25/09/2009 - 17:42h O baú do Leminski

Jotabê Medeiros – O Estado SP

http://www.omelhordobairro.com.br/curitiba-centro/userfiles/image/Historia%20de%20Curitiba/Paulo_Leminski%20copy.jpgEm Curitiba, a islandesa Björk cantou seus mantras pop na Pedreira Paulo Leminski. O britpop desgarrado dos Arctic Monkeys também deu as caras por lá. Mas será que a bela plateia imberbe dos grandes shows de pop e rock lembra quem foi o tal Leminski que deu nome à gélida pedreira curitibana?

A próxima semana será uma boa ocasião para desvendar-se o poeta-samurai que também amava o rock, mas não só. Morto há 20 anos, Leminski era ainda tradutor de japonês, inglês, francês, latim, espanhol, judoca faixa-preta, monge iniciante, compositor popular, biógrafo, professor de história e de redação, publicitário, contista e trotskista que sonhou dar o nome de Leon ao filho (o neto ganhou o nome).

A obra múltipla de Paulo Leminski (1944-1989) é o foco da mostra Ocupação Paulo Leminski: Vinte Anos em Outras Esferas, no Itaú Cultural, de 1º de outubro a 8 de novembro – com leitura de poemas por Alice Ruiz, viúva do autor, e o dramaturgo Mário Bortolotto, para convidados, na próxima quarta-feira, dia 30 de setembro. Outras atrações são Moraes Moreira e uma brigada de escritores “em processo, criando poemas ao vivo. Ocupações é uma série do Itaú Cultural que já teve como “hóspedes” o diretor José Celso Martinez Correa e do artista plástico Nelson Leirner.

Leminski, que transou Oriente e Ocidente, zona norte e zona sul, música falada e música cantada, teatro nô e políticas utópicas, ressurge em todas suas facetas, com mil e um aperitivos extras na jornada – poemas inéditos, preciosos manuscritos que revelam a gênese do antirromance Catatau, depoimentos pessoais gravados em vídeo e shows musicais

É uma mostra fundamental para entender o processo de Leminski, que escrevia enquanto vivia, e vivia em alta velocidade – acharam poemas até em maços de cigarro e guardanapos de papel de restaurantes. Fragmentos de uma obra antitotêmica, furiosamente inimiga dos cânones, se transformam em painéis cenográficos, a obra reassumindo uma visualidade nova. Os curadores descobriram também fragmentos manuscritos do mais cultuado livro do artista, que ele escreveu aos 30 anos, O Catatau, uma espécie de Finnegan”s Wake (obra-chave de Joyce) para uma geração.

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Filho de pai polonês e mãe negra, amou a linguagem

Jotabê Medeiros
Paulo Leminski consumiu-se velozmente em sua trajetória, confundindo às vezes sua vida e sua obra. “De colchão em colchão/descubro – minha casa é no chão”, escreveu, num haicai melancólico sobre sua derradeira condição, a de alcoólatra em queda vertiginosa.

Nascido em 24 de agosto de 1944, em Curitiba (PR), filho de pai polonês e mãe negra, foi um erudito com alma de boêmio. Começou cedo: em 1964, teve poemas publicados na revista de poesia concreta Invenção. De 1970 a 1989, trabalhou como publicitário, professor de cursinho, jornalista, tradutor.

Compositor, teve canções gravadas por Caetano Veloso e pela banda A Cor do Som, além de uma dezena de parceiros. Em 1975 publicou o romance experimental Catatau e foi tradutor de obras de James Joyce, John Lennon, Samuel Beckett, Alfred Jarry, além de haicais de Bashô. Colaborou com o jornal Folha de S. Paulo e com a revista Veja.

Leminski passou a vida dedicado à poesia e à escrita. Aprendeu diversas línguas, segundo dizia, para se tornar um poeta cada vez melhor. Morreu no dia 7 de junho de 1989, em sua terra natal. Até hoje, a sua obra influencia jovens poetas e todos os movimentos poéticos dos últimos 20 anos. Seu livro Metaformose ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, em 1995. Em 2001, o poema Sintonia para Pressa e Presságio foi selecionado por Ítalo Moriconi e incluído no livro Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século.

