03/05/2009 - 13:28h EUA vivem grande onda de estatização

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Depois de bancos e seguradora, governo deve entrar em montadoras

Patrícia Campos Mello – O Estado SP

Em pouco mais de seis meses, o governo dos Estados Unidos se tornou sócio de duas empresas de hipoteca, a Fannie Mae e a Freddie Mac, uma seguradora, a AIG, vários bancos e em breve deve ter participação em duas montadoras, Chrysler e General Motors. O presidente Barack Obama afirma que o objetivo do maior país capitalista do mundo não é estatizar e administrar empresas privadas.

“Somos acionistas que querem sair. Não quero administrar montadoras ou bancos. Já tenho duas guerras para administrar. É o suficiente”, disse,durante entrevista na semana passada. “Assim que a situação se estabilizar e a economia estiver menos frágil, vamos sair e achar investidores privados.”

Mas economistas à esquerda e à direita acreditam que será bem complicado o governo se desembaraçar de suas participações acionárias. Segundo eles, o país deve manter seu título de “Estados Socialistas da América” por um bom tempo.

“É como na guerra do Iraque: eles entraram, mas não têm uma estratégia de saída”, compara William Shughart II, professor de Economia da Universidade do Mississippi e pesquisador do Independent Institute, entidade que apoia o livre mercado. “Suponho que o governo queira ter algum retorno sobre esse dinheiro que pôs nas empresas e, para isso, essas companhias precisam sair do vermelho, o que vai demorar muito tempo”, diz. “Se o governo sair muito rápido, o contribuinte vai arcar com enorme prejuízo.”

Dean Baker, codiretor do Center for Economic and Policy Research, entidade de esquerda, concorda. “O governo vai ter de manter essas participações nas empresas, no mínimo, até 2011, 2012.”

O pior é que, para o contribuinte, se trata de um péssimo negócio. “Se o governo fosse o administrador da minha carteira, já estava despedido. Imagine investir em GM, Chrysler, Bank of America e Citibank”, diz Sydney Finkelstein, professor de administração no Dartmouth College e autor do livro Pense de novo: porque bons líderes tomam decisões erradas.

O maior desafio a partir de agora é conciliar os interesses como acionista – o maior lucro possível para a companhia – e como governo – pode ser aumentar o emprego, o crédito e outros. “O governo pode se focar em resultados políticos em vez de lucro”, diz Baker. “Por exemplo, a Casa Branca pode decidir que a GM e a Chrysler devem se concentrar na produção de carros elétricos, mesmo que isso não dê lucro no curto prazo, porque ajudaria na redução da emissão de poluentes, um grande objetivo de Obama.”

Apesar de dizer que não quer administrar as empresas ou influenciar no dia a dia das operações, a Casa Branca já está imprimindo sua marca nas companhias. Para começar, defenestrou Rick Wagoner, ex-presidente da GM.

Estabeleceu limites de remuneração após os escândalos dos bônus na AIG e está fazendo o mesmo na Fannie Mae e Freddie Mac. O governo comprometeu US$ 400 bilhões com essas duas empresas – e quer ter certeza de que estão cumprindo sua função “social” de reativar o mercado imobiliário com financiamentos de juros mais baixos, ainda que essa não seja a melhor opção em termos de rentabilidade. As companhias já advertiram que isso vai afetar seus resultados.

Em última instância, o governo está recompensando quem mais errou. A Ford, por exemplo, será vítima de competição desleal da Chrysler e da GM. A Ford não recebeu injeção de recursos do governo porque não estava tão mal quanto as outras duas grandes de Detroit. Agora, o governo está subsidiando seus concorrentes. “É como se fosse um imposto implícito sobre a Ford”, diz Dan Ikenson, diretor associado do Cato, instituto libertário. Ikenson, como outros conservadores, está preocupado com a “guinada socialista do governo”.

Hoje em dia, diz Ikenson, somando-se os US$ 700 bilhões do plano de resgate aos bancos (o Tarp, de onde saiu boa parte das injeções de capital no sistema bancário), o pacote de estímulo de cerca de US$ 787 bilhões e o orçamento de US$ 3,5 trilhões, o governo está como investidor ou garantidor de cerca de US$ 5 trilhões – mais de um terço da economia americana, cujo PIB é de US$ 14 trilhões.

