18/10/2009 - 20:29h Safo, a Vênus de Lesbos

Antigo busto grego de Safo, século 5 a.C.
A inscrição “ΣΑΠΦΩ ΕΡΕΣΙΑ”
diz: “Safo, a eresiana”
Museu Capitolino, Roma, Itália.


Fonte Starnews 2001


Safo, poetisa nascida em Mitilene, na ilha de Lesbos, provavelmente por volta de meados do século VII a.C, de boa família, contemporânea do poeta Alceu. À semelhança deste ela parece ter deixado Lesbos em conseqüência de perturbações políticas na ilha; a crer na tradição Safo teria ido para a Sicília e talvez tenha morrido lá. A poetisa refere-se a si mesma como geraitera, “um tanto idosa”, em um de seus poemas. Os siracusanos erigiram em sua cidade no século IV a.C, em homenagem a Safo uma estátua sua de autoria de Silânion, roubada mais tarde por Verres.

A poetisa se casou com um homem chamado Kérkilos e teve uma filha, a quem pôs o nome de sua mãe, Kleis, que também era o nome de sua avó; tinha também irmãos, um dos quais, Cáraxo, ela censurou por causa de uma complicação amorosa com uma cortesã egípcia chamada Dórica (Heródoto, que se refere ao caso no livro II, 135 de sua “História”, confunde Dórica com Rodópis). Segundo parece Safo reuniu em torno de si um grupo de mulheres, talvez com a intenção de cultivar a música e a poesia, ou para o culto de Afrodite. Alceu dirigiu-se a ela em uma ode, da qual chegaram até nós os primeiros versos e o início da resposta de Safo.

Uma lenda difundida pelos poetas cômicos gregos relata que, tendo-se apaixonado por um certo Fáon e vendo-se repelida por ele, Safo lançou-se ao mar do alto do penhasco de Leucás em frente à costa do Épeiros. Mas isso é mero romance. A poetisa escreveu nove livros de odes, epitalâmios, elegias e hinos, dos quais sobrevivem apenas fragmentos (inclusive uma ode completa e quatro estrofes de outra). Safo escreveu em dialeto eólico, e muitos dos fragmentos foram preservados por gramáticos como exemplos desse dialeto.

Um dos fragmentos encontrados mostra profundo amor maternal por sua filha Kleis, que se reflete na seguinte estrofe:

Tenho uma formosa filha
que tem para mim
a esplendorosa beleza de uma flor de ouro,
minha amada Kleis,
a quem não trocaria por todas as riquezas da Lídia,
nem tampouco pela formosa Lesbos.

O assunto principal de seus poemas foi o amor, sempre expresso com simplicidade natural, às vezes com ternura, às vezes com ardor apaixonado. Ela usou em seus poemas uma grande variedade de metros, um dos quais, o sáfico, está associado especialmente a seu nome. Sua poesia foi muito apreciada na Antigüidade, tendo sido elogiada por Platão, por muitos poetas da Antologia Grega e por “Longinos” no tratado sobre o Sublime (os dois últimos preservaram dois dos fragmentos mais longos). Suas estrofes foram imitadas literalmente por Catulo em seu poema 51 (Ille me par esse deo videtur). Horácio refere-se a ela nas Odes II, xiii, 24-25, e IV, ix, 11-12 (Vivuntque commissi calores Aeoliae fidibus puellae). Ovídio escreveu em suas Heroides uma epístola imaginária de Safo a Fáon (traduzida por Alexander Pope, 1707). Safo inspirou também muitas passagens de poetas ingleses, inclusive Swinburne (”Anactória”) e Frederick Tennyson.

Poesias de Safo



Contemplo Como o Igual dos Próprios Deuses

Contemplo como o igual dos próprios deuses
esse homem que sentado à tua frente
escuta assim de perto quando falas
com tal doçura,

e ris cheia de graça. Mal te vejo
o coração se agita no meu peito,
do fundo da garganta já não sai
a minha voz,

a língua como que se parte, corre
um tênue fogo sob a minha pele,
os olhos deixam de enxergar, os meus
ouvidos zumbem,

e banho-me de suor, e tremo toda,
e logo fico verde como as ervas,
e pouco falta para que eu não morra
ou enlouqueça.

Para Anactória

A mais bela coisa deste mundo
para alguns são soldados a marchar,
para outros uma frota; para mim
é a minha bem-querida.

Fácil é dá-lo a compreender a todos:
Helena, a sem igual em formosura,
achou que o destruidor da honra de Tróia
era o melhor dos homens,

e assim não se deteve a cogitar
em sua filha nem nos pais queridos:
o Amor a seduziu e longe a fez
ceder o coração.

Dobrar mulher não custa, se ela pensa
por alto no que é próximo e querido.
Oh não me esqueças, Anactória, nem
aquela que partiu:

prefiro o doce ruído de seus passos
e o brilho de seu rosto a ver os carros
e os soldados da Lídia combatendo
cobertos de armadura.


Quando eu te Vejo

Quando eu te vejo, penso que jamais
Hermíone foi tua semelhante;
que justo é comparar-te à loura Helena,
não a qualquer mortal;

oh eu farei à tua formosura
o sacrifício dos meus pensamentos,
todos eles, eu digo, e adorarte-ei
com tudo quanto eu sinto.

O Amor

O amor, esse ser invencível, doce e sublime
que desata os membros, de novo me socorre.
Ele agita meu espírito como a avalanche
sacode monte abaixo as encostas. Lutar
contra o amor é impossível, pois como uma
criança faz ao ver sua mãe, vôo para ele.
Minha alma está dividida: algo a detém aqui,
mas algo diz a ela para no amor viver…

As Rosas de Piéria

E morta jazerás: de ti
não restará lembrança, em tempo algum,
nem mesmo compaixão jamais despertarás:
nas rosas de Piéria não tiveste parte.

Desconhecida até na casa de Hades,
errante esvoaçarás em meio a obscuros mortos.

A Lua já se Pôs

A lua já se pôs,
as Plêiades também:
meia-noite; foge o tempo,
e estou deitada sozinha.


Para Mnesídice

Com as meigas mãos, ó Dice,
trança ramos de aneto,
e põe essa coroa
em teus cabelos:

fogem as Graças
de quem não tem grinalda,
mas felizes acolhem
quem se enfeita de flores.

Como a Doce Maçã

Como a doce maçã que rubra, muito rubra,
lá em cima, no alto do mais alto ramo
os colhedores esqueceram; não,
não esqueceram, não puderam atingir.

Palavras de Alceu a Safo

Ó cheia de pureza,
ó Safo coroada de violetas
que docemente ris:

eu te diria de bom grado certa coisa,
se não fosse a vergonha que me impede.


Resposta de Safo a Alceu

Se quisesses tão só o bom e o belo,
se em tua boca más palavras não tramasses,
não haveria essa vergonha nos teus olhos
e poderias exprimir-te francamente.

Para Átis

Nossa amada Anactória está morando,
ó Átis, na longínqua Sárdis,
mas sempre volta o pensamento para cá,

lembrando como antes nós vivíamos,
ela a julgar-te alguma deusa
e teu canto a causar-lhe puro enlevo.

Ela resplandece agora em meio às lídias,
como depois de o sol se pôr
brilha a lua dos dedos como rosas

no meio das estrelas que a rodeiam,
e então derrama a sua luz
no mar salgado e no florido campo,

enquanto o orvalho paira pela relva
e tomam novo alento as rosas,
o suave cerefólio e o trevo em flor.


Eu Vos Rogo, ó Cretenses

Eu vos rogo, ó cretenses, vinde ao templo:
ao redor há um bosque de macieiras,
e dos altares sempre se levanta
o odor do incenso.

Aqui a água fria rumoreja calma,
em meio aos ramos; cobre este lugar
uma sombra de rosas; cai o sono
das folhas trêmulas.

Aqui num campo onde os cavalos pastam
desabrocham as flores do carvalho
e os anetos exalam seu aroma
igual ao mel.

Apanhando grinaldas, vem, ó Cípris,
e dá-me um pouco desse claro néctar
que tão graciosa serves para a festa,
em taças de ouro.

Publicado poema de Safo, após 2.600 anos

Um poema de amor escrito 2.600 anos atrás pela poetisa Safo foi publicado no dia 24 de junho de 2005 pela primeira vez desde que foi redescoberto, no ano passado. Os versos expressam o amor de Safo por suas companheiras na ilha grega de Lesbos.

