09/08/2012 - 17:00h Estopim

Estopim é um romance de Carla Dias, e trata sobre como a vida pode mudar a partir de escolhas simples, até mesmo rotineiras. É um vislumbre sobre a transformação de quem se desiludiu profundamente com o mundo e consigo mesmo, e muito cedo, escolhendo a solidão como companhia, e então despertou novamente para a vida por conta de escolhas alheias, porém não da maneira mais agradável, e sim buscando o por detrás das máscaras, a crueza do sentimento e a verdade das ações.

As histórias paralelas a de Olavo, personagem central da trama, abordam o abandono em diversas nuances.

Olavo e Alexandre eram mais que irmãos, também eram amigos, cúmplices, inseparáveis, faziam grandes planos para quando fossem adultos. Olavo seria historiador e Alexandre astrônomo. Quando a mãe deles, uma professora de Biologia, descobre que tem pouco tempo de vida, ela decide trazer à tona um segredo que jamais pensou que teria de revelar. Dois anos mais velho que Olavo, Alexandre era filho de um matemático espanhol que sua mãe conheceu quando ele esteve na escola onde ela dava aulas. Apesar das regulares visitas do espanhol, principalmente depois do divórcio dela, nem mesmo ele sabia da verdade. Em busca de quem cuidasse dos seus filhos, quando não estivesse mais presente, ela revela o segredo e pede ao espanhol que cuide deles. O matemático se apaixona de imediato por Alexandre, pela paternidade, mas se recusa a levar Olavo com ele para Madri.

Para Olavo, separar-se do irmão foi um golpe, e lhe rendeu um desamparo sem fim, abonado pela dor de ver sua mãe definhando, a cada dia. Durante meses, os irmãos mantiveram contato, através de cartas, mas isso logo se tornou raro. No dia do enterro da mãe, Olavo recebeu de Alexandre um telegrama, lamentando a perda. Depois disso, eles se distanciaram ainda mais.

Uma prima de sua mãe cuidou de Olavo, até que ele chegou à maioridade e foi se virar sozinho. Durante os anos sob a batuta dessa mulher, ele compreendeu que não havia uma única pessoa em sua vida que tivesse tanta importância quanto as que ele perdera.

Aos poucos, Olavo se tornou um homem distante, sem ambição. Seguiu o plano da infância e se formou em História, mas o diploma ficou na gaveta. Acostumado aos empregos temporários, sem o desejo de ser profissional de carreira, durante os anos que se seguiram ele apenas aconteceu com a vida, sem qualquer esforço para vivenciar as experiências que ela oferecia.

O que Olavo não esperava era que sua vida se transformasse completamente com uma série de acontecimentos que chegaram praticamente juntos. O irmão vem de Madri, astrônomo famoso, e mesmo diante das declarações nada gentis de Olavo, através das quais deixava claro a visita ser completamente desnecessária, Alexandre faz questão de reencontrá-lo. Pressionado pela diretora da empresa onde trabalha como operador de telemarketing, ele tenta angariar o máximo de clientes, até que conhece Julia, uma mulher que, nos quase dez anos que se seguem, e sem nunca se encontrarem pessoalmente, apenas se falarem por telefone, torna-se sua conselheira, sua consciência, assim como lhe abre as portas para o imaginário, porque ao se dizer acrobata, Julia passa a viver nos pensamentos de Olavo também como tudo de belo e leve.

No mesmo momento da chegada do irmão e de conhecer Julia, Olavo se envolve com Gilda, atendente de locadora de filmes, com quem tem um breve romance. Gilda tem os seus mistérios e suas histórias, como a do professor de filosofia da faculdade por quem se apaixonou. Ele era um falsário, vivendo um papel que não lhe cabia, sedutor no dizer ideologia, então conquistava a todos facilmente. Porém, olhando além do fascínio proporcionado pela paixão, ela enxergou a verdade sobre ele. Tratava-se de um manipulador, um psicopata que provocou a morte de um dos estudantes que o contradisse. Ela foge dele, mas o reencontra mais tarde, quando está com Olavo. Sem dar muitos detalhes, Gilda conta a Olavo que, depois de deixar a faculdade, antes que descobrissem que o professor jamais fora sequer formado, ele se mudou para outro estado, e já desprovido da elegância do filósofo, tornou-se o mais competente traficante internacional de bebês, fazendo fortuna e comprando prestígio.

Assustada com esse encontro, crente de que será punida pelo ex-amante, Gilda se afasta de Olavo, sumindo completamente. É esse sumiço, a sensação sufocante de não tê-la ajudado, que fará com que Olavo não apenas mude o rumo da sua biografia, mas também se dedique intensamente a procurar por Gilda, enquanto alimenta a fantasia de que ela seria mulher de sua vida.

Os anos que Olavo gasta imaginando o que poderia ter acontecido a Gilda, também são anos em que ele se aproxima dos assuntos aos quais jamais dera importância antes, pois não eram seus. É o período, longo e repleto de inseguranças, em que ele aprende a importância daqueles que permanecem o seu lado.

