21/11/2009 - 17:21h Pouso

*

adoro sentir calor

no inverno

fome na ceia

água na toalha

gelo no café

adoro sentir

que tudo é possível

na medida

do improvável.

onde

quero uma casa em Belo Horizonte,

c/ vista para Sabará,

1 corredor que dê em São Paulo

e porta dos fundos

para o mar.

caldo de mandioca

beba, coma, morda

a sopa no seu prato.

vou abrir pra você

a sardinha na lata.

”quero caldo de bar”

eu disse

”quero você”.

me beija que não amolo

nem a faca, nem a palavra.

branco no branco,

língua lambendo língua.

a narina no seu rosto,

superfície suave e áspera.

seus pêlos calados…

um, dois, 3, quatro,

cinco.
sua pele faz sentido(s)

quando me toca.

me cala a boba

e fabrique uma casa amarela

debaixo de nossas solas.

pro seu baile à fantasia

subo escadas pra cuspir do alto

do mais alto que puder

e não sou homem,

e não masco tabaco

escavo a descida escarrando alturas

até doer

até ser delícia

amarro meu pé em minhas meias

passo boca no meu batom

pra cair na sua piscina

de terra seca e azul

Detrás do traço

Quando começam, estou perdida. Quando acabam, já se perderam. Talvez seja o tempo ou as idéias. Ou a respeito dos dois, numa dimensão qualquer. Talvez seja sobre nada e eu não saiba o que digo. Corro o risco e assumo o fardo — ainda que fadado. O novo já envelheceu. Eu também. E é incrível quanta coisa cabe em um parágrafo. E como aspas podem ser tão mal fechadas. E como poesia pode virar prosa. E quanta coisa se perde entre o ponto e o traço. Inclusive o tempo. Até a graça. Voam aviões, traçam em vão. Que me diz dos riscos no céu? Digo que as coisas e eu somos um. E os riscos também. Nunca e a todo tempo. Agora já não sei onde foram parar. No fim? Ou no tempo. Quem sabe no ponto — frágil, único e mal traçado.

Paulo e o lago

À esquerda de Hilda, havia a água. Seus pés já tinham se libertado das sandálias e arriscavam mergulhos. O vento batia em seu vestido largo e a empurrava pra frente e pra trás, como se ela fosse um barco. Já à sua direita, havia gente, muita gente – rostos que tentava guardar, mas que escapavam tão rápidos quanto vinham. Dentre eles, apenas um era fixo: o de Paulo. Fixo até demais. Não sorria, não falava e, principalmente, não tirava os olhos de H.. Tanto que, diante dum pequeno tremor de queixo:

— Vamos sair daqui, essa água gelada…

— Quero ficar mais — respondeu, sublinhando o ponto final:

P. compreendeu que não deveria insistir, que não devia fazer nada além de olhar. Porém, se quando se equilibrava numa perna só, segurava o corpo inteiro fixando a vista num ponto, sabia que mirar H. era muito mais que um gesto à distância.

Sentindo a nuca arrepiada, H. se voltou para P. e se espantou com o despudor com que era observada. Conferiu, aliviada, que ao redor ninguém mais dava atenção à cena. Pouco depois, se achou uma boba. Não fazia nada de errado e não devia se importar com o que pensavam os rostos voláteis. Abaixando a cabeça, se viu refletida e envergonhada naquela poça enorme. Afinal, o lago não passava disso, como ela não passava de uma menina grande. Tinha a impressão de que, se o vento viesse mais forte, todo o seu disfarce de moça voaria. Pelos ares iria a postura, o vestido, as sandálias. Restaria, então, apenas ela e aquilo de que mais gostava.

neste lago, H.

hoje em dia não existe mais isso de lugar longe, H. e não sei porque sinto sua falta. você deveria estar sempre perto de mim, sua mão sempre ao meu alcance. mas é possível a distância, desde que se queira — e eu quis, jurando que a vontade não era minha. logo eu, que há poucos dias fui tão alegre e genuinamente feliz; logo eu, que aprendi que te olhar (como eu te olho) não é um gesto sem efeito. verdade que nosso afastamento é produto do meu desejo teimoso e da sua sonsice, des’seu jeito de barco de sem leme, e nada mais. e essa é toda a verdade que tenho debaixo das mangas, faltando apenas o que nenhum de nós pode esquecer: quero estar sempre ao seu lado.

A aranha

, de 78 patas, arranha 1900 vezes a minha jarra. Com suas agulhas, risca também o disco de vinil. Sombras tristes dançam sob o lustre de duas décadas. Tudo é esquecimento. Vestidos azuis tornaram-se peça de luto; peles douradas, grafite; olhos de ciúme, negros. O batom vermelho-vivo que borrava a boca de Roberta também não escapou — não passa agora de tinta escura.

Só das teias eu me lembro, sem perder detalhe, pois são as mesmas e sempre vão ser. Então perguntei à aranha: era isso que pretendia me mostrar? que vocês resistem? Não tive resposta. Claro, era uma aranha. Que podia fazer? Transformar-se em moça e me beijar pra dizer que sim? Bebi o último gole e brindei de taça vazia. Quis esmagar o bicho, mas correu às minhas mãos e me olhou com cara dócil: me diz o que faço, por onde começo. Devia ser digitadora. Tem muitas mãos e é capaz de ouvir indefinidamente sem entender. Estou brincando, sei que me compreende, só é tímida. Já é hora de ir. Grato pela companhia.

Não há de quê — respondeu-me, para meu espanto; mas a voz era de Roberta, que ouvia a conversa como se fosse com ela. De sobressalto, pediu que esperasse um segundo — o que já estava fazendo só de susto. Correu, pegou minha mão e disse: começa assim. E, antes que me desse conta, Roberta me dizia, 1987 vezes, que sim.

Arranha-céu

Quando estou brava, pinto minhas unhas de vermelho. Hoje não é o caso: estou à francesa, indisposta para despedidas. Infelizmente, lá vem a caçamba e tenho de dizer adeus à cidade miúda onde moro: mil ruas se desdobram nos cômodos de meu apartamento e cada porta é uma esquina. Toda manhã, no trânsito voraz da copa, minhas cadeiras colidem com a mesa. Em protesto, os sapatos organizam-se em passeata. Desesperado, o chuveiro chora sem cessar. Já a cama faz o que sempre fez: dorme com qualquer um, a qualquer hora. E eu, pelo espelho de meu esmalte, observo-os todos.

Quando escutei os pés do senhorio, no corredor do 20º andar, a chave já estava com os dentes cravados em minha mão. Sem nada a dizer, a entreguei. O homem também não mexeu os lábios. Em silêncio, desci as muitas escadas, fui até a porta giratória e a empurrei. Finalmente, dei de cara com a grande cidade, que há muito eu evitava encontrar. Pelas unhas, vi carros e meretrizes se juntarem a mim. Depois, homens de barba, velhos descalços, crianças de mochila, uma pessoa e mais outra e mais outra e mais outra. E o mundo, a partir de então imenso, não coube mais na ponta dos meus dedos.

Meu prato cheio

O que me atormenta é o não dito. Torturo o meu eu para depois escrever em primeira pessoa. A fuga é o mergulho. A água é azul, mas só enxergo o cinza. Não adianta praguejar contra as memórias em preto e branco. Não vejo cores agora. Maldito Almodóvar. Maldita atenção que presto, imprestável. Uma formiga cinza parece feliz com o suco cinza derramado. Uma formiga aparece morta. Ainda cinza. Inveja abastada. Persistência da daltonia psicológica, contudo. Com tudo pronto. Nem todos os feitos. Fiz o dito, mas não disse o ditado. Mas que importa tudo, todos, eu? Que importa a formiga, o cinza, o Almodóvar? Benditos sejam. Mas que sejam ditos.

(imagem ©tomooka)

Valquíria Rabelo (Belo Horizonte/MG). Editora do Jornal A Parada, ao lado de Daniel Bilac. Tem poemas publicados no jornal Dezfaces, na Revista Ato e no folheto Barkaça. Estuda Comunicação na UFMG e Design Gráfico na UEMG. Edita o blogue Formalguma. Fonte germina

20/11/2009 - 17:54h Sarah Forte

Possibilidade

Maria Luisa sai do banho de sais aromáticos às doze horas e trinta minutos. De roupão de seda bege, dirige-se à penteadeira de mogno. Abre o roupão. Está nua. Delicadamente, passa creme francês de tartarugas centenárias pelo corpo. Desliza as mãos pelos seios. Acaricia o ventre. Massageia os braços e o pescoço. Adora passar creme no pescoço. Dá uma vontade de rir! Senta-se na cama e massageia as pernas com óleo de amêndoas. Tão perfumada! Sente-se uma rosa do jardim.

A lingerie: branca, simples. Rendada. De marca italiana. O vestido é de pequeninas flores vermelhas, com um suave laço de seda atrás. As sandálias são de couro entrançado, com uma fivela dourada. Está quase na hora do encontro! Ah, que felicidade, todos os dias, de segunda à sexta, das quatorze às dezoito horas, ele a visitava. Tão interessado!!! Era muito silencioso aquele rapaz, mas com o tempo… Ora, com tempo, tudo se resolve. Além do mais que todo mundo sabe: os calados são os mais perigosos! Os melhores! “Melhores para quê?”. Perguntava-se Maria Luisa. E enrubesceu com a resposta que pensou e despensou em segundos. Enrubescer… “Hoje em dia ninguém mais enrubesce…”. Olha-se ao espelho. São treze horas e trinta minutos. Está linda! Uma belezinha! Olhando-a assim, ninguém lhe diz a idade: oitenta e dois anos.

Som da campainha. Três toques. Maria Luisa demora-se. Não quer que o rapaz suponha que ela está atrás da porta, a esperá-lo. “Boa tarde, D. Ma…”. “Dona não, você já está vindo aqui tomar lições há um mês, já pode me chamar de você”. [....] O rapaz nada responde. Maria Luisa solta um risinho. Marcel. O nome do rapaz é Marcel. Viajará para Roma. Precisa melhorar o italiano. A sua avô, hospitalizada, dissera-lhe: “procure a Maria Luisa, a Lú Lú, minha amiga”. E ele fora em busca da Maria Luisa. Surpreendera-se: oitenta e dois anos! E facilmente passava por sessenta. A Lú Lú não era de se jogar fora. Cada pensamento imundo que o sujeito às vezes tem. Uma senhora… com idade para ser sua avó. Acontece que Maria Luisa não era sua avó. Era amiga da sua avó. Casara-se três vezes, romances infelizes, desordenados. Os homens sempre reclamavam que ela não compreendia os sentimentos. Chamavam-na de fria, insensível. Marcel gostava de Maria Luisa. Achava-a bela, mas, mas, ora mais! Pelo amor de Deus, era amiga da sua AVÓ… Maria Luisa era uma bela senhora. Um retrato antigo. Um retábulo. Marcel, sorrateiramente, pensava: se eu der um abraço, ela se quebra. Ou não.

As “lições” eram animadíssimas. Maria Luisa era muito bem informada. Marcel, em silêncio, escutava: “Se vorrei imparare, devi parlare, ragazzo!”. “Ma io già so parlare signorina, mi piace ascoltare”. Dizia, entre risos, o Marcel. Quando sorria, umas covinhas apareciam nas bochechas do Marcel. Maria Luisa adorava. E o perfume dele, então… Que marca seria aquela? Era francês. “Tuo proffumo, di dov’è?”. “Francese, signorina”. Signorina… hum, sentia-se ensolarada quando lhe chamavam de signorina.

Dezessete horas e quarenta e cinco minutos da sexta-feira. Última aula. A viagem de Marcel, agendada para a segunda-feira. Maria Luísa, contidamente emocionada, derramando-se por dentro, uma antiga energia atiçava-lhe as rugas, movimentava-lhe a alma. Marcel estava ansioso. Era sua última aula. Estava fluente. Escolhera uma camisa cor vinho, pois Maria Luisa dissera que essa cor lhe caía bem. “Com essa cor, meu filho, você fica mais forte, suas costas parecem mais largas”. Marcel fazia-se de distraído, balbuciava algum “você acha?”. Ela sorria repartida, meneava a cabeça, alongava o olhar, corava: “Acho… mais largo…”. E as lições prosseguiam. Maria Luisa encomendava delícias da culinária italiana e dava na boca de Marcel. Falava sobre filmes, artistas, música, perfumes, curiosidades. Gostaria de ter Maria Luisa sempre à disposição, na sua estante. Um dia, mandara rosas vermelhas, em outro, uma caixa de bombons. Gravara um CD com músicas antigas, somente para ter o que conversar com ela. Tudo em vão. Ela fingia não compreender? Ele sofria. Em casa, ficava longas horas calado, melancólico. Seus olhos em constante inverno.