“Ela obviamente tinha um relacionamento emocional com mulheres, e possivelmente sexual também” (?), disse o tradutor Martin West, acadêmico da Universidade de Oxford. O poema foi descoberto após pesquisadores da Universidade de Cologne, na Alemanha, identificarem um papiro que envolvia uma múmia do século 3 antes de Cristo. Nele estavam os versos da poetisa.

Os pesquisadores perceberam que alguns dos fragmentos do poema encaixavam-se a outros já identificados como de autoria de Safo, descobertos em 1922. Combinando as duas partes e completando os espaços perdidos com palavras de significado compatível, o original foi reconstruído.

Nos versos publicados agora, a poetisa lamenta o passar do tempo ao comparar os corpos jovens de dançarinas aos seus frágeis joelhos e aos seus cabelos brancos.

Veja a tradução de um trecho do poema. Por se tratar de um texto poético, com múltiplas interpretações, a tradução é livre.

Vós, meninas, entusiasmem-se com os carinhosos presentes
Das musas de seios perfumados e com a lira clara e melodiosa:
Mas o meu outrora macio corpo, agora velho
Enrijeceu; meus cabelos tornaram-se brancos, em vez de negros

27/09/2009 - 18:13h Missa profana

Emília Casas

Nesta hora santa,
orai em meu altar de linho.
Dominus vobiscum!
Meu senhor está em mim.
Bendita sou entre as mulheres!
Alisai-me com carinho,
Curvai-vos,
Beijai meu ventre
E entre orações
E cantos
Explorai meus encantos.
Abri minha alma-missal:
Sou a boa-nova
Que se renova a cada leitura
Em mim, profana escritura.
Tomai meu seio:
É o vosso pão,
Pão da vida
Retorcida de prazer.
Comei-o com sofreguidão.
Levai meu cálice à boca,
Bebei do vinho que escorre.
Quem bebe deste vinho
Só morre de amor.
Vinde a mim,
Vosso reino,
Sou ofertório inteiro.
Comungai…comungai meu prazer
Amai-me
- Amém.

25/09/2009 - 19:00h Quero escrever o borrão vermelho de sangue

Clarice Lispector

Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.

08/09/2009 - 20:35h Entrevistas

Virna: Um autor deve ser bem informado, deve andar por aí de olhos bem abertos.

 

 

Marília Kubota – O poeta tem início? Como você começou a escrever e ler poesia e literatura?

 

Virna Teixeira - Sempre há algum início. Comecei a ler poesia na infância, por causa dos meus pais. O interesse pela poesia e literatura surgiu muito cedo. Comecei a escrever poesia na adolescência, de forma bem errática e depois de maneira mais regular após os 20 anos. 

 

 

MK – Como foi lançar seu primeiro livro? Você teve desejo de publicar?

 

VT - Escrevi Visita na segunda metade dos anos 90. É um livro que tem pouco menos de 30 poemas. Saiu pela 7Letras em 2000. Houve esse desejo de publicar, que é inexplicável. Foi um impulso mesmo. Lançar um livro é curioso, parece que você oficializa alguma coisa. No primeiro livro, você tem expectativas maiores: de resenhas, de aceitação, acho. Depois isso passa, não importa muito. O livro é um gesto.

 

 

MK – Quais os seus livros de cabeceira?

 

VT - Destruição do pai, reconstrução do pai, de Louise Bourgeois — abro em qualquer página, é uma leitura que retomo sempre. The autobiography of Alice B. Toklas de Gertrude Stein (outros livros dela também): Gertrude Stein é muito divertida e sempre muito atual. Que mais? Há sempre alguma leitura em torno da Psiquiatria, é um tema que me interessa.

 

 

MK – Você acha que a crítica tem importância na literatura contemporânea? Como lida com a crítica ao seu trabalho?

 

VT - Sinceramente, não me importo com a crítica. Há toda sorte de críticos e motivações, poucos são de fato interessantes. Há muito conservadorismo aliás, e visões distorcidas da contemporaneidade. O maior crítico do trabalho deve ser o próprio autor. Um autor deve ser bem informado, deve andar por aí de olhos bem abertos. Isso não se restringe à literatura, evidentemente.

 

 

MK – Quais são seus projetos atuais em literatura?

 

VT – Atualmente, ando envolvida com uma editora de livros artesanais, a Arqueria. Saíram cerca de 6 títulos até agora, passando pela tradução e também pelo trabalho de outros autores como Horácio Costa, Antônio Moura e uma poeta que publicou sua primeira plaquete, a Daniela Ramos. Recentemente, publiquei dois livros pela Lumme Editor: Trânsitos, meu terceiro livro de poemas e Cartas de Ontem, traduções do poeta britânico Richard Price. Também, uma plaquete pela Arqueria, com 7 poemas recentes, Como suturar lembranças.

 

 

MK – E quais os futuros?

 

VT - Prosseguir com as publicações da Arqueria, há mais umas 3 ou 4 plaquetes para o próximo semestre. Este ano tem sido agitado, estive às voltas com outros projetos também. No momento, não tenho escrito nada. Estou tomando fôlego. É preciso deixar o trabalho respirar, refletir sobre ele e pensar o que você vai fazer depois.

 

 

 

 

Julya: “Crítica” me soa algo como “o mercado”, “a mídia”, expressões que fazem com que essas coisas feitas por homens, por um conjunto de individualidades, pareçam uma massa fria e autônoma.

 

 

Marília Kubota – O poeta tem início? Como você começou a escrever e ler poesia e literatura?

 

Julya Vasconcelos - Se tem um início, eu não sei. Também acho engraçada essa idéia do inato, porque é um pouco esotérica. Sou um pouco esotérica, mas não sei não. O que eu sei é que minha primeira lembrança é um livro de capa verde e dura, muito escura que tinha na estante da minha casa, que era do Drummond. Quando comecei a ler na escola, puxei ele dali, porque me chamou a atenção um desenho em baixo relevo de uma mulher. Fiquei abismada com o poema da mão suja, que me parecia um filme de terror, cheio de palavra difícil e sonora. Pouco tempo depois, comecei a escrever uns poemas completamente drummonianos, o que provocava uns risos mal disfarçados na minha mãe. 

 

 

MK – Quais os seus livros de cabeceira? 

 

JV - Avalovara, Rayuela e Altazor.

MK – Você  acha que a crítica tem importância na literatura contemporânea? Como lida com a crítica ao seu trabalho? 

 

JV - Não me sinto à vontade para falar de “crítica”. A “crítica” me soa algo como “o mercado”, “a mídia”, expressões que fazem com que essas coisas feitas por homens, por um conjunto de individualidades, pareçam uma massa fria e autônoma. Falar de crítica é muito difícil. Crítica pra mim (seja literária, cinematográfica, de artes plásticas), no sentido ideal, é também um processo criativo e de mergulho, individualíssimo, e encarada assim me parece válida em qualquer tempo. Uma crítica é mais uma opinião, faz a gente pensar. Agora crítica leviana, sem mergulho e sem criatividade já é outra coisa totalmente descartável.

MK – Quais são seus projetos atuais em literatura?

 

JV - Fiz o que muitos escritores abominam: entrei em um mestrado em literatura latino-americana. A escrita anda um pouco de lado (infelizmente), pois entrei pro lado negro da força, vesti “el traje negro y la corbata de las disertaciones magistrales”, como diria o Cortázar.

MK – E quais os futuros?

 

JV - Afrouxar a gravata o mais breve possível e pôr em prática uma ideia que não me deixa em paz desde que li o Felisberto Hernández. Vontade de prosear um pouquinho maior.

 

Fonte Escritoras Suicidas

23/08/2009 - 17:20h Enleio

Maria Teresa Horta

Não sei se volteio
Se rodopio
Se quebro

Se tombo nesta queda
em que passeio

Não sei se a vertigem
em que me afundo
é este precipício em que me enleio

Não sei se cair assim me quebra… Me esmago ou sobrevivo
em busca deste anseio

Destino, Quetzal Editores, 1998 – Lisboa, Portugal

21/08/2009 - 18:42h Abricó

Rosa Pena

Chegará com uma hora de atraso de propósito ao encontro com Luiz Augusto Mendes Campos Carneiro de Sá. Nunca tinha saído com um cara com o sobrenome “de” e enorme. Será que o nome é proporcional, que nem número de sapato? Quer criar suspense e não quer que ele imagine que ela é do tipo que “dá” mole, do verbo transar e não o “de” do Sá. Resolve ir de forma classuda, vestido longuette sem decote, pouca maquiagem, cabelos presos num coque tradicional. Só vai falar, aliás, pronunciar como a nobreza faz, algo que cause impacto. Jules Renard, autor francês do século XIX, leu algo sobre este cara na revista de TV. Citará o Jules, a revistinha jamais. Célula-tronco também é sintoma de cultura. O cara é um industrial filósofo, um intelectual rico de esquerda, que adora pobre, mas não deve gostar de quindins, nem de guaraná. Vai pedir carpaccio com vinho. Instrumento? Violino. Tomates? Só secos, pois pega bem. Queijo? Ricota. Fruta? Figo. Profissão? Projetista de unhas, os sábios ricos vivem de projetos, manicure é de quem faz mobral. Sua casa terá varanda, quintal é coisa anticultural. Flor preferida será orquídea, rara e cara. Não falará gírias, nem palavrão. Finalmente, chegou seu momento de ascensão. Seu nome agora é Vânia Maria, Vaninha lembra cama. Ah! Bateu saudades do Ronaldo, bronco pra caramba, tronco sem célula, mas faz uma picanha como ninguém na churrasqueira e na cama também. Ela pode saborear tudo que adora, meter o dedo no rocambole, o bole-bole, o dedo, e até o ronca depois do bole! Ele nunca fica mole.

