11/09/2009 - 14:04h 75 % da população considera que cresceu a apuração dos escândalos no governo Lula e não a corrupção

Pesquisa: Para professores da UFMG, tema da corrupção não deverá ser fator determinante na hora do voto

http://4.bp.blogspot.com/_wgeILsYcbhI/SEU4L6TV7aI/AAAAAAAAAbw/LDNRwVN-mvo/s400/Descalabro+tucano,+SP+%E2%80%93+Corrup%C3%A7%C3%A3o+do+PSDB-SP.+PIG+silencia+sobre+esc%C3%A2ndalo+Alstom.+E+SE+FOSSE+ALGU%C3%89M+DO+PT+OU+DE+OUTRO+PARTIDO+DE+ESQUERDA+ENVOLVIDO....jpg

Denúncias saturam opinião pública

César Felício, de Belo Horizonte – VALOR

Em um ano em que a profusão de casos de corrupção no noticiário manteve-se em alta, a opinião pública brasileira mostra sinais de exaustão com o tema, segundo pesquisa com 2,4 mil entrevistados feita em julho pelo instituto Vox Populi, sob a coordenação dos professores Leonardo Avritzer e Fernando Filgueiras, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde são responsáveis pelo Centro de Referência do Interesse Público.

Reduziu-se de 54% para 39% os pesquisados que consideram que a corrupção “aumentou muito” nos últimos cinco anos e de 77% para 73% o de pesquisados que classificam o tema como “muito grave”, em relação ao levantamento feito em maio do ano passado. Na faixa com renda acima de 10 salários mínimos, a redução da classificação “muito grave” foi de 90% para 84%. Na que recebe até um salário mínimo, houve uma queda nesta faixa de 69% para 64%.

“A corrupção sempre é percebida como um problema da esfera pública, e não privada. E neste sentido, há uma percepção de maior atuação das instituições de controle, como Polícia Federal, controladorias e tribunais de contas. A sucessão de escândalos começa a ser vista como esperada”, disse Filgueiras.

E mesmo a atuação das instituições de controle começa a ser vista com desconfiança: na pesquisa do ano passado, 86% dos entrevistados avaliaram a atuação da Polícia Federal como positiva e 55% afirmaram que a instituição não ultrapassava limites legais para fazer suas investigações. Desta vez, ainda que o percentual de avaliação positiva da PF tenha praticamente se repetido, a maioria absoluta dos pesquisados afirmou que a instituição, às vezes, pode transgredir as leis ao apurar eventuais delitos.

Ao longo do ano passado, a PF atravessou uma crise decorrente da Operação Satiagraha, comandada inicialmente pelo delegado Protógenes Queiroz, que resultou na prisão do banqueiro Daniel Dantas, entre outras personalidades. Dantas foi beneficiado por dois habeas corpus concedidos pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, Protógenes afastou-se das investigações com seus métodos de atuação sob suspeita e ingressou na vida partidária.

A mesma situação acontece com o Legislativo. Em 2008, 48% dos pesquisados afirmaram que deputados e senadores poderiam pisar no arcabouço legal ao investigar os integrantes do Executivo. Agora, a maior parte dos pesquisados disse acreditar nesta possibilidade.

A pesquisa da Vox Populi-UFMG não chegou a medir o grau de conhecimento dos pesquisados sobre a onda de denúncias contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), que, ao lado dos questionamentos sobre a atuação da Petrobras, dividiu o noticiário de escândalos neste ano. Mas foram detectados indícios de que a imagem do Legislativo conseguiu se tornar ainda pior do que já estava.

Em 2008, instados a atribuírem notas de zero a dez em instituições e grupos, sendo a nota máxima o maior grau de corrupção e a nota mínima o menor, os pesquisados consideraram as Câmaras de Vereadores como o órgão mais corrupto, com nota 8,36. A Câmara dos Deputados vinha em segundo, com 8,34; as prefeituras em terceiro, com 8,07; e o Senado em quarto, com 8,02. Agora os deputados pularam para o primeiro lugar, com 8,54, e os senadores os escoltam em segundo, com 8,43.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva permanece, assim como na pesquisa de 2008, relativamente blindado da associação com escândalos. A Presidência da República caiu do 7º para o 12º posto entre as instituições com maior nota de corrupção. E permaneceu igual o percentual dos pesquisados que acredita que o que cresceu no governo Lula não foram os casos de corrupção, mas a apuração dos escândalos: 75% das entrevistas. Apesar disso, ao contrário do que ocorreu em 2009, o número de entrevistados que acredita que os escândalos do momento guardam alguma relação com o governo federal é ligeiramente maior do que os que não veem relação.

Tanto para Avritzer como para Filgueiras, os resultados da pesquisa deste ano são um indicativo de que o tema da corrupção, ainda que atraia a atenção da mídia e seja considerado grave ou muito grave pela grande massa da população, continuará não sendo um fator para a determinação do voto.

“No Brasil o corte partidário entre denunciantes e denunciados impede que esta questão seja determinante em termos eleitorais. A denúncia à corrupção usualmente é vista como uma ferramenta de setores conservadores para um ataque ao Estado, e não como uma proposta de reforma”, afirmou Avritzer, para quem a eleição de Fernando Collor, em 1989, foi o último momento em que o combate à corrupção foi o elemento central de uma campanha bem sucedida. “E a evidente contradição entre a plataforma de Collor e o que representaram seus governos fizeram com que o discurso moralista perdesse audiência na cena eleitoral”, afirmou. Collor foi o primeiro chefe de Estado no mundo a ter um processo de impeachment aprovado pelo Legislativo, em 1992.

Avritzer e Filgueiras chamam atenção para o fato de mais de 50% dos pesquisados afirmarem concordar inteiramente com a necessidade de leis mais duras contra a corrupção, um dado já presente na pesquisa do ano passado. “A sensação de impunidade leva à defesa de leis cada vez mais severas, em um círculo virtuoso. Este, ao contrário do que se poderia imaginar, não é um processo por si positivo. Termina por engessar o poder público e a sociedade em um conjunto de normas cerceadoras”, afirmou o cientista político.

Avritzer citou que a própria pesquisa realizada pela Vox Populi só se tornou possível graças ao apoio financeiro da Fundação Konrad Adenauer, vinculada ao CDU, o partido de centro-direita alemão. “Se fosse seguir o trâmite de uma instituição pública, uma pesquisa como essa não teria viabilidade, dado o grau de controle existente “, comentou Avritzer. O professor vê de maneira auspiciosa as propostas que endureçam o processo e a execução penal. “O conceito de presunção de inocência deveria ser relativizado para os que concorrem a cargo eletivo, caso exista condenação judicial em primeira instância”, sugeriu.

20/08/2009 - 08:48h Um mundo cheio de Linas e tapiocas

Colunista

Maria Inês Nassif – VALOR

O caso da “denúncia” feita pela ex-secretária da Receita Lina Maria Vieira contra a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, não é o primeiro episódio na história recente do país em que um clima de escândalo sobe a uma temperatura máxima, alimentado por fatos que são o centro das atenções políticas por semanas até que sumam no ar como fumaça. Nesse caso, depois do depoimento de Lina na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, anteontem, e de inúmeros indícios apontados por apoiadores e detratores, a pergunta que vem à cabeça dos acompanhantes mais atentos da cena política é: qual é mesmo o crime?

Lina disse, em entrevista à “Folha de S. Paulo”, que no final do ano passado Dilma pediu que a Receita concluísse rapidamente inquérito em andamento contra o filho do senador José Sarney, Fernando. Os jornais e a oposição inferiram daí que a ministra-chefe da Casa Civil pressionou a Receita a arquivar os processos contra o empresário maranhense. E se apegaram, como prova do crime, a uma suposta reunião que Lina teria mantido com Dilma. Passou-se a considerar que, provada a existência desse encontro, estaria automaticamente atestada a pressão de Dilma em favor do filho do presidente do Senado.

Convocada à reunião de Comissão e Justiça do Senado para explicar sua “denúncia”, Lina reiterou o “crime” de Dilma, de tê-la convocado para uma reunião, mas absolveu-a da acusação de tê-la pressionado para livrar a cara de Fernando Sarney na Receita. “Eu entendi, das palavras da ministra, que resolvesse logo as pendências, que desse celeridade ao processo, não me senti pressionada pela ministra”; “a ministra disse para agilizar a fiscalização do procedimento contra o filho de Sarney, mas, de forma alguma, o pedido foi para não investigar o filho de Sarney. Foi apenas para dar agilidade”; ao voltar a Receita, pediu a um dos subsecretários levantamento dos processos em andamento, descobriu “que tudo estava em ordem” e colocou “uma pedra no assunto”: “Não dei mais retorno para a ministra e ela não me cobrou mais sobre o assunto” (Valor, 19/8, A8).

