09/08/2012 - 17:00h Estopim

Estopim é um romance de Carla Dias, e trata sobre como a vida pode mudar a partir de escolhas simples, até mesmo rotineiras. É um vislumbre sobre a transformação de quem se desiludiu profundamente com o mundo e consigo mesmo, e muito cedo, escolhendo a solidão como companhia, e então despertou novamente para a vida por conta de escolhas alheias, porém não da maneira mais agradável, e sim buscando o por detrás das máscaras, a crueza do sentimento e a verdade das ações.

As histórias paralelas a de Olavo, personagem central da trama, abordam o abandono em diversas nuances.

Olavo e Alexandre eram mais que irmãos, também eram amigos, cúmplices, inseparáveis, faziam grandes planos para quando fossem adultos. Olavo seria historiador e Alexandre astrônomo. Quando a mãe deles, uma professora de Biologia, descobre que tem pouco tempo de vida, ela decide trazer à tona um segredo que jamais pensou que teria de revelar. Dois anos mais velho que Olavo, Alexandre era filho de um matemático espanhol que sua mãe conheceu quando ele esteve na escola onde ela dava aulas. Apesar das regulares visitas do espanhol, principalmente depois do divórcio dela, nem mesmo ele sabia da verdade. Em busca de quem cuidasse dos seus filhos, quando não estivesse mais presente, ela revela o segredo e pede ao espanhol que cuide deles. O matemático se apaixona de imediato por Alexandre, pela paternidade, mas se recusa a levar Olavo com ele para Madri.

Para Olavo, separar-se do irmão foi um golpe, e lhe rendeu um desamparo sem fim, abonado pela dor de ver sua mãe definhando, a cada dia. Durante meses, os irmãos mantiveram contato, através de cartas, mas isso logo se tornou raro. No dia do enterro da mãe, Olavo recebeu de Alexandre um telegrama, lamentando a perda. Depois disso, eles se distanciaram ainda mais.

Uma prima de sua mãe cuidou de Olavo, até que ele chegou à maioridade e foi se virar sozinho. Durante os anos sob a batuta dessa mulher, ele compreendeu que não havia uma única pessoa em sua vida que tivesse tanta importância quanto as que ele perdera.

Aos poucos, Olavo se tornou um homem distante, sem ambição. Seguiu o plano da infância e se formou em História, mas o diploma ficou na gaveta. Acostumado aos empregos temporários, sem o desejo de ser profissional de carreira, durante os anos que se seguiram ele apenas aconteceu com a vida, sem qualquer esforço para vivenciar as experiências que ela oferecia.

O que Olavo não esperava era que sua vida se transformasse completamente com uma série de acontecimentos que chegaram praticamente juntos. O irmão vem de Madri, astrônomo famoso, e mesmo diante das declarações nada gentis de Olavo, através das quais deixava claro a visita ser completamente desnecessária, Alexandre faz questão de reencontrá-lo. Pressionado pela diretora da empresa onde trabalha como operador de telemarketing, ele tenta angariar o máximo de clientes, até que conhece Julia, uma mulher que, nos quase dez anos que se seguem, e sem nunca se encontrarem pessoalmente, apenas se falarem por telefone, torna-se sua conselheira, sua consciência, assim como lhe abre as portas para o imaginário, porque ao se dizer acrobata, Julia passa a viver nos pensamentos de Olavo também como tudo de belo e leve.

No mesmo momento da chegada do irmão e de conhecer Julia, Olavo se envolve com Gilda, atendente de locadora de filmes, com quem tem um breve romance. Gilda tem os seus mistérios e suas histórias, como a do professor de filosofia da faculdade por quem se apaixonou. Ele era um falsário, vivendo um papel que não lhe cabia, sedutor no dizer ideologia, então conquistava a todos facilmente. Porém, olhando além do fascínio proporcionado pela paixão, ela enxergou a verdade sobre ele. Tratava-se de um manipulador, um psicopata que provocou a morte de um dos estudantes que o contradisse. Ela foge dele, mas o reencontra mais tarde, quando está com Olavo. Sem dar muitos detalhes, Gilda conta a Olavo que, depois de deixar a faculdade, antes que descobrissem que o professor jamais fora sequer formado, ele se mudou para outro estado, e já desprovido da elegância do filósofo, tornou-se o mais competente traficante internacional de bebês, fazendo fortuna e comprando prestígio.

Assustada com esse encontro, crente de que será punida pelo ex-amante, Gilda se afasta de Olavo, sumindo completamente. É esse sumiço, a sensação sufocante de não tê-la ajudado, que fará com que Olavo não apenas mude o rumo da sua biografia, mas também se dedique intensamente a procurar por Gilda, enquanto alimenta a fantasia de que ela seria mulher de sua vida.

Os anos que Olavo gasta imaginando o que poderia ter acontecido a Gilda, também são anos em que ele se aproxima dos assuntos aos quais jamais dera importância antes, pois não eram seus. É o período, longo e repleto de inseguranças, em que ele aprende a importância daqueles que permanecem o seu lado.

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Premiação

O livro Estopim foi premiado pelo ProAc – Programa de Ação Cultural, da Secretaria de Estado da Cultura.


Carla Dias, autora do livro, já publicou outros dois romances contando com a premiação do ProAc:


Os estranhos: http://osestranhoslivro.blogspot.com
Jardim de Agnes: http://jardimdeagnes.blogspot.com

04/04/2012 - 17:40h En una tempestad

José María Heredia

Huracán, huracán, venir te siento,
Y en tu soplo abrasado
Respiro entusiasmado
Del señor de los aires el aliento.

En las alas del viento suspendido
Vedle rodar por el espacio inmenso,
Silencioso, tremendo, irresistible
En su curso veloz. La tierra en calma
Siniestra; misteriosa,
Contempla con pavor su faz terrible.
¿Al toro no miráis? El suelo escarban,
De insoportable ardor sus pies heridos:
La frente poderosa levantando,
Y en la hinchada nariz fuego aspirando,
Llama la tempestad con sus bramidos.

¡Qué nubes! ¡qué furor! El sol temblando
Vela en triste vapor su faz gloriosa,
Y su disco nublado sólo vierte
Luz fúnebre y sombría,
Que no es noche ni día…
¡Pavoroso calor, velo de muerte!
Los pajarillos tiemblan y se esconden
Al acercarse el huracán bramando,
Y en los lejanos montes retumbando
Le oyen los bosques, y a su voz responden.

Llega ya… ¿No le veis? ¡Cuál desenvuelve
Su manto aterrador y majestuoso…!
¡Gigante de los aires, te saludo…!
En fiera confusión el viento agita
Las orlas de su parda vestidura…
¡Ved…! ¡En el horizonte
Los brazos rapidísimos enarca,
Y con ellos abarca
Cuanto alcanzó a mirar de monte a monte!

¡Oscuridad universal!… ¡Su soplo
Levanta en torbellinos
El polvo de los campos agitado…!
En las nubes retumba despeñado
El carro del Señor, y de sus ruedas
Brota el rayo veloz, se precipita,
Hiere y aterra a suelo,
Y su lívida luz inunda el cielo.

¿Qué rumor? ¿Es la lluvia…? Desatada
Cae a torrentes, oscurece el mundo,
Y todo es confusión, horror profundo.
Cielo, nubes, colinas, caro bosque,
¿Dó estáis…? Os busco en vano:
Desparecisteis… La tormenta umbría
En los aires revuelve un oceano
Que todo lo sepulta…
Al fin, mundo fatal, nos separamos:
El huracán y yo solos estamos.

¡Sublime tempestad! ¡Cómo en tu seno,
De tu solemne inspiración henchido,
Al mundo vil y miserable olvido,
Y alzo la frente, de delicia lleno!
¿Dó está el alma cobarde
Que teme tu rugir…? Yo en ti me elevo
Al trono del Señor: oigo en las nubes
El eco de su voz; siento a la tierra
Escucharle y temblar. Ferviente lloro
Desciende por mis pálidas mejillas,
Y su alta majestad trémulo adoro.

fonte Clepsidra

03/03/2012 - 17:00h PARATY POÉTICA ABERTURAS

Silviano Santiago fará a abertura da festa, que homenageia Drummond

03 de março de 2012

MARIA FERNANDA RODRIGUES – O Estado de S.Paulo

No ano em que Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) será homenageado na 10.ª Festa Literária Internacional de Paraty, de 4 a 8 de julho, Silviano Santiago fará a conferência de abertura. O escritor, crítico literário e colunista do Estado pretende tratar, na noite de 4 de julho, sobre a atualidade e o cosmopolitismo do poeta mineiro, que ele conheceu pessoalmente e com quem organizou Carlos e Mário, livro de correspondências trocadas com Mário de Andrade – que seria lançado em 2002.

“A atualidade de Drummond é inegável. Paralelamente aos outros grandes poetas modernistas, ele apresenta uma diversificação temática, estilística e de dicções poéticas muito grande e isso o torna uma figura bem mais complexa que os demais modernistas. É por essa diversificação que ele nunca cairá no lugar comum da poesia de gosto fácil”, diz Santiago, que lançou, em 1976, obra de ensaios sobre o poeta. Ao mesmo tempo, conta, ele tinha um “tino extraordinário para poemas que cairiam no gosto do público, como José”.

A questão do cosmopolitismo, uma das grandes características da poesia de Drummond segundo o crítico, deve ganhar destaque na apresentação. Drummond não conheceu a Europa e nem os Estados Unidos, e a Argentina foi o único país estrangeiro que ele visitou, relembra o crítico. “Mas desde o início ele mostra uma visão de mundo muito ampla que coincide com esse desejo do Brasil hoje de falar menos sobre o umbigo e mais sobre as relações internacionais.”

Santiago e Drummond se encontraram algumas vezes – a primeira delas foi em 1955. Depois, como eram vizinhos de rua, se cruzaram pelo Rio. Estiveram juntos duas ou três vezes nos famosos Sabadoyles, nome dado às reuniões de sábado realizadas por Plínio Doyle em sua casa, e em outros momentos. Para Santiago, Drummond era tímido, mas não era sério. Tanto que mudava a voz ao atender o telefone para evitar os chatos.