Na sexta-feira, Marcel levantou-se bruscamente da poltrona, interrompendo a lição: “Pois é, D. Maria Luísa, já vou”.”Mas tão cedo?”. “É… tenho que organizar as malas…”. Marcel, desconcertado, silenciara. Maria Luisa dissera claramente que ele ficava bem com aquela camisa, mas agora não comentava nada. Parecia desprezá-lo. Sentia-se esquecido. Indignava-se mudamente. Quem ela achava que era? Ríspido, afirmou: “A senhora foi uma boa professora”. Aquele “senhora” deveria mortificá-la. Mas o rosto de Maria Luisa estava indiferente, imparcial. Marcel baixou o olhar. Velhinha mais inusitada aquela. Ela sorriu, agradeceu o elogio, que não era tão boa assim, que já fora bem melhor em outras épocas. Tudo em tom informacional. A velhinha cumpria um ofício… o de envelhecer. “Mas então a senhora não entende?”. Maria Luisa assustou-se com a pergunta, jogada em seu rosto, quase um tapa. “Entender o que, meu filho?”. Filho? Seu filho? Marcel baixou a cabeça, mordeu os lábios, extremamente envergonhado. Resolveu ir embora dali. Estava platônica e irremediavelmente apaixonado.

Depois que Marcel saiu, Maria Luisa olhou-se ao espelho, procurou o batom, para retocar o desenho dos lábios. Gostava de deixá-los carnudos, suculentos. Sorriu, deitou-se: “Mas o que foi que eu não entendi, meu Deus?”. Entender era tão custoso. Pensou fixamente em seus três falecidos maridos. Eles afirmavam que ela não entendia. Rosas vermelhas, bombons, músicas, elogios. Mas, súbito, a mão tremeu, a vista turvou-se, o coração, aos galopes, apertou-se contorcionista num muscular abraço. Maria Luisa entendera! E se arrependera de ter pensado tanto. Homens… Irritada, com o ar que respirava a pesar-lhe no peito, dormiu em estado de perdição. Porém, de tão cansada, esquecera de acordar, para sempre.

Açúcar

Chocolate. Barras de chocolate ao leite, com flocos de arroz. Brigadeiro. Leite condensado escorrendo. Bananas caramelizadas. Bombons. Trufas. Cerejas ao licor. Chocolate derretido. Churrasco. Carne gorda, mal passada, o sangue pingando. Mesmo que comer um boi todo. O grosso do sal. A coca-cola estupidamente gelada com rum. Cerveja. Vinho. Tantas comidas para tão curta vida. O mundo oprime de tanta vontade de comer. Escorre pela boca o sangue do porco. Tão imponente o porco dourado com a derradeira maçã a distingui-lo dos suínos comuns. A maçã era o que menos interessava. Tenro, o porco oferecia-se, pleno. Enigmático, sussurrava casualmente: “decifra-me ou te devoro”. Restava devorá-lo. Sem remorsos. Comê-lo como se fosse o último porco da terra. Depois, abandoná-lo. E comer arroz, feijão, grossas lingüiças vermelhas. A gema do ovo sobre o queijo derretido incitava loucuras. O macarrão encarnado e rico em cebolas atraia irresistivelmente. E os bolos. Os brigadeiros. Os infinitos salgadinhos sobre brancas bandejas. E o desmanchar-se das comidas por entre os dentes. A sutileza do peixe frito e suas espinhas. Lutaria com todas as forças para destrinchá-lo. Guerrearia com aquele robalo, até que um dos dois vencesse!

Em cada esquina, um pastel de frango, de queijo, de carne. Em cada rua, um pouco de caldo com pão de ontem. Na geladeira, muito doce, que é o que salva. Torta de leite condensado, coco ralado e chocolate. Durante o trabalho, bombons variados. Não importava a marca, deveria ser doce, extremamente doce. Então descobrira o incurável problema. Deveria usar expressa e eternamente aspartame.

Mas como é que pode… logo ele? Ele que vivia para os doces, e também para os salgados? Que passara dois quartos de século mais todos os dedos de uma mão a comer? A viver os alimentos intensamente, como que procurando o melhor sabor? Não… isso era um pesadelo. Ainda não achara o sabor dos sabores. A vida tem um cerne crocante, ele ainda não conquistara o que havia de mais delicioso.

E continuou a comer. Agora, escondido. Um marginal das comidas. As pessoas vigiavam-no. E os tempos áureos dos churrascos haviam acabado. Somente alimentos pálidos e sem gosto. Alimentos tristes. Chuchus antipáticos. Pepinos depressivos. Ele reclamava. Dizia que preferia a morte. Que sonhava com uma existência entre doces. As pessoas lembravam que no mundo há quem passe fome e que ele deveria dar graças a Deus. Deus? Que Deus é esse que nega ao seu filho o açúcar? Oh, como sofria aquele homem.

Então, numa chuvosa noite, ele saiu. Todos dormiam. Metodicamente, abriu a porta. Tomou as ruas. Livre, enfim livre. Num mercado 24 horas, comprou doces, o que de mais doce havia. Doces crocantes. Salgados de toda a espécie. Bebidas adocicadas. Sentou-se na calçada. E devorou tudo. Depois, saiu correndo no meio do temporal. Estava no ápice da felicidade. Tão feliz. E tonto. Terrivelmente tonto. Desmaiou no meio-fio.

Pastosamente, acordou. Sentia-se como argila despedaçada, massa de pão sem fermento. Cometera um grande crime. O terrível pecado. Comera. Mas não estava arrependido. Faria tudo outra vez. E que não o vigiassem mais. A vida não pode ser insossa. A vida é doce. É caramelizada. É crocante. Por favor, parassem de chateá-lo! Arranjassem logo uma bandejinha de brigadeiros ou ao menos um saco de pipocas. Não tinha tempo a perder. Não tinha doces a perder. As pessoas, sempre as pessoas, olhavam-no incrédulas. Aquele homem queria morrer. Oh, sim, ele morreria por uma causa justa, por um ideal honrado. Se morresse, morreria sem fome. Satisfeito.

Certo dia, para a surpresa de poucos, não mais acordara. Para o velório, a esposa encomendou dois centos de docinhos e salgados sortidos. Quentinhos, fumegantes, no ponto em que gritam: “devore-nos, porém, antes, mergulhe-nos no molho”.

Secretamente, todos sorriram, íntimos, irmãos, numa volúpia de sabores. O morto, reflexivo, concentrado, encontrara o cerne crocante da vida.

O Homem

Na fila do exame médico, ele esperava. Era moreno. Aquele sim que era homem para se ter numa guerra. Homem que de cara podia se dizer: “Esse sim! Esse eu quero!”. Moreno bronzeado, alto, costas largas, uns braços e pernas fortes. Abdômen definido por quatro séries de trezentos abdominais três vezes por semana. E aquele peitoral. Meu Deus, aquele peitoral de pêlos negros, bem divididos e a tatuagem de serpente. Aquele peitoral forte, maciço, orgulhoso. Aquele rapaz inteiro era maciço, duro, forte. Cavanhaque escuro, olhos castanhos, dentes brancos e lábios grossos. Lindo. Corpo de homem, rosto de homem. Mãos fortes e quentes. E beijava de um jeito impossível, uns beijos que arrancavam a alma de tão intensos. Seus beijos pareciam ondas quebrando na areia. Todas as mulheres ficavam tontas. E ele adorava aquela excitação, a loucura que provocava. Sorria. Nunca falhara. No momento certo, lá estava ele: inteiro, uma lança. Ah, as mulheres enlouqueciam! Ele é que não enlouquecia muito.

Verdade seja dita, gostava, sentia prazer, mas definitivamente… definitivamente, ele talvez desconfiasse que as mulheres não sabiam agradá-lo. Mas isso era segredo que ele mesmo não aceitava.

Na fila, muitos rapazes, de cueca. Trajes sumários. Estilo box. O moreno surpreendia por sua altura. Um metro e noventa. Fora de cueca branca. Ele mesmo lavava as cuecas. Não tinha mãe, nem irmã, nem avó. Fora criado por homens: pai, avô, tio. Todos que nem ele: morenos, altos e fortes. Meio envergonhado, o moreno mordia o lábio inferior e olhava para os lados, com um jeito muito sério. Quando parava de morder os lábios, surgia uma marquinha branca, que durava uns três segundos. Era a pressão dos dentes no lábio. Ele cruzara os braços e, mudo, esperava sua vez. Olhou para sua cueca, suas pernas fortes e pensou: “Mas tu é bonito”. À sua frente, uma fila de gatos secos, uns pretos, outros brancos, alguns amarelos. As nádegas dos outros nem se comparavam com a dele. Aquilo sim que era bunda! A dos rapazes da fila eram murchas, pequenas, umas tinham até pêlos. “Que porcaria, o cara deixar pêlo na bunda!”. Outra coisa que ele achava nojenta: pêlo nas costas. Graças a Deus que ele nascera lisinho, lisinho. Somente os pêlos necessários. As mulheres adoravam. Sentiu uma pontada no ombro direito. Olhou. Havia uma marquinha roxa. “Porra, aquela cachorra me mordeu…”. A cachorra era uma menina que ele havia conhecido no bar. “Sei lá, parece que tem mulher doida…”. Pensava. A cachorra era desse tipo. Era uma coisa de morder a orelha, o lábio, morder o ombro, arranhar as costas e sussurrar: “Me come, me come”. Imundície, aquilo. O moreno gostava das mais tímidas. Então quem mordia, apertava e sussurrava era ele. Mas nada que fosse real. Ele fazia essas coisas mais para fazer mesmo… “Mulher é cheia de frescura, não gosta de nada”. Sinceramente… Ele, às vezes, achava as mulheres um saco. Bom mesmo era jogar bola com os caras da rua!

A fila andava muito devagar. Atrás dele tinha um loirinho: baixo, magro, uns cabelos finos, fininhos, desmaiados sobre a cabeça. E uns olhinhos azuis, de um azulzinho fraco. O moreno então lembrou da ex-namorada. A ex era uma santinha: toda delgada e loirinha e educadinha. Mas um dia, há uns dois meses, beliscou a bunda dele. O moreno se enraiveceu!!! “Na minha bunda ninguém pega!”. A ex fez cara de choro, tomou coragem e disse: “Eu acho que você é bicha”. Ele deu uma tapão na cara da ex. E foi embora. “Bicha, eu…”. Aquele ali não era bicha não! Aquele era homem. E homem MACHO!

A maioria dos rapazes conversava, mas nada de se olharem fixamente. Todos pareciam bem desconfiados uns dos outros. “Cara, eu quero que me dispensem… negócio de exército…”. “Mas é dinheiro, rapaz… dinheiro é bom”. Diziam. O moreno queria muito ser selecionado. Ele e o exército combinavam. Começaria cabo, mas com paciência conseguiria postos mais elevados. Era bom corredor, excelente nadador e, não se pode esquecer, lindo. Mas estava meio perturbado. Por ser o mais bonito da fila, o único, de fato, inteiramente homem, começou a pensar: “Esses cara tão me olhando. Tão me olhando mesmo”. Inicialmente, ficou tímido, mas depois… depois sentiu um prazer estranho em pensar que estava sendo observado. Olhado por outros rapazes. “Já pensou, se eu pegasse esse loirinho aqui de trás, eu matava ele numa noite…”. MEU DEUS! O que ele estava pensando??? Que tipo de pensamento era aquele? Ele, homem macho, atleta, bonitão, que enlouquecia as mulheres… Não, ele devia estar era com fome. Saíra muito cedo de casa. O sol estava quente. Estava mesmo com fome e sede. Queria ir embora correndo, sumir dali. Queria comer e beber até desmaiar. “Comer e beber outro macho!!!”. Sentiu-se nauseado, vulgar, obscuro. Um calor subia-lhe pelo corpo. Latejava. Endurecia. Procurou acalmar-se.

A paz não durou muito. Do nada, nem ele sabe porque motivo, virou-se impetuosamente para o loirinho que estava atrás. O rapaz assustou-se. O moreno olhou-o profundamente nos olhos, um olhar de devorador, e puxando-o para si deu-lhe um beijo na boca. A fila, em suspenso, olhava os dois. O beijo durou cinco minutos e trinta e dois segundos. O moreno saiu correndo. Alguns dizem que ele ria, outros afirmaram que ele chorava, mas todos confirmam: ele estava excitado, muito excitado. E saíra louco, a correr, e o seu volume denunciava o quanto ele era homem. Excessivamente homem. Um verdadeiro macho.

(imagem ©giselle salas)


Sarah Forte (Fortaleza/CE). Estudante de Literatura Brasileira. Gosta de escrever contos. Uma iniciante. Fonte Germina

19/11/2009 - 19:07h Em verso

DELICATESSEN

preciso de um doce

que me dê prazer

e me preencha a boca

com furtivas de anis

prefiro saborear

provar sal nas costas

derreter chocolate na tarde

pra esquecer do frio da vida

dá-me muitos e faz-me pouca

a avalanche de abraços apertados,

cura-me esses choros suspirados

de quem ama e nunca diz.

