28/03/2009 - 13:38h Corte de IPI de carro é prorrogado

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Cleide Silva – O Estado SP

Uma manhã de conversas ao telefone entre sindicalistas, dirigentes de montadoras e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, selou ontem a renovação do acordo de redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para os carros por mais três meses. O anúncio oficial será feito na segunda ou terça-feira, pois depende da agenda dos envolvidos nas negociações.

O governo já vinha manifestando intenção de renovar a medida, que ajudou as montadoras a venderem, em plena crise, mais veículos no primeiro trimestre deste ano do que em 2008. O impasse estava na contrapartida a ser exigida, de manutenção de empregos, sugerida pelas centrais sindicais. Só em janeiro e fevereiro as montadoras cortaram 4 mil vagas.

As fabricantes concordaram, desde que ficassem de fora os trabalhadores com contratos temporários. Os sindicalistas encontraram uma “frase mágica” para endossar o acordo, que terá cláusula afirmando que “os contratos temporários serão cumpridos”. Ou seja, aqueles que vencerem nos próximos três meses não serão renovados, pois tinham validade por um ano. A abertura de programa de demissão voluntária está liberada.

O corte do IPI em meados de dezembro e com validade inicial até 31 de março foi adotado para reduzir o efeito da crise financeira nas vendas de carros no País, que despencaram nos últimos meses de 2008. Apesar de ter provocado queda de 90% na arrecadação do imposto, a medida é vista como uma das poucas anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva com resultado efetivo.

O primeiro trimestre deve ser fechado com vendas próximas a 655 mil veículos, 1% a mais do que em igual período de 2008, quando somaram 647,9 mil unidades. No segmento de automóveis e comerciais leves, o mais beneficiado pela medida, o aumento deve ficar perto de 2%, com 630 mil unidades.

Os estoques nos pátios das fábricas e das revendas, que chegaram a 305 mil veículos em dezembro, equivalentes a 56 dias de vendas, baixaram no mês passado para 181 mil unidades, ou 27 dias de comercialização.

A alíquota do IPI, que era de 7% para carros 1.0, permanecerá isenta. Para modelos 1.4 até 2.0, ficará em 5,5% para motores flex e 6,5% para a gasolina, metade da alíquota normal. Com o novo imposto, os preços dos carros caíram em média de 5% a 7%.

FEIRÕES

Com o anúncio da prorrogação só a partir de 2ª-feira, o governo não vai atrapalhar as campanhas das montadoras neste fim de semana, que usam como atrativo a última oportunidade para comprar carro com IPI reduzido.

A Volkswagen faz feirão hoje e amanhã na fábrica Anchieta e na área ao lado do Playcenter com o slogan “Último fim de semana de IPI reduzido”. A Fiat fará ações nas lojas de todo o País e divulga anúncios com a chamada “Aproveite o último fim de semana com IPI reduzido e condições especiais.”

23/03/2009 - 09:32h Marolinhas e tsunamis

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Maria Cristina Pinotti e Affonso Celso Pastore – VALOR

Há muito pouco tempo o Banco Central era criticado pela excessiva acumulação de reservas. Para acomodar os efeitos de choques externos, o país precisa de um estoque confortável de reservas, mas desde o momento em que atingiu perto de US$ 100 bilhões, perguntava-se se o nível ótimo de reservas já não teria sido ultrapassado.

O argumento baseava-se na comparação entre custos e benefícios marginais da acumulação de reservas. O custo marginal de esterilizar seus efeitos monetários é igual à taxa de juros, que é alta no Brasil, e acreditava-se que o benefício marginal declinaria com o estoque de reservas, sendo menor quando estas já chegaram a US$ 100 ou US$ 150 bilhões, do que quando eram de apenas US$ 30 ou US$ 40 bilhões. As opiniões divergiam quanto ao tamanho do estoque de reservas a partir do qual o custo marginal excederia o benefício marginal, mas levantava-se a suspeita de que com reservas acima de US$ 100 bilhões aquela fronteira já teria sido ultrapassada. A experiência mostra que esse argumento subestimava os benefícios associados a um estoque maior de reservas internacionais. Por quê?

Primeiro, porque foi predominantemente a acumulação de reservas que derrubou os prêmios de risco dos títulos de dívida soberana, levando o Brasil à categoria de grau de investimento. Com isso, caíram as taxas de juros dos empréstimos externos tomados pelo governo e por empresas privadas, o que é de extrema importância diante do fato de que, no processo de crescimento, o Brasil é estruturalmente deficitário nas contas correntes. Como as poupanças são baixas, o crescimento da taxa de investimentos, que acelera o crescimento econômico, inexoravelmente gera déficits nas contas correntes, que são financiados em parte por empréstimos externos. Essa queda no custo dos empréstimos induziu uma taxa de investimentos um pouco maior do que ocorreria caso os prêmios de risco não tivessem despencado. Reservas maiores, naquele período, provocaram um crescimento econômico um pouco mais veloz.

Mas os benefícios foram ainda maiores depois de instalada a crise internacional. Se o Brasil fosse pego por esta crise sem reservas, teria que rapidamente ajustar as suas contas correntes, reduzindo o déficit com uma combinação de depreciação cambial e de políticas monetária e fiscal contracionistas, que reduzissem a demanda total doméstica. Lembremos que o excesso da demanda total doméstica sobre o PIB nada mais é do que o próprio déficit nas contas correntes. A experiência histórica nos mostra que, sempre que o Brasil foi preso nessa armadilha, teve que tolerar fortes depreciações cambiais ao lado de grandes elevações de taxa de juros. Invariavelmente, estes movimentos levavam à queda do consumo das famílias e da formação bruta de capital fixo, provocando recessões profundas. Esta é a história do que ocorreu com o Brasil na crise da Rússia, em 1998, na crise do default da Argentina, em 2001. É também a história da economia brasileira quando a crise de confiança na transição do governo FHC para o governo Lula produziu uma parada brusca de ingressos de capitais.

A existência de um nível elevado de reservas permite utilizá-las para parcialmente cobrir a queda do financiamento externo ao balanço de pagamentos. Diante da magnitude do atual choque externo, isto não é suficiente para impedir que o déficit nas contas correntes tenha que declinar, mas permite que caia menos do que cairia se não existisse um estoque elevado de reservas internacionais. Ou seja, é menor a pressão para reduzir o consumo e a formação bruta de capital fixo, e com isso colhe-se uma menor desaceleração no crescimento do PIB. O Brasil não escapará de uma queda no PIB em 2009, mas esta queda será muito menor do que na maioria dos países, invertendo um comportamento que até muito recentemente era a “regra” no capítulo das respostas da economia brasileira aos choques externos, segundo o qual “marolinhas” ocorridas no resto do mundo transformavam-se em “tsunamis” no Brasil.