23/02/2012 - 17:00h A escolha de Myriam

CASA TOMADA

Julio Cortázar

Gostávamos da casa porque, além de ser espaçosa e antiga (as casas antigas de hoje sucumbem às mais vantajosas liquidações dos seus materiais), guardava as lembranças de nossos bisavós, do avô paterno, de nossos pais e de toda a nossa infância.
Acostumamo-nos Irene e eu a persistir sozinhos nela, o que era uma loucura, pois nessa casa poderiam viver oito pessoas sem se estorvarem. Fazíamos a limpeza pela manhã, levantando-nos às sete horas, e, por volta das onze horas, eu deixava para Irene os últimos quartos para repassar e ia para a cozinha. O almoço era ao meio-dia, sempre pontualmente; já que nada ficava por fazer, a não ser alguns pratos sujos. Gostávamos de almoçar pensando na casa profunda e silenciosa e em como conseguíamos mantê-la limpa. Às vezes chegávamos a pensar que fora ela a que não nos deixou casar. Irene dispensou dois pretendentes sem motivos maiores, eu perdi Maria Esther pouco antes do nosso noivado. Entramos na casa dos quarenta anos com a inexpressada ideia de que o nosso simples e silencioso casamento de irmãos era uma necessária clausura da genealogia assentada por nossos bisavós na nossa casa. Ali morreríamos algum dia, preguiçosos e toscos primos ficariam com a casa e a mandariam derrubar para enriquecer com o terreno e os tijolos; ou melhor, nós mesmos a derrubaríamos com toda justiça, antes que fosse tarde demais.
Irene era uma jovem nascida para não incomodar ninguém. Fora sua atividade matinal, ela passava o resto do dia tricotando no sofá do seu quarto. Não sei por que tricotava tanto, eu penso que as mulheres tricotam quando consideram que essa tarefa é um pretexto para não fazerem nada. Irene não era assim, tricotava coisas sempre necessárias, casacos para o inverno, meias para mim, xales e coletes para ela. Às vezes tricotava um colete e depois o desfazia num instante porque alguma coisa lhe desagradava; era engraçado ver na cestinha aquele monte de lã encrespada resistindo a perder sua forma anterior. Aos sábados eu ia ao centro para comprar lã; Irene confiava no meu bom gosto, sentia prazer com as cores e jamais tive que devolver as madeixas. Eu aproveitava essas saídas para dar uma volta pelas livrarias e perguntar em vão se havia novidades de literatura francesa. Desde 1939 não chegava nada valioso na Argentina. Mas é da casa que me interessa falar, da casa e de Irene, porque eu não tenho nenhuma importância. Pergunto-me o que teria feito Irene sem o tricô. A gente pode reler um livro, mas quando um casaco está terminado não se pode repetir sem escândalo. Certo dia encontrei numa gaveta da cômoda xales brancos, verdes, lilases, cobertos de naftalina, empilhados como num armarinho; não tive coragem de lhe perguntar o que pensava fazer com eles. Não precisávamos ganhar a vida, todos os meses chegava dinheiro dos campos que ia sempre aumentando. Mas era só o tricô que distraía Irene, ela mostrava uma destreza maravilhosa e eu passava horas olhando suas mãos como puas prateadas, agulhas indo e vindo, e uma ou duas cestinhas no chão onde se agitavam constantemente os novelos. Era muito bonito.
Como não me lembrar da distribuição da casa! A sala de jantar, lima sala com gobelins, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, a que dá para a rua Rodríguez Pena. Somente um corredor com sua maciça porta de mogno isolava essa parte da ala dianteira onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos e o salão central, com o qual se comunicavam os quartos e o corredor. Entrava-se na casa por um corredor de azulejos de Majorca, e a porta cancela ficava na entrada do salão. De forma que as pessoas entravam pelo corredor, abriam a cancela e passavam para o salão; havia aos lados as portas dos nossos quartos, e na frente o corredor que levava para a parte mais afastada; avançando pelo corredor atravessava-se a porta de mogno e um pouco mais além começava o outro lado da casa, também se podia girar à esquerda justamente antes da porta e seguir pelo corredor mais estreito que levava para a cozinha e para o banheiro. Quando a porta estava aberta, as pessoas percebiam que a casa era muito grande; porque, do contrário, dava a impressão de ser um apartamento dos que agora estão construindo, mal dá para mexer-se; Irene e eu vivíamos sempre nessa parte da casa, quase nunca chegávamos além da porta de mogno, a não ser para fazer a limpeza, pois é incrível como se junta pó nos móveis. Buenos Aires pode ser uma cidade limpa; mas isso é graças aos seus habitantes e não a outra coisa. Há poeira demais no ar, mal sopra uma brisa e já se apalpa o pó nos mármores dos consoles e entre os losangos das toalhas de macramê; dá trabalho tirá-lo bem com o espanador, ele voa e fica suspenso no ar um momento e depois se deposita novamente nos móveis e nos pianos.
Lembrarei sempre com toda a clareza porque foi muito simples e sem circunstâncias inúteis. Irene estava tricotando no seu quarto, por volta das oito da noite, e de repente tive a ideia de colocar no fogo a chaleira para o chimarrão. Andei pelo corredor até ficar de frente à porta de mogno entreaberta, e fazia a curva que levava para a cozinha quando ouvi alguma coisa na sala de jantar ou na biblioteca. O som chegava impreciso e surdo, como uma cadeira caindo no tapete ou um abafado sussurro de conversa. Também o ouvi, ao mesmo tempo ou um segundo depois, no fundo do corredor que levava daqueles quartos até a porta. Joguei-me contra a parede antes que fosse tarde demais, fechei-a de um golpe, apoiando meu corpo; felizmente a chave estava colocada do nosso lado e também passei o grande fecho para mais segurança.
Entrei na cozinha, esquentei a chaleira e, quando voltei com a bandeja do chimarrão, falei para Irene:
— Tive que fechar a porta do corredor. Tomaram a parte dos fundos.
Ela deixou cair o tricô e olhou para mim com seus graves e cansados olhos.
— Tem certeza?
Assenti.
— Então — falou pegando as agulhas — teremos que viver deste lado.
Eu preparava o chimarrão com muito cuidado, mas ela demorou um instante para retornar à sua tarefa. Lembro-me de que ela estava tricotando um colete cinza; eu gostava desse colete.
Os primeiros dias pareceram-nos penosos, porque ambos havíamos deixado na parte tomada muitas coisas de que gostávamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene pensou numa garrafa de Hesperidina de muitos anos. Frequentemente (mas isso aconteceu somente nos primeiros dias) fechávamos alguma gaveta das cômodas e nos olhávamos com tristeza.
— Não está aqui.
E era mais uma coisa que tínhamos perdido do outro lado da casa.
Porém também tivemos algumas vantagens. A limpeza simplificou-se tanto que, embora levantássemos bem mais tarde, às nove e meia, por exemplo, antes das onze horas já estávamos de braços cruzados. Irene foi se acostumando a ir junto comigo à cozinha para me ajudar a preparar o almoço. Depois de pensar muito, decidimos isto: enquanto eu preparava o almoço, Irene cozinharia os pratos para comermos frios à noite. Ficamos felizes, pois era sempre incômodo ter que abandonar os quartos à tardinha para cozinhar. Agora bastava pôr a mesa no quarto de Irene e as travessas de comida fria.
Irene estava contente porque sobrava mais tempo para tricotar. Eu andava um pouco perdido por causa dos livros, mas, para não afligir minha irmã, resolvi rever a coleção de selos do papai, e isso me serviu para matar o tempo. Divertia-nos muito, cada um com suas coisas, quase sempre juntos no quarto de Irene que era o mais confortável. Às vezes Irene falava:
— Olha esse ponto que acabei de inventar. Parece um desenho de um trevo?
Um instante depois era eu que colocava na frente dos seus olhos um quadradinho de papel para que olhasse o mérito de algum selo de Eupen e Malmédy. Estávamos muito bem, e pouco a pouco começamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar.
(Quando Irene sonhava em voz alta eu perdia o sono. Nunca pude me acostumar a essa voz de estátua ou papagaio, voz que vem dos sonhos e não da garganta. Irene falava que meus sonhos consistiam em grandes sacudidas que às vezes faziam cair o cobertor ao chão. Nossos quartos tinham o salão no meio, mas à noite ouvia-se qualquer coisa na casa. Ouvíamos nossa respiração, a tosse, pressentíamos os gestos que aproximavam a mão do interruptor da lâmpada, as mútuas e frequentes insônias.
Fora isso tudo estava calado na casa. Durante o dia eram os rumores domésticos, o roçar metálico das agulhas de tricô, um rangido ao passar as folhas do álbum filatélico. A porta de mogno, creio já tê-lo dito, era maciça. Na cozinha e no banheiro, que ficavam encostados na parte tomada, falávamos em voz mais alta ou Irene cantava canções de ninar. Numa cozinha há bastante barulho da louça e vidros para que outros sons irrompam nela. Muito poucas vezes permitia-se o silêncio, mas, quando voltávamos para os quartos e para o salão, a casa ficava calada e com pouca luz, até pisávamos devagar para não incomodar-nos. Creio que era por isso que, à noite, quando Irene começava a sonhar em voz alta, eu ficava logo sem sono.)
É quase repetir a mesma coisa menos as consequências. Pela noite sinto sede, e antes de ir para a cama eu disse a Irene que ia até a cozinha pegar um copo d’água. Da porta do quarto (ela tricotava) ouvi barulho na cozinha ou talvez no banheiro, porque a curva do corredor abafava o som. Chamou a atenção de Irene minha maneira brusca de deter-me, e veio ao meu lado sem falar nada. Ficamos ouvindo os ruídos, sentindo claramente que eram deste lado da porta de mogno, na cozinha e no banheiro, ou no corredor mesmo onde começava a curva, quase ao nosso lado.
Sequer nos olhamos. Apertei o braço de Irene e a fiz correr comigo até a porta cancela, sem olhar para trás. Os ruídos se ouviam cada vez mais fortes, porém surdos, nas nossas costas. Fechei de um golpe a cancela e ficamos no corredor. Agora não se ouvia nada.
— Tomaram esta parte — falou Irene. O tricô pendia das suas mãos e os fios chegavam até a cancela e se perdiam embaixo da porta. Quando viu que os novelos tinham ficado do outro lado, soltou o tricô sem olhar para ele.
— Você teve tempo para pegar alguma coisa? — perguntei-lhe inutilmente.
— Não, nada.
Estávamos com a roupa do corpo. Lembrei-me dos quinze mil pesos no armário do quarto. Agora já era tarde.
Como ainda ficara com o relógio de pulso, vi que eram onze da noite. Enlacei com meu braço a cintura de Irene (acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua. Antes de partir senti pena, fechei bem a porta da entrada e joguei a chave no ralo da calçada. Não fosse algum pobre-diabo ter a ideia de roubar e entrar na casa, a essa hora e com a casa tomada.

*******

Filho de pai diplomata, Julio Cortázar nasceu por acaso em Bruxelas, no ano de 1914. Com quatro anos de idade foi para a Argentina. Com a separação de seus pais, o escritor foi criado pela mãe, uma tia e uma avó. Com o título de professor normal em Letras, iniciou seus estudos na Faculdade de Filosofia e Letras, que teve que abandonar logo em seguida, por problemas financeiros. Para poder viver, deu aulas e diversos colégios do interior daquele país. Por não concordar com a ditadura vigente na Argentina, mudou-se para Paris, em 1951.
Autor de contos considerados como os mais perfeitos no gênero, podemos citar entre suas obras mais reconhecidas “Bestiário” (1951), “Las armas secretas” (1959), ), “Rayuela”, (1963), “Todos los fuegos el fuego” (1966), “Ultimo round” (1969), “Octaedro” (1974), “Pameos y Meopas” (1971), “Queremos tanto a Glenda (1980) e “Salvo el crepúsculo” – póstumo (1984). O escritor morreu em Paris, de leucemia, em 1984.
O texto acima foi publicado originalmente em “Bestiario” e extraído do livro “Contos latino-americanos eternos”, Rio de Janeiro: Edit. Bom Texto, 2005, organização e tradução de Alicia Ramal.

15/02/2012 - 18:00h Por vezes

HANS MAGNUS ENZENSBERGER

Quando conheces alguém
mais inteligente ou mais estúpido do que tu -
não faças caso disso.
As formigas e os deuses,
acredita, sentem o mesmo.
Que exista mais gente na China,
digamos, que em San Marino,
não é uma desgraça.
A maioria das pessoas, sem dúvida, é
mais negra ou mais branca que tu.
Por vezes és um gigante,
qual Gulliver, ou um anão.
Em algum lugar ou outro estás sempre a descobrir
uma beleza ainda mais radiante,
alguém ainda pior.
És medíocre,
felizmente. Aceita-o!
Sete graus centígrados a mais
ou a menos no termómetro -
e estarias além da salvação.

14/02/2012 - 17:41h Discurso de noivado após o jantar

HANS MAGNUS ENZENSBERGER

Este eu, um recipiente, que
desde que ninguém o abra,
parece compacto, liso
como um ovo Kinder,
quase apetitoso. Somente lá,
no interior, está escuro. Quem sabe
o que estará dentro, à tua espera.
Obsessões, sem dúvida,
hábitos enferrujados,
medos incompreensíveis,
truques em segunda mão,
desejos infantis.
Que tu a desejes ter,
a esta prenda embrulhada,
roça o milagre.

13/02/2012 - 17:38h Folha

UMBERTO SABA (Trieste 1883 – Gorizia 1957), pseudónimo de Umberto Poli

Sou como aquela folha – olha –
naquele ramo nu, que ainda um prodígio
mantém presa.

Nega-me, pois. De tal não entristeça
a bela idade que te dá essa cor ansiosa
e em mim só se demora num ímpeto infantil.

Dize-me tu adeus, se pela minha parte o não consigo.
Morrer é nada; perder-te é que é difícil.

