20/11/2008 - 10:00h Prefeitura RJ: lei cria cota racial para cargos de confiança


Medida valerá nos órgãos da prefeitura, que destinarão 20% das vagas para os negros

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Eduardo Maia – O Globo

O sistema de cotas raciais chegou aos cargos de confiança dos órgãos da administração direta e indireta do Rio. A Câmara Municipal derrubou anteontem o veto do prefeito Cesar Maia ao Projeto de Lei 1.268/2007, que determina que 20% das vagas dos cargos comissionados em todos os órgãos da prefeitura sejam destinados a afro-descendentes.

O texto especifica que 10% das vagas sejam para negros e 10% para negras.

A lei entra em vigor imediatamente após sua publicação na Casa. Segundo o autor, o vereador Roberto Monteiro (PCdoB), a lei vale para todas as esferas dos poderes Executivo e Legislativo municipais. Os órgãos que ainda não tiverem esses percentuais mínimos deverão se adequar.

— O veto foi derrubado dois dias antes da comemoração da Consciência Negra. Acho que é uma oportunidade de incluirmos os negros nos níveis mais altos da sociedade, o que ainda não aconteceu totalmente 120 anos após a abolição da escravidão no Brasil.

Não estamos falando de concursados e sim de pessoas capacitadas para cargos de confiança.

Não é tão difícil encontrar negros capacitados para exercerem essas atividades por aí — disse o vereador.

Cesar: questão será decidida pelo futuro prefeito A lei vale ainda para empresas que participam de disputas de contratos para prestação de serviço com o Município.

— A partir da publicação da lei, todas os contratos de licitação da administração municipal deverão exigir essa cota mínima. A empresa que não cumprir, inclusive entre o contingente de funcionários destinados a trabalhar nesses serviços contratados, estará fora da lei — acrescentou Roberto.

Cesar já afirmou que a prefeitura pode recorrer da decisão na Justiça, mas que deixará a questão para ser decidida pela próxima administração municipal.

Em viagem de férias com a família à Europa, o prefeito eleito Eduardo Paes não se pronunciou sobre a nova lei.

20/11/2008 - 09:56h Tributo ao Almirante Negro

Dia da consciência negra

A vida e a luta de João Cândido Felisberto, líder da Revolução das Chibatas, no começo do século 20, serão levadas ao palco, hoje, por alunos de escola pública de Samambaia

Lívia Nascimento - Correio Braziliense

Hiram Vargas/Esp. CB/D.A Press
Rafael Hack (E) e Rafael Cerqueira comandam o espetáculo, como diretor e ator principal, respectivamente: expectativa de êxito nas apresentações

A coragem e a determinação que marcaram a vida de uma figura pouco conhecida da história brasileira, o marinheiro João Cândido Felisberto, chegaram às salas de aula da Escola Classe 414, de Samambaia. A saga do personagem conhecido também como Almirante Negro, líder da Revolução das Chibatas, em 1910, encantou os estudantes do 1º ano do ensino médio da instituição.O encontro entre os adolescentes de 16 e 17 anos surgiu após a leitura da publicação do Prêmio de Redação da Fundação Assis Chateaubriand deste ano que homenageou o marinheiro. Hoje, Dia da Consciência Negra, eles encenarão na escola a peça inspirada na vida de João Cândido.

Em junho, o colégio recebeu exemplares do caderno especial que contava toda a vida do líder. Filho de ex-escravos, João se alistou na Marinha do Brasil e não demorou a se revoltar contra o tratamento dado aos marinheiros, negros em sua maioria, e freqüentemente castigados com chibatadas — prática comum durante o período de escravidão.

A idéia de homenagear João Cândido partiu do professor de história que resolveu trabalhar o caderno em sala de aula como ferramenta de ensino das disciplinas, o que despertou o interesse das turmas. Após ler o material sobre a vida do almirante, Francisco Laranja comentou com a coordenadora da instituição, Heloísa Martins Ferraz, que o assunto daria uma bela peça e assumiu o desafio de levar para o palco de madeira, montado pelos alunos no pátio da escola, a obra adaptada.

As duas apresentações do Tributo a João Cândido, marcadas para as 10h30 e 16h30, devem ser assistidas pelos 1.150 alunos do centro de ensino. Durante todo o dia serão realizadas diversas manifestações culturais em homenagem à cultura afro-brasileira.

Montagem
Para transformar o sonho em realidade, foi preciso o trabalho em equipe de todos os envolvidos no projeto. O professor, que faz sua estréia no mundo das artes cênicas, dividiu os alunos em dois grupos: produtores e atores. Como a história é vivida por marinheiros, os meninos ficaram concentrados no palco; as mulheres ocuparam seus espaços na produção. A animação da turma é contagiante: eles constroem o cenário, objetos cênicos e se organizam para produzir o figurino típico do início do século 20.

Segundo Heloísa Ferraz, a peça ensaiada há um mês pelos estudantes agregou conhecimentos fundamentais para a vida escolar. “Como foi um tema trabalhado com muito cuidado nas salas de aula, eles estão bastante envolvidos com a história. Esse trabalho também ajuda com a auto-estima deles, o que acaba refletindo no rendimento escolar”, avalia. Já o professor Francisco Laranja destaca o resgate da história : “É importante porque falta ao Brasil reconhecer fatos importantes da cultura nacional. A Revolta das Chibatas não é um tema tão conhecido”, espera.

