20/09/2009 - 18:00h Freud 70 anos: Sonhos, complexo e pulsão para leigos. Os livros

 

Especialistas refletem sobre a obra do pai da psicanálise

Coleção dedicada a iniciantes lança segunda leva de títulos que atualizam as principais ideias do repertório psicanalítico

Francisco Quinteiro Pires – O Estado SP

Sigmund Freud foi bastante corajoso ao expor os seus sonhos em praça pública. Em certa medida, tal coragem recebeu uma recompensa, dada por A Interpretação dos Sonhos (1900), uma de suas obras capitais que inaugurou a psicanálise. E é ela que ganha uma análise afiada de John Forrester na coleção Para Ler Freud. Professor da Universidade Cambridge, Forrester disseca, em A Interpretação dos Sonhos (Civilização Brasileira, 94 págs., R$ 15), as críticas à teoria freudiana que diz haver diferenças entre o conteúdo latente e o manifesto dos sonhos. A distinção se faz necessária. O autor inglês explica que, quando se dá sentido aos elementos oníricos, torna-se possível acessar a caixa-preta dos desejos.

Organizada pela psicanalista Nina Saroldi, a coleção, lançada no fim de 2008, manda agora para as livrarias, junto com o livro de Forrester, mais dois volumes: Complexo de Édipo, de Chaim Samuel Katz, e As Pulsões e Seus Destinos, de Joel Birman. A trinca da estreia foi formada por Além do Princípio do Prazer (Oswaldo Giacoia Junior); As Duas Análises de uma Fobia em um Menino de Cinco Anos – O Pequeno Hans (Celso Gutfreind); e Luto e Melancolia (Sandra Edler). No total, a série terá 15 volumes. “Sem textos cifrados, a coleção atualiza as principais ideias elaboradas por Freud ao longo da a sua produção”, diz Nina, que assina os prefácios das edições.

Psicanalista e escritor, Katz aborda, em Complexo de Édipo (164 págs., R$ 25), um conceito desenvolvido pelo teórico austríaco a partir de um sonho com a mãe e uma antiga babá. Valendo-se da mitologia grega, o pai da psicanálise criou a teoria da paixão pela mãe e do ciúme pelo pai. Segundo Katz, que convocou teóricos como Foucault e Jung para tratar do assunto, é o complexo de Édipo que torna a vida em sociedade viável, por delimitar o fluxo da libido e a obtenção do prazer. Katz examina a manifestação contemporânea da culpa e da vergonha.

“Joel Birman é um dos autores mais produtivos da psicanálise”, diz Nina. “Sua posição política é interessante porque mostra a preocupação e a possibilidade de as questões sociais serem tratadas pela teoria psicanalítica.” Além de As Pulsões e Seus Destinos (162 págs., R$ 25), Birman está lançando Cadernos Sobre o Mal (Civilização Brasileira, 336 págs., R$ 49,90). Professor da UFRJ, ele debate, no primeiro, as referências atuais ao conceito de pulsão, pela qual se revela a ambivalência do indivíduo. No segundo, investiga as diversas expressões da violência nos dias correntes, sob a luz da psicanálise e levando em conta os problemas sociais.

Desafios da nova tradução brasileira

Feita a partir do alemão, ela tem o objetivo de recuperar o estilo impecável do autor; serão 35 volumes, dos quais 3 já saíram

Luiz Alberto Hanns – O Estado SP

Nos anos 80 e 90, dezenas de artigos e livros questionando a teoria e denunciando a ética pessoal de Freud passaram a circular pela mídia. Alguns apontavam deficiências teóricas, outros expressavam uma fúria caluniadora que parecia responder a décadas de domínio e arrogância de muitos dos seguidores de Freud. Agora, passado o que nos EUA se denominou Freudbashing (malhar Freud), damo-nos conta que, na verdade, os novos avanços da psicogenética, das neurociências e da psicofarmacologia não se contrapõem à teoria freudiana, e podemos avaliar seu lugar na cultura e ciência com mais isenção. Neurocientistas têm relido e valorizado suas teorias, bem como em ciências humanas muitos conceitos freudianos foram incorporados. Igualmente vários países europeus e Estados americanos passaram a incluir a psicanálise nos serviços públicos de saúde.