(de Mediterranee, 1946)

Tradução de David Mourão-Ferreira

11/02/2012 - 18:48h Ofício de morrer

Vasco Graça Moura - Poesia & Lda.

eu imagino assim a morte de pavese:
era um quarto de hotel em turim,
decerto um hotel modesto, de uma ou duas
estrelas, se é que havia estrelas.

uma cama de pau, de verniz estalado,
rangendo de encontros fortuitos, um colchão mole e húmido
com a cova no meio, a do costume.
corria o mês de agosto com sua terra escura

encardindo as cortinas. nada ia explodir
naquele mês de agosto àquela hora da tarde
de luz adocicada. e alguém pusera
três rosas de plástico num solitário verde.

vejo como pavese entrou, como pousou a maleta
com indiferença, dobrou alguns papéis
e despiu o casaco (como nos filmes
italianos da época). depois foi aos lavabos

no corredor, ao fundo. talvez tenha pensado
que esta vida é uma mijadela ou que.
voltou ao quarto, havia
uma fétida alma em tudo aquilo.

ele abriu a janela
e pediu a chamada telefónica.
a noite ia caindo sem palavras, memo sem businas
excessivas. encheu um copo de água. e esperou.

quando a campainha tocou, havia muito pouco
a dizer e ele já o tinha dito:
já tinha dito quanto amar nos torna
vulneráveis; e míseros, inermes;

que é precisa humildade, não orgulho;
e parar de escrever;
e que dessa nudez é que morremos.
foi mais ou menos isto – a nossa condição

demasiado humana, a voz humana, a frágil
expressão disso tudo, uma firmeza tensa.
«e até rapariguinhas o fizeram».
tinham nomes obscuros e nenhum

remorso lancinante, ninguém pra falar delas.
a mais temida coisa é a coragem
do que parecia fácil: tudo o que não se disse
carregado num acto de súbitas fronteiras.

foi mais ou menos isto. não sei se ele a seguir
pôs do lado de fora um letreiro
com do not disturb ou coisa assim,
nem se tomou as pastilhas uma a uma, ou se as contou.

não sei se o encontrou uma criada,
se a polícia veio logo, se deixou uma carta
ao seu melhor amigo, se apagou a luz,
nem se pousou ao lado a carteira, o relógio, a esferográfica.

não sei se entrou na morte como quem
traz imagens pungentes na cabeça,
palavras marteladas de desejo, ou como quem friamente
está no avesso do sono e vai calar-se e é justo.

não sei se foi assim, se existe uma outra
verdade imaginável ou vedada. sei que ele tinha
um olhar decidido, alguma instigadora, e quarenta e dois anos,
e sei que nessa altura há já poucas verdades

e nenhuma dimensão biográfica na morte.
já vem nas escrituras. eu prefiro
dizer que ele fechou a porta à chave
e sei que era viril a sua transparência.

07/02/2012 - 18:08h Os teus pés

Pablo Neruda

Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada purpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouo levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.

Tus pies (Pablo Neruda)

Cuando no puedo mirar tu cara
miro tus pies.
Tus pies de hueso arqueado,
tus pequeños pies duros.
Yo se que to sostienen,
y que tu dulce peso
sobre ellos se levanta.
Tu cintura y tus pechos,
la duplicada pu’rpura
de tus pezones,
la caja de tus ojos
que recien han volado,
tu ancha boca de fruta,
tu cabellera roja,
pequeña torre mía.
Pero no amo tus pies
sino porque anduvieron
sobre la tierra y sobre
el viento y sobre el agua,
hasta que me encontraron.

05/02/2012 - 18:43h Dominical

HANS MAGNUS ENZENSBERGER – Poesia & Lda.

SERMÃO DOMINICAL DE ASTRONOMIA

Quando a conversa se volta para as nossas desgraças –
fome, homicídios, assassinatos, etc. –
Garantido! Uma casa de loucos!
Mas, por favor, permitam-me
ressalvar, sem falsas modéstias
que apesar de tudo
é um planeta bastante favorável
este, no qual nos encontramos,

uma pérgula rosa,
comparado com Neptuno
(menos 212 graus centígrados,
velocidade do vento de mais de 600 mph
e uma pipa de metano
na atmosfera).
Só para que se saiba que noutros lugares
é muito menos confortável.

POR VEZES

Quando conheces alguém
mais inteligente ou mais estúpido do que tu -
não faças caso disso.
As formigas e os deuses,
acredita, sentem o mesmo.
Que exista mais gente na China,
digamos, que em San Marino,
não é uma desgraça.
A maioria das pessoas, sem dúvida, é
mais negra ou mais branca que tu.
Por vezes és um gigante,
qual Gulliver, ou um anão.
Em algum lugar ou outro estás sempre a descobrir
uma beleza ainda mais radiante,
alguém ainda pior.
És medíocre,
felizmente. Aceita-o!
Sete graus centígrados a mais
ou a menos no termómetro -
e estarias além da salvação.

UMA CANTIGA COR-DE-TERRA

Outro poema sobre a morte, etc. –
certamente mas e quanto à batata?
Por razões óbvias não é mencionada
por Horácio ou Homero, a batata.
E o que dizer de Rilke e Mallarmé?
Será que não lhes disse nada, a batata?
Muito poucas palavras rimam
com ela, a batata cor-de-terra?
Não é muito preocupada com o céu.
Espera pacientemente, a batata,
até que a arrastemos para a luz
e a atiremos ao fogo. A batata
não se importa, mas será possível
que seja demasiado quente para os poetas, a batata?
Bom, vamos então esperar um pouco
até que a comamos, à batata,
e a cantemos e depois a esqueçamos novamente.


DISCURSO DE NOIVADO APÓS O JANTAR

Este eu, um recipiente, que
desde que ninguém o abra,
parece compacto, liso
como um ovo Kinder,
quase apetitoso. Somente lá,
no interior, está escuro. Quem sabe
o que estará dentro, à tua espera.
Obsessões, sem dúvida,
hábitos enferrujados,
medos incompreensíveis,
truques em segunda mão,
desejos infantis.
Que tu a desejes ter,
a esta prenda embrulhada,
roça o milagre.

02/02/2012 - 18:29h Fachadas

Tomas Tranströmer – Poesia & Lda.

FACHADAS

1.

No fim da estrada vejo o poder
e é como uma cebola
com rostos sobrepostos
que caem um a um…

2.

Esvaziam-se os teatros. É meia-noite.
Palavras ardem nas fachadas.
O enigma das cartas sem resposta
afunda-se na fria cintilação.

30/01/2012 - 17:00h Amanhecer, pedradas, condição, experiência e regresso

Giorgio Caproni – Poesia & Lda.

AMANHECER

Meu amor, nos vapores dum café
ao amanhecer, meu amor que inverno
longo e que calafrio estar à tua espera! Cá
aonde o mármore do sangue é gelo, e sabe
a frescura até o olho, agora no ermo
ruído além da geada eu que elétrico
ouço, abrindo e fechando eternamente
as portas desertas?… Amor, está parado
o meu pulso: e se o copo no fragor
subtil tem um tremor nos dentes, talvez
seja o eco dessas rodas. Mas tu, amor,
não me digas que agora em vez de ti está o sol
brotando, não me digas que daquelas portas,
eu cá, com teus passos, já estou a aguardar pela morte.

(de «Il passaggio d’Enea», 1956)

PEDRADAS

Também eu tentei falar.
Sem talvez saber a língua.
Todas as frases erradas.
Em resposta: só pedradas.

CONDIÇÃO

Um homem só,
fechado no seu quarto.
Com todas as suas razões.
Com todos seus erros.
Só, nesse quarto vazio,
e falando. Aos mortos.

EXPERIÊNCIA

Todos os lugares que vi,
que visitei,
agora sei – estou certo:
nunca lá me encontrei.

REGRESSO

Voltei a esse lugar
onde nunca tinha estado.
Do que não foi, nada mudado.
Sobre a mesa (de oleado
aos quadrados) meio vazio
encontrei o mesmo copo
nunca cheio. Tudo
permanece tal e qual
eu o não tinha deixado.

29/01/2012 - 21:16h Las ideas y el caos

Domingo, 29 de enero de 2012

Mario Vargas Llosa – LA REPÚBLICA

Quienes creen que la historia de América Latina es una obra maestra de la sinrazón, un producto del puro instinto y de la fuerza bruta, deberían leer el reciente libro del historiador mexicano Enrique Krauze, Redentores. Ideas y poder en América Latina (Debate, 2011). Este ambicioso y audaz ensayo quiere mostrar, a través de perfiles biográficos de doce latinoamericanos de diversa vocación –políticos, revolucionarios, escritores, dictadores– que la evolución de América Latina no es un caos, resultante de las pasiones y los apetitos desbocados, sino una compleja trama movida por ideas y convicciones que, aunque a menudo disimuladas detrás de desplantes, matonerías y retóricas rimbombantes y huecas, le dan a aquella sentido, coherencia y racionalidad.

Como los autores de las dos obras capitales que le sirven de modelo, Russian Thinkers, de Isaiah Berlin, y To the Finland Station, de Edmund Wilson, Enrique Krauze cree firmemente que las ideas hacen siempre la historia y explican todos los grandes hechos –repugnantes o admirables, generosos o mezquinos, liberadores o esclavizantes– que constituyen el devenir de todas las sociedades y naciones.

Aunque rigurosamente trabados entre sí, los capítulos del libro son de dimensión y profundidad variada y entre el riquísimo y exhaustivo dedicado a Octavio Paz –un libro dentro del libro, en verdad– y los más breves y someros consagrados, por ejemplo, a José Martí y a Eva Perón, hay diferencias acusadas. Pero todos están escritos con desenvoltura, astucia y felicidad y se leen con la expectativa y la excitación de las mejores novelas. Redentores es una obra clave de nuestros días, una de las empresas intelectuales más audaces concebidas en el ámbito intelectual y político latinoamericano, y, por su rigor y erudición y la originalidad de sus análisis, un aporte valiosísimo para entender la actualidad y las perspectivas inmediatas de ese continente que creíamos de las oportunidades perdidas pero que, según la tesis más polémica de Krauze, ya no lo es más, pues ha entrado por fin, en medio del tumulto que es todavía su fachada, en un rumbo de verdadero progreso.

El optimismo que transpira el libro no peca de ingenuo, está fundado en datos, indicios y razonamientos persuasivos. Debo confesar que, en mi caso, ha servido para derribar desconfianzas y escepticismos que alentaba hacia algunos países, sumidos en problemas que me parecían obstáculos insalvables para que en ellos echaran raíces en un futuro próximo instituciones y costumbres democráticas sobre bases estables. Desde luego, Krauze es muy consciente de la enorme diversidad existente entre la veintena de países de América Latina y de la imposibilidad de que todos ellos progresen al mismo ritmo y de la misma manera. Es también muy lúcido sobre los desafíos mayores para la democratización que representan el narcotráfico y su inmenso poderío económico y el crecimiento desaforado de la delincuencia y la corrupción que en gran parte es su consecuencia. Lo que señala es una tendencia general a la que, unos más rápido y otros con retardo, todos se van sumando, algunos con entusiasmo y lucidez y los demás a regañadientes y hasta sin darse cuenta cabal del proceso modernizador en el que están inmersos.

Según Krauze no es casual que en la América Latina de nuestros días no haya sino una sola dictadura de tipo clásico, la de la Cuba castrista, una semidictadura demagógica y corrupta, la Venezuela de Hugo Chávez, y un par de democracias populistas y secuestradas por caudillos como la Bolivia de Evo Morales y la Nicaragua de Daniel Ortega, en tanto que todos los otros países, no importa cuán imperfectas sean todavía sus instituciones, parecen haber optado de manera resuelta por Estados de Derecho basados en la democracia política y economías de mercado. Más importante todavía: el modelo socialista autoritario que en los años sesenta y setenta reclutaba a todas las vanguardias políticas del continente y era el santo y seña de sus juventudes, está hoy prácticamente en ruinas, condenado a una marginalidad que se sigue encogiendo y que alientan apenas grupos y grupúsculos huérfanos de calor popular, en tanto que una nueva izquierda, como la que gobernó en Chile con la Unidad Popular y que gobierna ahora en países como Brasil, Uruguay, El Salvador y Perú, ha dejado atrás sus viejos sueños colectivistas y estatistas y optado por el pragmatismo democrático y de economías abiertas de la social democracia europea.

El camino para llegar hasta aquí –a la modernidad y el realismo políticos– ha sido largo, sangriento, de confusión y delirio ideológicos, sueños utópicos de redención social a través de la violencia, la guerra civil, dictaduras atroces, democracias paralizadas por la ineptitud y la venalidad de sus líderes, burócratas y parlamentarios, y Enrique Krauze lo traza en síntesis brillantes y elocuentes a través de los perfiles biográficos. Por momentos, como en las páginas dedicadas a José Vasconcelos, a Evita Perón, al Che Guevara y al Subcomandante Marcos, el libro alcanza vuelos épicos, relata deslumbrantes peripecias aventureras que parecen provenir más de las fantasías locas del realismo mágico que de una realidad documentada. Los repetidos fracasos, las enormes desigualdades económicas y sociales, el sufrimiento que las repetidas desventuras políticas han ido sembrando por todo el continente, poco a poco han ido empujando a las sociedades latinoamericanas hacia el realismo, es decir, hacia los consensos democráticos, el primero, el de coexistir en la diversidad política sin entrematarse, acatando los veredictos electorales, la renovación periódica de los gobiernos, el respeto a la libertad de expresión y al derecho de crítica, la aceptación de la propiedad, de la empresa privada y del mercado como mecanismos indispensables del desarrollo económico. Todo ello ha ido imponiéndose poco a poco, por la fuerza de las cosas, a través de la evolución de una derecha y una izquierda que, no sin reticencias y traspiés, han ido renunciando a sus viejas obsesiones excluyentes y violentistas, y cambiando de métodos.