Só não abrirá mão do sapato vermelho cintilante com tirinhas. Naldinho goza só de olhar, e se o Luiz Carneiro de Sá Augusto Campo Mendes não gostar – será que o nome dele é esse mesmo?! – é boiola.

Longuette nunca lhe caiu bem, lycra que é o diabo. Lembrou novamente das compras do carrinho dele no supermercado no dia em que o conheceu. Licor de abricó é coisa de viado. Abricó!!! Vai que troca a vogal final?

Pegou o telefone e ligou pro Naldão.

- Traga a cerva e o violão. Tô só de combinação e com aquele sapato.

- E o conde D’Eu?

- Era gay, preferiu dar pro Jules Renard.

Rosa Pena (Rio de Janeiro-RJ). Professora e administradora de empresas. Especialista em recursos audiovisuais e artes cênicas. Trabalhou na Divisão de Multimeios da Educação na Secretaria de Educação e Cultura do Rio de Janeiro, com projetos ligados a cinema, teatro, música e literatura. Compulsiva para ler e escrever, considera a Internet a grande biblioteca contemporânea. Tem livros virtuais publicados e dois livros editados no papel: Com licença da palavra, antologia do grupo Pax Poesis Encantada (Editora Scortecci, 2003) e PreTextos, seu livro solo, onde reúne cem crônicas (Editora All Print, 2004). Mais em seu site

19/08/2009 - 19:14h Amélia

Líria Porto

 

 

ficava lá disponível

limpa macia perfumada

igual blusa no cabide

 

 

quando ele vinha usava-a

voltava-se para a parede

dormia

partia pela manhã

 

 

foi visto no shopping

de roupa nova

 

 

 

Líria Porto. Professora, mineira, vive em Belo Horizonte. Inédita, tem poemas publicados no Cronópios e na Germina — Revista de Literatura e Arte. Fonte Escritoras Suicidas

 

31/07/2009 - 18:25h Diz

Blog Caminhar

Mini conto

RenéMagritte
No espelho

Olha o rosto no espelho, diferente, mais claro.
Levanta devagar o vestido observando o corpo.
A calcinha apertada marca a gordura, encolhe a barriga. Alonga-se, abaixa o tecido de algodão florido, observa a púbis, alisa os poucos pelos. O rosto se crispa. Levanta a calcinha nas ancas buscando um angulo melhor. A cabeça cai para o lado, volta para o centro, retesa-se.
É com os olhos dele que se vê agora.
Ainda sente o elástico a apertando, mas se reconhece naquele outro olhar e sorri.

Micro conto

Sentiu a mão subindo pelas pernas, mãos suadas, ásperas. Fechou os olhos.
Perdeu a parada. Quando ele levantou, ofegante, viu a boca desdentada sorrindo sarcástica.
Permaneceu ali até o cobrador dizer:
- Ponto final, dona.

http://1.bp.blogspot.com/_RCojEL9WAfQ/SLoQ1cr7OcI/AAAAAAAABk0/ze-YvsUVv4g/S220/sorrindo%2Bvertical-4%2Bmenor.JPGDiz

13/07/2009 - 18:46h Que pensas?

Rita Barém de Melo

Que pensas agora, que dor tão profunda
As fibras do peito me vem estalar?
Talvez de saudades tu’alma se inunda,
Que a vida passada te faz recordar!

Também esta mente saudosa delira,
Que flor da tristeza só vem oscular,
Em pranto dorido minh’ alma suspira
Sonhando contigo num doce lembrar.

As juras sagradas que em tão meigo enleio
Juraste é o a fala convulsa d’amor,
Ainda palpitam aqui neste seio,
Qu’ enluta amargoso, pungente tristor!

E sempre a lembrança da louca ternura
Abrasa a minh’alma de longa paixão,
Que desse passado, rosal de ventura,
Eu tenho o perfume no meu coração!

Ai doces momentos em férvido pranto,
Te digo chorando bem trêmulo – adeus…
Ai doces momentos, d’ enlevo tão santo,
Ai vida d’ amores tão puros, meu Deus!

(Porto Alegre, 8 de outubro de 1856)

Sorrisos & Prantos, Editoras Movimento e Mulheres, 1998 – Brasil.

05/07/2009 - 16:22h Fim de semana

Dora Figueira Locatelli

Despeço-me do mundo
como quem arruma bolsas
para um fim de semana.
A vida abriu a boca
e
ouvi verdades desconhecidas.
Calço pantufas e flutuo serena
sem pressa.
Feito um pássaro que abre as asas
e se dilue no horizonte.

Despeço-me numa paz silenciosa.

30/06/2009 - 19:37h Traindo e retraindo

Márcia Carrano

Chamou-o para o botequim de sempre, onde ele bebia chope e ela coca-cola. E comiam juntos uma picanha na pedra, quase ao ponto.

Viviam juntos há dezoito anos. Muito amor, sexo e… a empresa. Há algum tempo, no meio deles , rachando a cama em duas, revirando os lençóis, empurrando cada corpo para o máximo de lateral possível: a EMPRESA, porra! Ele na esquerda; ela na direita. E nenhuma partida.

Ela passava a vida no MOTI BANCO. Reunião pra cá, festinha pra lá; livro daqui, cd dali , depois me empresta aquele outro? ; saidinha após o expediente com a turma do uisquinho happy try — e ela não bebia. Mariposa era uma mulher séria, muito. Ele, Pacífico Ouriço, é que deitava e rolava nos vícios: cigarro, bebida . Mulheres não: há dezoito anos só dormia com a Mariposa. Aliás, Pacífico tinha vícios coisíssima nenhuma. Mariposa é que era certinha demais. A mulher não fumava, não bebia, não cheirava… nem fedia, quase não falava, mas comia muito, muitíssimo e — pasmem! — tinha o corpo impecável. Nem um pouquinho de gordura entornando no lugar errado.

Ele sempre confiara nela. Uma mulher daquelas jamais o trairia. Às vezes tinha ciúme, é verdade. Mas se sentia culpado, maldoso até. Ela casara virgem, cara! Sempre dele, só dele. Desconfiar de quê?

Mas voltemos ao botequim. Ela, exatamente agora, está dizendo para Pacífico:

— Sabe, amorzinho, preciso que você saiba: estou saindo com o Gregório.

— Estão fazendo algum trabalhinho extra?

Parênteses: Gregório era colega de trabalho de Mariposa e amigo do casal. Sua mulher, Hermenilda, era pouco vista.

— Não , Pacífico. Tô dormindo com ele.

— Realmente devem ficar cansados, né amor ? A EMPRESA suga tanto ! Têm mesmo de dar uma descansada para agüentar trabalhar assim das oito da manhã às dez da noite. E quase todo dia!

Pudica (ah!), Mariposa não rasgava o verbo, como se diz vulgarmente. Continuou, discreta como sempre :

— Benzinho, tô dormindo e fazendo tudo o mais.

— Tudo o mais o quê, amor? — perguntou Ouriço.

— Tudo o que homem e mulher costumam fazer na cama — respondeu ela.

Silêncio total. Ele dá uma bicadinha no décimo primeiro chope da noite. Não está bêbado, apenas mais leve, levíssimo. Ultralaite, eu diria. E ela ali, firme na coquinha. E lúcida.E gostosa como sempre. E honesta como sempre. E firme, quase fria, como sempre.

E como sempre — epa! me distraí — come sempre — epa! outra vez me distraí. Escrevendo de novo . Ela comendo sempre — agora sim! acertei no alvo — a picanha com parcimônia, a ponto de deixá-lo envergonhado com sua avidez de glutão incorrigível.