Contudo, esta retomada de Freud não explica o interesse despertado pelas novas traduções que surgem neste momento em que sua obra cai em domínio público. Afinal, desde os anos 70 Freud é o autor de língua alemã cuja tradução é a mais debatida. O curioso é que, em geral, Freud escrevia de modo acessível visando à divulgação da psicanálise. Por que, então, a celeuma sobre sua tradução?

Uma das respostas é que sua obra não é apenas lida, mas estudada. Não só por psicanalistas, mas também por filósofos, semioticistas, críticos de arte, etc. Alguns textos são destrinchados frase a frase discutindo-se “o que Freud realmente queria dizer”, dúvidas estas alimentadas por uma desconfiança das traduções que remonta aos anos 70, época em que o debate em torno da tradução de Freud transbordou para além dos especialistas, chegando ao público leitor de jornais. As discussões de então centravam-se nos termos psicanalíticos adotados pela prestigiosa tradução inglesa de J. Strachey, a Standard Edition of Sigmund Freud Complete Psychanalytical Works, que havia estabelecido um padrão terminológico internacional.

Discutia-se uma revisão dos termos psicanalíticos, cuja tradução passou a ser considerada “medicalizada” e estranha à linguagem freudiana – uma linguagem ligada à experiência cotidiana e afetiva. Afora alguns termos já corriqueiros como ego, superego, id e narcisismo, outros como catexia (carga de energia), estase (acúmulo), epistemofilico (desejo de conhecer), seriam desnecessariamente herméticos. Além disso, nos anos 80, quando se publicaram novos estudos abarcando outras importantes traduções em diversos idiomas, novas distorções e falta de distinções conceituais foram mapeadas, colocando todas sob suspeita e incentivando uma revisão geral das traduções.

A nossa Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de S. Freud da Imago Editora passou por um processo análogo, sendo em especial criticada pela psicanalista Marilene Carone, que infelizmente morreu pouco depois de iniciar uma nova tradução. Além de ter sido traduzida do inglês, a Standard Brasileira continha diversos erros. Uma nova tradução a partir do alemão e conforme critérios atuais se fazia necessária e a própria Imago a retomou, sob minha coordenação em 2002. Entretanto, é provável que nenhuma das novas traduções internacionais, incluindo a nossa nova edição brasileira, satisfaça a todas as demandas contemporâneas. Uma das dificuldades reside na relação de Freud com a linguagem.

Para ele, havia uma sabedoria psicológica nos idiomas, e é da linguagem cotidiana que ele se servia para nomear conceitos e apontar nexos entre fenômenos. Um exemplo ilustrativo: Freud descreve um momento psíquico essencial – o cerne dinâmico da pulsão ou do instinto – que ele nomeia de Drang e que para outros idiomas foi traduzido por um termo mais pobre, pressão (pressure, poussée, presión). Ocorre que em português há um termo análogo ao Drang: ânsia. Tanto ânsia como Drang descrevem algo que brota do desconforto físico crescente (por exemplo, a ânsia do sufocado em respirar), passa pelo afã e aponta para o anseio (por exemplo, ânsia por viajar).

O nosso ânsia, tal como Drang, articula duas conexões importantes: uma com o corpo que sofre e impele, e outra com a psique que representa mentalmente os objetos de alívio almejados. Não haveria espaço aqui para demonstrar as implicações e os desdobramentos teóricos que ligam o desejo ao corpo e este à vida psíquica, bem como as relações entre sofrimento e prazer. Estes temas foram discutidos por Freud sempre empregando palavras ligadas à nossa experiência afetiva. Daí seu estilo ter sido denominado “prosa científica”.