Desde luego que nada de esto es irreversible. Enrique Krauze no cree que la historia tenga leyes inflexibles a las que los pueblos estén sometidos como los astros a la ley de gravedad, sino que aquella fluctúa, avanza o retrocede y a veces gira sobre sí misma de manera tautológica. Pero las conclusiones de su libro son elocuentes y estimulantes: comparada, no con el ideal, sino con su pasado mediato e inmediato, América Latina ha progresado de manera notable. Si sus economías van creciendo y han resistido mejor la crisis financiera que causa estragos en Estados Unidos y en Europa es porque ahora es más libre que en el pasado y porque la cultura de la libertad ha ido impregnando tanto su realidad política como la social y la económica. Nada indica que en el futuro inmediato esta tendencia vaya a cambiar. Todo lo contrario. Habría que ser ciego porfiado en materias ideológicas para creer que todavía la Cuba totalitaria, donde siguen muriendo los disidentes perseguidos por la policía política, o la Venezuela arruinada y enconada por las malas artes de Hugo Chávez, pudieran ser el modelo hacia el cual se encamina el resto del continente. Es evidente que esos regímenes representan anacronismos en proceso de desintegración –muy lenta, por desgracia– en un contexto en el que lo que se va imponiendo de manera inequívoca es el modelo democrático liberal.

Como soy uno de los doce protagonistas de Redentores, y Krauze me dedica un generoso ensayo, he tenido dudas hamletianas antes de reseñarlo. Sé de sobra las suspicacias que este artículo puede despertar. Pero lo hago porque, como todavía las ideas que su autor defiende tienen tanta dificultad para ser reconocidas y aceptadas en el medio intelectual latinoamericano –paradójicamente más retrógrado que el político y el económico–, me temo que no tenga la difusión que se merece y sea víctima de la discriminación y censura que aún practica el establishment cultural, controlado por un progresismo de pacotilla. Krauze tiene el coraje de proclamarse un liberal en un medio donde todavía esta parece una mala palabra, asociada a las ideas de explotación y egoísmo capitalista, y otro de los grandes méritos de su ensayo es devolver a aquella su prístino sentido de defensor y amante de la libertad como valor supremo, pero de ninguna manera disociada de la justicia y de la convicción de que ésta, en el dominio social, sólo puede significar la creación de una sociedad donde haya igualdad de oportunidades para todos. En este sentido, tiene muchísima razón cuando sostiene que el liberalismo está más cerca de la social democracia que del conservadurismo, y que, buena parte del proceso de modernización de América Latina se debe a que, sin que nadie lo quisiera ni advirtiera, ambas tendencias se han ido acercando y confundiendo en la realidad, empujando de este modo la civilización y haciendo retroceder la barbarie. Su libro es un hito decisivo en este proceso civilizador.

Londres, enero de 2012

28/01/2012 - 18:06h Para escapar do cárcere do real

A partir da análise de ‘Os Miseráveis’, de Victor Hugo, ‘A Tentação do Impossível’, de Mario Vargas Llosa, reflete sobre as ambições que norteiam a arte da escrita
28 de janeiro de 2012

Ensaio de Vargas Llosa é o testemunho de seu fascínio pela cultura francesa - Justin Lane/EFE - Arquivo

Ensaio de Vargas Llosa é o testemunho de seu fascínio pela cultura francesa – Justin Lane/EFE – Arquivo


Carlos Granés – O Estado SP

A julgar pela vastidão da obra que deixou, pareceria que a vida de Victor Hugo se consagrou exclusivamente a compor poemas, redigir ensaios, escrever peças de teatro e planejar suas imensas criações literárias. Assim parece porque quem quisesse esgotar sua bibliografia teria de gastar pelo menos dez anos lendo seus romances e as milhares de páginas que foi redigindo com facilidade invejável desde que descobriu sua vocação literária, antes dos 15 anos de idade. O surpreendente é que não foi assim. Victor Hugo também teve tempo para participar dos acontecimentos que marcaram o curso do século 19 francês, e viver grandes aventuras amorosas com mulheres de todas as condições sociais, de damas da alta sociedade até criadas, às quais seduzia ou pagava para satisfazerem seus caprichos eróticos.

Tudo isso e muito mais é contado por Mario Vargas Llosa em A Tentação do Impossível, seu ensaio sobre Os Miseráveis, a obra maior de Victor Hugo e do romantismo francês. Publicado originalmente em 2004, o ensaio de Vargas Llosa é o testemunho de seu fascínio pela cultura francesa e pelas criações literárias caracterizadas pela ambição descomunal, pelo desejo de recriar toda a vida em seus grandes e pequenos detalhes por meio da palavra escrita.

Três ideias fundamentais fazem deste um livro fascinante. A primeira é que Os Miseráveis marca o fim do romance clássico, isto é, aquele em que o narrador participa ativamente da história dando sua opinião sobre os acontecimentos ou explicando ao leitor por que as coisas sucedem tal como sucedem. Esse narrador consciente de si mesmo desaparecerá no romance moderno, inaugurado por Gustave Flaubert com Madame Bovary, no qual ele se fundirá com os eventos narrados para perder o protagonismo humano e ganhar clarividência divina: não o veremos, mas ele estará em todas as partes determinando tudo.

A segunda ideia fundamental diz respeito à maneira como o escritor transforma a realidade em material literário. Nenhum romance digno do nome, mesmo que narre episódios reais, pretende substituir a história vivida. O romancista emprega essa matéria-prima para criar uma realidade autônoma, irreal, fictícia; um cenário no qual poderá explorar não o que ocorreu na realidade, mas os dramas humanos, os dilemas morais, as perguntas fundamentais da vida que o perturbam e obcecam, e que são o tema essencial do romance. Se a história, a sociologia e a antropologia se ocupam dos fatos reais, o conhecimento que o romance projeta tem a ver com os anseios, ilusões, desejos, paixões e frustrações que assaltam homens e mulheres em determinado momento e em determinado lugar. No caso de Os Miseráveis, esse anseio é a perfeição humana, a redenção pelo sofrimento e a luta para alcançar o infinito, para tocar a divindade.

Essa última observação nos remete à terceira ideia cardeal que Vargas Llosa ressalta em A Tentação do Impossível. Inicialmente, Os Miseráveis não foi recebido pelos críticos como a obra imortal que hoje lemos, mas como um livro terrivelmente perigoso, escrito para provocar descontentamento e insatisfação nos leitores. Nada mais delicado, dizia o escritor Alphonse de Lamartine, um desses críticos, que criar um mundo literário povoado de personagens ideais, capazes de se comportar como santos laicos ou heróis justiceiros, porque o contraste entre essa ficção e a imperfeita realidade poderia causar tamanha frustração, tamanha irritação, que despertaria o desejo imperativo de revolta contra a sociedade.

Não é casual o fato de Vargas Llosa ter explorado esse tema na obra de Victor Hugo. Não o é porque entender o papel que tem a ficção na vida humana, entender por que romances são escritos e são lidos, entender esse impulso poderoso que move ele mesmo e outros romancista a desafiar a realidade real antepondo-lhe uma realidade fictícia, foi uma das grandes obsessões do escritor peruano. E a resposta que obtemos a essa interrogação em A Tentação do Impossível é tão sugestiva como a análise pormenorizada que seu autor faz de Os Miseráveis. Criamos ficções porque, por meio delas, saímos do cárcere do real e vivemos as mil vidas que de outra forma não poderíamos viver. Ademais, como antecipou Lamartine, porque no ir e vir da ficção vemos as imperfeições do mundo real e se afina nossa consciência crítica, a ferramenta que impede que as sociedades se paralisem na resignação e na apatia. Aspirar ao impossível, como fazem Victor Hugo e, em maior ou menor grau, todos os grandes criadores de ficção, é um antídoto contra o conformismo e a indolência. Esta é a razão de ser do romance, esta é a razão pela qual há escritores – entre os quais Vargas Llosa – que põem todo seu empenho em se deixar tentar pelo impossível.

Esse ensaio literário, como os muitos outros que Vargas Llosa escreveu ao longo de sua dilatada carreira, é uma chave extremamente útil para entender sua própria concepção de romance e os temas e problemas que lhe interessa abordar em seus projetos narrativos.

Se em 1975, quando publicou um ensaio sobre Flaubert e Madame Bovary intitulado La Orgia Perpetua, ele refletia sobre o desejo individual e a possibilidade de vencer os determinismos sociais, temas que apareceriam em seus romances seguintes, em 2004, ao mergulhar em Os Miseráveis, Vargas Llosa nos revela sua paixão pelas personagens exacerbadas que desafiam a condição humana com condutas extremas e paixões inquebrantáveis. Essas personagens enfeitiçam Vargas Llosa porque, como Flora Tristán, Paul Gauguin ou Roger Casement, protagonistas de O Paraíso na Outra Esquina e O Sonho do Celta, dois de seus últimos romances, não se rendem às exigências da realidade e se empenham em viver, sem se importar com as consequências, de acordo com seus sonhos e ideais. Nesses romances aflora esse traço humano, a possibilidade de viver uma vida iluminada pela ficção ou por princípios morais inquebrantáveis. Com eles, Vargas Llosa explorou as venturas e desventuras que vivem, e os benefícios e tragédias que produzem essas personagens que vão além da realidade tentando transformar o mundo para que se pareça mais com os sonhos e fantasias tecidos pela imaginação. Isto é, o que ocorre quando alguém, cuja finalidade não é escrever romances, se nega a se render à realidade e cai sob o influxo sedutor do impossível. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

CARLOS GRANÉS É DOUTOR EM ANTROPOLOGIA SOCIAL PELA UNIVERSIDADE COMPLUTENSE DE MADRI E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE LA IMAGINACIÓN – ANTROPOLOGIA DE LOS PROCESOS CREATIVOS: MARIO VARGAS LLOSA Y JOSÉ ALEJANDRO RESTREPO (CONSEJO SUPERIOR DEINVESTIGACIONES CIENTÍFICAS DE MADRID)

14/01/2012 - 17:00h O marco zero de um gênio


Primeiro livro do escritor Georges Perec, ‘As Coisas’ usa casal para contar como a ânsia de consumo dos jovens é também a de ser consumido

14 de janeiro de 2012

Harold Chapm/Divulgação
Perec deixa trabalho referencial na literatura e bastante crítico com relação à publicidade - Harold Chapm/Divulgação

Perec deixa trabalho referencial na literatura e bastante crítico com relação à publicidade


Antonio Gonçalves Filho – O Estado de S. Paulo

A vida não vem com manual de instruções, mas o escritor francês Georges Perec (1936- 1982), de quem está sendo lançado seu romance de estreia, As Coisas – Uma História dos Anos Sessenta (1965), bem que tentou criar um método para suportar suas agruras. Divertido, erudito, irônico, tantos adjetivos foram gastos para definir o autor de A Vida – Modo de Usar que sobram poucos para qualificar seu ambicioso projeto literário, já anunciado em As Coisas. No primeiro livro, ele dispensa, por exemplo, os diálogos para contar a trajetória de um jovem casal de pesquisadores, loucos para consumir e ser consumidos. Atento à vontade de ambos, Perec acaba por não dar voz a nenhum deles. O narrador, onisciente e onipresente, transforma-os em parte do mobiliário que a dupla imagina para sua casa nova.

Perec fez parte de um seleto grupo de autores reunidos em torno do Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentielle, ou Laboratório de Literatura Potencial), formado em 1960 pelo escritor e matemático Raymond Queneau (1903-1976), autor de Zazie no Metrô, ao qual se associou o enxandrista e químico francês François Le Lionnais (1901-1984) e o escritor cubano, de pais italianos, Italo Calvino (1923-1985).

No primeiro manifesto do Oulipo, Le Lionnais diz que podem ser identificadas duas tendências na pesquisa que o grupo se propõe a seguir: a analítica, que busca nos textos do passado possibilidades desprezadas por seus autores, e a sintética, que aponta caminhos desconhecidos por predecessores do pós-surrealista grupo ao qual Perec se integrou em 1967, dois anos após a publicação de As Coisas.

Perec não é um desconhecido entre os leitores brasileiros. Já foram publicados aqui Um Homem Que Dorme (1967), W ou A Memória da Infância (1975), A Vida – Modo de Usar (1978), A Coleção Particular (1979) e A Arte e a Maneira de Abordar Seu Chefe para Pedir um Aumento (publicação póstuma, 2008). Porém, dois romances experimentais – talvez pelo desafio que representam para os tradutores – permanecem inéditos no Brasil: La Disparition (1969) e Les Revenentes (1972).