ENCONTRO DE POESIA

ele era poeta

escrevia como se pudesse tê-la

sentindo a vontade no seu olho ao lê-lo

como se ela ousasse ser a única.

ela era poeta

escrevia arrebatada, incompleta

e lia, e mais avidamente o lia

como se ainda pudesse

despir a vida

entender o silêncio

pesar sussurro.

TANGO

ainda guarda distâncias

a boca ainda se reserva

como se houvesse algo a desvendar

ela é involuntária, hesitante, arisca

a desconfiança a deixa arredia

apesar de tanto carinho

a despeito de tanto cuidado

ela come na mão dele

mas não sem rodeios.

QUASE

o sorriso dela foi largo

cheio de certezas

dessas que voam leves no vento

sentiu o aconchego na distância de seu abraço

a ansiedade apertada de um beijo

sempre soube agradar com poesia

não, não era amor

mas era quase.

CATECISMO

inferno é perder a vida por medo.

o paraíso é presente.

te convido para o fogo.

(imagem @czek)

Paula Cajaty. Carioca, nascida em 1975, iniciou a carreira no Direito, mas encontrou na literatura o caminho para alcançar os próprios sonhos e prazeres. Em 2008, lançou o primeiro livro, Afrodite in verso, que tem como principais componentes a sensualidade, o romantismo e a poesia. O livro ganhou orelha do poeta Fabrício Carpinejar, e elogios de diversos escritores já consagrados por crítica e público. Outras informações em seu site (clique aqui).

Fonte germina literatura

18/11/2009 - 20:25h Poetrix

SOLO
lílian maial


violoncelo plangente
(o arco arranca sustenidos)
: sinfonia pelo chão

17/11/2009 - 20:50h SEXTYNAMANTE E SEXTYNARREGANHADA

A página a seguir pode apresentar conteúdo erótico impróprio para menores de 18 anos e outras determinadas audiências.

Caso você seja maior de idade, prossiga. Se for pudibundo, melhor não…

(mais…)

17/11/2009 - 20:04h NO BALANÇO DO METRÔ

Lílian Maial

Roberto acordou bem cedo, como de costume. Tomou seu banho, barbeou-se, tudo de sempre – a rotina de um homem comum, beirando os 40 anos, já com algumas “entradas”, alguma barriguinha, na verdade, já gostou bem mais de sua imagem no espelho. Mas até que ainda estava conservado, para um funcionário burocrata de uma empresa de informática. Bem casado, com uma mulher adorável, bonita, culta, um casal de filhos adolescentes, uma vida estável e invejada pela maioria dos amigos.
Naquela manhã abafada, saiu de casa apenas com o suco de laranja – não quis comer – o calor o incomodava.
Foi à pé até o metrô, meio desligado, pensando na vida e no alívio do vagão refrigerado. A plataforma já estava cheia e o trem logo chegou, lotado, ocupado por ternos, bolsas, celulares… Não havia muita escolha, segurou no suporte de teto, num canto do vagão, espremido entre um jovem mascando chicletes (logo pela manhã?) e uma mulher de média altura, de costas pra ele, cabelos em seu rosto, cheirosa.
O trem saiu da estação e o ar condicionado mal dava a perceber que estava ligado.
Em seu terno impecável, Roberto era um belo homem, notado por algumas secretárias aqui e acolá.
Na parada da estação seguinte, devido a uma freada brusca, Roberto segurou a mulher à sua frente, que desequilibrou-se e soltou a pasta de executiva que carregava sob o braço. Ao abaixarem-se, entreolharam-se, e ele pôde observar o olhar alegremente surpreso, de aprovação, da mulher ao fitá-lo. Ela corou suavemente, agradeceu e voltou à posição inicial, para a partida do comboio.
Ele ficou embevecido com a delicadeza dos olhos amendoados, que o fitaram de relance, bem maquiados, adornados por longos cílios e uma cabeleira negra, que lhe caía aos ombros. Mulher de uma morenice discreta e elegante, com olhos de feiticeira.
Mais uma estação, o vagão não comportava mais ninguém, mas as pessoas continuavam a entrar. Aquele cheiro de flores que emanava dos cabelos morenos tornou-se mais intenso, e ele percebeu que a moça estava mais perto. Sentiu-se subitamente excitado com a proximidade e passou a observar seus contornos.
De súbito, a mulher deu um passo para trás e seu corpo roliço tocou o de Roberto e, silenciosamente, assim permaneceram no balanço do metrô.
Na estação seguinte, ninguém desceu e, ao contrário, vários entraram, diminuindo ainda mais o espaço entre ele e a mulher.
Ao partir o vagão, a mulher, inesperadamente, encosta-se completamente em Roberto, e acomoda a cabeça em seu peito, afastando os cabelos, deixando a nuca e o pescoço livres. Sem pudores, ela começa a roçar seu traseiro arredondado em Roberto que, entre surpreso e maravilhado, sente crescer o volume nas calças. O balanço do trem aumenta o atrito, e ninguém consegue perceber nada, de tão imóveis que estão todos.
Roberto atreve-se e beija aquele pescoço perfumado, sussurra naquela orelhinha delicada, perfurada por uma singela pérola. Introduz a língua naquele pequeno lóbulo e sente a respiração alterada da mulher, que aceita as carícias sem nada dizer.
Naquele balanço, com o sexo resvalando no traseiro provocante da executiva, sente a mão pequena, porém firme, tocar-lhe as partes mais íntimas, apertando e soltando.
Ele estava deliciado, sua estação ainda demoraria, e ela não fazia menção de saltar.
Num ímpeto de valentia e desejo, com sua mão livre acaricia as coxas da morena e foi subindo o quanto pudesse. Ela consente, afastando ligeiramente as pernas, e ele alcança, protegido pelo anonimato da multidão, a umidade abundante daquela desconhecida. Sente seu calor, sente seu pulsar, sente seu cheiro inebriante. Aproxima-se mais e, apoiando-se nela, solta a outra mão, para acarinhar discretamente aqueles seios de pêras suculentas.
E vão assim, nessa sofreguidão disfarçada e gostosa por toda a viagem.
Aquele corpo quente, junto ao seu, aquela mãozinha buscando seu sexo, aqueles seios… Ele podia ouvir seus suspiros calados, seus gemidos mudos, seu arfar contido, e isso o excitava ainda mais.
Chegava sua estação, teria que saltar, queria poder falar com ela, trocar telefones, marcar no outro dia, mas não teve coragem. Ajeitou-se como pôde, ela também e, curiosamente, saltaram na mesma estação, mas pegaram direções opostas. Ele pensou em segui-la, mas tinha horário rigoroso no trabalho… Assim, apenas ficou a observá-la afastar-se, saia justa, sapatos altos, bolsa, pastinha…
E ela nem olhou pra trás…

Fonte Blog de Lílian Maial

16/11/2009 - 20:23h Luxúria

Lira pornoerótica inova a velha sextina

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Sendo a literatura investigação do humano, é apenas natural que a erotografia (sob qualquer forma) seja antiga como a civilização. Aliás, em seu Eros e Civilização, o filósofo Marcuse postulava que Eros, como princípio vital, rechaça a repressão e o controle.

Para deixar jorrar essa pulsão eruptiva, o poeta português Joaquim Estevez da Guarda retoma a sextina do século 12 em seu livro Llama de amor viva: Sextynas (Cadernos do Subsolo, Porto, Portugal, 2007). A sextina é uma complicada composição poética criada pelo trovador provençal Arnaut Daniel, que dela se serviu para bem cantar folguedos amorosos. Dante e Petrarca também praticaram a forma. Tecnicamente, a sextina consiste em seis sextilhas mais um terceto final, sendo que as rimas se repetem, de cabo a rabo, segundo uma ordem estrita, impondo uma circularidade ao discurso poético.

Neste Llama de amor viva — um verso tomado de empréstimo ao místico Juan de la Cruz —, Estevez da Guarda engaja-se na militância amatória de um Bocage clássico para louvar a “glória das feminis carnes” e o “lúbrico tormento” da cópula, chamando as partes ditas pudendas por seus nomes impróprios.

Numa era em que a pornografia eletrônica é um business bilionário, esta celebração do gozo carnal constitui, na verdade, uma transgressão às normas vigentes — a farta oferta de sexo virtual, a “neocaretice” pós-advento da Aids, as múltiplas formas de obscenidade em cartaz no mundo-mercado, no circo da mídia, na chamada sociedade do espetáculo e do controle. A surrada questão “arte ou pornografia” sequer se coloca aqui, pois o sextinário sexy de Estevez da Guarda — erudito e popular a um só tempo —, se filia a uma robusta tradição latina de letras lascivas, onde nada do que é humano é estranho à poesia. Em dez elaboradas “sextynas em medida velha e medida nova”, este liber libertinário exalta o gozo demasiado humano — o coito sem protocolo, sem repressão e sem preço.

O poeta põe as musas em pêlo, com pleno domínio da forma, do repertório clássico e da tradição portuguesa. Como assinala, no prefácio, o poeta galego Xosé Lois García, ao exaltar a liberdade instintiva, “doada pela própria natureza”, o sextinário compõe uma “liturgia laica” para espíritos livres. A língua franca de Eros reafirma, ainda e sempre, sua primazia.

O livro: Joaquim Estevez da Guarda. Llama de amor viva: Sextynas

(Porto, Portugal: Cadernos do Subsolo, 2007).

De feitura artesanal, é distribuído no Brasil pela Editora e Livraria Crisálida de Belo Horizonte.

Tel.: (31) 3222-4956 |  livraria@crisalida.com.br | Pode ser adquirido junto ao próprio autor, clicando aqui.


Luiz Roberto Guedes. Poeta, escritor e tradutor, nasceu e sobrevive em São Paulo. Publicou, entre outros, Calendário lunático — erotografia de Ana K (Ciência do Acidente, 2000), a novela O mamaluco voador (Travessa dos Editores, 2006), o infantil O Livro das Mákinas Malukas (Dubolsinho, 2007), Minima Immoralia/Dirty Limerix (Demônio Negro, 2007) e colaborou com Claudio Daniel nas antologias Íbis amarelo sobre fundo negro, poemas de José Kozer (Travessa dos Editores, 2005) e Jardim de Camaleões, poetas neobarrocos (Iluminuras, 2005). É letrista sob a identidade secreta de Paulo Flexa.

14/11/2009 - 20:33h A torre de babel ou a porra do Soriano

©daniel weinstock

Eu canto do Soriano o singular mangalho!
Empresa colossal! Ciclópico trabalho!
Para o cantar inteiro e para o cantar bem
precisava viver como Matusalém.
Dez séculos!

Enfim, nesta pobreza métrica
cantemos essa porra, porra quilométrica,
donde pendem colhões que idéia vaga
das nádegas brutais do Arcebispo de Braga.

Sim, cantemos a porra, o caralho iracundo
que, antes de nervo cru, já foi eixo do Mundo!
Mastro de Leviathan! Iminência revel!
Estando murcho foi a Torre de Babel
Caralho singular! É contemplá-lo
É vê-lo teso!
Atravessaria o quê?
O sete estrelo!

Em Tebas, em Paris, em Lagos, em Gomorra
juro que ninguém viu tão formidável porra
É uma porra, arquiporra!
É um caralhão atroz
que se lhe podem dar trinta ou quarenta nós
e, ainda assim, fica o caralho preciso
para foder a Terra, Eva no Paraíso!

É uma porra infinita, é um caralho insone
que nas roscas outrora estrangulou Laoccoonte.

Oh, caralho imortal! Oh glória destes lusos!
Tu podias suprir todos os parafusos
que espremem com vigor os cachos do Alto Douro!
Onde é que há um abismo, onde há um sorvedouro
que assim possa conter esta porra do diabo??!
O Marquês de Valadas em vão mostra o rabo,
em vão mostra o fundo o pavoroso Oceano!
- Nada, nada contém a porra do Soriano!

Quando morrer, Senhor, que extraordinária cova,
que bainha, meu Deus, para esta porra nova,
esta porra infeliz, esta porra precita,
judia errante atrás duma crica infinita?

- Uma fenda do globo, um sorvedouro ignoto
que lhe dá de abrir talvez um dia um terramoto
para que deságüe, esta porra medonha,
em grossos borbotões de clerical langolha!

A porra do Soriano, é um infinito assunto!
Se ela está em Lisboa ou em Coimbra, pergunto?
Onde é que ela começa?
Onde é que ela termina
essa porra, que estando em Braga, está na China,
porra que corre mais que o próprio pensamento
que porra de pardal e porra de jumento?
Porra!

Mil vezes porra!
Porra de bruto
que é capaz de foder o Cosmo num minuto!

