Primeiro livro do escritor Georges Perec, ‘As Coisas’ usa casal para contar como a ânsia de consumo dos jovens é também a de ser consumido
14 de janeiro de 2012
Harold Chapm/Divulgação

Perec deixa trabalho referencial na literatura e bastante crítico com relação à publicidade
Antonio Gonçalves Filho – O Estado de S. Paulo
A vida não vem com manual de instruções, mas o escritor francês Georges Perec (1936- 1982), de quem está sendo lançado seu romance de estreia, As Coisas – Uma História dos Anos Sessenta (1965), bem que tentou criar um método para suportar suas agruras. Divertido, erudito, irônico, tantos adjetivos foram gastos para definir o autor de A Vida – Modo de Usar que sobram poucos para qualificar seu ambicioso projeto literário, já anunciado em As Coisas. No primeiro livro, ele dispensa, por exemplo, os diálogos para contar a trajetória de um jovem casal de pesquisadores, loucos para consumir e ser consumidos. Atento à vontade de ambos, Perec acaba por não dar voz a nenhum deles. O narrador, onisciente e onipresente, transforma-os em parte do mobiliário que a dupla imagina para sua casa nova.
Perec fez parte de um seleto grupo de autores reunidos em torno do Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentielle, ou Laboratório de Literatura Potencial), formado em 1960 pelo escritor e matemático Raymond Queneau (1903-1976), autor de Zazie no Metrô, ao qual se associou o enxandrista e químico francês François Le Lionnais (1901-1984) e o escritor cubano, de pais italianos, Italo Calvino (1923-1985).
No primeiro manifesto do Oulipo, Le Lionnais diz que podem ser identificadas duas tendências na pesquisa que o grupo se propõe a seguir: a analítica, que busca nos textos do passado possibilidades desprezadas por seus autores, e a sintética, que aponta caminhos desconhecidos por predecessores do pós-surrealista grupo ao qual Perec se integrou em 1967, dois anos após a publicação de As Coisas.
Perec não é um desconhecido entre os leitores brasileiros. Já foram publicados aqui Um Homem Que Dorme (1967), W ou A Memória da Infância (1975), A Vida – Modo de Usar (1978), A Coleção Particular (1979) e A Arte e a Maneira de Abordar Seu Chefe para Pedir um Aumento (publicação póstuma, 2008). Porém, dois romances experimentais – talvez pelo desafio que representam para os tradutores – permanecem inéditos no Brasil: La Disparition (1969) e Les Revenentes (1972).
São justamente suas experiências literárias mais radicais. Em La Disparition, Perec propõe-se a escrever um romance sem utilizar a vogal “e” – isso numa língua em que ela é usada ao extremo desde o berço, bastando dizer que pai (père) e mãe (mère) têm a vogal em dobro. No segundo, Les Revenentes, ele faz o contrário: produz um livro em que só o uso da vogal “e” é permitido.
Não se trata de um capricho formal a ausência da vogal em La Disparition. Perec explica no posfácio que sua fixação como escritor era criar um artifício tão original como iluminador, capaz de ser ao mesmo tempo um estímulo ao leitor para que fique transparente o processo de construção e narração do romance. A ausência do “e” é tanto a falta de uma letra essencial como o anúncio de uma tragédia familiar, pois não se pode viver num mundo em que as palavras père e mère foram abolidas.
Perec, que também tem dois “e”, perdeu pai e mãe ainda criança. Tinha 4 anos quando o pai, judeu polonês, morreu como soldado na guerra e 7 quando a mãe foi levada pelos nazistas (e provavelmente morta em Auschwitz). Criado pelos tios paternos, foi adotado por eles. Estudante de Sociologia e História, desde cedo começou a escrever para revistas literárias (entre elas La Nouvelle Revue Française, fundada por Gide), mas sobrevivia com o baixo salário de arquivista de um laboratório de pesquisas neurofisiológicas (cargo que manteve até quatro anos antes de sua morte, aos 45 anos, de câncer pulmonar, em 1982).
