13/11/2009 - 09:51h Novas fontes de energia serão bem-vindas

O crescimento econômico deve estar atrelado à sustentabilidade ambiental

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*Eduardo Pocetti – VALOR

O crescimento econômico do século XXI deve estar atrelado à sustentabilidade ambiental

O apagão sofrido por 18 estados brasileiros na noite de 10 de novembro ressuscitou o medo de que falte energia para suprir as necessidades da nossa economia aquecida. Ainda que o problema não tenha a ver com incapacidade de atender à demanda, é inevitável questionar: será que o Brasil aguenta o tranco de crescer quase 5% ao ano, como projetado para 2010? E as licitações ambientais? Elas vão continuar atrasando as obras de hidrelétricas importantes?

O crescimento econômico do século XXI deve, necessariamente, estar atrelado à sustentabilidade ambiental. Por isso, qualquer alternativa de geração energética que se adapte a esses critérios deve ser recebida com entusiasmo. Esse é o caso da energia eólica: até 14 de dezembro, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) examinará os cadastros de 441 empreendimentos focados nessa modalidade.

Otimizar a exploração do potencial eólico brasileiro é ainda mais oportuno dada a proximidade da 15ª Conferência Marco das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (CoP-15), que ocorrerá de 7 a 12 de dezembro, na capital da Dinamarca.

O principal objetivo da reunião, à qual o Brasil estará presente, é negociar um documento que substitua o Protocolo de Kyoto, que expira em 2012. A expectativa é enorme, e as pressões exercidas por diversos segmentos da sociedade, idem!

Desde que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (IPCC) reconheceu, em relatório oficial, que a temperatura da superfície terrestre está cada vez mais elevada e que esse aquecimento decorre das atividades humanas, teve início intensa mobilização em torno do tema. Hoje, governos, entidades de terceiro setor, organismos internacionais e iniciativa privada debatem alternativas para dirimir os problemas, levando em conta aspectos ambientais, humanos, científicos e econômicos.

Na contramão dessa aparente unanimidade – e, justiça seja feita, munidos de subsídios científicos consistentes -, outros grupos se opõem ferrenhamente ao que denominam “terrorismo ambientalista”. Embora minoritários, os partidários da ideia de que as mudanças climáticas são cíclicas, naturais e independentes da ação do homem arregimentam cada vez mais apoiadores.

É cedo para especular sobre os desdobramentos da cúpula de Copenhague. Mas, certamente, interesses e contextos múltiplos terão de ser avaliados e discutidos. Enquanto o Protocolo de Kyoto prevê metas diferenciadas conforme o estágio de desenvolvimento econômico de cada país, concedendo limites mais flexíveis para as nações emergentes, a disposição atual das nações ricas sinaliza uma postura muito menos condescendente, o que deverá se traduzir em regras mais duras para todos.

Essa inclinação ficou clara em Luxemburgo, onde os 27 países da União Europeia comprometeram-se com a fixação de metas de longo prazo para a redução de emissões de gases de efeito-estufa (GEEs): até 2050, suas emissões de dióxido de carbono devem ser de 80 a 95% menores do que em 2005.

Uma vez que a população tende a crescer, é imenso desafio conciliar as atividades imprescindíveis à manutenção de toda essa gente com o cumprimento das diretrizes ambientais pretendidas.

De antemão, já se sabe que as estratégias necessárias ao cumprimento dessas metas são abrangentes e preveem ações capazes de agradar até o mais xiita militante verde. Entre elas incluem-se a obrigatoriedade de submeter aviões e navios a regras de proteção ao clima e o estabelecimento de limites para as emissões do tráfego aéreo e marítimo.

Para os países que estão lutando para se posicionar como agentes econômicos fortes e competitivos no mercado mundial não é fácil assumir compromissos tão drásticos. Tanto que, durante a cúpula União Europeia-Brasil, realizada em outubro em Estocolmo, o presidente Lula deixou claro que o Brasil não teria como assumir a meta de “desmatamento zero”. Admitiu, porém, reduzir 80% do desmatamento até 2020, o que lhe valeu elogios por parte do presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, que definiu o plano brasileiro como “exemplar”.