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Premiação

O livro Estopim foi premiado pelo ProAc – Programa de Ação Cultural, da Secretaria de Estado da Cultura.


Carla Dias, autora do livro, já publicou outros dois romances contando com a premiação do ProAc:


Os estranhos: http://osestranhoslivro.blogspot.com
Jardim de Agnes: http://jardimdeagnes.blogspot.com

08/05/2012 - 18:33h Canção em trezenas

Letícia Palmeira – Escritoras Suicidas

Dispa-me no escuro. Em disparate do absurdo. Sangra em minha boca de amor e fé. No escuro nada vejo, mas sinto em lampejos o que posso alcançar. Mapeio em linhas transversais seu corpo que me quer. Corpo do homem cuja fera é tão cega que a ausência de luz não faz corar. E eu me alegro tenra de temor por não ver e por querer tão completamente sem razão sua mão sobre a minha em toda escuridão. Roubaram-me a visão e o dia é escuro e é triste e quase negro de pavor. Eu amo tanto e choro em pranto e tateio em busca da criatura que me rodeia e me faz abrir a vida em flor. Que será dor? Que será cura? Que será luz para a mulher que enfim enxerga o nocivo efeito de um homem sem amor?

Letícia Palmeira é graduada em Letras com Licenciatura em Língua Inglesa e suas Literaturas pela Universidade Federal da Paraíba. Nasceu na cidade de São Paulo, onde passou boa parte de sua infância e agora reside em João Pessoa, cidade em que leciona Língua Inglesa na rede privada de ensino. Cronista e contista, trabalha com prosa poética. Escreve os blogues Afeto Literário e Lírica Subversiva. Publicou Artesã de Ilusórios (EDUFPB – 2009).

09/04/2012 - 18:28h Que deslize

Ana Cristina Cesar

Onde seus olhos estão
as lupas desistem.
O túnel corre, interminável
pouco negro sem quebra
de estações.
Os passageiros nada adivinham.
Deixam correr
Não ficam negros
Deslizam na borracha
carinho discreto
pelo cansaço
que apenas se recosta
contra a transparente
escuridão.

A teus pés, Editora Brasiliense, 1997 – São Paulo, Brasil.

03/04/2012 - 18:36h Sete luas

Natália Correia

Há noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas

Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.

Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.

Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.

02/04/2012 - 18:49h Nublando

Tereza Cristina Fraga

Acordei!
A casa estava quente como o meu corpo.
No silêncio do quarto a percepção
De que o amanhã havia acabado de despertar.
Entre olhos sonolentos,
O corpo arrepiado,
Transformou a superfície lisa em leves ondas.
Todos os músculos foram esticados.
Cada fibra estendida ao extremo.
A boca abriu-se…
Na frente o espelho revelava a silhueta,
Que dengosa percebeu suas formas delicadas
Nas curvas acentuadas. Sorri…
O tempo nublado percorreu e penetrou no aposento.
Intrometido!
Transformou a quietude com o suave zumbir dos ventos.
Trocou a cor pálida das paredes.
Deu vontade de cobrir, ficar encolhida, quieta.
Era hora da partida que não pode deixar
para amanhã o adeus de todos os dias.
Deixei que os minutos passassem,
não fiz questão de segurá-los.
Que o tempo nublado chegasse,
penetrasse todos os meus poros.
Que as horas permitissem aos minutos serem donos do tempo.
No peito arfante os dois elementos se
misturaram, nublando
Meus pensamentos.
Fizeram do corpo moradia.

21/03/2012 - 17:00h Febre 40°

Sylvia Plath

Tradução de Rodrigo G. Lopes e Maurício A. Mendonça

Pura? Como assim?
As línguas do inferno
São sujas, sujas como as três

Línguas do sujo e gordo Cérbero
Que arfa ao portão. Incapaz
De lamber e limpar

O membro em febre, o pecado, o pecado.
A chama chora.
O cheiro inconfundível

De um toco de vela!
Amor, amor, a fumaça escapa de mim
Como a echárpe de Isadora, e temo

Que uma das pontas ancore-se na roda.
Uma fumaça amarela e lenta assim
faz de si seu elemento. Não vai subir,

Mas envolver o globo
Sufocando o velho e o oprimido,
O frágil

Bebê em seu berço,
Orquídea pálida
Suspensa em seu jardim suspenso no ar,

Leopardo diabólico!
A radiação o embarque
E o mata em uma hora.

Engordurando os corpos dos adúlteros
Como as cinzas de Hiroshima que os devora.
O pecado. O pecado.

Meu bem, passei a noite
Me virando, indo e vindo, indo e vindo,
Os lençóis me oprimindo como o beijo de um devasso.

Três dias. Três noites.
Limonada, canja
Aguarda, água me deixe enjoada.

Sou pura demais pra você ou pra qualquer um.
Seu corpo
Me ofende como o mundo ofende Deus. Sou uma lanterna -

Minha cabeça uma lua
De papel japonês, minha pele folheada a ouro
Infinitamente delicada e infinitamente cara.

Meu calor não te assusta. Nem minha luz.
Sou uma camélia imensa
Que oscila e jorra e brilha, gozo a gozo.