A classificação, até por conta desse trabalho, é o exercício mais praticado na literatura de Perec, especialmente em A Coleção Particular, obra do final de sua vida que pinta com tintas balzaquianas um quadro bizarro, o de um homem que troca a Alemanha pelos EUA, torna-se um rico cervejeiro e dedica sua vida a construir uma incomparável coleção de arte. Ele encomenda um quadro a um pintor – em que deve figurar ao lado de sua galeria – e, ao morrer, sua fraude é descoberta: Raffke, o cervejeiro, é também o pintor Kürz. Todas as obras são falsas.
A literatura como falsificação que leva à verdade – e ajuda a sobreviver – foi o grande tema de Perec, explorado com amargura em W ou A Memória da Infância. Nesse livro híbrido, o escritor oscila entre um relato autobiográfico e um romance construído, usando letras em itálico para distinguir este último de sua recordações, capítulos que se alternam e convergem, no epílogo, para uma melancólica conclusão: a de que os campos de concentração nunca deixaram de existir. Perec evoca o David Rousset de L’Univers Concentrationnaire para mostrar como uma sociedade utópica se degenera na estrutura dos campos de concentração, sejam eles nazistas ou ilhotas que viraram campos de deportação durante a ditadura Pinochet. Há dois mundos, segundo Perec: o dos senhores e o dos escravos. “Os Senhores são inacessíveis e os escravos se entredevoram.” Ainda assim, o atleta W, do livro, espera que a sorte lhe sorria.
Os estudantes Jérôme e Sylvie, de As Coisas, se assemelham, em sua ingenuidade, ao atleta W. Não percebem que a satisfação de seus desejos de consumo (um amplo apartamento) é uma sentença de morte, a perda de suas identidades. Na obra-prima de Perec, A Vida – Modo de Usar, que Italo Calvino classificou de hiperromance, os vários tipos de narrativa, a estrutura do jogo de xadrez que divide os capítulos, os símbolos arcanos e o algoritmo eleitos por Perec obrigam o leitor a ficar atento às descrições do imóvel que o autor escolheu como representação metafórica de um mundo em dissolução. Sua literatura mostra, afinal, que tradição e inovação não são excludentes: por trás dela, que desbancou o nouveau roman francês, existiam Flaubert, Balzac e Proust.
AS COISAS – UMA HISTÓRIA DOS ANOS SESSENTA
Autor: Georges Perec
Tradução: Rosa Freire d’Aguiar. Editora: Companhia das Letras (120 págs., R$ 32)
Banalidade que diz o que somos
Leitor de Marcel Mauss, Georges Perec aplicou seu método para descrever casal que sonha ser rico em seu livro
14 de janeiro de 2012
SÉRGIO MEDEIROS
O francês Georges Perec (1936-1982) tinha grande interesse em classificações. Era inevitável, portanto, que um belo dia se pusesse a classificar seus próprios livros, dividindo-os em diferentes categorias, sob a forma de exercício crítico escrupuloso, pelo menos na aparência. No volume póstumo Penser/ Classer (1985), o autor afirma que nunca escreveu dois livros iguais, pois não apreciava repetir uma fórmula, um sistema ou um procedimento já utilizado num livro anterior. Era, em suma, um autor sistematicamente versátil, que produziu textos tão diferentes entre si quanto La Disparition (ainda inédito em português) e A Vida – Modo de Usar (já publicado no Brasil pela Companhia das Letras), para citar dois dos mais importantes romances do autor, que mereceu em vida a reputação de ser um tipo de computador ou de máquina de produzir textos, conforme ele mesmo lembra em Notes sur ce que je cherche.