A outra lição desta crise vem do comportamento da taxa cambial. Até muito recentemente o Banco Central era criticado por permitir uma valorização “excessiva” do real. A previsão era de que, ao menor choque externo, o Brasil conheceria uma crise cambial. Era de novo a “marolinha” gerando um “tsunami”, com a “megadepreciação” do real levando às mesmas consequências suportadas pelo país em choques anteriores. O real de fato se desvalorizou, porém menos do que o indicado por aquelas análises alarmantes. Foi, por outro lado, uma depreciação que mudou fundamentalmente os preços relativos entre bens domésticos e internacionais, com efeitos praticamente nulos sobre o nível geral de preços. Em parte este “milagre” foi produzido pela desaceleração da demanda no Brasil, gerada pela crise internacional, e não por qualquer aperto na política monetária. Pelo contrário, o BC vem imprimindo um ciclo agressivo de redução da taxa de juros, tanto que as taxas reais de juros de mercado já caíram para perto de 5% ao ano! Este comportamento derivou em larga medida do estoque elevado das reservas internacionais.

Mas a política fiscal deu também a sua contribuição, provocando um ajuste que permite ao governo atual colocar em ação políticas contracíclicas que, esperamos, fiquem dentro dos limites da prudência. Quando a dívida pública tinha uma elevada parcela dolarizada, a depreciação cambial elevava a relação dívida/PIB, o que exigia cortes de gastos e aumentos de tributos, elevando o superávit primário. A esta força contracionista somava-se a política monetária também contracionista, necessária para dissipar os efeitos inflacionários da grande depreciação cambial. Atualmente, a dívida pública não é dolarizada e a depreciação cambial, além de ser menor, não altera a dinâmica da dívida. Esta foi uma conquista da austeridade fiscal, que qualificou o governo a utilizar políticas contracíclicas.

Até aqui tudo bem! Mas à medida que passa o tempo e os efeitos negativos da desaceleração econômica se fizerem sentir, na contramão do exigido pelo calendário eleitoral, a tentação de usar mais as políticas contracíclicas tende a aumentar. É preciso ficar sempre alerta com o exagero! A tentativa de fazer com que um “tsunami” no resto do mundo vire uma “marolinha” no Brasil pode fazer com que, no futuro, novas “marolinhas” no resto do mundo virem “tsunamis” no Brasil.

Affonso Celso Pastore e Maria Cristina Pinotti são economistas e escrevem mensalmente no VALOR, às segundas.

14/03/2009 - 10:34h Comércio reage e cresce 1,4% em janeiro

Liquidações ajudam, mas é cedo para falar em recuperação, diz IBGE

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Jacqueline Farid – O Estado SP

O desempenho do comércio varejista surpreendeu em janeiro e trouxe um pouco de alívio ao fim de uma semana de notícias ruins na economia. As vendas do setor cresceram 1,4% ante dezembro, contrariando previsões de queda. Em relação a janeiro do ano passado, houve alta de 6%. Hiper e supermercados e móveis e eletrodomésticos garantiram os resultados.

Os analistas de mercado financeiro esperavam, em média, recuo 0,1% nas vendas em relação ao mês anterior. O técnico da coordenação de comércio e serviços do IBGE, Reinaldo Pereira, atribuiu a boa surpresa às promoções de início de ano para esvaziar estoques, mas citou também a continuidade de aumento da massa salarial e as iniciativas governamentais para incentivar o consumo, como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis e a nova tabela do Imposto de Renda.

Segundo Pereira, a crise elevou a quantidade de mercadoria armazenada nas lojas no último trimestre, o que levou a liquidações mais agressivas em janeiro. Até as vendas de bens duráveis como móveis e eletrodomésticos, que vinham registrando queda por causa da restrição de crédito, subiram 7,1% em janeiro em comparação a dezembro.

Apesar do desempenho positivo, Pereira ressaltou que houve perda de ritmo na expansão do varejo, revelada na comparação anual. Segundo ele, a alta de 6% ante janeiro de 2008 representou a menor expansão, para o primeiro mês do ano, desde janeiro de 2004. Em igual mês, o setor cresceu 11,8%, o melhor resultado da série iniciada em 2001. Ele disse que essa base de comparação elevada influenciou a desaceleração do crescimento em janeiro de 2009, mas houve também influência da crise. “Sem a crise, a perda de ritmo não seria tão forte.”

O chefe do departamento de economia da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas, também credita os bons resultados de janeiro às promoções. “Os estoques estavam altos, ainda é cedo para dizer que a tendência de desaceleração vai mudar.”

A analista da Tendências Consultoria, Mariana Oliveira, também alerta que seria precipitado comemorar qualquer blindagem do varejo à crise. Ela considera que os dados de janeiro mostram que o comércio teve “fôlego surpreendente”, mas “seria prematuro afirmar que o comércio voltou a uma trajetória consistente de crescimento elevado”. Ela não descarta recuos nos próximos meses.

Segundo Mariana, os resultados de janeiro levaram a Tendências a colocar um viés positivo na projeção de aumento de 3,1% nas vendas do varejo este ano. Em 2008, as vendas cresceram 9,1%.

06/03/2009 - 09:49h Indústria tem recuperação localizada

 

Silvia Costanti / Valor

Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Abit: “Os estoques já acabaram no varejo e é hora da reposição”

Sergio Lamucci, Sergio Bueno e Vanessa Jurgenfeld, de São Paulo, Porto Alegre e Florianópolis – VALOR

Os impactos da crise financeira sobre a atividade industrial foram díspares em fevereiro. Segmentos cuja demanda está ligada à renda da população, como calçadistas e têxteis, já sentiram claramente uma recuperação de encomendas e consideram que a pior fase da crise passou. Para empresas e setores cuja produção é alimentada por crédito ou investimento, as realidades são distintas. Ao mesmo tempo em que grandes usinas siderúrgicas desligam alto-fornos, fabricantes de máquinas e equipamentos, como Randon e Marcopolo, já sentiram uma melhora nas encomendas em fevereiro e março. Mesmo as empresas e setores que relatam uma recuperação em fevereiro e neste começo de março, contudo, indicam queda de produção em relação ao mesmo período do ano passado.

Hoje o IBGE divulga o resultado da produção industrial de janeiro. Os analistas esperam forte crescimento em relação a dezembro de 2008, feito o ajuste sazonal. A LCA Consultores projeta alta de 9,2%. Na comparação com janeiro do ano passado, contudo, a estimativa é de recuo de 10,2%. O Santander aposta em crescimento de 11% sobre dezembro e queda de 9,5% em relação janeiro de 2008.

