, não tendência

Simon Dawson/Bloomberg / Simon Dawson/Bloomberg
O’Neill: “Eu gosto de Rússia, Turquia, Brasil, China e Coreia. E, razoavelmente atrativa, Índia e depois Indonésia”


Por Silvia Rosa | VALOR

De São Paulo

Uma década depois de ter criado o termo Bric para o grupo de países que inclui Brasil, Rússia, Índia e China, o economista e presidente da Goldman Sachs Asset Management, Jim O’Neill continua otimista com essas economias, apesar do fluxo para os fundos dedicados a tais mercados estar negativo em US$ 689,25 milhões no ano até 1º de agosto, de acordo com dados da consultoria EPFR Global. O’Neill acredita que ao longo da década esses países vão contribuir mais para o PIB global do que os Estados Unidos e Europa juntos.

Na avaliação do gestor, o México chamado recentemente pelo “Financial Times” de “novo Brasil”, já não está mais interessante em termos de preço e vê mais oportunidades em emergentes como Rússia, Brasil, Turquia, China e Coreia.

A seguir, a entrevista concedida por O’Neill ao Valor por e-mail.

Valor: Como está a alocação nos mercados emergentes comparado com o ano passado?

Jim O’Neill : A Goldman Sachs Asset Management planeja lançar um fundo global que permitiria aplicar em diferentes classes de ativos. Nos fundos de ações dedicados a mercados emergentes nós temos visto contínua entrada de recursos, e algumas saídas na carteira com foco nos países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China).

Valor: Em seu último livro, “O mapa do crescimento”, além dos países do Bric, o senhor menciona mais quatro economias – Coreia do Sul, Indonésia, México e Turquia – que compõem o grupo chamado de mercados de crescimento. Em quais países o senhor vê mais oportunidades para investir em ações?

O’Neill : Isso depende das perspectivas econômicas e dos preços prevalecentes. Em oposição a esses dois critérios, em termos de atratividade eu gosto de Rússia, Turquia, Brasil, China e Coreia. E, razoavelmente atrativa, eu diria a Índia e depois a Indonésia. Nos preços atuais, o mercado do México já não está mais tão atrativo.

Valor: Com quais países do Bric o senhor está mais otimista?

O’Neill : Eu permaneço fundamentalmente animado com os quatro. Depois, e coletivamente, a história dos Bric é a maior história econômica da década. Ao longo da década, eles vão contribuir mais para o PIB global do que os Estados Unidos e Europa juntos e até 2015 o PIB desses países deve superar o dos Estados Unidos.

Valor: A bolsa da Turquia lidera a valorização entre os mercados de ações de emergentes, com alta de 25,96% em moeda local. Por que esse país tem atraído os investidores?

O’Neill : A Turquia é um país excepcionalmente interessante, por três razões até o momento. Primeiro porque é um tipo de modelo para o qual muitos aspirantes e países do Oriente Médio que estão passando por mudança devem visar. Segundo, ele está muito bem posicionado em termos de potenciais laços comerciais decorrentes de futuras mudanças em toda região do Oriente Médio. Terceiro, ele tem uma excelente demografia. Tudo isto atribuído contra um pano de fundo de baixa taxa de juros nos países do G-7, faz da Turquia muito atraente.

Valor: Quais são as principais preocupações em relação à economia brasileira?

O’Neill : Eu acho que as pessoas estão muito negativas sobre a tendência para o Brasil no médio prazo. Isso é muito interessante, e por alguma extensão, engraçado, o quão rapidamente o consenso do mercado presume que a evolução do crescimento recente vai persistir. Então, por exemplo, depois do milagre do crescimento de 7,5% em 2010, as pessoas pensam que isso persistiria. Agora, dado os desapontamentos em 2011 e 2012, as pessoas estão preocupadas que o crescimento será ao redor de 2% a 3% no futuro. Isso não é novo. Por anos, de 2001 a 2003, o Brasil cresceu menos de 2%, e depois isso de repente saltou para acima de 5% por dois anos. Os investidores e analistas precisam distinguir entre tendência de crescimento e ciclo. Eu acho que o Brasil provavelmente crescerá ao redor de 4% a 5% na média na década, e no próximo ano certamente será melhor que isso. O Brasil tem sofrido com a valorização do real nos anos recentes bem como o excesso de liderança do governo na economia como outros desafios competitivos, mas algumas dessas evoluções adversas estão mudando.

10/08/2012 - 09:21h Desigualdade é raiz da crise, diz Stiglitz

Por Matthew Craft | Associated Press | VALOR

Richard Drew/AP / Richard Drew/AP
Para Joseph Stiglitz, os EUA poderiam ter uma economia mais eficiente e estável se sua sociedade fosse mais igual


O que há de errado com a economia americana? O crescimento segue aos trancos e barrancos. O desemprego está acima de 8% há três anos e meio. Cortes nos impostos e nas taxas de juro não têm funcionado, pelo menos não o suficiente. Para Joseph Stiglitz, vencedor de um prêmio Nobel de Economia, o estranho comportamento da economia pode ser atribuído ao crescente fosso entre americanos ricos e todos os demais.

Em seu novo livro, “O Preço da Desigualdade”, ele estabelece um nexo entre o crescente endividamento dos que tomam empréstimos educacionais, a bolha imobiliária e muitos outros problemas do país e maior desigualdade.

Quando os ricos continuam ficando mais ricos, diz ele, os custos se acumulam. Por exemplo, é mais fácil escapar da pobreza no Reino Unido e no Canadá do que nos EUA. “As pessoas na base da pirâmide têm menor probabilidade de realizar seu potencial”, afirma.

Leia trechos da entrevista:

Valor: Os protestos do movimento “Ocupar Wall Street” já não são mais notícia, mas o senhor argumenta que a desigualdade de renda é mais importante do que nunca. Como assim?

Joseph Stiglitz: Porque ela está piorando. Veja os mais recentes números do Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA). A riqueza mediana caiu 40% entre 2007 e 2010, levando-a de volta a onde estava no início dos anos 90. Durante duas décadas, todo o crescimento da riqueza no país, que foi enorme, foi para as pessoas bem no topo (da pirâmide). Podem ter sido duas décadas prósperas. Mas não compartilhamos, todos nós, dessa prosperidade. A crise financeira tornou isso realmente bem fácil de entender. A desigualdade sempre foi justificada com o argumento de que aqueles no topo – “os criadores de emprego” – contribuíram mais para a economia.

Depois vieram 2008 e 2009, e vimos esses sujeitos que colocaram a economia à beira da ruína levar centenas de milhões de dólares para casa. E não era possível justificar isso em termos de contribuição para a sociedade. O mito tinha sido vendido para as pessoas, e, de repente, ficou evidente para todos que não passava de uma mentira.

Mitt Romney qualificou as preocupações com a desigualdade de “política de invejosos”. Bem, isso está errado. Inveja seria dizer: “Ele está ganhando bem mais do que eu. Eu tenho inveja disso’. O que dizemos é: “Por que ele está ganhando tanto dinheiro, se ele nos trouxe para a beira da ruína?” E os que trabalharam duro são aqueles que foram arruinados. É uma questão de igualitarismo.

Valor: O objetivo dos mercados não é ser justo. Enquanto houver mercados, haverá vencedores e perdedores. O que há de errado nisso?

Stiglitz: Não estou defendendo a eliminação da desigualdade. Mas o extremo a que chegamos é muito ruim. Em particular, a forma como ela é produzida. Poderíamos ter uma sociedade mais igual e uma economia mais eficiente, mais estável, com maior crescimento. É essa, realmente, a questão. Mesmo se você não tiver quaisquer valores morais e quiser apenas maximizar o crescimento do PIB, esse nível de desigualdade será danoso. Não se trata apenas de injustiça. A questão é que estamos pagando um preço alto. A história que nos contaram é que a desigualdade era boa para nossa economia. Eu estou contando uma história diferente, que esse nível de desigualdade é ruim para nossa economia.

Valor: O senhor argumenta que isso está fazendo nossa economia crescer mais lentamente e vincula isso aos que querem viver de renda. Esse é um conceito de economista. Poderia explicar em termos leigos?

Stiglitz: Algumas pessoas obtêm renda de seu trabalho e algumas pessoas têm renda apenas porque são donas de um recurso. A renda delas não é resultado de esforço. Elas estão recebendo uma fatia maior do bolo, em vez de fazer o bolo crescer. Na verdade, eles estão fazendo o bolo ficar menor.

Valor: É como, por exemplo, eu instalar uma cobrança de pedágio num cruzamento movimentado e recolher todo o dinheiro para mim.

Stiglitz: Isso mesmo. Você apenas recolhe o dinheiro. Você não está agregando nada.

Valor: Onde o senhor vê isso nos EUA? Poderia apontar para alguns exemplos?

Stiglitz: Nós vemos isso no caso das companhias nos setores de petróleo e de recursos naturais e suas licenças para exploração mineral e madeireira. Os bancos se envolveram na concessão de empréstimos predatórios. Recentemente, as empresas Visa e MasterCard firmaram acordos aceitando pagar US$ 7 bilhões por comportamento anticoncorrencial. Elas cobravam dos comerciantes mais dinheiro, porque detêm poder monopolista.

Valor: O crescimento econômico está esfriando novamente. O desemprego parece emperrado acima de 8%. Isso é consequência de dívidas elevadas ou de gastos mais lentos?

Stiglitz: O problema fundamental não é a dívida pública. Ao longo dos últimos anos, o déficit orçamentário foi resultado de crescimento baixo. Se nos concentrarmos em crescer, teremos crescimento, e nosso déficit cairá. Se nos concentrarmos apenas no déficit, não iremos a lugar nenhum.

Essa fetichização do déficit está matando nossa economia. E isso está ligado à desigualdade. Se assumirmos medidas de austeridade, isso produzirá maior desemprego e alargará a desigualdade. Os salários caem, a demanda agregada cai, a riqueza diminui.

Todos os donos de imóveis endividados em nível superior ao próprio valor de suas casas não conseguem consumir. Nós demos dinheiro para socorrer o sistema bancário, mas não demos dinheiro para essas pessoas superendividadas. Elas não têm como gastar. É isso que nos está fazendo afundar. São os gastos domésticos.

Valor: E as pessoas que têm dinheiro para gastar, diz o senhor, gastam menos de cada dólar de sua renda. As pessoas no topo da escala de renda poupam quase um quarto de sua renda. As pessoas nos estratos mais baixos gastam cada centavo. É por isso que as reduções tributárias parecem ter pouco efeito sobre os gastos?

Stiglitz: Exatamente. Quando você redistribui dinheiro de baixo para cima, isso enfraquece a economia. E toda essa conversa sobre os investimentos dos mais ricos no país é besteira. Não, eles não investem aqui. Eles estão em busca de onde podem obter retornos mais elevados, e estão procurando no mundo inteiro. Por isso, estão investindo na China e no Brasil e na América Latina, nos mercados emergentes; não nos EUA. (Tradução de Sergio Blum)

29/07/2012 - 17:00h Apaixonados pelo ódio


Para psicanalista, sucesso da novela se deve à exploração do que há de mais negativo no brasileiro: o gosto pela violência

29 de julho de 2012

Novelas só retratam a sociedade em que vivemos’


MÔNICA MANIR – O Estado de S.Paulo

Recém-chegada de Paris, a psicanalista Betty Milan parou para ver a novela. E flagrou exatamente a alternância de poder entre Carminha e Nina, quando a audiência de Avenida Brasil bateu todos os recordes em São Paulo, com 45 pontos de média no Ibope. Com olhar de estrangeira, ficou impressionada. Registrou ali o que entende de mais negativo na sociedade do País: a paixão pelo ódio. “É um traço de nossa cultura, provavelmente de origem mediterrânea”, diz, “mas me pergunto se era o caso de colocar em cena algo que avalize a perversão.” Em ritmo de ensaio para sua peça A Vida É um Teatro, que reestreia em agosto, a também escritora explicou essa ira toda do povo brasileiro e por que não considera novela um exemplo de arte.

O que essa novela espelha da sociedade brasileira?

A começar, o gosto pela violência, que a novela explora para emplacar. Depois o gosto pela vingança, próprio do machismo, cuja ética é tão contrária à mulher quanto ao homem, mas que pode estar tão implícito na conduta feminina quanto na masculina. Nina é tão machista quanto Carminha, as duas se espelham o tempo todo. As duas, por sinal, são mulheres originárias do lixão, onde a sobrevida implica força e, portanto, é o padrão masculino que prevalece. Como eu digo em E o que É o Amor?, o machismo é uma ética infeliz e assassina. Sua história é a que se lê em Tragédia Brasileira, de Manuel Bandeira. Misael, funcionário público, conhece Maria Elvira, tira-a da prostituição, instala e trata. Ela arranja namorado. Ele, para evitar escândalo, muda de bairro, muda 17 vezes, até um dia matá-la a tiros. Misael indubitavelmente fez de tudo para escapar ao imperativo machista, mas não teve como.

O nome ‘Avenida Brasil’ remete a uma avenida que corta 27 bairros do Rio e tem intersecções com várias rodovias. Sua temática aludiria ao País urbano?

Apesar da palavra “avenida”, acho que a novela não diz respeito ao urbano ou ao rural. Veríamos essa mesma cena no campo. Apego-me mais à palavra Brasil e ao que há de mais negativo na cultura brasileira, que é a paixão pelo ódio.

O brasileiro gosta de odiar?

É um traço da nossa cultura, provavelmente de origem mediterrânea. São três as paixões humanas: a do amor, a do ódio e a da ignorância, que é a paixão do não saber, de negar a realidade. A paixão do ódio, o machismo cultiva. Como exemplo temos as peças de Nelson Rodrigues e os romances de Graciliano Ramos. Pense no que diz Jonas em Álbum de Família: possuir e logo matar a mulher que se ama. Ou pense em Paulo Honório, em São Bernardo, que considera que matar Madalena é ação justa. Ele então não a supõe infiel?

O cotidiano dos emergentes é o grande eixo da novela, que tem atraído de A a Z. As classes já misturaram seus gostos?

Não acho que o cotidiano dos emergentes seja elemento forte de identificação. A identificação resulta do gozo sádico do espectador, gozo que a imprensa e a televisão exploram desde sempre – lamentavelmente, porque esse gozo sustenta o gosto pela vingança. Mãe Lucinda pode dizer que a vingança só leva à vingança, procurando fazer Nina mudar de ideia, mas é com esta que o espectador mais se identifica. Porque, de um modo ou de outro, todos somos injustiçados e o gozo sádico nos tenta.

Por que a vingança lhe parece tema central? Por que não a traição ou a chantagem?

Colocar em cena uma mulher vingativa não deixa de ser uma novidade. A vingança aqui no país sempre foi para os homens. Doca Street, Lindomar Castilho… As mulheres, que são ultrajadas de diferentes maneiras, consciente ou inconscientemente, se sentem recompensadas. Pouco antes da novela ouvi no Jornal Nacional que o aborto consentido continua a ser crime e cabe ao médico decidir se a mulher tem ou não o direito de abortar. Como se o médico fosse arcar com a responsabilidade de ser mãe! Chega a ser revoltante.

Os homens da trama parecem facilmente manipuláveis, como se vê nas obras literárias mencionadas em Avenida Brasil, entre elas Madame Bovary e O Primo Basílio. Como entender esse predomínio do feminino?

Acho que não se pode comparar Carminha com Madame Bovary, que é um Quixote francês. Carminha é uma manipuladora altamente realista. A Bovary, como o Quixote, é vítima do seu imaginário. Paga muito caro pelo adultério e acaba se suicidando. Por outro lado, Carminha e Nina são dois machões. A Bovary é muito feminina. O tema dela é o amor, que não é o tema das mulheres de Avenida Brasil.

O horário eleitoral começa daqui a um mês, com figuras reais que mais parecem personagens de folhetim. Nesse sentido, dá para estabelecer um paralelo entre o gênero ‘propaganda eleitoral’ e o gênero ‘novela’?

Não sei. O que eu sei é que a novela brasileira se limita a retratar a sociedade em que vivemos.

E o horário eleitoral não?

Você está tomando o horário eleitoral como se fosse ficção?

A senhora acompanha o horário eleitoral brasileiro?

Graças a Deus, não. Mas os políticos, de fato, parecem personagens de novela.

Jorge Amado, cuja Gabriela está na telinha, já disse que o samba é denominador comum da nossa cultura. E a novela?

A novela também, mas novela não é arte. Tem um caráter absolutamente documental. Não chega a se constituir uma grande metáfora da sociedade brasileira.

A senhora mencionou que o que há de mais negativo na cultura brasileira é a paixão pelo ódio. O que haveria de mais positivo?

O fato de privilegiarmos a cultura do brincar, uma cultura da sátira, senão da zombaria. Ela zomba do que é sério, cultua o riso e se realiza através do gracejo. O impossível para ela não existe porque, dispondo de várias máscaras, ela o contorna. Assim sendo, não é de briga, é pacífica, não faz guerra nem mesmo contra a guerra, brinca, e essa é sua maneira de resistir a tudo o que a contraria. Sua coragem é a do humor, a de quem dribla a tristeza e só aposta na alegria. Inadvertidamente sacrílega, essa cultura não reverencia senão irreverentemente as outras culturas que ela, brincando, dessacraliza.

O Brasil é uma grande avenida de ficções?

Não. A grande avenida de ficções é o carnaval, que não é uma ficção, é uma realidade por meio da qual o Brasil se reinventa todo ano, propiciando ao mundo inteiro a alegria de que este precisa.

23/07/2012 - 11:00h Brasil pode crescer 5% ao ano, diz Rodrik

Aline Massuca/Valor / Aline Massuca/Valor
Dani Rodrik, da Universidade de Harvard: com câmbio e conjunto de políticas industriais corretos, Brasil pode ter setor manufatureiro saudável


Por Sergio Lamucci | VALOR

De São Paulo

O economista Dani Rodrik não embarcou na recente onda de pessimismo em relação à economia brasileira. Para o professor de economia política internacional da Universidade de Harvard (EUA), o Brasil tem condições de crescer a taxas de 5% ao ano mesmo no ambiente adverso que ele antevê para a economia global, de baixo crescimento por muitos anos, especialmente nos países desenvolvidos.

“O Brasil obviamente será afetado de modo negativo pelos acontecimentos na Europa e nos EUA e também pela provável desaceleração da China. Mas o Brasil tem alguns pontos fortes”, disse Rodrik, citando as finanças públicas em ordem e o regime democrático estável, mencionando também a grande classe média como um trunfo importante do país. O economista turco será um dos principais convidados do seminário “O Brasil e o Mundo em 2022″, promovido pelo BNDES em comemoração aos 60 anos do banco. O evento ocorre hoje e amanhã no Rio, no Espaço Tom Jobim.

Rodrik vê o Brasil, ao lado de Índia e Coreia do Sul, como um dos países “relativamente mais bem posicionados” para enfrentar esse cenário externo adverso dos próximos anos – o crescimento depende mais da demanda interna do que das exportações, a dívida pública está controlada e a democracia é robusta. São vantagens importantes num mundo que, segundo ele, tem 50% de possibilidade de testemunhar a dissolução parcial da zona do euro nos próximos anos, além do risco de manutenção do impasse entre democratas e republicanos sobre a trajetória fiscal americana. Rodrik tampouco é otimista quanto às perspectivas para a China, um país que não é democrático e ainda é muito dependente das exportações.

Para o Brasil crescer a um ritmo de 5%, ele aponta como fundamental “sinalizar um ambiente em que serão mantidos os incentivos relativos para o investimento na indústria manufatureira e em outros setores tradables [comercializáveis internacionalmente]“, o que requer juros baixos e um câmbio relativamente competitivo. “Se as políticas em curso conduzirem a essa combinação, já será uma grande ajuda”, afirmou Rodrik, que vê ainda com bons olhos as iniciativas do governo de reduzir impostos para setores específicos e tentar impulsionar o investimento por meio do BNDES.

“O que o Brasil está tentando fazer é um esforço que vale a pena, desde que seja pragmático e revisado à luz da evidência de seu impacto”, diz ele, para quem o verdadeiro teste desse tipo de política é saber desistir dos perdedores, não insistindo com setores, se ficar claro que as medidas não dão resultado. “A própria experiência do Brasil no passado oferece muitas lições nesse sentido. Algumas políticas industriais não foram muito bem-sucedidas, como no setor de informática, mas outras, como no setor de aço e aviões, foram muito bem-sucedidas”, disse Rodrik, um crítico da globalização exagerada. A seguir, os principais trechos da entrevista, feita por telefone, na sexta-feira.

Valor: Em artigo recente, o sr. diz que “a economia mundial está entrando numa nova fase difícil a longo prazo – fase que será substancialmente menos favorável para o crescimento do que possivelmente qualquer outro período desde o fim da Segunda Guerra Mundial”. O mundo está condenado a uma longa era de baixo crescimento?

As democracias em geral são muito melhores em lidar com a turbulência e a incerteza”

Dani Rodrik: É muito provável que as próximas décadas tenham crescimento substancialmente menor do que nas duas ou três décadas anteriores à crise financeira. Há várias razões para isso. A primeira é que os países avançados têm uma dívida pública muito elevada, o que reduz o crescimento. A outra é que a crise atual na zona do euro também deve ter implicações negativas para as perspectivas de crescimento de longo prazo.

Valor: Por que o sr. não acredita que os países emergentes, em especial a China, tenham um papel importante para impulsionar a economia global, como em 2008 e 2009?

Rodrik: Em primeiro lugar, porque eles não são, em conjunto, tão grandes como os países ricos. Além disso, porque o crescimento dos mercados emergentes nos últimos anos dependeu de um ambiente global permissivo, com mercados abertos nos países industrializados e a disposição dos países desenvolvidos de olhar para o outro lado, enquanto países como a China promoviam amplas políticas industriais para reestruturar as suas economias. A economia global será muito menos permissiva nesse sentido, o que também vai deprimir o potencial de crescimento dos países emergentes.

Valor: O sr. está preocupado com uma onda protecionista?

Rodrik: Em parte haverá maior protecionismo, mas de modos mais sutis – não estou falando de algo como a onda que ocorreu nos anos 30. Mas potências exportadoras como a China vão ter mais dificuldades para ter grandes superávits comerciais com os países avançados do que tiveram no passado. Haverá muito menos cooperação e coordenação global, porque os países ricos vão estar mais preocupados com questões internas.

Valor: A cúpula da União Europeia no fim de junho decidiu pela recapitalização direta dos bancos, mas o rendimentos dos títulos públicos espanhóis e italianos continuaram em níveis altos. Por que a decisão não acalmou os mercados?

Rodrik: Infelizmente, os líderes políticos europeus têm ficado consistentemente atrás dos mercados. Eles sempre fazem o mínimo possível, atuando apenas para adiar os problemas, sem lidar com as questões fundamentais.

Valor: Qual é o cenário mais provável para a zona do euro? Uma ruptura ou os líderes vão conseguir manter a união monetária intacta?

Rodrik: Acho que uma dissolução parcial da zona do euro tem uma possibilidade de 50% de ocorrer nos próximos anos. Há uma boa chance de que a união monetária seja dissolvida.

Valor: Na semana passada, Barry Eichengreen [professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley] disse ao Valor que um colapso do euro seria um desastre financeiro. O sr. concorda com ele?

Rodrik: Eu concordo com ele. As consequências de curto prazo seriam devastadoras do ponto de vista econômico, e acho que haveria consequências políticas ainda mais sérias no médio prazo. É uma tragédia de primeira ordem.

Valor: Como se daria a dissolução da zona do euro?

Rodrik: Há um número de países centrais – Alemanha, Áustria, Holanda e Finlândia – que devem ficar numa união monetária a despeito do que ocorrer com a zona do euro. Mas o futuro de todos os outros está muito em dúvida.

Valor: A saída de algum país pode ocorrer ainda neste ano?

Rodrik: É bastante possível que a Grécia tenha que deixar a zona do euro por volta do fim do ano. Se isso ocorrer, haverá um grande esforço para assegurar que o contágio para países como Espanha e Itália seja limitado, o que pode comprar algum tempo para os outros países.

Valor: Como o sr. vê a estratégia europeia para enfrentar a crise? Há foco demais na austeridade?

Muitas indústrias exportadoras não existiriam se o Brasil não tivesse adotado políticas seletivas”

Rodrik: Acho que a estratégia é falha, primeiro porque enfatiza demais a austeridade, deixando países como Grécia e Espanha num círculo vicioso em que a austeridade reduz o crescimento, exigindo mais austeridade fiscal, e assim por diante. Em termos mais estruturais, os líderes políticos têm que decidir se vão dar um salto maior na direção de maior integração fiscal e política, assumindo um compromisso político com essa trajetória. Ou, se forem incapazes de entrar num acordo em relação a essa opção mais ambiciosa, e a única solução real for menos união econômica, eles deveriam se preparar para isso, em vez de deixar o caos ocorrer. O caminho de maior união fiscal e política seria de longe o melhor, porque evitaria os custos econômicos e políticos de uma ruptura. Infelizmente, à medida que o tempo passa, um desfecho favorável parece cada vez menos possível.

Valor: A recuperação dos EUA não parece sólida. Uma nova rodada de afrouxamento quantitativo [política monetária ultraexpansionista, de compra de títulos] ajudaria a sustentar a recuperação?

Rodrik: A política monetária pode ter algum papel, mas é imitado. O problema é que a política fiscal, acima de tudo, exerce um peso sobre a economia. Nós precisamos de uma melhor estratégia fiscal, que enfatize menos consolidação fiscal agora, especialmente no nível dos Estados, e maior consolidação fiscal no futuro.

Valor: O sr. acredita que os democratas e republicanos vão conseguir evitar o abismo fiscal em 2013 [a combinação do fim de isenção de impostos e forte corte de gastos], que pode provocar uma violenta contração fiscal?

Rodrik: É muito difícil ser otimista em relação a isso, infelizmente. Esse risco continuará a afetar a recuperação e o crescimento.

Valor: Em artigo recente, o sr. diz que, no cenário global atual, Brasil, Índia e Coreia do Sul estão numa posição mais favorável do que o resto do mundo por serem democracias, terem um crescimento puxado pela demanda doméstica, e não pelas exportações, e por terem baixos ou moderados níveis de dívida pública. Esses países vão se sair bem mesmo nesse mundo adverso?

Rodrik: Eu tenho um prognóstico pessimista para a economia global como um todo, mas alguns países estão relativamente mais bem posicionados do que outros. O Brasil obviamente será afetado de modo negativo pelos acontecimentos na Europa e nos EUA e também pela provável desaceleração da China. Mas o Brasil tem de fato alguns pontos fortes, como as finanças macroeconômicas estáveis e o regime democrático estável.

Valor: Por que ser uma democracia é uma vantagem nesse cenário global adverso?

Rodrik: As democracias em geral são muito melhores em lidar com turbulência e incerteza, porque esses são os momentos que pedem conciliação e cooperação entre diferentes grupos sociais. O que a democracia faz é oferecer os mecanismos institucionalizados para que essas barganhas ocorram. Quando se excluem essas barganhas, é verdade que se pode ter alguns ganhos de curto prazo, mas não há nenhum modo para responder ao dissenso e a oposição, o que frequentemente leva ao conflito. Esse é um risco importante que a China pode enfrentar se a taxa de crescimento ficar mais fraca. Esse é um motivo importante pelo qual eu sou menos otimista em relação às perspectivas para a China.

Valor: Mas a China não tem um potencial mercado interno de grandes proporções?

Rodrik: Sem dúvida, mas eles têm que reorientar a estratégia de crescimento em direção ao mercado doméstico. Como o crescimento dependeu bastante de grandes superávits comerciais, essa mudança produziria um ajuste muito custoso, com fechamento de fábricas e trabalhadores perdendo os seus empregos. Seria muito difícil administrar esse processo.

Valor: Depois de vários anos de otimismo em relação à economia brasileira, muitos analistas e investidores se tornaram céticos em relação ao Brasil, em geral citando a falta de reformas estruturais e perspectivas piores para as commodities. Em que medida esses dois fatores podem prejudicar o Brasil?

Rodrik: O processo de reformas estruturais é de longo prazo. Ele sempre caminha com progressos e paradas. Nós não deveríamos ficar tremendamente preocupados com isso. Em relação aos preços de commodities, eles têm produzido efeitos positivos e negativos para o Brasil. Obviamente a alta de preços estimula o crescimento no curto prazo, mas ao custo de afetar a indústria e valorizar a moeda, como consequência da doença holandesa. Por esse motivo, uma redução dos preços de commodities não é necessariamente algo ruim.

Valor: O sr. escreveu num artigo que, para os países em desenvolvimento, “o imperativo manufatureiro é nada menos do que vital”. A indústria manufatureira brasileira enfrenta uma crise de falta de competitividade, respondendo por 14,6% do PIB. Como esse problema afeta as perspectivas para o Brasil?

Rodrik: É um grande ponto de interrogação. O processo de desindustrialização é algo que está ocorrendo por todo o mundo. É uma questão de administrá-lo. Eu não acho que o Brasil possa voltar a ter uma indústria respondendo por 20% a 25% do PIB, sem mencionar os 35% a 40% do PIB de alguns países asiáticos. É uma corrida entre formar capital humano, para que se possa criar empregos de altos salários no setor de serviços, e a perda de emprego na indústria de trabalhadores relativamente pouco qualificados.

Valor: Mas esse problema na indústria não pode ofuscar as três qualidades que o sr. menciona, quando diz que o Brasil está mais bem posicionado que a maior parte dos países?

Rodrik: Comparado com muitos outros países, o Brasil tem capacidades significativas no setor manufatureiro. Não é uma questão de construir algo que não está lá. A base é muito boa. Com a taxa de câmbio correta e um conjunto correto de políticas industriais, que o Brasil está tentando adotar, o país pode ter um setor manufatureiro saudável.

Valor: O Brasil tem hoje um câmbio mais desvalorizado em relação aos últimos anos e o Banco Central está cortando os juros de modo agressivo, pelo menos para os padrões brasileiros. Em que medida isso vai ajudar o crescimento?

Rodrik: Ela tem o potencial de ajudar um pouco a indústria e o crescimento geral, mas os investidores tomam decisões para períodos que não se limitam aos próximos seis meses ou um ano. Eles fazem investimentos de longo prazo, de cinco anos, dez anos. Eles olham para o futuro e precisam de algum tipo de garantia de como estarão os juros e o câmbio não apenas hoje ou no mês que vem, mas daqui a dois anos ou daqui a cinco anos. O que é necessário em termos de administração do câmbio e de política monetária é um ajuste de médio prazo, de sinalizar uma política que levará em conta a taxa de câmbio e a competitividade muito mais do que no passado.

