25/11/2008 - 17:25h Centro médico favoreceu laboratório

Renomado psiquiatra ajudou a aumentar lucro de empresa farmacêutica

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Gardiner Harris Do New York Times – O GLOBO

NOVA YORK. Quando uma investigação no Congresso americano revelou, em junho, que o renomado psiquiatra infantil Joseph Biederman, da Universidade de Harvard, havia recebido muito mais dinheiro de um laboratório farmacêutico do que havia relatado à sua instituição, este declarou que “seu interesse era apenas o avanço do tratamento médico por meio de um estudo rigoroso e objetivo”. Porém e-mails e documentos internos da Johnson & Johnson tornados públicos mostraram que Biederman convenceu o laboratório a financiar um centro de pesquisa no Hospital Geral de Massachusetts cuja meta seria “levar a adiante os interesses comerciais da Johnson & Johnson ”. Documentos também mostraram que a Johnson & Johnson escreveu o sumário de um artigo científico assinado pelo psiquiatra.
O trabalho de Biederman ajudou a elevar em 40 vezes, de 1994 a 2003, o diagnóstico de transtorno bipolar pediátrico e estimulou rápido aumento na prescrição e uso de potentes, perigosos e caros antipsicóticos em crianças. Embora muitos de seus estudos sejam pequenos e às vezes financiados por fabricantes de drogas, ele tem grande influência em sua área, em parte devido à sua posição numa mais prestigiadas instituições médicas do mundo.
A Johnson fabrica o Risperdal (risperidona) e mais de um quarto de seu uso é em crianças e adolescentes. Na semana passada, especialistas disseram que drogas como Risperdal são receitadas em excesso para crianças e que resoluções deveriam ser adotadas sobre possíveis riscos. Outros antipsicóticos conhecidos são Zyprexa (Eli Lilly); Seroquel (AstraZeneca); Geodon (Pfizer), e Abilify (Bristol-Myers Squibb).
Milhares de pais entraram com ações contra Johnson & Johnson, Eli Lilly e AstraZeneca, alegando que seus filhos tiveram seqüelas depois de tomarem drogas psiquiátricas, cujos riscos foram minimizados pelos laboratórios. Advogados das vítimas têm exigido milhões de documentos das empresas, quase todos apresentados sob ordem judicial. E pediram a um juiz para intimar Biederman.

Médico ficou furioso por não receber dinheiro

Em moção há duas semanas, advogados argumentaram que eles deveriam receber permissão para ouvir Biederman porque seu trabalho tem sido crucial na aceitação generalizada de antipsicóticos na infância. Para apoiar esta tese, advogados mostraram documentos, incluindo emails de Johnson & Johnson, mencionando Biederman.
Esses papéis mostram a delicada relação entre laboratórios e médicos influentes. Em e-mail em novembro 1999, John Bruins, executivo de marketing da Johnson & Johnson, pediu a superiores para pagar um cheque de US$ 3 mil a Biederman por palestra na Universidade de Connecticut: “Biederman não é um qualquer e tem pavio curto”, escreveu. Bruins se referia ao fato de o psiquiatra ter ficado furioso depois que a Johnson recusou pedido de US$ 280 mil para pesquisa. Depois disso, a companhia passou a ser ignorada na sua especialidade.
Laboratórios contratam médicos para escrever artigos e recrutam cientistas como autores.
A prática é criticada por sociedade médicas e universidades.
Biederman, que ainda trabalha para o centro de pesquisas da Johnson, omitiu de Harvard que recebeu US$ 1,4 milhão da companhia e de outros laboratórios.

Conflitos de interesse no jornalismo de saúde


Laboratórios oferecem viagens

Roni Caryn Rabin
Do New York Times

NOVA YORK. Jornalistas de saúde podem se ver envolvidos nos mesmos conflitos éticos que eles próprios reportam ao aceitarem prêmios patrocinados por indústrias farmacêuticas ou confiarem em informações prestadas pelas assessorias de comunicação dessas empresas, alertam pesquisadores.
Prêmios financiados por laboratórios que oferecem premiação em dinheiro e viagens pagas por fabricantes de medicamentos estão entre os mais “chocantes” elos financeiros entre jornalistas e a indústria farmacêutica. O estudo foi publicado na revista “British Medical Journal” e tem como principal autor Steven Woloshin, do Instituto Dartmouth de Políticas em Saúde e Prática Clínica.
Entre os prêmios citados pelo artigo estão alguns oferecidos pelos laboratórios Eli Lilly e Boehringer Ingelheim para reportagens sobre incontinência urinária e novos tratamentos para o câncer.
Os vencedores ganham viagens internacionais.
Os autores também citam treinamentos e programas educacionais voltados para jornalistas financiados pela indústria. O texto critica duramente a confiança que muitos repórteres depositam em textos e material de divulgação sobre drogas distribuídos pelos próprios fabricantes para obter informações e, mais grave ainda, para acessar pacientes e especialistas médicos.