Fonte Germina literatura

14/11/2009 - 12:54h A volta de Salgari, o rei dos oceanos e da selva

Três livros do escritor italiano, entre eles Os Piratas da Malásia, estão nas livrarias à espera de leitores que sigam o exemplo de Fellini e Umberto Eco, seus fãs

http://4.bp.blogspot.com/_vX9jVJvvLqY/SgbXgqWVNmI/AAAAAAAAAY8/WFs7vANtMAk/s320/sandokan_1_pq.jpg

Antonio Gonçalves Filho – O Estado SP

Edward Said não gostava nada da ideia que o Ocidente fazia do Oriente. Aliás, achava mesmo que o Oriente era uma invenção do Ocidente para manter os orientais submissos, mas jamais culpou o italiano Emilio Salgari (1862-1911) por isso. O mais amado escritor de aventuras da Itália, lido por Fellini e Umberto Eco, mais conhecido que Dante na Itália, não recuou ao reduzir o oriental a estereótipo, transformando Sandokan, um príncipe oriental, num vingativo pirata temido por comandantes ocidentais, o que explica, talvez, a omissão de Said. Os heróis de Salgari, afinal, eram bárbaros donos do mundo. O resto era a civilização, aborrecida e invariavelmente representada por imperialistas ingleses. E são esses bárbaros que estão de volta com o lançamento de Os Piratas da Malásia (tradução de Maiza Rocha, Editora Iluminuras, 256 páginas, R$ 38).

http://www.iluminuras.com.br/v1/admin/imagens_capas/ospiratas.jpghttp://www.iluminuras.com.br/v1/admin/imagens_capas/misterios.jpghttp://www.iluminuras.com.br/v1/admin/imagens_capas/tigres.jpg

Nesse livro, cheio de sangue, suor e fúria, Sandokan, o nobre cuja família foi exterminada, vira um pirata conhecido pela alcunha de o Tigre da Malásia, perseguindo mais uma vez os ingleses, claro. Salgari publicou essa sequência de Os Tigres de Mompracem (também lançado pela Iluminuras ao lado de Os Mistérios da Selva Negra) em 1896. No mundo real, a Inglaterra estava em guerra com Zanzibar, a mais curta de toda a história. Zanzibar se rendeu depois de 38 minutos. É mais o menos o tempo que Sandokan precisa para ajudar seu amigo Tremak-Naik, o caçador de serpentes, a fugir da prisão de Norfolk e juntar-se a ele no combate ao arqui-inimigo James Brooke, o caçador de piratas. Simples assim.

E foi justamente essa simplicidade que conquistou milhões de jovens em todo o mundo, formando gerações e gerações de italianos como o cineasta Sérgio Leone, o inventor do western spaghetti, que cansou de ler as aventuras ambientadas por Salgari no Velho Oeste americano. O escritor italiano jurava ter conhecido Buffalo Bill em Nebraska. Como era marinheiro, é preciso dar um desconto para sua ilimitada imaginação – que, de resto, fez nascer personagens como Kammamuri, fiel companheiro de Tremal-Naik, o exótico caçador de serpentes que, em Os Mistérios da Selva Negra, se apaixona por uma virgem prometida à deusa Kali.

Já em Os Tigres de Mompracem, o herói Sandokan surge acompanhado de seu fiel amigo, o português Yanez. Há, claro, também uma linda garota, Marianna, que o faz esquecer a luta contra os antípodas e todos os sentimentos de vingança contra esses malditos caucasianos. O guerrilheiro argentino Che Guevara leu 62 livros do escritor italiano para concluir que foi, desde criança, um “salgariano” radical, um anti-imperialista destinado a lutar contra poderosos. E, acima de tudo, um corsário um pouco ao estilo de Steeve Reeves, o saradão que massacra sem piedade os marujos de navios que cruzavam seu caminho em Os Piratas da Malásia.

Esse perfil de proscrito, exilado e injustiçado talvez explique o grande sucesso dos anti-heróis de Salgari – e um pouco o carisma de Che Guevara. Sandokan, não se deve esquecer, testemunhou o extermínio de sua família. Persegue o colonizador europeu com justa razão. Antes de ser romancista, Salgari foi jornalista. Sabia, portanto, de que mundo estava falando ao criar 80 romances que deram muito lucro aos editores e nenhum a ele, que se matou em cerimonial suicida inspirado nos samurais japoneses. Antes, porém, quebrou a pena que criou Sandokan, pedindo a seus editores inescrupulosos que pelo menos pagassem pelo enterro. Heróis não morrem. Seus criadores, sim.

O escritor

http://elcobre.es/Fotos%20Autores/Emilio_Salgari.jpgSALGARI: É difícil imaginar Gabriele D”Annunzio como roteirista de um filme baseado em Salgari, mas foi o que aconteceu há 101 anos, quando Cabiria foi realizado por Giovanni Pastrone. Trata-se de pirataria, no sentido moderno do termo. A história original era de Salgari, roubado por editores a vida toda, morrendo na penúria. Nascido em Verona em 1862, o autor viveu até 1911 e criou vários heróis, dos quais o mais célebre é Sandokan, que tem um fiel companheiro, o tenente Yanez de Gomera.

Tramas moldaram o imaginário de várias gerações

Há muito fora de catálogo, exemplares não eram encontrados nem em sebos

Luiz Carlos Merten – O Estado SP

Talvez seja preciso desistir da isenção jornalística e escrever na primeira pessoa, apaixonadamente. Há anos perseguia em sebos velhos exemplares das aventuras de Tarzan e Sandokan. Os próprios donos me desestimulavam. Nada mais raro do que encontrar colecionadores dispostos a abrir mão dos exemplares da lendária Coleção Terramarear, da Editora Melhoramentos. Aqueles livros moldaram meu imaginário, com os westerns no cinema.

Não só o meu. Lêdo Ivo escreveu seu volume A Ética da Aventura pegando carona nas leituras de seus verdes anos. E me lembro de ter lido certa vez o que ele disse e me marcou – muita gente pensa que escritor é só Marcel Proust ou James Joyce, mas ele acreditava, como eu acredito, que o valor do escritor é dado pelo leitor. Emilio Salgari sempre foi importante para mim. Confesso que tomei um susto ao descobrir, nas chamadas de novos livros que o Cultura, do Estado, publica aos domingos, que os volumes que buscava em sebos estavam saindo novos em folha. Salgari! Sandokan! Para quando o Tarzan?

Lembro-me de ter 9 ou 10 anos quando comprei meu primeiro livro. Era um volume da Terramarear, A Volta de Tarzan, de Edgar Rice Burroughs. Somente depois li o primeiro da série com o homem-macaco e, em seguida, devorei toda a coleção. Hollywood nunca fez justiça à imaginação de Burroughs. Em seus livros, Tarzan viajou ao centro da Terra, descobriu Camelot e o Império Romano no coração da África, decifrou o mistério de Opar, onde reinava a sacerdotisa La, e se envolveu com a sedutora Nemone, com seu leão de ouro. Nada disso passou para o cinema. Indago-me com frequência: como seria hoje (re)ler aquelas aventuras?

Embora seja uma animação, Ratatouille, de Brad Bird, é um dos grandes filmes dos últimos anos e a cena em que o crítico gastronômico reencontra o tempo perdido realiza o que gênios como Visconti e Losey gostariam de ter feito, se tivessem conseguido adaptar Proust. Salgari teve mais sorte que Burroughs no cinema. Na verdade, eu o vi, antes de ler. Era ávido consumidor das aventuras de Sandokan, com Ray Danton, e mais tarde consegui ver o herói interpretado por Kabir Bedi na TV italiana. Também li Salgari primeiro em espanhol, antes que em português, porque sempre tive dificuldade para encontrar seus livros no Brasil. Reli agora Os Mistérios da Selva Negra e Os Piratas da Malásia e não me decepcionei. Spielberg e seus roteiristas também devem tê-lo (re)lido. Muita coisa de Indiana Jones e o Templo da Perdição, as câmaras subterrâneas, os sacrifícios humanos, os adoradores da deusa da morte, tudo parece saído de Salgari.

Faltam menos de dois anos para se completar (em abril de 2011) o centenário de sua morte, por suicídio. Não sei por que ele terminou relegado ao segundo time dos escritores de aventuras, distante de Walter Scott, Alexandre Dumas e Júlio Verne. Me encanta nele a existência desses personagens nobres, capazes de qualquer sacrifício em nome da honra e da amizade e sempre a postos para defender fracos e oprimidos das garras de opressores variados, sejam califas, fanáticos hindus ou representantes da Coroa espanhola no Caribe. O mundo – e o cinema – não teriam tido o mesmo fascínio para mim, sem Emilio Salgari (e Sandokan).

13/11/2009 - 20:52h Senhas

Você escancara a janela, deixando entrar os primeiros raios solares no quarto modesto. Sob um teto de telhas antigas e ripas quase podres, uma mesa, três tamboretes, um cabideiro pendurado na parede. Água fresca numa moringa e dois copos de vidro que já foram potes de extrato de tomate. No chão, uma esteira fazendo as vezes de tapete, sobre o qual dormem dois pares de chinelos. No teto da casa, você vê os pernilongos que jazem presos nos fios quase invisíveis de uma teia. Entra um cheiro de verde e estrume, risos de passarinhos e cores de manga e tamarindo. Uma fímbria de sol lambe os pêlos finos de Isaura, ainda dormindo, nua, sobre o lençol quarado e engomado, cheio de amassos, contrastado pela colcha de retalhos.

Você sente falta do vício. Um cigarro cairia bem. Os dedos indicador e médio se aproximam, ato reflexo, falho, inconsciente. O canto dos lábios ainda guarda o hábito de manter um hiato. Mas você já abandonou os vícios. Todos eles. Um médico, ainda que de bichos, tem o dever de cuidar da própria saúde.

Ela saíra da capital em um ônibus, às dez horas da manhã. Chegara à sede do município às cinco da tarde. Depois, mais uma hora e meia em um jipe, cortando acessos de terra batida, até chegar ao vilarejo. Após vinte minutos caminhando, chegara exausta à casa, sem mandar aviso. No fogão de lenha, carne de porco assada, farofa, arroz e café: um banquete para quem está morrendo de fome. Depois, você faz amor com ela a noite inteira. O seu último contato fora apenas uma carta, em que você informava que iria viajar, passar algumas semanas fora, trabalhando. Você queria ficar sozinho. Mais que isso, você precisava ficar sozinho, para saber o quanto de você restara. Você se pergunta incessantemente o quanto vale a pena insistir na vida que tem levado. Ela entrou em sua vida com a sutileza de um rinoceronte e a leveza de um colibri.

É para sua esposa? Quer que embale para presente? Ela vai gostar. O senhor tem muito bom gosto. Sim, estou trabalhando aqui somente há três semanas. Estou gostando muito. Sabe como é, desde que me casei, parei de trabalhar. Sou, sou casada já há onze anos, estava precisando sair um pouco de casa. Não, não tenho filhos. Ah, ele é muito possessivo, você não sabe o quanto eu tive que brigar para voltar a trabalhar e estudar. Cansei daquela vidinha de dona-de-casa privilegiada. A empregada fazendo tudo. Geralmente eu saio às seis e meia. Acho que sim. Não, não tenho problemas em chegar mais tarde, o Magno está viajando. Combinado, então, às sete na praça de alimentação.

Você hoje se pergunta o porquê daquela abordagem. Claro que ela é linda. Mas isso não é tudo. Talvez apenas a necessidade de conversar com alguém desconhecido, conhecer uma nova pessoa. Não, você sabe que havia algo além disso. Alguma coisa naquela mulher lhe fazia promessas de fortes sentimentos. Um olhar sensual, como o da professora Dalva, que tanto lhe dera aulas particulares de sexo, no colegial.

Olá! Cheguei na hora! Não, nem sempre eu sou assim tão pontual. A vida sedentária deixa a gente mal-acostumada. Sim, aceito um chope. O que você quiser. Como qualquer coisa. É verdade, sou casada há onze anos. Obrigada, são seus olhos. É que eu casei muito jovem. Não tenho vergonha de dizer minha idade, isso é uma tremenda besteira, o que importa é a nossa saúde física e mental: tenho vinte e nove anos. Acho que é porque sempre me cuidei. Nunca fui de fazer farras, ir para a balada, como dizem hoje. Magno foi meu primeiro namorado pra valer, meu primeiro homem. Sério. Perdi a virgindade com dezoito anos. Dei o cabaço pro Magno e nunca conheci outro homem. Não, não tenho vergonha de falar pornografia. Isso é falso pudor. Além disso, acho cabaço uma palavra sonora, bonita. Soa forte. E é tão simbólica! É sério. Pede mais um chope.

Você sabe, tudo é uma questão de referenciais. E evitar comparações é o caminho mais fácil para ser feliz. Isaura é, possivelmente, a quadragésima mulher que você penetrou: no corpo e na alma. E a melhor de todas. Você sempre acha que a melhor é a última. Não por elas, mas porque você, a cada vez, consegue aumentar a intensidade do seu prazer. Amor?