Entre os indicadores já conhecidos, venda de automóveis e consumo de energia indicam que fevereiro voltou a crescer sobre janeiro. O licenciamento de automóveis e comerciais leves atingiu a média diária de 10,9 mil unidades, mais que os 10,1 mil de janeiro deste ano e os 10,4 mil de fevereiro do ano passado, na série com ajuste sazonal calculada pela LCA. O resultado é efeito da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), destacam analistas e empresários do setor. O consumo diário de energia elétrica, por sua vez, atingiu a média de 50,2 MW em fevereiro, 2,7% a mais do que no mês anterior, também na série livre de influências sazonais. Em relação ao mesmo mês de 2008, houve queda de 0,59%.

O setor têxtil brasileiro acredita que o pior da crise já passou e vê sinais de melhora das encomendas nos últimos dias, após um primeiro bimestre fraco. “O varejo retomou os pedidos, está conseguindo girar seus estoques. Ainda vai levar algum tempo para que esse movimento ganhe velocidade, mas há bons indicativos para março”, diz Zeno Fischer, diretor de controladoria e planejamento da Lepper, de Joinville (SC). Indústria de cama, mesa e banho, a Lepper fechou o primeiro bimestre com queda de 10% nas vendas em relação ao igual período de 2008. Em fevereiro, até registrou uma melhora de vendas em relação a janeiro deste ano em torno de 20%, mas as vendas ficaram 10% abaixo do mesmo mês do ano passado. Segundo Fischer, apesar de um começo de ano de vendas em queda, a Lepper projeta crescimento de 10% no faturamento do ano, para R$ 145 milhões em 2009.

Para o diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, há sinais melhores no setor, mas fevereiro foi um período de vendas menores do que igual mês do ano passado. “Mas há um clima de retomada da atividade, os estoques já acabaram no varejo e é hora da reposição. Nossa expectativa é que o pior (da crise) tenha passado”, diz. Na sua avaliação, as empresas do setor não farão mais paradas de ajuste de estoques, e embora exista um crédito ainda caro e restrito, as têxteis poderão ter um desempenho no ano melhor do que outros setores porque as compras de vestuário dependem pouco de crédito.

Na Indústria São Roberto, que atua no segmento de papelão ondulado, as vendas em fevereiro caíram 10% em relação ao mesmo mês do ano passado, uma queda ligeiramente inferior aos 12% registrados em janeiro na comparação com janeiro de 2008. A expectativa do presidente da empresa, Roberto Nicolau Jeha, é de que em março haja uma queda de 5% sobre o mesmo mês de 2008. “Março começou um pouco melhor do que fevereiro”, diz ele, acrescentando que só acredita numa melhora mais consistente no segundo semestre. Jeha diz que a demanda por papelão ondulado caiu menos por parte de empresas de alimentos e produtos de limpeza. No caso das companhias que dependem mais do crédito, como fabricantes de televisores e eletrodomésticos, o tombo foi maior.

O presidente da distribuidora de aço Rio Negro, Carlos Loureiro, diz que houve uma melhora na demanda por parte da indústria automobilística, beneficiada pela redução do IPI para veículos. Segundo ele, montadoras e empresas de autopeças voltaram a comprar com mais força, o que ajudou um pouco nas vendas de fevereiro e continua a auxiliar nas de março. “Mas não houve melhora nos outros segmentos”, diz ele, dizendo que continua fraca a procura por parte de empresas de máquinas agrícolas, rodoviárias e equipamentos para infraestrutura.

A indústria calçadista iniciou o ano com cenários distintos no mercado interno e nas exportações. As vendas domésticas arrancaram bem, turbinadas em alguns casos por descontos e aumentos de prazos de pagamento. Os fabricantes aguardam a reposição dos estoques dos lojistas, em maio, para confirmar a tendência. As exportações recuaram 23,9% no primeiro bimestre em comparação com igual período de 2008, para
US$ 280,6 milhões, mas o setor espera algum crescimento em 2009, impulsionado pela desvalorização do real, após a queda em volume e faturamento no ano passado.

Segundo o diretor comercial da gaúcha Piccadilly, Marlon Martins, em janeiro e fevereiro a empresa aumentou prazos de pagamento em 30 dias e concedeu descontos de 5% a 15% em algumas linhas para estimular os negócios no mercado interno. O resultado foi um aumento de três vezes no volume de vendas em fevereiro na comparação com janeiro, para mais de 600 mil pares. Em relação ao mesmo período de 2008, a alta foi de 2,5 vezes, informa o executivo.

No mercado externo, o recuo das vendas apontado pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex) no bimestre deveu-se à demora na reposição dos estoques dos importadores em função da desaceleração econômica na América do Norte e Europa, avalia o diretor da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Ricardo Wirth. “Não esperávamos uma queda tão alta, mas não chegou a ser surpreendente.” Em fevereiro, as exportações renderam US$ 138 milhões, 3,3% a menos do que em janeiro e 29,3% abaixo do mesmo mês de 2008. Para o empresário, março ainda será um mês de “transição” entre as encomendas das coleções de verão e de inverno para o hemisfério norte.

Alguns setores e empresas ainda não sentiram recuperação da atividade, como a Usiminas e a CSN. A primeira anunciou que vai paralisar, a partir de segunda-feira e por tempo indeterminado, o alto-forno n 1 da usina de Cubatão na Baixada Santista. A CSN, que também produz aços planos, vai paralisar por 40 dias o alto-forno n 2, que responde por 40% da produção da usina de Volta Redonda (RJ). O presidente da Usiminas, Marco Antônio Castello Branco, justificou a decisão pela falta de sinais mais consistentes de demanda para o segundo trimestre.

Por outro lado, a Marcopolo, maior fabricante brasileira de carrocerias para ônibus, após fechar o primeiro bimestre com vendas 10% menores, sentiu recuperação em março. A Randon, que produz implementos agrícolas, também espera retomada das vendas.

04/03/2009 - 08:57h Resumo

Capa do jornal O Estado de São Paulo: um resumo significativo sobre o impacto da crise econômica
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090304/img/capadodia.jpgcarros_eua_brasil_estado.jpg

No Brasil, vendas reagem e fábricas adotam hora extra

Queda de 4,5% no número de unidades vendidas foi menor do que analistas e empresas esperavam

Ao contrário de mercados internacionais, as vendas de veículos no Brasil apresentaram pequena recuperação em fevereiro e, no bimestre, a queda é de 4,5% em relação ao mesmo período do ano passado, com 396,8 mil unidades vendidas. Diante de resultados menos pessimistas do que os previstos, as montadoras estão tendo de recorrer a horas extras e suspensão de dispensas temporárias para dar conta da demanda.