Valor: O BC deve dizer diretamente que tem uma meta para a taxa de câmbio, ou pelo menos que se preocupa com o nível do câmbio?

Rodrik: Eu colocaria do seguinte modo. O nível do câmbio afeta o crescimento potencial da economia e, consequentemente, na medida em que a política monetária é influenciada pelo crescimento potencial, a taxa de câmbio naturalmente entra nas decisões de política monetária. Há modos de trazer o nível do câmbio para as discussões de política monetária sem que seja necessário mudar fundamentalmente o arcabouço do regime de metas de inflação ou desistir da independência do BC.

Valor: Em março de 2011, o sr. disse, numa entrevista ao Valor, que o Brasil deveria crescer 7%, mas que, devido à combinação de juros altos e baixo investimento, 4% a 5% pareciam um sucesso. Neste mundo de baixo crescimento que o sr. antevê, que taxa o Brasil deve aspirar?

Rodrik: Acho que 5%, neste cenário global em que eu acredito, seria um grande sucesso.

Valor: O Brasil deve crescer menos de 2% neste ano. É algo cíclico ou mostra que crescer a taxas mais altas, como de 5%, é difícil?

Rodrik: Quando mencionei 5%, me refiro a uma média de médio prazo. Flutuações de um ano para o outro são naturais.

Valor: Então mesmo neste ambiente global adverso, ainda é possível para o Brasil crescer a essa taxa de 5% ao ano.

Rodrik: Acredito que, com os pontos fortes que tem, o Brasil é capaz de crescer 5%. O Brasil tem uma grande classe média, e tem potencial para crescer ainda mais.

Valor: O que o Brasil deve fazer para crescer a essa taxa?

Rodrik: A questão principal é sinalizar um ambiente em que se manterão os incentivos relativos para o investimento na indústria manufatureira e em outros setores tradables. É um ambiente de juros baixos e um câmbio relativamente competitivo. Se as políticas em curso conduzirem a essa combinação, já será uma grande ajuda.

Valor: Muitos analistas criticam o governo brasileiro por cortar impostos para setores específicos e tentar usar o BNDES para impulsionar o investimento. Como o sr. avalia essas iniciativas?

Rodrik: Acho que, em geral, vale a pena experimentar políticas industriais desse tipo. O que o Brasil está tentando fazer é um esforço que vale a pena, desde que seja pragmático, revisado à luz da evidência do seu impacto.

Valor: Escolher setores específicos não é um problema?

Rodrik: Não estou tão preocupado com políticas econômicas seletivas, que favoreçam alguns setores em vez de outros. Tenho mais preocupação em continuar com essas políticas quando elas claramente não estão funcionando. O teste real é se há capacidade de desistir dos perdedores. É isso o que quero dizer quando falo em abordagem pragmática. A experiência do Brasil no passado oferece muitas lições nesse sentido. Algumas políticas industriais não foram muito bem-sucedidas, como no setor de informática, mas outras, como no setor de aço e aviões, foram muito bem-sucedidas. Muitas indústrias exportadoras brasileiras não existiriam hoje, se o país não tivesse adotado políticas seletivas no passado.

09/07/2012 - 09:46h ‘Reação do governo evitou a recessão’


Ele diz que é preciso olhar o lado positivo: ‘economia brasileira, mesmo num cenário extremamente adverso, vai crescer’

09 de julho de 2012

IURI DANTAS / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

Principal formulador do Plano Brasil Maior, a política industrial do governo, o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Mauro Borges Lemos, avalia que o País “provavelmente estaria à beira da recessão”, não fossem os pacotes de estímulo ao consumo. Ele aposta em crescimento “pequeno” da indústria neste ano, apesar da queda da produção industrial nos primeiros seis meses de 2012.

Amigo de longa data de Dilma e do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, a quem é subordinado, o economista afirma que “o governo está fazendo tudo o que pode para manter a economia crescendo”. A seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu ao Estado:

Por que a indústria está patinando?

Porque estamos no meio de uma crise internacional de grandes proporções. A forma mais visível de mensurar isso é a grande agressividade das importações. Há excedente de bens manufaturados no mundo e a estratégia, em geral, é desová-los em mercados que ainda estão em crescimento.

O dólar a R$ 2 demorou?

O dólar a R$ 2 é insuficiente para impedir a desova.

O endividamento das famílias e a cautela dos bancos em emprestar limitam o impacto das medidas de estímulo ao consumo anunciadas pelo governo?

O maior economista do século 20, o John Maynard Keynes, denominou a economia capitalista de uma economia monetária, regida por relações mediadas pelo dinheiro, pela moeda. Hoje, no Brasil, como somos uma economia monetária em pleno funcionamento, é absolutamente normal que, frente a um quadro totalmente adverso, você aumente o que Keynes chamava de preferência pela liquidez. Nestes momentos, você tem contração do consumo das famílias e dos empresários, que é o investimento. Eles tendem a reagir com uma contração relativa perante grande incerteza.

Medo de a crise piorar?

Claro que há uma aversão à incerteza. Não é aversão ao risco, é mais do que isso. É uma aversão a um cenário econômico futuro que não conhecemos. Obviamente o governo está tentando, com todos os instrumentos à sua disposição, mitigar isso e eventualmente retomar o crescimento no segundo semestre. O governo está fazendo tudo o que pode para manter a economia crescendo, que é a questão fundamental.

A presidente Dilma apelou ao espírito animal dos empresários, mas o investimento não deslanchou. Por que não deu certo?

Primeiro, eu diria que está dando certo. Vamos ter um crescimento positivo neste ano. Se pegar o analista mais pessimista, ele não projeta recessão. A economia brasileira, mesmo num cenário extremamente adverso, vai crescer. Que seja 2%, 2,5% ou 3%, não interessa.

O governo deixou de arrecadar R$ 100 bilhões da indústria, mas a tributação continua alta. O que falta para a indústria reagir?

O problema central não é, em si, da desoneração tributária, mas fatores estruturais e heranças regulatórias e tributárias, que fazem com que capital e trabalho e os insumos básicos da economia estejam relativamente caros. A questão é como caminhar na agenda de redução destes fatores e insumos. Quando você inicia uma trajetória de política econômica com redução da taxa real de juros, está reduzindo o custo do crédito, do dinheiro. Quando desonera a folha de pagamentos de setores intensivos de trabalho está reduzindo custos que, por razões históricas, têm uma tributação muito grande. A grande estratégia do governo é um programa de redução desses custos no longo prazo. Há um conjunto de medidas que vão além de pura desoneração para aumentar o consumo, como vem sendo propalado.

Por exemplo?

Os regimes especiais de tributação. O esforço pela redução do custo da energia. Essa é uma agenda que tem impacto nos custos da indústria muito grande. Se desonerar o custo da energia, ou reduzi-lo através de mecanismos regulatórios, está aumentando a competitividade da indústria. Ao contrário da chamada agenda do puxadinho, é uma agenda de longo prazo.

A produção industrial cai há nove meses, cadê os resultados? Vamos fazer um raciocínio contra-factual: se o governo não estivesse tomando nenhuma medida, como estaria a economia brasileira hoje? Possivelmente, já estaria à beira da recessão. A reação do governo está contribuindo decisivamente para não entrarmos em recessão

Economistas defendem reformas estruturais. O País consegue superar a crise sem isso?

O Brasil vai continuar fazendo reformas e já fez muitas. Não vamos parar o País, fazer reformas durante um determinado número de anos e depois voltar a funcionar. Nessas reformas, você troca o pneu furado com a bicicleta andando. Estamos num processo permanente. Por exemplo: criar um sistema privado de financiamento do longo prazo, do investimento, é um grande desafio hoje. Temos condições de implementar essa reforma e isso está no radar do Banco Central e da Fazenda. Outro exemplo é a mudança do sistema previdenciário público, que está em plena implantação e é um dos projetos mais importantes da Presidência da República.

A indústria encerra o ano com crescimento? De quanto?

Estamos torcendo fortemente para um crescimento. Vai ser um número positivo, mas pequeno.

13/06/2012 - 06:24h Ricos têm que dar o dinheiro prometido, afirma embaixador

Bel Pedrosa/Valor
O embaixador Luiz Alberto Machado: “Estou animado. Acho que em três dias avançaremos muito [nas negociações]”


Por Daniela Chiaretti | VALOR

Do Rio

“Não queremos um retrocesso”, diz o embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, secretário-executivo da Comissão Nacional para a Rio+20, ao falar sobre quem irá bancar a conta do desenvolvimento sustentável global. Países industrializados, encabeçados pelos europeus, têm dito que os emergentes devem assumir mais compromissos nesse sentido. “É verdade que há um movimento de alguns países industrializados de que os emergentes deveriam ter um papel maior nessa área de financiamento”, responde o principal diplomata brasileiro à frente do processo de negociação da Rio+20. “Mas é importante que se entenda: existe um passivo de financiamento, e nós não vamos entrar nesse rateio.”

Figueiredo se refere ao compromisso histórico dos países ricos, acertado há 20 anos – no mesmo Riocentro onde hoje começa a Conferência das Nações Unidas sobre desenvolvimento sustentável -, de que partiria deles o financiamento para que os outros pudessem se desenvolver. Seriam os industrializados, também, que iriam transferir tecnologia para que o crescimento do resto do mundo acontecesse de um modo sustentável. Isso não ocorreu. Há um compromisso antigo de os países ricos transferirem 0,7% de seu PIB à cooperação internacional, o que não vem sendo cumprido. É esse o passivo a que Figueiredo se refere.

Negociadores de todo o mundo começam hoje, no Riocentro, o que formalmente á a última rodada de negociações de “O Futuro que Queremos”, o documento-base da Rio+20. O trabalho desses delegados é de enxugar um documento extenso, que tem apenas 70 parágrafos acordados e 259 ainda sem consenso. Eles falam de temas fundamentais para o futuro: água, energia, cidades, oceanos, redução da pobreza, crescimento sustentável. A conferência tem dois grandes eixos de discussão: a economia verde e a governança global do desenvolvimento sustentável.

É importante que se entenda: há um passivo de financiamento, e nós [emergentes] não vamos entrar nesse rateio”

Nesta entrevista exclusiva ao Valor, Figueiredo diz que há avanços sobre o debate de se fortalecer o Pnuma, o programa das Nações Unidas sobre meio ambiente. O braço ambiental da ONU tem 40 anos, mas não conta com orçamento previsível e universal (só 58 países contribuem) e nem força política. A ideia de países europeus e africanos é de transformar o Pnuma em uma agência, como a Organização Mundial da Saúde, com mais autonomia e força. Talvez isso não aconteça na Rio+20, mas o diplomata acredita que o Pnuma não deve sair da conferência do mesmo jeito que entrou.

A novidade na governança ambiental que pode surgir no Rio é a criação de um conselho de desenvolvimento sustentável colocado em um alto nível dentro da hierarquia da ONU. Ele surgiria da reforma de um conselho econômico e social que existe desde 1946, mas que é um ilustre desconhecido. O Ecosoc, como é chamado, sairia do ostracismo ao ganhar também a componente ambiental e muito mais força. A seguir, trechos da entrevista:

Valor: Dará tempo de fechar o documento nesta última rodada de negociações antes da cúpula?

Luiz Alberto Figueiredo Machado: Dá tempo, sim. Infelizmente, em reuniões desse tipo as coisas fecham no último instante. O fato é que nós temos um número importante de parágrafos acordados e um número grande que ainda não fecharam. Mas muitos dos que não fecharam é por detalhes, algo que se resolve muito rapidamente.

Valor: Que tipo de detalhes?

Figueiredo: Palavras, verbos. Em muitas partes não há divergências importantes. Outras áreas são mais complexas.

Valor: Quais, por exemplo? A que fala nos recursos financeiros para a economia verde?

Figueiredo: Sim. Os meios de implementação, a parte 6 do documento. Ela requer uma atenção especial. É um tema espinhoso. Assim foi nas discussões do tratado de clima, em Copenhague [a reunião internacional sobre mudança climática, em dezembro de 2009], em todas as conferências o tema do financiamento é crucial. Ainda está aberto. Exigirá um esforço de negociação nesta semana.

Valor: O que o Brasil quer nesse campo? Os europeus estão cobrando que os emergentes assumam mais compromissos.

Figueiredo: Queremos um resultado que reafirme os compromissos dos países desenvolvidos na área de financiamento, transferência de tecnologia e capacitação. O que não queremos é um retrocesso. Diante da crise há uma retração mundial quando se fala em financiamentos. É verdade que há um movimento de alguns países industrializados de que os emergentes deveriam ter um papel maior nessa área de financiamento. Mas isto é importante que se entenda: existe um passivo de financiamento, que são os compromissos já assumidos pelos desenvolvidos.

Valor: O sr. se refere àqueles 0,7% de PIB dos países industrializados que seriam dirigidos à cooperação internacional?

Figueiredo: Sim. Não vamos entrar nesse rateio. Agora, o Brasil, a China e a Índia são países que têm programas de cooperação Sul-Sul importantes. Nós, até por solidariedade e amizade, já prestamos ajuda a outros países em desenvolvimento. Isso é muito diferente do que aceitar uma conta que não é nossa, um passivo não cumprido pelos países ricos. É um ponto complicado do capítulo de meios de implementação, que também trata de transferência de tecnologia e capacitação.

Valor: Onde há avanços na negociação?

Figueiredo: Uma questão bem encaminhada é a que trata do fortalecimento do Pnuma. O Brasil, como presidente da conferência, tem consultado os países interessados e temos visto uma ótima disposição de que o Pnuma saia fortalecido do Rio. Mesmo sem entrar na questão de criar ou não uma agência, que é secundária.

Valor: Como então o Pnuma sairia fortalecido? Todos os países participariam do Pnuma? A contribuição financeira seria obrigatória?

Figueiredo: Estamos vendo como fortalecer o pilar ambiental e dar meios de o Pnuma atuar, essa é uma discussão com grande progresso. Há várias tendências. Para alguns países é difícil a contribuição obrigatória, uma das ideias é colocar o Pnuma no orçamento regular da ONU. Existem várias hipóteses. Em uma delas, as contribuições, embora se mantendo voluntárias, seriam mais previsíveis. Todos os países, sem exceção, estão engajados em fortalecer o Pnuma.

Valor: Mas, ao não ser transformado em uma agência, não teria força política. As decisões continuariam tendo que passar pela Assembleia Geral, em Nova York?

Figueiredo: Teria força também, dentro do sistema da ONU.

Valor: O Brasil sempre quis um conselho ou fórum de desenvolvimento sustentável dentro da ONU. Como está esse ponto?

Figueiredo: Nessa questão da governança do desenvolvimento sustentável há uma convergência crescente em torno da proposta de se aprimorar o Ecosoc.

Valor: O sr. está falando em uma reforma do conselho econômico e social da ONU?

Figueiredo: Uma ideia é fazer com que o Ecosoc se reúna anualmente como um fórum de desenvolvimento sustentável. A cada quatro anos, esse fórum teria um caráter de reuniões de chefes de Estado. Talvez num ano ele pudesse se concentrar em temas ambientais, em outro, nos sociais, em outro, nos econômicos – no quarto ano, a reunião seria de chefes de Estado. Seria uma fórmula de equilibrar os pilares. É interessante.

Valor: O Ecosoc cuidaria também das convenções ambientais, como as de clima e biodiversidade?

Figueiredo: O Pnuma teria papel ampliado nas áreas das convenções. Isso faz parte das conversas.

Valor: O sr. pode falar sobre oceanos? É um assunto que está avançando. Mas como? O que pode acontecer nessa área na conferência?

Figueiredo: Nossa intenção é que se abra uma negociação de um novo instrumento internacional, sob a Convenção do Mar, e que possa regulamentar a exploração da biodiversidade em alto-mar e, especialmente, recursos genéticos.

Valor: O que isso quer dizer?

Figueiredo: É uma ideia que encontra resistências. Não se pode deixar a área de alto-mar sem uma regulamentação sobre o aproveitamento de recursos genéticos.

Valor: Quem se opõe a isso e qual o motivo?

Figueiredo: Normalmente são os países desenvolvidos. Eles resistem porque têm mais capacidade de explorar esses recursos e não estão necessariamente interessados em uma regulamentação que diga, por exemplo, que um recurso genético no fundo é patrimônio da humanidade.

Valor: Preferem dizer que é de quem achou?

Figueiredo: Isso.

Valor: E sobre pesca? O que está sendo negociado? Os estoques de peixes no mar estão caindo.

Figueiredo: Basicamente é o uso de abordagens de precaução. Também há resistência de países tradicionalmente pescadores.

Valor: Como Noruega e Japão?

Figueiredo: É. Há um parágrafo que trata da capacitação de pescadores tradicionais e artesanais e comunidades pesqueiras. Estimula o acesso ao mercado dessas pessoas. É bem interessante. E é um grande avanço. A Rio92 não teve muita coisa sobre os mares.

Valor: Algum avanço nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, os ODS?

Figueiredo: É uma área que o Brasil apoia sempre. Ela, hoje, é uma realidade no documento.

Valor: Como assim? Estão definidos os temas?

Figueiredo: Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável estão no documento. Vai ter ODS. Existe a aprovação da necessidade de se ter os ODS, e de ocorrer o lançamento de um processo de negociação das metas em si. Há muita coisa técnica envolvida para se chegar às metas, também tem que se discutir os princípios que vão reger esses objetivos que serão globais e não nacionais. Também há o fato de que eles não substituem os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, e que são voluntários.

Valor: As áreas estão definidas?

Figueiredo: Ainda há muita divergência quanto às áreas. Acho que vão ficar para um processo de negociação que se abrirá e que vai até 2015. Coincidirá com a negociação do clima, que também tem a data de 2015 como importante.

Valor: E as negociações que falam sobre transparência dos dados e políticas de desenvolvimento sustentável? Em que pé estão?

Figueiredo: Ainda estão complicadas, mas o problema não é a transparência, mas a ingerência. Os países entenderam que ter transparência nos dados é importante. Mas há dificuldades. Por exemplo: quem paga os relatórios? Quem determina o que vai ser o conteúdo do relatório? Existe uma ideia de se ter um ombudsman dentro das Nações Unidas. Alguns países perguntam: Por que ter uma pessoa? Por que ela teria mais legitimidade do que um governo que foi eleito democraticamente? Mas não há uma resistência à transparência desses dados e políticas de desenvolvimento sustentável, mas da ingerência.

Valor: Os EUA sempre apoiaram o último parágrafo do documento, que fala sobre um registro voluntário que todos fariam de seus compromissos de desenvolvimento sustentável. Como está isso?

Figueiredo: Existe uma diferença. O G-77 [grupo de países em desenvolvimento que também reúne o Brasil e os emergentes] quer que esse compêndio seja de compromissos voluntários das empresas e da sociedade civil. Mas não de países. Países ou têm compromissos ou não têm. É um espaço interessante, mas é preferível, a nosso ver, abrir um espaço onde setores da sociedade civil possam registrar seus compromissos voluntários.

Valor: Como funcionaria isso?

Figueiredo: Vamos imaginar que empresas assumam o compromisso de, paulatinamente, eliminarem um componente químico x até determinada data. O registro dará visibilidade ao compromisso.

Valor: Voltando ao começo da entrevista: haverá tempo para negociar isso tudo?

Figueiredo: Estou animado, está indo muito bem. Acho que em três dias avançaremos muito. Não afasto a hipótese de continuarem as consultas sobre temas mais complexos. Mas isso antes de começar a cúpula. Tem que estar tudo pronto antes da chegada dos líderes.

Valor: E a discussão sobre a mudança do PIB, que contemple parâmetros ambientais e sociais?

Figueiredo: O PIB Verde, como estão chamando. Nesse ponto ainda há diferenças.

Valor: A Rio+20 será histórica? Lembraremos dessa conferência por quais resultados?

Figueiredo: O economista Jeffrey Sachs tem dito que se o Rio aprovar a ideia dos objetivos de desenvolvimento sustentáveis [ODS], isso será o maior passo dado pela comunidade internacional nas últimas décadas e que a Rio+20 será lembrada principalmente por causa disso. Mas não só.

Valor: O que mais?

Figueiredo: O Rio será lembrado também porque será a primeira reunião desse tipo em que a participação da sociedade é muito maior do que antes, com participação plena da sociedade civil. É uma conferência que deixará um legado para uma geração inteira. O Brasil mudou depois da Rio92. A consciência ambiental das pessoas ficou totalmente diferente, se acendeu uma chama. Desta vez, esta chama se acenderá para uma geração inteira. Haverá o grande legado da mobilização das ideias.

04/06/2012 - 19:16h “Para integrar nuestros países se deben privilegiar las políticas estructurales”

03.06.2012 | Entrevista a Pedro Silva Barros, economista y funcionario de Brasil

Desde 2010 encabeza la misión de integración productiva del Instituto de Pesquisa Económica Aplicada en Venezuela. Considera que la integración debe ser una política de Estado que no puede depender del “voluntarismo empresario”.

Alfonso Villalobos – Tiempo Argentino

En perfecto castellano, aunque con una leve tonada caribeña, el licenciado en Economía y Derecho de la Universidad de San Pablo opina sobre los límites que plantea una política de integración acotada a lo estrictamente comercial. Considera que la integración regional debe surgir de una intervención estatal “Si los empresarios son los que controlan la agenda serán solo medidas de corto plazo.” Para eso, asegura, es necesario complementar la estructura productiva, el financiamiento y la innovación tecnológica a nivel regional. Por eso, en junio, adelanta, el Instituto inaugurará sus oficinas en Buenos Aires.

–¿Cómo evaluás la situación de tu país frente a las señales de recesión industrial? ¿Son correctas las medidas de estímulo que tomó Dilma Rousseff?
–En 2008, frente a la crisis internacional, Brasil adoptó políticas contra cíclicas con aportes a la banca pública y bajando las tasa de interés. A fin de los ‘90 teníamos la tasa de interés más alta del mundo, un 40% anual. Ahora, por primera vez en la historia, hay tasas de un dígito (8,5%). Se ha decidido aumentar el protagonismo del Estado en el desarrollo fortaleciendo la banca pública y el financiamiento de la producción a través del BNDES. También, con limitaciones, se ha intentado aumentar la inversión en infraestructura y medidas de estímulo a la producción y el consumo. Otro tema es el impulso a la construcción civil con el programa de viviendas “Mi casa, Mi vida”.

–¿Qué impacto tuvieron?
–La economía reaccionó muy bien. En 2010 llegó a crecer un 7,5% como no sucedía en 20 años. La respuesta a la inflación fue una política fiscal restrictiva que desaceleró mucho la economía.

–¿El objetivo de las medidas fue estimular el consumo o achicar el diferencial con las tasas de interés europeas y frenar el carry trade y el revalúo del real?
–Por un lado, estimular y por el otro bajar las rentabilidades bancarias, un sector que le fue demasiado bien. El gobierno llevó la relación entre deuda y PBI a apenas un 50% y tiene más reservas internacionales que deuda externa.

–¿Qué opinás sobre las exenciones impositivas a empresarios? ¿No profundizan el carácter regresivo de la estructura tributaria y no comprometen la situación fiscal?
–Las exenciones en general son regresivas. Incluso las que son al consumo porque afectan al 50% más rico que compra autos y productos industriales. Pero si se estimula el consumo se benefician los más pobres. La recesión podría provocar desempleos. No es una medida distributiva pero sirve para mantener la actividad económica. Las restricciones fiscales que se están viendo en Europa, no hacen más que agravar la recesión.

–¿Cómo explicás que, teniendo una moneda más débil con relación al real, la Argentina tenga déficit?
–Un manual de economía dice que si se valora el cambio entonces viene el déficit comercial. Es la estructura productiva y las políticas de estímulo lo que explica el comercio exterior. Brasil revaluó su moneda varios años y sin embargo el superávit se incrementó. Diversificamos las exportaciones, hubo políticas específicas. Hay una ley que se llama ley Candif que descuenta el IVA para los productos de exportación.

–¿Como un tipo de cambio diferenciado?
–Sí. Todos los países hacen eso. Brasil hace sólo diez años que lo aplica. Hay casos donde el tipo de cambio no afecta porque existe un comercio intrafirma o intrasectorial.

–La misión comercial argentina a San Pablo fue la más grande que jamás se haya hecho entre la Argentina y Brasil. ¿Cómo ves la relación comercial?
–En estos momentos de crisis mundial América Latina reaccionó bien. Existe una tendencia mundial de políticas proteccionistas y aumento en la intervención de los Estados. Esto no tiene porqué ser malo. En algunos casos, como en Brasil, puede ser positivo. La nacionalización de YPF permite recuperar la producción de hidrocarburos y articular la política de créditos con la innovación de toda la cadena productiva y de suministros, como hizo Brasil con Petrobras. Hay una posibilidad de emplear componentes nacionales en la cadena de petróleo y gas en la Argentina.

–Pareciera que no hay márgenes para acordar políticas generales y que la macroeconomía toma la forma de múltiples acuerdos micro…
–Lo que se debe privilegiar son las políticas estructurales. El voluntarismo empresarial puede ser beneficioso pero, sin una planificación, una articulación y una política macro de infraestructura y articulación productiva, innovación y financiamiento puede traer problemas. Un producto puede ser sustituido de un día para otro por China mientras que un encadenamiento productivo no se cambia en una semana.

–En Brasil se produjo una devaluación del real y un principio de una recesión industrial. ¿Esto no hace pensar que cualquier acuerdo comercial en realidad es en función de los intereses brasileros de salir de la crisis?
–Es así. Para la industria brasilera estos encuentros buscan restablecer el nivel comercial de 2011 aumentando las exportaciones a la Argentina. Pero es una preocupación de corto plazo que puede asociarse a una política de largo plazo. Eso es tarea de los gobiernos. Si los empresarios son los que controlan la agenda serán solo medidas de corto plazo. <

Petróleo e industria naval

–¿Avanza la integración regional?
–Existe un fuerte sentimiento de integración que se ha profundizado. Con la Argentina hay un gran comercio a través del Mercosur pero concentrado en las multinacionales del sector automotriz. Hay que complementar en otros sectores como el petróleo y el gas. Venezuela tiene una de las reservas de hidrocarburos más grandes del mundo. La Argentina y Brasil también. Se puede producir un polo tecnológico y de innovación en temas de hidrocarburos y en industria naval. Se podrían integrar también Bolivia y Ecuador.

–¿Cómo entra cada país en esa cadena?
–Tiene que haber una política regional. Los tres países deben implementar una política que incremente los componentes nacionales. Esto debe llevar a que la producción regional sea considerada como nacional. Venezuela carecía de industria naval pero está construyendo un astillero con recursos del BNDES brasilero con asesores de ese país. Van a producir 12 buques petroleros por año. El Banco del Sur sería decisivo.

Un paso concreto
El IPEA nació en lo sesenta dos años después del Ministerio de Planificación de Brasil fundado por Celso Furtado en el apogeo del desarrollismo del Brasil. Actúa para ayudar en la formulación y la evaluación de las políticas públicas del Brasil. IPEA en 2008 se propuso abrir delegaciones fuera de Brasil. La primera fue en Venezuela en 2010. En 2012 abrirán delegaciones en Paraguay y en la Argentina que funcionará en las oficinas de CEPAL. En Venezuela se analiza la integración entre el norte de Brasil y el sur de ese país en la cuenca del Orinoco-Amazonia asociados a biodiversidad, hidrocarburos y energía. En la Argentina harán estudios para evaluar la integración de ambos países.

28/04/2012 - 17:30h ‘O crescimento não deve ser um fim em si mesmo’

Entrevista: Amartya Sen

Mercados, justiça e liberdade

Para o prêmio Nobel indiano, a expansão das economias baseadas na livre-iniciativa deve ocorrer ao mesmo tempo em que se ampliam os investimentos sociais feitos pelo governo

Giuliano Guandalini – VEJA

Amartya Sen
Amartya Sen: ”O crescimento não deve ser um fim em si, mas um meio de alcançar avanços sociais e beneficiar a população” (Luiz Maximiano)

Amartya Sen, 78 anos, cresceu em uma Índia imersa na ruína econômica e social. Filho de um professor universitário, conviveu com a miséria extrema, a sangrenta guerra separatista do Paquistão, o desmonte do Império Britânico e viu a fome matar pelo menos 3 milhões de pessoas em Bengala. Em 1998, ele recebeu o Nobel de Economia por sua formulação original sobre o desenvolvimento, processo que passou a ser visto como uma extensão das liberdades para trabalhar, consumir, dispor de saúde e educação de qualidade e expressar livremente os pensamentos. Graças a Sen, um dos criadores do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o avanço dos países não é mais medido apenas pelo crescimento da economia. Ele esteve em São Paulo como palestrante do encontro Fronteiras do Pensamento.

A última vez que o senhor esteve no Brasil foi há mais de dez anos. Qual a sua avaliação da evolução brasileira nesse período? A economia brasileira passa por um bom momento. Não falo apenas em termos de crescimento, que permanece mais robusto do que aquele visto na Europa e nos Estados Unidos. O importante é que o país tem distribuído os recursos gerados pelo aumento de sua riqueza. Houve uma melhora indiscutível nos indicadores sociais. Agora, para sustentar o crescimento e consolidar os avanços conquistados, será preciso aprimorar a educação e também o sistema público de saúde, tanto em termos de cobertura da população como no que diz respeito à qualidade.

Mas o Brasil cresce em uma velocidade inferior à de outros países em desenvolvimento… O Brasil realmente não vem crescendo tão rápido quanto a China ou mesmo a Índia, mas exibe muitas vantagens em relação àqueles países. A China enfrenta uma constante tensão política por não ser um país democrático, embora seja um equívoco atribuir o crescimento da economia chinesa ao autoritarismo. A China cresce rapidamente porque nos últimos trinta anos sua economia é aberta e receptiva aos mercados. A Índia, por sua vez, teve períodos de crescimento tépido, mesmo sendo uma democracia. Passou a avançar mais rapidamente depois que decidiu implantar políticas mais favoráveis aos investidores privados. Mas a renda per capita indiana ainda é muito baixa e os indicadores sociais evoluem lentamente. Nesse aspecto, a evolução verificada na sociedade brasileira tem sido bem mais expressiva.