Concurso
O resgate do personagem ainda desconhecido de grande parte da população brasileira começou com a realização do 14º Prêmio Nacional Assis Chateaubriand de Redação — Projeto Memória que teve como tema João Cândido Felisberto e a Luta pelos Direitos Humanos. Para subsidiar as redações que seriam escritas pelos estudantes foi produzida uma publicação de 12 páginas com dicas de estudo e informações sobre a vida do Almirante Negro.

Se depender do intérprete de João Cândido, o estudante Rafael Cerqueira, 17 anos, a história será contada da maneira mais fiel e com o objetivo de fazer justiça à vida do almirante. “No começo achei que não daria conta, mas depois comecei a ler mais sobre a história dele e me interessei. Ele brigou pelos direitos dos marinheiros.”

Para o diretor do espetáculo, Rafael Hack, 17 anos, a apresentação na escola é apenas o primeiro passo. “Pretendo que a peça saia o mais perfeita possível porque é bom para mostrar para a nossa população que os negros já passaram por muita coisa. Com a peça, o tema de João Cândido será fixado na cabeça dos jovens”, avalia, com segurança.

Um exímio bordador

No livro Pontos e bordados (Editora UFMG; 460 páginas, R$ 38), o escritor e historiador mineiro José Murilo de Carvalho resgata a figura do marinheiro João Cândido Felisberto, o Almirante Negro. Os leitores ficam sabendo de uma informação no mínimo inusitada: o hábil marinheiro e líder da Revolta da Chibatas também executava a arte de bordar com maestria.A descoberta aconteceu por acaso durante a visita do escritor ao Museu de Arte Regional de São João del Rei, em Minas Gerais, ao encontrar dois panos bordados com desenhos de autoria atribuída a João Cândido Felisberto.

Após pesquisa, José Murilo descobriu que durante o tempo em que ficou preso, depois de sufocada a revolta, o almirante bordava para ajudar a passar o tempo e fugir da morte na cadeia onde perdeu muitos companheiros. Uma das peças é chamada de O adeus do marujo. Tem no centro uma âncora e sobre ela duas mãos que se apertam como em uma despedida. (LN)

para saber mais

Homenagem à luta de Zumbi

O Dia Nacional da Consciência Negra é comemorado no país há 35 anos em lembrança ao assassinato de Zumbi dos Palmares. O escravo foi morto em 1695 e era considerado o mais importante líder do Quilombo dos Palmares, na serra da Barriga, divisa entre Alagoas e Pernambuco.Fundado em 1597 por escravos foragidos de engenhos, o quilombo deu origem a uma cidade formada por fortificações espalhadas pela mata, onde chegaram a viver em torno de 20 mil a 30 mil pessoas.A semana na qual está inserido o dia 20 de novembro também recebe o nome de Semana da Consciência Negra.

Em algumas cidades do Brasil, como São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Campinas (SP), Cuiabá (MT), Sorocaba (SP), Maceió (AL), Volta Redonda (RJ) e Piracicaba (SP), a data é lembrada como feriado para alguns serviços. Nessas localidades, as agências bancárias não abrirão. Mas no Distrito Federal haverá expediente normal.

15/11/2008 - 18:00h Da secessão… à consagração

Abraham Obama, painel do artista Ron English, em Boston, sobrepõe as imagens de Abraham Lincoln e Barack Obama

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Eleições de Lincoln, em 1860, e de Obama, em 2008, mostram um Sul dos EUA ainda avesso à mudança

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Flávio Henrique Lino – O Globo

Ambos têm nomes bíblicos e vieram de famílias de classe média.

Ambos foram os primeiros a chegar à Casa Branca nascidos em estados fora do corpo histórico principal do país e fizeram carreira política no Illinois. Ambos pegaram uma nação em crise profunda e marcaram época com sua eleição. Ambos libertaram os negros americanos — um de grilhões reais; o outro, de grilhões mentais. Numa dessas curiosas ironias da História, são muitas as semelhanças que traçam uma linha do tempo direta entre Abraham Lincoln e Barack Obama. Uma delas, no entanto, chama a atenção por transcender a mera coincidência. Quase um século e meio decorridos desde que Lincoln tornou-se o primeiro republicano eleito presidente, em 1860, e Obama, o primeiro negro, em 2008, tanto um quanto o outro foram rejeitados pelo Sul dos Estados Unidos, num recorte regional de votos que delimita não somente diferenças geográficas, mas, sobretudo, de mentalidades.

Nos 11 estados que declararam a secessão após a eleição de Lincoln e formaram os Estados Confederados da América, baluarte da escravidão nos EUA, Obama ganhou somente em três: Virgínia, Carolina do Norte e Flórida. Um desempenho certamente melhor que o de Lincoln, cujo nome sequer apareceu nas cédulas de nove dos dez estados sulistas que decidiam por voto direto seus delegados ao Colégio Eleitoral, tamanha a rejeição local às suas propostas em favor da limitação da servidão dos negros. No único em que concorreu — Virgínia, onde teve 1,1% dos votos — a derrota avassaladora sinalizou o caminho para o confronto inevitável entre duas visões de mundo diametralmente opostas, levando Norte e Sul dos Estados Unidos ao mais sangrento conflito já travado no continente. A Guerra Civil Americana cavou, no rastro de 600 mil mortes, um fosso ainda hoje intransponível entre as duas regiões, muito depois de os canhões silenciarem em 1865.