23/11/2008 - 15:17h A nova superbactéria

Caption: Scanning electron microscope image of A. baumannii, with maps of its genome (outer circle) and alien island sequences (inner circle – red).
Credit: Courtesy of J.Carr/CDC; T.Gianoulis and D.Massa/Yale

Comunidade internacional divulga alerta para infecções resistentes a remédios

Normalmente encontrada no solo e na água, uma perigosa e resistente bactéria se alastra por hospitais de todo o mundo, inclusive do Brasil, alertaram especialistas em doenças infecciosas em artigo publicado esta semana na revista médica “The Lancet”. De acordo com os médicos, a Acinetobacter baumannii seria ainda mais ameaçadora do que a MRSA (uma variante muito resistente de Staphylococcus aureus) e a Clostridium difficile: ela já responde por pelo menos 30% das infecções hospitalares resistentes a drogas.

— Há um crescente aumento de infecções por A baumannii em vários hospitais em todo o mundo — afirmou, em entrevista à Reuters, Matthew Falagas, da Universidade de Tufts, em Boston, e do Instituo Alfa de Ciências Biomédicas, na Grécia, co-autor do artigo ao lado de Drosos Karageorgopoulos. — E são infecções muito difíceis de tratar porque as bactérias são resistentes à maioria dos medicamentos disponíveis.

Brasil já registrou casos de infecção

Especialistas em infecção hospitalar no Brasil já estão cientes da ameaça da bactéria e de sua presença em centros de saúde no país há algum tempo.

— Do mesmo modo que em outros países, não somente as Staphylococcus aureus resistentes à meticilina, conhecidos como MRSA, têm preocupado nossa comunidade médicocientífica.

Surtos de infecções hospitalares causadas por A. baumannii, sensíveis somente ao antibiótico colistina, têm sido descritos, há alguns anos, no Brasil — diz Agnes Marie Sá Figueiredo, diretora do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

De acordo com o artigo da “Lancet”, o papel da A. baumannii em graves infecções diagnosticadas em pacientes criticamente doentes é cada vez mais claro. “Esse patógeno está associado a surtos de infecção muito difíceis de serem controlados”, destaca o texto.

Alguns médicos estão lançando mão de uma classe de antibióticos conhecidos como polimixinas para combater a infecção.

Essas drogas não são usadas há 20 anos para esta finalidade, em parte por causa dos efeitos colaterais que apresentam, entre eles problemas renais. “Isso significa que os médicos precisam de novas drogas para combater a bactéria”, sustentou Falagas. “Mas a melhor arma para deter o avanço da A. baumannii ainda é lavar bem as mãos. Essa é a medida mais importante de prevenção para os que trabalham em hospitais.” Mas não apenas. A limpeza das instalações hospitalares e dos equipamentos utilizados é ainda mais importante, sustentam especialistas em infecções resistentes.

A A. baumannii compartilha muitas das piores características da MRSA e da Clostridium difficile, como a sobrevivência em superfícies secas e a resistência à maioria dos desinfetantes. A A. baumannii sobrevive na poeira e até na roupa de cama por meses.

Ela também pode ser transportada na pele de pessoas saudáveis. Tudo isso torna muito difícil a erradicação da bactéria depois que ela se instala em alguma instituição, explicam os especialistas, e revelam a importância da limpeza rigorosa na prevenção.

A A. baumannii provoca infecções sangüíneas e pneumonia, entre outros problemas.

Especialistas dizem que a bactéria não representa uma ameaça às pessoas saudáveis e que mesmo para as linhagens mais resistentes ainda existem drogas eficazes. No entanto, dizem, a questão é preocupante.

16/11/2008 - 17:15h Inca: toque retal não é indicado como prevenção

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Instituto também desaconselha teste do PSA para próstata

Roberta Jansen – O GLOBO

A notícia é boa para os homens no Dia Nacional de Combate ao Câncer de Próstata: o exame de toque retal e de dosagem de PSA não são recomendados pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca) como uma forma eficaz de reduzir a mortalidade causada pelos tumores malignos. Ou seja, o instituto desaconselha que os exames sejam feitos periodicamente por homens que não apresentem sintomas.

A idéia de que os exames preventivos seriam eficazes na redução da mortalidade é bastante difundida e recomendada, inclusive, pela Sociedade Brasileira de Urologia. Mas o Inca, referência para os tratamentos e políticas públicas de câncer no país, garante que não há base científica para tal recomendação. A mesma posição é adotada pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

— Acho que essa idéia foi construída por analogia com os cânceres em que o rastreamento leva à redução da mortalidade, como o de mama e colo de útero — afirmou a gerente da Divisão de Gestão da Rede Oncológica do Inca, Ana Ramalho. — Mas não existem evidências científicas de que o rastreamento para o câncer de próstata reduza a mortalidade causada pela doença. Estudos feitos desde a criação do teste do PSA vem mostrando que a mortalidade é a mesma.