Por que essa avaliação negativa da Índia, um dos países que mais crescem no mundo? A economia indiana deverá sentir uma desaceleração, baixando sua taxa anual de expansão dos atuais 9% para algo em torno de 7%. Ainda assim, nos próximos anos, o PIB indiano continuará crescendo em um ritmo superior ao da média mundial. O que mais me preocupa com relação ao futuro da Índia é o fato de o país ter se mostrado incapaz de partilhar os frutos do crescimento. Não me refiro apenas à distribuição da renda. Falo da desigualdade de acesso ao ensino de qualidade. Para uma parte da população, a educação é excelente. Há pessoas capazes de competir em igualdade de condições com trabalhadores de outros países. Não são inferiores em nada, no preparo técnico e científico. Por outro lado, um terço dos indianos não tem acesso a esse sistema educacional mais avançado, enquanto uma parcela ainda maior não consegue sequer entrar no ensino primário. Esse é um quadro de extrema desigualdade. Há muita injustiça também no sistema de saúde. O serviço privado é ótimo, mas boa parte da população não possui cobertura ou assistência de nenhuma natureza.

O senhor começou a estudar o desenvolvimento econômico e social há quase seis décadas. Como avalia a evolução desses indicadores nesse período? É inegável que houve uma evolução. Os níveis de pobreza estão em queda. Em diversos países, há milhões de pessoas deixando a pobreza e também muita gente enriquecendo. Houve progresso considerável na oferta e na qualidade do ensino, a saúde melhorou, vimos uma queda na desigualdade entre homens e mulheres. Aumentou muito a atenção às questões ecológicas, praticamente ignoradas antes. Ocorreu, no entanto, um retrocesso no que diz respeito à segurança — em parte por causa do extremismo religioso e também por conflitos militares.

Os governos tendem a focar suas ações no estímulo ao crescimento do PIB. Esse deve ser o principal objetivo de um governante? É um erro buscar o crescimento pelo crescimento, sem levar em conta os seus efeitos mais amplos e as suas consequências. É preciso ponderar, entre outros fatores, o impacto ambiental. É fundamental também usar os frutos do crescimento para aprimorar a qualidade de vida da população de maneira abrangente, e não apenas favorecendo certos grupos. A Índia teve uma expansão econômica, nas duas últimas décadas, mais elevada do que a de Bangladesh. A renda per capita indiana é hoje equivalente ao dobro da de Bangladesh. Porém, apesar de ter crescido menos, Bangladesh ultrapassou a Índia em diversos indicadores de desenvolvimento social. Precisamos prestar atenção em como tirar o melhor proveito do enriquecimento do país. O crescimento é um meio extraordinário de alcançar avanços sociais e beneficiar a população em geral, como já apontara Adam Smith (filósofo escocês, 1723-1790).

É um equívoco, então, ver o senhor como um cético do crescimento econômico? Não sou anticrescimento, de maneira alguma. Sou contra o crescimento pelo crescimento, e ofereço todas as minhas críticas àqueles que assim são. Mas àqueles que não buscam nenhum crescimento, como a Europa hoje em dia, minhas críticas são ainda mais severas. Adam Smith estava certo quando observou que o crescimento aumenta a renda da população e assim amplia a capacidade das pessoas de ter acesso a melhores condições de vida. Estava certo também quando disse que o crescimento gera os recursos necessários para que os governos possam exercer as suas atividades essenciais.

Os países europeus sentem o peso do aumento na dívida pública. Nesse caso, faz sentido conter as despesas do governo? Os cortes de gastos, se necessários, precisam ser seletivos. A Europa estaria em uma situação bem mais confortável, neste momento, se perseguisse políticas que estimulassem o crescimento em vez de concentrar seus esforços na austeridade. Nenhum país foi capaz, em toda a história, de reduzir a sua dívida pública em um contexto de ausência de crescimento econômico, como tentam fazer hoje alguns países europeus. Não faz sentido essa ideia de primeiro reduzir o endividamento para em seguida ver a economia avançar. Como resultado, a crise europeia é bem mais severa do que deveria ser. Mas, como disse anteriormente, a busca pelo crescimento não deve ser um fim em si mesmo, e sim uma maneira de aprimorar indicadores sociais, como saúde e educação — e também para reduzir o endividamento público, se preciso.

Qual o papel do estado no desenvolvimento dos países com economia baseada na livre-iniciativa? Desde o fim da II Guerra Mundial, um número crescente de países adotou sistemas econômicos baseados na economia de mercado e na livre-iniciativa. Houve também, ao mesmo tempo, um avanço nos gastos sociais pelos governos. O estado de bem-estar social (welfare state) foi estabelecido pelos europeus. Foram ampliadas as políticas de apoio aos desempregados. A expansão das economias de mercado ocorreu, portanto, simultaneamente ao avanço das políticas públicas de bem-estar social. Em grande medida, um processo se alimentou do outro. O Japão já fizera algo parecido a partir do fim dos anos 1860, depois da Restauração Meiji. Os japoneses deram ímpeto a políticas que favoreciam o crescimento acelerado tendo como base uma economia de mercado, mas com um forte investimento público em educação e saúde. Mais tarde o modelo japonês foi replicado por coreanos, por taiwaneses, por Hong Kong e, finalmente, pela China, depois de 1979. O papel do governo expandiu-se dramaticamente na segunda metade do século XX, ao mesmo tempo em que ocorria a expansão da democracia e das liberdades individuais.

Alguns analistas enxergam no custo elevado do estado de bem-estar social o maior obstáculo à recuperação europeia. Qual a sua avaliação? Discordo. A gigantesca crise financeira de 2008 teve início com falhas no funcionamento dos mercados financeiros. Mas, quando os governos gastaram bilhões para socorrer os mercados, os países acabaram acumulando dívidas colossais. Com exceção da Grécia, talvez, a culpa pela crise não pode ser debitada aos governos. As políticas sociais apenas se tornam um peso para o estado quando a economia permanece estagnada, porque aí não há os recursos necessários para financiar a assistência. Diversos países saíram da II Guerra com elevados níveis de endividamento. Como conseguiram reequilibrar suas finanças? Crescendo. Nos anos 90, o presidente americano Bill Clinton também precisou lidar com uma dívida pública elevada e, mais uma vez, a saída foi o crescimento, e não a austeridade. O frustrante é que essas questões já foram tratadas com grande clareza desde os tempos de Adam Smith. Um estado tem responsabilidades e deveres diante de sua população, e o meio de obter os recursos necessários às suas políticas é o livre mercado. É desse equilíbrio que necessitamos.

O senhor cita Adam Smith como um defensor desse equilíbrio entre estado e livre-iniciativa. Hoje, no entanto, o mais comum é Smith ser lembrado como o formulador do conceito da “mão invisível”, a capacidade dos mercados de se autorregularem… Smith foi um pensador radical. Ele recebeu críticas da direita por defender a ampliação das liberdades individuais. Os revo­lucionários franceses devem muito às ideias de Smith. O marquês de Condorcet (filósofo francês, 1743-1794) e sua mulher, Sophie, traduziram textos de Smith para o francês. Qualquer um que defendesse a economia de livre mercado no século XVIII era sem dúvida um radical, porque não havia livre mercado. Mais tarde, quando o livre mercado passou a ser dominante, as pessoas continuaram a ler Smith — mas apenas quatro páginas, se tanto, e ignoraram completamente o resto de sua obra. Temos de ler e reler Smith, sempre.

O debate econômico atual está centrado em duas frentes. Uma, a dos seguidores de John Maynard Keynes (economista inglês, 1883-1946), propõe um aumento dos gastos públicos para estimular a demanda. A outra corrente, representada sobretudo pelos seguidores de Milton Friedman (economista americano, 1912-2006), condena o excesso de intervenções do governo. Quem está com a razão? Esse debate é um equívoco. Os seguidores de Friedman erram ao imaginar que a economia de mercado pode fazer tudo sozinha. É um modelo impossível de ser implementado no mundo real. Os keynesianos erram ao pensar que o mero estímulo da demanda vai resolver todos os problemas econômicos. Keynes tem relevância apenas quando estamos lidando com uma recessão. Mas ele diz muito pouco sobre o papel do governo como propulsor do desenvolvimento. Para saber como deve agir o estado, é preciso buscar respostas em Adam Smith, ou em Arthur Pigou (economista inglês, 1877-1959), que tratou de questões como pobreza, desigualdade, qualidade da moradia, educação. Keynes nada tem a acrescentar a respeito desses temas. O desenvolvimento resulta de investimentos em fatores cruciais como educação, saúde, segurança individual e, é claro, disseminação do conhecimento. Sinto pelos seguidores deles, mas em nenhum desses aspectos Keynes ou Friedman têm muito a dizer.

Que países são exemplos do equilíbrio que o senhor propõe? Não há nenhum país perfeito no mundo. Há lições para tirar de um ou de outro. Ninguém precisa copiar um modelo de país. O essencial é raciocinar a partir das ideias que funcionaram em outros lugares.

16/04/2012 - 10:56h “El peritaje debe ser un camino para el diálogo, para el acuerdo”

LUIS GUERRERO. EX ALCALDE Y EX CONGRESISTA DE CAJAMARCA

“Santos y Arana en su vida han plantado algo”

Nuestro entrevistado pone el dedo en la llaga. Sostiene que el movimiento radical de Santos, Saavedra y Arana se va debilitando porque no tiene perspectiva y no se sabe qué quiere… Es un no porque no

Por: Mariella Balbi – El Comercio

Lunes 16 de Abril del 2012

El otro lado de la protesta anti-Conga es una parálisis de la actividad económica en Cajamarca. El ex alcalde de esta ciudad y ex congresista cajamarquino anota que los taxistas tienen menos trabajo, el turismo ha decaído y 6.000 trabajadores ya dejaron Yanacocha. Sostiene que el peritaje de Conga debe abrir un espacio de diálogo.

—Siendo un destacado político cajamarquino, ¿qué evaluación hace del paro regional del pasado miércoles?
No hubo paro, fue una movilización que duró dos horas y media. En su mejor momento hubo 4.500 personas. La mayoría eran trabajadores regionales y profesores. Y la movilización que hubo el lunes pasado fue muy pequeña.

—¿En Celendín, Bambamarca el paro fue fuerte?
También movilizaciones, pero el paro no se sintió. Fue un fracaso. Esto golpea duramente a los líderes. El de Cajamarca es un conflicto de crecimiento. Nunca antes en su historia creció tanto como ahora. El nivel de inversión es muy grande en relación con otras regiones del país. Pero al mismo tiempo hay problemas con el desarrollo. La gente dice: se llevan el oro, no nos queda nada. Se deben invertir esos recursos en educación, infraestructura, turismo, producción agropecuaria. Pero el dinero se ha gastado en cosas absurdas. Se han gastado millones de dólares en un coliseo que no se termina y en Mollepampa [afueras de Cajamarca] la gente no tiene agua. Y dicen: quien consume el agua es la mina, nos la quita.

—Yanacocha informa…
No, es deficiente, pese a que tiene buenos técnicos. Se dice que Yanacocha ha secado el río Grande, el que abastece de agua a Cajamarca y que la mina bota agua envenenada por tres mangueras. Es un psicosocial y una campaña sostenida. En su peor momento de estiaje el río Grande trae más de 500 litros por segundo y Sedacaj, la empresa de agua, solo puede captar en su toma 150 litros. Nada se ha hecho para ampliar la toma, para hacer un tendido de tuberías, construir tanques para que la población tenga agua. En las lluvias, el río Grande trae 10 m3 por segundo y la gente no tiene agua.

—¿El agua no viene mala?
Sedacaj, como cualquier empresa, trata el agua, igual que lo hace Sedapal con el Rímac.

—¿Y cuánto cuesta ampliar la bocatoma, construir tanques de agua?
35 millones de soles. Es un proyecto prioritario para que Cajamarca tenga agua.

—Increíble. ¿La protesta anti-Conga es un proyecto político electoral?
Se canalizó un descontento natural del pueblo por personas con un claro objetivo político. Como no podían ‘acumular fuerzas’ con sus planteamientos encontraron un espacio en la lucha desarrollada por Wilfredo Saavedra. Ha calado en las élites universitarias. Dijeron: van a desaparecer las lagunas y estas son benditas, sagradas. Hay un tema cultural, ciertamente, está el culto al agua, a los apus.

—¿El objetivo de los anti-Conga es la presidencia del 2016?
Quieren tener protagonismo para el 2016. La izquierda marxista nunca se preocupó por el medio ambiente, menos el señor Arana, que viene de Patria Roja. Esta última sostiene que hay un vacío político en relación con el caudal electoral del sector radical que apoyó a Humala. Buscan captarlo y ellos representarían en el 2016 al verdadero nacionalismo y la verdadera izquierda. La marcha por el agua mostró bien el interés político de estos líderes.

—¿Observa una división entre los principales líderes: Gregorio Santos, Marco Arana y Wilfredo Saavedra?
Claro que hay confrontación entre ellos. Están divididos por el interés político para el 2016. Saavedra, que encarnó desde el inicio la lucha contra las mineras, se ha visto utilizado por Arana y por Santos. Pretendieron desplazarlo y casi lo expulsan del Frente de Defensa de los Intereses de Cajamarca, por eso él creó su Frente de Defensa Ambiental.

—Sin embargo, los tres han dicho que Conga no va.
Se oponen a la actividad minera en cabeceras de cuenca, pero todas las inversiones mineras, Anglo América, Lumina Copper, cerca de Conga, están ahí. ¿No irían el proyecto La Granja y otros? El gobierno nacional realiza pequeñas obras con los municipios, sin el gobierno regional. Cuando, para dar el gran salto, Cajamarca requiere hacer la presa de Polloc, de río Grande…

—Se anunció la presa de Chonta…
Sí, Humala le dijo al alcalde de Cajamarca que era una prioridad, pero hasta ahora no se concreta, no se licita.

—Se ofreció un paquete de obras por 5.000 millones de soles para Cajamarca en los próximos cinco años.
Pero aún no hay acción. Solo es ofrecimiento y la gente está cansada de ello. Cuando hay decisión política, se hace un cronograma con plazos. Por eso se ha creado el Colectivo de Cajamarca, para seguir los ofrecimientos del Gobierno Central y de los contratos con empresas privadas. En Cumbemayo no hay agua potable ni para los turistas, la pista –pocos kilómetros– no está asfaltada, tampoco el circuito turístico que rodea a Cajamarca.

—¿Gregorio Santos no es un presidente regional activo?
Él realiza una actividad política, no de gobierno regional. No tiene capacidad de gasto, no atrae inversiones, ni coordina con los diferentes estamentos de la sociedad. En el 2010 Cajamarca ocupaba el tercer lugar en desnutrición infantil y hoy estamos en el segundo. Mire la incongruencia, el gobierno de Santos dirige el proyecto Predeci, contra la desnutrición, y lo financia Conga. Y el 70% del dinero va para gastos corrientes. Se quiere canon pero no minería, es un doble discurso absurdo. Se va a caer de espaldas…

—¿Por qué?
En Cajamarca ha habido espacio de diálogo, la Mesa de Concertación y otras instancias. Arana y compañía se encargaron de destruirlas. Pero en el 2004 se depositó un dinero en el banco para que Cajamarca tuviera un laboratorio con tecnología de punta, dirigido por técnicos, para analizar el agua de toda Cajamarca y tener una información confiable y no se diga que se ha vendido a la mina. Pero el gobierno regional no lo convoca ni hace nada. Santos tiene muchas denuncias de corrupción en la fiscalía de Cajamarca, su gobierno no es transparente.

—¿Los cajamarquinos son anti-Conga?
Existe un descontento hacia la minería expresado ahora en Conga. Si hace una encuesta, la mayor parte de la gente está por la inversión minera con respeto, con inclusión social, dando trabajo a los cajamarquinos.

—¿Es más fuerte en Celendín y Bambamarca, donde está el proyecto Conga?
Se ha dicho que con Conga se cerrarán todos sus canales y Bambamarca y Celendín no tendrán agua. Nadie acepta un proyecto así. Pero eso no es verdad. La minería no está destruyendo el medio ambiente, está regulada, aunque hay necesidad de una mayor vigilancia. La relación con el pueblo no es buena, el Colectivo Cajamarca busca mejorar esto.

—La gente que no es anti-Conga no se expresa.
Hay mucho temor. El miedo debe terminar. El movimiento radical se va debilitando, no tiene perspectiva, no se sabe qué quiere, es un no porque no. No pueden tener un debate técnico y además no tienen una historia de defensa del medio ambiente. Santos y Arana en su vida han plantado algo. Han presentado un informe de Robert Morán que es una vergüenza. No hay ninguna respuesta técnica, todo es anti, es una plantilla ideológica.

—En esta semana se conocerá el peritaje de Conga, se anunció para el viernes pasado…
Supongo que el retraso es porque se está evaluando el discurso del presidente Humala. Este proyecto es un punto de quiebre histórico de lo que va a significar la relación Estado y minería. Humala tuvo que cambiar de posición porque ganó con una hoja de ruta que hasta ahora está cumpliendo.

—¿El informe de los peritos va a ‘santificar’ el proyecto Conga como piensan los críticos?
No lo creo. Espero que la empresa Yanacocha acepte los resultados del peritaje. El Colectivo Cajamarca seguirá el cumplimiento de las observaciones. Si plantea conservar dos lagunas, pues tendrá que respetarse porque es un punto de vista técnico.

—Pero la empresa arguye que las observaciones pueden hacerlo no rentable.
No creo. Es la oportunidad para que la empresa demuestre que respeta la opinión técnica independiente. Sería muy duro para Cajamarca y el país que Yanacocha decida no seguir.

—Los anti-Conga no aceptan el peritaje…
Tendrán que hacerlo. Santos es un presidente regional, debería consultar las observaciones con los gobiernos locales, no puede limitarse a sus intereses políticos. El viernes pasado Wilfredo Saavedra ha declarado que si el peritaje demuestra la no afectación del medio ambiente, que no sería catastrófico, se puede crear un comité de vigilancia para analizar los resultados del peritaje y que habría que contratar a cajamarquinos. Es una buena noticia porque Saavedra es el líder. Arana y Santos se han prendido de este y están buscando una cosecha política del sector radical, quieren liderarlo para el 2016. Saavedra no piensa en la presidencia. Si es inteligente, aceptará que debe enmendar. Creo que debió estar en la mesa de diálogo, fue un error. No hay grande o chico en un diálogo. Saavedra tiene liderazgo en la observación.

—El peritaje se centra en las aguas superficiales, subterráneas, su calidad y el impacto ambiental…
Toca lo sustancial. Verá si están considerados todos los que serán afectados. Eso hará que la empresa extienda su radio de compensación. El estudio de impacto ambiental no incluye en los impactos la parte baja de la cuenca. En mi opinión el peritaje debería considerar toda la cuenca. También comprobará o no si el proyecto Conga proporcionará más agua que la existente.

—Imagine que la empresa y el gobierno aceptan íntegramente el peritaje. Los anti-Conga amenazan que rodearán la zona, cómo empezar a trabajar.
Esa respuesta la tiene que dar el presidente Humala. Es posible que los sectores ultras pidan a gritos un muerto, inmolarse. Hay que tener mucho cuidado con ello. El peritaje debe ser un camino para el diálogo, para el acuerdo. Ni Robert Morán ni el informe del ex ministro Giesecke dicen que Conga no va.

—¿El Tribunal Constitucional debe pronunciarse ya sobre la ordenanza del Gobierno Regional de Cajamarca?
Hace rato debió hacerlo. Ayudaría mucho a mejorar el clima social.

LA FICHA
LUIS GUERRERO
PROFESIÓN: Ingeniero agrónomo

VIDA POLÍTICA
Como miembro de Perú Ahora, en alianza con Somos Perú, fue electo congresista para el período 2000-2005, que quedó trunco en el 2001. Integró la lista congresal de Perú Posible para el período 2001-2006. Ha sido alcalde de Cajamarca en dos períodos, por el Frente Independiente Regional (1993-1995 y 1996-1998).

11/04/2012 - 11:20h Brasil inspira oposição a Chávez

Henrique Capriles, que quer pôr fim ao reinado de Chávez, defende o “modelo brasileiro” – programas sociais do Estado, geração de empregos na iniciativa privada e aumento da eficiência da economia.

Rival de Chávez quer bolivarianismo com toque brasileiro

Capriles: “Chávez desperdiçou uma oportunidade histórica. Este país poderia ser hoje a potência da América Latina”


“Eu sou bolivariano”, diz Henrique Capriles, 39 anos, com todas as letras. A frase soa psicodélica para um jornalista brasileiro que veio a Caracas para conhecer o homem que quer colocar fim à era Hugo Chávez, presidente da Venezuela desde 1999, líder da chamada “Revolução Bolivariana”. Mas Capriles logo explica: “Todos os venezuelanos somos bolivarianos. Simón Bolívar é o pai da nossa pátria”. Para ele, o exemplo a ser seguido não é o “Socialismo do Século XXI”, de Chávez, mas o que chama de “modelo brasileiro”, com programas sociais do Estado e geração de empregos na iniciativa privada.

Atual governador do Estado de Miranda, o segundo mais populoso do país e que abrange parte de Caracas, Capriles foi escolhido em fevereiro como o candidato único da oposição para as eleições de 7 de outubro. Solteiro, formado em direito, Capriles será o presidente mais jovem da história da Venezuela se derrotar Chávez.

As pesquisas dão amplo favoritismo ao presidente. Ele tem de 5 a 25 pontos percentuais de vantagem em relação a Capriles, dependendo do instituto e de sua orientação. Um dos mais sérios, o Datanalisis, aponta 44% das intenções de voto para o presidente, contra 33% para o rival. Mas, segundo analistas, nunca a oposição teve tantas chances de vencer, já que pela primeira vez está unida.

Capriles pretende visitar o Brasil entre o final deste mês e o início de maio para “discutir temas econômicos e conhecer a pacificação das favelas no Rio”. Não dá detalhes da agenda por temer que o governo “sabote” a visita, mas insinua um possível encontro com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Capriles recebeu o Valor na tarde de segunda-feira em seu comitê de campanha, em Caracas. Veja abaixo trechos da entrevista.

Valor: Muitos críticos classificam o presidente Chávez como um ditador, mas haverá eleições presidenciais em outubro. A Venezuela é uma democracia ou uma ditadura?

Se não houvesse o petróleo, não teríamos o que comer, porque não estamos produzindo, importamos tudo.”

Henrique Capriles: Depende de como você quer analisar, do que você entende por democracia e qual valor você dá a alguns elementos que são característicos da democracia. Eu estou aqui, você está me fazendo essa pergunta, eu estou respondendo, e aqui nós temos liberdade para falar. Mas na Venezuela há um poder que dirige os demais. Isso não é próprio do sistema democrático. Nós estamos em pré-campanha, e o governo utiliza descaradamente todos os recursos do Estado para fazer propaganda do seu partido político. Isso não é democrático. Eu não tenho acesso à mídia oficial, que só veicula informação minha para me desqualificar, me desprestigiar, para inventar coisas. Já me chamaram de drogado, homossexual, qualquer coisa que você possa imaginar. É a propaganda que têm os meios públicos frente a um aspirante à Presidência, que também é governador de um dos Estados mais importantes do país.

Valor: A Venezuela atualmente está melhor ou pior do que quando Chávez assumiu?

Capriles: Eu reconheço que este governo deu protagonismo ao tema da luta contra a pobreza, da desigualdade, da terrível situação que vivem muitos venezuelanos. Mas hoje, em 2012, muitos dos indicadores são iguais aos de mais de dez anos atrás. A produção petroleira é menor do que há mais de 30 anos. Se aqui não houvesse petróleo, não teríamos o que comer, porque não estamos produzindo, importamos tudo. Os indicadores de saúde, educação, hoje são iguais aos de há mais de dez anos, em termos de atenção a pessoas, de número de estudantes que estão no primeiro grau. O país tem quase 20 mil mortos [pela violência] por ano. Chávez recebeu o país com 7.000, 8.000 mortos ao ano. O único país, em toda a América, com inflação de dois dígitos é a Venezuela, além do Haiti e da Argentina. Eu não defendo o passado, porque não sou do passado. Eu sou um futurista. O país viveu uma democracia doente, e Chávez foi uma consequência de um modelo que ruiu.

Valor: A doença do presidente pode ter uma influência muito grande no processo eleitoral?

Capriles: Eu não faço especulação sobre um tema em que não existe informação. Nunca se deu um parecer médico e uma informação oficial sobre a situação da saúde do chefe de Estado. Sempre foi a conta-gotas. E eu acredito que isso é intencional, para que haja especulação sobre esse tema. O que eu posso dizer é que quero que Chávez saia candidato e que lhe desejo uma longa vida, porque eu quero que Chávez veja como a Venezuela pode progredir. Eu quero que ele veja como desperdiçou uma oportunidade histórica. Este país poderia ser hoje a potência da América Latina. Porque estamos em uma bonança petroleira. A Venezuela poderia ter diversificado a sua economia, como fez o Brasil.

Valor: O senhor reverteria as nacionalizações feitas por Chávez?

Capriles: É preciso ver caso por caso. Há empresas que nas mãos do Estado podem ser eficientes.

Valor: Por exemplo?

O Brasil entendeu muito bem o papel do governo, mas também entendeu muito bem o papel do setor privado

Capriles: Eletricidade, água, telefonia. Há empresas que podem ser administradas eficientemente e são estratégicas para o país, porque estamos falando de serviços públicos. Mas há outras empresas que não têm nenhum sentido terem sido nacionalizadas, como empresas agrícolas, indústrias de cimento, hotéis.

Valor: O senhor acredita em uma transição tranquila, caso seja eleito? Não teme que o apoio das Forças Armadas a Chávez possa dificultar essa transição?

Capriles: Eu não tenho nenhuma dúvida de que vamos mudar a realidade política na Venezuela. E isso significará também uma mudança nessas mensagens que geram incerteza dentro de algumas instituições venezuelanas, entre elas as Forças Armadas. Algumas declarações de altos oficiais das Forças Armadas [ameaçando não entregar o poder à oposição] são para adular a Chávez, para querer ficar bem com ele. Mas eu tenho a crença de que nós temos Forças Armadas profundamente democráticas, institucionais e apegadas à vontade do povo venezuelano.

Valor: O senhor teme a ocorrência de fraudes nas eleições?

Capriles: Aqui, se eu não cuido de uma mesa de votação, me roubam os votos. Eu preciso ter gente em todas as mesas de votação do país, para que não me roubem os votos. Assim eu consegui ganhar as minhas eleições. Senão, não seria governador, teria deixado minha eleição na mesa de votação.

Valor: O senhor, se eleito, manteria o nome do país como República Bolivariana da Venezuela?

Capriles: Eu não sou um homem de mudar o nome das coisas. As coisas não mudam por mudar o seu nome. Eu sou bolivariano, além disso. Bolívar não é de Chávez nem é de um partido. Bolívar é de todos os venezuelanos. O Estado de Miranda, onde eu sou governador, é Estado Bolivariano de Miranda. Por que eu vou mudar esse nome? Eu sou bolivariano. Todos os venezuelanos são bolivarianos.

Valor: O que é ser bolivariano?

Capriles: É ser seguidor de Bolívar, do pensamento de Bolívar. Ele é um pai da pátria e, portanto, seu pensamento tem uma grande influência no país. Nós devemos a independência a Bolívar. Eu sou venezuelano, bolivariano. Isso é parte do que Chávez faz para mostrar que ele é patriota e os demais somos os que vendem a pátria. Isso é simplesmente um jogo de palavras. Chávez não é mais bolivariano do que eu. Na Venezuela, não é preciso mudar o nome do país, mas o governo.

Valor: Como o senhor vê a política de controle de preços de Chávez. O senhor a mudaria?

Capriles: Não se pode mudar essa política imediatamente. Porque, se você não tem produção no país, e se libera o controle, automaticamente os preços disparam, dispara a inflação. Esses são controles que precisam ser levantados gradualmente, de modo que possamos ter uma economia sadia, onde haja muita produção e muita competição. Assim, teremos controle de inflação, preços acessíveis à população, e esses controles, que no fim das contas são foco de muita corrupção, poderão ser eliminados.

Valor: É possível tornar a Venezuela menos dependente do petróleo? Que outros setores da economia podem crescer?

Capriles: Agricultura, turismo, ferro, ouro, alumínio, mineração, reserva de água, possibilidade de desenvolver a indústria, de ter um bom comércio. A Venezuela tem tudo. É possível estimular esses outros setores gerando confiança, esse é o papel do governo. Dar segurança jurídica para que venham os investimentos estrangeiros, os investimentos nacionais. Aí arranca a diversificação da economia. O problema é que hoje acabaram todas as atividades, e ficou somente o petróleo. Porque o governo não quer diversificar a economia. O governo quer um Estado gigantesco que se financie com o petróleo e, ao final, isso significa que há um controle em suas mãos. Todos dependemos do Estado.

Valor: O senhor é favorável a abrir a PDVSA ao capital privado?

Capriles: Não. A PDVSA deve ser 100% estatal. Você pode fazer alianças com o setor privado, sem que isso signifique que a empresa petroleira não seja do Estado. Isso é estratégico para um país como o nosso.

Valor: O senhor manteria a venda subsidiada de petróleo a Cuba e a outros países do Caribe?

Capriles: O que eu creio é que precisamos ter convênios transparentes, de conhecimento público. Não utilizar o petróleo para comprar lealdade política. O petróleo venezuelano tem que ser para o desenvolvimento do país, dos venezuelanos. Nós podemos fazer convênios com outros países que signifiquem benefício para a Venezuela, relações mais equilibradas. O que eu não estou de acordo é dar de presente o petróleo venezuelano, nem vou dar de presente. Porque a Venezuela tem muitíssimos problemas para resolver. Eu não estou de acordo que, com o petróleo venezuelano, se façam casas em outros países, dando de presente o nosso dinheiro. Eu não estou de acordo.

Valor: Como o senhor administraria os pedidos bilionários de indenizações feitos por empresas que tiveram seus ativos estatizados?

Capriles: É preciso ver os contratos caso a caso.

Valor: O senhor pretende reprivatizar algumas empresas?

Capriles: Não. A palavra “privatização” na Venezuela está, digamos, banalizada, condenada. Aqui, se você diz “privatização”, o governo logo diz: “Ah, vai dar de presente para os gringos”. Não falemos de “privatizações”, porque a palavra não é “privatizar”.

Valor: E qual é a palavra?

Capriles: A palavra é como faremos cada empresa nacionalizada produzir. Nós a faremos produzir com o Estado, com os trabalhadores, convidando a iniciativa privada? Mas, no caso do petróleo, a PDVSA tem que ser do Estado. Essa é a minha opinião.

Valor: Os preços da gasolina na Venezuela são subsidiados, estão muito abaixo do valor de mercado…

Capriles: [interrompendo] É a gasolina mais barata do mundo.

Valor: O senhor pretende reduzir esses subsídios?