O depoimento da ex-secretária da Receita sequer foi dúbio, ao contrário de suas contraditórias declarações anteriores. Ela inocenta a ministra da acusação que seria de fato crime: pressionar a Receita para não investigar alguém. Na ausência de evidências de pressão, a oposição retoma a estratégia de que o crime é ter convocado uma reunião. E pede acareação.

É certo que, nesses movimentos em que se força a criação de climas de forte comoção política, pouco importa o que se disse ou se dirá em favor de uma ministra cujo principal problema não é ter se reunido com alguém, mas ser candidata à sucessão de Lula em 2010, com o apoio de um presidente que tem grande popularidade e, supõem-se, capacidade de transferência de votos. Mas também não se registra uma tentativa de Dilma e dos governistas que assumiram a sua defesa de registrar o ridículo da situação. Caíram numa armadilha e vão ter que ficar na defensiva, negando que a reunião tenha existido, até que o fato que seria central – a pressão para inocentar Sarney, negada pela própria Lina – caia definitivamente no esquecimento, por falta de provas. O caso Lina, após a reunião da CCJ do Senado, entrou na lista das tapiocas.

Pelo padrão do que tem sido a disputa política nos últimos sete anos, desde a posse de Lula, presume-se que, daqui até as eleições do ano que vem, as tapiocas se repetirão, numa mesma técnica: denuncia-se, o fato denunciado é alimentado por pequenos detalhes enquanto for possível, convoca-se comissões e acareações e o clima chega (pelo menos institucionalmente) ao limite da tensão. Enquanto é possível, cria-se uma moral própria para o momento: a tapioca é imoral; convocar reunião é imoral. A repetição é fundamental na criação de um clima onde se atribui moralidade própria a um fato menor. E cada detalhe é prova da justeza do novo julgamento moral. A criação de “ondas” de comoção política atinge de imediato uma parcela da opinião pública que já é identificada ideologicamente com esses setores. São mais sensíveis a construções de caráter moral as classes médias. Nesse segmento social, as construções da oposição certamente criaram clichês próprios: a “tapioca”, o “mensalão” como característica exclusiva do PT etc. A estratégia de criar comoção política apenas é vitoriosa eleitoralmente, todavia, se consegue se expandir para além dos seus próprios votos, subtraindo eleitores do outro lado.

Na política recente, a exploração do escândalo Sarney teria muito maior potencial de expansão para setores sociais que votam hoje em Lula. Para a maioria da opinião pública, segundo atestam as últimas pesquisas, Sarney é a representação do que existe de ruim na política – e ele se sustenta graças ao valioso apoio do presidente Lula. O problema é que esse episódio tem potencial de atingir indiscriminadamente todos os partidos representados no Senado. Os fatos contra Sarney levantados pelos jornais não são assumidos como instrumento de luta política com tanta convicção pela oposição, como tem sido com o episódio Lina. Existem razões para isso.

Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras

30/07/2009 - 15:08h CONTARDO CALLIGARIS Em defesa de Berlusconi

CONTARDO CALLIGARIS



Berlusconi faz festinhas com prostitutas, e eu com isso? A capacidade de governar é afetada?

NÃO TENHO simpatia alguma pelo premiê italiano, Silvio Berlusconi.
Para começar, não acho legítimo governar e, ao mesmo tempo, ser um megaempresário em exercício. A decência pede que os políticos, durante seu serviço público, se afastem da gestão de seu patrimônio e, ainda mais, da de suas empresas.
Além disso, Berlusconi é o triste símbolo do fim de uma época em que, na Itália, o fascismo era um divisor de águas. Dos comunistas até aos liberais (passando por socialistas, social-democratas, republicanos, radicais e cristãos-democratas), apesar das diferenças, havia um propósito comum: o passado totalitário não voltaria, nunca.
Berlusconi trouxe para o poder os próprios neofascistas e outros afins, que oferecem planos radicais, sedutores e esdrúxulos para as dificuldades da nação.
Nessa empreitada, a maior aliada de Berlusconi foi a mediocridade da esquerda e do centro, cada vez menos capazes de apresentar um projeto para o país.
Nas eleições de 2008, meus sobrinhos me confessaram que votariam em Berlusconi porque, ao menos, eles entendiam o que ele se propunha a fazer, enquanto não entendiam nada do que dizia Walter Veltroni, que liderava a centro-esquerda. Se meus sobrinhos, rebentos de uma tradição antifascista, preferiam Berlusconi, a batalha estava mesmo perdida.
A Itália continua sendo uma democracia. Do fascismo, Berlusconi ressuscitou (apenas?) a vulgaridade populista, que consiste em fazer apelo ao que há de pior no eleitor, tornando-o cúmplice das soluções mais fáceis, violentas, racistas e machistas.
Com isso, nunca pensei que escreveria um dia em defesa de Berlusconi. Mas, nestes últimos dias, os opositores do premiê adotaram a mesma vulgaridade que o caracteriza.
O semanal “L’Espresso” e o cotidiano “La Repubblica” (fundados por Eugenio Scalfari, um papa do jornalismo italiano) vêm soltando trechos de gravações de telefonemas entre o premiê italiano e Patrizia D’Addario, uma prostituta de 42 anos que, aparentemente, teve encontros sexuais com Berlusconi, comentou elogiosamente sua performance na cama, gravou as conversas e as tornou públicas para se vingar porque Berlusconi não teria cumprido sei lá qual promessa.
Antes disso, o cotidiano espanhol “El País” (outra referência da imprensa europeia) divulgou uma série de fotografias de Berlusconi, em sua vila na Sardenha, com topless feminino e nudez masculina. Tudo isso começou com a publicação em destaque de denúncias ressentidas da esposa do premiê.
A vida sexual de Berlusconi não me indigna. Como não sou fascista, tampouco espero que o líder encarne grotescamente a “virilidade” de todos nós (embora, como notou João Pereira Coutinho, muitos eleitores possam se regozijar com isso). Mas me sinto insultado pela própria suposição de que essas “notícias” me interessem. Berlusconi organiza festinha com prostitutas, E EU COM ISSO? Avisem-me se a coisa afetar sua capacidade de governar.
A invasão da privacidade de um governante se justifica quando ela demonstra sua hipocrisia pública. Se Ahmadinejad, em sua iminente visita ao Brasil, for flagrado dançando numa boate gay, isso me interessaria porque ele é líder de um país que pune a homossexualidade com a morte.
Quando se descobriu que Eliot Spitzer, governador do Estado de Nova York, era cliente de uma rede de prostituição, o escândalo foi relevante porque Spitzer, quando era promotor, tinha sido um ferrenho perseguidor das prostitutas e de seus clientes. Mas Berlusconi nunca pretendeu ser “um santo”.
A ausência de relevância política das fotos e das conversas transforma os melhores órgãos da imprensa europeia em tabloides sensacionalistas e confirma que o problema da Itália de hoje não é Berlusconi, mas a decadência da oposição.
É quase uma regra: quem cata argumentos de moral privada na roupa suja de seu adversário político 1) Quer esconder e censurar seus próprios trapos (tão sujos quanto os do opositor criticado) ou, então, 2) Ele não tem nada para dizer que interesse aos eleitores e apela para uma cumplicidade de botequim (”Cara, viu a de Berlusconi com a puta?”).
Parabenizo o PT, que, em seu “Código de Ética”, aprovado nestes dias, decreta que é terminantemente vedada (artigo 6, 1) “a exploração de aspectos da vida íntima de adversários em disputas políticas ou eleitorais, internas ou externas, de qualquer natureza” (íntegra em www.pt.org.br).

ccalligari@uol.com.br

20/07/2009 - 10:58h ‘Bafafá político’ impede debate sério no Brasil, diz Paulo Cunha

“O Brasil precisa discutir o pré-sal, discutir questões mais relevantes”, (…) “Esse bafafá político tem impedido o país de discutir essas questões.”

Constatação lapidar do empresário Paulo Cunha em entrevista a Folha SP hoje.

Ontem Janio de Freitas escreveu que “Espetáculos de degradação como o do Senado se afiguram para a classe dominante brasileira como espetáculos”. O Ombudsman do jornal, coincidentemente, ponderou que a cobertura feita pela Folha contribui para transformar o Congresso em “baudeville”* e servir assim ao espetáculo da mesma classe dominante.

O empresário Paulo Cunha, da “classe dominante” não aceita o “divertimento” e remete a sua real dimensão os escândalos, verdadeiros ou fabricados, que a mídia nos fornece cotidianamente.

A crítica do ombudsman e a entrevista de Paulo Cunha com destaque para à frase acima na própria capa do jornal, talvez signifique que a Folha esteja querendo corregir seu curso e voltar a ser um espaço para a discussão das questões relevantes evocadas por Paulo Cunha.

Neste blog tenho feito um esforço para evitar o “bafafá” e tratar do que me parece ser relevante, mas nem sempre tenho conseguido pois é abrumadora a pressão para tratar a política como espetáculo.