Muitos tumores não evoluem para câncer

Isso ocorre, segundo a especialista, porque os tumores de próstata apresentam uma característica específica: embora sejam relativamente freqüentes em homens acima dos 50 anos, em boa parte dos casos não se desenvolvem.

— Mas no momento em que um tumor é descoberto num exame, tem que se tomar uma atitude porque não há como saber quais vão evoluir e quais não vão — explica Ana Ramalho. — Então, ocorre o que chamamos de sobretratamento em boa parte dos casos, estamos tratando algo que nunca ameaçaria a saúde daquela pessoa, que nunca se transformaria em doença.

Para as pessoas que quiserem fazer os exames, a recomendação do Inca é que o médico as informe sobre os benefícios e os riscos de tal decisão, já que o tratamento pode envolver radioterapia e cirurgia.

— As duas complicações mais freqüentes do tratamento são a incontinência urinária e a impotência sexual — lembrou a especialista.

O Inca recomenda a adoção de hábitos saudáveis na prevenção do câncer (não fumar, praticar exercícios físicos e ter uma alimentação balanceada) e a procura por um especialista se forem detectados sintomas como sangue na urina, necessidade freqüente de urinar, jato urinário fraco e dor ou queimação ao urinar.

28/10/2008 - 16:30h Torcedor com currículo

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Blog de Nassif

Um dos estratagemas mais utilizados na disputa política é abrir espaço para torcedores alinhados com as teses do veículo, mas que venham montado em currículos acadêmicos. Aí, a torcida ganha ares de análise científica.

Faz parte desse estilo, a entrevista de Maria Vitória Benevides à Folha, tentando explicar “cientificamente” a derrota de Marta Suplicy em São Paulo.

“O problema é que a memória da imensa maioria dos eleitores, os mais pobres e os menos politizados, é mais curta. Marta devia ter um nível de aprovação altíssimo por causa dos CEUs, mas os CEUs foram apropriados pelos outros: ninguém diz que vai abandonar os CEUs. Deixou de ser algo exclusivo do PT. E a rejeição a Marta é muito forte porque juntou a rejeição ao PT, que piorou muito em razão do que aconteceu, à rejeição a Marta, que é grande por ela ser a Marta: ela agrega rejeição por ignorância, por preconceito, pelo grupo dela no PT”.

Se tem algo que caracteriza os mais desassistidos é justamente a gratidão. O que garantiu a longevidade política de Jânio, Brizolla, do mito Vargas?

Mas diria que, dos analistas-torcedores, poucos se igualam a Marco Antonio Villa na capacidade de tirar conclusões sociológicas de qualquer detalhe, por mais insignificante que seja.

Sua análise sobre o o site do Palácio do Planalto merece entrar em um compêndio sobre as grandes masturbações sociológicas desses tempos de radicalização.

Primeiro, fez análises sociológicas sobre a ferrovia que aparece no site:

• Ao abri-lo, o leitor verá um trem em alta velocidade, inclusive com som, simbolizando o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), isto quando há mais de meio século as ferrovias foram consideradas símbolos do atraso e as rodovias a essência da modernidade.

Qualquer especialista em logística lhe dirá que, nesse ano da graça de 2008, ferrovias são a maior esperança de integração logística no país. Mas Villa vive de símbolos, não de análises.

Depois, avançou sobre os retratos de presidentes, ressaltando o fato da foto de Lula ser a única colorida:

A lista dos presidentes é muito estranha. Primeiro, na versão para crianças, as fotos foram “rejuvenescidas”, ou seja, o retrato de cada presidente ficou em forma de caricatura e com vários anos a menos. (…) Quando a criança clicar no “leia mais”, encontrará as fotos dos presidentes. A de Lula, estranhamente, é a única colorida.

Depois, de espalhar estranheza pela foto colorida, Villa questiona o fato de Lula se pretender o líder sindical que mudou a história do movimento no Brasil:

De acordo com a biografia, em 1975, Lula “deu uma nova direção ao movimento sindical”. As célebres greves de 1968, em Osasco (SP) e Contagem (MG), não devem ter ocorrido: “Em maio de 1978, aconteceu a primeira greve de operários metalúrgicos desde 1964, em São Bernardo do Campo, sob a liderança de Lula” (esta passagem está na biografia reservada a Ernesto Geisel). Em 1979, ele “começou a pensar na criação de um partido”.

É com base nessa isenção ampla e fundamentada que Villa é apresentado pelo Estadão como Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade de São Carlos. E, do alto dessa titulação, poder proclamar com base apenas em análise científica isenta: “Lula e o PT foram derrotados no domingo.

Graças a essas análises, Villa, Demétrio Magnolli e outros se tornaram expoentes de suas respectivas áreas de conhecimento sendo julgados não por seus pares, mas pela demanda dos jornais por opiniões que embasem as suas próprias opiniões de “modo científico”.

Luis Nassif