Georges Perec: sistematicamente versátil
Numa leitura retrospectiva, Perec descobriu que essa produção tão variada (durante uma carreira curta publicou muitos títulos, alguns poucos já traduzidos para o português) podia ser agrupada em quatro campos diferentes, ou quatro modos de interrogação, como ele sugere: o sociológico, o autobiográfico, o lúdico e, finalmente, o romanesco, termo que traduz seu gosto por histórias e peripécias. O romance de estreia do autor, As Coisas, que sai agora em português numa tradução de Rosa Freire d’Aguiar, se encaixaria, segundo Perec, na primeira categoria, a de interrogação sociológica, embora, evidentemente, também tenha algo de biográfico, lúdico e romanesco. Leitor de Marcel Mauss, autor que lhe abriu os olhos para os “fatos banais” capazes de “descrever” o que somos, Perec buscou, em seus livros “sociológicos”, sobretudo no de estreia, agraciado com o prêmio Renaudot, responder à seguinte indagação: como olhar o cotidiano?
Conforme revela o subtítulo de As Coisas – Uma História dos Anos Sessenta -, o leitor entrará em contato, nesse breve romance publicado por Perec aos 29 anos de idade, com o horizonte de desejos (para usar uma expressão sua) de um jovem casal de 1960, que não era rico, mas desejava sê-lo, Jérôme e Sylvie, ambos “psicossociólogos” que ganhavam a vida entrevistando pessoas sobre assuntos variados, numa época de expansão das análises motivacionais na França. Narrado em terceira pessoa, o romance não é, no entanto, a narração onisciente padrão, pois suprime radicalmente o diálogo, a reprodução direta da voz dos personagens. Ao expor ao leitor a imensidão dos desejos do casal (que é o de possuir o que veem na revista L’Express, por exemplo, que “lhes oferecia todos os signos do conforto”), Perec aposta na descrição escrupulosa, cinematográfica, objetiva. Essa meticulosidade descritiva dá o tom do relato, desde o início, um relato que exclui, curiosamente, a intensidade erótica, o desejo sexual: “A primeira porta abriria para um quarto, de piso revestido por um carpete claro…”
O narrador vasculha desejos (”O mundo, as coisas deveriam desde sempre lhes pertencer, e eles teriam multiplicado os sinais de possessão”) e relações sociais (”Quase todos vinham da pequena burguesia, e seus valores, pensavam, não lhes bastava mais: olhavam com inveja, com desespero, para o conforto evidente, o luxo, a perfeição dos grandes burgueses”), adentrando num mundo nada ideal que “começava a desabar sob o amontoado dos objetos”, daí a importância dos catálogos, das enumerações, de que se alimenta o estilo descritivo do jovem Perec. O pequeno mundo familiar do início dos anos 60, visto da perspectiva dos protagonistas, vai ganhando, página após página, novas nuanças, então o leitor descobre, nas corriqueiras “pesquisas de opinião”, algo improvisadas e amadoras, perguntas de outra ordem sobre o regime do general De Gaulle, a Guerra da Argélia, os anos que vão de 1959 a 1962… Os protagonistas, porém, logo dão as costas ao engajamento político e continuam aplicando sem interrupção os costumeiros questionários de estudos motivacionais.
Os personagens pequeno-burgueses de As Coisas pertencem todos, como Jérôme e Sylvie, aos meios da publicidade e são cinéfilos. Consideram, e com razão, segundo o narrador, o filme O Ano Passado em Marienbad (1961), de Alain Resnais, “uma merda”. No entanto, facilmente se verifica (é uma das grandes ironias do romance) que a mansão barroca desse filme está lá, escondida ou deformada, no pequeno apartamento parisiense dos protagonistas, e que os planos em movimento por corredores, usados por Resnais na sua obra-prima, menos a decoração magnífica, também abrem o delicioso romance de estreia de Perec: “O olhar, primeiro, deslizaria sobre o carpete cinza de um corredor comprido, alto e estreito…”
SÉRGIO MEDEIROS É ENSAÍSTA, TRADUTOR, E POETA. PUBLICOU, ENTRE OUTROS LIVROS FIGURANTES (ILUMINURAS, 2011). ENSINA LITERATURA E É EDITOR NA UFSC