O udenismo de setores médios, particularmente de São Paulo, alimentados pela ação política opositora de grande parte da mídia e de alguns setores partidários, impregna a atmosfera poluindo um debate urgente e necessário.

Luis Favre

http://veja.abril.com.br/060199/imagens/holofote2.jpgENTREVISTA DA 2ª – PAULO CUNHA

Bafafá político atrapalha o debate de temas relevantes

Para o presidente do conselho do grupo Ultra, sistema político não atende à necessidade do país e não recruta as melhores pessoas para seus quadros

NOS ÚLTIMOS anos, o empresário Paulo Cunha, presidente do conselho de administração do grupo Ultra, tem adotado um estilo bastante reservado. Avesso a entrevistas, ele prefere se manter como um expectador privilegiado da cena nacional.
Nesta entrevista concedida na semana passada na sede do grupo Ultra, em São Paulo, Cunha manifesta otimismo com as perspectivas da economia, apesar da crise. Na sua opinião, o Brasil perde muito tempo com o que ele chama de bafafá político, quando há temas mais relevantes para serem discutidos no país.

GUILHERME BARROS
COLUNISTA DA FOLHA

“O Brasil precisa discutir o pré-sal, discutir questões mais relevantes”, diz Cunha. “Esse bafafá político tem impedido o país de discutir essas questões.”
Para ele, o sistema político não atende às necessidades do país. Um dos grandes problemas é a forma como se escolhe as pessoas no setor público.
“Se uma empresa fizesse o recrutamento dos seus quadros da mesma maneira que os partidos, as empresas estariam fora do jogo”, afirma. “O governo precisa ser estatizado.” A seguir, trechos da entrevista.

FOLHA – A crise acabou?
PAULO CUNHA
- Em primeiro lugar, temos de olhar a crise na sua origem. [...] A crise surgiu do grande desbalanceamento do comércio nas finanças internacionais. De um lado, o gigantesco déficit americano; de outro, o gigantesco superávit de Ásia e Alemanha. [...] Também havia o elevado endividamento do consumidor americano. A poupança é praticamente zero e o consumidor americano se endividou muito. A ponto de o nível de endividamento médio do cidadão americano atingir quase 140% da sua renda anual.
É óbvio que tinha de estourar.
Os governos agiram e a crise financeira, a crise bancária, foi atenuada. Não diria que terminou, mas está totalmente escorada nos créditos e nas garantias dos governos europeu e americano. Julgo que, uma vez terminado o pânico, já começa a recapitalização dos bancos e o sistema se normaliza. Mas o nível de atividade não se normaliza tão cedo. Há ainda um longo processo de desalavancagem do consumidor americano.

FOLHA – Quanto tempo o sr. acha que pode levar até a recuperação?
CUNHA
- O consumidor americano está ficando novamente conservador do ponto de vista financeiro. Está com medo do desemprego, do futuro. Paga juros elevados e tem dificuldades de se refinanciar. Muitos perderam suas casas, poupanças, aposentadorias e, portanto, estão apertando o cinto e consumindo menos. Quanto tempo? Não sei e suponho que ninguém saiba ao certo.

FOLHA – E como fica o Brasil?
CUNHA
- O Brasil, evidentemente, é parte do mundo. Nos últimos tempos, o crescimento brasileiro vinha sendo turbinado pelo comércio internacional, pelas exportações, notadamente para a China e o Ocidente. Isso, evidentemente, sofreu uma parada devido à crise. O Brasil também está sendo afetado por ter havido um corte muito forte nos investimentos das empresas em resposta à crise. Mas, ao mesmo tempo, o Brasil vem desenvolvendo o seu mercado interno, de consumo. As classes menos favorecidas, as classes mais pobres, vêm sendo incorporadas gradativamente ao mercado. Está começando a acontecer uma coisa que não havia no Brasil, que é o financiamento de consumo.

FOLHA – Como o sr. vê a reação do governo?
CUNHA
- Em primeiro lugar, foi de susto, tentando negar a crise. Mas, passado o susto, acho que o governo agiu bem e rapidamente. Não havia mesmo necessidade, no Brasil, de segurar o sistema financeiro. O sistema financeiro é sólido. Alguns setores começaram a sofrer um impacto forte, como os de automóveis e de eletrodomésticos, e o governo agiu rápido para restabelecer o consumo. São vendas que dependiam de financiamento. O governo Lula mostrou presteza e atenção.

FOLHA – O Banco Central não demorou a começar a baixar os juros?
CUNHA
- O Banco Central tem sido disfuncional em determinados aspectos. Tem sido lento e suas decisões são sempre na direção do conservadorismo, de manter os juros estratosféricos, mas, depois, acabou agindo na direção certa. Agora, o juro está começando a chegar a números mais civilizados.

FOLHA – Mas o presidente do BC, Henrique Meirelles, não é considerado a âncora da economia?
CUNHA
- Por alguns, mas a âncora da economia, no fundo, é o brasileiro, são as empresas brasileiras, o sistema de produção, a agricultura, o agricultor, o trabalhador, os funcionários das empresas. Tende-se a achar que o governo e algumas pessoas são responsáveis pelo que há de bom. Muitas vezes são responsáveis pelo mal. O bem são os brasileiros que fazem.

FOLHA – Onde o sr. nota essa tendência?
CUNHA
- O Brasil vive hoje uma fase muito interessante, bastante heterogênea. O brasileiro está querendo crescer, melhorar, subir. Está buscando educação. Pela primeira vez se começa a falar de educação de maneira mais ampla e mais profunda no Brasil. Vejo grande parte dos funcionários das empresas que trabalham durante oito horas por dia saírem [do trabalho] e ainda irem para a escola, para algum curso de aperfeiçoamento, para um curso superior buscando o conhecimento para melhorar sua formação. É um esforço muito grande. Outra coisa que se vê é um aperfeiçoamento muito grande na qualidade de gestão das empresas. Essa gestão mais profissionalizada está se generalizando no Brasil. É um fato notável. Tanto que as filiais das multinacionais no Brasil estão em situação melhor do que as matrizes. Os brasileiros estão se transformando em grandes gestores. Cada vez mais se vê brasileiros na gestão de empresas multinacionais.

FOLHA – O governo Lula foi uma surpresa para o sr.?
CUNHA
– O governo Lula sofreu uma mudança de paradigma no momento da Carta aos Brasileiros (antes da eleição de 2002, em que assumia compromissos caso fosse eleito). [...] Ele teve, de um lado, o bom senso de manter as coisas que vinham dando certo, de reconhecer a importância da estabilização da moeda, o valor da higidez das contas públicas. Essas coisas centrais o governo Lula manteve, com uma intensidade que, admito, foi surpresa para muita gente. Ao mesmo tempo, o governo levou atitudes concretas de apoio ao povo mais desassistido. Apesar de os instrumentos básicos terem sido estabelecidos anteriormente, como o Bolsa Educação, a incorporação desses programas no Bolsa Família deu a ele uma nova dimensão.
Agora, nem tudo é tão maravilhoso assim. Do lado institucional há muito a fazer. Nós temos um sistema político que não atende às necessidades do país. O sistema político está recrutando mal. Ele não recruta as melhores pessoas. Se uma empresa fizesse recrutamento dos seus quadros da mesma maneira que os partidos fazem, as empresas estariam fora do ar, fora do jogo.

FOLHA – O sr. acha que é preciso fazer uma reforma política?
CUNHA
- O Brasil precisa de reforma política, mas o mais importante é uma mudança mais profunda na maneira de fazer as coisas. O governo precisa ser estatizado. Algumas estatais estão em grande parte privatizadas, não apenas por políticos regionais mas por determinados partidos. A crise do Senado é uma crise que não é de agora, não é de ontem, não é da semana passada, é uma crise que já vem se desenhando há muito tempo e não é exclusiva do Senado. O Senado está sob o holofote agora, mas, certamente, o mesmo holofote colocado em outros órgãos poderá trazer surpresas desagradáveis.

FOLHA – O sr. acha que a CPI da Petrobras pode chegar a alguma coisa?
CUNHA
– Não sei, acho que essa CPI não vai chegar a lugar nenhum. Não acho que o Brasil se resolva com CPIs. O que o país precisa é discutir o pré-sal, discutir essas questões mais relevantes. Esse bafafá político tem impedido o Brasil de discutir essas questões.

FOLHA – Como o sr. viu a proposta do governo para o pré-sal?
CUNHA
- Não vi a proposta do governo, ainda. O que se tem são vazamentos do que seria. Há duas questões centrais: como é que vão ser repartidos os resultados e como o governo vai se apropriar dos resultados.
Essa é uma questão de grande profundidade. Envolve interesses de Estados, municípios, de um sistema político que já está estabelecido em torno do sistema tradicional de concessões. O governo parece optar por um sistema de partilha.