Lembremo-nos que o mesmo Freud que foi considerado pela escola de Viena como exemplo de rigorosa ciência positivista ganhou o prêmio literário Goethe. Contudo, esse duplo registro discursivo coloca o tradutor diante de um impasse: se por um lado houve um consenso em “desmedicalizar” a linguagem, os avanços psicanalíticos atuais levaram a novas exigências de formalização teórica e padronização terminológica (em geral semanticamente mais pobre), e se contrapõem a uma tradução mais coloquial que busca restaurar os nexos semânticos e literários. Internacionalmente tem havido diversas soluções; na França, a nova tradução coordenada por Laplanche, tem um cunho mais terminologizante, na Inglaterra a atual tradução dirigida por Phillips tem um viés radicalmente literário.

A nova tradução brasileira, que começou a ser publicada em 2004 e que se estenderá até 2017, opta por dois caminhos: no corpo do texto enfatizamos a fluidez e o prazer de leitura, portanto, um viés literário, mas ao fim de cada capítulo incluímos um extenso corpo de notas com subsídios aos estudiosos. Embora nossa tradução deva se prestar a estudos, não abrimos mão de recuperar o estilo de Freud, acessível, instigante e em diálogo com a cultura. Outra providência foi não mais publicarmos a obra de Freud em ordem cronológica, pois isso nos obrigaria a publicar junto com textos relevantes de sua juventude, um grande número de cartas pessoais e artigos repetitivos que só interessam aos estudiosos e deixaria importantes textos de sua maturidade para uma publicação muito posterior.

Optamos por eixos temáticos que reúnem os textos mais lidos e procurados. O primeiro eixo, já publicado, engloba os Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente (em três volumes, totalizando 640 páginas e 17 textos do período de 1911 a 1938). O eixo seguinte, em quatro volumes, trará os Escritos sobre Cultura, Sociedade e Religião. Mais adiante virão os textos sobre sexualidade, depois sobre arte e literatura, num total de 12 eixos temáticos, distribuídos por 35 volumes. Esperemos que este formato, bem como resgate do texto fluido e expressivo de Freud, permita à nova geração de leitores apreciar seu estilo e perceber suas múltiplas aberturas para a modernidade.

* Luiz Alberto Hanns, doutor em Psicologia pela PUC-SP, psicanalista, é cordenador-geral da nova tradução brasileira das obras de Sigmund Freud e autor do Dicionário Comentado do Alemão de Freud (Imago), entre outros livros sobre o tema

Estante Básica

RENATO MEZAN


Eis alguns livros disponíveis em português que podem interessar tanto aos marinheiros de primeira viagem quanto aos que já possuem algum conhecimento da psicanálise:

DE SIGMUND FREUD

Obras Psicológicas, editora Imago. Trata-se da nova edição da obra completa de Freud, traduzida diretamente do alemão, sob a coordenação-geral de Luiz Alberto Hanns. A publicação teve início em 2004 e já foram lançados três volumes, que reúnem os Escritos Sobre a Psicologia do Inconsciente. Neles estão incluídos os chamados textos metapsicológicos do criador da psicanálise – como O Recalque, Pulsões e Destinos da Pulsão e O Fetichismo.

SOBRE SUA VIDA E A ÉPOCA EM QUE VIVEU

Freud – Uma Vida Para o Nosso Tempo, de Peter Gay. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.

Freud: Sua Longa Viagem Morte Adentro, de Lúcio Roberto Marzagão. Belo Horizonte, Ophicina de Arte & Prosa, 2007.

Viena Fin-de-Siècle, de Carl Schorske. São Paulo, Companhia das Letras, 1993.

SOBRE SUA OBRA

O Carvalho e o Pinheiro: Freud e o Estilo Romântico, de Inês Loureiro. São Paulo, Escuta, 2002.

Freud: Um Ciclo de Leituras. Silvia Leonor Alonso e Ana Maria Siqueira Leal (orgs.). São Paulo, Escuta, 1997.