Acho que estou chegando,
Acho que posso levantar -
Contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu

Sou uma virgem pura
De acetileno
Cercada de rosas,

De beijos, de querubins,
Ou do que sejam essas coisas róseas.
Não você, nem ele,

Não ele, nem ele
(Eu me dissolvo toda, anágua de puta velha) -
Ao Paraíso.

20/03/2012 - 18:24h Não, hoje não saio…

Maria Teresa M. Carrilho

Não, hoje não saio
eu quero ficar
no espaço
dum cantinho
que é só meu

Não, hoje não falo
eu quero escutar
as palavras floridas
dum canto
que me entonteceu

Não, hoje não vou respirar
eu quero confundir
a minha vertigem
com a tua vertigem
e ser só um todo
ou um nada
num mundo que emudeceu…

O Esplendor das Madrugadas, 1998 – Lisboa, Portugal

18/03/2012 - 21:00h Tri de Martha Medeiros

Martha Medeiros

Minha boca…

minha boca
é pouca
pro desejo
que anda à solta

Foi um beijo…

foi um beijo onde não importava a boca
só tuas mãos quentes me apertando pelas costas
nada estava acontecendo na minha frente
e a ansiedade que havia não era pouca
teus dedos perguntavam pra minha blusa
se meu corpo acolheria um delinqüente
descoladas as línguas um instante
minha resposta saiu um tanto rouca

Ele prefere as nórdicas

ele prefere as nórdicas
as ricas, as putas
as filhas das tias
letradas, peitudas
alunas da puc
solteiras, taradas
mulheres pudicas
peludas, escravas
as boas de cama
mulatas, mineiras
as freiras da itália
escocesas, peladas
as bem mal-amadas
aquelas que dizem te amo
e mais nada

06/03/2012 - 18:26h Faz-de-conta

Fátima Carvalho

Vamos brincar de casinha
e de doutor e enfermeira
depois de Tarzan e Janeiro
pra trepar na bananeira

Agora em vez de chapeuzinho
eu serei a vovozinha
e você o lobo-mau
pra me comer inteirinha

Entramos no paraíso
eu de Eva e você de Adão
você, comendo a maçã
e eu com o pau na mão…

Pra matar a serpente
que quer engolir a gente.

Cumplicidade, Edição do autor, 1985 – São Paulo, Brasil.

14/02/2012 - 17:00h Habitar teu nome

Marize Castro

ouço callas e me acalmo
arremesso frutos aos países
de assombrados homens

quase íntima dos vulcões, aprendi:
o magma que escorre
em mim
ainda procura
por
si

do livro Habitar teu nome, editora Una de João Pessoa (PB)

06/02/2012 - 17:00h Ausente

Helga Holtz

Ele dorme ausente dos meus olhos abertos,
guarda para si paisagens que desejo sonhar.
Sob pálpebras alvas de tecido sonolento
percebo o claro volume genital do seu olhar.
Desejo amparo de algum sono, quero fugir
do olho molhado, vermelho, recém-acordado,
intumescido de sono e que me espia chorar.

05/02/2012 - 17:00h Un poco de poesía no le hace mal a nadie

Domingo, 05 de febrero de 2012

Rocío Silva Santisteban – La República

Hay gente que no lee poesía nunca: le revienta, le parece cursi, no la entiende. Son el producto de la mala formación que la escuela peruana –y latinoamericana en general– logra producir tras un proceso horroroso de solemnidad, aderezado con rigurosas dosis de estupidez y amasado en el transcurso de once años sostenidos. Entonces la poesía tiene que ser “trascendente”, “sublime”, “proteica” y todos esos adjetivos que provocan sarcasmo. Hasta que algunos espíritus rebeldes y persistentes descubren en sus adolescencias a algún poeta que los saca de cuadro, Rimbaud, Bukowski, Pavese o Luchito Hernández, y regresan a vislumbrar esa fuerza perturbadora de lo simbólico, escondida detrás de estos signos sobre un papel o pantalla en blanco. La verdad que la poesía es solo un juego con el lenguaje que de muy pequeños nos encanta porque lo vamos descubriendo y poco a poco le vamos perdiendo el interés, a menos que la sigamos cultivando despacio, tranquilamente, evitando la mala hierba, para recuperar la sorpresa ante esas extrañas y perfectas epifanías.

Wislawa Szymborska, la gran poeta polaca y Premio Nobel de Literatura 1996, es una de aquellas personas que tras su aparente bonhomía permiten a cualquier mortal volver sobre la fe en las palabras. Su obra es parca, como su estilo, y sin embargo a través de un riguroso trabajo de constancia y de penetración en las sensibilidades contemporáneas ha forjado una manera diferente de contemplar el mundo y escribirlo. Aquí uno que titula simplemente Agradecimiento: “Debo mucho/ a quienes no amo.// El alivio con que acepto/ que son más queridos por otro. // La alegría de no ser yo/ el lobo de sus ovejas. //Estoy en paz con ellos/ y en libertad con ellos,/y eso el amor ni puede darlo/ ni sabe tomarlo”. Genial.