FOLHA – O sr. aprova a mudança?
CUNHA
- Tanto um como o outro funcionam, mas desde que seja bem administrado, assim como a estatal a ser criada para a operação. Se for bem administrada, transparente, enxuta, a estatal pode funcionar bem.
Mas existe outra questão, que é de grande relevância, que é o que será feito com a exploração das reservas, que ritmo vamos dar à exploração. Não podemos sair numa correria louca para produzir o máximo de petróleo e distribuir esses resultados, senão haverá consequências muito ruins do ponto de vista inflacionário, a partir de uma apreciação forte do real, e os efeitos serão devastadores para o resto da produção brasileira.
O melhor seria explorar de forma moderada, preocupando-se em poupar para o futuro.

19/07/2009 - 09:58h “La commedia no è finita”

“Espetáculos de degradação como o do Senado se afiguram para a classe dominante brasileira como espetáculos”, escreve na Folha Janio de Freitas (“Um país divertido”). O Ombudsman do jornal, coincidentemente, parece considerar que a cobertura feita pela Folha contribui para transformar o Congresso em “baudeville”* e servir assim ao espetáculo da mesma classe dominante. É que Janio de Freitas não trata do papel da imprensa nessa “comédia” e Carlos Eduardo Lins da Silva, o ombudsman, sim. LF

* Baudeville é uma forma do teatro originado na França, a partir de parodias ou temas leves tratados geralmente como comedia e divertimento.

CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA
ombudsman@uol.com.br

Como diminuir a lixação

O Legislativo produz mais do que crimes e fofocas, as duas únicas criações que parecem mobilizar a reportagem

NA QUINTA-FEIRA , o jornal noticiou que o Senado havia aprovado em última instância projeto de lei que altera regras para a adoção de crianças. A mais recente menção da Folha ao assunto havia ocorrido em 21 de agosto de 2008. É como se dez meses atrás tivesse anunciado que Roberto Carlos faria um show no Maracanã e só voltasse ao tema na segunda para descrever o espetáculo.
Ou tivesse dito na quinta que o Cruzeiro perdera a final da Libertadores sem ter tratado do campeonato nos 300 dias anteriores.
Poucos discordarão de que a Lei Nacional de Adoção é um assunto relevante. Como a lei da gorjeta, a reforma eleitoral, a regulamentação dos mototáxis, as mudanças no processo de divórcio, só para citar algumas leis a respeito das quais o Congresso tomou decisões vitais recentemente e que foram apresentadas ao leitor como fatos consumados.
As atividades de trabalho do Legislativo (nos seus três níveis) são cobertas pobremente pela Folha. E não é por falta de gente nem de papel. Boa quantidade de árvores caiu para produzir a montanha de páginas usadas para os mil e um escândalos da Câmara e do Senado só neste ano.
É claro que denunciar malfeitorias com dinheiro público é uma das principais funções do jornalismo.
Mas o Legislativo produz mais do que crimes e fofocas, suas duas únicas criações que parecem mobilizar a reportagem deste jornal.
Mesmo nessas áreas, seu desempenho é fraco. As malversações em geral só aparecem quando algum político interessado em prejudicar adversários as joga no colo de um repórter. Durante anos o Senado teve mais de uma centena de diretores, cujos nomes e funções constavam de catálogos públicos. Mas só agora se tratou deles, por exemplo.
E a cobertura insiste em focar pessoas, não instituições. É mais fácil responsabilizar indivíduos do que explicar processos. Mas tal simplificação é perniciosa para a cidadania e para a sociedade.
O jornal precisa produzir e editar mais material do tipo que gerou o livro recomendado ao final desta coluna e menos do que tem sido o padrão do seu jornalismo político: textos previsíveis, redundantes, cifrados, superficiais, aborrecidos, moralistas e frequentemente a serviço conscientemente ou não de políticos ou individualmente ou em grupos.
Em entrevista que vai ao ar amanhã e está indicada abaixo, o jornalista Gay Talese diz que uma providência imediata para melhorar a qualidade do seu jornal, o “New York Times”, seria tirar de Washington a maioria dos jornalistas que compõem a sucursal na capital do país.
Talvez nem seja preciso tanto aqui.
Se os que estão em Brasília se dedicarem a informar o leitor sobre a tramitação de projetos de lei de importância, ajudando-o a engajar-se no debate público, o jornal será mais efetivo. Talvez então congressistas suspeitos deixem de se lixar para ele.

05/07/2009 - 13:15h Os políticos e a imprensa

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Blog vi o mundo

por Sonia Montenegro, em 3/7/2009

Em 25 de abril de 1984, a emenda que viabilizaria a eleição direta foi derrubada, apesar do grande movimento popular que clamava a volta da democracia e o direito ao voto.

Neste tempo, o político mineiro Tancredo Neves, apesar de comparecer aos comícios das Diretas Já, torcia para que a emenda não fosse aprovada, para que ele pudesse se candidatar pelo PMDB, e ser eventualmente eleito presidente pelo Colégio Eleitoral. Tancredo sabia que sua única chance seria a eleição indireta.

Em 23 de julho, PMDB e PFL assinam aliança Tancredo-Sarney, como candidatos do Colégio Eleitoral para a escolha do novo Presidente e vice da chamada “nova” República.

Tancredo conseguiu a aprovação da imprensa, já havia se entendido com o Roberto Marinho das Organizações Globo, e construiu uma grande aliança que garantiu sua vitória no Colégio Eleitoral, porém, na véspera de sua posse, foi internado, sofreu 7 cirurgias, vindo a falecer

Sua morte só foi anunciada à nação no dia 21 de abril, para coincidir com a morte de Tiradentes, seu conterrâneo e mártir da independência. Tancredo era então o mártir da República. Enquanto ele agonizava, a imprensa o beatificava, com matérias e reportagens que geraram uma comoção popular, como de costume, aliás.

Em 15 de março de 1985 Sarney assume provisoriamente a presidência, e em 22 de abril, definitivamente. Nesta altura, já tinha tido vários mandatos como deputado, governador biônico (eleito indiretamente) do Maranhão, senador e presidente do PDS. Sua vida pública já era conhecida de todos, mas teve apoio no Congresso e conseguiu inclusive aumentar em mais 1 ano o seu mandato. Depois de deixar a presidência, elegeu-se senador pelo Amapá e compunha a base de apoio do governo de FHC.

Em 2002, sua filha, Roseana Sarney se candidata à presidência pelo PFL e começa a ameaçar a ida do tucano José Serra para disputar o 2º turno da eleição com Lula. Isso deixou os tucanos de orelha em pé, com a certeza de que alguma coisa teria que ser feita para impedir a vergonha do candidato de FHC não chegar nem ao 2º turno.

No dia 1º de março de 2002, a PF invade o escritório da Lunus (MA), empresa do marido da então candidata à presidência Roseana Sarney, e encontra R$ 1,3 milhão no cofre. A imprensa divulga imediatamente a pilha de dinheiro e derruba a candidatura da Roseana.

Em 20 de março, o senador José Sarney, pai de Roseana, faz discurso no plenário e acusa textualmente o candidato José Serra como o responsável pela ação da PF. Todos os envolvidos nela eram “gente do Serra”. Não se tem notícia de que tenha sido processado por seu discurso, nem que tenha sido ameaçado por “quebra de decoro”, pelas graves acusações que fez.

“Acusam a governadora pela aprovação da Usimar e esquecem o ex-ministro José Serra, que responde ao processo 96.00.01079-0 por ‘improbidade administrativa – ressarcimento ao erário’, a outra ação, 2000.34.00.033429-7, com a finalidade de ‘reparação de danos ao erário’, e ainda a várias outras ações ordinárias, cautelares, civis públicas, populares”.

O texto acima serve apenas para mostrar a hipocrisia dos políticos e da imprensa:

1- Tancredo fingia que apoiava o movimento pelas Diretas, mas torcia para que não fosse aprovada. Obviamente, a imprensa tinha conhecimento de tudo, mas como não interessava, não divulgava. (Há pouco tempo o jornalista Maurício Dias escreveu a esse respeito em Carta Capital)

2- Sarney, quando era da base de apoio do governo FHC era um político ilustre. Foi presidente do Senado no 1º ano do mandato de FHC (entre 1995 e 1997), seguido de ACM, Jader Barbalho…

3- As abundantes irregularidades do Senado agora denunciadas, já acontecem há pelo menos 15 anos, segundo se diz, mas só agora existe um real interesse em denunciá-las. Aliás, mais uma vantagem de ter Lula no poder: pela 1ª vez, os políticos que mandaram e desmandaram por todo tempo neste país querem apurar as irregularidades, embora retrocedam quando estas retroagem a 2002. FHC espertamente disse que o que aconteceu no seu governo já faz parte da história.