A Volkswagen convocou 7 mil funcionários – quase a totalidade do quadro da produção – para jornada extra neste sábado na fábrica de São Bernardo do Campo (SP). Na Fiat em Betim (MG), 12 mil funcionários vão trabalhar nos próximos três sábados para repor feriados. Cerca de 440 funcionários da Renault em São José dos Pinhais (PR)voltarão ao trabalho dia 23. Eles fazem parte do grupo de 844 pessoas com contratos suspensos até maio.

Com a necessidade de produzir mais, até para evitar filas de espera de alguns modelos, a ação das montadoras puxa a das autopeças. Nos últimos meses, várias fabricantes fizeram acordos de redução de jornada e agora estão voltando atrás.

Na região do ABC paulista, a Fiamm, fabricante de buzinas, cancelou a semana reduzida de trabalho três meses antes do previsto. Os 168 trabalhadores retomaram a jornada normal de cinco dias na segunda-feira. A medida visa a normalizar a produção, segundo informou a empresa ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Os 160 trabalhadores da Polistampo, que faz peças para portas, voltaram uma semana antes do previsto à jornada normal de trabalho.

A Volkswagen não comentou a razão das horas extras. A Fiat informou que pretende ampliar a produção diária de 2,6 mil para 3 mil veículos.

Marcelo Cioffi, da consultoria PricewaterhouseCoopers, avalia que o mercado brasileiro “não está tão ruim quanto se esperava”. Mas acha também que pode ser um movimento por parte das montadoras de garantir estoques para as vendas de março, último mês de redução do IPI. É provável que haja uma correria às lojas, “uma antecipação de compras”. As empresas, nos bastidores, tentam convencer o governo a manter o benefício.


NÚMEROS

396,8 mil
unidades foram vendidas em janeiro e fevereiro

7 mil
funcionários da Volkswagen foram convocados para trabalhar sábado. Na Fiat, 12 mil vão trabalhar nos próximos 3 sábados

Venda de carros cai até 53% nos EUA, o nível mais baixo em 30 anos

Especialistas falam em ‘depressão automotiva’ nos EUA; na Europa, a GM diz que pode ficar sem caixa em abril

Agências internacionais, NOVA YORK


A venda de automóveis das principais montadoras nos Estados Unidos em fevereiro caiu mais de 40% na comparação com igual período do ano passado. Apesar de oferecerem descontos bastante agressivos, o desempenho das montadoras registraram o nível mais baixo em quase 30 anos.

Na General Motors, que vem sobrevivendo graças a uma ajuda governamental de US$ 13,4 bilhões, a queda nas vendas foi de 52,9%. A Ford teve redução de 48% e a Chrysler, que também ganhou uma sobrevida com uma ajuda de US$ 4 bilhões em dezembro, viu suas vendas caírem 44%.

Maior montadora do mundo em vendas, a japonesa Toyota vendeu 37,3% a menos. Honda e Nissan anunciaram queda de 38% e 37%, respectivamente, enquanto a alemã BMW informou uma redução de 34,7%.

“Estamos vivendo uma depressão automotiva”, afirmou o analista da Standard & Poor?s Efraim Levy. “Consumidores temerosos de perder o emprego e assistindo a uma queda no valor de suas casas e de seus ativos em bolsa estão muito receosos de fazer compras grandes e não essenciais.”

Na Europa, o cenário também não é animador. Na Espanha, o número de registros de veículos caiu 48,8%, o pior desempenho para um mês de fevereiro na história do país. Na França – um dos países que havia resistido melhor à crise do setor em 2008 -, o recuo foi de 13,1%.

A retração da demanda na Europa já ameaça as subsidiárias da GM, que empregam 300 mil pessoas. “A GM Europa poderá ficar sem caixa lá para abril ou maio. Só uma ajuda governamental poderia evitar a perda de 300 mil postos de trabalho”, alertou o vice-presidente mundial de operações da GM, Fritz Henderson. O executivo pleiteia uma ajuda de US$ 4,2 bilhões, que seria usada para financiar a separação das subsidiárias Opel e Vauxhall.

No entanto, o apelo não parece sensibilizar os líderes europeus. Depois de uma reunião com o presidente executivo da GM Europa, Carl-Peter Forster, o ministro das Finanças da Alemanha, Peer Steinbrueck, declarou que ainda não está convencido de que a Opel tenha pela frente um “futuro sustentável”. Os governos da Suécia e da Grã-Bretanha, sede das subsidiárias Saab e Vauxhall, estão igualmente relutantes.

Os números negativos divulgados ontem alimentam os temores de que as montadoras não conseguirão obter a recuperação esperada para o segundo semestre deste ano nos EUA, com a qual as companhias vinham contando para desacelerar sua erosão financeira.

Para se qualificarem a receber mais US$ 21,6 bilhões do governo, além dos US$ 17,4 bilhões que já receberam, GM e Chrysler têm até o fim deste mês para demonstrar que estão tendo sucesso nos planos de reestruturação. Caso elas não sejam convincentes, não apenas não receberão mais recursos do governo como terão de devolver aquilo que receberam.

As duas montadoras insistem que terão condições de recuperar a lucratividade e, a partir de 2012, poderão começar a pagar os empréstimos recebidos. Entretanto, para isso, precisam aumentar consideravelmente as vendas este ano.

As empresas também tentam estabilizar suas operações com a queda da produção. A GM e a Ford, que ainda não precisou de ajuda financeira, já declararam que a produção no segundo trimestre deve ser reduzida em mais de 30%, ante o mesmo período de 2008.

“Diante de um cenário econômico frágil, temos de ficar atentos para perceber os indícios de que as condições estão se deteriorando”, afirmou a economista sênior da Ford nos EUA, Emily Kolinski Morris. “Isso quer dizer que não atingimos ainda o fundo do poço. Pode ser que o fundo tenha sido atingido em fevereiro, mas não há nenhuma âncora no horizonte econômico que nos permita ser conclusivos em relação a isso.”

Nem mesmo descontos de mais de US$ 5 mil, que se tornaram comuns nas últimas semanas, estão atraindo os consumidores americanos. E os poucos que ainda estão em busca de um carro novo esbarram na falta de crédito. Pensando nesse tipo de cliente, a Toyota pediu ontem em Tóquio um empréstimo emergencial de US$ 2 bilhões do governo japonês para financiar a compra de carros nos EUA.