Szymborska, “¡cómo se pronunciará correctamente!, pero como lo decimos en castellano se percibe tremendamente sonoro”, ha sido un espíritu juguetón y especial. Aprendió castellano para leer a Cervantes “con diccionario” y porque le parecía que el español sonaba “a un latín bellamente estropeado”. Durante sus ratos libres solía realizar pequeños collages de figuras extraídas de revistas de 1920. Por expresa decisión de ella, sus libros de poemas con collages nunca han sido traducidos del polaco. Nunca se movió de Cracovia. Cuando la invitaban a diversos lugares, sobre todo después del Nobel, ella siempre contestaba: “iré cuando sea más joven”. Leyendo sus poemas uno puede deducir que detestaba los círculos literarios, la gente que respira en poesía todo el día, y prefería recluirse en su departamentito de edificios grises y burocráticos de su ciudad para simplemente atisbar la vida: sus poemas nos hablan de los amores-no amores, de las cartas de la hermana, de una bomba puesta en un bar, de los edificios cayendo en Nueva York en setiembre del 2001 o de los desayunos de los obreros del movimiento Solidarinosc. La simpleza de cada una de esas palabras es, en realidad, años de años cincelándolas, controlándolas, domándolas, en uno de los idiomas más complicados de la tierra.

El miércoles 1º de febrero Szymborska murió en Cracovia, acompañada de sus amigos más cercanos, y al parecer de la misma manera tranquila como trascurrieron sus últimos años. De cara a la muerte recordemos este poema sobre la vida: “En esta escuela del mundo/ ni siendo malos alumnos/ repetiremos un año/ un invierno o un verano“.

18/01/2012 - 17:42h A carícia perdida

Alfonsina Storni

Tradução de Carlos Seabra

Sai-me dos dedos a carícia sem causa,
Sai-me dos dedos… No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolherá?
Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.
A carícia perdida, andará… andará…
Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.
Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?

03/01/2012 - 20:03h Tesitura

Ylia Kazama

1

Hoy tengo un deseo que me hace nueva…
Mi intención “hombre de agua” es:
obsesionarte con mi beso;
amarte con fascinación,
con adoración ferviente.
Haremos el amor… delicadamente.

2

Cuando tu boca apenas me roza
me convierte en una parcela llena de humedad.
Me seduces a la liviandad.

3

Mi liviandad tu la provocas, con tu mirada de beso
con tu beso de … quiero!.

4

Tu cuerpo cálido es una invitación abierta al amor.
No sólo a la demostración física…
Hablo del sentimiento vasto e infinito.
De la pasión que no decrece con la presencia,
de la que se intensifica con la ausencia.
Hablo de lo que me inspira
tu esencia y contexto.
Lleno de defectos, que bien claro miro
y no me asusta; que asumo como algo tuyo.
Hablo de algo muy sencillo:
del amor que por ti siento.

5

Me encanta como suenas,
tu sabor, olor
y textura.
Me fascina como piensas,
tu manera de mirar
y locura.

6

A qué sabrá tu boca en la mañana?
A membrillo?, a durazno?… a limón!.
Cómo se oirá tu corazón en la mañana?
Cómo un tambor?… cómo trombón?… cómo canción!.
Cómo despertaras después de “eso”, en la mañana?
Humanamente?… amantemente?… Amadamente!.

7

La noche es un milagro.
Transitar por ella me hace vasta.
La obscuridad es vulnerabilidad
en espacio impenetrable.
Vulnerabilidad es la obscuridad.
Vasta me hace transitar por ella.
Es un milagro la noche

8

Mientras despierta sueño,
que soy tu sueño.
Que sueñas
que te sueño
y así… no duermo.

9

Pienso que estoy en tu pensamiento
que piensas que te pienso
y así…. me duerme.

10

La noche ya llego… estoy dispuesta al amor.
Dispuesta a tu amor… amanezco.

11

Acontece que amanece cuando el amor llega.

12

Vengo a descubrir que la inspiración
algo te la da.
Sólo falta un beso… te besan y ya!.

13

No sé sí estoy inspirada o sólo enamorada.

14

Entre el amor, la noche, el sueño,
la realidad, el deseo;
la pasión y la ternura
está la tesitura.

12/12/2011 - 17:00h “Estes versos assombran, perturbam, desconcertam”

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Marize Castro lança novo livro de poesias “Habitar teu nome”

10/12/2011 - 17:00h Águas turvas do amor

Dois Rios, segundo romance da premiada Tatiana Levy, explora triângulo de paixões

10 de dezembro de 2011

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO – O Estado de S.Paulo

DOIS RIOS

Autor: Tatiana Salem Levy

Editora: Record

(224 págs., R$ 34,90)

E m um cenário cultural em que se avalia histericamente novos escritores é um alívio encontrar uma autora como Tatiana Salem Levy, cuja obra faz justiça a todo entusiasmo. Seus dois romances – o recém-lançado Dois Rios e A Chave da Casa (2007) – são criativos, ambiciosos, vigorosos. E apesar de possuírem alguns cacoetes demasiado literários, constituem tentativas apaixonadas de ir muito além do mero exercício de produção textual: fazem perguntas sinceras sobre a vida – e arriscam respostas.