4- Renan Calheiros renunciou à presidência do Senado porque tem uma filha fora do casamento (reconhecida por ele) que foi sustentada por um empresário, mas FHC tem um filho também fora do casamento (não reconhecido por ele), que é sustentado pela Rede Globo (sua mãe é jornalista global, e foi transferida para a Espanha, para não causar transtornos ao pai), mas disso a imprensa não fala, exceto a revista Caros Amigos, que divulgou o fato, e não foi acionada nem contestada. Agora Renan é corrupto, mas ele foi Ministro da Justiça de FHC.

5- Sempre que são feitas denúncias de corrupção, a imprensa elege os “arautos da moralidade” para fazer seus comentários indignados. Os cidadãos desavisados tendem a acreditar que essas figuras são corretas, o que não corresponde à realidade. É pura hipocrisia!

6- Se a imprensa tivesse compromisso com a verdade, escolheria aqueles com ficha limpa, tendo portanto uma enorme responsabilidade pela péssima qualidade do nosso legislativo.

7- A imprensa apoiou o golpe de 64, a ditadura, o Collor, o FHC, e continuará apoiando o que de pior existe na política brasileira, para preservar seus interesses e de seus anunciantes. Essa é a sua lei maior!!!

8- José Agripino Maia é primo de Agaciel Maia, que em 19 de junho último casou sua filha, e contou com a família de Agripino pra prestigiar a festa! Fez-se na política nos tempos da ditadura, quando a corrupção não era noticiada pela imprensa, mas ainda assim, basta procurar para encontrar uma série de denúncias e irregularidades em sua vida pública, como dinheiro “por fora” para campanhas eleitorais. É dono também de alguns veículos de comunicação.

9- Heráclito Fortes também é político dos tempos da ditadura, e faz parte da “tropa-de-choque” do banqueiro condenado Daniel Dantas. Tinha em seu gabinete, desde 2003, como funcionária fantasma morando em São Paulo, Luciana Cardoso, filha de FHC. Recentemente defendeu o pagamento de R$ 6,2 milhões em horas extras para 3.883 funcionários durante o mês de janeiro, em pleno recesso, quando não houve trabalho parlamentar no Congresso.

10- Arthur Virgílio é o rei da cara-de-pau. Bradava contra o caixa 2 do PT, que chamam de “mensalão” apenas para dar uma impressão de maior gravidade, mas em entrevista ao Jornal do Brasil em 19/11/2000, reconhece que “foi obrigado” a fazer caixa 2 na campanha para o governo do Amazonas, e que podia reconhecer o fato publicamente porque o crime já prescrevera. Quando foi prefeito de Manaus, teve nada menos que 46 operações e obras classificadas de irregulares, por uma auditoria no Tribunal de Contas do Município (TCM) JB 18/3/92. Recentemente, divulgou-se que seu assessor pediu a Agaciel US$10 mil, garantindo que um rateio entre “amigos” quitou o empréstimo. Agaciel nega ter recebido. Por atos secretos do Senado, contratou seu professor de jiu-jitsu, 3 filhos de seu subchefe de gabinete Carlos Homero Nina Vieira, um deles morando na Espanha, e ainda a mulher e a irmã de Nina Vieira, sem contar os gastos R$ 723 mil com despesas médicas de sua falecida mãe, em 2006.

Esses são os políticos que a imprensa escolhe para dar depoimentos condenando a corrupção. Seria cômico se não fosse trágico!

Claro está que a intenção da imprensa e da oposição não é absolutamente a de moralizar o Senado, mas toda essa repentina perseguição ao Sarney tem alguns objetivos importantes para a oposição: paralisa o Senado, em tempos de crise mundial, prejudicando o governo e principalmente o país, e intimida os parlamentares da base de apoio deste governo. É como se estivessem dizendo a todos os parlamentares: cuidado, apoiar o governo Lula é muito perigoso!!!

29/06/2009 - 10:59h Os fantasmas que rondam Arthur Virgílio

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Empréstimos de Agaciel a senadores ampliam crise

Gabinete de Arthur Virgílio confirma que pediu dinheiro ao ex-diretor-geral da Casa

Tucano tem sido o principal crítico de Agaciel e Sarney; bancadas de PSDB e DEM vão decidir se pedem o afastamento do presidente

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA – Folha SP

Ameaças do ex-diretor-geral do Senado Agaciel Maia de revelar empréstimos concedidos a senadores e definições de aliados sobre o apoio ao presidente José Sarney (PMDB-AP) vão contaminar ainda mais a crise na Casa numa semana que será decisiva para os dois.
Principal crítico de ambos desde o início da crise, o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), terá de explicar um empréstimo que recebeu de Agaciel. As bancadas tucana e do DEM vão decidir amanhã se pedem o afastamento de Sarney do cargo.
Subchefe do gabinete de Virgílio, Carlos Homero Vieira Nina confirmou ontem que pediu dinheiro a Agaciel para ajudar o líder tucano a pagar uma conta de hotel em Paris, em 2003, conforme revelou a revista “IstoÉ” deste final de semana.
“O Arthur estava com um problema no cartão de crédito. Era fim de semana, então eu procurei o Agaciel, que é, ou era, um grande amigo meu”, disse Nina à Folha. “Podem ter sido uns R$ 10 mil, mas não eram US$ 10 mil [como informou a revista]“, completou.
De acordo com a revista, o dinheiro não foi pago. O assessor do líder tucano nega. “Eu fiz uma vaquinha e paguei na mesma semana”, disse. Vieira Nina não soube precisar se avisou o senador que o dinheiro depositado na conta dele era de Agaciel. “Não lembro, mas imagino que eu tenha dito sim.”
Vieira Nina também admitiu que três filhos seus foram funcionários do gabinete do tucano. Virgílio afirmou que irá representar contra si próprio no Conselho de Ética.
A Folha apurou que outros senadores também já tomaram empréstimos de Agaciel. Apesar de dizer publicamente que não ameaça e não chantageia ninguém, o ex-diretor tem enviado recados por interlocutores que poderá começar a revelar outros casos parecidos com o do líder do PSDB.
Ao discursar em favor de Tião Viana (PT-AC), que perdeu a eleição para a presidência do Senado para Sarney em fevereiro, Virgílio defendeu a saída de Agaciel da Direção Geral, posto que exercia desde 1995, quando foi nomeado por Sarney. O tucano citou na ocasião que uma secretária de Agaciel tinha um automóvel BMW.
Em março, Agaciel foi demitido, após a Folha revelar que ele escondeu da Justiça uma mansão avaliada em R$ 5 milhões. Foi revelado também que, a pedido do então diretor-geral, o Senado gastou R$ 6,2 milhões para pagar horas extras no recesso parlamentar. Agaciel e seu grupo passaram a creditar aos tucanos e a Tião Viana a origem das denúncias.
Em seguida, o petista teve que explicar por que emprestou um telefone celular do Senado para a filha viajar para o México. A conta custou R$ 14 mil. Em abril, quando foi revelado que Tasso Jereissati (PSDB-CE) usou sua cota de passagem aérea para fretar jatinhos particulares, o tucano culpou diretamente Agaciel.

Processo administrativo

Na quarta-feira, deverá ser confirmada a abertura de um processo administrativo contra o ex-diretor-geral, o que poderá resultar na sua demissão. Agaciel é o principal acusado de produzir atos secretos na Casa. A comissão de sindicância que apura o caso deverá entregar o seu relatório final. O Ministério Público Federal também abriu um inquérito relativo ao tema.
Amigo de Agaciel e padrinho de casamento de sua filha, Sarney também enfrentará dias de tensão. O DEM e o PSDB decidem amanhã suas posições em relação à situação de Sarney.
As duas bancadas questionam o fato de um neto de Sarney ser dono de uma corretora que atuou no mercado de crédito consignado do Senado. Para o DEM, o caso é parecido com o do ex-diretor de Recursos Humanos João Carlos Zoghbi, cujos filhos eram donos ocultos de uma corretora que também operava no Senado.
“Não podemos ter dois pesos e duas medidas”, disse o líder do DEM José Agripino.

26/06/2009 - 19:12h E são os salários dos diretores da Petrobras, segundo o senador Alvaro Dias (PSDB), que são imorais?

Senado é bagunça organizada

Kennedy Alencar – Folha Online

É provável que o Senado esteja passando pela mais grave crise de seus quase 200 anos de história. Muita gente fala em crise institucional, como se houvesse a chance iminente de fechamento do Senado ou de desaparecimento num buraco negro de ilegalidades, irregularidades e imoralidades.
Crise institucional é exagero. Acontece exatamente o contrário. A democracia brasileira está firme e forte. É o funcionamento pleno das instituições que permite ao país presenciar a abertura da caixa-preta do Senado.

Os dados são assombrosos.

O Orçamento do Senado é de R$ 2,8 bilhões por ano. São 81 senadores. Para manter cada senador, isso dá mais de R$ 34 milhões por ano, cerca de R$ 2,8 milhões por mês, R$ 94 mil por dia.