Na opinião de conservadores, o governo deveria ter deixado várias empresas e bancos quebrarem, como parte da chamada destruição criativa do livre mercado, em vez de manter companhias zumbis que vão atrasar a recuperação da economia. Para economistas de esquerda e para a Casa Branca, Obama não tinha opção. Era arriscado demais deixar empresas ou bancos quebrarem – e isso ficou claro após o contágio causado pela quebra do banco Lehman Brothers.

Além do mais, perder milhares de empregos na maior crise desde 1930 não seria politicamente sustentável. “O governo Obama está assumindo o controle das empresas porque a alternativa seria um desastre para a economia”, diz Baker.

O problema, para alguns, é a moda pegar. “A Casa Branca abriu a porteira e agora vem aí a boiada”, afirma Shughart. “O governo federal perdeu a credibilidade de dizer que não vai mais resgatar ninguém. Estão fazendo fila para pedir dinheiro, as empresas de autopeças são as próximas”, avalia.

12/03/2009 - 09:05h Brasil é “vítima acidental” da crise global, diz Roubini

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Economista defende maior intervenção dos governos para combater a crise

Para ele, Brasil está em melhores condições na crise, deve elevar gasto público e ao mesmo tempo se comprometer com reformas

SÉRGIO MALBERGIER – FOLHA SP

EDITOR DE DINHEIRO

O Brasil é uma “vítima acidental” da crise econômica global, que ainda vai piorar, evoluindo para uma “recessão global severa”. A opinião é do economista mais badalado destes tempos econômicos sombrios, o turco-americano Nouriel Roubini, em São Paulo para disputadas palestras.
“O Brasil está em condições muito melhores hoje”, pondera Roubini, que ganhou a alcunha de “Mr. Doom” (Sr. Apocalipse) por causa das previsões catastrofistas que vem fazendo, com precisão muito acima da média nesta era de incertezas.

Em evento ontem em São Paulo do BTG, a nova empresa de investimentos de André Esteves e Persio Arida, ele disse que o Brasil deve ter neste ano um crescimento próximo de zero ou, mais provavelmente, “ligeiramente negativo”.

Embora ressalte que a situação brasileira é menos desconfortável que a de vizinhos como Venezuela e Argentina e que ainda existe “bastante espaço” para corte de juros por aqui, diz que o país enfrenta “problemas [externos] sobre os quais não tem controle”. E adverte que o governo brasileiro, com os problemas históricos do país, não deveria apenas elevar seus gastos para combater a crise, mas ao mesmo tempo se comprometer com “reformas estruturais” para reduzir a burocracia, o custo da mão-de-obra e o peso dos impostos sobre a atividade econômica, além de melhorar a infraestrutura física.

Roubini defende mais gastos estatais contra a crise, “a única demanda que cresce hoje no mundo”, mas lamenta o fato de que as ações oficiais estejam sempre “atrás da curva”, apenas reagindo aos problemas. Isso, para ele, será insuficiente para tirar as economias do caminho da catástrofe. “É preciso agir antes”, afirma.

Roubini acha ainda tímido o pacote fiscal do governo americano, já superando US$ 800 bilhões, pois só cerca de US$ 200 bilhões serão gastos no curto prazo. E mais tímido ainda o da Europa, criticando a resistência de sua maior economia, a Alemanha, em elevar gastos.

Ele critica também o socorro aos bancos na forma atual e diz que talvez, “infelizmente, sejam necessárias estatizações temporárias”. Rechaça que a maior economia do planeta seja a única culpada pela crise e aponta para Reino Unido, Austrália, Espanha, Irlanda, países bálticos, Cingapura e outros como responsáveis por bolhas financeiras e/ou habitacionais, na raiz dos problemas globais.

Diz ainda que há países hoje em situação pior que os EUA, citando Japão, Alemanha, Coreia do Sul, o sul e o leste da Europa. E que a China está rodando com crescimento zero ou mesmo negativo na comparação de trimestre contra trimestre anterior. “Antes se dizia que, quando os EUA espirravam, o mundo pegava gripe. Os EUA estão com pneumonia.”