Professor de Filosofia, acostumado a fazer joguinhos intelectivos com seus alunos, Pacífico começa a dizer, sem mais nem pra quê :

— Mariposa, Maposinha, tudo é nada. As b… as pontas se encontram. Por isso o tudo vira nada, que é nada e também tudo. Entendeu?

E, sem esperar resposta, continuou , depois de coçar a testa com insistência:

— Maposinha, se o nada…

— Pacífico, meu amor, tô ficando cansada. Vamos embora.

Ele, que jamais contrariava a mulher, foi largando o décimo segundo chope sem beber, deixando dinheiro suficiente com gorjeta gorda. Pedir conta vai demorar! Maposinha precisa ir, precisamos ir.

E saíram. Ele passou o braço na cintura dela. Passaram por Gregório, que vinha andando pela rua. Pura coincidência. Respondeu ao boa-noite do colega da mulher. Aliás, responderam. Passaram pelo porteiro do prédio onde moravam. Passaram pela porta do apartamento. Passaram para a cama. Ele passou tudo de novo em sua mente: Mariposa e Gregório transando… uau! Mulher tem cada uma. Pior que criança!

Antes de dormir, ele coçou e coçou a testa. Depois disse, dobrado em posição fetal:

— Cê tem cada uma, mulher!

E dormiram o sono dos justos, justíssimos em seus pijamas de medo.


MÁRCIA CARRANO Castro
é mineira, natural de Cataguases (MG). Reside em Juiz de Fora, naquele Estado, desde 1984. Com Licenciatura Plena em Letras, é bacharel em Direito e escritora. Professora efetiva da rede de ensino estadual, atualmente ensina Português, Redação e Literatura no Criarte, curso fundado por ela em 1980. Em 1977, lançou seu primeiro livro de poemas, “Zero Versus”, Editora Esdeva – Juiz de Fora, que mereceu elogios da crítica. Tem trabalhos publicados em diversos jornais e suplementos literários do país e sítios da Internet. Em 2001, a Secretaria de Cultura de Cataguases (MG) deu o nome de Márcia Carrano a uma das bibliotecas naquela cidade. Seu livro de contos “Porção de tintas”, premiado pela FUNALFA em 2003, foi lançado no dia 24 de abril de 2003, em Juiz de Fora (MG). Fonte Releituras

29/06/2009 - 18:03h Perdão

Izabel Santa Cruz Fontes

Hoje sonhei que te perdoava. Estamos sentados frente a frente, desconfortáveis, com olhares perdidos. Eu podia sentir o teu desespero mudo no ar, tocar nele, moldá-lo à minha maneira, fazer dele capricho meu. Você fingia tomar seu café e olhar pela janela. O café estava tão quente que era quase uma presença humana. Éramos, então, quatro: eu, você, o café e seu desespero, percebi nisso metáfora indizível. Mesmo no fim, mesmo em sonhos, nunca sozinhos.

Sádica, eu folheava o jornal displicentemente e jogava os cadernos pelo chão, bagunçando tudo de propósito, como que para te irritar pela última vez. Você, numa coragem súbita, quebra o silêncio. Apenas ergo os olhos, fitando-te friamente e volto a uma notícia tediosa, no caderno de política. Falava alguma coisa sobre um tratado político no Sul da África… você fala, fala, fala. Fala coisas que eu não entendo, ou não lembro. Diz que se arrepende, pede desculpas, promete o céu e felicidade eterna. Continuo a ler, termino mais uma página e a jogo no chão, quase com desprezo. Sentindo o corpo inteiro estremecer, numa raiva contida, você se limita a olhar com o canto do olho a mais uma provocação e ignora, permitindo-se um resto de orgulho.

Ao perceber que ainda somos nós — você, puro orgulho, eu, pura implicância — dou um meio sorriso, sabendo que não tenho o direito de me sentir feliz. Você, de repente, percebe tudo e dá um sorriso largo, criança em dia de natal. Surpresa, apenas arregalo os olhos, você ri do meu espanto. Mais alto. Gargalha. Contagiada, vou sentindo minha boca se abrir, tímida, até se escancarar. Sentimos o corpo tremer e rimos, em uma crise guardada, sem explicação, sem motivo.

Passamos tempo incontável assim, a rir sem motivos e, de repente, paramos. Pela primeira vez, nos olhamos de verdade, com olhos de quem ri, inocentes e carinhosos. Finalmente, nós dois entendemos e, calados, aceitamos nosso destino: orgulho e implicância. Nos perdoamos.

E-mail: beu.o@hotmail.com

Izabel Santa Cruz Fontes (1987) é estudante de jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Diz fazer da escrita uma forma de “existir um pouco mais no mundo.” Fonte Releituras

25/06/2009 - 18:19h Ser mulher

Dorothy Parker

Tradução de Angela Carneiro

Por que será que quando estou em Roma
daria tudo para estar em casa na redoma
mas se estou na minha terra americana
minha alma deseja a cidade italiana?

E quando com você, meu amor, meu remédio,
fico espetacularmente cheia de tédio
Mas se você se levantar e me deixar
Grito para você voltar?

19/06/2009 - 19:25h Devaneios com egon

 sandra baldessin

Ele me olha e avisa que vai me pintar. Os olhos, febris, analisam os meus ossos. Eu anuncio que minha carne se lê com as mãos, e sorrio. Penso em Egon, que ele, claro, não conhece. Morrerá aos vinte e oito anos?

Quero lhe falar sobre Schiele, e me cubro, já assumindo ares didáticos. Desnuda! Ele me ordena, e se assusta. Desnuda? Seja. Emudeço.

Ele abre as janelas e ajoelha-se ao lado da cama, misturando cores. As mãos, tintas de azuis e vermelhos, se mudam para o meu corpo. Na tela de nácar se nomeia o meu silêncio: caminhos-dentro que não percorri.

Suas mãos nomearão o que se abriga em minhas entranhas? Meu corpo tocado tocante tocata vai se cumprindo a cada pincelada desferida por seus dedos. Egon, eu te batizo. Ele me enterra as unhas nas coxas.

Foi assim que eu descobri que ele me possuía. A mim, que desejei metabolizá-lo como a coisa viva que era; fazê-lo meu semelhante, coisa de carne e sangue da qual eu podia me apropriar. Ah, que longa a jornada antes desse lúcido momento! De repente percebo que, sim, estará morto aos vinte e oito anos.

 Sandra Baldessin. Escritora, arte-educadora e consultora em Comunicação Escrita; realiza oficinas de formação de agentes de leitura; oficinas de criatividade e liberação de linguagens criativas com base na educação sensível; é contadora de histórias e realiza, também, oficinas de terapia literária. Em 2003, lançou A cidade: espaço de vivência cultural, ensaio abordando os cenários culturais da cidade de Rio Claro/SP; em 2001, publicou À flor do verso, coletânea de poemas. Está terminando de preparar mais três livros, a coletânea de contos Capitus?, os poemas da coletânea A vingança dos objetos e Didática do desejo, uma abordagem sobre como despertar o prazer pela leitura, fundamentado nas experiências das oficinas.Fonte escritoras Suicidas

16/06/2009 - 18:59h anúncio de jornal

renata bokanovski

O recorte de jornal que encontrei na bolsa de meu marido me permitiu entender todo o mistério. O texto do pequeno anúncio era emocionante. A história que se desenhou na minha cabeça era tão bonita, que parei de fazer perguntas constrangedoras a Jorge. Imaginei-o cortando o pequeno anúncio dos Classificados, com a tesoura comprida, de ponta fina. A nossa tesoura! A mesma com que ele corta minhas unhas da mão direita. A mesma que nos acompanhou em tantas viagens. O carinho do ato do recorte estava claro! Tudo muito retinho!

Fiquei com pena de Jorge porque imaginei seus olhos se embaçando de emoção ao ler e ao recortar a pequena nota. Levei o pequeno recorte para o escritório e pedi ao Sebastião para tirar uma cópia xerox com ampliação. Eu queria colocar a cópia em um quadro na parede. Queria que todo mundo visse. É claro que eu não daria explicações para ninguém. Eu desejava que cada um construísse uma historinha na cabeça, livremente, sem verdades.

Sebastião é meio burrinho. Não sei de onde o patrão trouxe aquele nordestino. Tive que perder alguns minutos com ele, falando da técnica de se tirar cópias sucessivas: cópia de cópia de cópia, com ampliações. Depois de várias tentativas ele me trouxe uma bela cópia, grande, com boa definição. Foi essa cópia que deixei na casa de molduras, para que com ela fosse feito um quadro. Escolhi uma moldura simples, branca. Pedi um passe partout amarelo. Achei que, assim, o pequeno e belo texto ficaria mais realçado. O importante era que a cópia ficasse protegida pelo vidro e que, ao ser contemplada, motivasse o romantismo e o saudosismo dos cinqüentões de esquerda que passassem pelo escritório.