Freud, Pensador da Cultura, de Renato Mezan. São Paulo, Companhia das Letras, 2005.

PRÁTICA CLÍNICA

Freud e o Homem dos Ratos, de Patrick J. Mahony. São Paulo, Escuta, 1991.

RELAÇÃO COM O JUDAÍSMO

O Moisés de Freud: Judaísmo Terminável e Interminável, de Yosef Hayim Yerushalmi. Rio de Janeiro, Imago, 1992.

Psicanálise, Judaísmo: Ressonâncias, de Renato Mezan. Rio de Janeiro, Imago, 1995.

O MOVIMENTO PSICANALÍTICO E OS AUTORES PÓS-FREUDIANOS

História, Clínica e Perspectivas nos Cem Anos da Psicanálise. Abrão Slavutzky, César de Souza Brito e Edson Luiz André de Sousa (orgs.). Porto Alegre, Artes Médicas, 1996.

Transferências Cruzadas: Uma História da Psicanálise e Suas Instituições, de Daniel Kupermann. Rio de Janeiro, Revan, 1996.

A Psicanálise Cura? Uma Introdução à Teoria Psicanalítica, de Roberto Girola. São Paulo, Ideias e Letras, 2004.

PSICANÁLISE NO BRASIL

A Psicanálise no Brasil: As Origens do Pensamento Psicanalítico, de Elisabete Mokrejs. Rio de Janeiro, Vozes, 1992.

Figura e Fundo: Notas Sobre a Psicanálise no Brasil, 1977-1997, de Renato Mezan. In Interfaces da Psicanálise; São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

29/03/2009 - 16:18h Sob a batuta do tempo

 

 

Em O Resto É Ruído, o crítico Alex Ross questiona ideia de que a música clássica viveu alheia às principais questões do século 20

João Luiz Sampaio – O Estado SP

“O jovem Adolf Hitler compareceu à estreia austríaca da obra.” A informação, na nota de rodapé de um volume publicado no fim dos anos 80 sobre Salomé, ópera de Richard Strauss baseada na peça de Oscar Wilde, tinha tudo para passar despercebida. Mas, para Alex Ross, então na universidade, foi como uma revelação. E se pensássemos a música produzida no século 20 em conjunto com o contexto político e social? Surgia ali a ideia para O Resto É Ruído, livro do agora crítico musical da revista New Yorker, que chega às livrarias brasileiras nesta semana após causar polêmicas nos Estados Unidos e na Europa com sua tese principal: a música clássica, em que pese a perda de público das últimas décadas, jamais esteve alheia às principais questões do século 20. Mais do que isso: é porta de entrada privilegiada para que se compreenda o período.

“Compositores são relevantes”, brinca ele, em entrevista ao Estado, definindo aquele que seria o fio condutor das quase 700 páginas de seu livro, lançado no Brasil pela Companhia das Letras. A noção vai contra o senso comum ou mesmo o pensamento de alguns intelectuais, como o palestino Edward Said, principal teórico da ideia de que a música clássica, ao se voltar à experimentação por si mesma, perdeu sua relevância social. “Tendo os compositores se infiltrado em todas os aspectos da existência moderna, sua obra só pode ser retratada na maior tela possível”, defende Ross. “Por isso, O Resto É Ruído não trata apenas dos artistas, mas também dos políticos, ditadores, mecenas milionários e diretores de empresa que tentaram determinar que música seria escrita; das tecnologias que mudaram o modo de fazer e ouvir música; ou então das guerras quentes e frias, levas migratórias e profundas transformações sociais que alteraram a paisagem onde trabalhavam os autores.”