Hoje eu não sei se amava o Magno. Foi tudo muito rápido. Eu estava louca para ter minha primeira experiência sexual e ele louco para trepar com uma menina de dezoito anos. Ele gostou, eu também, e continuamos transando ao longo destes anos todos. Mas hoje eu não me casaria com um homem como ele. Não, não é que ele seja ruim de cama. Eu não sei o que é um homem bom ou ruim de cama: só tive ele. É que, a cada dia, tenho menos tesão. Claro que variamos! Em onze anos dá para fazer de tudo. Eu não tenho restrições. Já transamos em todos os lugares, em todas as posições, de todos os jeitos. A novidade acabou, está tudo muito igual. Você é casado há quanto tempo? Tem filhos? Um casal? Do primeiro ou do segundo casamento? Eu sempre quis ter um filho, mas o Magno… Pede outro chope.

Você não tem certeza sobre esse tal de Amor. Isaura se vira na cama, coloca preguiçosamente o travesseiro sobre a cabeça. Está exausta, depois de seis orgasmos. Vai acordar com uma fome felina e morder a sua orelha como se fosse um petisco. Você já conhece cada curva daquele corpo, a profundidade da sua vagina até sentir o DIU, o sabor do seu ânus. Tudo que ela gosta, o que lhe dá mais prazer.

Eu sabia que ia ser delicioso. Estou acostumada com uma um pouco menor. Você me fez sentir uma mulher outra vez. Você me toca com tanta delicadeza! Há tempos eu não tenho um gozo tão maravilhoso! Que bom que você gostou. Eu entendo. Ainda vamos nos ver de novo?

Durante duas semanas vocês se encontram todos os dias. E cada dia foi melhor que o anterior. E a cada vez você se perguntava porquê outra vez e se lembrava de Maura. Se ela descobrisse, como voltar a olhar em seus olhos? Seria o fim. Mas tudo não tem um fim? É possível amar duas pessoas, ao mesmo tempo, com a mesma intensidade?, você se pergunta, ou tudo não passa de sexo e amizade? Completamos nossas carências, afetivas e fisiológicas. Incompletude, esta é a palavra. Você sabe que a provocou, foi você quem a convidou a sentir novas experiências, novas emoções. Você queria comê-la. E continuar comendo-a. Você não lhe deu a menor chance de defesa, enredou-a completamente. O sol já se faz mais presente, o dia espreguiça-se, você vê um cavalo velho que passeia, pisando o capim que devora. Ela viajara algumas centenas de quilômetros para fazer amor com você e gritar amor da minha vida no terceiro gozo.

Magno, eu vou viajar. Viajar, viajar, ora, preciso descontrair um pouco. Pedi uns dias de folga. A Luísa é minha amiga, lógico que ela não iria se importar com minha falta. Não sei. Vou sair por aí, sem destino. Não pirei, não, Magno. Outro? Que outro? Ficou maluco, é? Só preciso ficar sozinha, pensar um pouco sobre minha vida, nossa relação. Não tô a fim de discutir nada agora, Magno, quando eu voltar a gente conversa. Não sei, o tempo que for necessário. Eu te ligo quando estiver voltando. Não, não vou levar a porcaria do celular, Magno. Que saco! Você pode me permitir um pouco de liberdade? Ah! obrigada, meu senhor! Sobre o que eu quero pensar? Ah! agora você quer saber até o que eu penso? Tá bom, não preciso pensar mais. Quero dar um tempo. Agora, pensa você sobre isso. Tchau!

Mas você sabe que a Maura lhe ama. Há algum tempo ela não verbaliza isso, mas você sabe. E isso você não consegue desprezar. Você se lembra que cada uma daquelas mulheres tinha algo em especial: uma cor de pele, um gosto na bunda, um cheiro nas axilas, um jeito diferente de revirar os olhos quando goza. Cada uma, ao seu modo, inesquecível. Maura era todas e nenhuma, não a melhor, mas ela mesma. Plena. Não precisava de você, nem de ninguém. Esperava sua volta, após dias e dias de ausência, e o saudava como se você tivesse saído há meia hora, para comprar remédio. E depois lhe fodia, ou melhor, continuava a foda de onde ela havia parado. Com Maura, a foda nunca acabava, deixando seu corpo eternamente insatisfeito. Você se diz que não a ama. Não as ama. Não ama ninguém

Surpresa! Posso entrar? Será que estou atrapalhando? Não agüentei saber que ia ficar mais tantas semanas sem lhe ver, sem sentir você dentro de mim. Eu preciso de você. Não, ele não sabe pra onde eu fui. Dei uma de louca, chutei o pau-da-barraca. Foi fácil chegar, você deu todas as dicas na carta, quase um mapa. Eu percebi que você queria que eu o seguisse, mas não se sentiu à vontade pra pedir. A viagem foi longa, mas sei que vai valer a pena. E aí, posso ficar com você? Que bom. Agora, me dá um beijo que eu tô morrendo de saudade. Eu te amo! Não dá mais para viver com o Magno. Eu só quero você.

Isaura faz amor como uma louca, como se cada uma fosse a última trepada da sua vida. Isso a fazia diferente. Isso fazia com que você sempre atendesse aos seus desejos. Você a vê abrir os olhos. Sua primeira expressão é de desejo. Ela contempla o seu corpo nu, de alto a baixo. Espreguiça-se, rola no colchão, fazendo as molas chiarem. Exibe suas formas generosas. Ela percebe a alteração no seu corpo. Apóia-se nas mãos e nos joelhos e lhe chama, quase implorando, vem meu amor, me come de novo, bota aqui na minha bundinha, vai! Você se aproxima lentamente, provocando-a. Lambe suas costas, acaricia-lhe a buceta, puxa-lhe os cabelos.

Depois do café você sabe que vai precisar mandá-la embora. Para sempre. Você sabe que vai ser difícil, você sempre teve dificuldades em terminar relacionamentos. Além disso, Isaura não lhe exige nada, ela sabe dos seus compromissos, só quer fazer amor. E ela é tão doce e apaixonada! Por que não viver, simplesmente, enquanto for bom? Você quer se convencer que esta é a última, como um fumante que sempre pensa que aquele é o ultimo trago. Mas sabe que está mentindo.

— Eu sei que você pensa em terminar comigo, amor. Não precisa. A cada vez que nos despedimos, para mim, é como se fosse a última. Relaxe. Feche a janela e finja que eu nunca estive aqui.

[Conto premiado com o quarto lugar no VII Concurso de Contos da Petros, RJ, 2007)]

Goulart Gomes (Salvador, Bahia, 1º/5/1965) é graduado em Administração de Empresas, Especialista em Literatura Brasileira (UCSAL) e pós-graduando em Comunicação Integrada (ESPM-RJ). Criador da linguagem poética Poetrix e um dos fundadores do Grupo Cultural PÓRTICO. Publicou os livrosde poesia Anda luz (1987), Todo desejo (1990), Sob a pele (1994), Trix, poemetos tropi-kais (1999), LinguaJá, o território inimigo (2000), Esfinge lunar e outros enigmas; a peça teatral A greve geral (1997); o cordel A divina comédia (1989); Todo tipo de gente, contos (2003) e Matrix revelations — tudo o que você queria saber sobre o filme, ensaio (2005). Obteve 63 prêmios em concursos de poesia, prosa e festivais de música, destacando-se duas Menções pela Academia Carioca de Letras e União Brasileira de Escritores (RJ, 2000 e 2001) e o Primeiro Lugar no Prêmio Escribas de Poesia (SP, 2002). Integrou 27 antologias no Brasil, Cuba, Espanha, USA, Itália e Coréia do Sul e, ainda, trabalhos divulgados no México, Portugal e França. Sites: www.goulartgomes.com e www.movimentopoetrix.com.

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12/11/2009 - 20:06h CANTATE POUR UNE FEMME ÉPERDUE

François Fabert

Un jour je t’avais vue à l’heure du goûter
Embrasser ton amie aussi nue que toi
Et poser sur ses seins tes pointes érigées
Tandis qu’elle frottait sur ta fauve toison
Son pubis épilé Et vous restiez ainsi
Tendrement enlacées vos vêtements épars
Au soleil de la chambre et les rideaux ouverts
Aux cris des hirondelles C’est ma sœur disais-tu
Attends-moi là Je suis à toi dans un instant
Et le jardin touffu était seul à entendrecourbant
De vos souffles mêlés la bienheureuse attente
De vos cris éperdus l’amoureuse cantate

12/11/2009 - 18:38h Amo, amas

Rubén Darío

Amar, amar, amar, amar sempre, com todo
O ser e com a terra e com o céu,
Com o claro do sol e o escuro do lodo;
Amar por toda ciência e amar, por todo desejo.
E quando a montanha da vida
Nos seja dura e longa e alta e cheia de abismos,
Amar a imensidade que é de amor acesa
E arder na fusão de nossos peitos mesmos!

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)


Amo, amas

Rubén Dário

Amar, amar, amar, amar siempre, con todo
el ser y con la tierra y con el cielo,
con lo claro del sol y lo oscuro del lodo;
amar por toda ciencia y amar por todo anhelo.
Y cuando la montaña de la vida
nos sea dura y larga y alta y llena de abismos,
amar la inmensidad que es de amor encendida
¡y arder en la fusión de nuestros pechos mismos!

Poesia Latina

11/11/2009 - 21:01h Pornopoemas

1. Vultos, outras histórias

terceiro testamento

madalena

arrependida

iluminou sua vida

não findou seu tormento

madalena arrependeu-se

do próprio arrependimento

pagou um boquete em jesus

quase pendurada na cruz

perdoai,

ela não sabe o que faz

repete o filho pro pai

madalena ri tanto

ri do pai

ri do filho

ri do espírito santo

afinal o cristianismo

é só uma idéia

e ela

o melhor boquete

de toda galiléia






a uma lady

e fodia toda tarde na embaixada

a princesa que encantou a seca e meca

tanto jeitinho de moça recatada

e tanto fogo no rabo e na xereca


o príncipe bobo e ob só era sócio

na realeza e na filantropia

tudo parte do mesmo negócio

que não se comparava à putaria


mas que ninguém condene a sua rota

quem alegrou plebeus e lançou modas

fez bem em alegrar a própria xota


e que lhe sirva de epitáfio este lamento

a lady que tanto amava as boas fodas

afinal se fudeu sem estar fodendo

sete anos de vilão Pingüim lutou

sete anos de vilão Pingüim lutou

contra os homens da lei da brava Gotham;

mas não lutou com eles, sim com Robin,

que a Robin só por prêmio desejou.

as noites na esperança qual um cego

na luta, na contenda, na refrega;

mas amor é tudo que a luta nega

e veio a enfrentá-lo o homem-morcego.

vendo o triste vilão que os seus planos

não deitaram em seus braços doce herói,

com sua máscara, capa, boca e beijo,

de maldades jurou mais sete anos,

dizendo: “tudo o que o Mal me dói

vou cumpri-lo pelo Bem que tanto almejo”.

2. Gramática não-explicativa

as novas carochinhas

me conta histórias

de fadas bem debochadas

brincando atrás do muro

com valetes de pau duro

imagina sem o pensamento

só com a vagina

tira lá do fundo

teu desejo mais abismal

enquanto tua mão encontra o meu pau

sempre feriado nacional

no bem-bom-beijo dos teus lábios maiores

folhas molhadas de gole engolem

o sumo do meu pau

caule submerso

ora na frente ora no verso

(quando eu te chamo de porca

pra te ver torcer o rabo)

onde eu começo começo começo…

& me acabo

outro cavalo a passear o peito

galopadamente

vamos sem sair

da cama até onde a vista

turva meu dedo

anuncia a mina

daguamel no vale

gramado das tuas pernas

brotam teus abaulados

gemidos

maravilhas do mundo animal

quem nunca viu

não acredita

quem conhece

se assanha

língua de gato

dando banho em aranha

regência

eu te chupo

tu me gozas

ele olha pela fresta nossa festa

que se faz faz & refaz

de tanto jeito

quando sobem nossos cheiros

misturados & melados

nosso amor palita os dentes satisfeito

69

c                                                                                                      m

ã                                                                                                      a

o                                                                                                      n

c                                                                                                      g

h                                                                                                      a

u                                                                                                      c

p                                                                                                      h

a                                                                                                      u

n                                                                                                      p

d                                                                                                      a

o                                                                                                      n

m                                                                                                     d

a                                                                                                      o

n                                                                                                      c

g                                                                                                      ã

a                                                                                                      o

3. (no) princípio

a poesia não faz cópia

foda que fode a si própria

essa fome

que se come

a si mesma

e a seu nome

(imagens ©rita monteiro | anouska fisz | le borne)

Cesar Cardoso é escritor, roteirista e fotógrafo. Formado em Letras pela UFRJ, escreve para a TV Globo — atualmente, o seriado Toma lá dá cá — e para a revista Caros Amigos. Participou, dentre outras, da exposição coletiva No Ventre do Azul e Branco — Tempo de Iemanjá, realizada no Centro Cultural Justiça Federal em 2007, com curadoria de Walter Firmo. E também do projeto de vídeo coletivo Oçapse – Oproc – Zul, com curadoria de Marcos Bonisson. Publicou A Serra do Sobe-Sobe, Fim da picada começo de estrada, Manu,Ela (Editorial Nórdica) e O lápis Ladislau (Editora Miguilim), de literatura infantil; A nossa moranguíssima paixão (Editora da UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro), de poesia; O pai dos burros (Editora Salamandra) e, com o grupo Obrigado Esparro: Confusões de aborrecente e Garotas são demais, garotos são de menos (Editora Frente); Como educar seus pais e Zoando na América (Editora Objetiva), de humor; Humor na TV, ensaio escrito com Emanuel Jacobina e Mauro Wilson, e publicado desde a quinta edição do livro Da criação ao roteiro, de Doc Comparato, em 2000.