— Nosso país foi invadido e derrotado. Há 143 anos estamos sob ocupação — enfatizou ao GLOBO, da Carolina do Norte, o presidente da Sociedade Confederada da América, Craig Maus, tratando o Sul como nação e usando um tom amargurado como se a guerra tivesse terminado dias atrás. — Só queremos ser deixados em paz pelo governo federal.

Obama só venceu em 228 de 1.104 condados do Sul

Contado em votos, o desempenho do “abençoado” Barack, cujo nome é a versão africana do hebraico Baruch, foi infinitamente melhor que a de seu antecessor longínquo, também batizado numa referência bíblica, ao patriarca do povo judeu. O negro Obama foi escolhido por 18 milhões de eleitores dentro dos limites da antiga Confederação, contra os 20 milhões que votaram em seu adversário, o branco John McCain. Já Lincoln teve ínfimos 18.915 votos, de um total de 856.461.

Mas, se por um lado foi surpreendente a expressiva votação do senador que se tornou o primeiro presidente não nascido nos EUA continentais (Obama é havaiano), em pelo menos um aspecto sua performance pouco difere da do exdeputado nascido no Kentucky, o primeiro não originário da matriz das 13 colônias a chegar ao poder supremo no país: em número de condados.

Lincoln levou apenas 2 dos 996 que formavam o Sul em sua época, enquanto Obama coloriu de azul somente 228 dos 1.104 em que a antiga Confederação está hoje dividida. Mesmo nos três estados sulistas que viraram as costas à História e deram a vitória ao filho da África no voto popular, ele passou longe de aproximar-se do número de condados que apoiaram o rival filho do patriciado branco. Ou seja, a reviravolta histórica foi garantida nas grandes cidades, mais populosas e arejadas culturalmente e mais antenadas com o espírito do século XXI; porém, nos rincões do Sul profundo, onde a vida cotidiana ainda deita raízes no passado, predominam atitudes e valores que remontam ao século XIX.

— Esta eleição foi igual a qualquer outra, e não vejo significado histórico nela. A cor e a origem do candidato não afetam nossas decisões.

Aliás, a guerra civil não foi por causa da escravidão, mas sim por causa dos impostos — garantiu Maus, que não quis revelar em quem votou. — Prefiro não falar nisso. Não faz qualquer diferença.

Seus vizinhos na pequena Mooresville, no entanto, claramente optaram por John McCain, cuja campanha se baseou fortemente na acusação de que Obama ia aumentar os impostos. No condado de Iredell, onde fica a cidadezinha de 19 mil habitantes na Carolina do Norte, o republicano bateu o democrata — embora Obama tenha vencido no estado — por 61,9% dos votos a 37,5%.

Uma tendência que o colunista Harold Meyerson, do “Washington Post”, apontou como o caminho do partido de George W. Bush neste início de século XXI: “Nas duas últimas eleições, os republicanos se enfraqueceram em todos os lugares, exceto no Sul branco rural — a região que permanece a menos educada e a menos diversificada”.

Em Mooresville, cujo prefeito — reeleito em 2007 — é republicano, 81% dos habitantes são brancos, e o resto se divide entre negros (14%) e outras etnias, segundo o Censo de 2000.

Vitória de um negro seria sinal de novos ventos

Apesar de tudo, a eleição de Obama pode já ser o sinal de que algo está mudando, mesmo no recalcitrante Sul. Os próximos quatro anos vão mostrar se os EUA realmente ingressaram na era pós-racial, como o agora presidente eleito pregou incessantemente durante a campanha.

— Pode haver algum desconforto de alguns, e bastante desconforto de outros com a vitória de Obama, mas acho que estamos prontos aqui no Sul para esperar e ver — acredita a professora Andrea Simpson, do Departamento de Ciência Política da Universidade de Richmond, na Virgínia, ela própria negra e eleitora democrata. — Ele já mostrou que tudo é possível e que as atitudes raciais estão mudando. Se fizer bem seu trabalho, mais pessoas vão começar a se modificar.

10/11/2008 - 19:01h Duas visões da vitória de Obama

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por Luiz Weis – Verbo Solto

Deu nos jornais. Há poucas semanas, a deputada republicana Michele Bachmann, de Minnesota, disse na televisão que estava “muito preocupada” com a possibilidade de Obama ter “idéias anti-americanas”. No dia seguinte à eleição, ela se declarou “extremamente grata por termos um presidente afro-americano”. A vitória de Obama, exultou, “foi um tremendo sinal que nós mandamos.”

Se fosse mais uma das incontáveis cenas explícitas de adesismo que os políticos se permitem o tempo todo em toda parte (Mangabeira Unger e Eduardo Paes em relação a Lula, por exemplo, guardadas as devidas), o episódio não serviria de gancho para espetar nele um comentário – ou uma provocação – sobre o que parece a este blogueiro um dos aspectos mais interessantes da eleição americana de que a imprensa mundial se ocupou, com pencas de fatos e argumentos, mas, salvo engano, sem parar para discuti-los.