Leminski teve um fim melancólico. Morreu aos 44 anos de cirrose. Cheio de energia e vitalidade no seu auge, era evitado até por antigos amigos no final. “Pariso/ Novayorquiso, Moscoviteio/ Sem sair do bar./ Só não levanto e vou embora/ Porque tem países/ Que eu nem chego a madagascar.” Num bilhete deixado para os posteriores, falou de seu sentimento em relação a esse desapego ao mundo. “Nunca estive muito interessado em envelhecer, eu que sempre amei a juventude.”

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”Twitcais”’e saraus celebram autor

Público de mostra sobre Paulo Leminski no Itaú Cultural será convidado a criar poemas no celular

Jotabê Medeiros

Em julho, o curador da mostra Ocupações Paulo Leminski, o jornalista, poeta e cantor Ademir Assunção, esteve em Curitiba, acompanhado do cenógrafo da exibição, o fotógrafo Miguel Paladino. Foi pesquisar nos “baús” do autor, 18 caixas mantidas no centro da capital paranaense por uma das filhas do artista, Áurea Leminski, com cadernos, folhas soltas, recortes de jornal, livros, fotografias e até carteirinha de clube.

“Se perguntarem a alguém o nome de um escritor curitibano, certamente os mais citados serão Dalton Trevisan e Paulo Leminski. Mas não há na cidade uma única instituição, um único centro cultural destinado à divulgação da obra de Leminski”, admira-se Assunção.

A tarefa de fazer circular o legado leminskiano fica por conta dos esforços da família. A filha Áurea Leminski, de 38 anos, é mãe de Lorena, 5 anos (o poeta tem outro neto, Leon, filho de Estrela, de 28 anos). Ela acha que o pai “aos poucos se torna mais um mito ou um personagem, e não se renova o interesse pela obra dele, o que é fundamental”. Ela tenta organizar e disponibilizar virtualmente o acervo do poeta em Curitiba, mas ainda não encontrou interessados em financiar ou participar de tal projeto. “Eu estou muito preocupada agora com a formatação disso, o jeito como tudo será disponibilizado. Não há ainda um custo, um orçamento”, explicou Áurea.

“É claro que a poesia nunca atingiu a grande massa. A fama do meu pai se deu muito mais por meio da música, da inclusão de uma canção numa novela da Globo. O interesse, no entanto, persiste, tem muito estudante que procura a gente para obter informações. Não seria correto dizer que ele está esquecido.”

Cantora, baterista e compositora, Estrela Ruiz Leminski vai cantar na quarta-feira, na abertura da exposição no Itaú Cultural – ela integra as bandas Dona Zica, Casca de Nós e Trash pour 4. Os shows musicais terão as participações especiais de Moraes Moreira e Vitor Ramil. Durante a “ocupação”, escritores como Elson Fróes, Nelson de Oliveira, Marcelino Freire, Ricardo Aleixo, Maria Esther Maciel, Frederico Barbosa, Paulo Scott, Izabela Leal, entre outros, vão interagir com o público criando em tempo real uma série de “twitcais” (haicais em forma de mensagem do twitter), e o público será convidado a fazer o mesmo.

Leminski teria 65 anos. Experimentar era seu credo. “A velocidade da lógica ultrapassa o limite da linguagem, atrás da linguagem, na frente de quê? Tem tudo que ser igual ao eco… só falta equar! Posso ser útil se me vendo claro mas entendo e entendendo me fazendo de meu entendedor de meias colcheias e colmeias cheias. Quem dá o que falar, não dá para fazer o mesmo?”, diz trecho do seu livro Catatau.

A poeta Alice Ruiz (que foi casada com o escritor durante 20 anos, deu-lhe três filhos e foi parceira em boa parte da sua obra) divertiu-se ao imaginar como seria se o poeta fosse confrontando com as novas mídias sociais e tecnologia. Ela e Leminski chegaram a trabalhar com o artista visual Julio Plaza, mas considera o experimento apenas um trabalho “à parte” na obra de Plaza, e não uma experiência particular sua.