O senador Heráclito Fortes (DEM-PI), 1º secretário da Casa e responsável pela administração da instituição, diz que o número total de servidores se aproximou dos 12 mil no início deste ano, mas já teria havido uma redução para pouco mais de 11 mil. Ou seja, 123 funcionários para cada senador. Pior: não dá para saber com exatidão a quantidade de servidores.

A grande maioria dos benefícios, como salário de R$ 12 mil para motoristas, com todo respeito a essa categoria profissional, está protegida por atos jurídicos que dificilmente poderão ser derrubados.

Cerca de R$ 2 bilhões do Orçamento do Senado vai para o pagamento de pessoal, incluindo ativos, inativos, comissionados e terceirizados. Altos salários são frutos de atos da burocracia da Casa para criar uma casta privilegiada.

Combater as ilegalidades flagrantes é muito mais fácil. Mais espinhoso será acabar com as irregularidades e imoralidades, porque vestidas de aparente caráter legal.

Temperada com a cultura patrimonialista de nossa classe política, a bagunça do Senado foi deliberadamente organizada para permitir desvio de dinheiro público. É uma bagunça perfeita para favores políticos e econômicos a parentes e amigos, mordomias para os 81 senadores e amplo espaço para negociatas privadas de servidores inescrupulosos. Para usar termos educados, malandragem e ladroagem.

E-mail: kennedy.alencar@grupofolha.com.br

07/06/2009 - 15:33h El País publica reportagem virulento contra Berlusconi e com mais fotos

REPORTAJE: BERLUSCONI

Anatomía de Berluscolandia

Decenas de vuelos oficiales y privados llevan cada fin de semana a Cerdeña a una milicia de bellezas que entretienen al jefe del Gobierno italiano y sus amigos. Tras las acusaciones de la primera dama y el ‘Noemigate’, Italia revela al mundo su clima de bajo imperio. ¿Pasará factura a Berlusconi?

http://www.elpais.com/recorte/20090607elpepuint_1/XLCO/Ies/20090607elpepuint_1.jpg

Ver mais fotos

MIGUEL MORA 07/06/2009 – EL PAÍS

In ENGLISH / In ITALIANO

Jardines infinitos, lagos artificiales, órganos sexuales al aire, juegos lésbicos, efectos especiales, pizza y helado gratis… Un geriátrico lleno de cuerpos imponentes. Las fotos censuradas en Italia por iniciativa de Silvio Berlusconi muestran la rutina desinhibida de la mansión sarda del jefe del Gobierno, en la Costa Esmeralda de la isla de Cerdeña.

Lunes 1, jardines del palacio presidencial del Quirinal, fiesta de la República: cientos de prohombres del régimen suben a saludar al primer ministro, acorralado por las reacciones suscitadas a las noticias de su amistad con Noemi Letizia, una chica de 18 años. Un 70% de esos prohombres acude a saludar a Berlusconi con su hija del brazo, en vez de con su mujer. Bienvenidos a Berluscolandia, el país donde todas las jovencitas quieren ser velinas (azafatas de televisión).

Visitemos ahora Villa Certosa, la misteriosa mansión sarda del magnate milanés que oficia de primer ministro y es el actual presidente de turno del G-8 y líder elegido a mano alzada por el partido Pueblo de la Libertad. Desde que se supo que Noemi Letizia, la joven napolitana de 18 años que llama Papi a Berlusconi, pasó el fin de año en la casa con otras 30 velinas (azafatas televisivas), todos los italianos fantasean con ese nombre: Villa Certosa. La finca es el sueño de cualquier camorrista, sobre todo si está preso: olivos y palmeras, piscinas por doquier, helados y pizza gratis a discreción, lagos artificiales, un anfiteatro donde toca y canta sus canciones napolitanas el inevitable Mariano Apicella, que ha publicado dos discos con Berlusconi como autor de las letras de sus canciones…

El mar turquesa, la gran casa principal, las estancias secretas, el canal subterráneo que comunica el mar directamente con la villa -inspirado en un filme de James Bond-, el parque con sesenta hectáreas de terreno, los bungalós que el dueño pone a disposición de sus invitadas (siempre más chicas que hombres, proporción de 4 a 1), todo ello reformado y renovado en 2006 por unos módicos 12 millones de euros.

Incluso, asegura una fuente muy solvente, la villa esconde un refugio antiatómico en el subsuelo, y las provisiones son renovadas cada poco tiempo. Y luego están las velinas, esas bellezas que quizá, quién sabe, acabarán dando a conocer este extraño periodo de la historia como el berlusconismo-velinismo.

La belleza de la palabra velina (no confundir con bellina) no es menos sugerente que su origen: la velina era la nota que se mandaba a los periódicos desde la oficina de censura del fascismo diciendo qué se podía escribir y qué no. Ese carácter de cosa fuera de contexto se aplicó, con el tiempo, a las azafatas de televisión que aparecían en zonas ajenas a su tarea de florero, por ejemplo junto a la mesa donde el periodista lee las noticias. “Llega la velina”. Cuajó, y así hasta hoy.

Aunque siempre ha sido un secreto a voces, Italia ha convivido sin el menor reparo moral con el hecho de que Silvio Berlusconi haya conocido, cortejado, invitado, recomendado, dado empleo, ayudado y promovido a cientos de velinas durante su carrera política. La lista es demasiado larga y anónima como para reproducirla aquí.

Durante una década de visitas, de fiestas y de escapadas, casi todas ellas, y otras muchas más, habrán pasado lógicamente por Villa Certosa. Los mejores cuerpos de Italia. Las caras más inocentes y bonitas. Aspirantes a modelos, actrices, vedettes, majorettes, presentadoras. Muchachas jovencísimas, de 17 y 18 años hasta 28 o 29, no más: mariposas recién salidas de la crisálida familiar que han entrado a formar parte del harén del jeque. Cuando las acoge en su seno, revela Concita de Gregorio, directora del diario L’Unità, “les entrega una joya en forma de mariposa a modo de contrato o de sello. Es el sello del sultán”.

La política-espectáculo de Berlusconi, su talante personalista y plebiscitario, su fascinación de magnate generoso y mujeriego, han seducido durante tres lustros a las masas de televidentes y votantes italianos con sus chistes, su estilo machista, sus meteduras de pata, su ascenso social, sus triunfos electorales, incluso las victorias y los fichajes de su equipo de fútbol (esta semana paralizó la comunicación del fichaje de Kaká hasta el lunes para no dejarse un solo voto).

Todo eso forma parte natural de su bagaje a-político y a-cultural, de su populismo abierto y mundano, que paradójicamente se apoya a la vez en un no-programa no-político, tradicionalista y católico, lejanamente inspirado en la trinidad “Dios, patria y familia”. Habría que añadir: “y velinas”.

Villa Certosa es el símbolo de estatus del Cavaliere más discreto, su refugio no sólo nuclear. Es su tesoro, su secreto mejor guardado, el lugar donde este hombre de casi 73 años, multimillonario y prepotente, simpático y mediático, recibe a sus amigas y amigos, celebra consejos de ministros informales, cierra o prepara negocios o hazañas políticas, agasaja a los líderes de la derecha mundial, cuida de sus crisálidas, sienta a sus velinas en las rodillas y las pasea en el carrito del golf por el parque, zona militarizada y secreto de Estado desde 2006.

Según narran las fotos de Antonello Zappadu, Villa Certosa es también el lugar donde el magnate megalómano, el personaje excesivo, cómico y mitómano se olvida del abuelo que es (y que se alejó hace una década del dormitorio conyugal) y se convierte en macho otra vez, en el jeque del harén, en el Super-Silvio moreno perpetuo, y operado (también de la próstata), mientras Italia susurra preocupada que toma demasiado viagra y que sus médicos temen por su corazón.

Villa Certosa es además el lugar donde su amiga napolitana Noemi Letizia, de 18 años recién cumplidos, fue invitada a pasar las vacaciones de fin de año con otras treinta colegas y una docena de próceres del berlusconismo, casi todos setentones como él: gerontocracia y chavalas de bandera.

Como dice el filósofo Paolo Flores d’Arcais, “la pregunta no es lo que pasa o ha pasado en Villa Certosa, sino lo que habría ocurrido en Estados Unidos si se hubiera sabido que Obama ha pasado las vacaciones de Navidad con 30 vedettes de 18 años y sin su mujer, o en Alemania si se descubriera que Angela Merkel veranea con 30 gigolós macizos”.

De lo que se trata, en el caso de estas jóvenes mujeres italianas, es de cumplir un sueño, de alcanzar la meta: conocer a Silvio y a sus potentes amigos, trabajar en la televisión y quizá llegar a la política, lo que en el país de la RAI y Mediaset, controladas por el mismo hombre, viene a ser lo mismo.

Muchas de esas jóvenes se han limitado, trágicamente, a encarnar el modelo de sus padres, el conformismo de esa desencantada generación pos-68 que se quedó adocenada ante el televisor en los años ochenta y noventa viendo cómo la Democracia Cristiana se disolvía, cómo Bettino Craxi se exiliaba, cómo la otrora brillante izquierda italiana se convertía a la caída del Muro de Berlín en una casta oligárquica, aburrida y alejada de las necesidades de la gente.