O desmatamento é a principal fonte brasileira de emissões de gases de efeito estufa, e se essa meta for alcançada, o país deixará de emitir 5 bilhões de toneladas de gás carbônico anualmente.

Comparado à Rússia, à Índia e à China, o Brasil é o país que menos deixa a desejar no tocante à sustentabilidade. Além de dispor de uma das legislações ambientais mais rígidas do planeta, boa parte de suas indústrias já atua em conformidade com o que há de mais moderno em metodologias e recursos técnicos de produção mais limpa. Pioneiro e vice-líder na área de biocombustíveis, o Brasil detém a maior frota de veículos dotados de motor flex do mundo. Sua matriz energética é majoritariamente limpa e renovável, graças ao predomínio das hidrelétricas. Incluir as eólicas neste rol só agregará valor competitivo ao país.

É necessário, porém, encontrar caminhos para superar os entraves à exploração dessa fonte abundante e gratuita – o vento. Em primeiro lugar, a infraestrutura necessária ao seu aproveitamento custa caro, o que dificulta o uso da energia eólica em grande escala. Impõe-se também a necessidade de estudar os potenciais impactos negativos das usinas eólicas nas paisagens e na rota migratória das aves. Nesse sentido, o ideal seria fortalecer um modelo de parceria entre as universidades e o capital privado, onde a expertise intelectual das primeiras seria potencializada pela disponibilidade de recursos do segundo. Desse modo, seria possível imprimir maior velocidade às pesquisas, obtendo respostas rápidas e consistentes.

As empresas que souberem aproveitar as oportunidades, desenvolvendo negócios com o foco ambiental correto, terão chances concretas de colher resultados excelentes e de fortalecer sua participação nos mercados interno e externo.

Eduardo Pocetti é CEO da BDO no Brasil

05/06/2009 - 12:00h Falta uma estratégia para fontes renováveis

Ecoeficiência: Brasil figura timidamente na implementação de energias limpas em relação a outros países

Jander Ramon, para o Valor, de São Paulo

Leo Pinheiro/Valor

Adriano Pires: cada continente deverá buscar alternativas próprias e que considerem suas vantagens competitivas

Ampliar a oferta de energia, reduzir a emissão de gases de efeito estufa e, ao mesmo tempo, garantir que a geração e o consumo do bem sejam feitos com eficiência, constituem desafios importantes a serem enfrentados pelo setor energético em todo planeta nos próximos anos. A agenda para desenvolvimento do setor, afirmam os especialistas, está pautada sobre dois fatores: preservação ambiental e segurança energética.

“O fato é que o mundo continuará crescendo, vamos precisar cada vez mais de energia, e será preciso produzir essa energia com mais eficiência e de forma mais limpa, pois o petróleo não terá o mesmo papel que desempenhou no século 20″, resume o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Adriano Pires.

Fontes renováveis e, preferencialmente, limpas, para geração de energia, como a eólica, solar, de biocombustíveis e pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), ganham cada vez mais relevância nas decisões de investimentos públicos e privados em todo o mundo. Com enorme potencial de exploração nesse campo, o Brasil figura timidamente na implementação de estratégias para energias renováveis em relação a outros países, indica um estudo global que acaba de ser concluído pela Ernst & Young.

Entre 25 países, o levantamento posiciona o Brasil em 21º lugar no ranking das melhores estratégias. Há, porém, uma ressalva favorável ao país, admite o estudo: contemplar apenas políticas aplicadas para as fontes eólica, solar, biomassa e geotérmica, desconsiderando a hidreletricidade, principal fonte geradora no Brasil.