“É muito difícil pensar nisso (Leminski no Twitter). Ele nem chegou perto do computador, fazia em máquina de escrever. O Paulo era louco pela palavra, por escrever. Mas, ao mesmo tempo que era de vanguarda, cultivava grande apreço pelos velhos sistemas. Não sei se faria poemas na internet, não sei responder a essa questão, mas desconfio que não. Acho que ele preferiria criar do jeito tradicional e passar para alguém processá-los.”

A “pilhagem” que os curadores fizeram nas caixas de Leminski, minuciosa e respeitosa, revelou preciosidades que deixaram até os pesquisadores boquiabertos. “Em uma dessas pastas encontrei um caderno espiral, daqueles de estudante, com nada menos que os manuscritos do Catatau. Quando abri esse caderno e vi a letra de Paulo Leminski e comecei a ler e saquei a gênese desse que é um dos livros mais geniais da literatura brasileira, fiquei emocionado pra caramba. Mais de 30 anos depois, eu tinha a oportunidade de ler a gênese do Catatau!”, admira-se Assunção.

“Mas não tinha nada perdido lá. Tava tudo muito bem guardadinho”, ressalta Alice Ruiz, responsável pelo armazenamento dos documentos após a morte do artista. Nada do que foi garimpado será publicado, o seu uso será apenas visual, para dar uma ideia do processo de criação do autor. Alice pensa da seguinte forma: se Leminski não publicou, é porque tinha plena certeza de que não queria aquilo publicado.

Ter acesso aos inéditos garimpados, de qualquer forma, é um saboroso exercício: “feliz/ macaco do passeio público/ nas tardes de domingo/ os guris / jogam pipocas/ a mão dos pais/ pinga esmolas/ na pata dos mendigos.”

“Leminski é a síntese de um poeta e intelectual que sofreu o impacto das rebeliões, de linguagem e comportamentais, da contracultura, do rock”n”roll, da Segunda Guerra Mundial, da comunicação de massas, de um lado, mas também com uma forte erudição, o domínio de várias línguas, o conhecimento profundo do zen-budismo, a prática de artes marciais. Na minha visão, ele não é somente o resultado disso tudo, mas a síntese e ao mesmo tempo a atuação crítica no cenário contemporâneo”, diz Ademir Assunção.


Obras Fundamentais

POESIA

Polonaises. Ed. do Autor, 1980

Não Fosse Isso e Era Menos/ Não Fosse Tanto e Era Quase. Zap, 1980

Tripas. Ed. do Autor, 1980

Caprichos e Relaxos. Brasiliense, 1983

Hai Tropikais. Fundo Cultural de Ouro Preto, 1985

Um Milhão de Coisas. São Paulo, Brasiliense, 1985

Caprichos e Relaxos. São Paulo, Círculo do Livro, 1987

Distraídos Venceremos. São Paulo, Brasiliense, 1987

La Vie en Close. Brasiliense, 1991 (reimpresso em 1999)

Winterverno. Fundação Cultural de Curitiba, Curitiba, 1994. (2.ª edição Editora Iluminuras, 2001)

O Ex-Estranho. Iluminuras, São Paulo, 1996

PROSA

Catatau. Curitiba, Ed. do Autor, 1975

Agora É Que São Elas. São Paulo, Brasiliense, 1984

Gozo Fabuloso. São Paulo, Editora DBA, 2004

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25/12/2008 - 20:30h Morre Prêmio Nobel de Literatura Harold Pinter

O Prêmio Nobel de Literatura britânico Harold Pinter morreu aos 78 anos, no Reino Unido, nesta quarta-feira (24)

Carl de Souza/AP
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O dramaturgo Harold Pinter, Nobel de Literatura de 2005, morreu aos 78 anos

Harold Pinter morreu de câncer aos 78 anos.

Pinter sofria de câncer no fígado há vários anos. “Era um grande homem e foi um privilégio viver com ele durante 33 anos”, disse sua mulher, Lady Antonia Fraser, ao jornal “The Guardian”.