Ross mostra, por exemplo, como a escrita de Strauss em Salomé está diretamente ligada às novas ideias sobre sexualidade na Viena de Freud; na capital austríaca, a presença de Trotski nas primeiras décadas do século 20 e a crescente oposição entre burguesia e vanguarda levariam a uma sensação de catástrofe iminente, de fim de um sistema estabelecido de valores, o que, na música de Arnold Schoenberg, significaria a quebra da hegemonia do sistema tonal. Na mesma época, em Paris, o russo Igor Stravinsky criava o balé A Sagração da Primavera (1913), tirando da música o status de “teatro da mente” consagrado pelo Romantismo e introduzindo o conceito de “música do corpo”, quase ritualística, que bebia nas “nascentes das montanhas”, e não na “pretensamente sofisticada” vida urbana.

Dança dos 7 véus da Ópera salome de Richard Strauss

Com a 1ª Guerra, os franceses, imbuídos de certo espírito nacionalista, defenderiam o rompimento com o cânone musical, leia-se “a tradição germânica”. Já com a 2ª Guerra, música virou propaganda. Na União Soviética, Stalin elegia os artistas como delegados responsáveis por transmitir a mensagem de que “a vida está ficando melhor”. Nos Estados Unidos de Roosevelt, o New Deal jogava quantias jamais imaginadas de dinheiro nas artes, levando o maestro da Sinfônica de Boston, Sergei Koussevitzky, a afirmar que “o próximo Beethoven viria do Colorado”; Georges Gershwin acabaria recriando a música popular no palco de ópera; e Aaron Copland, aos poucos, abandonaria as ligações com o Partido Comunista, entrando na dança da busca por uma identidade cultural norte-americana.

Fanfarra para um homem comum de Aaron Copland – WOODY HERMAN and the THUNDERING HERD

Logo chegariam os anos 60. Na Europa, a música do alemão Karlheinz Stockhausen pregaria a liberação definitiva das amarras da traição – e também dos sentidos, dos amores, das paixões. O mesmo faria, nos EUA, o maestro e compositor Leonard Bernstein, mas como uma espécie de espelho artístico do presidente John F. Kennedy, carismático, capaz de articular para as câmeras um discurso repleto de referências à vanguarda e, como autor, aproximar-se da música popular como fonte principal de inspiração.

A lista é longa e há ainda meio século a ser discutido. O apresentado até aqui, no entanto, já é suficiente para que se pergunte a Ross: se a música manteve diálogo tão próximo com a sociedade, por que então se afastou do público e perdeu a relevância nos debates culturais, como quer Said? “Não há apenas uma resposta”, ele começa. “Por um lado, o surgimento da gravação redefiniu o papel da música clássica na vida das pessoas. Até o fim do século 19, os clássicos eram os únicos autores que conseguiam editar suas obras, consumidas no dia a dia das famílias. Com a possibilidade de registrar em áudio as obras, perdeu-se essa hegemonia e também a cultura popular passou a frequentar os lares. É fato que, com isso, surgiu toda uma fortuna crítica que antes era destinada apenas aos clássicos.” Em outras palavras, um novo disco com canções de Bob Dylan é analisado como se poderia analisar um novo caderno de canções de Schumann – e a música clássica, então, deixaria de ser representante exclusiva de uma forma de arte sofisticada, com artistas populares suprindo essa “necessidade social”. “Mas é preciso ir além. O que houve com a cultura musical foi uma desintegração em uma série de culturas e subculturas, cada uma com cânone e jargões próprios”, diz o autor. Os clássicos, portanto, deixaram de ser hegemônicos – viraram alternativos. Mas não perderam sua relevância. Um exemplo seria a obra do norte-americano John Adams, que trata de questões contemporâneas, como a criação da bomba atômica, levando, dessa maneira, à busca de uma nova estética de composição em acordo com essa temática.

QUEM É O AUTOR

Alex Ross nasceu em 1968, em Washington. No fim dos anos 1980, em Harvard, estudou com o compositor Peter Lieberson e fez seu doutorado sobre a obra do escritor irlandês James Joyce. De 1992 a 1996, foi crítico do New York Times; em seguida, assumiu o posto na revista New Yorker. Já colaborou com publicações como The New Republic, Slate e London Review of Books. Mantém o blog www.therestisnoise.com e atualmente prepara dois livros. O primeiro é uma coletânea de textos sobre música popular; o segundo, Wagnerism, trata da influência da música de Richard Wagner na segunda metade do século 20.