Fiquei bastante cabreira quando Jorge me disse que tinha convidado uma velha colega para o churrasco de domingo. Como havia aparecido a Flávia na vida dele ? Ele não explicava direito. Quando li o pequeno recorte entendi tudo. Não vi nada de mais. Se ele me tivesse contado tudo direitinho eu não teria tido ciúmes e, pelo contrário, teria dado a maior força para que Flávia viesse almoçar conosco.

Domingo ela veio. Apareceu com o marido e os dois filhos. Um belo casalzinho: as duas belas crianças nasceram aqui em Brasília. Tal como os nossos filhos. As quatro crianças, da mesma faixa etária, se esbaldaram na piscina.

Jorge havia conhecido Flávia no Rio, quando os dois eram estudantes. Disse-me ele que não haviam sido namorados. Apenas colegas. Observei, durante o churrasco, que de vez em quando os dois se olhavam com sorrisos discretos e com certa cumplicidade, como se trocassem segredos e carinhos com os olhos. Fingi que não conhecia a história deles. Cheguei a ficar imaginando as cenas que se desenrolavam nas cabeças dos dois. Sem ciúmes. Eu sabia que eles haviam se conhecido apenas por alguns minutos em 1968. O mais engraçado é que eles não sabiam que eu sabia da ingênua e pura historinha de três minutos dos dois. Tudo havia acontecido há 32 anos atrás. Imagino que eles não queriam me contar a verdade, para não me provocarem ciúmes. Se me contassem, teriam também que me falar sobre o encontro recente deles, provocado pelo anúncio no jornal. É claro que haviam se encontrado.

Eu preferi não demonstar que sabia, para não provocar constrangimentos. Onde teriam se encontrado? Fiquei imaginando. Certamente o encontro havia se caracterizado por uma simples contemplação platônica e troca de reminiscências. Não fiz perguntas. Eu já torcia para que se encontrassem novamente, escondidos.

Esse reencontro em Brasília, estando os dois casados, bem casados, cada um com sua família, me deixava tranqüila. Eu tinha certeza de que não havia sido corneada. Mas o que poderia acontecer entre os dois dali em diante era uma incógnita. O fato é que fiquei desejando ser corneada. Meu marido e Flávia mereciam alguns momentos de privacidade. Desejei ser corneada. Eles mereciam.

Eu também vivia no Rio em 68. Eu também, tal como meu marido e Flávia, havia participado da passeata no enterro do estudante Edson Luís. Na passeata dos Cem Mil eu não fui. A coisa estava cada vez mais preta e meus pais me seguraram em casa. Não quis contrariar minha mãe.

Na segunda-feira voltei à loja de molduras. O quadro estava pronto. Levei pra o escritório, onde Jorge nunca ía, e o pendurei na parede. Chamei o chefe e os demais colegas para lerem. Todos se emocionaram, sem imaginar que eu conhecia muito bem o rapaz citado no anúncio:

Procuro o rapaz que há trinta e dois anos atrás, na passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, me deu a mão. De mãos dadas caminhamos, nos entreolhando de vez em quando, gritando palavras de ordem. Quando passávamos em frente ao prédio do JB um saco plástico cheio d’água estourou à nossa frente, jogado lá de cima. Soltamos as mãos e nunca mais nos vimos. Se o rapaz, que já procurei no Rio, estiver aqui em Brasília, pode me escrever para a Caixa Postal 4369. Flávia.

Renata Bokanovski nasceu no Rio de Janeiro, tendo se formado em Literatura Brasileira na UFRJ. Escreve poemas desde a juventude e tem dois livros publicados: A janela para o mar e Caranguejos ingênuos. Recentemente, ganhou o primeiro prêmio no Concurso de Contos promovido pela Associação Brasileira de Palindromistas. Participou, nos anos 80, da criação da ONG “Tortura Nunca Mais”. Atualmente, é assessora legislativa e taquígrafa, trabalhando também com tradução.

13/06/2009 - 18:50h cantiga de amigo I (ou ao lado do bar garagem havia uma ponte de van gogh)

 lucila nogueira

ontem quis me entregar à alegria e quase ao acaso

saí com o meu leque imenso vermelho de Madame Butterfly

e depois de cantar ao microfone o princípio de Summertime
eu me deixei levar a um lugar onde há muito queria estar
e na hora que entrei ali mesmo no escuro do som
um fauno de quase dois metros gritou meu nome
e ficamos dançando twist descendo até o chão

nesse bar sem luxo como os que conheci na Colômbia
depois chegou um outro sátiro que ainda não me conhecia
e talvez por isso mesmo me chamou logo ao andar de cima
eu confidenciei ao meu amigo essa proposta com ironia

mas o amigo não entendeu e quis subir na frente e quis ir olhar

e voltou falando que era apenas um acampamento de sofás
foi quando na calçada não sei porque me vieram apresentar

uma versão do Tadzio de Visconti em plena Veneza tropical
eu era apenas uma ex-colecionadora diante de uma tela presa no museu do Louvre

quando alguém jogou sua bebida em cima daquela pele que exaltava a vida
desde uns cinco metros de distância em fatal pontaria de Robin Hood
acontece que o Tadzio era tipo o ídolo daquele súbito Eden subterrâneo
e logo vieram guardiães para agredir o agressor insensato que vestia camisa azul
eu me coloquei Joana D ‘Arc no centro do remoinho e do túnel de Ernesto Sábato
e tudo se acalmou na esquina de um bar de fim de noite em dia de sábado
o céu amparava uma lua bêbada sobre as manchas da pantera

no colar e no voile transparente que fazia a valquíria voar

eu lembrei da Sala de Reboco quando o aventureiro de Estocolmo

repentinamente pareceu querer descer em direção ao rio silencioso
pelas suas margens teciam alamedas muitas plantas e jardins
que olhávamos todos de pé com saudade da taça do Graal
cheguei em casa com a manhã nos olhos e na barra da túnica

e um amuleto feito dos sonhos de sete druidas para recordar

que ao lado do bar Garagem havia uma ponte de Van Gogh

Lucila Nogueira é poeta, crítica, contista, tradutora e editora. É professora de Letras e Lingüística na Universidade Federal de Pernambuco e coordena a Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas (Fliporto). Tem 20 livros publicados em Recife e no Rio de Janeiro, entre eles Almenara e Quasar, que obtiveram o Prêmio de Poesia Manuel Bandeira, do Governo de Pernambuco, em 1978 e 1986. Também publicou livros de ensaios sobre Carlos Drummond Andrade, Fernando Pessoa e aguarda a publicação da tese de doutorado sobre os livros O cão sem plumas e Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto. Foi organizadora dos livros Saudade de Inês de Castro (Edições Bagaço, 2005), Poesia Reunida, de Deborah Brennand e A musa roubada, de Tereza Tenório (ambos da Companhia Editora de Pernambuco, 2007). Organizou e traduziu a Antologia de Poesia Colombiana (Edições Bagaço, 2007), com o escritor e editor Floriano Martins. Fonte Escritoras Suicidas

13/06/2009 - 16:00h Ciúmes, ela?

por Helena Celestino – Blog prosa Online – portal O Globo

As duas vidas de Catherine M.

Ciúmes, ela? Depois de criar um choque entre os bem pensantes da França, ao descrever com extrema crueza sua movimentada e pouco convencional vida sexual, Catherine Millet surpreende de novo ao relatar com a mesma profusão de detalhes sua descida aos infernos do ciúme quando descobre que o marido tinha aventuras com outras mulheres. Catherine é aquela diretora da mais importante revista francesa de arte, a “Art Press”, que escolheu abandonar o pedestal reservado à respeitadíssima especialista em Salvador Dali e Yves Klein para contar num livro, em tom lacônico e distanciado, sua entrega a um número incalculável de mãos e pênis de homens anônimos, encontrados ao acaso em estacionamentos, nas sombras do Bois de Bologne, ou em estações de trem parisienses. Seu relato de orgias e surubas virou um best-seller, “A vida sexual de Catherine M.” (Ediouro), que vendeu 2,5 milhões de exemplares em 47 países — o mais recente lançamento foi na Albânia e o próximo será no Líbano, um país árabe.  Sete anos e muitas polêmicas depois, ela reaparece agora num novo livro, “A outra vida de Catherine M.” —- lançado no Brasil pela Agir — como uma tigresa disposta a usar as garras para manter jovens rivais distante de seu marido. A mesma mulher que oferece o corpo a quem puder lhe dar prazer, conta, sem nenhum pudor, como durante três anos vasculhou o computador e as gavetas do companheiro com uma obsessão de mulher fiel, disposta a tudo para manter seu casamento de quase 30 anos com o escritor Jacques Henric. Enquanto investiga a vida paralela do marido, perde-se em crises de angústia, taquicardias e cenas cheias de lágrimas, num enredo distante da utopia do amor livre, até então aceito como dogma pelo casal, desde o encontro dos dois nos libertários anos 70.  A autora (ao lado, em foto de divulgação) estará no Brasil em julho participando da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Pelo que a senhora conta, “A vida sexual de Catherine M.” foi uma maneira de sair da crise de ciúmes. Foi isto?
Na verdade, quando comecei a escrever estava tão fragilizada que não tinha segurança sobre o que estava fazendo. E também não tinha confiança de que sairia da crise. Retrospectivamente, ao escrever “A outra vida de Catherine M.” (cujo título original é “Dia de sofrimento”), percebi que isto tinha acontecido.