Ele acredita que, se os governos não atuarem com mais eficiência contra o “ciclo vicioso” da economia, coisas muito piores podem acontecer, como uma deflação global após “gasto excessivo na expansão da produção, que agora encontra a contração da demanda”.
Resumindo seu receituário, Roubini recomenda mais gasto fiscal, ação mais agressiva no resgate aos bancos e dobrar os recursos do FMI para socorrer países emergentes.

“Ainda é possível evitar o pior”, diz, com otimismo inesperado diante de sua fama. “Se fizermos tudo certo, teremos uma recuperação lenta no ano que vem”, prevê Roubini. “Se não, depressão global”, conclui, voltando ao estilo apocalíptico.

08/10/2008 - 10:23h Fim de papo: começa a estatização

VINICIUS TORRES FREIRE – FOLHA SP


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Britânicos vão estatizar parte dos bancos, Espanha prepara pacote e BC dos EUA assume o papel de banco comercial

A ESTATIZAÇÃO de fatias grossas do sistema financeiro euroamericano vai começar, agora de modo sistemático. Hoje, o Reino Unido anuncia o plano de comprar até US$ 87 bilhões (R$ 202 bilhões) em ações dos seus cinco maiores bancos. Havia rumores de que pelo menos dois deles não resistiriam à virada da noite -o dinheiro vale um terço da economia argentina.
A idéia inicial é que os bancos continuem a ser companhias privadas.
Mas o governo terá representantes na direção e algumas normas serão baixadas para que os bancos não parem de emprestar para clientes de varejo e a pequenas e médias empresas. De quebra, jogando para a galera, o governo vai limitar o rendimento dos altos executivos.
Essas são, mais ou menos, as “diretrizes” que a União Européia aprovou para a intervenção em massa nos bancos.
Na sexta-feira, a Espanha deve anunciar um pacote de até US$ 68 bilhões (R$ 158 bilhões) para financiar a compra de ativos financeiros dos bancos, ora saudáveis, a fim de que eles descongelem o fluxo de empréstimos para a economia “real”.
Mais complicado, mas mais impressionante, é que o Fed, o banco central dos Estados Unidos, tornou-se na prática um banco múltiplo, para não dizer ênuplo, de “n” utilidades: além de autoridade monetária, é agora banco de bancos, banco comercial e de investimento. O Fed vai financiar a atividade cotidiana de empresas e de bancos, por meio de um veículo de propósito específico, uma “subsidiária”, digamos. Vai comprar notas promissórias das firmas. Isto é, vai emprestar dinheiro para o capital de giro, os recursos de que as empresas necessitam para tocar atividades comezinhas, como honrar a folha de pagamento.
Em geral, fundos de investimento compravam tais papéis de empresas. Com a crise, tais fundos congelaram de medo de calote.
Em suma: o dinheiro apenas flui no centro do mundo quando é intermediado pelos bancos centrais, o Fed em particular. Alguma coisa parecida, embora em muito menor escala, começa a acontecer no Brasil, também varrido pela seca duradoura de crédito. A coisa pode não parar por aí. Talvez o Fed tenha de garantir todas as transações entre instituições financeiras dos EUA, como uma espécie de seguradora gigante de calotes financeiros, uma das alternativas restantes ao medo paralisante de emprestar e ser caloteado.
Tais iniciativas, tão extraordinárias quanto vexaminosas, mas necessárias, resultam de três semanas de congelamento de crédito. São o efeito final da desconfiança dos mercados em seu próprio sistema de preços e de avaliação de riscos.
Calotes imobiliários relativamente pequenos destruíram o valor de títulos financeiros lastreados em simples prestações da casa própria, e assim o valor dos investimentos financeiros de bancos. Quebrados por conta e risco próprios, não emprestam dinheiro entre si. Sem capital, temem emprestar à produção.
Para evitar eventual confusão, e desculpas pela obviedade, a estatização da finança do mundo rico não é uma opção pelo dirigismo estatal, mas medida desesperada com o objetivo de evitar que a ineficiência catastrófica do mercado financeiro moderno resulte em desastre ainda maior para a dita “economia real”.

vinit@uol.com.br