Capriles: Chegando ao governo, não podemos nem vamos aumentar a gasolina. É preciso tomar várias decisões antes de abrir esse debate. Quando o venezuelano tiver mais dinheiro no bolso, porque a economia está produzindo, não somente vendendo petróleo, aí eu direi: “Abramos o debate”. E que o venezuelano diga: “Estão nos dando esse petróleo de presente. Governo, aumente o preço da gasolina”. Que seja quase um clamor da população. Não se pode aumentar agora o preço da gasolina, porque o venezuelano vai dizer: “Por que você vai transferir para mim a sua má gestão, a sua forma errada de levar a economia?”.

Valor: Como o senhor vê a entrada da Venezuela como membro pleno no Mercosul [já aprovada por Brasil, Argentina e Uruguai, restando apenas ratificação do Congresso paraguaio]?

Capriles: A primeira coisa que eu faria é reintegrar a Venezuela à CAN, a Comunidade Andina de Nações, que é o eixo natural para a Venezuela. Colômbia, Peru, Equador. Eu acho que esse processo de discussão com o Mercosul tem muito mais força se feito com a CAN. Temos que ver o quanto é benéfico para a Venezuela entrar no Mercosul. Se você me perguntar: “É benéfico?”. Eu diria: “Conversemos com o Mercosul a partir da CAN”. Eu vejo muito mais a Venezuela negociando com o Mercosul dentro da CAN, não somente a Venezuela.

Valor: O senhor não vê a Venezuela como um membro pleno do Mercosul?

Capriles: Eu sou totalmente a favor da integração latino-americana. O Brasil é a sexta economia do planeta. Não posso comparar o Brasil em termos de competição com a Venezuela. Nós ficamos para trás. Eu acho que podemos ter muito mais força, em termos de negociação com o Mercosul, se nos incorporarmos à CAN.

Valor: O que aconteceria com a Alba [...] em um governo Capriles?

Capriles: Eu não quero ser líder do mundo. Eu quero ser líder da Venezuela. Chávez tem uma agenda política em todos os esforços de integração que é promover a luta do Sul contra o Norte.

Valor: Mas a Alba deixaria de existir em seu governo?

Capriles: Não tem por que deixar. Eu estou de acordo com todos os esforços de integração na América Latina, desde que não sejam excludentes. Agora, não concordo em criar instâncias para defender mudanças na Constituição, constituições que são feitas sob medida. Essa é a agenda de Chávez. Essa não é a minha agenda.

Valor: Como seria a relação da Venezuela com os Estados Unidos no seu governo?

Capriles: Como seria com qualquer outro país da região. De respeito, de igual para igual. Eu não sou imperialista, nem creio no imperialismo. Eu acho que nós devemos ter uma boa relação com os Estados Unidos, porque isso nos interessa em termos econômicos. A presidente Dilma está hoje [anteontem] conversando com o presidente Obama. O que vai dizer Chávez desse encontro? Ele vai desqualificá-la por reunir-se com o presidente dos EUA?

Valor: Com quem o senhor pretende se encontrar no Brasil?

Capriles: Há uma agenda que nós estamos preparando, mas ela ainda não está toda pronta. A minha ideia, além de tratar de temas econômicos, é ver a pacificação que houve nas favelas do Rio. Creio que é interessante o que se conseguiu em termos da redução da violência. Já foram feitos alguns contatos, mas eu tenho sido muito reservado, para que o governo da Venezuela não trate de sabotar a minha visita ao Brasil. Com esse governo que nós temos atualmente na Venezuela, isso pode acontecer. Por exemplo, se eu vou ter um encontro com Lula, é possível que Chávez aja para evitar que Lula me receba.

Valor: O senhor já conhece Lula? Pretende encontrá-lo?

Capriles: Eu não conheço o Lula, mas tenho pessoas conhecidas que o conhecem, do Brasil e da Venezuela. Mas nisso eu tenho sido muito reservado, porque senão me sabotam a visita. Eu quero que a visita seja exitosa, porque eu já disse que o modelo brasileiro é um modelo a ser copiado na Venezuela.

Valor: O que o senhor quer dizer com “modelo brasileiro”? Que pontos desse modelo precisam ser copiados na Venezuela?

Capriles: No Brasil e como na Venezuela, o governo tem um papel importante a cumprir no combate à desigualdade social, à pobreza. Eu, em Miranda, tenho o programa “Hambre Zero” [Fome Zero], e eu me inspirei no Bolsa Família. O Brasil entendeu muito bem o papel do governo, mas também entendeu muito bem o papel do setor privado. O Brasil tem um Estado muito poderoso em temas sociais e um setor privado forte, que gera os empregos que o Estado precisa para tirar as pessoas da pobreza. O sucesso que eu vejo no Brasil, à diferença da Venezuela, é que não é um modelo assistencialista. O Brasil foi muito além, atraiu investimentos estrangeiros, gerou empregos no setor privado. O caso venezuelano é o contrário, é o Estado tendo a cada dia mais controle, mais poder, mais empresas, mais empregos. O Brasil decolou, e a Venezuela está estagnada, com uma das inflações mais altas do mundo. Eu digo sempre aos brasileiros. Não é porque há uma boa relação entre Lula e Chávez, ou entre Dilma e Chávez, que a Venezuela está nas mesmas condições que o Brasil.

Valor: Chávez tem uma relação muito próxima com Lula e com setores do PT. O senhor acredita que pode ter uma boa relação com o governo brasileiro petista?

Capriles: Eu estou seguro de que nós vamos manter uma relação melhor com o Brasil do que a que hoje mantém o governo venezuelano com o governo brasileiro. Porque nosso modelo será similar. No Brasil, entendem o que significa a democracia. Minha visão de poder é de não reeleição indefinida [aprovada durante o governo Chávez], a importância das instituições. O Brasil acaba guardando para si [sobre os atos de Chávez] para evitar inconvenientes. E eu sei disso porque tem muita gente que eu conheço lá. O próprio Lula criticou [ao recusar a possibilidade de uma segunda reeleição] o tema de um presidente que queira estar para sempre no poder. Dentro das relações pragmáticas, porque há relações econômicas importantes, muitas vezes fecha-se o bico e há coisas que não se dizem. Mas eu sei o que se pensa no Brasil.

09/04/2012 - 09:55h “Presidente não se sustenta só com luta contra corrupção”

Argelina compara Brasil e Argentina: “Aqui se combina tudo, se concilia tudo, enquanto na Argentina, você vai pro pau”


Por Cristian Klein | VALOR

De São Paulo

A limpeza ética praticada pela presidente Dilma Rousseff, desde que no ano passado começou a demitir ministros acusados de “malfeitos”, associada ao recente desafio de domar aliados rebeldes no Congresso elevaram sua popularidade a nível recorde. Pesquisa CNI/Ibope divulgada na quarta-feira mostrou que a presidente é aprovada por 77% da população. Para a cientista política Argelina Figueiredo, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), no entanto, Dilma Rousseff precisa “ir devagar com o andor” em sua cruzada. “Ela não pode fazer muito depressa”, diz a pesquisadora, especialista no estudo das relações entre Executivo e Legislativo. “Nenhum presidente se garante só com uma bandeira anticorrupção”, constata.

Argelina lembra que no presidencialismo um chefe de governo tem mais condições de se arriscar, mas Dilma precisa ter o cuidado de não entrar em rota de colisão com o Congresso. Deve se dedicar menos à gestão e mais à política. Em sua avaliação, a presidente, apesar de ter provocado uma turbulência com a troca de comando dos líderes do governo na Câmara e no Senado, de fato estaria tendo a cautela necessária – “não está botando para quebrar”.

Por outro lado, pondera Argelina, as ameaças dos parlamentares nem sempre correspondem ao volume do alarido. Eles gritam muito, para ganhar alguma coisa, como já ocorria no governo Fernando Henrique Cardoso. A chantagem existe. Contudo não envolve só cargos e emendas parlamentares, mas também políticas públicas e interesses, como na votação do Código Florestal. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por Argelina Figueiredo ao Valor:

“Política não é necessariamente gogó, como Lula. Não pode gritar, humilhar. Mas não precisa pedir mil licenças”

Valor: Até que ponto o comportamento da presidente Dilma, de moralizar as relações políticas, é jogo para a plateia?

Argelina Figueiredo: Acho que ela está tentando fazer isso [moralizar] e está dizendo que vai fazer. Mas ela não pode fazer muito depressa. Porque se não vai ter a colisão. E colisão não é bom para nenhum dos dois lados. Se estão em jogo benefícios, emenda parlamentar, cargos etc, também estão em jogo políticas. Você não pode deixar de ver. A base da chantagem é: eu não vou votar com essa política. Vai dizer que o Código Florestal é pura chantagem e que não tem interesse nenhum?

Valor: O PAC tenta aplacar os problemas de infraestrutura no país, mas seu ritmo é muito lento. Essa poderia ser uma marca do governo Dilma, depois da conquista da estabilidade econômica com Fernando Henrique Cardoso e do avanço social com Lula. Diante do cenário de crise, Dilma encontrou na bandeira da moralização política uma saída para se distinguir de antecessores?

Argelina: Pode ser que ela esteja procurando o seu lugar. A erradicação da miséria é um aprofundamento da agenda do Lula e para nenhum presidente seria legal ser lembrado por ter consolidado um governo anterior. Pode vir a dar certo. Isso tem apelo grande para a classe média.

Valor: Que conselhos você daria para a Dilma?

Argelina: Devagar com o andor. E que é superimportante gestão pública, mas a presidenta não precisa estar diretamente envolvida na questão, que ela ache outra Dilma. O Abelardo Jurema [(1914-1999) ex-deputado federal, ex-senador e ex-ministro da Justiça de João Goulart] disse que o que faltou ao Jango foi um Jango no Ministério do Trabalho. Porque o [presidente] Juscelino [Kubitschek] teve maior estabilidade porque tinha o Jango no Ministério do Trabalho, por exemplo quando foi tentar implementar o Plano Trienal. Ele precisava ter um Jango que lidasse com o movimento sindical, de tal forma que ele não ficasse radicalizado. Então, a Dilma que arranje uma Dilma, que ela não vá para a gestão e fique na política.

Valor: Mas ela tem gosto ou habilidade?

Argelina: Política não é necessariamente gogó, que nem o Lula. Não pode gritar, nem humilhar as pessoas. Mas não precisa pedir mil licenças. Tem que ter uma atitude política. Saber que com político você tem que lidar politicamente e não administrativamente. Exigir eficiência é bom, e tem que ser feito, é parte da tarefa da presidente. Outra coisa é que nenhum presidente se garante só com uma bandeira anticorrupção. Tem que ter um apelo político.

Valor: Ela parece confiar essencialmente no apoio da opinião pública. É suficiente?

Argelina: Isso é pouco. Um presidente não se sustenta apenas com a luta contra a corrupção. Nem a oposição conseguiu se sustentar. Eu tenho a opinião – diferentemente das pessoas, naquele momento do mensalão e na eleição do Lula em 2006, que diziam que o brasileiro não se preocupava com corrupção – de que esta não é uma boa avaliação daquele período. Não é tolerância com corrupção isso. É simplesmente que corrupção não é a primeira preocupação. Mas você tinha combate. Nunca se viu tanta gente de classe alta ser presa como no primeiro governo Lula, e no segundo também. A Polícia Federal nunca teve liberdade de ação de prender quem ela achasse que devesse. A tolerância do Judiciário com a classe mais alta é conhecida da população. Por isso, a denúncia não pegou. Com o [ex-presidente Fernando] Collor, tanto o Congresso quanto a população se rebelaram.

Valor: De que modo o impeachment do Collor, em 1992, incentivou os presidentes seguintes a formarem sempre governos supermajoritários?

“[A hegemonia do partido presidencial] Não foi diferente no [governo] Fernando Henrique, só era mais sutil”

Argelina: O presidencialismo de coalizão é uma prática antiga do país. E as coalizões supermajoritárias já existiam na República de 1946. A média de cadeiras da base de apoio era maior do que hoje – e naquela época não havia reforma constitucional. Esta supermaioria dá ao governo flexibilidade. O governo ganha [a votação] e permite aos partidos que eles atendam às suas necessidades, como a do voto pessoal, de alguns parlamentares.

Valor: O PDT votou contra o governo em projetos que são muito caros à sua base eleitoral, parte dela ligada ao sindicalismo, como no salário mínimo e na Funpresp. Este seria um exemplo de que a turbulência na base aliada é mais complexa do que a demanda por cargos?

Argelina: Lógico. E isso tudo é confundido com chantagem à presidente. Na verdade, o partido tem a política geral, que seus integrantes apoiam, e o deputado tem que ter uma certa liberdade. E isso é um aspecto que explica por que há uma coalizão tão grande no Brasil. Há uma diferença entre presidencialismo e parlamentarismo. No presidencialismo, como você sabe que a vitória numa votação não é tão importante em termos de possibilidade de um voto de não confiança, o presidente pode se arriscar um pouco mais. Se o presidente tem uma coalizão relativamente grande, ele pode permitir que certos deputados votem contra o governo, porque eles precisam manter o nome em suas bases eleitorais. O Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), que é um cara com base nos aposentados, não pode votar contra aposentado. Agora, isso está relacionado, claro, a quanto o deputado depende ou não do partido para ser eleito. Um deputado que não tem muito voto pessoal não pode fazer isso. Vai ter que ir contra a base dele.

Valor: É o jeito de lidar com um sistema no qual os parlamentares devem seu mandato tanto ao voto pessoal quanto ao partido?

Argelina: A grande característica no conjunto de instituições que se tem no Brasil, principalmente quanto ao sistema eleitoral, sempre defendo isso, é que você pode combinar as duas coisas. A rigor, qualquer coisa que se compare Brasil com Argentina, por exemplo, aqui se combina tudo, se concilia tudo, enquanto na Argentina, você vai pro pau. Em tudo. No Brasil, você mudou de monarquia para República e se mantiveram os membros do Judiciário. Na Argentina, dentro de um governo, há uma mudança radical.

Valor: É uma vantagem para o Brasil?

Argelina: Eu acho que sim. A política está no meio. O centro é o grande fator de estabilidade. Por que você teve a queda [do regime democrático] em 1964? O centro se rompeu. Você teve uma radicalização que foi o principal fator que levou ao golpe. Se você mantém o centro, sem mudar a política, não é bom, óbvio. Mas mudando… Acho que o que as pessoas não veem no Brasil é isso: o quanto o Brasil mudou de 1989 ou de 1985 para cá, em todos os indicadores.

Valor: A política contribuiu?

Argelina: Só pode ter contribuído. Pelo menos não foi obstáculo, como todo mundo dizia. As instituições políticas eram obstáculo para o combate à inflação; para o poder excessivo e a gastança dos Estados; para a distribuição de renda. Foi se derrubando, um a um, tudo. A educação melhorou, quer dizer, piorou porque houve uma inclusão total. O Brasil ficou de 1960 até 1980 praticamente com a mesma porcentagem de alunos em idade escolar no ensino médio. Quem começou a mudar foi o governo Fernando Henrique e, depois, se ampliou muito.

Valor: Seria difícil governar sem o PMDB?

Argelina: Por que o PMDB é um partido fundamental para qualquer governo de coalizão? Exatamente por ele ser um partido de centro e aceitar governos tanto de direita quanto de esquerda. É assim no mundo todo.

Valor: Isso é funcional para o sistema?

Argelina: É funcional e importante para a governabilidade. Todo governo entra querendo pegar o apoio do partido de centro. As pessoas não gostam de falar de ideologia no Brasil. E esse é um ponto que eu queria introduzir. Tem ideologia no sentido de que os partidos se distinguem pelas políticas que eles querem implementar, que eles falam para os seus eleitores. Porque o partido, por mais fisiológico que ele seja, na hora de se eleger ele não vai dizer o que um deputado disse: “Me eleja porque eu quero me locupletar”. O cara pode fazer isso, mas o partido não pode. Precisa dizer algo que passe pelo eleitorado. Ele cria uma reputação em torno de algumas questões.

Valor: E qual é a do PMDB?

Argelina: O PMDB é o partido que tem garantido de uma maneira geral uma situação melhor, por exemplo, de salário mínimo, política social. É o partido da redemocratização que quer melhorar a situação do povo brasileiro. Ele passa isso. E ele faz, se você analisar o que eles apoiam dentro do Orçamento. Eles apoiam distribuição de recursos automáticos. O que todos os economistas desde o governo Collor vêm dizendo é que não se pode engessar o Orçamento. E o Congresso engessa. A situação econômica engessa de um lado e o Congresso de outro, garantindo dinheiro para políticas sociais, e para melhora do salário mínimo também. E com isso – e este é o ponto mais importante – quando o Congresso decide que o salário mínimo vai ser aumentado, ele decide depois que o governo manda o Orçamento e, portanto, ele tem que fazer um ajuste nas despesas de custeio, de pessoal, de Previdência, tudo isso é garantido uma parte constitucionalmente e outra parte legalmente. Quando ele faz isso, de onde sai, ou seja, onde ele perde? Em investimento, nas emendas parlamentares, porque o governo historicamente sempre executou menos as emendas individuais. Então você não acha que ele vai fazer isso [dar aumento de salário, por exemplo] sabendo que vai perder dinheiro? Sabe que está perdendo. E o PMDB sempre participou da coalizão que apoiou isso.

Valor: Mas a retenção das emendas individuais pelo Executivo sempre aparece como um dos motivos principais da insatisfação da base no Congresso.

Argelina: A base tem que falar muito mais, tem que expressar muito mais insatisfação para ter um pouco. Então, uma parte dessa insatisfação é versão. Uma coisa é fato, outra coisa é versão. Os analistas e cientistas políticos trabalham muito com versão. Eles [os parlamentares] gritam muito, e a gente não pode tomar essa gritaria pelo seu valor à primeira vista. Ela é maior. Isso já acontecia com Fernando Henrique.

Valor: Não há insatisfação?

Argelina: O que eu acho que a Dilma está fazendo agora? Botando limite. Ela tem que tomar cuidado. Como você disse, se ela estabelecer uma espécie de presidencialismo de colisão, vai por água abaixo. E uma outra coisa é que não há presidente gestor. O presidente é político. Ele tem que delegar a gestão, dar as linhas gerais, delegar, cobrar etc, mas tem que ter uma atuação política.

Valor: Mas Dilma não está rebaixando muito o caráter político da Presidência?

Argelina: Eu achava que com a saída dos dois líderes [do governo, na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), e no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR)], daquele jeito, ela estaria [rebaixando], como se dissesse: “Vou botar para quebrar”. Mas não está parecendo que ela vai botar para quebrar. O que ela mostrou foi: “Aqui não dá para o PMDB fazer chantagem deste jeito”. Ela vai enfrentar daqui a pouco o Jucá na Comissão de Orçamento, mas vai enfrentar de outra maneira. Vai ter tempo dele abaixar um pouco a crista. Dizem que ela é centralizadora, que quer saber de tudo, mas de toda maneira parece que agora ela está botando um limite aí, no comportamento político. O [novo líder do governo no Senado] Eduardo Braga (PMDB-AM), em uma entrevista, foi muito político ao dizer que o PMDB é um partido importante mas que está na hora de inaugurar novas práticas para o país. Nesse ponto, ele tem uma certa razão. O país está num crescendo, consolidando práticas políticas, e agora está na hora, porque a presidente tem o apoio da sociedade para isso.

Valor: Por que Lula não fez isso?

Argelina: O Lula abriu o caminho. A minha impressão é que ele combateu a corrupção por outro canal, entrou por uma coisa mais institucionalizada: Controladoria-Geral da União (CGU), Polícia Federal… A classe política brasileira apresentou um desafio ao Lula com o mensalão. Não se trata de falar se houve ou não houve. Óbvio que o partido não precisava comprar o presidente da Câmara que era do PT [João Paulo Cunha] para votar com o partido. Mas ele ]Lula] viu o que teria que enfrentar. O que os partidos fizeram? Vamos abaixar a crista do PT. E isso tem a ver com ideologia, para quem você quer governar.

Valor: Mas essa é uma ideia inversa à difundida: a de que foi o PT que procurou os partidos e parlamentares para comprar apoio.

Argelina: Ele fez isso, mas você acha que o PSDB não fez? Só que o PSDB não ameaçou os partidos. Não ameaçou nada. Eu sempre dou o exemplo do PMDB no Ministério dos Transportes, que foi um feudo controlado durante os oito anos do governo Fernando Henrique. E controlou a sub-relatoria da comissão de Transportes. O dinheiro de transportes, que era um terço dos investimentos do Brasil, foi controlado pelo PMDB de cima a baixo e a gente viu como as estradas acabaram no governo Fernando Henrique. Elas eram nada, continuam ruins, mas eram muito piores.

Valor: Além de cargos, o PMDB reivindica ao PT maior participação nas tomadas de decisão do governo. É natural que o partido presidencial ou do primeiro-ministro centralize o comando ou a queixa procede?

Argelina: A proporcionalidade entre ministério e número de cadeiras é bastante seguida nos governos de coalizão parlamentaristas. No presidencialismo, não é. Por causa da eleição direta no presidente, ele tende a ter esse papel mais importante da agenda do governo. Isso não foi diferente no Fernando Henrique, só que era feito de uma maneira mais sutil. Todo mundo falava e tem até um artigo da [socióloga e professora da FGV e da USP] Maria Rita Loureiro que mostra que a forma de Fernando Henrique controlar os ministérios era botar secretário-executivo do PSDB.

Valor: É uma estratégia semelhante à utilizada pela Dilma hoje…

Argelina: Pois é, não é uma anomalia. E era considerada uma coisa positiva porque dessa maneira o presidente conseguia uma unidade maior na política.

Valor: As emendas parlamentares deveriam ser impositivas?

Argelina: Eu sou a favor de ser obrigatória. E eu sempre digo que é um canal interessante de informação para o governo. Como o parlamentar está em contato com suas bases, ele sabe o que é necessário. Não vai dar uma coisa inútil. É um modo eficiente de distribuir recursos pelo qual o governo detém informação. De outra maneira, você teria que fazer um estudo muito detalhado da situação no país inteiro, o que representaria um gasto enorme, e seria algo meio tecnocrático. Talvez pudesse ser feito pelo deputado estadual, e não o federal.

08/04/2012 - 18:33h Perú: “Oposición al Gasoducto del Sur es una manifestación más del centralismo”

Reynaldo Roberts Billig. Presidente del Foro Sur 21 y empresario del sector automotriz.

Sabado, 07 de abril de 2012

Cecilia Mendoza – La República

Arequipa

Reynaldo Roberts, empresario arequipeño, aclara las dudas sobre la demanda interna de gas en el sur y rebate las –no pocas– críticas en torno al gasoducto para el sur.

¿Qué opinión le merecen las críticas a la recuperación de parte del Lote 88? ¿Son justificadas?

Es una manifestación más del centralismo limeño. Esto es una ceguera porque esta gente cree que Lima es el Perú y cualquier cosa que les haga una pequeña mella, sea control económico o político, se oponen, y eso es lo que estamos viendo en Correo y El Comercio. Humala se ha propuesto llevar el desarrollo al Perú. Y el gas es la herramienta ideal para lograrlo.


Es experto en autos. ¿Es verdad que en la altura los autos no funcionan bien con gas natural?

En la altura ningún motor a gas o a petróleo tiene el mismo rendimiento que en la costa porque el aire tiene menos oxígeno.

Pero esta verdad elemental podría servir para frenar el plan para traer el gas.

No, en Arequipa ya hay vehículos que funcionan con gas, sea propano-butano (GLP). La altura no es un impedimento.

También se dice que en el sur no hay “muchas industrias” que justifiquen la llegada del gasoducto.

No es así. Lo que pasa es que quienes tienen la mamadera quieren quedarse con ella. Y si faltan industrias es precisamente porque falta energía barata. Ya se mudaron muchas industrias a Lima porque allí es más económico el gas. Un ejemplo: hay una empresa deshidratadora en Lima que le costaría un millón de dólares más al año sobrevivir en Arequipa, precisamente por la energía. Quien quiera hacer una industria analiza costos y mercado.

¿Cuánto daño hizo el centralismo en el sur?

Lima tiene nueve millones de habitantes. Y la segunda ciudad del Perú ni siquiera tiene el 10% de esa población; muy pocos países en el mundo tienen esa diferencia. Yo observo que en Lima no se quiere soltar el poder. Pero el centralismo no solo hace daño a las provincias sino a Lima misma porque tiene más demanda de agua, de transporte, y estos servicios cuestan más hacer.


¿Cómo se desarrollaría el sur con la llegada del gas natural?

Existen estudios que demuestran que hay demanda para el gas y que muchas industrias podrían desarrollarse. Cementos Yura podría usarlo, las generadoras de electricidad, las plantas del parque industrial de Arequipa. También la fundición de Ilo; allí se consume carbón y puede cambiar al gas. Y adicionalmente está la petroquímica, sea en Ilo o Matarani.

Eso rebate la idea de que no existe demanda en el sur.

Pongamos el hipotético caso de que no haya demanda, hay que crear la actividad para descentralizar el país; se la pasan diciendo: “Pero Arequipa no consume gas”, claro que no, porque no lo tenemos.

¿Cuál es la expectativa de los empresarios?

La Cámara de Comercio de Arequipa dice: “Por fin llega el gas”. Creemos que esto podría fortalecer las empresas. Recuérdese que hace años sufrimos el éxodo de empresas a Lima por falta de energía barata.

¿Vale decir que por culpa de la energía barata en Lima las empresas abandonaron Arequipa?

Fue un factor. El otro es el mercado.


Lima tiene el gas desde hace 8 años. ¿Considera justo que Petroperú financie parte del proyecto?

Es un tema de equidad. Lima disfruta del gas de Camisea desde el 2004 y esto fue posible porque todos los peruanos, incluidos los habitantes de las otras regiones, aportamos el dinero que hizo posible construir el gasoducto que abastece la capital. Esto fue mediante una aporte mensual en nuestros recibos de luz, bajo el concepto de Garantía de Red Principal (GRP).

¿Cuál debe ser la posición de las autoridades del sur?

Los presidentes regionales de la Macro Región Sur (Arequipa, Puno, Cusco, Tacna , Moquegua y Madre de Dios) deben unirse y hacer un frente común y respaldar al presidente. Segundo, implementar el proyecto. Asegurarse de que este gasoducto sea para el sur hasta que encuentren otro pozo para el norte.

“El contrato fue la mayor estafa”


¿El origen del problema del gas para los peruanos fue el contrato de exportación?

Ese contrato finiquitado en el gobierno de Alejandro Toledo fue la mayor estafa al país desde el contrato Dreyffus. El negociante del lado peruano fue Pedro Pablo Kuczynski, quien antes trabajó para Hunt Oil, la empresa exportadora. Fue juez y parte. El resultado fue que en boca de pozo se pagó una miseria (centavos de dólar) por millón de BTU.

¿Qué hizo Humala, volver atrás?

En parte. El mapa nacional del gas tiene los dos lotes. El presidente ha recuperado el gas garantía del Lote 88 (2,5 TCFs), que servía de respaldo al proyecto de exportación.

¿Lo ve como una oportunidad?

Así es. Nosotros hemos acuñado una frase: “Por donde gas pasa, desarrollo queda”.

08/04/2012 - 18:19h Perú: “La brecha entre lo urbano y lo rural se ha acrecentado”

Carolina Trivelli

Domingo, 08 de abril de 2012

Carolina Trivelli, precisa aquí las metas que esperan alcanzar en la reducción de la pobreza extrema, y afirma que actualmente –a pesar del crecimiento económico– 6 de cada 10 personas en la sierra rural son pobres.
Carolina Trivelli, precisa aquí las metas que esperan alcanzar en la reducción de la pobreza extrema, y afirma que actualmente –a pesar del crecimiento económico– 6 de cada 10 personas en la sierra rural son pobres.


La titular del Ministerio de Desarrollo e Inclusión Social (MIDIS), Carolina Trivelli, precisa aquí las metas que esperan alcanzar en la reducción de la pobreza extrema, y afirma que actualmente –a pesar del crecimiento económico– 6 de cada 10 personas en la sierra rural son pobres. En el plano personal considera que conoce bien el sector: es especialista en temas como desarrollo rural, inclusión y superación de la pobreza. Su lugar en el gabinete –dice– está del lado de los ‘técnicos’.

Por Raúl Mendoza – La República

Carolina Trivelli no ha militado en ningún partido. No es de izquierda, pero le gusta sentirse progresista. No tiene militancia feminista, pero adhiere a la agenda de equidad de género. Algunos medios la han tildado de ‘caviar’, pero eso la tiene sin cuidado. “Digamos que soy una técnica con posiciones de centro”, dice. Todavía se levanta a las seis de la mañana para preparar a sus hijos y enviarlos al colegio,

–¿Dar el salto del mundo académico a la gestión pública fue un cambio muy grande?

–Me costó porque no estaba buscando salir del mundo académico. Me interesa la investigación y estaba trabajando en un par de iniciativas interesantes. Pero la oportunidad era única: un ministerio nuevo, en un tema crucial y donde el énfasis debía ser el mundo rural, que es a lo que he dedicado toda mi vida. No tenía experiencia en gestión pública. Por eso fue crucial la elección de mis dos viceministros (Juan Pablo Silva y Jorge Arrunátegui). Eso me permitió ganar seguridad. Tienen una larga trayectoria.

–Y ahora que está en el aparato publico, ¿le parece que es muy burocrático?

–Es difícil. El aparato público está pensado para cumplir con procedimientos que aseguren el seguimiento de cada decisión. Eso hace las cosas lentas. Hay un tema de plazos de procedimientos y restricciones, pero son las reglas del juego.

–¿Le han pedido incluir a personas del Partido Nacionalista en el ministerio?

–Nosotros recibimos un encargo del gobierno: buscar a la mejor gente para lograr que este ministerio se forme rápido, con un perfil técnico y con las mejores capacidades para la tarea encomendada. No hemos recibido presiones. Eso no quiere decir que no queremos a nadie del partido, sino que queremos a los mejores.

–Se dijo que tenía nacionalidad chilena…

–Mi padre es chileno, estudié en Chile. Nací en la clínica Americana, en Lima.

–¿Cambió su vida con el ministerio?

–Mucho. Trabajas con una demanda de tiempo muy exigente. Mis dos hijos pagan la factura de mi paso por el ministerio. A diferencia del mundo privado, uno aquí tiene poco control de sus horarios.

Lucha contra la pobreza rural

En una pared de la oficina de la ministra Carolina Trivelli hay fotografías de niños y mujeres pobres de zonas andinas, el grupo poblacional mayoritario al cual van dirigidos los esfuerzos de los programas que el MIDIS dirige. Cuando le plantearon ser la titular de la cartera no lo pensó mucho. Como investigadora del Instituto de Estudios Peruanos (IEP) ha publicado libros sobre pobreza y microfinanzas rurales. Aceptó porque era un ministerio nuevo y porque, explica, “era hora de hacer lo que he estado recomendando por años”.