São justamente suas experiências literárias mais radicais. Em La Disparition, Perec propõe-se a escrever um romance sem utilizar a vogal “e” – isso numa língua em que ela é usada ao extremo desde o berço, bastando dizer que pai (père) e mãe (mère) têm a vogal em dobro. No segundo, Les Revenentes, ele faz o contrário: produz um livro em que só o uso da vogal “e” é permitido.

Não se trata de um capricho formal a ausência da vogal em La Disparition. Perec explica no posfácio que sua fixação como escritor era criar um artifício tão original como iluminador, capaz de ser ao mesmo tempo um estímulo ao leitor para que fique transparente o processo de construção e narração do romance. A ausência do “e” é tanto a falta de uma letra essencial como o anúncio de uma tragédia familiar, pois não se pode viver num mundo em que as palavras père e mère foram abolidas.

Perec, que também tem dois “e”, perdeu pai e mãe ainda criança. Tinha 4 anos quando o pai, judeu polonês, morreu como soldado na guerra e 7 quando a mãe foi levada pelos nazistas (e provavelmente morta em Auschwitz). Criado pelos tios paternos, foi adotado por eles. Estudante de Sociologia e História, desde cedo começou a escrever para revistas literárias (entre elas La Nouvelle Revue Française, fundada por Gide), mas sobrevivia com o baixo salário de arquivista de um laboratório de pesquisas neurofisiológicas (cargo que manteve até quatro anos antes de sua morte, aos 45 anos, de câncer pulmonar, em 1982).

A classificação, até por conta desse trabalho, é o exercício mais praticado na literatura de Perec, especialmente em A Coleção Particular, obra do final de sua vida que pinta com tintas balzaquianas um quadro bizarro, o de um homem que troca a Alemanha pelos EUA, torna-se um rico cervejeiro e dedica sua vida a construir uma incomparável coleção de arte. Ele encomenda um quadro a um pintor – em que deve figurar ao lado de sua galeria – e, ao morrer, sua fraude é descoberta: Raffke, o cervejeiro, é também o pintor Kürz. Todas as obras são falsas.

A literatura como falsificação que leva à verdade – e ajuda a sobreviver – foi o grande tema de Perec, explorado com amargura em W ou A Memória da Infância. Nesse livro híbrido, o escritor oscila entre um relato autobiográfico e um romance construído, usando letras em itálico para distinguir este último de sua recordações, capítulos que se alternam e convergem, no epílogo, para uma melancólica conclusão: a de que os campos de concentração nunca deixaram de existir. Perec evoca o David Rousset de L’Univers Concentrationnaire para mostrar como uma sociedade utópica se degenera na estrutura dos campos de concentração, sejam eles nazistas ou ilhotas que viraram campos de deportação durante a ditadura Pinochet. Há dois mundos, segundo Perec: o dos senhores e o dos escravos. “Os Senhores são inacessíveis e os escravos se entredevoram.” Ainda assim, o atleta W, do livro, espera que a sorte lhe sorria.

Os estudantes Jérôme e Sylvie, de As Coisas, se assemelham, em sua ingenuidade, ao atleta W. Não percebem que a satisfação de seus desejos de consumo (um amplo apartamento) é uma sentença de morte, a perda de suas identidades. Na obra-prima de Perec, A Vida – Modo de Usar, que Italo Calvino classificou de hiperromance, os vários tipos de narrativa, a estrutura do jogo de xadrez que divide os capítulos, os símbolos arcanos e o algoritmo eleitos por Perec obrigam o leitor a ficar atento às descrições do imóvel que o autor escolheu como representação metafórica de um mundo em dissolução. Sua literatura mostra, afinal, que tradição e inovação não são excludentes: por trás dela, que desbancou o nouveau roman francês, existiam Flaubert, Balzac e Proust.

AS COISAS – UMA HISTÓRIA DOS ANOS SESSENTA
Autor: Georges Perec
Tradução: Rosa Freire d’Aguiar. Editora: Companhia das Letras (120 págs., R$ 32)


Banalidade que diz o que somos

Leitor de Marcel Mauss, Georges Perec aplicou seu método para descrever casal que sonha ser rico em seu livro
14 de janeiro de 2012

SÉRGIO MEDEIROS

O francês Georges Perec (1936-1982) tinha grande interesse em classificações. Era inevitável, portanto, que um belo dia se pusesse a classificar seus próprios livros, dividindo-os em diferentes categorias, sob a forma de exercício crítico escrupuloso, pelo menos na aparência. No volume póstumo Penser/ Classer (1985), o autor afirma que nunca escreveu dois livros iguais, pois não apreciava repetir uma fórmula, um sistema ou um procedimento já utilizado num livro anterior. Era, em suma, um autor sistematicamente versátil, que produziu textos tão diferentes entre si quanto La Disparition (ainda inédito em português) e A Vida – Modo de Usar (já publicado no Brasil pela Companhia das Letras), para citar dois dos mais importantes romances do autor, que mereceu em vida a reputação de ser um tipo de computador ou de máquina de produzir textos, conforme ele mesmo lembra em Notes sur ce que je cherche.

Georges Perec: sistematicamente versátil - Divulgação
Georges Perec: sistematicamente versátil

Numa leitura retrospectiva, Perec descobriu que essa produção tão variada (durante uma carreira curta publicou muitos títulos, alguns poucos já traduzidos para o português) podia ser agrupada em quatro campos diferentes, ou quatro modos de interrogação, como ele sugere: o sociológico, o autobiográfico, o lúdico e, finalmente, o romanesco, termo que traduz seu gosto por histórias e peripécias. O romance de estreia do autor, As Coisas, que sai agora em português numa tradução de Rosa Freire d’Aguiar, se encaixaria, segundo Perec, na primeira categoria, a de interrogação sociológica, embora, evidentemente, também tenha algo de biográfico, lúdico e romanesco. Leitor de Marcel Mauss, autor que lhe abriu os olhos para os “fatos banais” capazes de “descrever” o que somos, Perec buscou, em seus livros “sociológicos”, sobretudo no de estreia, agraciado com o prêmio Renaudot, responder à seguinte indagação: como olhar o cotidiano?

Conforme revela o subtítulo de As Coisas – Uma História dos Anos Sessenta -, o leitor entrará em contato, nesse breve romance publicado por Perec aos 29 anos de idade, com o horizonte de desejos (para usar uma expressão sua) de um jovem casal de 1960, que não era rico, mas desejava sê-lo, Jérôme e Sylvie, ambos “psicossociólogos” que ganhavam a vida entrevistando pessoas sobre assuntos variados, numa época de expansão das análises motivacionais na França. Narrado em terceira pessoa, o romance não é, no entanto, a narração onisciente padrão, pois suprime radicalmente o diálogo, a reprodução direta da voz dos personagens. Ao expor ao leitor a imensidão dos desejos do casal (que é o de possuir o que veem na revista L’Express, por exemplo, que “lhes oferecia todos os signos do conforto”), Perec aposta na descrição escrupulosa, cinematográfica, objetiva. Essa meticulosidade descritiva dá o tom do relato, desde o início, um relato que exclui, curiosamente, a intensidade erótica, o desejo sexual: “A primeira porta abriria para um quarto, de piso revestido por um carpete claro…”

O narrador vasculha desejos (”O mundo, as coisas deveriam desde sempre lhes pertencer, e eles teriam multiplicado os sinais de possessão”) e relações sociais (”Quase todos vinham da pequena burguesia, e seus valores, pensavam, não lhes bastava mais: olhavam com inveja, com desespero, para o conforto evidente, o luxo, a perfeição dos grandes burgueses”), adentrando num mundo nada ideal que “começava a desabar sob o amontoado dos objetos”, daí a importância dos catálogos, das enumerações, de que se alimenta o estilo descritivo do jovem Perec. O pequeno mundo familiar do início dos anos 60, visto da perspectiva dos protagonistas, vai ganhando, página após página, novas nuanças, então o leitor descobre, nas corriqueiras “pesquisas de opinião”, algo improvisadas e amadoras, perguntas de outra ordem sobre o regime do general De Gaulle, a Guerra da Argélia, os anos que vão de 1959 a 1962… Os protagonistas, porém, logo dão as costas ao engajamento político e continuam aplicando sem interrupção os costumeiros questionários de estudos motivacionais.

Os personagens pequeno-burgueses de As Coisas pertencem todos, como Jérôme e Sylvie, aos meios da publicidade e são cinéfilos. Consideram, e com razão, segundo o narrador, o filme O Ano Passado em Marienbad (1961), de Alain Resnais, “uma merda”. No entanto, facilmente se verifica (é uma das grandes ironias do romance) que a mansão barroca desse filme está lá, escondida ou deformada, no pequeno apartamento parisiense dos protagonistas, e que os planos em movimento por corredores, usados por Resnais na sua obra-prima, menos a decoração magnífica, também abrem o delicioso romance de estreia de Perec: “O olhar, primeiro, deslizaria sobre o carpete cinza de um corredor comprido, alto e estreito…”

SÉRGIO MEDEIROS É ENSAÍSTA, TRADUTOR, E POETA. PUBLICOU, ENTRE OUTROS LIVROS FIGURANTES (ILUMINURAS, 2011). ENSINA LITERATURA E É EDITOR NA UFSC

09/01/2012 - 17:00h Antínoo (trechos)

Fernando Pessoa

Era em Adriano fria a chuva fora

Jaz morto o jovem
No raso leito, e sobre o seu desnudo todo,
Aos olhos de Adriano, cuja cor é medo,
A umbrosa luz do eclipse-morte era difusa

Jaz morto o jovem, e o dia semelhava noite lá fora
A chuva cai como um exausto alarme
Da Natureza em acto de matá-lo.
Memória do que el´ foi não dava já deleite,
Deleite no que el´ foi era morto e indistinto.

Oh mãos que já apertaram as de Adriano quentes,
Cuja frieza agora as sente frias!
Oh cabelo antes preso p´lo penteado justo!
Oh olhos algo inquietantemente ousados!
Oh simples macho corpo feminino
qual o aparentar-se um Deus à humanidade!
Oh lábios cujo abrir vermelho titilava
os sítios da luxúria com tanta arte viva!
Oh dedos que hábeis eram no de não ser dito!
Oh língua que na língua o sangue audaz tornava!
Oh regência total do entronizado cio
Na suspensão dispersa da consciência em fúria!
Estas coisas que não mais serão.
A chuva é silenciosa, e o Imperador descai ao pé do leito.
A sua dor é fúria,
Porque levam os deuses a vida que dão
e a beleza destroem que fizeram viva.
Chora e sabe que as épocas futuras o fitam do âmago do vir a ser;
O seu amor está num palco universal;
Mil olhos não nascidos choram-lhe a miséria.

Antínoo é morto, é morto para sempre,
É morto para sempre, e os amor´s todos gemem.
A própria Vénus, que de Adónis foi amante,
Ao vê-lo então revivo, ora morto de novo,
Empresta renovada a sua antiga mágoa
Para que seja unida à dor de Adriano.

Agora Apolo é triste porque o roubador
Do corpo branco seu ´stá para sempre frio.
Não beijos cuidadosos na mamílea ponta
Sobre o pulsar silente lhe restauram
Sua vida que abra os olhos e a presença sinta
Dela por veias ter o reduto do amor.
Nenhum de seu calor, calor alheio exige.
Agora as suas mãos não mais sob a cabeça
Atadas, dando tudo menos mãos,
Ao projectado corpo mãos imploram.

A chuva cai, e el´ jaz
como alguém que de seu amor ´squeceu todos os gestos
E jaz desperto à espera que regressem quentes.
Suas artes e brincos ora são c´o a Morte.
Humano gelo é este sem calor que o mova;
Estas cinzas de um lume não chama há que acenda.

Que ora será, Adriano, a tua vida fria ?
Quão vale ser senhor dos homens e das coisas ?
Sobre o teu império a ausência dele desce como a noite.
Nem há manhã na esp´rança de um deleite novo;
Ora de amor e beijos viúvas são as tuas noites;
Ora os dias privados de a noite esperar;
Ora os teus lábios não têm fito em gozos,
Dados ao nome só que a Morte casa
À solidão e à mágoa e ao temor

Tuas mãos tacteiam vagas alegria em fuga
Ouvir que a chuva cessa ergue-te a cabeça,
E o teu relance pousa no amorável jovem.
Desnudo el´ jaz no memorado leito;
Por sua própria mão el´ descoberto jaz.
Aí saciar cumpria-lhe teu senso frouxo,
Insaciá-lo, mais saciando-o, irritá-lo
Com nova insaciedade até sangrar teu senso.