Laureado com o Nobel em 2005, o prêmio recompensou um autor que, “em suas obras revela o precipício que se esconde sob a conversa fiada diária e força sua entrada no âmbito fechado da opressão”, afirmou o júri da Academia Sueca na ocasião.

“Nascido em 1930 em Londres, Pinter geralmente é considerado o maior expoente do teatro dramático inglês da segunda metade do século 20″, acrescentou a Academia.

Aos nove anos, foi retirado de Londres durante a Segunda Guerra Mundial e só retornou à cidade três anos mais tarde. A experiência dos bombardeios permaneceu indelével em sua memória, como admitiu muitas vezes.

Em 1957 estreou como dramaturgo com “The Room”. Uma de suas primeiras obras “The Birthday Party” (’A festa de aniversário’, 1957), inicialmente um fracasso, com o passar dos anos se tornou uma de suas peças mais encenadas.

Sua posição enquanto clássico moderno está ilustrada pela criação, a partir de seu nome, de um adjetivo que descreve uma forma de atmosfera e de um entorno particular nas peças de teatro: ‘pinteresque’.

Segundo o comunicado da Academia Sueca há três anos, “no cenário típico de Pinter estão seres que se defendem contra intrusões forâneas ou contra os próprios impulsos, entrincheirando-se em uma existência reduzida e controlada”.

“Outro tema principal é o caráter fugitivo e inalcançável do passado”, prosseguia a nota de anúncio do vencedor da Academia.

Desde 1973, Pinter também era conhecido como um fervoroso defensor dos direitos humanos.

Além disso, também escreveu novelas radiofônicas e roteiros para cinema e televisão. Entre seus trabalhos mais conhecidos nesta área estão ‘The Tailor of Panama’ (’O alfaite do Panamá’, 2001),’ The Handmaid’s Tale’ (1990), ‘Accident’ (1967), ‘The French Lieutenant’s Woman’ (’A mulher do tenente francês’,1981) ou ‘Breaking the Code’ (1996). (Fonte France Presse e Folha Online)

Harold Pinter abraçou causas e foi contra invasão do Iraque

PEDRO ALONSO da Efe, em Londres – Folha Online

O célebre dramaturgo britânico e eterno rebelde Harold Pinter, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2005, morreu em Londres aos 78 anos após uma longa batalha contra o câncer.

A voz de Pinter, um dos escritores do Reino Unido mais influentes da segunda metade do século 20, se apagou para sempre nesta quarta-feira, segundo informou hoje sua segunda mulher, a também escritora Antonia Fraser.

Max Nash/AP
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Dramaturgo inglês Harold Pinter, ganhador do Nobel, morreu nesta quarta-feira

“Ele foi grande”, disse ela em uma breve declaração, na qual ressaltou que foi “um privilégio viver com ele durante 33 anos” e que Pinter “nunca será esquecido”.

A doença já impediu o dramaturgo este mês de ir a sua posse como doutor honoris causa na Central School of Speech and Drama de Londres.

O escritor ganhou vários prêmios, como a Legião de Honra da França, mas destacou-se acima de tudo pela conquista do Prêmio Nobel de Literatura em 2005.

Iraque

“Estou muito comovido. É algo que não esperava”, comentou um Pinter já com a saúde frágil na porta de sua casa em Londres, após saber de sua conquista do Nobel.

Por recomendação médica, Pinter não pôde assistir à cerimônia de entrega do prestigioso prêmio em Estocolmo, mas gravou seu discurso de aceitação, no qual, como vinha fazendo nos últimos anos, dedicou suas críticas políticas mais ácidas à Guerra do Iraque, na qual o Reino Unido foi fiel seguidor dos Estados Unidos.

“A invasão do Iraque foi um ato de bandidos, um ato de flagrante terrorismo de Estado que demonstrou um desprezo absoluto do conceito de normativa internacional”, afirmou Pinter, visivelmente débil e utilizando uma cadeira de rodas.

Sem papas na língua e mais rebelde do que nunca, o dramaturgo aproveitou o Nobel para pedir o processo do presidente dos EUA, George W. Bush, e do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair por crimes de guerra.