A deputada, a rigor, não aderiu a Obama. O que ela queria, segundo uma interpretação, era “não ficar no lado errado da história”. Isso deve ser verdade também para aqueles americanos que, a julgar por suas manifestações dos últimos dias, sonhavam desde criancinha com a eleição de um negro para a Casa Branca – e com os quais não se devem confundir os milhões de pessoas, dentro e fora dos Estados Unidos, que torciam ardentemente por ele e acham que o mundo ficou melhor depois da maior das terças-feiras da história da América.

Mas não é nem disso que se trata exatamente. O ponto – que remete aos tais fatos e argumentos que inundaram a mídia, sem que ela os tivesse posto em debate – está no fecho da fala da senhora Bachmann.

Repetindo: “Foi um tremendo sinal que nós enviamos”.

Então lá vai: “Nós” quem, cara-pálida?

”Nós”, evidentemente, seriam os Estados Unidos da América – os seus valores de berço com os quais o país, sem distinções, se reencontrou elegendo Obama. Não foi ele próprio quem disse, no discurso de vitória, que a América “é o lugar onde tudo é possível”?

Ou, no título do editorial da edição do último domingo do Observer, de Londres: “A América restaurou a fé mundial nos seus ideais”.

Aceitar esses enunciados pelo seu valor de face implica, primeiro, passar batido pelo fato de que esses ideais – “democracia, liberdade, oportunidade e inabalável esperança”, Obama, no mesmo discurso – conviveram durante 76 anos (de 1787, quando foi promulgada a Consitutição de Filadélfia, a 1863, quando acabou a Guerra Civil) com a escravidão legal e, depois, durante mais de um século com a segregação racial, aberta ou disfarçada, em muitas partes da América.

É fato histórico que, entre abolir a escravidão e garantir a unidade das 13 colônias que viriam a formar os Estados Unidos, os “pais fundadores” escolheram a unidade.

É fato histórico ainda que eles adotaram um sistema político – o do voto majoritário, ou distrital, para a eleição do Congresso, combinado com a escolha em última análise indireta do presidente da República – concebido para barrar a ascensão ao poder das minorias, quaisquer que fossem. E adotaram um sistema eleitoral feito para desestimular os mais pobres a votar [“O voto americano visto do Brasil”, neste blog].

Mas é fato histórico também que, em matéria de liberdades individuais, a começar da mais essencial delas, a de expressão, nenhum país iguala os Estados Unidos.

O país, escreveu na semana passada o historiador holandês Ian Buruma, “representa o que o combalido mundo ocidental tem de melhor e de pior”. Pura verdade.

Em segundo lugar e mais prosaicamente, aceitar o enunciado de que “a América” elegeu Obama faria sentido se ele devesse a sua vitória a uma maioria homogênea, ou quase isso, de eleitores. Não foi assim: quem deu a Obama 65,4 milhões de votos (ante 57,4 milhões para McCain) foi uma determinada América – a coalisão de negros, jovens, mulheres e hispânicos das grandes cidades.

As pesquisas de boca-de-urna (depois da votação) revelaram que votaram em Obama 95% dos negros, 70% dos moradores das metrópoles, 66% dos jovens de 18 a 29 anos – o grande exército mobilizador de recursos e eleitores, via internet –, 66% também dos hispânicos e 56% das mulheres.

A propósito, dos eleitores de primeira viagem, 7 em 10 votaram em Obama.

Se dependesse apenas do voto masculino, não se sabe no que daria a eleição. Foram 49% para Obama, 48% para McCain. Se dependesse apenas do voto branco, daria McCain por 55% a 43%. Embora, proporcionalmente, mais homens brancos votaram em Obama do que em qualquer outro candidato democrata desde Jimmy Carter (1974), Bill Clinton incluído.

Além disso, Obama ganhou no Nordeste, no Meio-Oeste e no Oeste. Perdeu no Sul (Arkansas, Oklahoma, Louisiana, Tennessee, Missisippi, Alabama, Georgia e Carolina do Sul), embora tivesse obtido uma vitória histórica – com perdão pelo adjetivo – na Carolina do Norte.

A coalisão pró-Obama foi também uma coalisão de motivações – o que a ênfase no “voto da América” que percorre a mídia torna mais difícil discernir.

Os negros votaram em Obama, antes de tudo, porque era o primeiro deles escolhido candidato por um dos dois grandes partidos nacionais, portanto o primeiro a ter chances reais de chegar lá.

O mestiço Obama, no Brasil, seria mulato. Nos Estados Unidos de duas cores, negro. E, como tal, os negros o encamparam. Perguntado, depois da vitória, se preferia se referir a Obama como meio-branco e meio-negro, ou simplesmente negro, um barman de Washington respondeu: “Negro. Porque significa mais.”

Não menos revelador – e neste caso também por relativizar a teoria de que “a América” elegeu Obama – foi um comentário recolhido pelo correspondente do Globo em Washington, José Meirelles Passos, em Birmingham, Alabama.

“Sempre houve, no fundo, a sensação de que os negros não podiam ser parte do povo americano, e muito menos do sonho americano”, disse-lhe Jacqueline Wood, diretora-assistente do Programa de Estudos Afro-Americanos da Universidade do Alabama. “Nós estávamos sentados na cozinha. Agora passamos para a sala de visitas.”

Os jovens votaram em Obama principalmente por se identificar com o mais inspirador (“Yes, we can”) dos políticos americanos desde John Kennedy e decerto o mais singular deles: pelas origens, trajetória, personalidade, estampa – e coolness.