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Modernos, ma non troppo

Tese de Alex Ross esbarra na retomada da tradição, marca do trabalho de compositores atuais

 

João Marcos Coelho – O Estado SP

 


“Eu tenho um sonho.” Alex Ross poderia parafrasear Martin Luther King. O sonho de um denominador comum na música do século 20. Música não, músicas que unam numa só comunhão compositores e público. Afinal, desde o divórcio entre estes dois atores da cena musical, no início do século 20, a sensação de abismo entre uns e outros só cresceu. Hoje parece intransponível. De Schoenberg a Stockhausen e Pierre Boulez, uma linha reta de criadores deu as costas ao público. E ditou o modo como a música evoluiu no século. Mais: recalcou dezenas de grandes compositores que ousavam praticar as cartilhas ultrapassadas da tonalidade. Para promover esta reconciliação, só mesmo colocando um plural na palavra música. Foi o que fizeram, quarenta anos atrás, os norte-americanos Morton Feldman, Steve Reich e Philip Glass. O minimalismo, chamado com ironia mas justeza na Europa de “música repetitiva”, resgatou o pulso regular e a tonalidade na criação contemporânea. Sobretudo, ampliou o olhar para assimilar e deglutir as outras músicas: populares, folclóricas, orientais, etc. É o que também faz Alex Ross nas fascinantes páginas de texto corrido de O Resto É Ruído, traduzido por Claudio Carina e Ivan Weiz Kuck. Texto legível, que traz para o leitor comum o que ele chama de “obscuro pandemônio na periferia da cultura”. É a maior virtude deste livro admirável: trocar em miúdos uma história que até agora vinha sendo contada esotericamente, de modo complicadíssimo.

Mas, para entendermos o que está por trás deste discurso, o que alimenta suas concepções, precisamos dar uma boa olhada na cena norte-americana atual. Porque, mais do que pós-modernismo, creio que se pode chamar de estética da inclusão sua carta de princípios. A primeira geração minimalista, a de Reich e Glass, já é fenômeno velho. Incorporou sim o pulso regular, mas o fez de modo hipnótico. As peças minimalistas dos anos 60 são de fato instigantes e desafiadoras. O problema é que virou receitinha de composição, como, aliás, a música serial nas décadas anteriores do século 20. A grande maioria das peças minimalistas de segunda geração pode levar o ouvinte ao desespero em alguns minutos, pela repetição obsessiva.

Os pilares de sua argumentação são, pela ordem: o compositor John Adams, segunda geração minimalista, hoje com 61 anos; e o movimento Bang on a Can, erupção mais vistosa da música de “New York downtown”, que se opõe à oficialista “New York uptown”, que faz música para as elites de Manhattan.

Adams, depois de várias obras importantes, como Harmoniehlere, para orquestra, e as óperas Nixon in China (1987), A Morte de Klinghofer (1990) e El Nino (2000), acaba de lançar em DVD a ópera Doctor Atomic, focada no dilema de Oppenheimer e a bomba atômica. Se a música das três primeiras óperas já não era estritamente minimalista porém exibia vitalidade intensa, o mesmo já não se sente neste Doutor Atômico. Hoje, ele é apenas mais um compositor neoclássico lambuzando-se de século 19.