Tatiana, contudo, “peca” por ser demasiada contemporânea: seu recurso favorito, a elipse, ainda que evite o encontro com o lugar-comum, acaba por privar a experiência de leitura do acesso emocional mais amplo às personagens. Outro “fetiche técnico” é o investimento no fragmentário, cuja vantagem mais evidente para a autora é lhe permitir uma fluência de ordem espacial e temporal, que, no entanto, aliena a experiência de quem lê do prazer de um mergulho mais fundo na trama.

O fato da leitura dos romances de Tatiana serem experiências intensas apesar da forma com que foram escritos conspirarem contra suas histórias nasce da riqueza da palheta emocional da autora, e da percepção logo evidente de que ela é uma poetisa encontrando modos de se expressar em um gênero que ganha sua maior força no prosaico. A Chave da Casa é um poema sobre a traição da memória: é impossível recobrar o passado sem receber dele também justamente aquilo que não queríamos mais recordar. É também um poema sobre o que o corpo sente e o que o corpo lembra daquilo que sentiu.

Em Dois Rios Levy pesquisa a arte do encontro, ou de como o amor nos faz descobrir coisas em nós mesmos que jamais suspeitávamos. Marie-Ange é alvo do amor dos gêmeos Joana e Antônio, separados por uma distância continental, e que na paixão pela mesma mulher acabam por encontrar um ao outro na memória, na lembrança da infância em Dois Rios, na Ilha Grande. Ele em Paris e Córsega, ela em Copacabana – ligados pelo amor ao mar, pelo afeto à mesma mulher e pelas memórias em comum.

Dois Rios é um passo mais firme em direção ao prosaico: Tatiana assume maior coesão narrativa, arrisca nomear os espaços e os sentimentos, e apesar da sua renitente paixão pelo epigrama e pela frase de efeito, investe mais no arco emocional dos irmãos, desenhando a cartografia de autodescobertas que traçam por meio daquilo que Marie-Ange os faz experimentarem. Amar plenamente o outro é difícil porque temos que nos amar plenamente primeiro – e a aventura dos irmãos é se reconquistarem para não perderem a mulher que amam.

24/11/2011 - 17:25h Os cogumelos do Paraíso

Cristiane Neder

Minha loucura
não tem complexo
nem de Édipo, nem de Electra,
nem de qualquer puro amor
que saia das artérias.

Vivo no paraíso dos cogumelos
dias tristes, dias alegres,
mas tudo é ilusão passageira,
só não passa nesta vida
a casca estrangeira.

O doce e o amargo
do sabor da tua língua
ficou no Caribe
lá nos Portos cheios de gozo
e de prostituição.

Os cogumelos do paraíso
são adubados com a maresia
e os marujos já não são mais fêmeas,
pois as fêmeas são eternos machos
depois da ceia que consome seus rabos.

Nós não temos nada,
se temos a vida
ela ainda nos deve a morte,
portanto tudo é ilusão
dias de trabalho, outros de ócio
dias de amor, outros de ódio,
e os cogumelos são adubados
para fabricar desejos,
e onde não há alucinação
não germina gente,
nem se fabrica coração.

21/10/2011 - 17:00h Amanheço

Por Daniela Lima – Cronópios

O sol visto da janela do meu quarto. Esplêndido. Mesmo na condição patética dos primeiros dias, pude admirar a luminosidade indescritível das tardes de verão. A cidade parece tomada por uma onda de calmaria e as pessoas se esforçam para que eu sinta vontade de ficar; de ser. A cidade se abre para mim, macia. Receptiva. Coberta por um véu de suave devoção. Sento no café. Venço a minha impaciência com o barulho e as pessoas. As pessoas que fazem menos barulho para ouvir o piano. O piano. Lamento não saber tocar nenhum instrumento. Adormeço no colo da música. Viva. Consigo olhar esse Deus sátiro nos olhos. Aqui, sou mais cínica diante de tudo aquilo que é falho; da vida. Termino de comer. E sou atingida por um raio. Meu passo se atrasa e se apressa. Um calafrio que atravessa o meu corpo e traz inquietude para cada músculo. É o abismo da felicidade. É o amor cavalgando o meu dorso. Um quê de divindade nas nossas entranhas. Tu és um Deus e nunca houve nada mais divino. Amor fati. A fortuna da minha existência está nas fatalidades. A mulher que olha dentro dos meus olhos e promete o melhor café que já fez. Dia perfeito em que tudo amadurece. Um raio. Eu, como você, morri. Eu, como você, estou viva. E envelheço nas minhas decisões. Envelheço tentando domar cada elemento vital do meu corpo. Renasço. Danço. Trago o encantamento e a felicidade, que deixaram o berço dilacerado pela dor. Tu te tornas obra de arte. Tu dizes sim ao mundo. E a cidade se alegra por estarmos aqui. E a cidade se alegra por suportarmos tanta verdade sem sucumbir.