Por que decidiu se expor outra vez em um livro?
Logo depois de “A vida sexual” dei muitas entrevistas e participei de muitos encontros com o público. E todo o tempo vinha a pergunta: mas se você tem essa vida sexual livre, você não conhece o ciúme? E eu era obrigada a reconhecer que sim, eu conhecia o ciúme. Nas semanas que se seguiram à publicação de “A vida sexual” decidi que, por honestidade com o público, eu contaria que tinha vivido uma crise terrível de ciúme.

Mas passaram-se sete anos entre um livro e outro…
Primeiro, eu viajei por mais de três anos por causa de “A vida sexual de Catherine M.” E depois eu queria um refresco, estava cansada de falar sobre isso. Escrevi um livro (que não foi traduzido em português) sobre Salvador Dali como escritor, que me exigiu alguns anos de trabalho.

É mais difícil contar a vida sexual ou falar do seu ciúme?
Falar do ciúme é muito mais difícil, claro. Por diferentes razões, “A outra vida de Catherine M.” me obrigou a rememorar sentimentos extremamente dolorosos. Ao contrário, “A vida sexual” me fez voltar aos bons momentos, era escrever sobre boas lembranças. Sempre falei livremente e sem nenhuma inibição da minha vida sexual e do meu corpo. Mas falar de sentimentos nunca foi fácil para mim. Ao contrário do que muita gente pensou ao ler meu livro, eu não sou exibicionista… Mas não escondia nada sobre a minha vida sexual, no meio profissional muita gente sabia. Para mim, era uma maneira natural de levar a vida.

Os livros “confessionais”, digamos, mudaram a sua vida?
Não mudaram muito. No meio artístico, então, não mudou nada: nem a relação com meus colaboradores próximos — que não necessariamente sabiam o que acontecia — nem com os artistas de uma maneira geral. Acho que o mundo artístico hoje é o mais liberal de todos, é um universo em que a liberdade é completa. Podemos nos permitir coisas que seriam chocantes entre as pessoas do (mundo do) cinema ou entre escritores. Nas obras de arte, expostas nas galerias, há coisas da mesma natureza do que as contadas no meu livro (risos). De uma maneira geral, as reações foram positivas: imagino que as pessoas acharam engraçado ver que eu tinha virado um personagem midiático. Criou-se uma simpatia maior em torno de mim.

Como “A outra vida de Catherine M.” foi recebido?
As críticas na França foram ainda melhores, foram muito positivas. Na verdade, todas as críticas iam no sentido de que, finalmente, eu me confirmava como escritora. Isso foi uma surpresa. O outro livro não era mal escrito, mas não era isso que interessava às pessoas. Para os críticos foi um pouco como se aquela mulher, que fez as pessoas falarem tanto dela, finalmente tivesse virado uma escritora.

A linguagem de “A vida sexual…” é muito mais crua do que a de “A outra vida…”. Foi um efeito procurado?
São dois livros muito diferentes. “A outra vida de Catherine M.” é mais bem escrito, primeiro porque eu já tinha uma experiência anterior de escrever um livro no qual falava de mim. As frases são mais longas, mais torneadas. E também porque a dificuldade que eu tinha para contar a dor, a complexidade dos meus sentimentos, me fazia pensar mais. A natureza do que eu tinha para contar me obrigava a mudar a forma de escrever.

A senhora disse que o francês é a língua do sexo. O que achou das traduções, ao ler o seu livro em outras línguas?
Eu e muitos outros escritores já falamos isso. Existem muitas palavras para falar de sexo, de órgãos sexuais, de sedução. Conversei com alguns tradutores e foi interessante, porque a gente percebe as diferentes percepções do vocabulário do sexo nas diferentes línguas. A gente vê que em algumas línguas, para designar os órgãos sexuais ou a bunda, por exemplo, existem muitas palavras. Ou, ao contrário, muito poucas palavras. Algumas são empregadas de uma maneira banal em francês mas, em inglês, por exemplo, viram uma obscenidade terrível.

O surpreendente no seu livro sobre o ciúme é que a senhora vigia o seu companheiro com uma obsessão de mulher fiel. Para os leitores que conhecem “A vida sexual de Catherine M.” foi uma surpresa?
Acho que não foi muito surpreendente. Mesmo se a maioria das pessoas não tem uma vida sexual livre como a minha, não são muitas as que escapam do ciúme. A liberação sexual, como sonhávamos nos anos 60 e 70, era uma utopia. Todos os que viveram essa época são conscientes disso: a sexualidade completamente livre que imaginávamos, com a realização completa dos nossos desejos, sem entrar em conflito com o cônjuge, era uma utopia. Aqui, na França, ao lerem “A outra vida de Catherine M.”, muitos disseram: “ah, finalmente, descobrimos que ela é normal”.

Ou seja, caiu o mito Catherine M.
As pessoas pensam que eu era um monstro sem sentimentos. Voilà, não sou. O fato de ter e assumir uma sexualidade livre não me impede de cair na armadilha horrorosa do ciúme e não imuniza ninguém contra a dor que o acompanha.

Lendo seus livros sobre arte e os textos “confessionais” parece que existem duas Catherine Millet. Há uma relação entre o olhar de crítica de arte e relato de Catherine M.?
Acho que a crítica ensinou-me a ser mais descritiva do que introspectiva. Para falar de um sentimento não vou procurar explicações profundas na minha vida passada, na minha infância. Eu vou procurar simplesmente descrever como se manifesta esse sentimento, o que ele me fez dizer, como ele age sobre o meu corpo ou sobre a minha vida. É um paradoxo, mas quando eu trabalho prefiro ficar na superfície. Escrevo como se eu estivesse descrevendo uma escultura.

Bataille e Sade são autores que a inspiraram?
Não. Claro que eu li isso, faz parte da cultura da minha geração. Mas a lógica do Bataille é a da transgressão e tudo o que contei sobre a minha vida sexual não entra nessa lógica. Claro que o tema me interessa, mas não faz parte das minhas experiências. Jamais transgredi os tabus sociais, nem o tabu do incesto, nem os tabus religiosos. Acho que não existe sociedade sem tabus fundamentais. Nunca estive na posição de transgressora.

A artista francesa Sophie Calle também vem ao Brasil para a Flip.Tanto a senhora quanto ela partem de histórias pessoais em livros e/ou trabalhos de arte. Existe proximidade entre as duas?
Não acho muito, não. Podemos pensar nisso porque ela se revela nas suas obras. Mas acho que ela está mais no pathos do que eu. Eu conto as histórias como se elas não me pertencessem mais . Sophie, para falar de um momento de crise, por exemplo, faz isso de um ponto de vista crítico. Acho que estamos em terrenos diferentes.

Como a crítica de arte vê o trabalho de Sophie?
Eu respeito, mas não é o tipo de coisa que me interessa. Eu jamais escrevi sobre ela ou sobre seu trabalho, por exemplo. Vou ver as exposições, mas não somos amigas.

O que a senhora espera dessa viagem ao Brasil e da participação na Flip?
A única coisa que me disseram é que vou debater sobre a questão do tabu (ela vai conversar com a psicanalista Maria Rita Kehl no domingo, dia 5, às 11h30m). Ainda não sei sobre o que vou falar…

12/06/2009 - 19:34h Avessos e reversos

 daniela dias

 

Dossiê

 

Eu sou uma mocinha. Mo-ci-nha. Adoro perfumes, cores, bebês e flores.