De igual modo, Bang on a Can, que nasceu como um festival de música experimental em 1987, hoje já tem sólido status na New York uptown: um de seus fundadores, David Lang, ganhou o Pulitzer de 2008, e o grupo é objeto de um excelente documentário dirigido por Frank Scheffer (os outros fundadores do grupo são Julia Wolfe e Michael Gordon). Mas a audição do mais recente CD com obras de Lang é frustrante. É música simplesmente chata, que retorna a um minimalismo meio caricato. Pierced, a faixa-título, trabalha com uma pequena célula melódica fincada num bate-estaca imutável. São 14 minutos difíceis. Das cinco faixas, a mais interessante não é composição, mas um arranjo de Lang para Heroin, o clássico de Lou Reed divinamente cantado por Theo Bleckmann (os 11 minutos valem o CD, mas a faixa pode ser baixada na internet a módico preço).

VAMPIRIZANDO O POP

Um olhar, aliás, sobre a cena norte-americana mostra que o arranjo de Lang não é atitude isolada. John Corigliano, em seu mais recente CD, Mr. Tambourine Man, musicou sete letras de Bob Dylan. Sim, você leu direito. Ele musicou clássicos como Blowin? the Wind e Forever Young, para soprano amplificada e orquestra. E jura que jamais ouviu as canções do bardo. É mais ou menos como alguém musicar Caetano Veloso e dizer que jamais ouviu suas músicas. Seria mera curiosidade ou idiotice – mas o Grammy 2009 premiou-o como CD de música contemporânea!

A fragilidade da música sobre a qual se apóia Ross enfraquece sua tese inclusiva. Mas não pense que a situação é animadora na Europa. O último CD de Penderecki, celebrado compositor polonês da vanguarda dos anos 60, contém duas obras neoclássicas quase-século 19 (ou seria barroco?): Concerto Grosso nº 1 para 3 Cellos e Orquestra, de 2000, e Largo para Cello e Orquestra, de 2003. O choque é que um desavisado completou o CD com uma obra de 1964 que soa amalucadamente vanguardista em relação às anteriores: Sonata para Cello e Orquestra. Nem sempre se caminha para a frente, não é mesmo?

O caso do britânico Michael Nyman é parecido. Ele assinou, nos anos 70, um livro excepcional sobre a música contemporânea – Experimental Music : Cage and Beyond -, mas dos anos 80 em diante notabilizou-se pelas trilhas sonoras, principalmente para Peter Greenway. Pois ele virou abóbora. Seus dois últimos CDs não poderiam ser mais passadistas. Um traz gravações realizadas dez anos atrás, com o Concerto para Piano, com a ótima pianista Kathryn Stott; o outro intitula-se Nyman: Mozart 252, com pastiches popularizantes de música de Mozart (para quem se lembra, é pior, muito pior do que Waldo de los Rios, que arranjou Beethoven e a Sinfonia nº 40 de Mozart; este, pelo menos, tinha swing; Nyman parece um jumento tentando um pas-de-deux sonoro).

Em suma, a tese de Alex Ross é muito interessante. E merece nossa solidariedade, porque tenta oferecer alternativas à perspectiva européia. Mas não precisava ter tanto rancor de excepcionais compositores como Stockhausen ou Boulez. Este, especialmente, é tratado como um psicopata no livro. Não pega bem chamar Boulez de ilusionista: “Boulez sempre conseguiu habilmente manter a ilusão de estar muito à frente – a marca de um mestre da política”. Também soa forçado fazer de Thelonious Monk um influenciado por Schoenberg .

O DVD Music for Airports/In the Ocean, lançado em janeiro passado, é emblemático desta ambigüidade entre qualidade do discurso verbal e ausência dela na música. São 50 minutos: os líderes de Bang on a Can arranjam Music for Airports, composta por Brian Eno em 1978. Eno é guru de Michael Gordon, David Lang, Julia Wolfe e Evan Ziporyn. Se o original já era propositalmente papel de parede sonoro, segundo a feliz expressão de Erik Satie nos anos 20, estes arranjos provocam ainda mais letargia. Contribuem decisivamente as imagens sempre desfocadas de Sheffer, aparentemente de um aeroporto, claro.