A algunos les parecerá repugnante; a otros, pragmática y humana esa idea del mundo y del ascenso social. Pero, ¿qué mejor forma de triunfar en la Italia de la televisión que estar cerca, muy cerca, del gran patrón de la televisión europea y quizá mundial?

Berlusconi, lo ha escrito Eugenio Scalfari, es el Rey Sol. Como dice un político sardo, “si te acercas al sol, el sol te ilumina y te calienta”. Y según sostiene otro maestro de periodistas, éste represaliado por la derecha, Giancarlo Santalmassi, “media Italia trabaja para Berlusconi, la otra media lo está deseando”.

Acudir a Villa Certosa asegura a las chicas ese lugar bajo el sol, un teléfono al que poder llamar, quizá una recomendación del emperador, un pulgar hacia arriba, un casting al que acudir a la vuelta a Roma o a Milán, el domingo por la noche o el lunes por la mañana, tras las noches largas y divertidas, las charlas políticas de Silvio, los paseos, las salidas a comprar al centro comercial de Porto Rotondo (paga Papi, hasta 1.500 euros por chica), los bailes desenfrenados, algún striptease más alcohólico que pagado, el machismo en su índole peor.

No es fácil estar entre las elegidas, llegar a vestal de Villa Certosa, insiste un político sardo, que prefiere no identificarse por razones de seguridad: “El que va a la villa, cuenta; el que duerme allí, cuenta mucho, y el que pasa las vacaciones, está en el corazón del César”.

El César, que empezó con el ladrillo, tiene siete villas más en Cerdeña, otra en Antigua, incontables mansiones en Roma y en Milán, pero Villa Certosa es la medida de todas las cosas. Incluso los ministros y ministras del Gabinete se dividen entre los muy habituales (como el silencioso Gianni Letta) y los ocasionales que apenas han ido una vez o sólo lo han hecho para participar en algún consejo de ministros (o de administración) fuera de temporada.

Entre las ministras, la que más ha estado es Mara Carfagna, la titular de Igualdad de Oportunidades, a la que por cierto le honra su fidelidad, pues ha sido la única que se ha atrevido a defender su actuación a lo largo del esperpento llamado Noemigate. A su juicio, Berlusconi está siendo atacado por envidia y sin razón, porque es una persona “buena”.

Para las chicas, la mejor forma de entrar es captar el ojo experto del viejo calavera. Como le pasó a Noemi Letizia o a la propia Carfagna y a tantos otros cientos de muchachas. Noemi, una dulce muchacha criada en ambientes cercanos a la Camorra napolitana, quería ser artista. Así que se hizo un libro de fotos y lo mandó a una agencia de Roma. El periodista de Canale 4 Emilio Fede, íntimo de Berlusconi, lo recogió y se lo llevó bajo el brazo, casualmente lo olvidó sobre la mesa, su capo cogió el teléfono y marcó el móvil de la joven. Le dijo que tenía una mirada angelical y que debía conservarse así, pura.

Eso era en octubre, reveló Gino, el obrero que fue novio de Noemi hasta que apareció Papi, en una entrevista a La Repubblica. Poco después, Noemi fue vista en una fiesta de la moda en Villa Madama, y en otra del Milan. En ambos casos la sentaron en las mesas presidenciales. Según han contado tanto Berlusconi como sus padres, la amistad venía de antiguo; Gino y una tía de Noemi lo han desmentido.

El caso es que, en diciembre, Noemi estaba ya en Villa Certosa con su amiga Roberta, una de las tres amigas con las que rodó un vídeo casero que circula por Youtube en el que se declaran fantásticas e inalcanzables. Aunque, bien pensado, quizá fuera antes, porque la propia Noemi declaró al empezar a ser famosa que había visto a Papi a menudo, que él no siempre podía ir a Nápoles con lo ocupado que estaba, y que ambos cantaban juntos las canciones de Apicella. Ahora la joven, en un último intento desesperado de salvar los muebles, ha dicho en una entrevista a la revista Chi, por supuesto de Berlusconi, que sigue siendo virgen.

Otra forma de llegar a Villa Certosa, de alcanzar el rango de mariposa y pasar a formar parte de la colección del gran entomólogo, es conocer a los amigos del Sultán. Mejor si son empresarios VIP del círculo estrictamente judicial (lo judicial une mucho), como Marcello dell’Utri, el patrón de la escudería de Renault y compañero de fatigas off shore Flavio Briatore (que le recomendó a Berlusconi al abogado británico David Mills, creador corrompido del imperio Fininvest B), o el complaciente Fede Confalonieri, presidente de Mediaset.

Tampoco viene mal conocer a esos brillantes periodistas de la tercera edad, estrellas refulgentes del firmamento televisivo oficialista, gente como Fede (autor del telediario más surrealista del continente), o como el siempre genuflexo Bruno Vespa, capaz de entrevistar doce veces al año al amo y sortear siempre la pregunta incómoda.

Todos ellos conforman la esencia decadente del berlusconismo-velinismo, y como tales frecuentan la casa sarda desde hace años. Buscan seguridad, compadreo, calor, calma, relax y cuerpos bonitos para mitigar el estrés y el agobiante ejercicio de la política, la corrupción o el siempre fatigoso (para las vértebras) periodismo de cámara.

Hay, claro, vías intermedias, proveedores diversos, aficionados al deporte del gineceo, madres alcahuetas dispuestas a renovar gratis el cuerpo de magia del prestidigitador, ministros, viceministros y secretarios de Estado dispuestos a aportar novedades a las veladas, ese enorme círculo hecho de hijas de amigos, conocidos, vasallos, empleados, esa prima de curvas prometedoras del portero, el guardaespaldas, la cocinera, la sobrina del carabinero, la aspirante a modelo que manda sus fotos vía e-mail a Palazzo Chigi con su número de móvil escrito en un tipo de letra que imita al lápiz de labios.

Toda Italia está en el juego, todo el país lo sabe, el problema es que todos lo cuentan, pero nadie lo dice con su nombre. Sátrapas, emperadores, monarcas y comendadores han llenado históricamente sus salones de jovencitas, pero ahora la gente tiene miedo, la omertà es condición indispensable para que la hipocresía no termine, la información está bajo control directo o indirecto del emperador (publicidad institucional, subvenciones públicas, promesas, créditos…), si alguien se sale del tiesto le puede costar el puesto, la Iglesia de Roma no debe enterarse (y por eso reclama sobriedad como toda crítica), y encima hay crisis, y vivimos en un país subterráneo por definición, ese maravilloso belpaese que siempre se declara orgulloso de su arte casero para arreglarse improvisando, “da igual Francia o España, lo importante es que se mangia (se come)”.

La entrada de las velinas televisivas en la política, que se encuentra en el origen de esta crisis moral, era la consecuencia inevitable de la historia y del sistema. Forza Italia nunca ha sido un partido, sino un grupo de tifosi, de empleados comandados por Dell’Utri que reclutaron a toda prisa a la plantilla entera de secretarias de Publitalia en 1994 para llenar a tiempo las listas.

Su sucesor, el Pueblo de la Libertad, tampoco es un partido, más bien un aluvión de consejeros medianos, gestores sumisos y rostros bonitos sin tradición, ideología, bases. La televisión y la propaganda como única política; y la política se hace en televisión. Italia sigue siendo el paraíso del enchufe, el que no tiene un amigo está huérfano, y el gran jefe electricista se llama Silvio. Silvio aggiustatutto.

El benefactor es Berlusconi; los colegios y las casas están llenos, rebosantes de bellas Uranitas, y el sitio donde ellas se ponen a tiro es Villa Certosa.

Escuchen a la ex profesora de Noemi Letizia: “Es muy lógico, él le ayudará, a todos nos conviene tener amigos, un médico que te escriba las recetas”.

Elisa Alloro, una de las velinas que han estado en la casa madre, ha publicado esta semana un libro interesante, titulado Noi, le ragazze di Silvio. En él revela que también ella llama Papi a Berlusconi, y no sólo ella, desde mucho antes de que apareciera en la vida del Cavaliere la cenicienta Noemi.

“Es una mina de sabiduría”, escribe sobre el líder máximo la velina periodista, de 32 años. Nacida en Reggio Calabria, Alloro participó en el curso de formación política de 25 jóvenes velinas del PDL, impartido con vistas a las elecciones europeas por, entre otros, el ministro de Exteriores, Franco Frattini, y el vicepresidente del Europarlamento, Mario Mauro, a petición del primer ministro.