Mas me interessa igualmente o que me é diferente. O lado obscuro de tudo. Eu sou uma mocinha. Menina. Mas me atrai conhecer o avesso. Entendê-lo.

Por isso coleciono almas. Olho nos olhos, observo o entorno, busco desgasto derreto de cansaço. Vou até o fim.

Eu sou menina. Eu sou menino. Eu sou um espectro. Uma abelha. Uma agulha. Uma fagulha.

Uma história de dois lados.

 

 

No corpo de um

 

Maria olhou para Reinaldo. Ele estava morto. E ela estava pura.

Reinaldo olhou para Maria. Ela estava morta e ele estava puro.

Riobaldo olhou a ambos. E ele estava vivo.

 

 

Daniela Dias (São Paulo-SP, 1982). Jornalista, mantém o blogue Quimerópolis, onde coloca seus avessos e reversos. Fonte Escritoras Suicidas

11/06/2009 - 18:14h a chuva

 


andréa motta

 

Ouviste a chuva me perguntas

com alegria infantil

respondo-te singelamente

não só a ouvi, também a vi.

 

Porque estava frio,

em meu corpo

não a senti.

 

Mas, na música da chuvarada

os córregos que estavam por um fio,

em plena madrugada,

tornaram-se caudalosos e silenciosos rios.

 

Não resta dúvida, em território lasso,

o profuso pranto

de tratos, traços e encantos,

explodiu em fulgor plural.

 

E aos poetas

se não trouxe a rima

nem a cadência

trouxe a divina inspiração.

 

 

Andréa Motta. Paulistana, reside em Curitiba. Paranaense de coração, solteira por opção, tem um filho. Se pudesse, viveria junto ao mar. Adora a natureza, filosofia, história, fotografia. Suas grandes paixões são indiscutivelmente seu filho, o Direito e a Poesia. Seus textos podem ser encontrados no blogue Jardim de Poesia. Fonte Escritoras Suicidas

10/06/2009 - 17:27h No compasso da vida

 

cláudia villela de andrade

 

“Viver é muito perigoso”, já dizia nosso Guimarães Rosa.

Imagine você que hoje estou aqui no enterro do meu amigo Rocha, companheiro de toda a vida. Rocha era menino ainda, de uns quatro anos, quando sua mãe, costureira, foi morar lá na minha rua. Eu tinha pouco mais de dois, dois anos e meio, e ficamos amigos logo no primeiro dia. Brincávamos na calçada enquanto mamãe estendia a roupa no varal. Nunca brigávamos um com o outro. Éramos amigos mesmo. Talvez por sermos, os dois, filhos únicos, sempre nos tratamos como irmãos.

Quando fui para a escola pela primeira vez, o Rocha foi comigo. A mãe dele não queria que ele aprendesse as letras, não. Dizia que isso não deixava as mãos calejadas, imagina! Minha mãe foi quem convenceu a costureira a deixá-lo ir comigo. Íamos juntos, de mãos dadas. Por várias vezes ele me salvou dos amigos no recreio. Eu era muito implicante e malcriado e abusava dos colegas. Rocha era um garoto forte, bem disposto e se punha na frente do primeiro que viesse me bater. Aí mesmo é que eu provocava.

Fizemos juntos o curso ginasial inteiro. Depois, fui para a faculdade e Rocha foi ser carpinteiro. Sua mãe queria ver as mãos dele calejadas de qualquer maneira. Conseguiu. Ele se tornou um excelente carpinteiro. Dos melhores daqui da cidade.

Quando terminei o curso e voltei para a casa de meus pais, ele havia se casado. Sua mãe tinha morrido de tuberculose e ele, muito sozinho, se casou com a primeira namorada que encontrou. Voltamos, então, a ser vizinhos e novamente estreitamos nossa amizade. Jantava na casa dele uma vez por semana. Aos domingos, ainda íamos juntos pescar. Como vê, continuamos a ser mais do que amigos. Éramos irmãos.

Um dia, a esposa do Rocha pôs as pernas sobre as minhas, por debaixo da mesa, na hora do jantar. Nunca, na minha vida, havia experimentado tamanha indignação. Mas, respirei fundo, puxei minhas pernas, devagar e nada falei. Achei melhor me calar e pensar muito sobre isso até decidir o que fazer. Naquela noite mal dormi de tanto pensar. Que traição a dela! Logo comigo, um irmão da casa. E agora, o que faria eu? Afastar-me-ia do amigo querido? Contaria a ele que sua mulher era uma vagabunda e estava me dando bola? Ignoraria tudo e continuaria a freqüentar-lhe a casa como se nada tivesse acontecido ou a chamaria num canto, sem que ele estivesse em casa, e falaria com ela? O que fazer? Pensava sem parar.

Na manhã seguinte, depois do café, ainda com as olheiras profundas de quem não fechou os olhos a noite inteira, fui bater à porta do amigo que, já sabia, estava no trabalho há tempos. A senhora abriu a porta e ressabiada mandou que eu entrasse. Corajosamente, fiz-lhe ver o absurdo que ela praticara e que eu nunca poderia trair meu amigo, meu irmão… e ela então? Por que fizera isso? Por que comigo? Um companheiro de uma vida, do Rocha! Calada, ela ouviu toda a minha indignação. Olhando bem dentro dos meus olhos, lançou-me ao rosto a verdade mais absoluta e secreta que um casal tem durante a vida de casado:

— Enjoei dele — disse-me, sem pestanejar — se não for com você, vai ser com outro. Com qualquer um. Mas vai ser. Escolhi você justamente por ser o mais de casa, o mais conhecido, o mais irmão do meu marido. Essa proximidade de vocês dois é que me faz querer você. Como dividem tantas coisas, por que não podem me dividir? Outro qualquer vai sair por aí falando de mim. Você não falaria. Você é nobre, amigo, médico, companheiro do Rocha.

Fiquei perplexo ao ouvir todas aquelas palavras. Que será que era aquilo, meu Deus! Não podia acreditar que aquela criatura de um metro e cinqüenta, quarenta e oito quilos, estava me dizendo com a cara mais lavada do mundo!

Agora aqui, enterrando meu melhor amigo, depois de uma vida inteira, sou obrigado a confessar que realmente dividimos até a mulher. Juntei todos os meus sentimentos num só. Para o amigo, tomei-lhe conta da mulher. Ela não seria de ninguém mais e não o exporia a situações ridículas na rua. Para a mulher, dei-lhe o que queria e até mais, porque a amei de verdade. Para mim, resolvi um sério problema que sempre tive de não querer assumir responsabilidades maiores. Visitava-a durante as tardes, somente, e nunca ninguém ficou sabendo de nada.

Viver é mesmo perigoso, Guimarães. Mas é muito bom!

(Conto selecionado no Concurso Nelson Rodrigues, patrocinado pela Editora Nova Fronteira e pela Oficina Literária de Sônia Rodrigues, filha do autor.)

Cláudia Villela de Andrade (Rio de Janeiro, 1956). Professora, escritora e poeta. Recebeu vários prêmios literários, destacando-se o Prêmio Áureo Nonato 2007, da Prefeitura de Manaus, destinado ao melhor livro de memória: Prosas do ninho. Organizou e participou da antologia poética DiVersos (Editora Scortecci, 2002) e da antologia de prosa, Com licença da palavra (Editora Scortecci, 2003). Fonte Escritoras Suicidas

09/06/2009 - 18:12h Sem título

 anike laurita  

vaguei pela madrugada catando papéis. biscoito da sorte e horóscopo eu desisti. perdi meus passos na encruzilhada dos teus. meu pai me ensinou o caminho mais difícil. por Dédalo, por que fostes tão longe na ânsia de me fortalecer? enxáguo as roupas tentando decifrar os códigos. escorregadios. movimentos aleatórios e solitários. cheguei perto demais do Sol ofuscada pela minha dor. fluí pequena sem perceber. casa de madeira. coração de lava. minha prisão é clara. panóptico. milhões de chaves e nada para abrir. fecha aqui, fecha acolá. olhares estranhos me deixam acuada. faca de dois gumes. peão e rei. desacredito no medo. viajei por mundos oníricos e perdi muita bagagem. rios. continuo corrente. barro. sou muito mulher. descobri minha deusa lutando contra Titãs. não esperavam isso de mim. eu era uma criança terrivelmente obediente e isto me magoa. morro aos poucos tentando me engolir. antropofagia. apetite de cão sem dono. flutuo tentando te apontar a entrada. fraquejo. retorno. círculo sagrado. tempero tua carne. desvendar você pode ser a imagem que me falta. estou entrelaçada na tua bússola. vou começar pelo fim e dar minha cara a tapa. quando pensei que era um anjo podaram minhas asas. eu tô quase chegando em mim de novo.