–¿Existe un padrón de beneficiarios de los programas sociales, para tener un mejor control de la ayuda que otorga el gobierno?

–Es una necesidad urgente y estamos en proceso de crearlo. Algunos programas tenían un padrón y otros no lo tenían muy detallado. Estamos trabajando en un único padrón de usuarios, que estará listo en junio. Ahí estará toda la información de los cinco programas que hemos recibido. Después hay que hacer una depuración y cruzar con información de programas como el SIS y otros complementarios.

–Los programas sociales tienen metas. ¿Me puede mencionar una cifra que espera alcanzar para el 2013, por ejemplo?

–Hay metas de expansión que están en el documento de los 100 días que presentamos hace un tiempo. El programa Juntos se comprometió a llegar este año a más de 700 mil hogares en todos los distritos que han sido priorizados. En Pensión 65 debemos llegar a 150 mil adultos mayores a finales de 2012 y en este último operativo de pago ya hemos llegado a la mitad de esa cifra. El próximo año podrías preguntarme si cumplimos o no.

–Hay otras metas para el 2016…

–Las metas al 2016 son agresivas: la reducción de la pobreza extrema y de la brecha de pobreza. En pobreza extrema el promedio nacional indica que estamos en 7,9% y queremos reducirla a 5% en el 2016. Pero en la población rural la pobreza extrema es del 38,2% y queremos que baje a 20% en el 2016. La desnutrición crónica en este grupo es de 51% y queremos que baje a 24% en el 2016.

–Pero el Perú creció en la década anterior, ¿por qué esas cifras se mantienen?

–Con la nueva metodología para la medición de la pobreza es evidente que entre 2004 y 2010 hubo una gran reducción de pobreza, pero básicamente en zonas urbanas. Las nuevas cifras dicen que en la sierra rural la pobreza en el 2004 era de 87%, es decir, 9 de cada 10 eran pobres. Hoy día todavía 6 de cada 10 son pobres. Sigue siendo altísimo. Lo que ha pasado es que la brecha entre lo urbano y lo rural se ha acrecentado.

–¿Cómo evitar el peligro de que la gente beneficiaria de programas sociales se acostumbre a la ayuda o se paralice?

–No me imagino a una familia acostumbrada a vivir con 100 soles al mes, que deja de trabajar, de esforzarse, de soñar con salir adelante. Lo segundo es que junto con los programas de alivio, una tarea del MIDIS es atar estos programas con otros orientados a la promoción del desarrollo.

Nadine y Ollanta

–En el tema de los programas sociales, a veces la presencia de las primeras damas es recurrente. ¿Pasa eso con la primera dama Nadine Heredia?

–Ella es la esposa del Presidente y lleva adelante un conjunto de acciones sociales. Pero hay que diferenciar lo que es una acción social puntual, de atención a una emergencia o el respaldo a un programa, versus el manejo de una política social que es lo que le toca dirigir al MIDIS.

–A usted la ha acompañado en algunas actividades.

–Sí, claro. Tenemos una buena relación, a través del Presidente. Ella tiene un interés genuino en que aseguremos las mismas oportunidades a todos los niños del Perú. Tiene montones de ideas. Que nos acompañe en alguna inauguración ayuda a realzar nuestros programas, pero no tiene una injerencia directa en el ministerio.

–¿Es positiva la presencia mediática de Nadine, a veces mayor a la del Presidente?

–Ella tiene la presencia que tiene porque es la esposa del Presidente. Lo acompaña en eventos públicos y ese es su rol.

–Considerando que los programas sociales son un pilar importante en el programa del gobierno ¿Se reúne mucho con el Presidente?

–El Presidente tiene una agenda clara de lo que espera de cada sector y debemos responder a esa exigencia. Pero también sabe escuchar, respeta nuestra posición como técnicos –que es mi caso– para definir cómo alcanzar las metas que plantea. Tenemos reuniones semanales con él.

–¿Qué temas han tratado últimamente?

–Por ejemplo, la reestructuración de algún programa. Estamos debatiendo cómo sumar a Pensión 65 servicios como la provisión de salud. También me ha pedido conformar una comisión multisectorial para atacar la pobreza rural.

Perfil

Nombre: Carolina Trivelli Ávila.
Nacimiento: Lima, 1968. Tiene dos hijos de 11 y 13 años.
Carrera: Bachiller en Ciencias Sociales con mención en Economía por la Pontificia Universidad Católica del Perú. Máster en Economía Agraria por la Pennsylvania State University.
Cargos: Ha sido consultora del BID, Banco Mundial, FIDA y FAO, y miembro del Consejo Directivo del Instituto de Estudios Peruanos.

02/04/2012 - 10:45h Perú: “Objetivo es masificar consumo interno del gas natural”

PRESIDENTE DEL DIRECTORIO DE PETROPERÚ

En entrevista exclusiva con LA PRIMERA, el presidente del directorio de PetroPerú, Humberto Campodónico, señaló que el objetivo principal de su representada radica en sacar adelante la masificación del consumo del Gas Natural, especialmente en los pueblos del sur andino. De otro lado, anunció que en mayo, a más tardar, se definirá la participación accionaria de PetroPerú en el gasoducto surandino, en asociación con la compañía Kuntur luego que la Corporación Andina de Fomento (CAF) culmine su Due Diligence (estudio técnico ambiental). Tras minimizar las recientes críticas de algunos sectores vinculados a grupos lobistas y a la derecha económica, Campodónico replicó que lo más relevante es una eficiente gestión de una empresa pública.

—¿Cuál es la importancia y el papel que desempeñará PetroPerú en esta recuperación para el consumo interno del lote 88, la construcción del gasoducto surandino y el desarrollo de la industria petroquímica?

—Bueno, la recuperación del lote 88, es una gestión que la ha realizado directamente el Ministerio de energía y Minas. En PetroPerú no tuvimos incidencia en la negociación. Pero saludamos lo que se ha hecho y nos parece que es muy beneficioso para el país. Es una cuestión que nosotros queremos destacar. En cuanto lo segundo, vamos a participar en la construcción del gasoducto surandino, en una proporción que está por determinarse…

—¿Qué es lo que falta por determinar?

—Vamos a participar con Kuntur (la compañía a la que se le asignó la construcción del gasoducto). Lo que sucede es que estamos a la espera de que la Corporación Andina de Fomento (CAF) culmine su Due Diligence (estudio ambiental que busca definir cual es el monto que se necesitará para cubrir los riesgos ambientales), por el que está analizando los técnicos y económicos del proyecto, a fin de determinar una evaluación económica de gasoducto y, a partir de allí, su costo (definitivo).

—¿Y cuándo se determinará la participación de la petrolera estatal?

—La Ley 29817, de diciembre de 2011, señala que el Ministerio de Economía y Finanzas (MEF) y la Corporación Financiera de Desarrollo (Cofide) serán las entidades que estructurarán la participación de PetroPerú en el gasoducto, lo cuál podría ocurrir en mayo, luego que la CAF culmine su trabajo y entregue su informe respectivo, que estimamos será a finales de abril.

—De otro lado, ¿cuál es su posición sobre las recientes críticas de algunos sectores vinculados a grupos lobistas y a la derecha económica, como ha sido el caso de la economista Cecilia Blume, titular de su consultora C & B Consult, así como el extitular de Perupetro, Daniel Saba, a la participación de PetroPerú en la construcción del gasoducto y del proyecto energético?

—Nosotros pensamos que así como hay críticos, también hay personajes vinculados a estos mismos sectores que están a favor de la construcción del gasoducto. Está, por ejemplo, Pedro Pablo Kuczysnki, quien ha dicho que es una obra importante. Están también los exministros de energía, Juan Incháustegui y Carlos Herrera Descalzi, quienes opinan que es una infraestructura muy buena y vital. Además, otras empresas estatales similares a PetroPerú operan en sus respectivos países y en el Perú. Tenemos determinado que la cuestión de la propiedad no es lo más relevante sino la gestión de la empresa (pública).

—Y eso implica…

—Nosotros lo que queremos es sacar adelante los objetivos fundamentales de masificar el consumo del Gas Natural, especialmente entre el pueblo cusqueño y los del sur andino. Ellos van a tener acceso a este gas, así como ya lo tiene (un pequeño sector de) Lima. Y, en esa línea estamos trabajando con mucha tranquilidad y tenacidad así con todos los cuidados técnicos.

—En todo caso, ¿queda claro que el papel de PetroPerú será clave en la masificación del Gas Natural y la industrialización de sus derivados será importante para el desarrollo del país, específicamente del tradicionalmente empobrecido sur andino?

—Sí, claro. Participaremos en este proyecto del gasoducto. Vamos a ser accionistas con Kuntur, en un porcentaje que todavía tiene que definirse. Y, a partir de allí, trataremos de establecer todo lo que sea necesario para que la masificación del gas se concrete lo más pronto posible; para que exista mayor Gas Natural vehicular, específicamente en las ciudades del sur, como Cusco, Arequipa, Juliaca, entre otras. La liberación del lote 88 nos permitirá liberarnos de la dependencia del precio del petróleo, como combustible, con múltiples beneficios para el sur andino, que necesita inversión y energía.

—Entonces, en ese contexto el fortalecimiento de PetroPerú, la liberación del lote 88 para el consumo interno y la construcción del gasoducto surandino constituiría avanzar en el cumplimiento de la promesa electoral del presidente Ollanta Humala de alcanzar la soberanía energética del Perú.

—Sí. En su campaña, se planteó claramente que el lote 88 debía estar dedicado exclusivamente al mercado interno. Y a los que afirman que no ha habido recuperación de ese yacimiento porque nunca se exportó nada, les decimos que eso es parcialmente cierto porque los 2,5 trillones de pies cúbicos de sus reservas no se podían usar, ni contratar sobre ellos, para el consumo interno y desarrollar la industria petroquímica. Pero ahora ya podemos disfrutar de todo eso para el mercado nacional, y buena parte de eso va a ser para el gasoducto surandino.

02/04/2012 - 09:01h América Latina vira único refúgio para investidores


A analista de mercados emergentes diz que, quem quiser bons retornos, terá de focar as aplicações em países como o Brasil

02 de abril de 2012

FÁBIO ALVES – O Estado de S.Paulo

A recuperação da economia dos Estados Unidos ainda permanece frágil, a crise na zona do euro está longe do fim e exigirá novos pacotes de socorros financeiros para Portugal e Irlanda, além de a China ter se tornado mais um fator de risco para o desempenho das bolsas, moedas e títulos da dívida de países emergentes. Esse cenário mais sóbrio para 2012 é de Joyce Chang, diretora-gerente e chefe de pesquisa para mercados emergentes e de crédito global do banco de investimentos JPMorgan.

Desde 1998 eleita pela revista americana Institutional Investor como a melhor analista soberana para mercados emergentes, Chang considera que como o ritmo de crescimento dos países desenvolvidos neste ano será ainda bastante “anêmico”, o único refúgio dos investidores em busca de maior retorno é a América Latina.

Em entrevista ao Estado, Chang, que supervisiona 170 analistas em 12 países, acredita que os bancos centrais do G-4, em especial o Federal Reserve (Fed) e o Banco Central Europeu (BCE), deverão manter o dinheiro barato por mais tempo. Até agora, esses bancos já injetaram US$ 6 trilhões nos mercados mundiais, alimentando a forte alta das ações e de outros ativos de mercados emergentes vista no início deste ano. Para o Brasil, que vem atraindo esse enorme fluxo de capital, Chang acredita que novas medidas intervencionistas estão a caminho para segurar a apreciação do real. A seguir, trechos da entrevista:

Os ativos de maior risco dos mercados emergentes, como moedas, ações e títulos de dívida, conseguirão ter desempenho melhor neste ano em relação a 2011?

Já vimos uma recuperação em todos os mercados neste ano, liderada pelas ações de empresas de países emergentes, que estão com um desempenho bastante forte no ano depois de terem registrado um retorno negativo em 2011. A dívida em moedas locais acumula uma alta de dois dígitos neste ano e o mercado de crédito soberano e corporativo está subindo 5%. Então, a recuperação dos mercados até agora já superou o desempenho de todo o ano de 2011. Acredito que o ritmo (de valorização dos papéis) vai diminuir a partir de agora, embora os preços dos ativos de mercados emergentes ainda estejam em níveis atrativos.

Quais os fatores que influenciarão os preços desses ativos até o final do ano?

Acho que a diferença entre a taxa de retorno (yield) dos mercados emergentes em relação a dos mercados desenvolvidos é ainda atrativa. Estamos também projetando um crescimento econômico dos mercados emergentes a um ritmo quatro vezes maior do que a dos mercados desenvolvidos neste ano. Além disso, os exportadores de commodities, como o Brasil, estão se beneficiando de níveis elevados para os preços das commodities.

E quais os principais riscos para esse cenário em 2012?

A volatilidade tem sido baixa neste ano, então há um risco para todos os mercados de um retorno da volatilidade. Há ainda a possibilidade de desaceleração da China, assim como há riscos para o crescimento na Europa. Em alguns países, a inflação é uma preocupação, embora esteja num patamar mais baixo de uma forma geral.

Quão séria é a ameaça de desaceleração econômica na China?

Nossa estimativa é que a China responda por 50% da contribuição para o crescimento da economia mundial neste ano, em grande parte porque os países desenvolvidos estão crescendo a um ritmo bastante anêmico. Os mercados desenvolvidos deverão crescer apenas 1,2% neste ano. A economia chinesa irá se desacelerar significativamente. Estamos projetando um crescimento de 8,4% neste ano. Nos anos que precederam a crise, a China estava crescendo ao redor de 11,5%. Portanto, 8,5% de crescimento não é ainda um pouso forçado, mas é uma desaceleração significativa, a qual os chineses desejavam e para qual haviam se programado. Há dois riscos nisso: o arrefecimento do mercado imobiliário e a diminuição no ritmo das exportações. A queda nas exportações chinesas já vai afetar negativamente o crescimento do PIB chinês em um ponto porcentual neste ano.

Diante dessa perspectiva para economia global, como a América Latina será afetada?

A América Latina, na realidade, é a única região para a qual prevemos um crescimento próximo do potencial para este ano, ao redor de 3,6%. Isso devido, em grande parte, aos preços das commodities, que estão ainda em patamar elevado. Aliás, os preços de commodities já subiram consideravelmente.

Apesar da recente bem-sucedida troca da dívida soberana da Grécia, a crise da zona do euro permanecerá afetando os mercados financeiros?

A crise na zona do euro é de longo prazo. A questão de como a Europa irá se recuperar ainda permanece em aberto. A fase mais aguda da crise foi resolvida depois do LTRO (as operações de injeção de liquidez do sistema bancário) e das linhas de apoio financeiro, em relação às quais espero que os líderes europeus consigam avançar mais. Contudo, a crise atual está longe do fim. Passou agora a ser mais uma crise crônica do que uma crise sistêmica aguda. Um segundo pacote de ajuda financeira para Portugal e Irlanda já está em grande parte contabilizado nos preços dos ativos.

Mas um segundo pacote de socorro financeiro conseguirá acalmar de vez os investidores?

Não se trata apenas de um segundo pacote de resgate financeiro para Portugal e Irlanda. O problema vai além desses dois países: inclui também a Espanha e a Itália e se esses dois países vão continuar nos trilhos em termos fiscais. Além disso, há também a questão de se Portugal e Irlanda vão poder voltar ao mercado de capitais no futuro e também de se a Espanha e a Itália vão precisar de mais apoio financeiro.

Como a sra. vê o estado da recuperação dos EUA?

A nossa projeção para o crescimento da economia americana é de 2,2% para este e também no próximo ano, portanto um crescimento um pouco mais acelerado do que em 2011, mas ainda abaixo do potencial. Na realidade, a única região crescendo próximo do potencial é a América Latina, enquanto os países emergentes da Ásia e da Europa estão abaixo do potencial neste ano.

Com base num crescimento abaixo do potencial para a economia americana, o Fed continuará injetando liquidez no mundo?

As declarações de Bernanke (presidente do Fed) no início da semana reforçaram seu compromisso com uma política de juros baixos, pois a recuperação ainda está bem frágil. Um ponto importante é que a retomada do consumo ainda está demorando para acontecer, embora outros indicadores já tenham apresentado melhoras.

Então isso se traduzirá em liquidez abundante que, no final, afetará os preços de ativos dos países emergentes?

Não são apenas os Estados Unidos. Se olharmos os bancos centrais do G-4, em termos da ampliação do balanço patrimonial, o BCE e o Bank of Japan já aumentaram muito mais seu balanço patrimonial como porcentual do PIB do que o Fed. Se agregarmos a injeção de estímulos dos bancos centrais do G-4, chegamos a uma quantia de financiamento a custo baixo ao redor de US$ 6 trilhões; então não é apenas o Fed.

Esse dinheiro barato vai continuar alimentando a valorização de moedas emergentes?

Isso é que tem dado suporte ao rali (alta forte dos preços) neste ano. A capacidade desses países adotarem mais estímulos ainda é um ponto de interrogação.

O Brasil, por exemplo, vem fazendo um esforço para se defender dos efeitos dessa liquidez global. Os fundamentos da economia global vão permitir ao Brasil defender um piso (R$ 1,80) ou mais medidas intervencionistas no câmbio estão a caminho?

O BC do Brasil e o Ministério da Fazenda têm respondido a essas pressões no câmbio e medidas de controle no câmbio estão de volta no radar. A nossa estimativa é de uma taxa de R$ 1,80 no final deste ano. Acredito que o governo continuará com as intervenções, as quais vão evitar que a moeda siga apreciando. O Copom deu um parâmetro que os juros vão cair. O jogo mudou um pouco no Brasil.

Em quê sentido?

No sentido de que os controles no câmbio estão de volta no radar. Já tivemos medidas adicionais de controle de capital abrangendo exportadores e fluxo corporativo.

Apesar da última ata do Copom ter deixado implícito o piso de 9% para a Selic, o ambiente externo e uma maior pressão sobre o real poderá ampliar o corte de juros para abaixo desse piso?

Revisamos a nossa projeção para a Selic de 8,5% para 9% para ficar em linha com os parâmetros do Copom. A ata mais recente deixou claro que o Copom não fez nenhum compromisso com o ritmo de corte de 75 pontos-base e achamos que a aposta para o nível final da Selic estará na dependência dos indicadores a serem divulgados.

A sra. vê mais uma elevação na nota de classificação de risco do Brasil por alguma das agências de rating neste ano?

Não vejo uma melhora do rating soberano do Brasil para o nível A neste ano.

O que falta ao Brasil para alcançar essa elevação no rating?

Acredito que as agências de classificação de risco queiram ver mais progresso em termos de reformas estruturais, embora as recentes mudanças na previdência foram uma surpresa positiva. As questões fiscais no Brasil não estão relacionadas à solvência, mas estão mais ligadas ao estímulo da demanda doméstica e à melhora da competitividade da economia, mas isso apenas acontecerá com reformas estruturais.

01/04/2012 - 18:40h Mario Vargas Llosa: “Desde que tengo uso de razón, todas las dictaduras yo las he combatido”

Vena democrática. Desde Arequipa, la tierra que lo vio nacer, el novelista peruano hace un repaso de los sucesos que marcaron la historia política del país en los últimos 20 años.

Vena democrática. Desde Arequipa, la tierra que lo vio nacer, el novelista peruano hace un repaso de los sucesos que marcaron la historia política del país en los últimos 20 años.


Domingo, 01 de abril de 2012

Periodista y escritor, galardonado con el Premio Nobel de la Literatura el 2010

Paola Ugaz – LA REPÚBLICA.

El pasado 28 de marzo, el Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa, celebró su cumpleaños número 76 en su tierra natal, Arequipa; lo celebró en olor de multitud y anunciando el regalo de uno de los objetos más preciados en su vida: su colección de cerca de 30 mil ejemplares dispersa en sus bibliotecas de Lima, Madrid y París.

A la Ciudad Blanca lo acompañó toda la familia: su esposa Patricia, sus hijos Álvaro y Morgana con sus parejas y sus hijos. Solo faltó Gonzalo, aunque estuvieron sus hijas en su representación.

Este 11 de abril Vargas Llosa presentará en Madrid, su último libro, un ensayo titulado “La civilización del espectáculo” en el que reflexiona sobre la importancia de la cultura en la humanidad y el riesgo que pende sobre ella, que al volverla digerible y entretenida se vuelva un producto frívolo y banal.

Entre los planes del prolífico intelectual peruano, antes de que cumpla 80 años y no se vuelva “un viejo gagá” (como se califica), está la redacción de la segunda parte de sus memorias plasmada en “El pez en el agua“ y de la adaptación teatral de Bocaccio,  así como la elaboración de reportajes como los que hizo sobre Irak, Palestina y el Congo.

Conocido por su resistencia a las nuevas tecnologías, Vargas Llosa usa su computadora como una máquina de escribir, salvo cuando quiere buscar información; se siente “bastante ajeno del Internet“ y se aferra al papel a la hora de la lectura, pues considera de modo pesimista que el “e-book” puede significar el empobrecimiento de la literatura.

En entrevista con La República, el escritor, periodista y actual garante del gobierno de Ollanta Humala, reflexiona sobre las elites políticas, el autogolpe del 5 de abril, el fascismo peruano, la necesidad de un Estado laico, y del deber moral de los peruanos hacia las víctimas del reciente conflicto interno que ensangrentó el país.

Al mirar hacia atrás, ¿se le ocurre alguna frase que puede resumir su prolífica vida?

Tal vez el título de una colección de ensayos que yo publiqué que es “Contra viento y marea“, si hay algo que caracteriza mi vida es que en muchas circunstancias he tenido que nadar contra la corriente porque no me conformaba con una situación familiar, política o cultural. Ha sido una constante en mi vida y una de las cosas que me ha mantenido vivo hasta hoy.

Hace un año, desde Argentina anunció su voto por Ollanta Humala, ¿cuál es su reflexión luego de tomada esa decisión?

Fue una decisión absolutamente acertada, creo que Ollanta Humala ha respetado escrupulosamente la hoja de ruta a la que se comprometió con los peruanos en San Marcos, y que incluso ha ido un poco más allá, él está respetando no solo las instituciones democráticas, sino que ha asumido como un ingrediente central a su gobierno, el apoyo a la inversión, mantener una economía abierta para que el mundo venga aquí y para que el Perú salga al encuentro del mundo, sin renunciar a la inclusión social, que es un principio de solidaridad y de humanidad que sigue siendo como el norte de su política.

Humala tiene muy claro que para que la inclusión social sea efectiva, debe haber creación de riqueza, de empleo. Es un verdadero estadista, democrático, con mucha sensibilidad social y al mismo tiempo muy consciente de que la ideología que algún momento lo tentó podía ser un obstáculo enorme para conseguir ese desarrollo.

¿Qué opina de la Primera Dama, Nadine Heredia?

Tengo una gran simpatía y un gran cariño por Nadine Heredia, a quien están atacando de una manera muy injusta porque yo creo que está colaborando muy eficiente y muy eficazmente con la labor del presidente, acercándose constantemente al pueblo, a la gente más humilde y más necesitada con un mensaje de optimismo y de esperanza.

Nosotros no hemos tenido una Primera Dama que esté cumpliendo su misión con tanto talento y con tanta simpatía, sin violentar, sin trasgredir en lo mas mínimo los límites entre los cuales se mueve la esposa del Presidente de la República.

No entiendo los ataques que recibe, creo que se deben mucho más a la envidia, a la emulación, a extraños complejos, y también a ese prurito de sabotear lo que está bien en el Perú de una minoría muy identificada con la dictadura de Fujimori y que no se resiste a aceptar la derrota que le infligió el pueblo peruano en las últimas elecciones.

¿Qué opina del caso del hermano problema, Antauro Humala?

Vivimos en una cultura que está depravada por la necesidad del espectáculo y el escándalo y un caso como el de Antauro Humala, que debía ocupar una porción insignificante en la prensa, pasa a primeras planas, por una parte, por esa necesidad de escándalo, por el amarillismo que desgraciadamente está muy enraizado en nuestra cultura, porque es un instrumento para desestabilizar al gobierno, para distraer la atención pública de las cosas importantes y centrarlas en lo superficial.

Hay que hacer una crítica a los medios, que están agigantando algo que debía ocupar un lugar insignificante, mínimo, por lo ridículo que es y no convertirse en el centro de la actualidad de un país que tiene problemas muchísimo más importantes y profundos.

¿El presidente Humala es víctima de su hermano Antauro?

Yo creo que (el presidente Ollanta Humala) es víctima de Antauro, y que aparte del exhibicionismo, que clarísimamente lo motiva, lo motiva también el hecho de hacer daño a su hermano, no sabemos si es envidia, si es emulación, pero clarísimamente quiere hacerle mucho daño, trabaja de una manera que es muy innoble porque el presidente lógicamente es alguien que respeta y quiere a su familia, y está un poco maniatado, no debería estarlo, porque claramente allí Antauro Humala está prestándose de instrumento a los enemigos del gobierno que son también los enemigos de la democracia.

Son gentes que quieren desestabilizar a este gobierno precisamente porque lo está haciendo bien y yo creo que porque no acaban de aceptar la derrota que recibieron en las ánforas en las últimas elecciones.

EL FUJIMORISMO

A 20 años del 5 de abril de 1992, ¿qué opina del autogolpe de Fujimori?

Yo no me metí con el gobierno de Fujimori después de la victoria, que fue legítima, la acepté, y me callé la boca y me fui a  trabajar y a escribir; y el 1992, solamente porque hubo un golpe de estado, y yo estoy contra de los golpes de estado, comencé a criticar lo que me parecía una tragedia para mi país y lo hice durante todo el tiempo de la dictadura como lo he hecho con todas las dictaduras que ha padecido el Perú desde que yo tengo uso de razón, todas las dictaduras yo las he criticado y las he combatido.

Tocaré madera, espero que no vuelva a haber ninguna más, pero si hubiera alguna más mi actitud será exactamente la misma, creo que cada vez es más difícil que eso ocurra, precisamente porque hay consensos democráticos muy amplios, pero cuando uno ve la campaña que hay montada contra Ollanta Humala uno se da cuenta que quedan todavía unos residuos de lo que llamaríamos el fascismo peruano.

¿Qué es el fascismo peruano?

Ese sector de peruanos que prefiere que haya un hombre fuerte, que haya un gobierno militar, que aplique el palo, que tire balas para poner orden, que cree que es a través de eso que se puede conseguir estabilidad y desarrollo, es una visión de gente inculta, ciega y fanática, porque cada vez que nosotros hemos tenido el hombre fuerte que pega palos y pega tiros el Perú ha retrocedido, el Perú se ha enconado, la división ha sido muchísimo mayor, y el resultado ha sido no el progreso sino una violencia social terrible; pero yo creo que son una minoría, desgraciadamente muy poderosa, tiene medios que le permiten llegar al gran público, que utilizan con una irresponsabilidad casi delictiva, en algunos casos, pero creo que estadísticamente son una minoría y una minoría cada vez más insignificante, que irá desapareciendo poco a poco a medida que el Perú progrese y que la cultura democrática avance en nuestro país.

¿Por qué fue una tragedia para el país el autogolpe del 5 de abril de 1992?

Fue una tragedia para el Perú y quien destruyó la legalidad fue un criminal (Alberto Fujimori), un criminal que afortunadamente está pagando ese crimen, yo no creo que haya un delito más grave que destruir un sistema democrático que le ha permitido a uno llegar a la primera magistratura de la nación, para eso no puede haber perdón. El señor Fujimori subió democráticamente al poder con los votos de los peruanos y destruyó el sistema que lo llevó al poder, y tuvo apoyo popular para el golpe de estado; eso habla mal de los peruanos y muestra su cultura política, muestra su ceguera respecto a lo que es el efecto de una dictadura sobre la vida social.

Nosotros lo hemos pagado: hay miles de familias que sufren las consecuencias de esa dictadura genocida y probablemente la más corrupta que ha tenido el Perú en toda su historia, fuimos el hazmerreír del mundo cuando Fujimori y Montesinos saqueaban el país de la manera más absolutamente inescrupulosa, y cuando se cometían las violaciones a los derechos humanos que fueron un escándalo internacional. Esa etapa ha quedado atrás, pero hay que estar seguros de que esa etapa no va a volver y para eso hay que salir a enfrentarse a quienes quieren desestabilizar esta democracia y clarísimamente por la nostalgia que tienen de ese régimen de violencia en el que desafortunadamente muchas personas y muchas empresas medraron, ¿no?, eso es lo que explica esa nostalgia.

Es una minoría que se va encogiendo porque tengo  la impresión de que la cultura democrática ha echado raíces y lo que hay que hacer es cultivarla, fortalecerla, para que no vuelva a desplomarse nunca más.

El analista político, Julio Cotler ha afirmado que a 20 años del 5 de abril somos una sociedad post-Fujimori ¿qué opina de esa afirmación?

Creo que Julio Cotler tiene razón, somos post Fujimori en dos sentidos, por una parte nos hemos librado del terrible experimento que fue una dictadura corrupta y genocida pero, por otra parte, el fujimorismo está todavía muy presente, tiene un núcleo duro, que está muy arraigado,  con mucho poder económico, porque no hay que olvidarse que ellos robaron muchísimo y están muy presentes en los medios, tienen influencia política porque tienen una capacidad de soborno muy grande, pero no pueden ganar una elección.

El resultado que obtuvo Keiko Fujimori fue absolutamente excepcional y como ha ocurrido con todos los partidos políticos nacidos de dictaduras: el sanchezcerrismo, el odriísmo, el velasquismo… el fujimorismo va también a seguirse encogiendo hasta extinguirse del todo…pero todavía está allí y puede jugar un papel de sabotaje, de minar la vida democrática del Perú.

Lo vemos hoy día en los órganos de prensa fujimoristas que combaten ya no al gobierno sino a las instituciones democráticas.

¿Cómo ve el periodismo en Perú?

El periodismo nunca se ha recuperado de lo que significó el velasquismo. Cuando Velasco capturó todos los medios de comunicación, el periodismo sufrió un envilecimiento increíble, una mediocrización enorme. El viejo periodismo quizás no era muy progresista, quizás conservador, hasta reaccionario, pero tenía niveles de calidad, de respeto de las formas, eso se perdió y se introdujo la inmundicia, el libelo, el insulto, el escándalo, las peores formas del amarillismo.