Durante sua vida, o autor, que se sentia obrigado a assumir uma posição política como “cidadão do mundo”, abraçou outras causas como o desarmamento nuclear, a defesa de Cuba frente ao embargo americano e a rejeição ao bombardeio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Sérvia em 1999.

Vida de prazer

Filho de um alfaiate judeu imigrante da Europa Oriental, Pinter nasceu em 10 de outubro de 1930 em Hackney, bairro popular do leste de Londres.

O gênio teatral teve um filho, Daniel, fruto de seu casamento com a atriz Vivien Merchant, de quem se divorciou em 1980 para casar-se com Antonia Fraser.

Pouco amigo dos eruditos tendentes ao excesso interpretativo de suas obras, Pinter dizia que sua vida literária era “uma vida de prazer, desafio e entusiasmo”.

Figura única

Após o anúncio da morte do artista, que descrevia a si próprio como “dramaturgo, diretor, ator, poeta e ativista político”, o mundo da cultura britânica chorou sua perda e exaltou seus talentos e méritos profissionais.

“Foi uma figura única no teatro britânico. Dominou a cena teatral desde os anos 50″, afirmou Alan Yentob, diretor da “BBC”.

Na opinião de Tim Walker, crítico do jornal “Sunday Telegraph”, Pinter “forneceu realismo” às artes cênicas mediante obras “com prolongados silêncios, nos quais os personagens nem sempre iam a algum lugar, como na própria vida real”.

Por sua vez, o amigo e autor de uma biografia sobre Pinter, Michael Billington, declarou-se “devastado” pela morte do dramaturgo, a quem descreveu como um “lutador” no terreno artístico e político.

Após publicar em 1957 sua primeira obra, “O Quarto”, Pinter iniciou uma carreira na qual escreveu 29 peças teatrais, mais de 20 roteiros para cinema (entre eles para o diretor americano Joseph Losey), uma infinidade de trabalhos radiofônicos e televisivos, poesia, ensaios, um romance e curtos relatos de ficção.

Entre títulos inesquecíveis de Pinter, pertencente à geração dos Jovens Irados britânicos, destacam-se peças teatrais como “The Birthday Party”, “The Caretaker” e “Old Times”.

Seu estilo peculiar, cheio de silêncios em dramas marcados por uma linguagem ambígua e, às vezes, cômica, mas que gera um ambiente de ameaça e alienação, se cunhou como “pinteresco”, adjetivo admitido pelo dicionário de inglês da Universidade de Oxford.

08/05/2008 - 12:56h Escritor diz que Israel é ‘anormal e sem limites’

Guila Flint

De Tel Aviv para a BBC Brasil

Comemorações dos 60 anos de Israel

Escritor diz que país, que celebra 60 anos, está em conflito permanente

O escritor israelense Sefi Rachlevsky defende em seu livro No Limit (Sem Limites) a idéia de que o Estado de Israel e sua sociedade têm um caráter “anormal”, em comparação com outros países.

“O que aconteceu aqui é uma verdadeira tragédia. A maioria dos imigrantes que vieram para cá, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto, queria viver em um país tranqüilo, normal e secular”, disse Rachlevsky, em entrevista à BBC Brasil.

Mas, para o escritor, Israel, que completa 60 anos de existência nesta quinta-feira, está em conflito permanente com seus vizinhos e não é tranqüilo, normal ou secular. Rachlevsky diz que Israel é um país “sem limites”.

“Uma das questões básicas que demonstram a falta de limites é a interferência da religião nas questões do Estado, em muitos aspectos Israel é uma teocracia.”

“Imagine que Israel é o único país do mundo onde um judeu não pode se casar com uma pessoa não judia, aqui não temos casamento civil, só religioso”, afirma. “Não temos uma Constituição que possa traçar os limites entre o Estado e a religião.”

“Problemas de personalidade”

Rachlevsky usa instrumentos da psicologia para analisar o impacto da ausência de limites sobre a sociedade israelense.