22/02/2009 - 13:06h Retomada desigual preocupa analistas

Autos e alimentos melhoram em janeiro, mas vários setores pioram

Fernando Dantas – O Estado SP

No momento em que a Embraer demite 20% da sua força de trabalho e a angústia em relação à economia em 2009 se intensifica, outra ameaça paira sobre a tênue retomada da indústria brasileira iniciada em janeiro. A recuperação (projetada pelos indicadores antecedentes), após a queda brusca nos três últimos meses de 2008, parece ser bastante desigual entre os setores, com vários deles podendo apresentar resultados ainda muito ruins. “É difícil dizer que o vale (pior momento) já passou”, diz Jander Medeiros, analista de consumo da JGP Investimentos, empresa de gestão de recursos.

O Índice de Situação Atual da Fundação Getúlio Vargas (FGV), componente do Índice de Confiança da Indústria que melhor mede a avaliação das empresas sobre a demanda a cada momento, teve quedas expressivas de dezembro para janeiro em importantes setores industriais: 4,4% em material elétrico e de comunicações; 8,3% no mobiliário; e 14,3% em vestuário e calçados.

Esses resultados foram contrabalançados pela alta em setores como produtos alimentares e material de transporte (que inclui a indústria automobilística), que tiveram altas no Índice de Situação Atual de respectivamente 10,3% e 4,6% em janeiro.

O problema, porém, para vários analistas, é que o setor automotivo pode estar se recuperando por causa de uma queda muito forte no fim do ano passado. O bom desempenho dos alimentos, por sua vez, é compatível com a atual fase da contração econômica, que ainda está mais concentrada nos produtos dependentes de crédito.

“Quando desagreguei o resultado por setores, fiquei mais preocupado porque o índice mostra que há segmentos nobres de consumo, como eletrônicos, mobiliário e vestuário, que ainda têm quedas muito significativas”, diz Vagner Ardeo, vice-diretor do Instituto Brasileiro de Economia, da FGV no Rio.

Bráulio Borges, da LCA Consultoria, está mais otimista. Ele nota que a indústria automobilística é responsável, direta ou indiretamente, por 25% da produção industrial, afetando segmentos como siderurgia, petroquímica, etc. “É um poder de influência muito grande, e essa recuperação é um bom sinal para economia como um todo”, diz.

Um ponto comum nas análises é que o setor automobilístico foi o que pisou com mais força no freio no último trimestre do ano passado, exagerando a dose e provocando a reaceleração em janeiro. “A fábrica da Ford na Bahia, por exemplo, praticamente não operou em dezembro”, observa Borges.

Outros setores de bens duráveis, porém, como eletrodomésticos e móveis, não tiveram freada tão drástica. “Eles ainda têm de se preocupar em reduzir os estoques antes de aumentar a produção”, acrescenta.

Medeiros, da JGP, nota que fator determinante no desempenho dos setores é a dependência ou não do crédito (exceto a indústria automobilística, com sua dinâmica particular). Nos alimentos, que não têm vínculo com crédito, o bom momento se reflete no desempenho de empresas como Wal-Mart, que manteve planos de investimento de R$ 1,5 bilhão, e do Pão de Açúcar, que retomou projetos. O aumento real do salário mínimo também deve ajudar.

Outro segmento que vai bem, acrescenta o analista, é o de cosméticos. Assim como os alimentos, são produtos que podem ter a demanda até ampliada num primeiro momento de retração, à medida que o consumidor corta bens duráveis mais caros. “A pessoa não comprou presente de Natal, mas dá uma melhoradinha na ceia”, resume Ardeo, do Ibre.

Uma preocupação, porém, é que esses setores sejam mais afetados no momento em que o pior da crise se transferir do crédito para o emprego, como parecem indicar os recentes resultados sobre mercado de trabalho do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). John Welch, economista global do Itaú, porém, acha que a queda da inflação pode poupar o setor de alimentos de um ajuste mais drástico.

20/02/2009 - 10:05h Vendas sobem e GM muda plano de dispensa

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Marli Olmos, de São Paulo – VALOR

O reaquecimento do mercado de automóveis vai evitar que parte dos 1,6 mil trabalhadores da General Motors que estavam para ser dispensados fiquem sem emprego. Depois de ter cogitado, poucos dias atrás, a dispensa desse pessoal, o presidente da GM do Brasil, Jaime Ardila, disse ontem que a empresa vai estudar caso a caso.

“Vamos renovar os contratos das pessoas que precisamos”, disse o executivo. Cada caso será analisado separadamente. O processo de avaliação começará em março, segundo Ardila.

O grupo de 1.633 empregados formava o terceiro turno de trabalho, aberto pela GM em São Caetano do Sul (SP) em abril do ano passado pela primeira vez na história dessa fábrica desde a sua inauguração em 1929.

Quando voltaram das férias coletivas, no início de janeiro, esses operários trabalharam somente um dia e já entraram em licença remunerada, sendo avisados que na data do vencimento de seus contratos – temporários – seria avaliado se eles permaneceriam na empresa ou seriam desligados. Esses contratos começarão a vencer entre o fim deste mês e março.

No início de janeiro, a GM decidiu não renovar os contratos de 744 trabalhadores temporários da fábrica de São José dos Campos (SP). Mas o cenário do mercado de veículos mudou desde então.

Ardila acompanha as vendas de veículos diariamente. Do início de janeiro até quarta-feira foram licenciados no Brasil 337,1 mil veículos. Isso representa um avanço de 8,4% na comparação com idêntico período em 2008.

“Isso significa que a redução do IPI tem muita importância”, diz o executivo. Para ele, o mercado continuará aquecido em fevereiro, em março – quando termina o benefício do IPI – e até abril, quando ainda haverá estoque de carros mais baratos por conta do incentivo tributário.

A partir de maio e junho haverá uma retração de mais ou menos 15% nas contas do presidente da GM. Ele estima que esse será o percentual de retração nas vendas de veículos este ano em relação a 2008.

Na quarta-feira a Volkswagen também decidiu renovar o contrato de 106 trabalhadores da fábrica de São Bernardo do Campo que venceriam este mês.

O mercado externo continua caindo, enquanto o reaquecimento do mercado interno tem levado muitos trabalhadores temporários de volta para as fábricas.

Ardila diz que as vendas externas já passaram a ser uma parte muito pequena nos volumes de produção da companhia. A montadora vendeu no mercado brasileiro 29,3 mil veículos em dezembro e 38,1 mil em janeiro.

Ardila diz não estar contando com a prorrogação do benefício do IPI. Segundo ele, por outro lado, mesmo que os preços dos carros aumentem, com a volta do imposto, é possível que o governo continue a estimular as vendas por meio de linhas especiais para financiamento.