19/10/2011 - 17:41h Amo estes gregos pagãos

Eliane Pantoja Vaidya

Amo estes gregos pagãos
que amavam a vida
a partir de um céu azul
e um mar violeta.
Amo estas montanhas cabritas
onde Safo e companhia
a de belos tornozelos
galgavam o dia.

18/10/2011 - 17:00h Alguém…

Dora Ferreira da Silva

Alguém desfecha a flecha do vôo:
reflexo no vidro onde a chuva
penteia os cabelos.
Cantiva de muitas lágrimas
dos suspiros do vento
nesta casa pousada na montanha
aguardo criança flor anjo ou passaro.
Pensamentos alígeros – andorinhas
nos aguaceiros de verão
traçam oblíquas, desaparecem
no céu que escurece.
Abraçada à minha alma
não sinto o tempo latejar por perto.
O incerto longe é a minha vocação.
O longe do longe onde talvez
estás sempre em despedida
do invólucro que não te retém. E eu
sempre atrás do aceno teu
do aroma que te esquece e se esvai.
Se um lenço de fino linho
se desprendesse de teus dedos (sonho meu)
o caçaria como a um pássaro
que longe vivia
e me pertencia.

25/09/2011 - 18:37h Menstruation at forty

Anne Sexton

I was thinking of a son.
The womb is not a clock
nor a bell tolling,
but in the eleventh month of its life
I feel the November
of the body as well as of the calendar.
In two days it will be my birthday
and as always the earth is done with its harvest.
This time I hunt for death,
the night I lean toward,
the night I want.
Well then—
speak of it!
It was in the womb all along.

I was thinking of a son …
You! The never acquired,
the never seeded or unfastened,
you of the genitals I feared,
the stalk and the puppy’s breath.
Will I give you my eyes or his?
Will you be the David or the Susan?
(Those two names I picked and listened for.)
Can you be the man your fathers are—
the leg muscles from Michelangelo,
hands from Yugoslavia
somewhere the peasant, Slavic and determined,
somewhere the survivor bulging with life—
and could it still be possible,
all this with Susan’s eyes?

All this without you—
two days gone in blood.
I myself will die without baptism,
a third daughter they didn’t bother.
My death will come on my name day.
What’s wrong with the name day?
It’s only an angel of the sun.
Woman,
weaving a web over your own,
a thin and tangled poison.
Scorpio,
bad spider—
die!

My death from the wrists,
two name tags,
blood worn like a corsage
to bloom
one on the left and one on the right—
It’s a warm room,
the place of the blood.
Leave the door open on its hinges!

Two days for your death
and two days until mine.

Love! That red disease—
year after year, David, you would make me wild!
David! Susan! David! David!
full and disheveled, hissing into the night,
never growing old,
waiting always for you on the porch …
year after year,
my carrot, my cabbage,
I would have possessed you before all women,
calling your name,
calling you mine.

MENSTRUAÇÃO AOS QUARENTA

Pensava num filho.
O ventre não é um relógio
nem um sino que toca,
mas no décimo primeiro mês da sua vida
sinto o Novembro
do corpo assim como o do calendário.
Daqui a dois dias será o meu aniversário
e como sempre a terra terá entregue a sua colheita.
Neste tempo procuro a morte,
a noite para a qual me inclino,
a noite que desejo.
Bem, pois então—
fala dele!
Durante todo este tempo esteve no ventre.

Pensava num filho…
Tu, o nunca conseguido,
o nunca semeado ou desatado,
tu, o dos genitais que eu temia,
o talo e o fôlego do cachorro.
Dar-te-ei os meus olhos ou os dele?
Serás tu o David ou a Susana?
(Ouvi esses dois nomes e elegi-os.)
Podes ser igual aos homens da tua família,
os músculos das pernas de Michelangelo,
mãos originárias da Jugoslávia,
em qualquer parte o camponês, eslavo e determinado,
em qualquer parte o sobrevivente, pletórico de vida—
podia tudo isto ainda ser possível
com os olhos de Susana?

Tudo isto sem ti—
dois dias que se foram em sangue.
Morrerei sem ser baptizada,
a terceira filha que não azucrinaram.
A minha morte virá no dia do santo do meu nome,
O que há de errado com o dia do santo do meu nome?
É só um anjo do sol.
Mulher,
que teces uma teia de aranha sobre ti mesma,
um veneno fino e emaranhado.
Escorpião,
má aranha—
morre.

A minha morte pelos pulsos,
duas etiquetas com o meu nome,
sangue usado como um corpete
para florescer,
uma à esquerda e outra à direita:
é uma habitação quente,
o lugar do sangue.
Deixa a porta aberta sobre as dobradiças!

Dois dias para a tua morte
e dois dias até à minha.

Amor! Essa rubra doença –
Ano após ano, David, deixar-me-ias furiosa!
David, Susana, David, David!
roliço e desgrenhado, assobiando na noite,
sem nunca envelhecer,
esperando sempre por ti no alpendre…
ano após ano,
minha cenoura, meu repolho,
ter-te-ia possuído antes de todas as mulheres,
chamando pelo nome,
chamando-te minha.