Também junto às mulheres funcionaram as suas “armas de atração em massa”. Com uma particularidade que, de novo salvo engano, só foi destacada na imprensa graças a um artigo no New York Times da sexta-feira, 7, pelo sociólogo jamaicano Orlando Patterson, da Universidade Harvard.

”Essa campanha, de maneira notável, foi uma reencenação da inteira e entrelaçada luta de negros e mulheres pela inclusão política”, observou. “A primeira vez que rejeitaram o seu confinamento ao papel de virtuosa maternidade na esfera privada no início da República foi ao liderar o combate muito público pela abolição da escravatura.”

As conquistas negras sempre pressagiaram os avanços femininos, lembra Patterson, “embora não sempre pelos motivos mais nobres”. Ou seja, o movimento pela emancipação das mulheres se nutria da seguinte rationale: afinal, se os negros podem votar, podem encontrar na lei proteção contra a discriminação e disputar cargos eletivos, por que não nós, mulheres?

A partir dos anos 1980, pela primeira vez desde que passaram a ter direito ao voto, as mulheres passaram a votar proporcionalmente mais do que os homens e em candidatos comparativamente mais progressistas.

”Em termos demográficos crus, o mais importante fator da vitória de Obama foi a margem de 13 pontos a seu favor no eleitorado feminino”, assinala o sociólogo.

De fato, a vantagem de Obama foi relativamente maior entre os mais jovens. Mas estes são apenas 18% do eleitorado. Vale para os hispânicos: como os jovens, 2 em cada 3 deles votaram em Obama; mas representam somente 8% do eleitorado. Já as mulheres (56% pró-Obama) pesaram mais porque são 53% do eleitorado.

E os trabalhadores brancos, aqueles a quem, nas prévias do Partido Democrata, e no seu pior momento, Hillary Clinton pediu o voto com uma mensagem que se curvava ao seu preconceito (”Hard-working Americans; White hard-working Americans…”)? O que levou sabe-se lá quantos deles a votar em Obama?

A resposta, numa palavra, parece ter sido a crise. Como se tivessem posto num dos pratos da balança o medo de ter um presidente negro, no outro o medo de ter um presidente branco incapaz de salvá-los do naufrágio econômico.

O New York Times ouviu um deles, no subúrbio de Levittown, Pensilvânia (Estado em que McCain investiu pesadamente, em vão, na reta final da campanha). O técnico em ar-condicionado Joe Sinitski disse ao repórter Michael Sokolove:

”Durante muito tempo eu não podia ignorar o fato de que Obama é negro, se é que me entende. Não me orgulho disso, mas fui criado a pensar que não há negros bons. Eu podia ver que ele é muito inteligente, e isso conta para mim, mas meu instinto ainda era o de fechar com o branco. Mas, quando ele escolheu [a governadora do Alasca] Sandra Palin para vice, com todos os problemas que a gente tem, isso não mostrou inteligência da parte de McCain. Não dizia coisa boa dele em geral.”

O interesse próprio prevaleceu sobre o racismo, em suma.

O que vai acontecer com o racismo americano não se pode prever. O lugar-comum que se encontra numa página dos jornais e na outra também é que o próprio triunfo de Obama – e a sua repercussão mundial sem paralelo – funciona por si só como um breve contra o preconceito.

Tomara. Afinal, o homem tem uma capacidade única de fazer com que as pessoas ponham para fora o que têm de melhor. A euforia dos europeus, por exemplo, é o reverso da medalha da hostilidade européia aos imigrantes, principalmente de pele escura.

Mas, nos Estados Unidos, há apenas quatro meses uma pesquisa nacional mostrou que apenas 30% dos eleitores brancos diziam ter uma opinião favorável de Obama. E mais: cerca de 60% dos entrevistados negros – e não mais de 34% dos brancos – achavam que as relações raciais no país são em geral ruins.

A pesquisa revelou que muitos padrões raciais na sociedade americana permanecem intocados nos anos recentes. Muito pouco mudou no componente racial da vida cotidiana no país desde 2000, quando o New York Times publicou uma série de reportagens intitulada “Como a raça é vivida na América”.

Exemplo: mais de 40% por cento dos negros americanos acham que foram parados pela polícia por causa da cor de sua pele, a mesmo índice de respostas da pesquisa de oito anos atrás.

”Devagar com o andor pós-racial”, escreveu na Folha o correspondente Sérgio Dávila. “Os Estados Unidos mudaram, os novos eleitores e os eleitores novos ajudaram a eleger Barack Obama – mas foi preciso uma crise econômica sem precedentes e o equivalente ao gênio negro na política concorrendo para que isso acontecesse.”

Toda eleição, obviamente, tem a sua circunstância. A desta, nos Estados Unidos, se chamou George W. Bush, atolando americanos em duas guerras, nos maiores índices de pobreza e desigualdade desde os impropriamente chamados Anos Dourados (a década de 1920), e, enfim, no colapso financeiro e na recessão.

Foi o que decidiu a parada em favor de Obama. Antes do derretimento de Wall Street, não custa lembrar, ele e McCain estavam cabeça a cabeça nas pesquisas.