De modo geral, os executivos da indústria automobilística garantem não contar com a prorrogação do incentivo. Mas já faz alguns dias que representantes dessas empresas começaram a mobilizar-se em Brasília para convencer o governo que o benefício poderá ajudar a manter a atividade e os empregos no setor.

18/02/2009 - 11:22h Consumidor enfrenta fila para comprar carro usado

Espera para levar um modelo popular pode passar de 30 dias em revendas em SP

Falta de carros para pronta entrega também atingiu o setor de veículos novos, devido à queda na produção e ao aumento da demanda

http://jornale.com.br/mirian/wp-content/uploads/2008/12/carros-usados.jpg

DO “AGORA” e FOLHA SP

A fila de espera para comprar um carro popular chegou ao setor de usados na capital e pode passar de 30 dias para os consumidores à procura dos modelos mais disputados. Os modelos flex 1.0 fabricados entre os anos 2005 e 2008 são os que mais faltam nos estoques das concessionárias. Os quatro portas também são disputados.
Em cinco concessionárias consultadas ontem, os usados em falta são Celta, Ford Ka, Palio, Fiesta, Corsa Sedan, Gol e Fox. Clientes que têm exigências quanto a cor, modelo e quilometragem podem esperar mais de um mês.
Nas 45 lojas da Chevrolet na Grande SP, os usados mais procurados são Celta, Ford Ka e o Fiat Palio 1.0.
A espera média de 25 dias para diversos populares novos reduziu a oferta de usados, já que quem vai trocar de carro espera pelo novo para deixar o usado na loja. Além disso, a queda dos preços também fez com que muitos consumidores desistissem da venda do carro.
Para o gerente regional de vendas da GM, Rodrigo Rumi, a desvalorização dos usados acompanhou os preços dos novos, que, desde dezembro, têm redução e isenção de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados).
Segundo gerentes de concessionárias, só neste mês os donos de veículos estão voltando a negociar a venda dos usados. “Passado o impacto da desvalorização, os clientes perceberam que há uma nova realidade de preços”, diz Cesar A. Del Negro, supervisor de vendas da Anhembi, da Chevrolet.
Segundo a Anauto-SP (associação dos auto-shoppings), as vendas em fevereiro estão em recuperação.
Segundo a GM, os novos se desvalorizaram em até R$ 2.000, e os usados, em até R$ 4.000. Na Ford Highway, da Vila Prudente (zona leste), o Ka 2007 caiu de R$ 21 mil para R$ 18.500. Segundo o gerente da Fiat Amazonas Sumaré, em Perdizes, o estoque de usados caiu de 230 carros em fevereiro de 2008 para 80 neste mês. Para a Fenabrave (federação de veículos), a falta será normalizada com a regularização da entrega dos novos.

Carros novos

Por conta da queda na produção e do aumento nas vendas no começo deste ano, as concessionárias sentiram também a falta de carros novos para pronta entrega.
O problema afetou especialmente modelos populares, como o Fiat Uno, o Fiat Palio e o Ford Ka, os três na lista dos dez mais vendidos.
A falta de modelos foi consequência do corte de 54% na produção das montadoras em dezembro passado em relação ao mesmo mês de 2007. Por outro lado, a demanda por veículos ganhou fôlego na passagem de 2007 para 2008 com a queda no IPI e a oferta de crédito.

04/02/2009 - 11:46h A crise e o investimento público

http://blogdofavre.ig.com.br/wp-content/uploads/2008/04/trem-bala3.jpg

Cristiano Romero – VALOR

Preocupado com o aprofundamento da crise econômica no Brasil, o governo Lula anuncia hoje medidas para ampliar o Programa de Aceleração de Crescimento (PAC). O plano é elevar em cerca de R$ 100 bilhões, neste e no próximo ano, os investimentos do setor público no programa, incluídos nessa conta os recursos de empresas estatais, como a Petrobras e a Eletrobrás. Um dos setores que mais receberão atenção nesta nova fase do PAC é o ferroviário.

Por meio de concessões ao setor privado, o governo pretende licitar a construção de novas ferrovias e também de trechos de ferrovias existentes ou em construção. Um exemplo é a ligação da Ferrovia Norte-Sul entre Anápolis (GO) e Panorama (SP). Outro projeto prevê a construção de uma ferrovia entre Ilhéus (BA) e o Estado de Tocantins – a chamada Ferrovia Leste-Oeste – e de uma outra de lá até Rondônia, cujo objetivo é fazer a ligação do Brasil com o Oceano Pacífico, porta de saída das exportações ao continente asiático.

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, deve anunciar hoje uma mudança importante no modelo de concessão. A ideia é que os ganhadores de concessões no setor ferroviário sejam obrigados a investir num determinado prazo, do contrário, perderão a permissão. Hoje, não existe a obrigatoriedade. Assessores do governo informaram que a nova regra valerá também para os casos antigos, de empresas que receberam a concessão de um serviço, mas cruzaram os braços.

“Vamos acabar com essa história da empresa que ganha uma concessão apenas com o objetivo de que seu concorrente não possa explorá-la”, disse um ministro do núcleo decisório do governo em Brasília. Um exemplo de concessão não-explorada, mas já superado, segundo o governo, é o da Ferrovia Transnordestina, a cargo da Companhia Ferroviária do Nordeste, uma subsidiária da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). “Agora, quem quiser uma concessão será obrigado a explorá-la.”

Ainda no setor ferroviário, a menina dos olhos do governo é o trem de alta velocidade que deverá ser construído entre o aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), e o Rio de Janeiro. A obra será incluída hoje no PAC. Como o governo vai promover uma licitação internacional e exigir transferência de tecnologia, o plano é criar o Instituto Ferroviário, uma pequena estatal voltada para a administração dessa tecnologia e a elaboração do planejamento estratégico do setor, a exemplo do que faz a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) no setor elétrico.

Há uma explicação óbvia para o esforço do governo em aumentar os investimentos públicos. Os investimentos do setor privado, que vinham crescendo, antes da crise, a uma velocidade 2,5 vezes superior à do Produto Interno Bruto (PIB), estão evaporando. Os dados da produção industrial divulgados ontem pelo IBGE mostram que a categoria de uso que mais caiu em dezembro foi a de bens de capital (máquinas e equipamentos) – 22,2% em relação a dezembro de 2007 (resultado já dessazonalizado).

As empresas, portanto, pisaram no freio no que diz respeito à compra de máquinas para sustentar a expansão da produção. Os números do último trimestre de 2008, justamente a fase mais aguda da crise, até agora, para o Brasil, vão certamente mostrar forte recuo da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), o indicador que mede a taxa de investimento da economia.