23/09/2011 - 18:08h The ballad of the lonely masturbator

Anne Sexton

The end of the affair is always death.
She’s my workshop. Slippery eye,
out of the tribe of myself my breath
finds you gone. I horrify
those who stand by. I am fed.
At night, alone, I marry the bed.

Finger to finger, now she’s mine.
She’s not too far. She’s my encounter.
I beat her like a bell. I recline
in the bower where you used to mount her.
You borrowed me on the flowered spread.
At night, alone, I marry the bed.

Take for instance this night, my love,
that every single couple puts together
with a joint overturning, beneath, above,
the abundant two on sponge and feather,
kneeling and pushing, head to head.
At night alone, I marry the bed.

I break out of my body this way,
an annoying miracle. Could I
put the dream market on display?
I am spread out. I crucify.
My little plum is what you said.
At night, alone, I marry the bed.

Then my black-eyed rival came.
The lady of water, rising on the beach,
a piano at her fingertips, shame
on her lips and a flute’s speech.
And I was the knock-kneed broom instead.
At night, alone, I marry the bed.

She took you the way a woman takes
a bargain dress off the rack
and I broke the way a stone breaks.
I give back your books and fishing tack.
Today’s paper says that you are wed.
At night, alone, I marry the bed.

The boys and girls are one tonight.
They unbutton blouses. They unzip flies.
They take off shoes. They turn off the light.
The glimmering creatures are full of lies.
They are eating each other. They are overfed.
At night, alone, I marry the bed.

BALADA DA MASTURBADORA SOLITÁRIA

O final de um caso é sempre a morte.
Ela é a minha oficina. Olho escorregadio,
fora da tribo de mim mesma o meu fôlego
encontra-te ausente. Escandalizo
os que estão presentes. Estou saciada.
De noite, só, caso-me com a cama.

Dedo a dedo, agora é minha.
Ela não está demasiado longe. Ela é o meu encontro.
Toco-a como um sino. Reclino-me
no caramanchão onde costumavas montá-la.
Possuíste-me na colcha florida.
À noite, só, caso-me com a cama.

Toma por exemplo esta noite, meu amor,
em que cada casal mistura
com uma reviravolta conjunta, para baixo, para cima,
o dois abundante sobre esponja e pena,
ajoelhando-se e empurrando, cabeça contra cabeça.
De noite, só, caso-me com a cama.

Desta forma escapo do meu corpo,
um milagre irritante. Podia eu
colocar o mercado dos sonhos em exibição?
Espalho-me. Crucifico.
Minha pequena ameixa, dizias tu.
Á noite, só, caso-me com a cama.

Então chegou a minha rival de olhos escuros.
A dama de água, erguendo-se na praia,
um piano nas pontas dos dedos, vergonha
nos seus lábios e uma voz de flauta.
Entretanto, passei a ser a vassoura usada.
Á noite, só, caso-me com a cama.

Ela agarrou-te como uma mulher agarra
um vestido de saldo de uma estante
e eu parti da mesma forma que uma pedra parte.
Devolvo-te os teus livros e a tua cana de pesca.
No jornal de hoje dizem que és casado.
Á noite, só, caso-me com a cama.

Rapazes e raparigas são um esta noite.
Desabotoam blusas. Abrem fechos.
Descalçam sapatos. Apagam a luz.
As criaturas bruxuleantes estão cheias de mentiras.
Comem-se uns aos outros. Estão repletos.
Á noite, só, caso-me com a cama.

20/09/2011 - 17:30h SONHANDO COM SEIOS

Anne Sexton – Poesia & Lda.

DREAMING THE BREASTS

Mother,
strange goddess face
above my milk home,
that delicate asylum,
I ate you up.
All my need took
you down like a meal.

What you gave
I remember in a dream:
the freckled arms binding me,
the laugh somewhere over my woolly hat,
the blood fingers tying my shoe,
the breasts hanging like two bats
and then darting at me,
bending me down.

The breasts I knew at midnight
beat like the sea in me now.
Mother, I put bees in my mouth
to keep from eating
yet it did no good.
In the end they cut off your breasts
and milk poured from them
into the surgeon’s hand
and he embraced them.
I took them from him
and planted them.

I have put a padlock
on you, Mother, dear dead human,
so that your great bells,
those dear white ponies,
can go galloping, galloping,
wherever you are.


SONHANDO COM SEIOS

Mãe,
estranho rosto de deusa
sobre a minha casa de leite,
esse delicado asilo,
devorei-te.
Todas as minhas necessidades tragaram-te
como se fosses comida.

O que me deste
recordo-o num sonho:
os braços sardentos envolvendo-me,
o riso algures sobre o meu chapéu de lã,
os dedos de sangue atando os meus sapatos,
os seios suspensos como dois morcegos,
precipitando-se depois sobre mim,
até me dobrar.

Agora os seios que conheci à meia-noite
batem em mim como o mar.
Mãe enchi a boca de abelhas
para evitar comer
e isso não foi nada bom para ti.
Finalmente amputaram os teus seios
e o leite derramou-se
nas mãos do cirurgião
e ele abraçou-os
e eu retirei-lhos
e plantei-os.