Presentadora, Alloro fue preseleccionada por el Cavaliere, junto a, entre otras, Eleonora Gaggioli, aspirante a actriz; Camilla Ferranti, aspirante a presentadora; Angela Sozio, pelirroja de Gran Hermano a la que Zappadu fotografió en 2007 en las rodillas del premier (junto a cuatro más), y Barbara Matera, concursante en el Miss Italia de la Puglia, amiga del doctor Letta, y finalmente (tras el “yo acuso” de Verónica Lario) la única candidata velina de las 25 precandidatas.

La primera que llamó Papi a Berlusconi, revela Alloro, fue Renata, una velina brasileña y milanista. El apelativo se extendió como un virus. “Y ahora, muchas ragazze se dirigen a él con ese nombre, es una costumbre, quizá el fruto de un acuerdo tácito, una especie de nombre en código nacido, quién sabe, del atávico temor a ser interceptadas (por las escuchas telefónicas)”.

El libro, de 100 páginas, está escrito en forma de carta a Verónica Lario, rechaza las acusaciones de “quincalla” y defiende al jefe: “Es una mina de sabiduría, cada minuto pasado con él es como si fuera un don divino”.

Su relato narra que conoció en 2004 a Berlusconi cuando trabajaba para Mediaset. Debía entrevistarle sobre el puente del Estrecho de Messina, pero en apenas un batir de pestañas se encontró catapultada a Cerdeña, “a una comida de trabajo con profesionales del staff presidencial, yo la única mujer”, escribe.

Llegaron juntos desde el aeropuerto romano de Ciampino, sede de los vuelos oficiales de Estado, a bordo del avión presidencial; durante el viaje descubrió que Berlusconi lo sabía todo de ella (”me enseñó un voluminoso dossier”), y éste le hizo una oferta de trabajo que ella rechazó. “Me explicó que estaba organizando una task force de 50 jóvenes periodistas que hicieran de oficina de prensa puente entre Roma y Bruselas. A su currículo le convendría enormemente, me dijo…”.

Acabada la comida, de nuevo vuelo en el avión de Estado hacia San Siro, donde jugaba el Milan. Escolta de coches oficial, las sirenas ululando y luego un nuevo traslado aéreo a Ciampino.

Tras dejar Mediaset, Elisa siguió viendo a Berlusconi: “A veces me ha invitado a ir a Villa Certosa, a cenas con decenas de invitados”. De Noemi tiene recuerdos vagos (”nos presentaron fugazmente durante una fiesta”). Pero imposible olvidar, escribe, a las dos gemelitas montenegrinas que escenificaron “un baile loco y disparatado ante los ojos consternados del primer ministro”. Y las “otras apariciones no anunciadas, femeninas y no, a las puertas de sus habitaciones”.

Eso es Italia, ya lo ha dicho la primera dama, Verónica Lario, mucho menos despechada que harta, lisístrata, patriota y revolucionaria, al condenar la podredumbre del berlusconismo-velinismo: “Padres dispuestos a ofrecer a sus vestales al Dragón”, “quincalla política y machista sin pudor”, un marido y primer ministro que “frecuenta menores y no está bien”. Imposible decir más en menos palabras.

El equipo del Cavaliere está al tanto de las necesidades. Los periodistas que cubren los movimientos del premier cuentan que hay una guapa moza en su escuadra de prensa que viaja con él a todas partes aunque no sabe hacer la o con un canuto. Su asesora de imagen, Miti Simonetto, le cubre las flaquezas como puede e intenta que el César parezca honrado.

Hay otro personaje misterioso, una mujer cuarentona, morena, guapa, siempre con traje de chaqueta, que Zappadu ha fotografiado muy a menudo en el aeropuerto de Olbia. Se trata de Sabina Began (SB), la preferida: la prensa del cotilleo romano le llama la abeja reina. El día de la Liberación de Italia, el 25 de abril de 2008, durante los festejos de la victoria electoral, Berlusconi; el presidente del Senado, Renato Schifani; Apicella y otros jerarcas estaban rodeados por un ramillete de muchachas curvas. Don Silvio sólo tenía ojos para SB, que se tatuó en un tobillo “SB, el encuentro que me cambió la vida”. Mientras la tenía en sus rodillas y le canturreaba Malafemmena, Berlusconi dijo: “Si hubiese aquí un fotógrafo, esta foto valdría 100.000 euros”.

Como ha afirmado Lario, la historia política que está en juego va mucho más allá del caso Noemi, la pobre Noemi es sólo la última víctima de este gigantesco Gran Hermano. ¿Será la casa, Villa Certosa, como Las mil y una noches, un búnker de lujo algo hortera con juegos eróticos o Berluscolandia o algo peor y más lujurioso?

Seguramente, ninguna y a la vez una mezcla de las tres cosas, contestan diversas fuentes sardas. Y las fotos de Zappadu, que nos introducen en ese submundo. Berluscolandia es bello, eso no se puede negar, aunque la naturaleza sarda es mucho más agreste y menos postiza que esas postales de césped bien cortado, ese huerto de hierbas medicinales redondo, esas torres naghuras de imitación.

La primera cosa que salta a la vista es la desmesura. Sesenta hectáreas de terreno son muchas. Sobre todo en Costa Esmeralda. Caben dos playas privadas, tres lagos artificiales, media docena de piscinas, el anfiteatro donde actúan Apicella (el cantautor para el que escribe Berlusconi), las bailarinas y bailaoras (la afición flamenca todavía se pregunta quién es y qué hacía ahí esa intrusa).

A un lado de la finca está el Country, uno de los lugares preferidos del primer ministro, una discoteca con velas, alfombras orientales y un privado llamado, ironías del asunto, Harem. Pero no sufran las almas cándidas. Ninguno de los miles de visitantes de Villa Certosa ha hablado nunca de sexo. Allí no hay sexo. Lo más, helado.

Beppe Severgnini, comentarista de Il Corriere, lo ha explicado así: “Villa Certosa está asumiendo, en las fantasías nacionales, magnitudes legendarias. Los amigos del protagonista, intentando minimizar, contribuyen a enriquecer la puesta en escena. Marcello Dell’Utri: “Hay una heladería. Tú vas y te sirven todo el helado que quieres. Gratis. Si se piensa, es un hallazgo muy divertido”. Flavio Briatore: “Está el juego del volcán. Se charla de esto y aquello cuando el grupo se acerca al lago, Berlusconi finge preocuparse, dice que Cerdeña es una zona volcánica. Y en ese momento se oye una explosión increíble, hay efectos tipo llamas…”. Sandro Bondi, ministro de Cultura, intentando explicar la desnudez de Topolanek, el ex primer ministro checo: “Bah… Por otro lado, piense que la villa está a pocos metros del mar. Un mar, como usted sabrá, de una belleza absoluta”.

Dell’Utri no ha podido negar que sí, que a la vez que hay helado y pizza, la finca siempre está llena de jovencitas bellísimas, que pasean y se bañan, se duchan y se exhiben.

Lo más complicado para Berlusconi no será justificar estas fotos, que ya ha definido como “inútiles”. El problema es que haya otras más comprometidas. “Berlusconi sabe que hay un topo en Villa Certosa. Alguien le ha traicionado desde dentro, pero no sabe quién es”, explica Marco Mostallino, un periodista local. “Berlusconi debe creer que está entre los guardias de seguridad. No por casualidad ha acusado a su mujer desde el periódico de su hermano de estar liada con su guardaespaldas”.

Villa Certosa está vigilada 24 horas como una fortaleza por militares y carabineros. También hay guardias privados, y otros que llegan de todas partes. La historia de la seguridad en Costa Esmeralda está vinculada al agá Jan, el primer promotor turístico de Cerdeña, y empezó con los vigilantes (en español). “Jan contrató a todos los hombres disponibles, y muchos de ellos tenían antecedentes”, asegura Mostallino.

Unos años más tarde, Berlusconi llegó a la isla. “Llegó con su hermano Paolo hacia 1981 o 1982″, recuerda el político sardo. “Su idea era construir dos millones de metros cúbicos sobre el mar, en un terreno de 200 hectáreas al sur de Olbia, entre Le Saline y Capo Cerasso. Para abrumar, venía con unos libros enormes que decía contenían la valoración del impacto económico. Viajaba con un séquito de arquitectos, ingenieros, asesores fiscales, economistas. El proyecto tardó diez años en ser aprobado, sólo se le dejó hacer un cuarto de la extensión inicial, y en la montaña, lejos del mar. Pero cuando se aprobó no tenía el dinero. Era 1993, y en seguida entró en política”.

Silvio y Paolo construyeron la villa en los primeros años noventa. Con el tiempo fueron convirtiéndola en una casa digna de una película de James Bond. El irónico Severgnini ha escrito en Il Corriere della Sera que algún día alguien escribirá la historia de Villa Certosa: “La cínica elasticidad italiana consentiría contar mucho, si no todo. El último escollo es la coherencia oficial. Los políticos, incluso los de menos prejuicios, no están listos todavía para admitir lo que hacen, temiendo que alguien lo confronte con lo que dicen”.