Para se ter uma ideia, no terceiro trimestre do ano passado, a FBCF expandiu 19,69% em relação ao mesmo período de 2007, levando a taxa de investimento nominal a 20,42% do PIB. É verdade que, como a economia vinha crescendo de forma acelerada – entre julho e setembro passados, avançou 6,8% em termos anualizados -, as empresas estão agora desovando estoques, num processo que pode levar alguns meses ainda para ser concluído – quando isso acontecer, presume-se que a produção volte a crescer, embora não nos níveis anteriores ao da crise.

Não é à toa, portanto, que o governo conte com a Petrobras para alavancar investimentos no setor produtivo. Em 2007, a Petrobras respondeu, sozinha, por 9% da Formação Bruta de Capital Fixo do país. Neste ano, com os US$ 28,6 bilhões (cerca de R$ 66,3 bilhões) em novas aplicações já anunciados, a estatal deverá aumentar a sua proporção na FBCF, uma vez que o setor privado está retraído.

De sua parte, o governo quer ampliar, em 2009, os investimentos da administração direta. Em 2008, o PAC (excluído o dinheiro de estatais e empresas privadas) representou apenas 24% do investimento pago pela União, em meio a um total que chegou a 0,9% do PIB (cerca de R$ 27 bilhões). A meta, agora, é elevar esse valor para pelo menos 1,2% do PIB. Já a Petrobras investiu, no último ano, o equivalente a 1,1% do PIB e pretende aumentar sua fatia neste ano para algo em torno de 2% do PIB.

O esforço do governo para ampliar os investimentos, desde mantendo o curso da responsabilidade fiscal, é louvável. Por causa da crise, Brasília tomou a si a responsabilidade de fazer os investimentos para manter a economia crescendo. O problema é que o governo, qualquer governo, não tem as condições operacionais para fazer muito mais do que já se tem feito.

Estima-se que uma obra pública de infra-estrutura leva, na melhor das hipóteses, ou seja, quando não enfrenta nenhum óbice de natureza judicial ou administrativa, 33 meses para sair do papel. Quando se acrescenta a isso o tempo de execução do projeto, fica claríssimo que não se trata de um prazo razoável – para ficar num exemplo, a usina hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira, deve consumir dez anos desde a concepção até a conclusão da obra.

Hoje em dia, há interferências de toda ordem nas decisões de investimento do Poder Executivo. Entidades, como o Tribunal de Contas de União, que deveriam analisar os projetos após a execução, se transformaram em órgãos consultivos. Isto, evidentemente, atrasa as obras, quando não as bloqueia. Embora tenha o mérito de ser um projeto que estrutura a logística do país, o PAC é marcado pela lentidão, e o país tem pressa.

Cristiano Romero é repórter especial e escreve às quartas-feiras.

E-mail cristiano.romero@valor.com.br

04/02/2009 - 09:53h Despencou

Celso Ming, O Estado SP

celso.ming@grupoestado.com.br

celso_ming.jpgA queda forte da produção industrial em dezembro eram favas contadas, mas ninguém esperava um tombo espantoso de nada menos que 12,4% em relação a novembro e de 14,5% em relação a dezembro de 2007, o maior desde 1991, que atingiu praticamente todos os ramos da indústria.

Foi um recuo exagerado e rápido demais. Isso pode significar que a recuperação virá também rapidamente. Não há uma única explicação para o sucedido. Há várias, intensificadas com o concurso de certas coincidências.

Em primeiro lugar, houve a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008, em Nova York. O crédito global estancou de repente, as empresas brasileiras não puderam mais rolar seus financiamentos externos e recorreram maciçamente ao crédito interno, que ficou rarefeito. Até a Petrobrás buscou financiamentos da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil, deixando milhares de pequenas e médias empresas, e sabe-se lá quantas pessoas físicas, com falta de ar.

Uma das coincidências que só pioraram as coisas foi a revelação, em outubro, de que meia dúzia de grandes empresas brasileiras e centenas de outras médias apostaram na perna errada do mercado de derivativos e perderam bilhões no câmbio. Como se desconhecia então a extensão dos estragos, os bancos trancaram momentaneamente o crédito e as vendas estancaram.

Dois dos três bancos mais atuantes no mercado de carros usados, o Votorantim e o Safra, estão envolvidos nessas operações de derivativos de câmbio e deixaram de repente sem financiamento o mercado de carros usados, o que precipitou tudo.

Depois, veio a paralisação das linhas de montagem e a concessão de férias coletivas para escoamento dos estoques. E, nessas condições, a produção mergulhou, como se vê no gráfico.

Mas o estancamento abrupto do crédito não foi a única coisa que aconteceu. O financiamento ao consumidor crescia acima dos 30% ao ano, graças à nova modalidade do crédito consignado, por meio do qual assalariados e aposentados puderam obter recursos mais baratos, desde que as prestações fossem diretamente descontadas do salário ou da aposentadoria. Foi o que permitiu que muitos comprassem carro novo, trocassem a TV e garantissem viagem de cruzeiro. Essa gente se endividou, ainda está pagando o carro e não pode enfrentar novas extravagâncias.

O terceiro fator foi a virulência da crise externa que levou faixa importante da população a temer pelo futuro de sua renda e, portanto, a se comportar conservadoramente no consumo.

Entre as consequências desse recuo da indústria está o avanço mais modesto do PIB, já em 2008. Como a atividade econômica do quarto trimestre deve ter sido negativa, provavelmente o crescimento do PIB em 2008 ficará nos 4% e não acima dos 5%, conforme o placar das apostas. E é preciso mais cuidado com as projeções do PIB em 2009. Podem estar certos os que esperam não mais do que um avanço de 2%.

Talvez seja prematuro contar com rápida recuperação da indústria, mas ela faz sentido não só pela intensidade excessiva da queda anterior, mas porque os números recentes apontam boa recuperação das vendas de produtos de consumo durável e no uso industrial de energia elétrica. Veja ainda o Confira.

Confira

Selic não é tudo – Restrição monetária que paralisa a indústria não é apenas a alta da Selic. Quando os bancos paralisam o crédito, quando cobram spreads exagerados ou quando reduzem o prazo dos financiamentos (o que aumenta a prestação mensal), estão sendo mais restritivos do que a Selic.

O comércio e a indústria também têm culpa nesse jogo porque cobram dos seus clientes juros (embutidos no preço à vista) tão escorchantes quanto cobram os bancos.

O FMI prepara nova linha de financiamento de prazo curto para restabelecer o crédito internacional. A conferir.