Coloquei-te um cadeado,
mãe, querida morta humana,
para que as tuas grandes campânulas,
aqueles queridos póneis brancos,
possam galopar, galopar,
aonde quer que estejas.

19/09/2011 - 18:33h Em celebração do meu útero

ANNE SEXTON – Poesia & Lda.

Tudo em mim é um pássaro.
Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.
Diziam que estavas incomensuravelmente vazio
mas não estás.
Diziam que estavas doente prestes a morrer
mas estavam errados.
Cantas como uma colegial
Tu não estás desfeito.

Doce peso,
em celebração da mulher que sou
e da alma da mulher que sou
e da criatura central e do seu prazer
canto para ti. Atrevo-me a viver.
Olá, espírito. Olá, taça.
Fixar, cobrir. Cobre o que contém.
Olá, terra dos campos.
Bem-vindas, raízes.

Cada célula tem uma vida.
Há aqui bastantes para satisfazer uma nação.
Chega que a populaça possua estes bens.
Qualquer pessoa, qualquer grupo diria:
Está tudo tão bem este ano que podemos plantar de novo
e pensar noutra colheita.
Uma praga tinha sido prevista e foi eliminada.
Por isso muitas mulheres cantam em uníssono:
uma numa fábrica de sapatos amaldiçoando a máquina,
uma no aquário cuidando da foca,
uma aborrecida ao volante do seu FORD,
uma cobradora na portagem,
uma no Arizona enlaçando um bezerro,
uma na Rússia com uma perna de cada lado do violoncelo,
uma trocando panelas num fogão no Egipto,
uma pintando da cor da lua as paredes do quarto,
uma no seu leito de morte mas recordando um pequeno almoço,
uma na Tailândia deitada na esteira,
uma limpando o rabo ao seu bebé,
uma olhando pela janela do comboio,
no meio do Wyomming e uma está
em qualquer lado e algumas estão em todo o lado e todas
parecem estar cantando, embora haja quem
não possa cantar uma nota sequer.

Doce peso
em celebração da mulher que sou
deixa-me levar uma echarpe de três metros,
deixa-me tocar o tambor pelas que têm dezanove anos,
deixa-me levar taças para oferecer
(se é isso o que me toca).
deixa-me estudar o tecido cardiovascular,
deixa-me calcular a distância angular dos meteoros,
deixa-me chupar o pecíolo das flores
(se é isso o que me toca).
Deixa-me imitar certas figuras tribais
(se é isso o que me toca).
Pois o corpo preciso disso,
que me deixes cantar
para a ceia,
para o beijo,
para a correcta
afirmação.

IN CELEBRATION OF MY UTERUS

Everyone in me is a bird.
I am beating all my wings.
They wanted to cut you out
but they will not.
They said you were immeasurably empty
but you are not.
They said you were sick unto dying
but they were wrong.
You are singing like a school girl.
You are not torn.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
and of the soul of the woman I am
and of the central creature and its delight
I sing for you. I dare to live.
Hello, spirit. Hello, cup.
Fasten, cover. Cover that does contain.
Hello to the soil of the fields.
Welcome, roots.

Each cell has a life.
There is enough here to please a nation.
It is enough that the populace own these goods.
Any person, any commonwealth would say of it,
“It is good this year that we may plant again
and think forward to a harvest.
A blight had been forecast and has been cast out.”
Many women are singing together of this:
one is in a shoe factory cursing the machine,
one is at the aquarium tending a seal,
one is dull at the wheel of her Ford,
one is at the toll gate collecting,
one is tying the cord of a calf in Arizona,
one is straddling a cello in Russia,
one is shifting pots on the stove in Egypt,
one is painting her bedroom walls moon color,
one is dying but remembering a breakfast,
one is stretching on her mat in Thailand,
one is wiping the ass of her child,
one is staring out the window of a train
in the middle of Wyoming and one is
anywhere and some are everywhere and all
seem to be singing, although some can not
sing a note.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
let me carry a ten-foot scarf,
let me drum for the nineteen-year-olds,
let me carry bowls for the offering
(if that is my part).
Let me study the cardiovascular tissue,
let me examine the angular distance of meteors,
let me suck on the stems of flowers
(if that is my part).
Let me make certain tribal figures
(if that is my part).
For this thing the body needs
let me sing
for the supper,
for the kissing,
for the correct
yes.

05/09/2011 - 17:00h Habitas meu coração:

Dora Ferreira da Silva

Habitas meu coração: barbas de rei assírio
olhar de extensões alheias
a tempo e medida.
Tua voz tem asas de falcão e pousa
nas torres mais altas do meu ser
onde jamais me aventurei. É minha a tua solidão.
Sirvo-te em silêncio e às vezes
como a uma criança me apertas em teu peito:
acaricio então tua face estranho rei.
Outras vezes ouço passos ecoando
no enlace das colunas em seteiras escadas. Se grito
teu nome – és mil ressonâncias e seu eco em mim.