10/11/2009 - 19:04h Quase sem querer

Poesia Latina

Marilina Ross

Quase sem querer nascí
Quase sem querer crescí
Quase sem querer
te conheci.
Gostei de tua risada fresca,
criança crescida
e tua maneira de olhar.
Foi dificil respirar,
comecei a tremer
e quase sem querer
te bejei.
Quase sem querer
me rio
Quase sem querer
sinto a tua falta.
Quase sem querer
me apaixonei
Deste urso carinhoso,
criança crescida
que sem querer também
me amou.
E me enche de carícias
sem a obrigação
de prometer-me
eterno amor.
Quase sem querer
se esquece.
Quase sem querer
se perde.
Quase sem querer
se vai o amor.
Por isso te estou querendo
quase sem querer.
Jurar-te eterno amor, não sei.
Talvez
algum dia
nos surpreenda a velhice
muito juntos,
quase sem querer.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Casi sin querer

Marilina Ross

Casi sin querer nací
Casi sin querer crecí
Casi sin querer
te conocí.
Me gustó tu risa fresca,
niño grandulón
y tu manera de mirar.
Fue dificil respirar,
empecé a temblar
y casi sin querer
te besé.
Casi sin querer
me rio.
Casi sin querer
te extraño.
Casi sin querer
me enamoré.
De este oso cariñoso,
niño grandulón
que sin querer tambien
me amó.
Y me llena de caricias
sin la obligación
de prometerme
eterno amor.
Casi sin querer
se olvida.
Casi sin querer
se pierde.
Casi sin querer
se va el amor.
Por eso te estoy queriendo
casi sin querer.
Jurarte eterno amor, no sé.
Tal vez
algún día
nos sorprenda la vejez
muy juntos,
casi sin querer.

09/11/2009 - 18:56h Eros é a água

Gioconda Belli

Entre as tuas pernas
o mar revela-me estranhos recifes
rochas erguidas corais altaneiros
contra a minha gruta de búzios concha nácar
o teu molusco de sal persegue a corrente
a pequena água inventa-me barbatanas
mar da noite com luas submersas
tua ondulação brusca de polvo congestionado
acelera nas minhas guelras um latejar de esponja
e os cavalos minúsculos flutuam entre gemidos
enredados em longos pistilos de medusa.
Amor entre golfinhos
aos altos lança-te sobre o meu flanco leve
recebo-te sem ruído olho-te entre bolhas
cerco o teu riso com a minha boca espuma
ligeireza da água oxigênio de tua vegetação de clorofila
a coroa de lua abre espaço ao oceano.
Dos olhos prateados
flui longo olhar final
e erguemo-nos do corpo aquático
somos carne outra vez
uma mulher e um homem
entre as rochas.

(Tradução de José Agostinho Baptista)


Eros es el água


Gioconda Belli

Entre tus piernas
el mar me muestra extraños arrecifes
rocas erguidas corales altaneros
contra mi gruta de caracolas concha nácar
tu molusco de sal persigue la corriente
el agua corta me inventa aletas
mar de la noche con lunas sumergidas
tu oleaje brusco de pulpo enardecido
acelera mis branquias los latidos de esponja
los caballos minúsculos flotando entre gemidos
enredados en largos pistilos de medusa.
Amor entre delfines
dando saltos te lanzas sobre mi flanco leve
te recibo sin ruido te miro entre burbujas
tu risa cerco con mi boca espuma
ligereza del agua oxigeno de tu vegetación de clorofila
la corona de luna abre espacio al océano
De océano los ojos plateados
fluye larga mirada final
y nos alzamos desde el cuerpo acuático
somos carne otra vez
una mujer y un hombre
entre las rocas.

09/11/2009 - 16:58h O Muro

Marcelo Leite – 8/11/2009

Paula e Ana (no banco de trás) com soldado oriental na “Faixa da Morte” do Muro (Foto: Claudia Kober)



Hoje faz 20 anos que o Muro de Berlim começou a cair. Ainda não chegou de todo ao chão. A história tem um ritmo às vezes difícil de suportar.

Basta viajar a Berlim, como fiz em julho depois de 13 anos de ausência. Quem não for cego vai notar – em meio a toda a exibição de glamour arquitetônico – os guetos de desolação pessoal e desajuste. Não faltam solitários e casais de meia idade esperando passar o tempo em bancos de praças de concreto com mato crescendo entre as rachaduras, um sanduíche vagabundo na mão, ou a garrafa.

A Queda do Muro, maiusculizada, não pode contudo deixar de ser comemorada e rememorada por quem já antes, mesmo que de esquerda, abominava as práticas soviéticas (e chinesas, por falar nisso). Era uma farsa que se acabava.

Talvez a maior farsa de todas se encenasse na Alemanha Oriental, com seu nome ridículo: República Democrática Alemã. A única coisa que abundava ali era falta de liberdade. Todo mundo vigiava todo mundo, parente contra parente, amigo desconfiando de amigo. Um encrave provinciano em que todos falavam uma língua de filósofos mas que se presta tão bem a enunciar ordens para cães.

Cada um que tenha nascido antes de 1970 extrairá da Queda do Muro suas próprias lições. As minhas se resumem a um alerta contra o entusiasmo em política. Daquele momento histórico prenhe de júbilo e euforia a memória preferiu reter mais cenas constrangedoras do que esperançosas.

As filas de alemães orientais para coletar seu Begrüßungsgeld, um troco que a rica Alemanha Ocidental dava de presente para os primos pobres que atravessavam pela primeira vez a fronteira, antes da reunificação em 3 de outubro de 1990.

Em 1º de julho do mesmo ano, dia da unificação monetária, a multidão reunida na Alexanderplatz erguendo notas de cem marcos no ar, como troféus. Quatro anos depois, veria pela TV cenas similares com o lançamento do real no Brasil.

Numa visita a fábricas fechadas em Bitterfeld – a Cubatão alemã-oriental -, ex-gerentes comunistas, ou gerentes ex-comunistas, fazendo rapapés para os novos patrões ocidentais enquanto afastavam às cotoveladas os jornalistas.

Soldados soviéticos com rostos infantis e asiáticos, no domingo de folga em Potsdam, posando para fotos ao lado de Mercedes-Benz e de turistas tão embasbacados com seus quepes monumentais quanto eles com os carrões.

Berlinenses ocidentais resmungando – ou hostilizando abertamente – os poloneses e ciganos romenos que invadiram a cidade nos primeiros meses de 1990 e passavam como gafanhotos pelos supermercados, esvaziando prateleiras de leite e de sabão em pó.

A história acontecia diante dos olhos, mas seus trabalhos, como na guerra, tinham um quê de mesquinho, sujo, pedestre. Era uma rendição em câmera lenta, inescapável e necessária, mas abjeta.

Pessoas que só haviam aderido ao socialismo por imposição ou oportunismo se livravam dele com um duplo rancor – contra o capataz comunista que fingia pagá-los enquanto fingiam trabalhar e contra os ricaços ocidentais que fingiam abraçá-los enquantro troçavam deles pelas costas.

Foi isso que testemunhei durante seis meses, de março a setembro de 1990, enquanto morei em Berlim Ocidental, como correspondente da Folha. A maior parte do Muro ainda estava lá, nos pedaços que qualquer passante podia descascar com formões e marretas alugados. Mas também nas cabeças, mais duras.

O governo democrata-cristão de Lothar de Maizière, encarregado de apagar a luz da RDA, se esforçava por manter as aparências de dignidade. Não era uma derrocada, mas uma nação que soberanamente se lançava nos braços de um país-irmão, de igual para igual. A seu lado, uma doutora em física e porta-voz não muito loquaz ouvia tudo e aprendia, sem a vocação de De Maizière para o rodapé da história: Angela Merkel.

Dos briefings quase diários de Merkel sobre a negociação do tratado de reunificação seguia para o Centro Internacional de Imprensa. Não havia internet, nem telefones celulares, apenas máquinas de escrever, fax e telex. Sendo esta a ligação mais barata, era opção obrigatória naqueles tempos de Plano Collor.

Funcionárias uniformizadas e monoglotas (quando muito connheciam rudimentos de russo) recebiam o texto em qualquer língua e o transcreviam de graça, com eficiência prussiana, em fitas perfuradas, que depois seria empregadas para transmitir com rapidez a reportagem para o Brasil. Aos poucos, elas foram desaparecendo, engolidas na implosão da burocracia. Ao final, sentava e escrevia os textos diretamente na máquina de telex, em ligação direta com o Brasil.

Tudo ruía lentamente, como o Estado socialista, sob o peso da própria inoperância. O centro de imprensa ficava em Berlin-Mitte, na banda oriental, para onde seguia diariamente de carro saindo de Charlottenburg (bairro de Berlim Ocidental que abriga a famosa avenida Ku’Damm). Nas primeiras semanas, sendo estrangeiro, só podia cruzar a fronteira pelo Checkpoint Charlie, na Friedrichstraße.

Os guardas de fronteira alemães-orientais eram de início minuciosos e rudes, ciosos da reputação de atirar para matar. Verificavam o visto no passaporte e examinavam a parte debaixo do veículo com espelhos. Mandavam invariavelmente abrir o porta-malas do Corolla 1982.

Começaram então, imperceptivelmente, a relaxar. Um esquecia o espelho; noutro dia era o porta-malas. Lá por julho ou agosto o agente de gravata desfeita só acenava com a mão de dentro da cabina, como um guarda de trânsito ordenando que a história se acelerasse.

Não dava para passar mais depressa. O recinto estava cheio de obstáculos, barreiras e meandros. A história, como ensinam os livros de Stephen Jay Gould sobre evolução, se faz com o material disponível.

Sempre dá para mudar, mas não muito, nem necessariamente na direção almejada. Acaso e passado têm um peso enorme. Progresso é uma outra história, na qual foi bom deixar de acreditar.

Escrito por Marcelo Leite

08/11/2009 - 21:45h Poema da buceta cabeluda



A buceta de minha amada
tem pêlos barrocos,
lúdicos, profanos.
É faminta
como o polígono das secas
e cheia de ritmos
como o recôncavo baiano.
A buceta de minha amada
é cabeluda
como um tapete persa.
É um buraco-negro
bem no meio do púbis
do universo.
A buceta de minha amada
é cabeluda,
misteriosa, sonâmbula.
É bela como uma letra grega:
é o alfa-e-ômega dos meus segredos,
é um delta ardente sob os meus dedos
e na minha língua
é lambda.
A buceta de minha amada
é um tesouro
é o Tosão de Ouro
é um tesão.
É cabeluda, e cabe, linda,
em minha mão.
A buceta de minha amada
me aperta dentro, de um tal jeito
que quase me morde;
e só não é mais cabeluda
do que as coisas que ela geme ao meu ouvido
quando a gente fode.

(imagens ©Wondrous Vulva Puppet)

Braulio Tavares (1950, Campina Grande, PB). Escritor, compositor. Publicou, entre outros, A espinha dorsal da memória. Contos (Lisboa/Rio de Janeiro: Caminho/Rocco, 1989/1996); Mundo fantasmo. Contos (Rio de Janeiro/Lisboa: Rocco/Caminho, 1996/1997); Como enlouquecer um homem: as mulheres contra-atacam. Humor (Rio de Janeiro/São Paulo: Editora 34/Círculo do Livro, 1994/1997) e A máquina voadora. Romance (Rio de Janeiro/Lisboa: Rocco/Caminho, 1994/1997). Escreve sobre Cultura, todo dia, no Jornal da Paraíba.

08/11/2009 - 18:22h Os amantes

Otto René Castillo

Se haviam
encontrado faz pouco
e logo
se haviam separado,
levando
cada um consigo
seu nunca ou seu jamais
sua afirmação de esquecimento
sua golpeadora dor.

Porém o último beijo
que voara de suas bocas,
era um planeta azul.
Girando
em torno a sua ausência
e eles
viviam de sua luz
igual que de sua recordação.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Los amantes

Otto René Castillo

Se habían
encontrado hace poco.
Y hace pronto
se habían separado,
llevándose
cada uno consigo
su nunca o su jamás
su afirmación de olvido,
su golpeador dolor.

Pero el último beso
que volara de sus bocas,
era un planeta azul.
Girando
en torno a su ausencia.
Y ellos
vivían de su luz
igual que de su recuerdo.