Si bien los periódicos y las televisiones volvieron a sus propietarios, quedó ese lastre moral y cultural del que nunca nos recuperamos del todo. En los años de la dictadura Fujimori lo hemos visto en la manera en que la prensa se plegó con un servilismo increíble a la dictadura, en las campañas electorales, en la poca independencia y neutralidad. Lo hemos visto en la cantidad de los periodistas que por ser decentes  y por ser independientes han sido echados de sus puestos; bueno, tú has vivido eso desde adentro y lo conoces más que nadie. En ese sentido, el periodismo está muy rezagado en comparación con otros países, como Chile, por ejemplo, donde hay un periodismo muy moderno y eficiente, y mucho más independiente que el periodismo que se ejercita en el Perú. Creo que es una de las deficiencias de nuestro sistema democrático, hay una gran necesidad de que el periodismo se modernice y que haya un respeto a la diversidad, a la independencia del criterio de los periodistas, y también en el respeto de las formas, porque la manera en que el periodismo insulta y calumnia en el Perú es verdaderamente vergonzosa.

A propósito del libro de Carlos Flores Lizana, ¿el arte está saldando la deuda con la memoria de lo que ocurrió en el conflicto interno?

No, todavía los peruanos no estamos haciendo justicia con las víctimas, todavía hay reticencias para reconocer que se vivieron injusticias atroces y que el Perú debería de alguna manera desagraviar a las familias que perdieron padres, hijos y nietos que se quedaron en la ruina y el desamparo total. Es un libro muy interesante porque no es político, es alguien que simplemente fue a llevar a cabo una tarea pastoral y se encontró con el infierno.

Da cuenta de ese error que es una herida sangrante en miles y miles de hogares y los peruanos que no hemos padecido eso tenemos una obligación moral con esas víctimas.

¿Cómo fue el papel de la Iglesia en la época del terror?

Desgraciadamente el papel de la Iglesia fue un papel en el que cabían actitudes muy contradictorias. Por una parte, hubo religiosos como Flores Lizana, sacerdotes, monjas, cristianos de los organismos de base que desarrollaron una labor admirable y heroica; y hubo una jerarquía -no toda necesariamente pero sí alguna- como la que él denuncia, que dio la espalda a toda esta violencia, y que incluso respaldó los crímenes que se cometían en la represión contra el crimen que representaba Sendero Luminoso. En ese sentido, también el testimonio es muy interesante de cómo prevaleció en cierta jerarquía de la Iglesia el criterio político sobre el criterio religioso y espiritual.

¿Cree que esa jerarquía eclesial pueda tomar la Universidad Católica?

No creo que vaya a ocurrir. La Universidad Católica es una universidad de católicos pero no de fanáticos; de católicos democráticos, abiertos, que piensan que el catolicismo puede coexistir con libertad de cátedra y con la libertad de opiniones. La defensa de la Universidad Católica nos interesa a todos los peruanos, porque la Universidad Católica es una gran universidad, es una de las pocas universidades que podemos llamar gran universidad a nivel internacional, sería terrible que el fanatismo y la intolerancia suprimieran toda esa diversidad intelectual.

¿Cuán lejos está el Perú de ser un estado laico?

Esta lejos todavía, porque la cultura de la libertad es una película muy superficial todavía en el Perú. Es muy difícil para muchos peruanos entender que una cultura laica no es una cultura que está contra la Iglesia.

La defensa de la laicidad del Estado garantiza la diversidad. No debemos permitir que las religiones se identifiquen con el Estado y lo controlen porque las religiones no son democráticas, tienen verdades absolutas que no admiten controversia o rechazo, como por ejemplo, para la Iglesia no hay aborto terapéutico, no hay matrimonios gays y no hay una política más sensata para la legalización de las drogas.

EL ESCRITOR Y LAS ELITES PERUANAS

¿Cómo es su relación con las elites en América Latina?

Yo defiendo cosas que la elite suele defender también, como el mercado libre, la empresa privada, la propiedad privada, pero para mí eso es inseparable de la defensa de la democracia y de la libertad, y muchas de esas elites latinoamericanas no son democráticas sino más bien autoritarias y creen en el hombre fuerte y apoyan a las dictaduras.

Allí yo tengo enfrentamientos constantes y sobre todo en el Perú, la elite peruana estuvo conmigo cuando yo me opuse a la nacionalización de la banca y organicé manifestaciones populares porque pensé que la nacionalización de la banca iba a ser una catástrofe económica para el Perú e iba a acabar a la democracia.

Pero cuando yo ataqué a la dictadura de Fujimori cuando cerró el Congreso e impuso una constitución, la elite, que estaba muy contenta con la dictadura, pues comenzó a atacarme con ferocidad; en la última elección, cuando dije que era una locura votar por la hija de un dictador que estaba preso por ladrón y por asesino, la elite peruana, que estaba con el dictador preso y asesino pues me atacó y me bañó de mugre, pero a mi no me importó.

Lo que yo defiendo, que es una posición democrática  y liberal, es la que poco a poco se está imponiendo. Afortunadamente en el Perú esa elite anticuada, obsoleta y autoritaria está quedando más obsoleta y más marginada porque hay una clase media emergente más democrática y en buena hora, porque representa un progreso para el Perú.

20/03/2012 - 09:13h Governos de oito Estados e DF embarcam no plano Brasil sem Miséria


Tereza Campello: “O Brasil sem Miséria tem cada vez mais peso no governo; de tudo que o Mantega fala, 50% é sobre social”


Por Luciano Máximo | VALOR

De São Paulo

SÃO PAULO – Em acordos fechados nos últimos seis meses com o governo federal, oito Estados e o Distrito Federal colaram a marca de seus programas de transferência de renda no Bolsa Família como forma de garantir que os benefícios recebidos fiquem acima de R$ 70 per capita mensal, marca que delimita a situação de pobreza extrema no país. Para a ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, a superação de diferenças políticas e a construção de uma unidade em torno dessa agenda social são as marcas mais expressivas do Brasil sem Miséria, plano em vigor desde junho de 2011 com a missão de tirar 16,2 milhões de brasileiros da extrema pobreza até 2014.

A adesão dos Estados ao plano, comemora a ministra, atingirá cerca de 4 milhões de pessoas nesses Estados nos próximos três anos, o que representa 25% da meta final. “É um grande esforço político que garante a superação da pobreza extrema sob a óptica da renda e ajuda a unificar as ações governamentais de inclusão voltadas à educação, saúde, ao consumo”, avalia Tereza.

O Brasil sem Miséria está baseado nas políticas de transferência de renda do Bolsa Família e, agora, dos Estados. A ministra destaca que o plano tem cada vez mais importância dentro do governo, a ponto de situar a agenda social como um dos principais pilares do desenvolvimento econômico do país. “40%, 50% de tudo que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, fala é sobre social e sua importância para o crescimento do país.”

Além do aspecto da transferência de renda, o Brasil sem Miséria está sustentado em maciças ações de qualificação profissional nas cidades e projetos de inclusão produtiva de pequenos agricultores. Das 8 milhões de vagas em cursos profissionalizantes previstas no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), o público do Brasil sem Miséria terá direito a 1 milhão delas, o que configura um dos maiores desafios do plano: até agora apenas 82 mil vagas foram contratadas.

“Estamos aprendendo, o Brasil nunca teve a experiência de ofertar cursos profissionalizantes para uma população extremamente pobre. O MEC sempre trabalhou com alfabetização de jovens e adultos, professores nunca deram aula para um público com esse perfil”, reconhece Tereza. Dos 16,2 milhões de brasileiros extremamente pobres, 26% deles (com 15 anos ou mais) são analfabetos e mais da metade não concluiu o ensino fundamental.

Na entrevista a seguir, a economista paulista Tereza Campello, que fez carreira nos governos petistas do Rio Grande do Sul, admite que o governo federal não é capaz de dar conta da ascensão social de todos os enquadrados no Brasil sem Miséria sem o envolvimento de Estados e municípios e também aborda o desempenho do plano nas áreas rurais do país.

Valor: O atual modelo brasileiro de transferência de renda, baseado no Bolsa Família, vai completar uma década neste ano. Em vigor há nove meses, o plano Brasil sem Miséria já deixou alguma marca?

Tereza Campello: O Brasil sem Miséria tem algumas ideias que reorganizam toda nossa política social. Associa essa agenda diretamente ao desenvolvimento econômico. Não será naturalmente que vamos conseguir superar a pobreza extrema no país. Não basta só crescer para que os 16,2 milhões de brasileiros nessa condição sejam incluídos. Nesse sentido, o Brasil sem Miséria estrutura um conjunto de ações aliado à transferência de renda: no ambiente urbano há um plano de qualificação profissional e inserção no mercado de trabalho; no rural, o foco é a assistência técnica para a inclusão produtiva atrelada ao forte poder de compra do Estado.

Valor: O que é novo nessa ideia?

Tereza: O pensamento de primeiro crescer para depois distribuir o bolo ficou para trás, é um antigo debate econômico sobre o Estado forte, desenvolvimentista. Se o país cresce, obviamente vai gerar empregos e incluir, mas não é uma tese compatível com um projeto sólido de desenvolvimento econômico com inclusão. A novidade é a ideia de que incluir faz o país crescer. A presidenta Dilma diz que precisamos dos 190 milhões de brasileiros para o país continuar crescendo. Os 16 milhões na pobreza extrema estão nessa conta, mas não são alcançados pelo crescimento por diversas razões: são pessoas mais vulneráveis, ao longo de toda vida tiveram menos acesso à saúde, educação, qualificação profissional, menos tempo no mercado de trabalho. A inclusão de milhões e milhões de brasileiros nos últimos anos permitiu que o Brasil não descesse tão fundo na crise de 2008 e também que a gente saísse mais rápido dela. Então, transferência de renda deixa de ser só uma estratégia de desenvolvimento social e passa a ser uma estratégia de desenvolvimento econômico. Isso é novo e tem uma aceitação natural. Os empresários não acham isso estranho, acreditam que o Brasil sem Miséria é socialmente justo e bom para o desenvolvimento econômico do país.

“Todo mundo quer grudar no Bolsa Família, então dividimos o cartão com o programa de renda de cada Estado”

Valor: Como essa “nova” visão é vista pela equipe econômica?

Tereza: Nas palestras que costuma fazer para investidores, empresários, membros do governo, 40%, 50% de tudo que o ministro Guido Mantega fala é sobre a agenda social do governo. Quando o assunto é crédito imobiliário, obrigatoriamente ele fala do crédito popular como agenda impulsionadora da indústria da construção civil. No Orçamento da União os quatro principais gastos são saúde, educação, Bolsa Família e Previdência Social, depois vêm infraestrutura e outras áreas. O centro do gasto social tem um elemento estratégico para o desenvolvimento econômico. Isso é novo, como é novidade ter uma ministra economista no Desenvolvimento Social e um ministro da Fazenda falando do social como agenda estratégica para o crescimento, não um mero discurso para resolver conflitos, como era no passado.

Valor: No início, o Bolsa Família enfrentou rejeição em alguns Estados por causa de questões políticas e partidárias. Como está a aceitação do Brasil sem Miséria?

Tereza: Aconteceram três movimentos importantes: todos os governadores aderiram ao plano, sem exceção. Nos últimos seis meses fechamos acordos com nove Estados [AP, DF, ES, GO, MT, RJ, RO, RS e SP] – e outros dois estão estudando [AM e BA] – para a complementação estadual do Bolsa Família, garantindo que a renda per capita familiar fique acima dos R$ 70 da marca da pobreza extrema. Além disso, governo federal, Estados e municípios estão unificando suas bases de dados, o que representa ganho enorme de gestão.

Valor: Os Estados colocam recursos próprios no Brasil sem Miséria?

Tereza: Não, usam seus próprios programas de transferência de renda para complementar o que falta para o Bolsa Família tirar a família da pobreza extrema na perspectiva de renda. A média de benefícios do Bolsa Família é de R$ 119, e se uma família tem muitos filhos, seu benefício final fica abaixo dos R$ 70 per capita. Os Estados estão entrando para completar o hiato ou ampliá-lo para R$ 80, como é o caso de Amapá e Rondônia, ou para R$ 100, exemplo do programa Renda Melhor, do governo do Rio de Janeiro. Já Espírito Santo e Rio Grande do Sul estão contribuindo com R$ 50 fixos.

Valor: Politicamente isso não acaba sendo mais vantajoso para o governo federal?

Tereza: O Bolsa Família é uma grife reconhecida no mundo todo e todo mundo quer grudar nele. Criamos um espaço político para evitar esse tipo de interpretação. Dividimos o cartão com o programa de renda de cada Estado. Mas o principal é que criamos unidade em torno do combate à miséria e estamos unificando cadastros. Tem gente em São Paulo que recebia o Renda Cidadã, gente que recebia o Bolsa Família, gente que recebia os dois, e nem nós nem o governo estadual sabíamos disso. Isso é uma tragédia do ponto de vista de gestão pública, um grande ônus. Cada informação que município, Estado e União compartilham significa conhecer a real situação da família e trabalhar a partir de uma única ferramenta de gestão para ajudar a melhorar sua vida. Essa mobilização é boa para todo mundo, para o [governador de São Paulo] Geraldo Alckmin, Alagoas e a União.

Valor: Além do aspecto renda, como está esse alinhamento para pôr o Brasil sem Miséria em prática?

Tereza: No contexto urbano, o governo federal não dá conta sozinho de implementar o plano. Estados e prefeituras têm que intervir. Organizar a população localmente, saber quem está apto a ser qualificado e para que áreas gerar vagas de emprego são os maiores desafios. O Brasil sem Miséria tem 1 milhão de vagas em cursos profissionalizantes reservadas no Pronatec. Vamos pagar os cursos, mas isso é o que menos importa. Interessa é que os programas tenham vínculo com a realidade. Por isso estamos sentando com Estados e municípios que têm obras, indústrias chegando, vamos mobilizar a rede Sine [Sistema Nacional de Emprego] e o Sistema S para abrir os cursos de qualificação certos.

Valor: A partir disso, quanto tempo leva para os beneficiados entrarem em sala de aula?

Tereza: Estamos fazendo algo prático. Em novembro do ano passado fizemos uma grande rodada de conversas em Brasília com todos os Estados, 160 municípios e o Sistema S. Discutimos quantas vagas para qualificação profissional estão disponíveis no país, com o Sistema S controlando a grade de ofertas. Há cursos para o nosso público, outros que não servem e alguns que precisam ser adaptados. Um exemplo: hoje exige-se nível médio para cursos de pintor e jardineiro. Isso exclui a maioria dos beneficiados do Brasil sem Miséria.

Valor: Como resolver isso?

Tereza: O Brasil de hoje não permite essa situação. Como antes sobrava mão de obra exigia-se escolaridade elevada para essas funções. Com alguma aptidão, sabendo ler e escrever, tendo noções de aritmética, uma pessoa pode ser um bom auxiliar de cozinha, pintor ou jardineiro, levando em conta um curso adequado. Os programas precisam ser adaptados para um público de baixa escolaridade, muitos analfabetos. Dos 16 milhões do Brasil sem Miséria, 55% são adultos e a grande maioria tem ensino fundamental incompleto, gente que pisou pela última vez na escola há 30 anos.

Valor: Essas adaptações já estão em marcha?

Tereza: O Brasil nunca teve a experiência de atuar maciçamente com oferta de cursos profissionalizantes para uma população extremamente pobre. O MEC trabalhava com alfabetização de jovens e adultos. Além do desafio de mobilizar localmente esse pessoal, estamos modificando currículos e conteúdo, remodelando materiais. As aulas para os beneficiados do Brasil sem Miséria terá carga maior de português e matemática, os alunos terão acolhida diferente, serão recepcionados por assistentes sociais dos municípios. Isso ocorrerá porque é um público mais frágil, o risco de evasão é alto.

Valor: O Brasil sem Miséria vai conseguir preencher 1 milhão de vagas do Pronatec até 2014?

Tereza: Estamos aprendendo, tem coisa rolando. Fizemos alguns cursos que serviram como prova. Não é simples abrir 1 milhão de vagas. Não queremos abrir um monte de vagas de manicure, cabeleireiro, embora sejam profissões com demanda. Estamos em contato com Estados e municípios e também com associações empresariais para conhecer melhor o que o mercado precisa. Estamos com 82 mil vagas contratadas, com aulas iniciadas em março. Vamos contratar mais vagas para o resto do ano.

Valor: O combate à pobreza extrema avança mais no campo?

Tereza: A principal estratégia em áreas rurais é também aumentar a qualificação profissional – não dando cursos, mas assistência técnica continuada. Às vezes colocar um profissional da Embrapa por um dia na roça de feijão do agricultor pobre é mais eficiente que levá-lo para uma capacitação na Embrapa. Cada técnico acompanhará cem famílias durante dois anos. Até 2014, 250 mil famílias – cerca de 1 milhão de pessoas – serão beneficiadas e poderão receber recursos do Programa de Fomento às Atividades Produtivas Rurais [até R$ 2,4 mil por família]. O técnico avaliará se o agricultor precisa do dinheiro, para construir um poço, comprar uma vaca ou construir uma cerca, atividades que permitam que ele entre num processo de aumento e regularização de sua produção e, por fim, venda para o governo pelo PAA [Programa de Aquisição de Alimentos], o Pnae [Programa Nacional de Alimentação Escolar].

Valor: Há avanços concretos?

Tereza: Com o PAA organizamos as compras públicas privilegiando os agricultores pobres. Até 2011, comprava-se deles R$ 600 milhões, este ano vamos comprar mais de R$ 1 bilhão. Tínhamos 66 mil de agricultores familiares pobres vendendo para o PAA, este ano vamos chegar a 139 mil. A aceleração se deve à aplicação de mais recursos, forte articulação com Estados e municípios, o que não ocorria antes. Governos estaduais e prefeituras passaram a ser parceiros para melhorar a capilaridade. Também estamos melhorando a gestão (os agricultores que vendem para o governo terão cartão bancário e receberão em conta corrente) e trabalhando com a rede assistência social na distribuição dos alimentos em escolas, creches, hospitais e aos beneficiários do Brasil sem Miséria.

(Luciano Máximo | Valor)

19/03/2012 - 10:35h Perú: “Nada le haría mejor a nuestro país que tener una mujer como presidenta”

Lunes, 19 de marzo de 2012


Deslinde. Merino agradece que se hable de ella como candidata presidencial, pero asegura que no se guía por los demás sino que marca su propia agenda.

Deslinde. Merino agradece que se hable de ella como candidata presidencial, pero asegura que no se guía por los demás sino que marca su propia agenda.


Beatriz Merino. Ex primera ministra, ex defensora del Pueblo y recientemente nombrada representante de quienes son acreedores de la deuda agraria.

Ana Núñez – La República

–Tras su salida de las AFP, usted llamó a esta nueva etapa de su vida “de reinvención”. ¿Por qué?

–La reinvención significa la capacidad de tener una nueva visión sobre sí misma, de preguntarse dónde estoy y dónde quiero estar en los próximos cinco años o en los próximos días, y qué tengo que hacer para estar en ese lugar. Uno debe mantener la capacidad de no ser autocomplaciente con lo que uno ha logrado o con lo que uno es, y eso exige una reinvención. Esa es la modernidad y la juventud real: la capacidad de seguir teniendo objetivos, visiones y sueños.

–¿Y un nuevo sueño suyo es ser la primera presidenta del Perú?

–Nuestro país necesita a una mujer como presidenta porque se debe brindar la oportunidad a una persona que ejerce sus sentimientos sin temor, que sabe mostrar. En este país tan dolido, con tanta gente abandonada y que se siente abandonada, es necesario ese instinto maternal, que no es un tema biológico. Para entrar a ese Perú reinventado, nada le haría mejor que tener una mujer al frente. Ese sí es un sueño mío.

–Por esa convicción, y sabiendo que nada la motiva más que representar a los peruanos más vulnerables, ¿qué mejor oportunidad para ello que ser quien conduce el rumbo del país?

–No es un tema personal, así como he dicho que no es un tema de género. El Perú tendrá que encontrar a esa mujer, ese liderazgo que requiere. Pero yo sí creo que es momento. Yo veo con entusiasmo monumental a Argentina, Chile, Brasil, pareciera que ahora México, Alemania, Inglaterra, Estados Unidos casi… hace 50 o 60 años las mujeres ni votábamos, no podíamos elegir. Entonces, a mí me parece extraordinario que en una generación ya estemos en capacidad de dirigir y creo que en este país ya lo hemos demostrado. Lo único que falta es que aparezca esa candidatura que el país respalde.

–Más allá de su decisión sobre una posible candidatura, lo cierto es que hay un fortalecimiento de la figura de la mujer en la política. A don Isaac Humala le ha gustado mucho su teoría al respecto y ha agregado que la fuerte presencia de Nadine Heredia podría ser el nacimiento de un matriarcado en el Perú…

–Bueno, yo escucho esos comentarios con gran ternura… Tengo un aprecio personal por don Isaac desde mis años en la Defensoría del Pueblo, él tenía la bondad de asistir a las sesiones y en alguna oportunidad me escribió una carta personal que guardo con mucho cariño. Lo que él dijo es que le había parecido muy interesante lo que dije en relación con la Primera Dama.

–Usted salió al frente de las críticas en su contra…

–Yo dije varias cosas. En primer lugar, ya no está de moda eso de que los hombres llevan la voz cantante en los matrimonios. En segundo lugar y en relación directa con Nadine Heredia, dije que la democracia más consolidada del mundo occidental moderno es la de Estados Unidos, y ¿qué pasó con la señora Hillary Clinton después de haber sido ocho años primera dama? Fue elegida senadora de uno de los estados más importantes, Nueva York; y posteriormente fue una extraordinaria precandidata presidencial que compitió cuerpo a cuerpo con el actual presidente Barack Obama en las primarias. Si le hubiera ganado, habría sido la primera presidenta mujer de los Estados Unidos. Entonces, ¿qué tiene de malo que una mujer, después de haber sido Primera Dama, intente servir a su país en los cargos más importantes como senadora, canciller o presidenta? ¿Cuál es la razón de criticar a la señora Heredia si ese fuera su deseo?

–Usted no ve ningún problema…

–Ninguno. Y qué magnífico sería que ella se convirtiera en la mujer más respetada de este país durante 10 años. Ella o cualquier otra. Tenemos que empezar del pasado. En este caso es algo así como “compra uno y te damos dos”. Los peruanos votaron por Ollanta Humala y ahora tienen a su lado a una mujer con talento político y ganas de servir a su país en la vida pública. ¡Qué bueno! Ya el Perú decidirá cuál es el resultado de esa gestión que aún no tiene ni un año. Hasta ahora son buenos… Pero a mí sí me molesta ese tipo de ataques a la señora Heredia, por quien guardo un aprecio personal.

–Lourdes Flores ha expresado su interés; más allá de las diferencias políticas, Keiko Fujimori también estará en la partida; usted ha dicho que lo va a pensar…

–Yo solo he sonreído… Los hombres deben sentirse un tanto amenazados, ¿no? No debieran, ellos han gobernado este país por casi 200 años y ahora le toca a una mujer.

–Y usted ha dicho que nuestro país ha tenido la mala suerte de tener malos gobiernos…

–Pero ya esto se está corrigiendo. Además, el país ha vivido en dictaduras, una tras otra, ha vivido en corrupción. Pero debemos mirar el pasado solo para aprender de nuestros errores y no cometerlos más. Las épocas de la violencia, de violaciones de derechos humanos, de corrupción, no pueden volver más. Somos un país con el derecho de encontrar la felicidad para todos, sin dejar a un tercio de la población atrás.


–Usted se ha calificado como liberal sin temor por el rechazo que eso podría generar en ese tercio de gente al que alude…

–Cuando empecé la vida pública con nuestro premio Nobel Vargas Llosa, nuestras ideas eran las de una minoría absoluta. Hoy podemos ver que en la economía esas ideas han triunfado, traen el desarrollo económico y logran que poco a poco se vaya reduciendo la pobreza. Pero no solo en el Perú, sino en el mundo. El Muro de Berlín ya se cayó. Si ese es el liberalismo que muchos propugnamos y pensamos que debe ser una opción electoral en el Perú, lo que debería quedar fuera de esa opción electoral son los radicalismos de izquierda y los radicalismos de derecha, que solo buscan implantar la intolerancia, la discriminación, a veces el racismo, la destrucción y la violencia. Entonces, el Perú tiene que discurrir entre una izquierda moderna y una derecha moderna, entre un liberalismo democrático y defensor de los derechos humanos y una izquierda que respete las economías libres y las libertades.


–El liberalismo que propugna nos ha regido en los últimos 3 gobiernos? ¿No se siente representada por ellos?

–Por más que algunos se autoproclamen, yo no me siento representada en ninguno de ellos porque el liberalismo trae consigo una cantidad de propuestas que no han sido abordadas. No se trata de administrar la economía, se trata de acometer lo que está pendiente en la reforma del Perú. Hoy, por ejemplo, tenemos el problema de la terrible minería ilegal que trae lo peor a una sociedad, pero también es verdad que es una obligación del Estado trabajar en cómo incorporar a esos empresarios privados al mundo de la formalidad. No se trata de salir a destruirlos, sino incorporarlos a la formalidad. ¿Quién habla de eso?

–Finalmente, hoy tiene nuevo encargo, es representante de los acreedores de la deuda agraria…

–Lo primero que se debe decir es que el presidente Humala ha heredado este problema. Es evidente que los primeros meses de gobierno debían ser de ordenamiento (además lo ha hecho muy bien, acuérdese de la inestabilidad económica que había). Una vez pasado eso, es importante poner en la agenda pública temas pendientes de solución. El Colegio de Ingenieros, y otros bonistas, se han acercado a mí diciéndome: “necesitamos que se cumpla con nosotros como alguna vez se cumplió con los extranjeros…”.

–Pero es una deuda que alcanzaría los 4 mil millones de soles…

–No, la propuesta que me han traído tiene varios elementos. El primero es que no se trataría de un pago en efectivo, sino de un canje de bonos que hoy están emitidos en una moneda que ya no existe por bonos en la moneda actual. Para ello, evidentemente, como dijo el Tribunal Constitucional hace once años, hay que actualizar el valor. Hecho eso, mi sugerencia es que la Administración Tributaria podría encargarse de recibir estos bonos y que si alguien tuviera deudas tributarias con el Estado, debiera compensarse. El tercer aspecto es que ellos están dispuestos a donar el 10% de sus nuevos bonos a una fundación de inclusión social, que en línea con la política de Estado del presidente Humala pudiera tener fondos para dar becas en países de más desarrollo educacional a los peruanos más pobres y para que se pueda hacer inversiones productivas en zonas de cultivos alternativos de coca. A mí me han pedido que lidere esa fundación, con lo cual se compraron mi corazón y creo que hay que decirles al presidente Humala y al ministro de Economía que esta es una extraordinaria oportunidad para terminar este tema tan bochornoso para la historia del Perú y sobre todo para evitar daños para el Estado. Aquí no está en discusión la deuda, hablamos de voluntad política

19/03/2012 - 08:57h No governo Dilma, educação é questão de Estado, diz Mercadante

Aloizio Mercadante: “O Enem é necessário a um sistema republicano e democrático de meritocracia do estudante”


Por Rosângela Bittar e João Villaverde | VALOR

De Brasília

Nesta semana o ministro Aloizio Mercadante completa dois meses à frente do MEC. Mas já tem não só uma visão global dos desafios que precisará enfrentar, dos equívocos administrativos que urge remodelar, das correções de rumo em programas que têm sérios problemas de execução, como já visitou, por todo o Brasil, obras e realizações da sua área. O projeto do governo Dilma supõe a educação como uma questão de Estado, à qual serão dados instrumentos e condições para promover o crescimento do país, é como define o ministro.

Nele, destacam-se programas como o Ciência Sem Fronteiras, de bolsas para estudantes brasileiros em instituições estrangeiras, que está sendo agora ampliado. São também instrumentos de qualificação iniciativas como o aperfeiçoamento do exame de avaliação Enem e a fixação do piso salarial do magistério.

Sobre o piso, apesar dos protestos de governadores e prefeitos que acreditam não ter como pagar o piso de R$ 1.451 sem ultrapassar o limite de gastos com pessoal da lei de responsabilidade fiscal, o ministro diz que o professor não pode ser punido pela falta de reformas da previdência nos Estados, e que o piso tem que continuar crescendo. Estuda uma política de reajuste automático, em conjunto com uma comissão do Congresso.

“Custa caro o piso? Custa, mas a ignorância custa mais”, afirmou Mercadante nesta entrevista, na quinta-feira, em seu gabinete. O ministro fará apenas correções no Enem, não mudanças radicais, e o exame continuará sendo nacional e não regional como querem alguns especialistas: “O sarrafo republicano tem que ser igual para todos.”

Mercadante defende, como absolutamente adequado a esse projeto, que os recursos do pré-sal sejam para a educação. “Ou vamos aplicar esses recursos na estratégia, ou dispersar isso na máquina pública e nos acomodar nesse parasitismo. Nosso projeto é que a educação passe a ser central.”

E diante de todo um histórico de manipulação político-partidária desse assunto, faz uma declaração veemente: “O MEC tem que ser despartidarizado, tem que ser política de Estado. Enquanto eu estiver ministro não estarei envolvido em nenhum debate político, partidário e ideológico.”

Valor: Há 4 milhões de crianças fora da escola, o ensino tem baixa qualidade em todos os níveis e o Brasil está no piso do ranking mundial nessa área. Qual política será capaz de aproximar a educação do projeto de crescimento do país?

“Enquanto for ministro não estarei envolvido em nenhum debate político, partidário e ideológico”

Mercadante: Não basta ser um país rico, ou mesmo rico sem pobreza. O país não pode se acomodar em ser grande exportador de commodities. O Brasil precisa se preparar para a economia do conhecimento, e não seremos competitivos sem inovação, ciência e tecnologia. O Brasil, especialmente com o pré-sal, pode dar o salto estratégico nesse sentido. Ou simplesmente se acomodar com a doença holandesa e agravar as deficiências históricas. Ou vamos aplicar esses recursos na estratégia, ou dispersar isso na máquina pública e nos acomodar nesse parasitismo. Nosso projeto é que a educação passe a ser central. Pela primeira vez o tema da ciência, da tecnologia, da inovação, está no Plano Plurianual.

Valor: A disputa político-partidária polarizada não é destrutiva para instrumentos fundamentais do desenvolvimento, como a política de educação?

Mercadante: O Ministério da Educação é de política de Estado. O governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso, trouxe muitos avanços. A universalização do ensino básico, o Fundef (fundo de valorização do magistério) para financiamento, os mecanismos de avaliação do ensino, que depois o Lula transformou no Fundeb, ao incluir o ensino pré-escolar e médio. Além disso, expandiu a rede universitária, fez um grande programa, o Bolsa Família, com exigência de manter crianças na escola, expandiu os institutos federais de ensino técnico. O MEC tem que ser despartidarizado, com relações republicanas, com metas comuns, e com complementariedade com Estados e municípios. A concorrência entre os entes federativos é muito mais uma disputa política eleitoral do que qualquer outra questão racional. Enquanto eu estiver ministro não estarei envolvido em nenhum debate político, partidário e ideológico.