“Uma criança criada sem limites terá problemas sérios no desenvolvimento de sua personalidade”, diz. “São os limites que possibilitam o desenvolvimento de uma personalidade saudável e a capacidade de raciocínio e até de memória.”

“Sem limites se cria uma situação cognitiva difusa e dificuldades de desenvolver um pensamento conceitual, uma diferenciação entre a vontade e a realidade, uma lógica organizadora.”

Para Rachlevsky a ausência de limites é a chave para entender Israel, tanto sob o aspecto do conflito com o mundo árabe como fenômenos internos observados na sociedade israelense.

Sefi Rachlevsky nasceu em 1966, um ano antes da Guerra de 1967, quando Israel ocupou os territórios palestinos da Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental, as colinas do Golã da Síria e o deserto do Sinai, do Egito.

Embora não tenha lembranças diretas dos primeiros 19 anos de Israel, antes da ocupação de 67, o escritor expressa uma certa nostalgia por aquele período.

“Aquela foi a primavera de Israel”, lembra. “Naquela época a sociedade israelense estava começando a consolidar uma certa normalidade, mas a ocupação destruiu esse processo, desde então não temos mais limites.”

De acordo com a análise do escritor, a falta de limites cria a violência, que se volta tanto para fora como para dentro da própria sociedade israelense.

“Nos primeiros anos do Estado havia uma solidariedade interna, as pessoas podiam deixar as portas de suas casas abertas, se alguém caísse na rua muitos corriam para socorrê-lo.”

Jimmy Carter

Rachlevsky também menciona uma ausência de limites morais e de parâmetros de conduta. “Veja como o governo de Israel tratou o ex-presidente americano Jimmy Carter, em sua última visita (em abril).”

“Nenhum país do mundo trataria Carter com tanta grosseria. Olmert se recusou a encontrá-lo e até os serviços de segurança se negaram a colaborar com os agentes americanos que o acompanhavam.”

O governo israelense criticou o livro que Carter escreveu, no qual acusou Israel de conduzir um regime de apartheid em relação aos palestinos.

Outro tema que despertou a indignação de Israel foram os encontros de Carter com líderes do Hamas, e o resultado foi o boicote do ex-presidente americano durante sua visita ao país.

Mas para Rachlevsky “isso não se faz”. “Não é só uma Constituição que falta em Israel, faltam normas de conduta, uma noção do que se faz e do que não se faz.”

“Carter intermediou o acordo de paz entre Israel e o Egito (em 1979), o maior país árabe, e Israel deveria agradecer e tratá-lo com a gentileza que ele merece, embora não concorde com suas posições atuais.”

Rachlevsky considera a colonização israelense nos territórios ocupados um dos efeitos mais significativos do caráter “sem limites” de Israel.

“Como pode um Estado enviar seus cidadãos para morar fora de suas fronteiras e depois lutar contra o próprio Estado e minar o próprio conceito de Estado?”, pergunta.

O escritor manifesta preocupação com a própria capacidade de Israel de continuar existindo e afirma que a ausência de limites pode destruir Israel “tanto por fora como por dentro”.

“Se Israel quer sobreviver vai ter que começar tudo de novo, realizar uma mudança enorme, como começar do zero. Terá que estabelecer fronteiras físicas e políticas, princípios básicos de conduta para a sociedade e seus líderes, uma Constituição e construir um sistema de valores.”

17/04/2008 - 20:15h Aimé Césaire, militante, poeta, escritor, prefeito, nacionalista martinicano e negro

“Aimé Césaire est un Noir qui est non seulement un Noir; mais tout l’homme, qui en exprime toutes les interrogations, toutes les angoisses, tous les espoirs et toutes les extases, et qui s’imposera de plus en plus à moi comme le prototype de la dignité”

André Breton

Ecoutez le monde blanc
horriblement las de son effort immense
ses articulations rebelles craquer sous les étoiles dures
ses raideurs d’acier bleu transperçant la chair mystique
écoute ses victoires proditoires trompeter ses défaites
écoute aux alibis grandioses son piètre trébuchement
Pitié pour nos vainqueurs omniscients et naïfs !

Aimé Césaire (1913 )