Poesia Latina

06/11/2009 - 20:03h The língua e demais

©antónio melo

quando me comeste

quando me comeste
de uma forma como nunca em mim fizeste
ouvi no imperativo os verbos mais sagrados
vem  sobe  encaixa  mete  fode
despossuí-me das rédeas que trazia
no máximo fazia
o mínimo necessário
em ti me dissolvia
em ti me misturava
e tu senhora e ama
da cama e do momento
nos volteios que me impunha o teu desejo
deste-me à língua a tua pele
toda ela  toda líquida  toda nua
levaste as minhas mãos à cabeceira
e no transe hipnótico provocado
juro que senti as mãos atadas
pedias — ou mandavas — que eu gritasse
e eu de olhos fechados sussurrava
meu amor
à peça última que inútil te vestia
— um meia-taça já nos ombros derreado —
levaste à minha boca
e tal como crisálida
dele tu saíste
deixando-o em mim como mordaça
me abraça meu amor, disse, me abraça
subias e descias no compasso certo
sabias e dizias os verbos sagrados
vem  sobe  encaixa  mete  fode
e naquela vez  per la prima volta
chorei de gozo
quando me comeste

pêlos

Macia selva que o teu corpo tapeteia.
Fina ramagem onde o toque se aveluda.
Vaivém de vento que penteia e despenteia.
Sensível manta que te cobre e te desnuda.

Pouso de face — a tua face — em minha face,
passando, aos poucos, a carinhos circulares.
Corta o silêncio abafadiço roçar: dá-se
a sinfonia dos murmúrios capilares.

Miro a penugem que recobre a tua orelha,
e os meus ouvidos, feito dedos, passam leves.
Cílio teus cílios, sobrancelho a sobrancelha,
e um humm e um ai e um ai e um humm sussurram breves.

Plumagens raras — tua nuca envolta em rama.
O meu pescoço quer o teu e tu mo encostas.
Tu te declinas à maneira de quem chama.
Nas mãos reversas sei da relva em tuas costas.

O que me é tátil à minha boca ora transfiro,
visto que assim, se sei do toque, sei do gosto.
E mais eu sei se pela boca te respiro,
pois menos sei qual do teu pêlo me é posto.

Pêlos que eu gosto: os que cercam teus mamilos,
onde em percursos labiais circunavego.
Tal o prazer tê-los assim, assim senti-los,
que a minha boca no teu seio às vezes nego.

Pêlos que eu amo: os da barriga, feito seta,
que a boca assanha indo e vindo ao teu umbigo.
Como uma onda, o teu quadril se me projeta,
surfo teu ventre e nos teus pêlos eu prossigo.

Pêlos que eu quero: os teus pêlos inguinais,
onde, bem sei, se me demoro, tu te adias.
Desses eu passo a outros pêlos, capitais,
e em tais arranho a minha barba de dois dias.

shampoo

bastaria o movimento dos quadris
face à minha face
os teus joelhos abertos
tuas mãos em meus cabelos

bastaria sentir o teu sabor mais íntimo
o ir e vir e o vir e ir
da perfeita sincronia desencontrada
dos meus lábios
nos teus lábios

bastaria o postergar do ápice

o ver o transformar do teu sorriso
em outros risos que adoro, amo e quero

mas não

tinhas que vir com teus cabelos ainda úmidos
saídos da banheira a pétalas preparada
e tinhas que fazer dos fios — pura maldade —
o carrossel a girar em todo o rosto meu

: cheiro esse em que ainda permaneço.

missa

Vapor de incenso rente aos góticos das naves.
Uma mulher se abeira ao genuflexório.
Ao latinório o órgão junta os sons mais graves
e em contraponto ela inicia um responsório.

Em meio a preces a cerviz cede e se encurva,
e a fronte deita na rudez da mão constrita.
De vez em quando o seu pescoço se recurva,
mostrando a face lagrimada e mais contrita.

A impressão é de quem traz todo o pecado,
e de quem é a filha amada da desdita.
O choro e a reza em contubérnio consumado:
ao mesmo tempo que é perdão, lembra a vindita…

Mesmo de costas, no retábulo percebo
aquela imagem que em trejeitos se revolve
(um gosto amargo vem no vinho quando eu bebo,
e em minha mão o pão sagrado se dissolve…).

Do Altar-Mor desço os granitos da escada,
num sentimento que de culpa mais parece.
Chego ao transepto e o meu verbo não diz nada,
ela, surpresa, quer falar, mas se emudece.

Cessa do choro, cala a prece e se levanta,
e vindo a mim, ato contínuo, se ajoelha,
(olhos azuis, a pele branca, a tez de santa…)
e a minha mão ousa tocar sua guedelha.

Com o polegar enxugo as lágrimas do rosto,
e um arrepio me tomava e eu tinha medo…
Só pelo tato e pelo olhar senti seu gosto,
ao ver seus lábios à procura do meu dedo…

Me valho à prece enquanto toco a sua boca,
e nela eu faço a marcação da Cruz Sagrada,
quanto mais rezo, mais a fé de mim se apouca
(meu corpo em pé e a minha alma ajoelhada…).

A minha mão decai da boca ao seu pescoço,
quero parar, mas o pecado me prossegue.
Cedo ao instinto e da razão nada mais ouço,
o olhar cerrado, quer abrir, mas não consegue…

Um forte impulso ao seu encontro me impele.
Eu me ajoelho e fico à altura dos seus olhos.
Minha vontade é me queimar na sua pele.
Unto seus ombros derramando os Santos Óleos…

Eu desamarro o seu justilho, incontinente,
e as minhas vestes de ofício eu rasgo ao meio.
O óleo segue a deslizar, suavemente,
nas ogivais lactescentes dos seus seios…

Lembro da hóstia e uma força me sustém.
Não sei de mim, tanto desejo me treslouca…
em seus cabelos os meus dedos se detêm
(sagrado é o trigo que eu ponho em sua boca…).

As suas mãos eu levo à pia batismal,
sem esperar que alguma prece me concentre.
Me dessedento em meu pecado gutural,
bebendo o vinho do Sacrário do seu ventre…

Qual Pentecostes, misturei minh’alma à sua,
eu sussurrando as Ladainhas mais insanas,
e ela em responsos de suor da carne nua,
gemendo em gozo cada “Oh, Glória…” das Hosanas…

©pedro marques pereira

esse verbete de referência

(ou: porque fratura não se expõe impunemente)

não era Donne em versos indo para o leito,
tampouco Caetano ali cantava,
mas Ela, misturando os dois, dizendo:
“quando ele sobre mim e dentro dança lento”,
e eu, que já nem sei se lento ou não nela dançava,
sei que mais dentro (sob ou sobre?) me deixava.

ao lado a lingerie recém-comprada
e ainda não usada (olha a surpresa:
trazia entre os dentes e mais nada,
assim, só pele e poros, nua em pêlo),
ao lado, eu dizia, aquele mimo,
que a mão, à meia-luz, fiz que enxergasse,
lacei sua cintura e obediente
deixou (fez que deixou) que eu comandasse.
as ancas alternando ora espirais,
ora fluxos de um percurso sul e norte
— e ora tudo isso quando em 8.

sim, és linda e única e máxima e sem decência.
és meu verbete de referência,
disse.

e ela, de presente, a linda, fez
seu cabelo, todo ele em desalinho,
por campana em meu rosto:
a vida era ali dentro: cheiro e gosto.
o mundo era lá fora: burburinho.

poemas me acorriam, delirava.
sonetos nascituros declamava:

“amemo-nos do amor que mata e vive,
sem meias concessões, de tudo ou nada.
do amor do mais amado e mais amada,
que nunca, sei, tiveste e nem eu tive”.

mas, não.
ali era o poema em carne viva.
ali qualquer palavra soçobrava.
teus peitos, minha boca, teus cabelos,
meu corpo inteiro entregue, tuas coxas.

amei quando disseste erguendo o queixo:
pu…
(verbete meu e referência minha,
fratura não se expõe impunemente.)
…taquepariu.

então te chamo, abraço e beijo
e em mim tu dormes.

parede

o tempo é o momento. o instante é cada.
seria aquele agora o que viesse.
camisa sem botão no chão jogada
(rasgada a lingerie, sozinha desce).
decerto seguiria a caminhada,
se perto uma parede não houvesse.
desceu-me da cintura e já virada,
pediu que em suas costas me fizesse.
saía-lhe, a voz, rouca, abafada,
dizendo pra fazer o que eu quisesse.
a ordem não restou-me ignorada,
nem outra esperei que me dissesse.
com os pés, uma da outra separada,
um ângulo em suas pernas quis tivesse.
e cada uma das mãos quis espalmada,
e o rosto na parede se pusesse.
num beijo fiz-lhe a nuca devassada
(tingida de um rubor, logo azulece).
mexendo teu quadril, fêmea e suada,
teu peito na parede se intumesce.
e toda as tuas costas quis beijada,
na forma de beijar que me apetece:
pensar — embalde a boca em beijo dada —
que o beijo já de haver beijado esquece.
e a tua voz — se havia — foi calada
: teu uivo na parede se emudece.
banhou-te meu suor — tu já molhada
: de nós toda a parede se umedece.
as ancas quis de mim aproximada,
do jeito que o teu corpo bem conhece.
desci-me e, genuflexo, à mirada,
a língua quis que se sobrepusesse.
e o que se me mostrava resguardada,
aos poucos no lamber mais se elastece.
roçares… vaivéns… língua sugada…
sorvendo e sem que a sede detivesse.
a boca de contrastes consumada:
se o teu suor esfria, o mel aquece.
serias dessa forma vergastada,
se noutra, bem melhor, não conviesse:
subindo, vou sentindo na escalada,
que o gosto que eu trazia remanesce.
sussurro em teu ouvido: tu. mais nada.
sussurras à parede: não se apresse…
(ouvi, mas como fosse não falada,
tal foi a tua voz em quase prece.)
meu corpo colo ao teu — forma acoplada.
e o corpo, inda que dois, um só parece.
meu corpo invade o teu — breve estocada.
e em breves indo-e-vindo permanece.
queria-te de mim toda tomada,
e invadiria mais, se mais coubesse.
gemias de uma fala recortada,
da qual somente o corpo reconhece.
e em pleno evolver da cavalgada,
meu corpo, junto ao teu, treme e estremece.
(…)
se a hora se passou, não foi contada
(se se, talvez em si se desfizesse).
(…)
te volto para mim, quero-a abraçada,
e em canto, tal uma ária compusesse,
sussurro em tua boca: tu. mais nada.
deitemos, amor meu… já se amanhece.

*

entre, fora, sobre, embaixo
nas laterais e no centro
bico do peito no peito
beijo de boca epicentro
garapa tecido leito
coxas e pêlos riacho

cheiro de fêmea e de macho
gangorras no baricentro
ora largo e ora estreito
ora de longe, ora dentro
e o branco no novo efeito
do cobre ruivo do cacho

o teu senhor e capacho
o teu raio e circuncentro
o teu esquerdo e direito
manteiga, queijo e coentro
todo sabor, todo jeito
inteiro, de cima a baixo

©antónio sta.clara

the língua

pelo dedo
primeiro
do teu pé,
em curva
senoidal
de sobe e desce,
tocando
um a um
que se umedece,
falanges,
cinco unhas,
vante e ré,
solado,
metatarso,
calcanhar,
telúrico sabor,
salivo o pêlo
do contorno
de todo o
tornozelo
alternando
entre o
beijo e o
respirar…
lambuzo a
panturrilha
ondulada,
e encosto a
pele áspera
do rosto,
misturo
assim o
meu com o
teu gosto,
de boca e
de pele
já suada…
avanço
no joelho,
alcanço a
coxa,
mordidas
de mentira
em toda
parte,
o beijo a
pintar
obra-de-arte:
às vezes
nuvem
rubra,
às vezes
roxa…
(e as mãos e os
pés dos dois
rasgando a
colcha…)
subindo
pelo “S”
do quadril,
no rastro
salivar
chego ao
umbigo,
(de tão
pesados os
olhos,
só lobrigo…)
te ouço
sussurrar
um “não”
sem til…
na reta que
inicia-se
no ventre,
deslizo à
divisa
dos teus
seios,
no ritmo
pendular,
paro no
meio, e o
terno beijo
alterno
calmamente…
em todo o
teu pescoço
faço um giro,
molhando a
superfície
perfumada,
e após uma
descida
demorada,
eu cravo a
jugular,
feito vampiro…
adentro
umedecendo o
teu ouvido,
volteio,
vou e volto,
saio e entro,
penetro,
molho tudo,
fora e dentro,
(teus olhos,
como os meus,
calam franzidos…)
em torno
dos teus olhos
faço um 8
nariz,
maçã do rosto,
tudo beijo,
de tão extasiado,
não mais vejo,
e suga
minha boca
um beijo afoito…
encontram-se,
duelam-se,
se enroscam…
procuram-se,
encontram-se,
se tocam…
descansam,
brigam,
chupam-se,
se trocam…
de súbito
desço ao
vértice do “V”
que formam
tuas coxas
levantadas
e sorvo
e absorvo
em golfadas
o néctar que
me inunda
de você…

Antoniel Campos (1967, Pau dos Ferros, RN). Poeta, engenheiro civil, vive em Natal. Publicou Crepes e cendais (Ed. do autor, 1998), De cada poro um poema (Editora Sebo Vermelho, 2003) e A esfera (Plena Editora, 2005). Escreve o blogue Poros e Cendais. Mais aqui.