Anike Laurita (Ilha do Desterro/SC, 1980) Mulher nascida fora do seu tempo, alimenta-se de reminiscências e estranhamentos. Seu passatempo preferido é desconstruir as veladas relações amorosas dos tempos hipermodernos, o que tem lhe rendido muito material criativo e dezenas de desilusões. Edita o blogue Pedro e Cachorrita. Fonte Escritoras Suicidas

08/06/2009 - 18:36h Lixo, poder e haraquiri

3 poemas

aline valentine

 

 

lixo

a(ca)lma

 

lindas pétalas envelhecidas

caem do lixo da minha alma

e teias de aranha cobertas de pó

e mais as caixas memoriais dos outonos passados

 

não é fácil enxergar quando se está cega

ou então tentar quando já perdeu as tentativas

mas a vida está aqui

look at the stars!

sempre há uma luz em cada escuridão

então eu tento

limpar o que já está apodrecendo

e renovar o que já foi gasto por demais

que limpeza ordinária!

sempre ficam resquícios que então eu (não) tiro

 

já tentei de tudo um pouco

mas a pureza do algodão ainda me fascina

então espere por mim, meu amor

que a minha alma logo acalma

 

 

 

poder

(um pedido de desculpas)

 

sinto muito te dizer isso, meu amigo

mas nem sempre o sol vai brilhar pra você

nem sempre as pessoas sorrirão quando te virem

nem sempre você será acordado com um beijo

nem sempre você será o centro das conversas

 

sinto muito te dizer isso, meu amigo

mas o infortúnio de hoje

será a glória de amanhã

então senta aí

que eu também estou esperando

já faz uns anos.

 

 

 

haraquiri

(a new beginning)

 

so here I am

sem meias palavras ou promessas

apenas inteira e eterna

não como as rosas argentinas

mas como a alma eterna e densa

que se faz secreta para ser duradoura

e misteriosa como o pôr-do-sol em Pequim

com o chá oriental

 

aguarde mais um minuto

ou, se preferir, a vida inteira

só não diga depois que não avisei

assim será bem melhor

meu bem

com açúcar, com afeto

sem cair no chão as migalhas, por favor.

 

 

 

 

Aline Valentine (1987), nasceu em Maringá (PR), numa dessas manhãs frias de outono. Desde pequena ela já trocava as bonecas por lápis e papel, escrevendo sobre tudo o que pudesse ser transformado em palavras. Admiradora das palavras líricas e espirituais de Adélia Prado, seus textos retratam a humanidade e a divindade do ser humano e de seus sentimentos. Edita o blogue Oh-Lili.


Fonte Escritoras Suicidas

06/06/2009 - 18:42h 3 contos, 3 poemas

samantha abreu


a armadura moderna

A força da vida dói.

Ela acorda cedo, os olhos inchados. Ao se levantar, sente os pés arderem no chão gelado. Em cada passo até o banheiro seu corpo estremece e sua frio: o desespero lhe explode os poros, a vida amanhece e a joga em um cotidiano febril.

Não quer mais essa rotina de mulher moderna cheia de afazeres. Deseja apenas sua cama e suas tarefas domésticas realizáveis. Sob o chuveiro, imagina que a água leva pelo ralo toda sua revolta pelo despertar do dia. Ao banho foi entregue o cargo de filtro entre sua vontade de permanecer dona de casa e a necessidade de se jogar à vida que a espera na rua.

Ela resiste, mas depois de lavada com água e espuma, veste-se com o tal empreendedorismo feminino e finge satisfação o dia todo.

Tudo recomeça à noite.

sessão matinê

Cinema era bom de terça, depois do almoço. Ia sozinha e podia comer dois potes de pipoca. Pedia tamanho médio, pois se pedisse pequeno, teria que comprar três e evidenciaria não só sua solteirice tardia, mas também seu desespero por ocupar a boca com algo que não viesse de outra boca.

Já tinha passado da idade para sessões da tarde, mas o horário propiciava sua conveniente solidão, e ninguém conhecido a veria. Podia sentar nas poltronas do meio, bem em frente à enorme tela. Conseguia esquecer, por algumas horas, de quem era. Imaginava-se na pele de tantas atrizes e personagens que, inevitavelmente, ao final, saía pela porta vestida sob a sutileza de outros papéis.

Assim, qualquer dor era remediável. O cinema era mesmo bom durante as matinês de terça, no mesmo horário das consultas que a tentavam fazer descobrir-se.

por trás de um disfarce

Sueli trabalha no hotel Remanso, na metade da BR-365. Sua mãe também já trabalhou lá e ensinara à filha que devia impor respeito àqueles homens sem paradeiro que passavam pelo local. Explicara que eles procuravam por descanso, chuveiro e, se possível, uma companhia relaxante. E que não fosse dela!

A garota, desde então, se veste castamente e não sabe olhar nos olhos. Disfarça, abaixa o olhar, não encara. Quando a mãe se deu conta do sucesso da boa educação da filha, descansou. Filha minha é exemplo, dizia orgulhosa.

No restaurante, alguns caminhoneiros perguntam curiosos e excitados pela garota que deixa as tais fitas de vídeo nos quartos.

Sueli sabe fingir, mas gosta mesmo é de arrancar a roupa todas as vezes que faz a arrumação daquelas camas e sente o cheiro daqueles desconhecidos. Leva a câmera dentro do cesto com lençóis e faz daqueles quartos sujos seu pequeno estúdio de fantasias. A que mais gosta é pintar as unhas dos pés de vermelho e se imaginar de pernas ao alto, dentro de uma boleia.

Se existisse mesmo vida após a morte, a mãe já teria voltado para acabar com tamanho desgosto.

no final, a droga

Se, no final, a porra é sujeira,

de que vale o prazer?

Todo fim, cara no espelho,

e o diálogo com si mesma:

” — Estúpida!”

Porque eu me faço demente

e aceito o sonho

como único

universo a que pertenço.

Mas não sei andar em nuvens.

Se, no final, a euforia é o vício,

de que vale a droga?

Todo fim, corpo em pedaços,

e na reconstrução para o amor:

” — Seu Cabaço!”

(in) crível

Essa estranha beleza

em racionalizar.

Ser dolorido,

mas ser verdadeiramente.

Tocar sua carne nua,

e saber-te

onde, saber-te quando.

Não me parece mais encantado

nosso mundo.

Não tenho mais aquelas

fantasias.

Talvez, a realidade não seja assim

tão boa

para amores insólitos.

colombina

Tenho mágoa do mundo.

E não só

pelos amores que perdi ou

pelos filhos que não tive,

mas, talvez,

por todas as batalhas que arrisco.

Com o fundo da língua

empurro essa dor para dentro,

para o fundo.

E na boca,

aqui,

nessa boca,

simulo, quem sabe,

um sorriso.


Samantha Abreu é de Londrina, PR. Escreve os blogues Alta Intimidade e Mulheres sob Descontrole. Já foi publicada em antologias; tem textos em revistas e sites literários. No entanto, só escreve porque é viciada em fantasias e tem a cabeça povoada por personalidades múltiplas e intimamente reveladas.

Blog Escritoras Suicidas

02/06/2009 - 18:53h Ausência

Carla Dias

Bebi… sim…

de gole em gole, refrescou-se o silêncio
com a balbúrdia
da tua sofisticada
ausência.

Enveredou-se
pela trilha estreita,
Gritando,
voluptuosidade
ao inverno
e ao sol que gela.

Pouco a pouco,
reviram-se papéis
sobre a mesa
na hora do jantar.

Palavras sobrevoam
a fome latente.
Parece bonito,
mas quase arde.
Lentamente,
sedas se arrastam
pelo chão
da tua ausência.

Assim como meu corpo,
cravado em dúvidas,
no sofá,
retrata nosso momento fatal.

Não me traga
um rosto
quase pálido
de vida.

Traga-me
o perfume
engarrafado
no teu sorriso.

Assim
a ausência passa
e com ela
o grande perigo.

Perder…

31/05/2009 - 18:24h Diferença

Maria Teresa Horta

Aquilo que é secreto
à tua beira
e longe de ti se torna
tão corrente

Aquilo que é vulgar
longe de ti
mas se estás perto
se torna tão diferente

Aquilo que é mistério
indecifrável

se te aproximas até à minha
cama

E que se torna
raivosamente instável
se por acaso não dizes que me amas

Aquilo que é segredo
se o não escutas
e a tua beira fica
desvairado

Destino, Quetzal Editores, 1998 – Lisboa, Portugal