Valor: A expansão do ensino superior no governo Lula parece não ter ocorrido como era a intenção e o crescimento se deu mais na rede privada. As universidades novas têm campus inacabados, abandonados, os alunos não se interessam muito. Estariam assim no interior de Pernambuco, do Ceará, de São Paulo…

Mercadante: Não é verdade. No mundo inteiro o ensino privado é predominante. Demos um salto extraordinário no ensino superior, não só de inserção no ensino privado, através do ProUni e do financiamento subsidiado do Fies. A rede pública universitária melhorou a relação professor-aluno e houve uma desconcentração. O Nordeste tem 27% da população brasileira, mas até alguns anos atrás apenas 1,9% dos nordestinos eram estudantes no ensino superior, percentual que conseguimos elevar para quase 10%. O Proinfra, que é uma parceria entre a Finep e a Capes, faz grandes investimentos nessa expansão. Essa política deu certo. O vestibular da Universidade do ABC é um dos mais concorridos, e como tem foco em engenharia, os alunos chegam com problemas em matemática, em física, há dificuldades de acompanhamento.

” O programa Ciência Sem Fronteira vai incluir parcerias com Japão, Coreia do Sul, Suécia e Holanda”

Valor: A baixa oferta de engenheiros não é prejudicial ao projeto de crescimento?

Mercadante: Há um problema geral na engenharia que acaba atingindo também matemática e física. No Brasil formamos apenas seis engenheiros para cada mil habitantes, enquanto no Japão são 40. Temos um programa de estímulo à universidade. Temos também déficit de cursos de medicina. Nossa oferta de médicos e engenheiros é muito aquém do necessário. Enquanto isso há oferta muito grande na área de direito, administração, enfermagem e pedagogia, que são 41% das inscrições nas universidades. O foco do programa Ciência Sem Fronteiras é justamente nesses grandes desafios para o desenvolvimento do Brasil: áreas tecnológicas, ciências médicas, física, química e matemática.

Valor: Há planos de ampliação do Sem Fronteiras, programa que inova a política educacional no governo Dilma?

Mercadante: Fechamos na semana passada 20 mil novas bolsas para estudantes brasileiros irem a universidades nos Estados Unidos. Tivemos já dois editais pelo Ciência Sem Fronteira, e no segundo foram mais de 20 milhões de acessos ao portal. O critério de acesso é ter no mínimo 600 pontos no Enem. Ao todo, já temos 546 bolsas para doutorado de quatro anos, 922 bolsas de doutorado de um ano, 629 bolsas de pós-doutorado e 5.783 bolsas para graduação de um ano, porque não queremos graduação plena, queremos que esse estudante volte depois de um ano. Hoje o programa abarca intercâmbios acadêmicos para EUA, Alemanha, França, Reino Unido e Itália. O terceiro edital sairá ainda neste mês e vai incluir parcerias com universidades do Japão, Coreia do Sul, Suécia e Holanda.

Valor: A valorização da carreira e a remuneração digna dos professores, em todos os níveis, especialmente o básico, sempre foram considerados requisitos para uma educação de qualidade. Os governadores, inclusive do PT, reagem à política do piso salarial. Dizem que ou pagam o piso, ou cumprem a Lei de Responsabilidade Fiscal que tem um teto para gasto com pessoal. Como vencer o impasse?

Mercadante: O piso nacional dos professores é essencial para que tenhamos uma educação de qualidade no médio prazo. Se quisermos bons profissionais no setor então precisamos ser competitivos do ponto de vista salarial. Nós precisamos e vamos fazer o piso continuar crescendo em termos reais nos próximos anos. Mas é evidente que um reajuste como o deste ano, de 22,2%, é muito forte, não podemos dizer que não é. É um reajuste do Congresso, eu apenas cumpri a lei que o Congresso aprovou. Mas era fundamental que nesses dois, três primeiros anos déssemos um empurrão no piso para começar a estabilizar a carreira.

Valor: Vai continuar crescendo?

Mercadante: Mesmo com esse reajuste, o piso, de R$ 1.451, é pouco mais de dois salários mínimos, ainda é pouco. O Congresso está criando uma comissão para pensar uma regra de reajuste para o futuro, de forma a atrair os melhores profissionais, porque precisamos fazer o piso continuar crescendo em termos reais.

Valor: Com uma política de reajuste automático como a do salário mínimo?

Mercadante: É, o salário mínimo, por muito tempo, tinha muita tensão, precisava um reajuste forte e o governo segurava. Com o mecanismo PIB mais inflação, esse ano injetamos R$ 27 bilhões a mais na economia devido ao novo salário mínimo. Mas tem havido um crescimento sustentado do salário mínimo, que melhorou a distribuição de renda, os índices de desigualdade social, e diziam que a economia não ia absorver, e a economia absorveu. Custa caro o piso do professor? Custa. Mas a ignorância custa muito mais.

Valor: E a alegação de que se o governador pagar o piso rompe o limite do gasto com pessoal, ferindo a Lei de Responsabilidade Fiscal?

Mercadante: Tem que analisar situações específicas. Em alguns Estados, mais da metade da folha de pagamentos é de aposentados e pensionistas. Então o problema não é o piso dos professores, mas a equação geral da remuneração e a relação entre aposentados e pensionistas. Ou seja, de reformas que não estão sendo feitas.

Valor: Como enfrentar esses desafios com os recursos orçamentários que a educação tem hoje?

Mercadante: A minha prioridade são os royalties do pré-sal. Em vez de pulverizar os recursos na máquina pública, vamos vincular prefeituras, Estados e União para impulsionar a educação.

Valor: A indústria registra altas taxas de rotatividade, fala-se em importação de mão de obra, e se defende criticando a baixa qualificação dos trabalhadores, o que amplia os custos de produção. Como o seu projeto no MEC pode participar da solução?

Mercadante: Temos 1,9 milhão de trabalhadores com carteira assinada na indústria de transformação que são analfabetos funcionais. Estamos fazendo um esforço enorme com o Pronatec, por meio da ampliação de bolsas para Sesi, Senai e redes federais. Além disso, o Fies também pode ser acessado pelas empresas. Ou seja, a companhia financia o estudo e o aprimoramento de seu trabalhador a custo subsidiado pelo Estado. Estamos dando instrumento novo para as empresas, que antes reclamavam que o custo para a bolsa de estudos do trabalhador era coberto com capital de giro. Mas é verdade que indústria tem problemas, ainda que as condições tenham melhorado muito com o dólar a R$ 1,80, com juros de um dígito, e vão melhorar mais com o grande esforço do governo para elevar a infraestrutura do país, com o PAC, além do mercado interno forte, que funciona como âncora.

Valor: Não há uma contradição entre a necessidade de formar mão de obra e o descredenciamento de instituições de excelência que faziam esse trabalho, como a fundação Dom Cabral e o Hospital Sírio-Libanês?

Mercadante: Para oferecer cursos de pós-graduação é preciso ser uma instituição educacional, que passa pela fiscalização e supervisão de educadores e técnicos. O critério foi esse. Mas queremos que haja a constituição de cursos, de instituições de ensino dentro de centros de excelência, claro. Estamos brigando para que hospitais de primeira linha como o Sírio-Libanês, Einstein, e outros, abram seus cursos de medicina, estamos com déficit de médicos.

Valor: O Exame de Ensino Médio (Enem), mecanismo de avaliação importante da política educacional, teve problemas na sua execução nos últimos três anos. Desde administrativos e policiais até de conteúdo e estratégia de aplicação da prova. Que solução o sr. dará a isso?

Mercadante: O Enem é estratégico. Os EUA têm um exame similar há 85 anos. Outros países como Alemanha, Itália, Inglaterra e China também têm. Na China já teve problema, inclusive com a prisão de 65 pessoas. Nos EUA deu problema no ano passado. A primeira dificuldade que temos no Brasil é logística, uma vez que falamos de 5,4 milhões de estudantes que precisam estar no mesmo horário com a prova em mãos. Temos de percorrer 309 mil km, 9,7 mil rotas, levando quase uma tonelada de papel, 71 batalhões do Exército, mais PM e Exército, para garantir o sucesso do Enem. O Senado fez prova de concurso nesta semana com instituição de excelência, com 10 mil provas, e mesmo assim, devido a problemas de logística, algumas provas atrasaram para chegar nos lugares certos. No último Enem não tivemos nenhum problema logístico. Estamos construindo uma experiência, já que o Enem é muito novo, e estamos desenvolvendo um método.

Valor: E o conteúdo da prova?

Mercadante: Tem que ser nacional, o sarrafo republicano tem que ser igual a todos. Como escolho aluno para o Ciência Sem Fronteiras? Pelo Enem. Como escolho os alunos para o ProUni? Pelo Enem. Como escolho os melhores para as melhores universidades? Pelo Enem. Com o Enem a chance passou a ser igual, do filho do reitor ao filho da faxineira. O Enem é necessário a um sistema republicano e democrático de meritocracia do estudante. Estamos tomando medidas para aperfeiçoar o exame.

Valor: Quais medidas estão encaminhadas?

Mercadante: Até agora são dois examinadores para cada redação, e se a nota entre eles registrar uma diferença de 300 pontos, a redação é encaminhada a um terceiro examinador. Estamos concluindo a revisão desse processo, mas devemos alterar para um modelo que reduz a diferença a 200 pontos. Se a diferença de nota entre dois avaliadores for superior a 200 pontos, a redação vai a uma banca de três examinadores. O Inep, que executa a prova, tem novo presidente, vamos fortalecer o Inep. Mas nada disso altera o Enem para os estudantes.

Valor: O ensino médio, sempre esquecido, entra de que forma no novo projeto?

Mercadante: O ensino médio é um setor nevrálgico. Temos hoje 83% estudantes matriculados, mas apenas metade (50,9%) estão na idade certa para a série em que estão. Além disso, temos uma evasão muito alta, de 10%, que se explica pelo mercado de trabalho aquecido, o que atrai esses jovens para o trabalho e não para a escola. Por fim os professores e as escolas não estão conseguindo atrair o jovem no ensino médio. Queremos incluir 2 mil escolas, neste ano, no ensino médio profissionalizante, expandindo o Pronatec. A segunda iniciativa é o tablet para o professor. O professor ainda é um imigrante digital, enquanto o aluno é um nativo digital. O quadro negro é do século XVIII. E o Brasil é o terceiro país onde mais se vende computador no mundo.

Valor: Entre seus novos projetos para o ensino médio e básico há uma reviravolta na educação no campo, certo?

Mercadante: Vamos lançar ainda neste mês o programa Pronacampo, que é fundamental para resolver uma dívida histórica do país. Só 18,4% dos alunos no campo estão na escola. Vamos levar carretas às escolas, com óculos e exames. O equivalente a 11 mil escolas, ou 15% do total, não têm luz, 10,4% não têm água, 14% não têm esgoto, 94% não têm banda larga, e 90% não têm internet. Primeira providência: todo o material didático será do universo rural, queremos criar uma bibliografia que estimule a permanência no campo. Outro problema é o transporte. A partir deste ano vamos distribuir 8 mil ônibus para facilitar o transporte de alunos e criar escolas com alojamento para professores e alunos. Fizemos uma parceria com a Embrapa para saber qual é o tipo de estrutura em cada região para desenhar o ensino profissionalizante. Temos que estudar as cadeias produtivas para isso.

Valor: No ensino básico ainda há analfabetos e milhões fora da escola. Como resolver?

Mercadante: Vamos tornar menos desigual o ensino na faixa de alfabetização, isto é, das crianças de seis a oito anos. No Paraná apenas 4,9% das crianças não se alfabetizaram quando completam oito ano, enquanto que em Alagoas são 35%. No Nordeste e Norte em geral são acima de 20%. Se não alfabetizarmos na idade certa, a evasão no ensino médio está colocada. Vamos fazer duas avaliações: uma aos sete anos, de forma a ter ainda um ano para corrigir se for preciso, e outra aos oito anos.

16/03/2012 - 10:43h Petrobras põe fim à trégua com os estaleiros do país

Graça Foster, presidente: “Não adianta sonhar, sonho não constrói sondas”, afirmou, referindo-se à crise no EAS


Por Cláudia Schüffner, Heloisa Magalhães e Francisco Góes | VALOR

Do Rio

A nova presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, que assumiu o cargo há pouco mais de um mês, deixou claro em entrevista ao Valor que pôs um fim à sua trégua com os estaleiros, aos quais a estatal tem encomendas de navios, sondas e plataformas. O principal alvo da executiva à frente da empresa, onde está há 32 anos, é atingir a meta de produção de petróleo, em 2020, de 6 milhões de barris por dia. A entrevista de Graça Foster ao jornal foi feita antes da decisão da saída da companhia coreana Samsung da associação no Estaleiro Atlântico Sul (EAS) com Camargo Corrêa e Queiroz Galvão. A executiva teve reunião com a fabricante coreana na quarta-feira, na sede da companhia, e, na sua opinião, ou a Samsung tinha uma participação expressiva no EAS ou não fazia sentido ficar apenas na associação com apenas 5%, 6% ou 10%.

Abaixo, os principais trechos da entrevista:

Valor: A Petrobras é criticada por descumprir as próprias metas de produção. Porque esse atraso?

Maria das Graças Foster: Nós estamos fazendo o que é previsível e, é um fato, a revisão do plano de negócios todos os anos. O plano de negócios termina e, em seguida, está sendo avaliado novamente. É nesse processo que nos encontramos. Na próxima semana vamos terminar toda a análise de 2012. Estamos pegando o plano de E&P [exploração e produção], abrindo completamente, olhando o que é eficiência operacional e começando a abrir [os números] como se fosse uma cebola, em cascas.

Valor: Há alguma boa notícia na área de produção?

Graça Foster: O que tem de muito bom acontecendo em 2012 é que começamos o ano com 16 sondas de perfuração operando. Ao longo de 2011 chegaram 10 sondas. Ao todo, são 26 sondas. E este ano chegarão mais 14 sondas, totalizando 40 [encomendadas].

Valor: A senhora pode falar sobre a visita que fez ao estaleiro EAS?

Graça Foster: Posso falar daquilo que cabe à Petrobras. Não posso falar das empresas porque não seria ético. Na quarta-feira, a Samsung [acionista do EAS, com 6% ]esteve aqui o dia inteiro reunida conosco.

Valor: A presidente Dilma pediu para a senhora auxiliar na negociação entre os sócios?

Graça Foster: Não recebi da presidenta nenhum pedido para tratar desse assunto. Como controlador desta empresa [Petrobras], o governo quer que a gente cumpra metas de produção, de refino, em relação ao etanol. Para produzir 6 milhões de barris de petróleo por dia [em 2020], tenho que resolver problemas de estaleiro. Nós contratamos a Sete Brasil e eu não vou ficar esperando a empresa resolver problemas que são muito maiores do que ela, pois sei de um problema que é claro de desempenho, abaixo da expectativa do mercado, por parte do Estaleiro Atlântico Sul.

Valor: E por que aconteceu?

Graça Foster: Porque não adianta sonhar, sonho não constrói sonda. Tem duas empresas brasileiras que têm tradição, empresas de envergadura que são Camargo Corrêa e Queiroz Galvão e outra empresa espetacular, a Samsung, que produziu o maior número de sondas de perfuração do mundo. Não adianta vir com 5%, 6% ou 10% [de participação societária] para o Brasil. Isso não funciona, não prospera. Não será possível fazer se a Samsung não crescer em participação societária. Não se pode imaginar que a Samsung, que tem um mercado lá fora que é todo dela, vem para cá com 6%. Ou ela vem para cá gostando do Brasil, dos sócios e de fazer dinheiro aqui… Eu, como não sou a Samsung, só posso dizer que acho que não viria por 5% ou 10%.

Valor: Qual é a solução?

Graça Foster: Que venha e cresça em participação societária e é isso que a gente espera.

Valor: E já há acordo?

Graça Foster: Eles estão discutindo o acordo. Nessa discussão, a Graça só fica olhando e provocando para que eles discutam.

Valor: Mas o acordo seria para a Samsung assumir o controle acionário?

Graça Foster: Não é assumir o controle. Até onde eu sei, veja bem, eu não tenho os detalhes porque eu não sou parte desse jogo, nem a Petrobras nem a Sete Brasil. Então, o que eu faço é [perguntar] se já teve a reunião com a Samsung. Se não teve, chamo a Samsung. Eu esperava que o seu CEO [da Samsung] viesse. Não veio? Veio quem? O vice? Então vamos conversar. Chego, vejo reunião morna entre Petrobras e Samsung e aí digo: “não vai embora não, vou chamar a Sete Brasil, vou chamar as duas empresas para sentarem”. Aí saio da sala porque não sou sócia. Depois da reunião, volto para saber quando vai ser o novo prazo.

Valor: Poderia ser um terço de participação cada um?

Graça Foster: Poderia, mas não sei se será assim. Só sei que do jeito que está não sai sonda.

Valor: Para a Petrobras há um atraso no contrato das primeiras sete sondas com o EAS?

Graça Foster: Parece que não, porque a primeira sonda está prevista para 2015 e como a Sete Brasil tem uma estratégia de contratação já contratou outras sondas, então ela insiste e a gente não tem porque não acreditar, até agora, que vai nos entregar em 2015 a primeira sonda.

Valor: Quando a Petrobras assina contratos das sondas com a Sete Brasil e com a Ocean Rig?

Graça Foster: Aí é diferente. Quero ver onde vai construir, quem são os sócios que estão lá. Eu vou assinar com a Sete Brasil, mas saberei o que estou assinando. Vou assinar porque estou vendo que essas três [sondas] vai fazer ali, duas aqui. Não é ali no meio do mato, sem plano.

Valor: Como vai ficar isso?

Graça Foster: Terão de fazer.

Valor: Alguns dos estaleiros ainda não existem.

Graça Foster: Não tem problema não existir, não pode é não ficar existindo por muito tempo. Os projetos têm um tempo. Não há problema de o estaleiro ser virtual. Só vai ter assinatura de contrato na hora em que a Sete Brasil demonstrar por A mais B mais C mais D mais E que vai construir ali e que aquele estaleiro tem toda a condição de receber a encomenda porque tem um plano B, um plano C. Então a pressão junto à Sete é verdadeira. Não fui nomeada pela presidente [neste assunto]. A presidente me cobra meta e segurança operacional.

Valor: As sondas no Brasil serão construídas com custo em bases internacionais?

Graça Foster: Não tem no contrato com a Sete Brasil, nas sete primeiras [unidades], espaço para aumentar de preço. Se aumentar, está na conta da Sete.

Valor: Qual é o tempo de atraso das sondas?

Graça Foster: Essas sondas atrasaram 36 meses no total e não tem nenhuma brasileira. São todas feitas no exterior. A Petrobras pode fazer um trabalho na frente de que essas sondas vão funcionar este ano. E vão trazer grandes resultados a partir de 2013 e 2014. Depois, vem as unidades de produção. Começamos 2011 com 111 unidades e chegaram mais duas, depois chegaram mais cinco, e este ano, mais duas. Ao final de 2013, teremos 127 unidades de produção. Então teremos as sondas de perfuração, as sondas de produção e o óleo descoberto. Não tem como dar errado.

Valor: Mas trata-se de um atraso de três anos.

Graça Foster: Não é atraso de três anos. É atraso de 36 meses. Uma sonda atrasou três meses, outra cinco meses, outra quatro. Quando soma, tem 36 meses no conjunto. Este ano temos planejamento para fazer 42 poços e estão em harmonia com a chegada das sondas.

Valor: Dá para dizer que atrasou o pré-sal?

Graça Foster: Atraso do pré-sal não. Mas essas sondas que atrasaram 36 meses causam impacto na carteira toda. Você tem recursos e movimenta esses recursos em direção ao que há de maior volume potencial de produzir. Não há correlação direta: atrasou a sonda, atrasou o pré-sal.

Valor: A queixa é que a empresa gasta demais e não produz. Aí vem um outro tema, que é o preço cobrado dos combustíveis. O preço interno inferior ao internacional não é um problema?

Graça Foster: A Petrobras tem um plano de negócios, um pré-sal pela frente, um plano de refino, de novas refinarias, uma série de compromissos já iniciados no que se refere ao investimento e a construção dos ativos. A Petrobras investe US$ 225 bilhões [até 2015], olha para dez anos à frente e para 2020 com uma meta de produção de 6 milhões de barris de óleo equivalente [por dia] ou 4,67 milhões de barris de óleo líquido de gás [por dia]. O fato é que o nosso investimento é de longo prazo e a política de preços também é de longo prazo.

Valor: Qual o benefício?

Graça Foster: Entendemos que é bastante favorável que esse mercado novo vingue. Essas refinarias, no passado, eram todas para a exportação. E reverteu o quadro por conta da inclusão social, da fatia nova de consumidores. Temos noventa e tantos por cento do consumo de gasolina e de diesel no país. Produzimos e consumimos aqui. Temos a produção doméstica, as refinarias e o consumidor aqui. O custo de logística é mínimo comparado com o custo de colocar [os derivados ou petróleo] em um mercado que está a cinco mil milhas e que tem outros ofertantes.

Valor: E as perdas?

Graça Foster: O nosso investimento é de longo prazo, o resultado é de longo prazo e a política de preços também. Esse mercado novo, que cresce em torno de 40% a 50% – essa é a projeção para até 2020 -, é muito interessante. Estados Unidos, Japão e Coreia não ficam dependentes em mais do que 10% da importação de líquidos. No caso da Petrobras, se não tivéssemos esse parque de refino, estaríamos com 40% de importação de derivados e exportando mais petróleo com a volatilidade contra nós na exportação e na importação.

Valor: Mas, e as perdas?

Graça Foster: O que acontecem são perdas reais em determinado mês, em determinado trimestre, como aconteceu no último trimestre de 2011, quando a gente importou muito mais derivados e não teve a paridade exata de preços com o mercado interno. Agora, esse mercado novo para nós é muito valioso. Então, neste mês perdemos, no [quarto] trimestre nós perdemos, mas no conjunto do ano tivemos o segundo melhor resultado da Petrobras – o melhor foi o de 2010 e o de 2011 foi R$ 3 bilhões menor no resultado líquido. Além do que, em 2008, 2009 e parte de 2010 estávamos vendendo mais caro aqui do que estava lá fora. O que queremos é que haja estabilidade econômica, que esse mercado cresça. Em determinado momento vamos ter que ajustar, isso é inexorável. Estou dizendo com todas as letras que vai ter de ajustar em determinado momento.

Valor: Em que momento?

Graça Foster: O momento será aquele necessário para não perdermos a capacidade de investir. O mercado cresce e vai chegar um certo momento em que vai aumentar o preço e ficar mais caro aqui do que lá fora. Não sei que momento é esse, se é em três anos ou daqui a dois ou um. Então, vamos estar com um volume maior que é todo nosso e vou ganhar esse dinheiro de volta.

Valor: O conteúdo nacional é uma política do governo, mas há preocupações com aumentos de custos. Como a sra. vê esse assunto, que é muito sensível, dado o tamanho das encomendas?

Graça Foster: O que me preocupa não é a questão do conteúdo nacional. Todos os números foram apresentados pela Petrobras ao governo. Então não me venha chorar que não dá [para cumprir os compromissos], porque foi você [a empresa] que levou o número. Digo isso porque já estive do lado de lá. Eu montei, com a colaboração da Petrobras, o primeiro Prominp [Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural]. José Eduardo Dutra [diretor da estatal] era presidente da Petrobras, a presidenta Dilma, ministra de Minas e Energia, e, eu, secretária de petróleo e gás [do Ministério de Minas e Energia]. Foi feita uma conta e foi apresentada ao governo 60%, por exemplo, para o conteúdo local de uma sonda de perfuração. O número que é fechado é de total e absoluta responsabilidade da Petrobras, foi a Petrobras que concordou.

Valor: E outras operadoras também.

Graça Foster: E outras tantas operadoras.

Valor: Há entre as empresas quem diga que achava que conseguiria cumprir o conteúdo local, mas não tinha certeza.

Graça Foster: O que havia talvez fosse a possibilidade de que o governo recuasse, mas o governo não vai abrir mão, é política de governo. Acontece na Noruega e em tantos países defender que a indústria de petróleo e gás passe também pelo desenvolvimento da indústria de bens e serviços. Existe uma questão fundamental que cada empresa tem que cuidar que é documentar porque o dia vai chegar. Vai chegar o dia em que [a empresa] terá que ir lá provar [na ANP] que fez o conteúdo local.

Valor: Mesmo que onere custos?

Graça Foster: As 40 sondas que comentei foram feitas fora e estão em valores de mercado. E a gente só assina o contrato [com Sete Brasil e com Ocean Rig ] se o preço estiver dentro das métricas internacionais porque não tem como contratar com valor maior.

Valor: E a questão dos minoritários no conselho de administração. Como a senhora vê a reclamação?

Graça Foster: É algo que a Petrobras não tem poder. Vejo os minoritários tomando posição a favor da companhia no entendimento deles, das melhores práticas [de gestão], das questões de mercado. Vejo com satisfação o movimento a favor da companhia no sentido de observá-la, de participar mais dedicadamente da gestão da companhia através de seu representantes de ações ordinárias e preferenciais. Mas deixo claro, conheço o Josué [Gomes da Silva, presidente da Coteminas, cuja indicação vem sendo criticada], ele é um excelente quadro técnico. Antes de vocês chegarem, eu estava usufruindo do conhecimento do conselheiro [Jorge] Gerdau. Conversamos sobre Petrobras, sobre a indústria. É fantástico ter o minoritário participando da minha vida, de minha gestão, dando ideias.

Valor: Mas há insatisfação dos minoritários em relação a sua representação…

Graça Foster: É algo que não tenho que opinar, é sobre o processo de eleição.

Valor: Quando vão anunciar o plano de desinvestimento?

Graça Foster: Esse ano tem uma programação relevante de desinvestimento. Não posso falar, mas posso dizer que inclui ‘farm-outs’ [venda de participações em campos de petróleo].

Valor: A Argentina está cobrando mais investimentos da Petrobras nas operações locais?

Graça Foster: A reunião acho que será na semana que vem. Eu ainda não sei qual é a agenda. Não vamos investir mais para perder, mas para ganhar, então tenho que conhecer as regras. A depender das regras, a gente pode se interessar mais ou menos pelo negócio.

Samsung deixa de ser sócia do EAS

Por Ivo Ribeiro | VALOR
De São Paulo

Depois de fortes pressões, inclusive da direção da Petrobras, a maior cliente do Estaleiro Atlântico Sul (EAS), a companhia coreana Samsung Haevy Industriais deixou ontem, após frustradas negociações, a associação que tinha com Camargo Corrêa e Queiroz Galvão no estaleiro, localizado dentro da área do porto de Suape, em Pernambuco.

As duas sócias brasileiras do EAS, que exerceram o direito de preferência na compra da participação de 6% da coreana, já negociam com dois grupos estrangeiros um novo parceiro tecnológico para o estaleiro. A escolha por um deles deverá sair logo, apurou o Valor com uma fonte que acompanha as negociações.

A avaliação de um dos sócios é que a Samsung trabalhava contra o EAS o tempo todo, querendo levar a produção para a Coreia e inviabilizar o EAS.

A Samsung foi escolhida desde o início do projeto, sete anos atrás, para ser a fornecedora de tecnologia ao EAS na construção de navios, sondas de perfuração de petróleo e plataformas. O EAS, o maior e um dos mais modernos do país, no entanto, vinha enfrentando uma série de problemas, como atraso nas entregas, problema na construção do primeiro navio, o “João Cândido”.

O navio é primeiro petroleiro a ser lançado ao mar no âmbito do Programa de Modernização da Frota da Transpetro (Promef), mas até agora não foi entregue à subsidiária da Petrobras. Ao todo, as encomendas da Transpetro ao EAS somam 22 petroleiros e R$ 7 bilhões, dos quais cerca de 90% financiados pelo BNDES. Além de navios, há pedidos de sondas.

A saída repentina da Samsung vai na direção oposta do que desejava o governo. Nos últimos dias, a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, seguindo orientação da presidente Dilma Rousseff, que está preocupada com atrasos na entrega de encomendas e com problemas tecnológicos do estaleiro, vinha negociando o aumento da fatia dos coreanos no EAS.

09/03/2012 - 15:15h A prioridade é o transporte público, diz Haddad

Haddad: “O Brasil está vivendo um momento de ouro, somos vitrine no mundo e São Paulo não figura como cidade inovadora do ponto de vista do poder público”


Por Cristiane Agostine e Maria Cristina Fernandes | VALOR

De São Paulo
A sete meses das eleições municipais e com 3% das intenções de voto na disputa pela Prefeitura de São Paulo, o pré-candidato do PT, Fernando Haddad, ainda não fechou acordo com nenhum partido, revela desconhecer os planos do PSB e reconhece que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz falta nas negociações.

Mais à vontade quando a conversa migra para suas propostas de governo, diz que o melhor da gestão Gilberto Kassab são alguns de seus projetos de reurbanização de favelas feitos em parceria como PAC federal, que pretende expandir. E o pior, os transportes. Pretende dobrar os investimentos feitos nos últimos oito anos no setor com metas para corredores de ônibus e transferência de recursos para o metrô, desde que o governo estadual se comprometa a dar mais celeridade às obras de expansão da malha metroviária.

Na educação, o ex-ministro da Pasta defende ideias que o aproximam do PSDB e do pré-candidato do PMDB, Gabriel Chalita, como a meritocracia e a bonificação de professores de acordo com o desempenho dos alunos. Evita criticar a progressão continuada, outro ponto que sempre colocou em campos opostos PT e PSDB, e diz que terá metas para o ensino em tempo integral.

Na saúde, o petista se distancia do PSDB e da gestão Kassab, ao defender o modelo federal para hospitais e postos de saúde que construirá, em detrimento da gestão terceirizada a organizações sociais. A seguir, trechos da entrevista concedida ao Valor na tarde da quarta-feira na sede do diretório municipal do PT.

Valor: O senhor começa a campanha num patamar muito baixo de conhecimento e intenção de voto. O PT teve programas de TV cassados. Qual é sua a estratégia para alavancar a campanha?

Haddad: Tivemos percalços. Um deles foi a doença do [ex] presidente Lula, que ninguém esperava. Agora essa falta de tempo de televisão. Vamos ter que nos dedicar ao que estamos nos dedicando: conhecer os problemas da cidade, elaborar o plano de governo e, quando tivermos a chance, apresentá-lo à sociedade.