Então, uma coisa é dizer que Obama encarna o que a América tem de melhor ou que a América ficou melhor com a sua vitória. Outra coisa é dizer que o resultado eleitoral comprova a excepcionalidade dos Estados Unidos, o poderio incomparável de seus valores.

A imprensa ficou devendo um debate sobre essas duas visões – um debate, em suma, sobre a democracia na América.

08/11/2008 - 18:01h Um amor proibido

Livro resgata a paixão entre serva e nobre que abalou a Rússia dos czares

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Nicolai e Praskovia

Vivian Oswald – O GLOBO

Correspondente• MOSCOU

Na Rússia imperial, o teatro era a arte dos servos. Entre 1770 e 1820, cerca de dois mil eram obrigados a se dividir entre as atividades domésticas e os palcos, onde incorporavam personagens nobres, ou não, só para divertir os ricos nos 170 teatros que pertenciam à aristocracia.

Estes atores, bailarinos, músicos ou cantores de origem humilde eram treinados pelos melhores profissionais da Europa, para onde alguns eram enviados para estudar as vanguardas. Os teatros se concentravam nas duas principais capitais russas: Moscou e São Petersburgo.

Grandes nomes surgiram neste cenário, como a da cantora lírica Praskovia Kovalevskaia (1768-1803). Descoberta pelo conde Nicolau de Sheremetevo (1751-1809), seu proprietário, a diva da ópera russa chamou a atenção da czarina Catarina, a Grande, e, anos mais tarde, chocou a sociedade ao se tornar a condessa de Sheremetevo.

Tudo isso aconteceu um século antes da Revolução de 1917, que mudaria a cara da Rússia e acabaria com a distinção histórica entre as classes sociais. A reconstituição do romance acaba de ser publicada pelo escritor Douglas Smith no livro “The Pearl”, que saiu nos Estados Unidos e na Inglaterra no final do primeiro semestre, e deve ser lançado na França e Coréia do Sul no ano que vem. O nome do livro, Pérola, é uma alusão ao primeiro nome artístico de Praskovia, Zhemchugova, que vem de zhemchug, pérola, em russo.

‘Tradição não é lei’

Homem mais rico do mundo à época, Nicolau era obcecado pelo teatro e teve um das companhias mais bem-sucedidas do seu tempo. Revelou Praskovia ainda criança.

Deu a ela educação artística e tornou-a uma das maiores artistas de sua época.

Mas não resistiu aos encantos da jovem serva, com quem viveu por 20 anos e teve um filho, Dmitri.

Nos anos 1770, o pai de Nicolau, Pedro, resolveu abrir o seu próprio teatro após uma apresentação que organizou com atores contratados em homenagem a Catarina, a Grande, durante visita da czarina ao palácio de Kuskovo, onde também costumava montar festivais de teatro aos domingos.

Kuskovo, onde viviam, tornou-se um local popular.

O novo projeto de Pedro, que já tinha um coro e uma orquestra de servos, era ambicioso. Italianos foram contratados para ser instrutores dos cantores e alemães, para a orquestra. Jovens servos eram enviados a São Petersburgo para aprender e treinar com os melhores músicos do país. O próprio Nicolau participava das aulas.

Nicolau cresceu com o teatro.

Atuou desde criança com amigos na corte e ficou impregnado pelo teatro de Paris, que conheceu durante a viagem de quase três anos que fez pela Europa. Esteve na Alemanha, na Inglaterra, na França, como qualquer russo educado de sua geração.

O teatro tornou-se uma paixão.

Acabou incumbido pelo pai de dirigir a companhia de Kuskovo. Recrutou mais artistas e mandava vir peças européias importantes para serem apresentadas pela primeira vez na Rússia. Montou cenários compatíveis com a riqueza — que parecia ilimitada — da família.

Contratou arquitetos de renome e construiu novos teatros em suas propriedades.

Quando foi escolhida por Nicolau em meio a um punhado de servos, Praskovia tinha apenas 9 anos. O conde tinha 26. Após identificar o que chamou anos mais tarde de “inclinação para a dança e uma voz superlativa”, Nicolau disse que daquele dia em diante suas tarefas na casa iam mudar. Continuaria cuidando da princesa Dolgorukaya, mas também seria parte da trupe e teria aulas de voz. Ele seria um de seus professores.

Viveram juntos pelo teatro e foi o teatro que os aproximou. Os detalhes sobre o romance perderamse no tempo. Não há muitos registros, principalmente sobre a vida de Praskovia, que não deixou documentos , nem diários. Em “The Pearl”, Smith tenta inferir os detalhes relacionamento com base nas poucas informações disponíveis em arquivos russos e nas visitas que fez aos lugares freqüentados por ambos. Por esta razão, deixa no ar uma série de explicações. Talvez esta tenha sido a maior lacuna e ao mesmo tempo o ponto alto do livro.

Acredita-se que o caso amoroso tenha começado quando a cantora tinha entre 13 e 14 anos.

“Se estes sentimentos entre pessoas tão diferentes hoje parecem banais, na Rússia do século XVIII eram revolucionários”, afirma Smith no livro.

Nicolau custou a reconhecer publicamente o relacionamento com Praskovia e acabou o fazendo para agradar a mulher, que era religiosa ao extremo.

Ele mesmo precisou lutar contra o próprio preconceito que permeou a sua criação e que marcava a Rússia do seu tempo.