Fonte Germina Literatura

06/11/2009 - 18:29h “entre aspas”

Arte Photographica


Man Ray, Rayography Film strip & sphere, 1922
© Man Ray Trust

O ajudante de farmácia pediu para falar com o senhor doutor, gostaria que o senhor doutor lhe dissesse se tinha, sobre a doença, uma opinião formada, Não creio que se lhe possa chamar, em sentido próprio, uma doença, começou por precisar o médico, e depois, simplificando muito, resumiu o que investigara nos livros antes de ter cegado. Algumas camas adiante, o motorista escutava com atenção, e quando o médico terminou o seu relato, disse de lá, Aposto que o que sucedeu foi terem-se entupido os canais que vão dos olhos até aos miolos, Forte besta, resmungou indignado o ajudante de farmácia, Quem sabe, o médico sorriu sem querer, na verdade os olhos não são mais do que umas lentes, umas objectivas, o cérebro é que realmente vê, tal como na película a imagem aparece (…)

Ensaio sobre a cegueira, José Saramago

06/11/2009 - 17:52h Antonio, de novo

Diz

http://3.bp.blogspot.com/_RCojEL9WAfQ/SteIyufzy4I/AAAAAAAAC8U/YotrfpVyJnE/s1600-R/elianne_foto_sylvie_rosto_normal.JPGBlog Caminhar

O relicário*

Ela deitou na tábua curtida onde o sol se esgueirava naquela manhã, ia deslizando no assoalho ainda frio.
Resta uma nesga de sol, quase uma linha que desenha um eixo,
corta ao meio seu corpo magro. Imagina que ele está sobre ela, inteiro.Tira a camisola. Fica nua.
Lembra da primeira vez que se deitaram.
Ela acabara de virar mulher, ele quase menino. Caminhavam na trilha até o açude. Tropeçou. Ele veio ajudá-la. E ali mesmo fizeram amor. Meses depois não era possível esconder mais a barriga. Casaram.
Antonio trouxe o relicário. A mãe, devota, escolheu o nome durante o difícil
parto.
Quando a jogava na cama, viril, cheio de desejo, antes cobria o Santo:
“Não quero que ele veja nossa sem- vergonhice”.
Cansado da fome, vai em busca de trabalho:”Homem que é homem, traz o
sustento pra dentro de casa, Maria”.
Parece que foi ontem que se despediu do marido encostada na porta, a barriga
grande, o olhar perdido no horizonte.
- “Pede pra nosso filho vingar, Maria”, é cantilena no ouvido dela. O filho
não vingou, mas Antonio não sabe.
Certo dia um homem bate na porta:
-Você é Maria?
-Sou.
-Mulher de Antonio?
-É…
-Ele me falava de você. Pediu que viesse até aqui.
Ela adivinha o que ele tem para dizer. Lágrimas brotam dos seus olhos.
-Pediu para te dizer que arranjou o trabalho e que lá de cima vai cuidar de você e de seu filho.
-Como foi?
-Numa desavença, levou uma facada certeira, só teve tempo de dizer estas últimas palavras.
Ela fica em silêncio, engole o choro e diz:
-Se quiser, entre, lhe dou um copo d’água.
-Obrigado. Meu nome também é Antonio, Antonio da Silva, ao seu dispor.

*Este conto está neste livro.

05/11/2009 - 20:36h Maneiras de ser feliz

A DEUSA

Comeu-o com muito gosto, estalando a língua e gemendo de prazer. Mas não o fez de maneira selvagem. Ao contrário, foi bastante cortês.

Comeu-o aos poucos, com requinte e sabedoria. Dispôs igualmente de todas as partes, sem rejeitar nenhum ossinho, por miúdo que fosse. Aproveitou tudo tudo, inclusive os dedos dos pés.

Sugou primeiro os lábios carnudos, suspirando delicado.

Quando mordiscava o lombo, gemeu alto. Ao chupar a coxa, quase perdeu a compostura.

Perdeu a compostura ao lamber as partes tenras. Sacrificou-o em grande estilo, arrancando-lhe as vísceras sem sombra de culpa ou tardio remorso. Mas o momento de gozo ela viveu ao devorar-lhe a cabeça.

Ele perdeu a pele, as carnes, ficou nu por fora e por dentro. Mas ela não teve dó. Arrebatara seu coração. Enfim.

DUAS MANEIRAS DE SER FELIZ

Esquizofrenizou-se às seis horas da tarde ao som da Ave-Maria, quando uns anjos lhe disseram que largasse tudo e fosse pro convento seduzir a pequena Flor-de-Liz, enquanto outros aconselharam que ela se dirigisse imediatamente ao shopping mais próximo e comprasse lingerie de cor vermelha — aquela com abertura coincidente com as aberturas de nascimento — e subisse lá pros altos da Avenida Afonso Pena que aí sim, ela estaria perto do céu.

Então Marilene deu dois passos pra frente, dois pra trás e ficou paralisada, ouvindo as vozes cada vez mais perto.

Belo Horizonte, 15/08/02

O SALVADOR

Então ele me tocou e eu fiquei curada.

O véu da cegueira se rasgou e eu vi: o tisnado da pele, o veludo dos olhos. A saturação do melado: rapadura batida e rebatida, em calor absoluto. Os lábios exatos — café claro e duas pitadas de chocolate.

Lembro antílopes e tigres e esquilos.

Meu sorriso rompe o gelo, já não dói.

Meus membros vencem a crosta de gesso, já não sou uma estátua.

Abro as vidraças.

Ensaio passos de uma nova dança, ouvindo uma música que nem mesmo sei se existe.

Porque ele me assiste.

Fevereiro, 2003

GOLPE DE NAJA

Eu nem perguntaria o nome dele.

Iria para um canto qualquer, um vão de escada e, na pressa, talvez fizesse em pedaços a camisa azul.

Minhas mãos aflitas procurariam o caminho e abririam o zíper enquanto eu esfregaria minhas tetas no corpo trêmulo e meteria a perna atrevida entre as pernas do homem, revolucionando os quadris.

Era o que eu pensava naquele carnaval, sentada com os outros em torno da imensa távola redonda, enquanto o macho ao lado, um perfeito estranho, corria a mão pela minha coxa e me lambia a cara com sua língua fogosa.

Não quis ver-lhe o rosto, não me virei, nada fiz. Apenas imaginava a cena e seus desdobramentos. O golpe de naja, o salto primitivo.

Então, num sobressalto, acordei.

Fevereiro ou março, 2003

LABORES

Ele, um touro de forte. Ela, mignonne, franzina, uma pluma. Criatura mínima, mas disposta, cheia de calores, um vulcão prestes a expelir salsa-ardente.

E assim foi: ele abre caminho na terra revolta e tenra.

Cavouca fundo, com precisão.

Cavouca calmo, mantendo o ritmo certo.

Vai quebrando resistências em meio aos ais, explora a mina, conquista reentrâncias.

Vai umedecendo o túnel estreito, enquanto o fogaréu pouco a pouco se alastra, do centro para outras glebas.

Eventualmente, ele desbloqueia a saída e respira a paisagem. Com volúpia, saboreia os arredores.

Até plantar a semente em jatos tensos, na justa hora.

O gozo germina e ela nunca mais esquece.

Belo Horizonte, 2003

[Do original "Visões do Paraíso"]

(imagens ©pedro paulo domingues)

Branca Maria de Paula (Aimorés-MG). Escritora, fotógrafa e roteirista. Premiada no 3º Concurso Nacional de Contos Eróticos da Revista Status, em 1978, teve o texto censurado na íntegra. Publicou seu primeiro livro — A Mulher Proibida — em 1980. Depois de várias obras direcionadas ao público infanto-juvenil, em 2005, lança Fundo Infinito — contos eróticos. Participa de diversas antologias. Entre elas, Intimidades (Dez contos eróticos de escritoras portuguesas e brasileiras). Vive em Belo Horizonte, Minas Gerais.

04/11/2009 - 20:25h eróticos & pornográficos

Germina Literatura


O texto é o mesmo
repetição
um beijo pousa
uma saudade decola
o amor sugere
a incerteza se instala
indiferente
o vento passa
o olhar procura
na fresta da roupa
a pele oculta da mulher.

PONTO DE FUGA

Que indagação faz
o umbigo feminino
quando aparece entre
uma peça e outra
da veste?
Intimidade
sensualidade.
Nem mesmo
a musicalidade dos pêlos
é maior que o apelo
da cicatriz do nascimento.

ENCONTRO

O olho caça
na mata
abaixo do umbigo
um abrigo
secreta pátria
a língua avista
bem no centro
do jardim de pêlos
o lugar
caverna
doce e úmida.

*

Na falta de um cigarro,
O beijo toma conta
dos lábios.
Da boca, renasce o desejo.
Na língua, a umidade
lubrifica o amor.
Começo de tarde, curto,
sem gosto de chocolate,
mas molhado
de chuva e volúpia.

*

Quando o rasgo da roupa
deixa florescer
uma essência oculta
sublime é a pele
que se mostra
gentil é a natureza
com a mulher
que passa
livre e solitária
provocando quem a olha.

O MODELO

Uma discreta marca de sol
repousa na pele clara
da mulher sem roupa
parada no atelier
do pintor que trabalha
fareja a beleza
desenha o que a luz
faz ver e sonhar.

Rebelde modelo
possuída pelo calor do sexo
foge e deixa a tela vazia
habitada por fantasmas.

A MULHER

Uma geografia
sempre a ser descoberta
obscura e secreta
como a solidão.

Em silêncio
a intimidade feminina
acende o mistério
que faz lembrar
o aroma dos devaneios
que transporta
o fim da tarde.

Almandrade (Antônio Luiz M. Andrade), artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano e poeta. Participou de várias mostras coletivas, entre elas: XII, XIII e XVI Bienal de São Paulo; “Em Busca da Essência” — mostra especial da XIX Bienal de São Paulo; IV Salão Nacional; Universo do Futebol (MAM/Rio); Feira Nacional (S.Paulo); II Salão Paulista, I Exposição Internacional de Escultura Efêmeras (Fortaleza); I Salão Baiano; II Salão Nacional; Menção honrosa no I Salão Estudantil em 1972. Integrou coletivas de poemas visuais, multimeios e projetos de instalações no Brasil e exterior. Um dos criadores do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia que editou a revista “Semiótica” em 1974. Tem poemas publicados em revistas especializadas. Publicou Poemas (Ed. do autor, 1988), Suor Noturno (Ed. Fator, 1993), Arquitetura de Algodão (Ed. Letras da Bahia, 2000), Textos Sobre Arte (Ed. Museu de Arte Moderna da Bahia, 2000). Mais na Germina, no Expoart e no Prova de Artista.

(imagens ©jerry c.)

03/11/2009 - 19:59h Red is beautiful

Woman in red – Blog Carmensabes

Trisha Lambi

03/11/2009 - 17:35h Poema IV

Isaac Felipe Azofeifa

Tu me deixas aqui ou partes comigo?
Estou dentro de ti ou é que me chamas?
Vives única em mim ou encontro o mundo em ti,
contigo?

A ordem das coisas em que te amo,
onde começa ou acaba?
Agora está o silêncio aposentado
na rosa do ar
e uma árvore perto trina entre os pássaros
para sombrear teu sonho ou é meu sonho?

É esta uma prisão ou acaso o vasto céu
começa aqui onde teus pés
tocam juntos a terra, ou é a lua?

De pronto entro na luz que já habito
e meus olhos se encontram com tua testa.
Busco sair de ti e te levo dentro
de mim, sem encontrar-te.
Sem como, onde ou quando.

Cego na luz com meu olhar aberto
a tanta multidão de ti que ando
extraviado na noite na metade do dia.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)


Poema VI

Issac Felipe Azofeifa

¿Tú me dejas aquí o partes conmigo?
¿Estoy dentro de ti o es que me llamas?
¿Vives única en mí o encuentro el mundo en ti,
contigo?

El orden de las cosas en que te amo,
¿dónde empieza o acaba?
Ahora está el silencio aposentado
en la rosa del aire
y un árbol cerca trina entre los pájaros
para sombrar tu sueño, ¿ o es mi sueño?

¿Es esta una prisión o acaso el vasto cielo
empieza aquí donde tus pies
tocan juntos la tierra, o es la luna?

De pronto entro en la luz que ya habito
y mis ojos se encuentran con tu frente.
Busco salir de ti y te llevo dentro
de mí, sin encontrarte.
Sin cómo, dónde o cuándo

Ciego en la luz con mi mirada abierta
a tanta multitud de ti que ando
extraviado en la noche en la mitad del día.