29/05/2009 - 10:07h Rio acelera PAC de olho em 2010
Obras em favelas devem formar principal vitrine do projeto de reeleição de Cabral e podem impulsionar Dilma
Alexandre Rodrigues, RIO – O Estado SP
Dois anos depois de lançados, os projetos de urbanização de favelas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no Rio começam a ganhar velocidade. Depois de muitas cerimônias de lançamentos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB), as obras foram intensificadas. Nos últimos dias, um formigueiro de operários se desdobra para finalizar os equipamentos que Lula deve inaugurar hoje nos complexos do Alemão e de Manguinhos.
Dados obtidos pelo Estado mostram que a execução orçamentária dos projetos foi baixa em seu início. Pouco mais da metade do dinheiro previsto para as obras das duas favelas foi empregada em 2008. Até o mês passado, menos de 10% da dotação de R$ 219,5 milhões para as favelas do Alemão em 2009 havia sido liquidada. Em Manguinhos, foram empregados menos de R$ 1 milhão dos R$ 107,9 milhões reservados. Na Rocinha, onde as obras estão mais atrasadas, nenhum equipamento está pronto.
As obras em favelas deverão formar a principal vitrine do projeto de reeleição de Cabral em 2010 e podem impulsionar a eventual candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, à Presidência. Foi numa visita às três favelas em março de 2008 que Dilma ganhou de Lula o título de “mãe do PAC”.
Aliado de Lula no PMDB, Cabral tenta superar a popularidade abaixo do esperado, de menos de 30% das intenções de voto. Depois de herdar do casal Garotinho um governo de pouca capacidade de investimento, o governador abraçou o PAC de Lula. Só no projeto de favelas do governo estadual, que atinge também o Complexo Cantagalo-Pavão e o Morro do Proventório, em Niterói, o governo federal entra com R$ 731 milhões do total estimado de quase R$ 1 bilhão.
DIFICULDADE
O ministro das Cidades, Márcio Fortes, e o vice-governador Luiz Fernando Pezão, que acumula a Secretaria de Obras, admitiram dificuldades com a burocracia na elaboração e aprovação dos projetos para a liberação dos recursos pela Caixa Econômica Federal. Outro problema é a difícil negociação sobre a indenização de favelados removidos. Moradores se queixam de valores baixos, inferiores a R$ 10 mil.
Segundo o ministro Fortes, os entraves com os projetos do PAC se repetem pelo País. O ministro informou que o governo já trabalha com o horizonte de fechar 2010 com 19% e 29% das obras de saneamento e habitação, respectivamente, incompletas. O secretário Pezão confirmou que as obras devem ser concluídas em 2010.
ESTAÇÕES
No canteiro das obras de elevação da linha férrea que separa comunidades de Manguinhos, o que se vê é só uma grande escavação no local que virará uma área verde de lazer e um terminal de integração ônibus-trem. No Morro do Adeus, chama a atenção a rapidez com que foram removidas dezenas de barracos para a construção da primeira estação do teleférico que ligará seis pontos do Alemão à estação de trem de Bonsucesso. Uma grande via aberta na encosta, que recebe paisagismo, é a pista para um frenético sobe e desce de caminhões e operários que trabalham na estaca matriz da estação.
A fundação de uma segunda, no Morro da Baiana, também está em curso, mas o traçado do futuro meio de transporte alternativo, com suas seis estações e 47 pontos de sustentação dos cabos, ainda está longe da paisagem da megafavela. Mesmo assim, Pezão arrisca. Ele espera pelo menos três estações funcionando em maio.
Obras garantem emprego a moradores
Em três favelas, número de vagas já deve ultrapassar 3.500
Alexandre Rodrigues, RIO – O Estado SP
Em plena crise econômica, o crescimento das contratações de operários nas próprias comunidades serve como termômetro da aceleração das obras nos últimos meses. Só entre dezembro de 2008 e março deste ano, o número de empregados pelas empreiteiras em Manguinhos, no Alemão e na Rocinha subiu de 1.063 para 2.855. A Empresa de Obras Públicas do Rio (Emop), que gerencia os projetos, estima que, neste mês, as vagas ultrapassem 3.500.
“O comércio e os botequins até liberaram o fiado. Comerciante aqui só deixa anotar no caderninho quem tem emprego, né? Agora vários têm. A crise não passou aqui. Ao contrário, nunca houve tanta chance”, conta Erivaldo Lira, presidente da Associação de Moradores da comunidade CHP2, em Manguinhos. Ele diz que o impacto na economia da favela só não é maior porque falta gente qualificada para todas as vagas. “Muitas vezes a empreiteira pede um pintor e não temos para indicar. Aí acabam vindo operários de outras comunidades.”
Muita gente também não aceita as vagas por considerar os salários baixos diante de atividades autônomas. A média salarial entre os operários vai de R$ 560 a R$ 1.400. O bombeiro hidráulico Antônio Bastos, de 48 anos, até esperava um salário melhor, mas não despreza o emprego formal. A última anotação de sua carteira era de 1997. “Sou casado, tenho três filhos e duas netas. Com um salário fixo é mais fácil planejar a vida, reformar a casa.”
“Estamos agora no pico e a tendência é crescer ainda mais o ritmo”, diz Ícaro Moreno, presidente da Emop, confirmando a determinação de cumprir o prazo das obras. “Até setembro (de 2010) vamos ter que entregar tudo.” Segundo Ícaro, uma nova arremetida está prevista para novembro, quando as estruturas básicas de obras complexas como a do teleférico do Alemão estarão em estágio mais avançado. Só no Complexo do Alemão, a expectativa é preencher 3.500 vagas até o final das obras.
A contratação de pessoal na comunidade e a decisão de oferecer uso rápido de equipamentos sociais como escolas, instalações esportivas e unidades de saúde são parte da estratégia do governo estadual para vencer a descrença dos moradores. Moreno reconhece que há muitas queixas em relação às indenizações das casas removidas, mas acredita que o envolvimento da comunidade ajuda a proteger a obra dos traficantes, que mantêm o domínio nas favelas.
Para o vice-governador Luiz Fernando Pezão, a entrada gradual do Estado em regiões dominadas pelo crime é a melhor estratégia para combater a violência. “Não adianta entrar lá só com a polícia. É preciso levar cidadania. Esse dever de casa estamos fazendo. Entramos para ficar”, disse. Segundo ele, 10 mil policiais militares serão contratados para o futuro policiamento comunitário dessas áreas.