Suas boca e mãos os jogos de repôr sabiam
Desejos que seguir te doía a exausta espinha.
Às vezes parecia-te vazio tudo
A cada novo arranco de chupado cio.
Então novos caprichos convocava ainda
À de teus nervos, carne, e tombavas, tremias
Nos teus coxins, o imo sentido aquietado.

E de pensar, essa luxúria que é
memória de luxúria revive e toma-Lhe os sentidos p´la mão,
desperta a carne ao toque,
E tudo é outra vez o que era dantes.
No leito o corpo morto se soergue e vive
E vem com el´ deitar-se, junto, muito junto,
E uma invisível mão e rastejante e sábia
A cada uma do corpo entrada da luxúria
Vai murmurar carícias que se esvaem, mas
Se demoram que sangre a derradeira fibra.
Oh doces, cruéis da Párthia fugitivas!

Assim um pouco se ergue, olhando o amante
Que ora não pode amar senão o que se ignora.
Vagamente, mal vendo o que comtempla tanto,
Perpassa os frios lábios pelo corpo todo.
E tão de gelo insensos são os seus lábios que, ai!
Mal à morte lhe sabe o frio do cadáver,
E é qual mortos ou vivos que ambos foram
E amar inda é presença e é motor.
Na dos do outro incúria fria os lábios param
O hálito ausente aí recorda-lhe a seus lábios
Que de pra lá dos deuses uma névoa veio
Entre ele e o jovem. Mas as pontas de seus dedos,
Ainda ociosas perscrutando o corpo, aguardam
Uma reacção da carne ao despertante jeito.
Mas não é compreendida essa de amor pergunta:
É morto o deus que era seu culto o ser beijado!

Levanta a mão pra onde o céu estaria
E pede aos deuses mudos que sua dor lhe saibam.
Que a súplica lhe atendam vossas faces calmas,
Oh poder´s outorgantes! Dá em troca o reino
Nos desertos quietos viverá sequioso,
Nos longes trilhos bárbaros mendigo ou escravo,
Mas a seus braços quente o jovem devolvei!
Renunciai ao espaço que entendeis seu túmulo!

Tomai da terra a graça feminina toda
E num lixo de morte o que restar vertei!
Mas, pelo doce Ganímedes, distinguido
Por Jove acima de Hebe para encher-lhe
A taça nos festins e pra instilar
O amor de amigos que enche o vácuo do outro,
O nó de amplexos femininos resolvei
Em poeira, oh pai dos deuses, mas poupai o jovem
E o alvo corpo e o seu cabelo de oiro!
Ganímedes melhor talvez tu pressentiste
Seria acaso, e por inveja essa beleza
Dos braços de Adriano para os teus roubaste.

Era um gato brincando co´a luxúria,
A de Adriano e a sua própria, às vezes um
E às vezes dois, ora se unindo, ora afastado;
A luxúria largando, ora o àpice adiando;
Ora fitando-a não de frente mas de viés
Ladeando o sexo que semi não espera;
Ora suave empolgado, ora agarrando em fúria,
Ora brinca brincando, agora a sério, ora
Ao lado da luxúria olhando-a, agora espiando
O modo de tomá-la no aparar da sua.

Assim as horas se iam das mãos dadas de ambos,
E das confusas pernas momentos resvalam.
Seus braços folhar mortas, ou cintas de ferro;
Agora os lábios taças, agora o que liba;
Olhos fechados por de mais, de mais fitantes;
Ora o vai-vém frenético operando;
Ora suas artes pluma, ora um chicote.

Viveram esse amor como religião
Oferta a deuses que, em pessoa, aos homens descem.
Às vezes adornado, ou feito enfiar
Meias vestes, então numa nudez de estátua
Imitava algum deus que de homem ser parece
Pela do mármore virtude exacta.
Agora Vénus era, alva dos mar´s saindo:
E agora Apolo ele era, jovem e dourado;
E agora Júpiter julgando em troça
A presença a seus pés do escravizado amante;
Agora agido de rito, por alguém seguido,
Em mistérios que são sempre repostos.

Agora é algo que qualquer ser pode.
Oh, crua negação da coisa que é!
Oh de aurea coma sedução fria de lua!
Fria de mais! De mais! E amor como ela frio!
O amor pelas memórias do amor seu vagueia
Como num labirinto, alegre, louco, triste,
E ora clama o seu nome e lhe pede que venha,
E ora sorrindo está à sua imagem-vinda
Que está no coração quais rostos na penumbra,
Meras luzentes sombras das formas que tinham…

Erguer-te-ei uma estátua que será
Prova, para o contínuo das futuras eras,
Do meu amor, tua beleza e do sentido
Que à divindade p´la beleza é dado.
Que a Morte com subtis mãos desnudantes tire
A nosso amor as vestes do império e da vida,
Ainda a dele estátua que só tu inspiras,
As futuras iades, quer queiram, quer não,
Hão-de, qual dote por um deus imposto,
Inevitavelmente herdar.

Como o amante que agurada, assim ele ia de
Canto a canto do em dúvida confuso de espírito.
Ora sua esperança um grande intento era
De que o anseio fosse, ora ele cego se
Sentia algures no visto indefinido anseio.
Se o amor conhece a morte, que sentir se ignora.
Se a morte frustra amor, que saber não sabemos.
A dúvida esperava, ou duvidava a esp´rança;
Ora o de sonhar senso ao que sonhava anseio
Escarnecia e congelava em vácuo
De novo os deuses sopram a mortiça brasa.

A tua morte deu-me alta luxúria mais
Um carnal cio em raiva por eternidade.
No meu imperial fado a confiança ponho
Que os altos deuses, por quem César fui,
Não riscarão de vida mais real
Meu voto de que vivas para sempre e sejas
Na deles melhor terra uma carnal presença,
Amável mais, mais amorável não, pois lá
Não coisas impossíveis nossos votos jaçam
Nem corações nos ferem com a mudança e tempo.

Amor, amor, Oh, meu amor! Já és um Deus.
Minha esta ideia, que por voto eu tomo,
Voto não é, mas vista que me é permitida
Pelos grãos deuses, que amor amam e dar podem
A corações mortais, sob a forma de anseios,
De anseios que alvos têm indescobertos,
Uma visão reais coisas para além
De nossa vida em vida aprisionada, nosso sentido no sentido preso
Ai, o que anseio que tu sejas, és tu já.
Pois já o Olimpo o território tu pisaste e és perfeito, sendo tu embora
Pois excesso de ti não precisas vestir
Perfeito para ser, a perfeição que és.

Amor, meu amor-deus! Que eu beije, em frios teus
Lábios, teus quentes lábios imortais agora,
Saudando-te beato nos portais da Morte.
Pois que pra deuses são portais da Vida.

E aqui, memória ou estátua, ficaremos
O mesmo um só, qual de mãos dadas éramos
Nem as mãos se sentiam por sentir sentir.
Ver-me-ão os homens quando o que és entendam.
Podiam ir-se os deuses, no vasto rodar
Das curvas eras. Só por ti apenas,
Que, um deles, no ido bando houveras ido,
Viriam, qual dormissem, para despertar

E se a nossa memória a pó se reduzisse,
Uma divina raça do fim das idades
Nossa unidade dual ressuscitava.

Ainda chovia. Em leves passos veio a noite
Fechando as pálpebras cansadas dos sentidos.
A mesma consciência de eu e de alma
Tornou-se, qual paisagem vaga em chuva, vaga.
O Imperador imóvel jaz, e tanto que
Semiesqueceu onde ora jaz, ou de onde vem
A dor que era inda sal nos lábios seus.
Algo distante fora tudo: um manuscrito
Que se enrolou. E o que sentira a fímbria era
Que halo é em torno à lua quando a noite chora.

A cabeça pousava sobre os braços, estes
No baixo leito, alheios a senti-lo, estavam.
Os seus olhos fechados cria abertos, vendo
O nu chão negro, frio, triste, sem sentido.
Doer-lhe o respirar tudo era que sabia.
Do tombante negrume o vento ergueu-se
E tombou; lá no pátio ecoou uma voz;
E o Imperador dormia…
Os deuses vieram….
E algo levaram, qual não senso sabe,
Em braços de poder e de repouso invisos.

(poesia originalmente escrita em inglês, tradução de Jorge de Sena)

06/01/2012 - 18:29h Que mundo grosso…

Heinrich Heine

Que mundo grosso, gente avara,
– E mais e mais sem mais sabor!
Diz de você… o quê, amor?
Que não tem vergonha na cara.

Mundinho avaro, mundo cego,
Sempre disposto a julgar mal.
Seu beijo doce é meu apego,
Sem falar na ardência final.

(tradução de Décio Pignatari)

15/12/2011 - 18:50h Los vientos del Perú

Juan Parra del Riego

¡No hay nada en el mundo, ni el sol, ni la guerra
como los salvajes vientos de esta tierra!

Ni el acuchillado perfil de la sierra,
ni el rayo que vibra, ni el trueno que aterra,
ni el mismo relámpago que abre y se cierra
y el mar que en las playas se aferra…se aferra…

¡No hay nada en el mundo, ni el sol, ni la guerra
como los salvajes vientos de esta tierra¡

Aires ululantes que agitan pañuelos
de polvo en la fuga de los grandes vuelos,
pero que más suaves que los terciopelos
cuando se entrechocan de vagos anhelos
parece que entonces bajó de los cielos
y en una locura de mil ritornelos
se fueran bailando sin pisar los suelos
la vertiginosa danza de los velos.

Tropicales ráfagas que yo rememoro
porque a sus cien rubias trompetas en coro
les debo este gesto con que nunca imploro,
con que nunca tiemblo, con que nunca lloro…

Tropicales ráfagas que yo rememoro
cuando en las llanuras donde muge el toro
y el caballo alegra su clarín sonoro
se iban dando vueltas como trompos de oro.

¡No hay nada en el mundo, ni el sol, ni la guerra
como los salvajes vientos de esta tierra!

Casuhiras del monte, saltantes felinos
que arañan y trepan los árboles finos
y jugando al juego de los remolinos
-¡Oh, azul borrachera de goces divinos!-
suenan en las ramas, cantan en los pinos
y se van rodando tras los campesinos
que en las tardes vuelven por esos caminos
donde la carretera de bueyes cansinos
parece que llora como los molinos.

Pamperos violentos que en las madrugadas
del campo entreabrían las puertas cerradas
como a una nerviosa lucha de estocadas,
yo aprendí en vosotros mis rudas tonadas
y el ir por el mundo como las cascadas:
a saltos, impulsos, carreteras aladas
y no sé que angustia de cumbres sagradas
que me hace ser todo velas desplegadas
para las más hondas rutas ignoradas.

Ciclones marinos que inician un viaje
Que nunca se para sobre el mar salvaje.

Y pifian la fusta de un loco carruaje
que es la desbocada visión del paisaje.

Rompen las estatuas que esculpe el oleaje,
atacan los buques como al abordaje.

Y como en Esquilo dicen un lenguaje
que es más la tragedia de un alma salvaje.

¡No hay nada en el mundo, ni el sol, ni la guerra
como los ciclones del mar de esta tierra!

Mascaichas dramáticos de los temporales
en las sensitivas mañanas rurales
-¡olor a aguas vírgenes, a las selvas y maizales!-

¡Oh, vertiginosos sátiros joviales
que a las campesinas de senos frutales
tirábanles locos los leves percales
como si quisieran, ebrios y sensuales
llevarles rápido hasta los trigales…

Yo aún no me he olvidado que vengo de aquellas
ciudades con cumbre viril de epopeyas
bajo el parral de oro que hay en las estrellas.

¡Si aun siento en mi sangre palpitar las huellas
de aquellas salvajes y dulces doncellas
que a los españoles –danzas y centellas-
por ver a Atahualpa morir junto a ellas
les decían suaves como las estrellas
qué cosas tan tristes…qué cosas tan bellas…
Vientos, vientos, vientos de mi tierra, leones
que el polvo enmelena con sus algodones,
vámonos frenéticos por las poblaciones
de esta vieja América con sus tradiciones
que hacen de las gentes siervos y bufones.

Y arrollantes, trágicos, rompamos canciones
Que agiten como émbolos a los corazones,
refresquen las almas y alcen las pasiones
en las rojas lanzas de otras rebeliones.

¡No hay nada en el mundo, ni el sol, ni la guerra
como los salvajes vientos de esta tierra.!

13/12/2011 - 18:36h La Rosa

Rose

Xavier Abril

LA ROSA DE SU NOMBRE

La rosa, la rosa siempre,
La rosa que acompaña.
Aquí estoy de rosa a rosa
esperando la condena
Del que a la rosa se entrega,
Disperso bajo la Luna,
Soñando la rosa que era.

No busquéis rosa ninguna,
Descubridla en Primavera.