Antes de se casar numa igreja discreta, que à época era afastada e hoje está bem no centro de Moscou, ele tentou (e teria conseguido) comprar na Polônia uma origem nobre para a ex-serva. Na carta que enviou ao czar anunciando o casamento, quando Praskovia estava no leito de morte, afirma que a cantora vinha de uma família nobre polonesa, tendo sido criada nas suas propriedades e recebido excelente educação.

Praskovia morreu logo depois de Dmitri nascer e pouco antes de ter seu casamento divulgado à sociedade.

Foi o único filho que tiveram, embora se diga até hoje que a saúde debilitada da cantora se devia a abortos que fizera ao longo de sua vida breve.

Anos mais tarde, em carta deixada para o filho, Nicolau fala de seu amor pela mulher: “Tradição não é lei. Ninguém pode submeter sua mente e vontade à ela, especialmente quando é possível libertarse de erros do passado”.

Ao final do livro, Smith destaca com certa ponta de tristeza que, hoje, os túmulos de Nicolau e Praskovia caíram no esquecimento. Os turistas procuram no cemitério de Moscou Nicolau Rimski-Korsakov, Arthur Rubinstein ou Tchaikóvski, “embora Praskovia, uma das primeiras grandes estrelas da ópera russa, tenha sido quem conseguiu romper a barreira que separa o talento do berço”.

O começo do fim da escravidão

ENTREVISTA DOUGLAS SMITH

MOSCOU. Fascinado há 16 anos pelo escandaloso romance entre Nicolau e Praskovia na Rússia do século XIX, o americano Douglas Smith levou sete anos para poder contá-lo e reconstruir o cenário da época no livro “The Pearl: a true tale of forbidden love in Catherine the Great’s Russia” (“A Pérola: uma verdadeira história de amor proibido na Rússia de Catarina, a Grande”). Em entrevista ao GLOBO, fala da dificuldade de obter informações sobre a ex-serva e condessa, que nada deixou escrito sobre a sua vida.

O GLOBO: De onde surgiu a idéia de escrever sobre Nicolau e Praskovia?

DOUGLAS SMITH: Soube da história em 1992. Estava passando um ano na Rússia para fazer o meu doutorado. Fiz uma visita ao palácio de Kuskovo como turista. Quando vi o lugar e, depois que li sobre Nicolau de Shremetevo e Praskovia, fiquei fascinado.

Nunca tinha ouvido falar nessa história.

Durante muitos anos, fiquei com aquilo na cabeça.

Fui anotando os nomes de livros que precisava ler, histórias sobre o assunto. Só em 2001 passei a me dedicar inteiramente a esse projeto. Levei sete anos para fazer a pesquisa. Não foi fácil. Não só pelo fato de estar na Rússia, mas também porque havia poucos documentos sobre Praskovia. Ela mesma não deixou nada por escrito.

Ao longo do livro fica claro que faltam dados sobre o que se passava pela cabeça de Praskovia. Muitas vezes fica no ar se ela se esteve ou não em certas situações…

SMITH: A dificuldade de obter informações sobre ela me levou a ter que preencher as lacunas. Estive em todos os lugares por onde eles passaram. Estudei a vida no palácio. Tentei captar o cenário da história para ter acesso ao que teria acontecido.

Não dá para saber exatamente o que passava pela cabeça dela, mas dá para entender como foi a sua vida e o que aconteceu. Quando conto a história dos dois para as pessoas, recebo de cara o seguinte comentário: não saiba que você era novelista. E tenho que explicar que é uma história verdadeira, não se trata de ficção.

Os russos gostam de histórias de grandes heróis, de guerras vitoriosas. Qual a importância deste romance no imaginário coletivo?

SMITH: É difícil quantificar a influência desse romance na sociedade russa. Mas posso dizer que o fato de alguém tão nobre na sociedade da época se casar com uma serva era um verdadeiro escândalo. E um desafio para a elite social de reconhecer aquela mulher como igual. Talvez seja um pouco de exagero, mas este foi o começo do fim da servidão. Estava claro que iam começar a pensar o que era a elite e os servos. As pessoas tiveram de reconsiderar os seus próprios padrões.

Acho que a história faz parte dos ideais da Rússia. Os russos adoram falar da sua cultura e têm muito orgulho dela. O conde de Sheremetevo e Praskovia são personagens importantes da cultura.

O próprio Nicolau resistiu muito ao casamento. Ele mesmo tinha seus preconceitos, não?

SMITH: Nicolau lutou contra seus próprios princípios por acreditar nesse amor. Não sabia o que fazer.

Era um produto do meio em que vivia. Mas queria poder dar a Praskovia o que ela mais desejava, que era o casamento.

O amor pelo teatro, sua abertura a todas as novidades vindas do Ocidente e as viagens que fez à Europa teriam mudado a cabeça do conde, ou ainda, o ocidentalizado?

SMITH: Acho que tudo isso teve um papel muito importante na história dele. Houve também todas as histórias que ele encenou nos seus teatros. Temas que lidavam com a beleza e o bizarro, romances de nobres com servos. (Vivian Oswald)

22/12/2007 - 16:08h Para refletir durante o natal

Racism A History, Music by Giulio Caccini Ave Maria

12/09/2007 - 12:49h What a Wonderful World

Democracia ameaçada

Subornos movimentam US$ 1 trilhão por ano, diz estudo

Portal O Globo

A democracia ao redor do mundo está sob ameaça devido ao número crescente de subornos, estimados em US$ 1 trilhão por ano, segundo um estudo do Projeto do Milênio, coordenado pela organização não-governamental internacional World Federation of UN Associations.