“O conceito de energia limpa precisa ser mais debatido. Já vimos plataformas de produção de petróleo extremamente limpas, que parecem hospitais, e usinas de açúcar e álcool fazendo um estrago monstruoso ao seu redor, sem respeito ambiental e social”, pondera Joel Bastos, diretor de sustentabilidade da Ernst & Young.

É na falta de um controle mais rígido sobre o método de produção dos biocombustíveis – uma das principais apostas de energia alternativa – que o país perdeu força no relatório da consultoria internacional. “Temos vantagens excepcionais para a produção dos biocombustíveis, mas existe uma chance de as vendas esbarrarem em nossas falhas. Por isso, precisamos mostrar ao mundo que podemos produzir direito, com normas sociais, ambientais e provar que esse combustível é limpo de verdade”, alerta Bastos. Enquanto isso não acontece, os biocombustíveis acabam sendo relegados a segundo plano, prevalecendo a percepção positiva sobre as energias eólica e solar, essa última muito mais cara do que as demais.

O estudo da Ernst & Young destaca políticas anunciadas por governos para o avanço das energias renováveis, sobretudo eólica e solar. Os EUA lideram o ranking, diretamente impulsionados pelo plano de recuperação econômica apresentado pela Casa Branca, da ordem de US$ 800 bilhões, sendo que uma fatia significativa de investimentos, estimada em 10% do volume global, será destinada às energias alternativas, ganhos de eficiência energética e novas tecnologias.

Para Adriano Pires, cada continente deverá buscar, nos próximos anos, alternativas próprias e que considerem vantagens competitivas locais para a evolução de suas matrizes energéticas. “Dependendo da região do planeta, prevalecerá uma fonte primária. O que ninguém quer mais é ficar dependendo exclusivamente do petróleo dos árabes, embora seja claro que o mundo continuará consumindo petróleo”, avalia. “É uma falácia dizer que os combustíveis fósseis vão acabar. O que se buscará é o uso de tecnologias mais limpas e a exploração das melhores fontes disponíveis em cada lugar”, adiciona.

Nesse cenário, o diretor do CBIE acredita que o Brasil poderá desempenhar um ótimo papel, por reunir de forma ímpar as condições de diversificação de sua matriz energética. “Temos ventos, sol, terras férteis, reservas hídricas, petrolíferas e de urânio. Não podemos abrir mão de nenhuma oportunidade”, sustenta.

Nos últimos anos, ficou constatado, porém, o avanço de fontes poluidoras no parque energético brasileiro, sobretudo com a maior participação de queima de óleo e gás nas usinas térmicas. “Esse é um acidente de percurso, que aconteceu porque, infelizmente, é mais fácil obter um licenciamento ambiental de uma usina movida a óleo do que para uma hidrelétrica; e porque nos leilões de compra de energia nova, há alguns anos, predominou a energia térmica”, observa Pires. “Mas esses acidentes deverão ser corrigidos para o futuro.”

O diretor-executivo da Associação Brasileira dos Pequenos e Médios Produtores de Energia Elétrica (APMPE), Fábio Sales Dias, entende que, mais do que um equívoco pontual, a dificuldade de avanço das energias alternativas no país esbarra sobretudo na ausência de uma política definitiva para o setor. “É um mito achar que eólica, biomassa e PCHs são menos competitivas do que energia térmica. Aparentemente, essa maior presença não avança porque o governo parece temer pela modicidade tarifária”, comenta, ao alertar, entretanto, que basta o país enfrentar escassez de chuvas para que uma maior quantidade de termelétricas serem acionadas e os preços da energia dispararem.

Além da busca pela geração de energia mais limpa, o Brasil e o resto do mundo têm muito a avançar no uso mais eficiente de energia. Atualmente, alguns países desenvolvidos tem feito investimentos pesados nas chamadas “redes inteligentes”, em que há maior controle de perdas e combate ao desperdício. Nesses sistemas, o consumidor pode, por exemplo, definir a fonte de energia pela qual deseja ser abastecido (eólica, nuclear, solar, por exemplo) e controlar até cada ponto de consumo.