LA ROSA MÚLTIPLE

¡Oh rosa de lejanía,
rosa de rosa lejana,
que su nostalgia bebía
en jardines de Nirvana!

Así la rosa se hacía
al misterio más liviana;
en los sueños revivía
el tiempo que fue lozana.

La rosa torna a la rosa
en vuelo de luz, dichosa,
del cielo rosa al devenir.

Íntegra forma volvía
a sentir lo que sentía
en soledad de vivir.

LA ROSA ETERNA

En la mañana nacía
vestida de su alborada;
en la tarde fenecía
cual la rosa de la nada.

Estaba abierta de día,
de noche estaba cerrada;
cantaba como gemía,
sentía cuanto lloraba,

La flor del mundo ignorada,
que sólo el alma adivina,
de su tallo se alejaba
a ser la rosa divina.

(De La rosa escrita)

Gilbert Becaud – L’important c’est la rose

12/12/2011 - 18:56h Poema de la libertad del cielo

Xavier Abril

TODAVIA no me he liberado del cielo. Me falta la libertad del
cielo. De la tierra. La libertad del espacio. La libertad del silencio
y del agua. Y también la mía. La de mis brazos. La libertad en fuga
de mis deseos por los tejidos finos a través de las noches lentas.
ME falta, pues, la libertad. Cuando salgo de un dedo, caigo en
otros dedos. Pero aquí también la vida. Libertad debe ser sin vida
y sin muerte. Como la vida del agua. Como la salida de un tren o como
una cosa que no se hace. Esto mismo de que me falte la libertad
del cielo está iluminado de ángeles.
YO vivo de mi falta de libertad. De no salir y de salirme de mí.
De cuanto hago de pié y en el sueño. De pisar a veces tierra con cascos
de caballo.
YO comprendo que los ratones busquen su libertad. Es natural
el deseo de una libertad inmediata. En cambio yo persigo la libertad
del cielo. De los colores y de los ojos. La libertad de la música.
LA libertad es tan pequeña que se me figura hormiga o muchas
hormigas. Y esto es nada. La libertad déjola libre. Le doy yo libertad.
LA lluvia me liberta de la ciudad. De las miradas de las gentes. Gusto
de la lluvia que viste resplandores. Amo la lluvia que arrastra deseos.
que destila el goce en la tierra que hace correr los ríos.

12/12/2011 - 18:01h Caminante no hay camino, se hace camino al andar

António Machado

Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.

Português

Caminhante, são teus rastos
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Ao andar faz-se o caminho,
e ao olhar-se para trás
vê-se a senda que jamais
se há-de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
somente sulcos no mar.

Cantares

Serrat e Sabina – Cantares

03/12/2011 - 18:03h Desesperança política e solidão


Cubano Guillermo Rosales explora a fragilidade dos laços afetivos em ‘A Casa dos Náufragos’

Guillermo Rosales, que morou nos EUA: decepção com capitalismo e comunismo - Divulgação
Guillermo Rosales, que morou nos EUA: decepção com capitalismo e comunismo

Wilson Alves-Bezerra – O Estado de S. Paulo

A Casa dos Náufragos é um romance póstumo do cubano exilado nos EUA Guillermo Rosales (1946-1993), escrito nos anos 80; trata-se do relato de William Figueras, um esquizofrênico internado numa boarding home de Miami, uma clínica privada de doentes psiquiátricos. Figueras é atormentado por vozes, acessos de fúria e sonhos com Fidel Castro, e tem como companhia uma antologia de literatura romântica inglesa e suas lembranças dos romances de Hemingway.

As descrições da vida do personagem na boarding home são cruas, em especial no que se refere aos aspectos da loucura que mais comumente causam repulsa: a falta de sentido, a relação sem constrangimentos com o próprio corpo e com os excrementos. A violência tem destaque e não se limita aos doentes – alcança também os responsáveis pela clínica; um deles estupra as internas, espanca um velho caolho e bebe cerveja sem parar, enquanto aposta sempre no mesmo número nos concursos da loteria.

As tintas com as quais a obra é escrita lembram as memórias do também cubano exilado Reinaldo Arenas (1943-1990), que foi amigo de Rosales. Mas não há no autor de A Casa dos Náufragos as peripécias infantis e sexuais de Arenas; o que ambos compartilham é o rancor em relação a Cuba, a Fidel e aos regimes políticos: “Creio que a experiência de quem viveu no comunismo e no capitalismo e não encontrou valores substanciais em nenhuma das duas sociedades merece ser exposta. Minha mensagem será sempre pessimista. Não creio em Deus. Não creio no Homem. Não creio em ideologias”, diz Rosales numa entrevista citada no posfácio do livro.

Embora A Casa dos Náufragos fale de Cuba e Fidel – que aparece num sonho como um morto-vivo -, não é um livro sobre o totalitarismo. Há um riso amargo dirigido à ilha e isso é tudo. O tema que insiste é o da solidão – e o da impossibilidade de laços afetivos. O humor do protagonista oscila entre dar uma surra de cinto no velho que padece de continência urinária e distribuir beijos aos internos. Há uma cena inquietante: diante de Francis, a louca recém-chegada, Figueras dá vazão a seus impulsos e ora a acaricia, ora a enforca, obtendo como resposta a qualquer um dos atos sempre a mesma frase: “Sim, meu céu”.

Finalmente, há uma tentativa de sentido pelo amor, de começar uma nova vida a partir de um vínculo com Francis e o apoio da pensão estatal oferecida pelo governo americano. É quando a influência literária de Hemingway se faz mais presente no relato e, de modo soturno, Rosales mostra o que aprendeu com O Velho e o Mar.

Wilson Alves-Bezerra é tradutor, professor do departamento de Letras da UFSCAR e autor de Reverberações da Fronteira em Horacio Quiroga (Humanitas/Fapesp)

A CASA DOS NÁUFRAGOS
Autor: Guillermo Rosales
Tradução: Eduardo Brandão
Editora: Companhia das Letras
(128 págs., R$ 34)

02/12/2011 - 16:43h Poemas de Paul Eluard

 El Ave Fénix

Soy el último en tu camino
la última primavera y última nieve
la última lucha para no morir. 

Y henos aquí más abajo y más arriba que nunca. 

De todo hay en nuestra hoguera
Piñas de pino y sarmientos
Y flores más fuertes que el agua 

Hay barro y rocío 

La llama bajo nuestro pie la llama nos corona
A nuestros pies insectos pájaros hombres
Van a escaparse 

Los que vuelan van a posarse. 

El cielo está claro la tierra en sombra
Pero el humo sube al cielo
El cielo ha perdido su fuego. 

La llama quedó en la tierra. 

La llama es el nimbo del corazón
Y todas las ramas de la sangre
Canta nuestro mismo aire 

Disipa la niebla de nuestro invierno 

Hórrida y nocturna se encendió la pena
Floreció la ceniza en gozo y hermosura
Volvemos la espalda al ocaso 

Todo es color de aurora. 

Ser

Con la frente como una bandera perdida
Te arrastro cuando estoy solo
Por calles heladas
Por cuartos negros
Proclamando infortunios

No quiero abandonar
Tus manos claras y complicadas
Nacidas en el encerrado espejo de las mías

Todo lo demás es perfecto
Todo lo demás es todavía más inútil
Que la vida

Excava la tierra bajo tu sombra

Un estanque junto a los senos
donde hundirse
como una piedra 

La costumbre

Todas mis amiguitas son jibosas;
Ellas aman a su madre.
Todos mis animales son obligatorios,
tienen patas de mueble
Y manos de ventana
El viento se deforma,
Necesita un traje de medida,
Desmensurado.
He aquí por qué
digo la verdad sin decirla. 

Max Ernst

En un rincón el insecto ágil
Gira en torno a la virginidad del vestido corto
En un rincón el cielo liberado
Entrega esferas blancas a las espinas de la tormenta

En un rincón más claro que la tonalidad de los ojos
Esperan a los peces de la angustia
En un rincón el carruaje de verdor del verano
Gloriosamente inmóvil para siempre

Al brillo de la juventud
De las lámparas encendidas con retardo
La primera muestra senos que matan a los insectos rojos.

El Espejo de un Momento

Disipa el día,
Muestra a los hombres las imágenes desligadas de la apariencia,
Quita a los hombres la posibilidad de distraerse,
Es duro como la piedra,
La piedra informe,
La piedra del movimiento y de la vista,
Y Tiene tal resplandor que todas las armaduras
y todas las máscaras quedan falseadas.
Lo que la mano ha tomado ni siquiera
se digna tomar la forma de la mano,
Lo que ha sido comprendido ya no existe,
El pájaro se ha confundido con el viento,
El cielo con su verdad,
El hombre con su realidad.

Primavera

Hay en la playa espejos de agua
Locos de pájaros en los bosques los árboles
La nieve se disuelve en la montaña
De tantas flores brillan las ramas del manzano
Que huye el pálido sol

En noche de invierno y en un áspero mundo
vivo esta primavera oh inocente a tu lado
No hay noche para nosotros
Lo que es perecedero no te alcanza
Y no quieres sentir el frío

En esta primavera nuestra
La que tiene razón. 

La Muerte, El Amor, La Vida

Creí que me rompería lo inmenso lo profundo
Con mi pena desnuda sin contacto sin eco
Me tendí en mi prisión de puertas vírgenes
Como un muerto sensato que había sabido morir
Un muerto coronado sólo de su nada
Me tendí sobre las olas absurdas del verano
Absorbido por amor a la ceniza
La soledad me pareció más viva que la sangre

Quería desunir la vida
Quería compartir la muerte con la muerte
Entregar mi corazón vacío a la vida
Borrarlo todo que no hubiera ni vidrio ni vaho
Nada delante nada detrás nada entero
Había eliminado el hielo de las manos juntas
Había eliminado la osamenta invernal
Del voto de vivir que se anula.
Tú viniste y se reanimó el fuego
Cedió la sombra el frío aquí abajo se llenó de estrellas
Y se cubrió la tierra
De tu carne clara y me sentí ligero
Viniste la soledad fue vencida
Tuve una guía sobre la tierra y supe
Dirigirme me sabía sin medida
Adelantaba ganaba tierra y espacio

Iba hacia iba sin fin hacia la luz
La vida tenía un cuerpo la esperanza tendía sus velas
Promisora de miradas confiadas para el alba
De la noche surgía una cascada se sueños

Los rayos de tus brazos entreabrían la niebla
El primer rocío humedecía tu boca
Deslumbrando reposo remplazaba el cansancio
Yo amaba el amor como en mis primeros días

Los campos están labrados las fábricas resplandecen
Y el trigo hace su nido en una enorme marea
Las mieses la vendimia tienen muchos testigos
Nada es singular ni simple
El mar está en los ojos del cielo o de la noche
El bosque da a los árboles seguridad
Y los muros de las casas tienen una piel común
Los caminos siempre se encuentran

Los hombres están hechos para entenderse
Para comprenderse para amarse
Tienen hijos que serán padres de los hombres
Tienen hijos sin fuego ni lugar
Que inventarán de nuevo a los hombres
Y la naturaleza y su patria
La de todos los hombres
La de todos los tiempos

Gritar 

Aqui a acção simplifica-se
 Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
 Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
 Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
 Ponho-me a gritar
 Todos falavam demasiado baixo falavam e
 [escreviam
 Demasiado baixo 

 Fiz retroceder os limites do grito 

 A acção simplifica-se 

 Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
 Que lhe destinava um lugar perante mim 

 Com um grito 

 Tantas coisas desapareceram
 Que nunca mais voltará a desaparecer
 Nada do que merece viver 

 Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
 Canta debaixo das portas frias
 Sob armaduras opostas
 Ardem no meu coração as estações
 As estações dos homens os seus astros
 Trémulos de tão semelhantes serem 

 E o meu grito nu sobe um degrau
 Da escadaria imensa da alegria 

 E esse fogo nu que me pesa
 Torna a minha força suave e dura 

 Eis aqui a amadurecer um fruto
 Ardendo de frio orvalhado de suor
 Eis aqui o lugar generoso
 Onde só dormem os que sonham
 O tempo está bom gritemos com mais força
 Para que os sonhadores durmam melhor
 Envoltos em palavras
 Que põem o bom tempo nos meus olhos 

 Estou seguro de que a todo o momento
 Filha e avó dos meus amores
 Da minha esperança
 A felicidade jorra do meu grito 

 Para a mais alta busca
 Um grito de que o meu seja o eco. 