O documentário In the Ocean é mais sintomático do tratamento dado aos europeus. Pretende, segundo o texto do folheto do DVD, contar a história das relações musicais entre Estados Unidos e Europa nos últimos trinta anos. Mas o que se vê é a história de como a América triunfou sobre o velho continente. Philip Glass, por exemplo, reverencia o fato de que “hoje a música pode ser tonal, o que é novo”. “Nos anos 60, sabíamos bem o que era a música moderna. Hoje não sabemos mais.” David Lang acrescenta: “Existem centenas de domínios válidos na música. Espero que no futuro haja milhares”. E Glass completa com esta estorinha: “Quando estudei com Nadia Boulanger em Paris, ela me dizia às vezes: tenho pena de vocês americanos, pois não têm o sentido da história. Eu não respondia nada, mas pensava: sim, exatamente, é isso que faz nossa força”.

Sinceramente, não sei se mergulhar de cabeça na música popular ou costurar arremedos de pulsos regulares é a solução. Pode ser um atalho e dar até bons e inesperados frutos. Mas não a chamada avenida principal.

O século 20 em cinco autores, por Ross

ARNOLD SCHOENBERG: Outros compositores da virada do século também concebiam sua situação como a luta solitária contra um mundo estúpido e cruel. Claude Debussy, em Paris, adotou uma postura antipopulista nos anos anteriores a 1900 e, não por acaso, rompeu com a tonalidade convencional. Mas Schoenberg foi responsável pelos avanços mais drásticos e introduziu uma elaborada teleologia da história musical, uma teoria do progresso irreversível, para justificar seus atos. A metáfora do Fausto faz justiça ao terror que a força destrutiva de Schoenberg inspirava nos primeiros ouvintes.

IGOR STRAVINSKY: O acorde (em A Sagração da Primavera) se repete cerca de 200 vezes. Ao mesmo tempo, a coreografia de Nijinsky trocou o gestual clássico por uma quase anarquia. (…) Dos camarotes, onde sentavam os espectadores mais abastados, vinham urros de desaprovação. Os estetas dos balcões e dos lugares de pé urraram de volta. Os eventos exibiam matizes de luta de classes. O compositor Florence Schmidt teria dito: “Calem a boca, vagabundas do seixième!” – provocação às damas da alta sociedade do sexto arrondissement. “Não se podia ouvir o som da música”, recordou Gertrude Stein.

JOHN CAGE: No espírito turbulento dos anos 60, uma onda de vanguarda fez com que o acaso, a indeterminação e a notação gráfica formassem uma tendência na Europa. Alguns gravitaram em direção ao passado musical, com citações e colagens. Outros procuraram espaços interestelares (…). Havia os dadaístas brincalhões, referências do pop, adeptos de um novo modismo envolvendo cantigas comunistas (agora em nome de Castro e Mao). (…) John Cage estava entrando em seu período de maior prestígio.

KARLHEINZ STOCKHAUSEN: Em 1960, Stockhausen completou Kontakte, em que sons eletrônicos e ao vivo se afastam ou misturam num borrão. (…) Em 1962, o mundo teve o primeiro vislumbre do que se tornaria o Momente, de duas horas de duração, envolvendo quatro corais, uma solista soprano, uma falange de trompetes e trombones, um par de órgãos eletrônicos e uma bateria de percussão centrada num tantã japonês muito grande. Foi a bacanal da vanguarda, uma liberação dos sentidos com gritos, bater de palmas e batidas de pé.

JOHN ADAMS: Nixon in China, a primeira ópera de John Adams, apresenta transmutação ainda mais drástica do estilo europeu. Nada parece mais improvável que a ideia de uma ópera americana baseada nos eventos que cercaram a visita de Nixon à China em 1972. Quando o diretor Peter Sellars propôs o tema pela primeira vez, Adams pensou que estivesse brincando. Sellars sabia o que fazia. Ao transportar a ópera para um cenário contemporâneo conhecido em todo o mundo, ele quase obrigava Adams a se livrar de todas as teias de aranha do passado europeu.