O relatório “Estado do Futuro” – que faz uma avaliação da situação mundial e das tendências para o futuro em diversos temas, como saúde, política, segurança e meio ambiente – diz que, ao contrário do que se pode imaginar, apenas uma minoria das propinas é paga em países em desenvolvimento.

“A grande maioria dos subornos acontece em países ricos” em que a tomada de decisões está “mais vulnerável a vastas quantidades de dinheiro”, diz a pesquisa.

Os autores enfatizam que o crime organizado é outra ameaça global que movimenta US$ 2 trilhões por ano, superando dos orçamentos militares de todos os países do mundo combinados.

O estudo alerta ainda para o fato de que os 15 milhões de órfãos da Aids constituem uma enorme base de recrutamento para os criminosos.

O Projeto do Milênio, responsável pelo documento, conta com 2,5 mil analistas, acadêmicos, cientistas e políticos de mais de 50 países trabalhando para estudar as mudanças no mundo e as perspectivas para a humanidade.

Segundo os dados compilados pelo “Estado do Futuro”, há mais escravos hoje em dia que no auge no período do comércio de escravos vindos da África.

As estimativas variam entre 12,3 e 27 milhões de pessoas trabalhando em condição de escravidão atualmente, a maioria delas, mulheres asiáticas.

O relatório também chama atenção para a violência sofrida pelas mulheres, revelando que uma em cada cinco será vítima de estupro ou de uma tentativa de estupro durante a vida.

“A violência de homens contra mulheres continua a causar mais mortes que as guerras hoje em dia”, diz o documento.

O balanço geral feito pelo estudo revela que o mundo está se tornando um lugar mais saudável, rico e pacífico, mas ao mesmo tempo mais corrupto, quente e perigoso, e alerta que as desigualdades continuam grandes demais.

Segundo os dados do documento, enquanto a economia mundial cresceu 5,4% em 2006, as 225 pessoas mais ricas do mundo têm a mesma quantidade de dinheiro que os 2,7 milhões de pessoas mais pobres, o que representa 40% da população mundial.

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31/07/2007 - 15:50h Des femmes victimes de viols et d’esclavagisme au Congo

Victimes d’une “oppression généralisée” en République démocratique du Congo (RDC), des milliers de femmes congolaises subissent, selon Yakin Ertürk, une experte de l’ONU, des atrocités sexuelles, pour lesquelles leurs tortionnaires “bénéficient de l’impunité”. Elles sont “victimes une deuxième fois quand elles sont rejetées par leur propre communauté, famille ou mari, à cause de la stigmatisation attachée au viol”.

 

De retour d’une mission en RDC du 16 au 27 juillet, Mme Ertürk, rapporteuse spéciale du Conseil des droits de l’homme chargée de la violence à l’égard des femmes, dresse un tableau alarmant de la situation dans le Sud-Kivu (est) – la “pire crise” qu’elle ait rencontrée. Depuis janvier, 4 500 cas de violence sexuelle ont été recensés, mais “le nombre réel de cas est sans aucun doute beaucoup plus élevé“, affirme-t-elle dans une déclaration, car beaucoup de victimes “ont peur de porter plainte ou n’ont pas survécu à la violence”.

Selon l’experte turque, docteur en sociologie, les principaux coupables sont “des groupes armés étrangers non étatiques” dont certains “semblent avoir été impliqués dans le génocide rwandais”. Ils opèrent dans la jungle, “pillent, violent, emmènent les femmes et les filles comme esclaves sexuelles et les soumettent au travail forcé”.

“Les femmes sont soumises à des viols collectifs brutaux, souvent devant leur propre famille ou leur communauté tout entière, affirme Mme Ertürk. Dans de nombreux cas, les hommes de la famille sont contraints, sous la menace d’une arme, de violer leur propre fille, leur mère ou leur soeur. Après le viol, il est fréquent que les bourreaux tirent au fusil dans l’appareil génital de la femme ou qu’ils la poignardent dans cette partie de son corps. Plusieurs femmes, qui ont survécu à des mois d’esclavage, m’ont raconté que leurs tortionnaires les avaient forcées à manger les excréments ou la chair des membres de leur famille assassinés”, poursuit-elle.

A l’hôpital de Panzi, à Bukavu, près de la frontière rwandaise, où 3 500 femmes sont soignées chaque année pour des blessures génitales graves, Yakin Ertürk s’est entretenue avec une fillette de 10 ans, enlevée à ses parents, qui a subi une opération d’urgence après que ses “tortionnaires eurent brutalement enfoncé un bâton dans ses organes génitaux”.

Des militaires et des policiers congolais, “protégés” par leurs supérieurs, seraient, selon l’experte, responsables de 20 % des actes de violence sexuelle au Sud-Kivu ou en Ituri (nord-est). Certains “pillent, violent massivement et dans certains cas tuent des civils” dans les communautés soupçonnées d’appuyer des milices rebelles. Des actes qui, estime Mme Ertürk, “constituent des crimes de guerre et, dans certains cas, des crimes contre l’humanité”.

 

Philippe Bolopion pour Le Monde