30/11/2011 - 17:18h Não se deve…

Jacques Prévert

Não se deve deixar os intelectuais brincar com os fósforos

Porque, meus senhores, quando o deixam sozinho

O mundo mental meus senhores

Não é nada brilhante

E mal se apanha sozinho

Age arbitrariamente

Erigindo a si próprio

Alegada e generosamente em honra dos trabalhadores da

construção civil

Um auto-monumento

Não é demais insistir, meus senhores

Quando o deixam sozinho

O mundo mental

Mente

Monumentalmente.

Jacques Prévert

Paroles


No hay que dejar…

No hay que dejar que los intelectuales jueguen

con cerillas

porque Señooores

cuando se lo deja solo

el Mundo Mental

Señooooores

no es muy brillante que digamos.

Y en cuanto está solo

trabaja arbitrariamente

erigiéndose por sí mismo

y según dicen generosamente en el honor

de los trabajadores de la construcción

un Automonumento

repitámoslo Señooooores.

Cuando se lo deja solo

el Mundo Mental

miente

monumentalmente.

***

JACQUES PRÉVERT

Paroles p. 217

Ed. Lumen

16/11/2011 - 17:00h EMMA ZUNZ

Este conto de Borges foi escolhido por Myriam Kazue, para compartir com os leitores do blog. Quero agradecer a colaboração que Myriam esta prestando ao blog compartilhando conosco suas leituras. LF

JORGE LUIS BORGES (1899-1986 )

No dia 14 de janeiro de 1922, Emma Zunz, ao voltar da fábrica de tecidos Tarbuch e Loewenthal, encontrou no fundo do vestíbulo uma carta, datada do Brasil, pela qual soube que seu pai tinha morrido. Enganaram-na, à primeira vista, o selo e o envelope; depois, inquietou-a a letra desconhecida. Nove ou dez linhas mal traçadas quase enchiam a folha; Emma leu que o senhor Maier tinha ingerido por engano uma forte dose de Veronal e tinha falecido a 3 do corrente no hospital de Bagé. Um companheiro de pensão de seu pai assinava a notícia, um tal Fein ou Fain, de Rio Grande, que não podia saber que se dirigia à filha do morto.
Emma deixou cair o papel. A primeira sensação foi de mal-estar no ventre e nos joelhos; depois, de cega culpa, de irrealidade, de frio, de temor; depois, quis já estar no dia seguinte. Imediatamente, compreendeu que essa vontade era inútil, porque a morte de seu pai era a única coisa que tinha sucedido no mundo e que continuaria sucedendo para sempre. Pegou o papel e foi para o quarto. Furtivamente, guardou-o na gaveta, como se, de alguma forma, já conhecesse os fatos ulteriores. Talvez já começasse a vislumbrá-los; já era a que seria.
Na crescente escuridão, Emma chorou até o fim daquele dia o suicídio de Manuel Maier, que nos velhos dias felizes fora Emanuel Zunz. Recordou veraneios numa chácara, perto de Gualeguay, recordou (procurou recordar) sua mãe, recordou a casinha de Lanus que lhes arremataram, recordou os amarelos losangos de uma janela, recordou o auto de prisão, o opróbrio, recordou as cartas anônimas com o comentário sobre “o desfalque do caixa”, recordou (mas isso ela nunca esquecia) que seu pai, na última noite, jurara que o ladrão era Loewenthal. Loewenthal, Aaron Loewenthal, antes gerente da fábrica e agora um dos donos. Emma, desde 1916, guardava o segredo. A ninguém o revelara, nem sequer a sua melhor amiga, Eisa Urstein. Talvez evitasse a profana incredulidade; talvez acredi¬tasse que o segredo fosse um vínculo entre ela e o ausente. Loewenthal não sabia que ela sabia; Emma Zunz tirava desse fato ínfimo um sentimento de poder.
Não dormiu aquela noite, e, quando a primeira luz definiu o retângulo da janela, já estava perfeito seu plano. Procurou fazer com que esse dia, que lhe pareceu interminável, fosse como os outros. Havia na fábrica rumores de greve; Emma, como sempre, declarou-¬se contra qualquer violência. Às seis, concluído o trabalho, foi com Eisa a um clube para mulheres, com ginásio e piscina. Inscreveram-se; teve de repetir e soletrar seu nome e sobrenome, teve de achar graça das brincadeiras vulgares com que é comentado o exame médico. Com Eisa e com a mais moça das Kronfuss discutiu a que cinema iriam no domin¬go à tarde. Depois, falou-se de namorados e ninguém esperou que Emma falasse. Comple¬taria dezenove anos em abril, mas os homens lhe inspiravam ainda um temor quase patológico… Na volta, preparou uma sopa de tapioca e uns legumes, comeu cedo, deitou-¬se e obrigou-se a dormir. Assim, laboriosa e trivial, passou a sexta-feira, dia 15, a véspera.
No sábado, a impaciência despertou-a. A impaciência, não a inquietude, e o singu¬lar alívio de estar finalmente naquele dia. Já não tinha que tramar e imaginar; dentro de algumas horas, atingiria a simplicidade dos fatos. Leu em La Prensa que o navio Nordstjarnan, de Malmo, zarparia nessa noite do cais 3; telefonou para Loewenthal, insinuou que dese¬java comunicar, sem que as outras soubessem, algo sobre a greve e prometeu passar pelo escritório, ao anoitecer. Tremia-lhe a voz; o tremor convinha a uma delatora. Nenhum outro fato memorável ocorreu nessa manhã. Emma trabalhou até as doze e marcou com Eisa e com Perla Kronfuss os pormenores do passeio de domingo. Deitou-se depois de almoçar e recapitulou, de olhos fechados, o plano que tramara. Pensou que a etapa final seria menos horrível que a primeira e que lhe proporcionaria, sem dúvida, o sabor da vitória e da justiça. De repente, alarmada, levantou-se e correu à gaveta da cômoda. Abriu-a; debaixo do retrato de Milton Sills, onde a deixara na noite anterior, estava a carta de Fain. Ninguém podia tê-la visto; começou a ler e rasgou-a.
Narrar com alguma realidade os fatos dessa tarde seria difícil e talvez improceden¬te. Um atributo do infernal é a irrealidade, um atributo que parece diminuir seus terrores e que talvez os agrave. Como tornar verossímil uma ação na qual quase não acreditou quem a executava, como recuperar esse breve caos que hoje a memória de Emma repudia e confunde? Emma vivia em Almagro, na rua Liniers; consta-nos que nessa tarde foi ao porto. Talvez no infame Paseo de Julio se tenha visto multiplicada em espelhos, anunciada por luzes e despida pelos olhos famintos, porém mais razoável é conjeturar que a princípio errou, inadvertida, pela indiferente galeria… Entrou em dois ou três bares, viu a rotina ou os modos de outras mulheres. Por fim, deu com homens do Nordstjéirnan. Temeu que um deles, muito jovem, lhe inspirasse alguma ternura e optou por outro, talvez mais baixo que ela e grosseiro, a fim de que a pureza do horror não fosse diminuída. O homem conduziu-¬a a uma porta e depois a um turvo saguão e depois a uma escada tortuosa e depois a um vestíbulo (em que havia uma vidraça com losangos idênticos aos da casa em Lanus) e depois a um corredor e depois a uma porta que se fechou. Os fatos graves estão fora do tempo, seja porque neles o passado imediato fica como que separado do futuro, seja porque não parecem consecutivas as partes que os formam.
Naquele tempo fora do tempo, naquela desordem caótica de sensações inconexas e atrozes, Emma Zunz pensou uma única vez no morto que motivava o sacrifício? Tenho para mim que pensou uma vez e que nesse momento correu perigo seu desesperado propósito. Pensou (não pôde deixar de pensar) que seu pai tinha feito à sua mãe a coisa horrível que lhe faziam agora. Pensou com débil assombro e se refugiou, em seguida, na vertigem. O homem, sueco ou finlandês, não falava espanhol; foi um instrumento para Emma como esta o foi para ele, mas ela serviu para o gozo e ele para a justiça.
Quando ficou sozinha, Emma não abriu em seguida os olhos. Na mesa de cabecei¬ra estava o dinheiro deixado pelo homem. Emma sentou-se e o rasgou como antes rasga¬ra a carta. Rasgar dinheiro é uma impiedade, como jogar fora o pão; Emma arrependeu¬-se, tão logo o fez. Um ato de soberba, e naquele dia… O medo perdeu-se na tristeza de seu corpo, no asco. O asco e a tristeza prendiam-na, mas Emma lentamente se levantou e começou a vestir-se. No quarto não restavam cores vivas; o último crepúsculo se adensava. Ela pôde sair sem que a percebessem; na esquina, pegou um Lacroze que ia para o oeste. Escolheu, conforme seu plano, o banco mais da frente para que não lhe vissem o rosto. Talvez a tenha consolado verificar, no insípido movimento das ruas, que o acontecido não contaminara as coisas. Passou por bairros decrescentes e opacos, vendo-os e esquecen¬do-os no ato, e desceu numa das esquinas de Warnes. Paradoxalmente, seu cansaço vinha a ser uma força, pois a obrigava a concentrar-se nos pormenores da aventura e lhe ocultava o fundo e o fim.
Aaron Loewenthal era, para todos, um homem sério; para seus poucos íntimos, um avarento. Vivia nos altos da fábrica, sozinho. Estabelecido no desmantelado arrabalde, temia os ladrões; no pátio da fábrica havia um grande cachorro e na gaveta do escritório, ninguém o ignorava, um revólver. Chorara com decoro, no ano anterior, a inesperada morte da mulher – uma Gauss, que lhe trouxe um bom dote! –, mas o dinheiro era sua verdadeira paixão. Com íntima vergonha, sabia ser menos apto para ganhá-lo que para conservá-lo. Era muito religioso; acreditava ter com o Senhor um pacto secreto, que o eximia de agir bem a troco de orações e devoções. Calvo, corpulento, enlutado, de óculos escuros e barba ruiva, esperava de pé, junto à janela, a informação confidencial da operá¬ria Zunz.
Viu-a empurrar a grade (que ele deixara entreaberta, de propósito) e cruzar o pátio sombrio. Viu-a dar uma pequena volta quando o cachorro amarrado latiu. Os lábios de Ernma se atarefavam como os de quem reza em voz baixa; cansados, repetiam a sentença que o senhor Loewenthal ouviria antes de morrer.
As coisas não ocorreram como previra Emma Zunz. Desde a madrugada anterior, sonhara, muitas vezes, apontando o firme revólver, forçando o miserável a confessar a miserável culpa e expondo o corajoso estratagema que permitiria à Justiça de Deus triun¬far sobre a justiça humana. (Não por medo, mas por ser um instrumento da justiça, ela não queria ser castigada.) Depois, um só balaço no meio do peito rubricaria a sorte de Loewenthal. Mas as coisas não ocorreram assim.
Diante de Aaron Loewenthal, mais que a urgência de vingar o pai, Emma sentiu a de castigar o ultraje sofrido por isso. Não podia deixar de matá-lo, depois dessa minuciosa desonra. Tampouco tinha tempo a perder com teatralidades. Sentada, tímida, pediu des¬culpas a Loewenthal, invocou (à maneira de delatora) as obrigações da lealdade, pronun¬ciou alguns nomes, deu a entender outros e calou-se como se o medo a vencesse. Conse¬guiu que Loewenthal saísse para buscar um copo d’água. Quando ele, incrédulo de tal agitação, mas indulgente, voltou da sala de jantar, Emma já tinha tirado da gaveta o pesado revólver. Apertou o gatilho duas vezes. O considerável corpo caiu como se os es¬tampidos e a fumaça o tivessem rompido, o copo se partiu, o rosto olhou-a com assombro e cólera, a boca injuriou-a em espanhol e em iídiche. Os palavrões não cessavam; Emma teve de fazer fogo outra vez. No pátio, o cachorro acorrentado pôs-se a ladrar, e uma efusão de sangue repentino brotou dos lábios obscenos e manchou a barba e a roupa. Emma iniciou a acusação que tinha preparada (”Vinguei meu pai e não me poderão castigar…”), mas não a concluiu, porque o senhor Loewenthal já estava morto. Não soube nunca se ele chegou a compreender.
Os tensos latidos lembraram que ela não podia, ainda, descansar. Desordenou o divã, desabotoou o paletó do cadáver, tirou-lhe os óculos salpicados e deixou-os sobre o fichário. Em seguida, pegou o telefone e repetiu o que tantas vezes repetiria, com essas e com outras palavras: “Aconteceu uma coisa inacreditável. O senhor Loewenthal me fez vir com o pretexto da greve… Abusou de mim, eu o matei”
A história era inacreditável, de fato, mas se impôs a todos, pois substancialmente era certa. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que padecera; só eram falsas as circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios.


Tradução de Flávio José Cardozo