Valor: Não há uma estratégia delineada de como aumentar a sua exposição?

Haddad: Olha, a estratégia é a que todos vão adotar…

“Fizemos a parte mais difícil que foi o Bilhete Único, enquanto eles não investiram na expansão dos corredores”

Valor: Mas sua candidatura tem um perfil diferente, com taxa de conhecimento muito mais baixa.

Haddad: É muito mais baixa. Mas vou participar dos eventos para os quais eu for convidado. Tenho entrevistas e visitas agendadas, mas numa cidade de 11 milhões de habitantes, imaginar que há alternativas equivalentes à exposição de televisão…

Valor: Então o senhor não vai intensificar a campanha de rua?

Haddad: Não é uma campanha de rua. Não estou indo à periferia, aos bairros, às subprefeituras para encontrar pessoas que não me conhecem ainda. Pelo contrário. Estou me dedicando a falar com quem entende dos assuntos e vive os problemas da cidade para que o diagnóstico esteja o mais perto possível da realidade. São lideranças, gestores públicos, técnicos da prefeitura que me conhecem e que estão me subsidiando para a confecção de um plano de governo.

Valor: A presidente Dilma, que era pouco conhecida quando pré-candidata, teve mais exposição do que o senhor terá. Essa estratégia de apostar muito no horário eleitoral, que tem curta duração, não o prejudica?

Haddad: Temos um projeto para a cidade. Tenho certeza de que vamos apresentar a melhor plataforma. Isso pesa na decisão do voto. Confio nessa estratégia, não em qualquer outra.

Valor: Qual o perfil adequado para o seu vice?

Haddad: Estamos em etapa que antecede essa. Se não soubermos com quem estaremos no primeiro turno – e isso pode demorar semanas – não há como definir o perfil de antemão.

Valor: Como será a composição da coordenação da sua campanha? Marta Suplicy terá papel de destaque?

Haddad: Vamos discutir isso na semana que vem. Essas coisas às vezes se resolvem em maio, junho e estamos resolvendo em março. Não discuti com ela [Marta] os termos de sua participação. Ela vai definir e vou respeitar a decisão que tomar, qualquer que seja o alcance da participação, se será agora ou daqui a três meses.

Valor: O senhor contava com Lula na articulação das alianças e a defecção do PSD fez partidos com que o PT contava já não serem mais tão certos. Na ausência de Lula, como se dará a confecção da aliança?

Haddad: Estabelecemos uma relação de diálogo com esses partidos. Não estamos nos propondo a fazer as barganhas que estão sendo noticiadas. Não vamos proceder dessa maneira.

Valor: Mas a ida do senador Marcelo Crivella para o governo já não foi uma barganha?

Haddad: Absolutamente. Tanto é que não houve consequência nenhuma no cenário local. É uma composição antiga com o PRB, que remonta aos tempos do vice José Alencar.

Valor: O PR e o PDT querem mais ministérios e ao mesmo tempo têm negociado com o PT…

Haddad: O PR e o PDT estão em ministérios. O que às vezes incomoda é o partido não se sentir representado por um filiado, o que é natural. Mas estão na base do governo e representados no ministério. É uma aliança que remonta ao governo Lula, no primeiro mandato.

“Ninguém é contra a meritocracia, minha única recomendação foi de houvesse diálogo com os docentes”

Valor: O PT não corre o risco de ficar isolado?

Haddad: Na cidade o jogo duro com o PT sempre foi a regra, não exceção. A Marta, que concorreu três vezes, nunca teve moleza para compor aliança. A máquina do Estado sempre atuou no sentido de tentar nos isolar.

Valor: Marta teve o apoio do bloquinho e do PR, mas agora até o PCdoB ameaça com candidatura própria. Com quem o PT já conta?

Haddad: Não temos aliança fechada com nenhum desses partidos. Penso que as coisas não devem se desdobrar no curto prazo.

Valor: Com o PSB, o governador Eduardo Campos disse que o apoio não será fechado agora. O PT ainda tem algo a oferecer?

Haddad: Não foi pedido nada para mim. [O PT] vai atrair como Lula atraiu, como a presidente Dilma atraiu, como a Marta em uma eleição atraiu – na outra não conseguiu. Tem um tabuleiro montado no país, muitas variáveis em jogo. Mas a decisão cabe ao PSB.

Valor: Informalmente, Kassab atribuia a culpa de o PSD não ter fechado aliança ao fato de o PT ter demorado a aceitá-lo. Houve essa demora?

Haddad: Ele nunca procurou o PT formalmente. Nunca se sentou com o presidente nacional do partido, nem com o municipal. Sempre deixou claro que se Serra fosse o candidato ele o apoiaria. Fizemos oposição ao governo dele durante oito anos. Ele estava oferecendo apoio sem pedir nada em troca, num primeiro momento. Mas isso foi feito pelos jornais.

Valor: Mas era uma aliança bem vista por Lula e pela direção estadual do PT. O acordo teria evitado o apoio do PSD ao Serra?

Haddad: O [ex] presidente Lula, quando conversou comigo, estava muito animado com a possibilidade de termos na chapa, como vice, o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles. Isso realmente sensibilizou o presidente Lula e foi nesses termos que ele tocou no assunto comigo, na única vez que conversamos sobre o tema, em decorrência da visita que o prefeito Kassab tinha feito a ele. Houve a ideia de que nosso projeto nacional estaria bem representado na cidade se tivéssemos dois representantes de seu governo com perfis complementares.

Valor: PT e PMDB têm acordo de apoio mútuo no segundo turno. O senhor acha que Chalita ajuda mais a sua candidatura saindo como candidato separado agora?

Haddad: Temer me explicou que [o PMDB] está sem representação na cidade, com pouca representação no Estado e que há necessidade de lançar um nome novo. A estratégia do PMDB de se recolocar no Estado me parece mais do que legítima. Temer me disse: nós estaremos juntos no segundo turno.

Valor: Além da oposição a Kassab o que o aproxima de Chalita?

Haddad: O país está vivendo um momento de ouro, somos vitrine no mundo. E São Paulo não figura como cidade inovadora do ponto de vista do poder público. Ao contrário do setor privado que mostra uma pujança incrível, uma vontade de investir, de progredir, o poder público local está muito intimidado. A perspectiva comum que nos anima é essa. A ideia de que podemos colaborar com a cidade.

Valor: No passado o PT teve grandes diferenças com Chalita na bonificação dos professores que teve a oposição do PT. Na gestão Kassab a meritocracia virou regra. Qual será sua posição?

Haddad: Ninguém é contra a meritocracia. Muito pelo contrário. Se tem uma coisa que não há como negar é que quem implementou no país plano de meta em qualidade de educação foi o governo Lula. Ninguém sonhava com isso antes de 2005, quando criamos a Prova Brasil e houve resistência do governo do Estado de São Paulo, que não aplicou a Prova Brasil naquele ano.

Valor: Houve grande resistência do PT também.

Haddad: Sofri resistência de todo mundo. Ninguém queria quebrar esse paradigma. Eu apliquei a primeira Prova Brasil, dei transparência aos dados. Criei o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o Ideb. Quem inventou esse sistema de metas de qualidade fomos nós. Fixamos diretrizes e metas de qualidade pela primeira vez no Brasil. Todos os governadores e prefeitos aderiram. A única recomendação, no que diz respeito a docentes, é que se tentasse construir em comum acordo com a categoria as medidas de mérito.

Valor: Mas o Ideb ajuda as escolas que estão em uma situação ruim, enquanto a política de meritocracia de São Paulo premia quem vai bem…

Haddad: Criamos isso também. Nós criamos as duas coisas. Para aquelas escolas que cumpriam as metas, o recurso era destinado automaticamente e recebia um recurso adicional. As que não cumpriam metas não eram penalizadas, mas para receber recursos tinham que apresentar um plano de reforma pedagógica. Os Estados aderiram e copiaram o mecanismo, cada um à sua maneira.

Valor: Em relação à progressão continuada, o senhor pretende mantê-la? O PT mostrou-se contrário na eleição estadual de 2010, com Mercadante.

Haddad: O que falta nas políticas públicas, em geral, não é o conceito de progressão continuada. Faltam as aulas de recuperação. Não há preocupação com a recuperação das crianças com defasagem de aprendizado, o que só é possível com a ampliação da jornada para um segundo turno, com atividades diferentes do primeiro, incluindo aula de recuperação específicas. [O PT] é contra a aprovação automática. Eu já assinei resolução do Conselho Nacional de Educação sobre esse assunto, disciplinei esse assunto no país.

Valor: O senhor tem meta de escolas em dois turnos?

Haddad: Vamos fixar no plano de governo metas específicas. Hoje o município não tem nenhuma meta.

Valor: Qual sua avaliação sobre a política de internação compulsória em São Paulo?

Haddad: Internação compulsória sem autorização judicial é uma temeridade. Sou contra. Não vislumbro possibilidade de dispensar o Judiciário para uma discussão que tem a ver com liberdades individuais e que abre perspectivas de uma jornada muito autoritária em relação aos indivíduos. Na forma da lei, com laudos médicos, em casos onde há risco efetivo, com prazos, providência assistencial, é uma coisa que as sociedades civilizadas contemplam.

Valor: A internação compulsória tem apoio de 80% da população, segundo pesquisas. Como o senhor vai trabalhar isso?

Haddad: Penso que a pergunta não foi corretamente feita pela pesquisa. Quero crer que o cidadão não tenha sido devidamente esclarecido sobre os riscos de uma autoridade internar uma pessoa sem critério. Duvido que as pessoas, uma vez esclarecidas, deem apoio para medidas arbitrárias que podem levar a um regime de força e a um quadro de exceção no país.

Valor: A internação compulsória não tem apelo junto a um eleitorado de histórico conservador que o senhor precisa conquistar?

Haddad: Não posso abdicar das minhas convicções por conveniência eleitoral. Qual é o partido que não defende a segurança pública? Alguém contra a internação judicial quer a desordem? Daí não estamos falando de democracia.

Valor: O senhor concorda com a atuação da prefeitura na Cracolândia? Qual sua política para a região?

Haddad: A prefeitura não tem força policial. A ocupação do território ali era importante. A Polícia Militar tem que atuar onde há tráfico e envolvimento de crianças e mulheres grávidas com drogas, mas acompanhada de uma visão assistencial e de saúde pública, para evitar a disseminação de cracolândias pelos bairros, que é uma reclamação de moradores que não estavam sofrendo esse problema e agora estão. Houve um descompasso. Poderia ter sido diferente se houvesse a concorrência do setor da saúde e da assistência.

Valor: Em São Paulo as organizações sociais ganham terreno na administração da saúde. Qual será sua política em relação às OSs?

Haddad: Em primeiro lugar, nesse debate me manifestei contrário à privatização dos leitos do SUS que se tentou fazer no governo do Estado. Os leitos públicos têm que ser 100% SUS. Uma segunda questão é a gestão. Reconheço a excelência de trabalho de algumas OSs, mas tenho preocupação com o relatório do Tribunal de Contas do Município em relação a algumas delas, com irregularidades. As regras de prestação de contas, de controle social precisam ser organizadas. Caso contrário, vai se investir cada vez mais na saúde e não veremos o retorno na qualidade.

Valor: O senhor aprova esse sistema de gestão?

Haddad: Há OSs que têm modelo de excelência. Agora os hospitais que vamos construir eu não pretendo terceirizar. Vamos adotar o modelo federal.

Valor: E os postos de saúde como as AMAs?

Haddad: O que está pactuado nós vamos manter, a não ser no caso de irregularidade comprovada. Há casos em que incidiremos para corrigir distorções. As novas unidades vão seguir o modelo federal, de empresa pública.

Valor: O senhor disse que o que está pactuado será mantido. E os contratos com as empresas de ônibus, que são objeto de tantas reclamações de usuários, o senhor se dispõe a revê-los?

Haddad: Obrigatoriamente, porque o prazo para revisão é 2013. Não há como prorrogar. Não foi feito absolutamente nada no transporte em ônibus de oito anos para cá. Não tem investimento em terminais, em corredores, na operacionalização e racionalização do sistema. Se publicarmos o edital para a renovação das concessões esse edital vai ter que prever regras para repactuar o sistema. Fizemos a parte mais difícil da remodelagem do sistema, que foi o Bilhete Único. De lá para cá, o que era mais fácil – racionalizar, otimizar, expandir os corredores -, não foi feito. Por quê? Abandonaram o sistema multimodal. A velocidade média vai cair ainda mais se essa decisão não for revertida.

Valor: O senhor pretende mudar a política municipal em relação ao metrô? Kassab prometeu investir no metrô, entrou com parte dos recursos prometidos. A prefeitura tem capacidade financeira?

Haddad: Temos condição, sim, de ajudar o metrô. Temos que repactuar essa relação, auxiliar o metrô e exigir um pouquinho mais de ritmo. Com dois quilômetros por ano estamos na lanterna do mundo emergente. O aporte em troco do quê a mais para São Paulo? O aporte em troca do mesmo não me parece muito justo. Os custos estão aumentando e a quilometragem do metrô anda no mesmo passo, de dois quilômetros por ano.

Valor: Qual sua opinião sobre pedágio urbano?

Haddad: A restrição tem que se justificar pela oferta de transporte público e isso está fora de cogitação pelo simples fato de que a cidade não está fazendo o dever de casa. Se tivéssemos 250, 300 km de corredores de ônibus, 100 km de metrô, teríamos condições de até inibir não só com pedágio, mas com outras maneiras como o rodízio.

Valor: Quando fala em restrição, o senhor apoia a medida tomada por Kassab de proibir a circulação de caminhões na Marginal em determinados horários?

Haddad: Vamos pagar caro o fato de termos errado no abandono do modelo de sistema de transporte [em 2005]. Não se abre mão de um modal tão importante, tão capilarizado por um capricho partidário. Tem que reconhecer que foi tomada uma medida errada e é preciso acelerar o passo trazendo o PAC. Temos que investir dobrado depois desses oito anos para recuperar o tempo perdido.

Valor: O prefeito engordou o caixa e chegou neste ano com R$ 6 bilhões para investir. Se esse dinheiro estivesse nas suas mãos, como investiria?

Haddad: Teria ampliado os corredores, investido muito em transporte público, construído centros de educação infantil, creche e pré-escolas, para dar conta do déficit que é enorme. Teria construído hospitais, robustecido o sistema de saúde para responder mais prontamente à demanda por exames; provavelmente [investiria] em profissionais especialistas. Na questão ambiental, a coleta seletiva praticamente estagnou. Não houve investimentos. O mesmo aconteceu com as ciclovias. Temos que pensar a bicicleta como alternativa concreta, não apenas como lazer.

Valor: Qual seria o principal problema da gestão Kassab?

Haddad: É quase unânime que houve um erro estratégico no transporte público e mobilidade urbana. Temos que aproveitar as eleições para admitir esse erro e recuperar o tempo perdido. A parceria com o governo federal é essencial.

Valor: E qual é a melhor política pública da atual gestão?

Haddad: Gosto de parcerias que foram feitas com o governo federal na urbanização de favelas, mas foram muito poucas.

Valor: Como o senhor pretende levar essas propostas de mudança para uma população que resiste ao PT?

Haddad: Não sei se é vício de professor, mas acredito na tese do melhor argumento. Dou aula porque acredito que você pode transmitir conhecimento, quando se aprofunda nos debates em que se envolve. Acredito que vamos apresentar os melhores argumentos para vencer estas eleições. Não posso assegurar que serão suficientes, mas eu acredito que possam ser suficientes. A cidade está aberta, preparada para ouvir.

07/03/2012 - 08:55h “PIB forte no fim do ano já está contratado”, diz ex-ministro

Mendonça de Barros: “Olhar para a desaceleração do PIB no 2º semestre é estar com o relógio atrasado em seis meses”


Por Sergio Lamucci | VALOR

De São Paulo

A recuperação da atividade econômica já está contratada e o Produto Interno Bruto (PIB) vai registrar um crescimento expressivo no fim deste ano, na casa de 5% a 6%, diz o ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros, mostrando pouca preocupação com o resultado fraco do segundo semestre de 2011, revelado ontem pelo IBGE. Segundo ele, o PIB avançará com força ao longo do ano, estimulado pelo maior fôlego da renda real, num cenário de queda da inflação, favorecida pelo alívio das commodities, e pelos cortes de juros e do relaxamento de algumas medidas macroprudenciais (de controle do crédito) promovidos pelo Banco Central.

“Olhar para a desaceleração do PIB no segundo semestre é estar com o relógio atrasado em seis meses. O relógio atualizado mostra que o PIB estará crescendo 5% a 6% no fim do ano, um ritmo até superior ao que a economia aguenta”, diz Mendonça de Barros, sócio da Quest Investimentos. Para ele, o consumo vai liderar a recuperação, mas o investimento seguirá atrás em seguida. O BC tem espaço para reduzir mais um pouco os juros, dos atuais 10,5% para 9,5% ao ano, mas não deve avançar muito mais no ciclo de corte da Selic, para não aquecer demais a atividade econômica, diz Mendonça de Barros.

Para o ex-ministro do governo Fernando Henrique Cardoso, a desaceleração do PIB no segundo semestre de 2011 foi fruto do cenário que prevaleceu no começo do ano passado. O PIB virou o ano crescendo muito, houve um choque de commodities que comeu a renda real e o BC elevou os juros e adotou medidas de restrição ao crédito. O resultado foi um segundo semestre fraco, mas que já é passado, segundo ele, que projeta um crescimento médio de 3,5% em 2012. No fim do ano, porém, o ritmo de expansão será bem mais forte, insiste ele.

Valor: Como o sr. analisa o resultado do PIB de 2011?

Luiz Carlos Mendonça de Barros: É preciso tomar cuidado porque o resultado do PIB no segundo semestre é fruto do que ocorreu lá atrás. Na virada de 2010 para 2011, ocorreram três coisas importantes. A primeira é que a economia entrou o ano crescendo a taxas ainda muito elevadas. Para usar uma linguagem simples, a economia estava bombando nessa época. O segundo fato é que houve um choque monstruoso de commodities na virada do ano, que chegaram a crescer 30% ao ano. Isso é importante porque chegou na inflação, comendo renda real. Como o consumo é quase dois terços do PIB, essa queda de renda real levou à redução do consumo para frente, batendo principalmente no terceiro trimestre. O terceiro evento é que, assustado com a inflação, o BC estava subindo os juros e tomando medidas macroprudenciais, que desaceleraram o crédito. Então o PIB do segundo semestre é resultado desses três fatores.

Valor: E o que o momento atual diz sobre o PIB de 2012?

Mendonça de Barros: Agora há um movimento na direção contrária do que ocorreu na virada de 2010 para 2011. As commodities caíram, o que desacelera a inflação. Como os salários nominais continuam a crescer a uma taxa de 8% a 9%, haverá aumento da renda real. A queda da inflação libera renda. Além disso, o BC está reduzindo os juros e relaxando algumas das medidas macroprudenciais. No fim de 2012, a economia estará crescendo 5% a 6%. Isso já está contratado.

Valor: Que desafios essa composição do PIB traz para a política monetária?

Mendonça de Barros: A política monetária age com defasagem. O que for feito agora vai influenciar o fim de 2012. Tem que tomar cuidado porque no fim do ano a economia estará crescendo 5% a 6%, e estímulos demais podem acender um sinal amarelo.

Valor: O BC indicou que vai baixar os juros para a casa de um dígito. Ele deve fazer isso?

Mendonça de Barros: Ainda há um certo espaço para cortar a Selic. Pode reduzir até 9,5%, já que essa coisa de um dígito ficou tão importante. Mas eu não iria mais longe do que isso. É comprar um problema mais à frente. O BC precisa começar a olhar para a demanda no fim deste ano, que deverá estar forte. Para o PIB avançar os 3,5% que eu estimo, terá que estar crescendo 5% a 6% no fim do ano.

Valor: O consumo já mostrou uma recuperação no quarto trimestre. A retomada do crescimento será liderada pelo consumo?

Mendonça de Barros: No Brasil é sempre assim. Depois o investimento vai atrás. A inflação voltou para um nível razoável com a queda das commodities. Com a inflação mais baixa, sobra mais dinheiro para o consumidor. Há também o efeito do aumento do salário mínimo. O crédito deverá voltar a crescer mais, e haverá o impacto defasado da queda dos juros. Projetamos crescimento de 4,5% do consumo das famílias, com uma alta de 6% a 6,5% no fim do ano.

Valor: O investimento teve um desempenho decepcionante em 2011 e mostrou um resultado muito fraco no segundo semestre. Ele vai se recuperar em 2012?

Mendonça de Barros: O investimento é sempre defasado em relação ao consumo. Nós entramos 2010 para 2011 com o investimento forte, reagindo ao aumento de demanda gerada em 2010. Quando se percebeu a desaceleração do consumo por causa do efeito da inflação mais alta sobre a renda e da ação do BC, houve uma desaceleração do investimento. No ciclo de curto prazo, é assim que as coisas funcionam. Da mesma forma, os empresários voltarão a investir quando ficar mais claro que o consumo voltou a crescer. Ninguém vai querer perder mercado.

Valor: O sr. então está convicto da recuperação do PIB em 2012.

Mendonça de Barros: Olhar para a desaceleração do PIB no segundo semestre é estar com o relógio atrasado em seis meses. O relógio atualizado mostra que o PIB estará crescendo 5,5% a 6% no fim do ano, um ritmo até superior ao que a economia aguenta. E é importante entender que o PIB de 2,7% do ano passado é irmão gêmeo dos 7,5% de 2010. O governo não preciso fazer mais nada. Eu fiz uma conta do crescimento médio do PIB de 2005 a 2012, considerando a nossa projeção de 3,5% para este ano. Dá uma média de 4%. É um número bastante razoável. Há quanto tempo o Brasil não consegue crescer 4% em média por oito anos? Há fatores importantes que dão solidez para a economia, ainda que haja problemas estruturais, como a falta de competitividade da indústria. Há um mercado de consumo muito grande, a renda está preservada, o crédito funciona e há os ganhos de termos de troca proporcionados pela China, que elevaram o nível dos preços de commodities. Isso garante um saldo comercial razoável, que ajuda a financiar a importação.

Valor: O cenário externo pode colocar em risco a recuperação?

Mendonça de Barros: O cenário externo assustava mais quando havia o risco de um colapso na Europa, uma crise financeira. Mas esse risco parece não existir mais. Os governos passaram sete ou oito meses batendo cabeça, mas agora tem um plano de voo. E houve a ação importante do Banco Central Europeu.

Valor: E a indústria de transformação? O resultado foi muito ruim, com crescimento de 0,1% em 2011

Mendonça de Barros: A questão é de falta de competitividade. O câmbio é um problema, mas há questões de custo mais importantes. O gás natural e a energia elétrica estão muito caros. A mão de obra também. O editorial do Valor de hoje [ontem] diz que é preciso transformar o aumento de arrecadação em desonerações tributárias. Para melhorar a competitividade, é preciso um programa para melhorar as condições de oferta.

Valor: O investimento na industria de transformação vai sofrer?

Mendonça de Barros: O investimento deve se concentrar em atividades ligadas a commodities, infraestrutura, serviços e a segmentos ligados ao consumo doméstico. O investimento na indústria de transformação vive hoje uma dinamica diferente da dos outros setores, em função dos custos crescentes de produção e da concorrência dos produtos importados, que chegam hoje aos mais remotos cantos do país depois que o comércio decidiu distribuí-los com eficiência.

07/03/2012 - 08:49h ‘Potencial do PIB está mais para 4% do que 4,5%’


Para economista, governo precisa agir para melhorar a eficiência do País e, com isso, abrir espaço para uma expansão mais forte

07 de março de 2012

LEANDRO MODÉ – O Estado de S.Paulo

O desempenho modesto da economia brasileira no primeiro ano de Dilma Rousseff na presidência deve servir de alerta ao governo, segundo o ex-presidente do Banco Central (BC) Affonso Celso Pastore. Para ele, a ausência de reformas econômicas nos últimos anos reduziu o chamado Produto Interno Bruto (PIB) potencial do País.

Ainda que não seja aceita por todos os economistas, essa medida revela quanto um país pode crescer com inflação controlada. “Notamos que o PIB potencial, que estava andando na faixa dos 4,5%, passou para algo como 4,1% no último trimestre (de 2011)”, afirmou. “Não digo que já esteja em 4%, mas, se o governo não induzir um pouco de melhoria na eficiência da economia, chegará por aí.”

Por melhora da eficiência, entenda-se, em resumo, reformas – as “velhas reformas macroeconômicas”, como diz Pastore. Para ele, se nada for feito, a média de crescimento dos anos Dilma deverá ser inferior à dos anos Lula (4,1% ao ano). A seguir, os principais trechos da entrevista.

O crescimento em 2011 foi relativamente fraco. Mas a taxa de desemprego está em níveis historicamente baixos. Como explicar essa aparente contradição?

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que não estamos falando em recessão, mas de desaceleração do crescimento econômico. Saímos de 7,5% para 2,7%. Mas continuamos absorvendo mão de obra, só que numa velocidade inferior. Além disso, temos visto um ganho real dos salários nos últimos anos. Ainda que se tenha tido um crescimento de apenas 2,7%, a sensação na sociedade não é proporcional a essa desaceleração. (A sensação) é de uma economia que ainda provoca grande satisfação para os consumidores (vide a expansão do consumo nos últimos anos) e para as pessoas empregadas.

A indústria cresceu só 1,6%. O desempenho do setor é conjuntural ou estrutural?

Não é algo pontual, é mais complicado. O PIB do setor de serviços, incluindo o governo, é 67,5% do PIB do País. O da indústria representa algo entre 27% e 28%. O setor de serviços praticamente não exporta e importa muito pouco. A indústria, de outro lado, é muito aberta. Em 2009, as importações líquidas equivaliam a 1% do PIB. Em 2011, fomos para 6,5%. Esse crescimento se deu basicamente na indústria. A agricultura se livrou porque é exportadora líquida. A indústria sofre dois fenômenos: a valorização do câmbio, que resulta da conjuntura internacional, e os preços dos produtos manufaturados em queda no mundo, em decorrência da crise nos países desenvolvidos. Ou seja, enfrenta preços de exportações e importações estáveis, ao mesmo tempo em que o câmbio se valoriza. Isso impede que os aumentos de custos sejam repassados para os preços. Além disso, o custo unitário da mão de obra vem crescendo exponencialmente. O resumo é que a indústria está sofrendo uma redução de margem. Não acho que esse quadro mudará tão cedo. O crescimento da indústria tende, portanto, a ser um pouco mais lento. O que nos salva é que temos um mercado interno muito grande. Nos próximos trimestres, vamos ver a produção industrial reagir um pouco, graças à demanda interna em expansão. Não é um quadro de estagnação sem solução. Mas impõe uma dificuldade para o crescimento do setor.

O cenário de crescimento menor da indústria e maior participação dos serviços no PIB é ruim para a economia brasileira?

Não há país que cresça que mantenha a indústria constante no PIB. Há diversificações ao longo do caminho. A demanda por produtos do setor de serviços é mais elástica do que na indústria. Ou seja, a tendência natural é cair a participação da indústria no PIB. Portanto, um pedaço desse ajuste teria de acontecer de qualquer forma. Mas vem ocorrendo um fenômeno de redução do incentivo para a indústria, algo que, diga-se, pode mudar a qualquer momento. Parte se explica pela valorização do real nos últimos anos, em razão da política fiscal mais séria. O Brasil já deveria ter se adaptado a uma economia com moeda um pouco mais forte, como a Alemanha se adaptou. Deveríamos ter feito reformas nas áreas trabalhista, tributária…. O problema é que não fizemos. Uma forma de sobreviver à conjuntura é intervir no mercado de câmbio até colocar a cotação onde o governo achar que é justo. O problema é que, se isso for feito, a desinflação que temos hoje, que permite a queda dos juros, vai virar inflação. Ou seja, há um dilema. Quanto mais o governo olhar para a produção industrial em queda e tentar segurar no câmbio, menos espaço terá para reduzir o juro. É uma opção dura que a presidente Dilma Rousseff terá de tomar. São dilemas de política econômica complexos.

O que o sr. prevê para o PIB de 2012?

Estamos mais para 3,5% de crescimento. Tenho dúvida sobre a indústria. Embora, como já disse, acredite que vá crescer. Mas, no geral, acho difícil passar de 3,5%. A presidente Dilma teve um crescimento de 2,7% no primeiro ano de governo, deve ter 3,5% no segundo e algo como 4% ou 4,5% no terceiro. De qualquer forma, é preciso ficar claro que 4,5% é sonho.

Isso significa que o crescimento potencial do Brasil está abaixo de 4,5%?

Muitos economistas criticam esse conceito, mas não é porque é difícil medir que se deva jogá-lo fora. Olhando os números da economia, vemos que a produtividade tem crescimento cadente. Tivemos uma pequena redução da taxa de investimentos (Formação Bruta de Capital Fixo) no último trimestre. Com tudo isso, notamos que o PIB potencial, que estava andando na faixa dos 4,5%, passou para algo como 4,1% no último trimestre. Infelizmente, está ocorrendo uma redução dessa medida. Nosso crescimento potencial está chegando mais perto dos 4% do que dos 4,5%. Não digo que já esteja em 4%, mas, se o governo não induzir um pouco de melhoria na eficiência da economia, chegará por aí. Por exemplo, melhorar a qualidade da política fiscal, para poder reduzir a tributação, tirar distorções do mercado de mão de obra, enfim, fazer as velhas reformas macroeconômicas. Essas reformas são importantes e prova disso é que conseguimos levar o PIB potencial para a casa dos 4,5%. Tivemos no governo um (Antonio) Palocci e um Marcos Lisboa (ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda) que resolveram meter a mão nas reformas microeconômicas. Além disso, aquele governo foi precedido por outro que também fez reformas. A soma dos dois produziu avanços que permitiram elevar o PIB potencial. De lá para cá, voltamos ao marasmo: ‘Somos todos keynesianos, fazemos política fiscal contracíclica, a taxa de juros neutra caiu…’ Entramos em uma fase na qual passamos a olhar só para uma coisa: o equilíbrio macroeconômico de oferta e procura. Esquecemos aquilo que, no fundo, gera eficiência e crescimento maior de produtividade. O quadro, hoje, é meio chato.

Com base nesse diagnóstico, e considerando tudo o mais constante, o crescimento médio nos anos Dilma será inferior à média dos anos Lula?

Não gostaria de fazer essa aposta. Mas, se fizesse, acho que teria grandes chances de ganhar.