04/02/2009 - 09:11h Análise da crise gera discussão

Análise da crise divide o governo

Alguns técnicos admitem que País pode ter recessão

Fabio Graner e Beatriz Abreu, BRASÍLIA – O Estado SP

Os sinais inequívocos de que a produção industrial desabou no fim do ano passado reforçam análises de técnicos do governo de que, dificilmente, o país escapará de uma “recessão técnica” no fim do primeiro trimestre de 2009, caracterizada pela queda da produção por dois trimestres seguidos. Essa avaliação ganha força quando se observa que a queda de 12,4% em dezembro ante novembro do ano passado foi disseminada na indústria, o que indicaria uma lenta capacidade de recuperação.

A tese da “recessão técnica”, porém, não constitui, pelo menos por ora, um consenso no governo. Os que sustentam que o primeiro trimestre não repetirá a queda esperada nos últimos três meses de 2008 chamam a atenção para o processo de venda de estoques das indústrias. Numa reação ao agravamento da crise, os empresários teriam optado por desovar os estoques e assim devem ser traduzidos os dados divulgados pelo IBGE, na avaliação de um economista da equipe econômica.

O fato, no entanto, é que ninguém no governo é capaz de afirmar que o processo de venda dos estoques da indústria tenha se encerrado, o que jogaria o problema para janeiro e, possivelmente, fevereiro. A percepção desse economista é a de que existem timings diferentes para os mais diversos setores. O mais provável é que há indústrias que retomariam a produção no fim do primeiro trimestre. Essa é a aposta do governo. Ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com discurso mais sintonizado com os efeitos da crise sobre a economia, falou em retração para 2009 e em um primeiro trimestre “difícil”. “Mas depois vai melhorar.”

A expectativa de Lula é que o setor privado responda aos estímulos do governo à retomada da atividade econômica. Mesmo assim, o discurso para levantar o otimismo não coloca as previsões pessimistas em segundo plano. Ou seja, o País não entrará em recessão, mas tampouco terá o expressivo crescimento de 4%, que no fim do ano passado embalava as projeções da equipe econômica. A possibilidade de a economia crescer entre 1% e 2% já é considerada uma hipótese otimista.

Lula quer um resultado. “Nos bastidores, a palavra de ordem é trabalhar em estado de guerra”, disse um assessor. “Não estamos vivendo um momento de normalidade, e o governo tem que agir”, insistiu, ao se referir às medidas de estímulo com as quais Lula acredita que poderá convencer o setor privado a retomar a produção.

Para o presidente, desde setembro, quando a crise atingiu a fase mais aguda, a ação do governo foi para socorrer instituições financeiras e garantir crédito ao sistema financeiro. Agora, o foco está na produção. Por isso, o reforço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), estimado em R$ 120 bilhões, os recursos extras para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que teve o orçamento reforçado em R$ 100 bilhões, e o plano estratégico da Petrobrás, que prevê investimento de US$ 174,4 bilhões até 2013.


NÚMEROS

12,4 %
foi a queda da produção industrial em dezembro de 2008, em relação a novembro

R$ 120 bilhões
é o valor do reforço ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)

R$ 100 bilhões
é o valor destinado a reforçar o orçamento do BNDES e aumentar o crédito às empresas

R$ 174,4 bilhões
é o valor dos investimentos da Petrobrás até 2013

03/02/2009 - 11:26h Embalado com IPI menor, mercado reage

 

Marli Olmos, de São Paulo – VALOR

A indústria automobilística retomou um pouco do fôlego no mês passado graças, principalmente, ao efeito da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na venda de automóveis. O total de veículos que passaram pelo licenciamento em janeiro foi de 197,47 mil unidades, o que representou um acréscimo de 1,5% na comparação com dezembro.

Tradicionalmente, janeiro costuma ser mais fraco do que dezembro. Por isso, qualquer crescimento é um dado positivo, mesmo levando em conta que o resultado do último mês de 2008 foi muito ruim, com fábricas paradas por conta das férias coletivas em praticamente todas.

Mas não é apenas o dado do licenciamento de automóveis que animou o setor. Números extra-oficiais indicam que o nível dos estoques baixou em torno de 10%. Há um mês havia nos pátios das concessionárias e das fábricas total de 211 mil veículos, o suficiente para 36 dias de vendas.

A queda representa um alívio para as montadoras. Com estoque menor, é possível fazer a produção retomar um pouco da normalidade, sem ter de apelar para férias coletivas, banco de horas ou mesmo demissões.

A média diária de vendas em todo o ano passado ficou em mais de 11 mil veículos. No primeiro mês de 2009, o volume caiu para pouco mais de 10 mil. Mas isso tem sido considerado positivo para a maior parte dos executivos, que levou um susto com o impacto da queda das vendas desde o início de novembro. Como disse um executivo do setor, a indústria precisa agora “construir degrau por degrau”.

Apesar disso, o momento ainda é de crise. As vendas do mês passado representaram um declínio de 8,13% na comparação com janeiro de 2008. Na indústria de autopeças o ritmo dos pedidos indica volumes menores também em fevereiro em relação às encomendas de um ano atrás.

Se o resultado de janeiro for anualizado, chega-se a um mercado total aproximado para o ano de 2,4 milhões de unidades. Trata-se de um volume inferior aos 2,82 milhões de veículos vendidos no ano passado. O lado positivo é que tradicionalmente muitos outros meses do ano costumam ser melhores do que janeiro. Mas, por outro lado, é importante ressaltar que o desempenho do mês passado é em boa parte resultado da redução do IPI, que, a princípio, tem prazo para terminar, em 31 de março.

A maior parte da retomada registrada no primeiro mês do ano foi puxada pelos carros de passeio. Nesse segmento, pesa também favoravelmente para o futuro a expectativa de que o Banco Central reduza ainda mais a taxa básica de juros.

Já na indústria de caminhões, ainda há muita resistência por parte dos transportadores de efetuar as compras agora, mesmo com o estímulo do IPI menor.

Além do mercado interno, a indústria tem registrado quedas nos pedidos externos, o que provoca impacto nas exportações de veículos. Embora prefiram não falar em previsões abertamente, nos bastidores boa parte dos executivos já conta com uma forte retração nas vendas externas deste ano. Trata-se de uma consequência do impacto da crise, principalmente nos países vizinhos.

Aos poucos, a indústria começa a refazer as suas programações de produção a partir da retomada da demanda. Há casos como o da General Motors , que recentemente anunciou ter desistido de conceder novo período de férias coletivas na fábrica de Gravataí (RS), onde é produzido do Celta.

Em janeiro, a Volkswagen passou à frente da Fiat. A montadora alemã ficou no primeiro lugar com 21,96% , seguida muito de muito perto pela Fiat, com 21,93%. A General Motors, em terceiro lugar, ficou com fatia de 19,32%, seguida por Ford (12,04%), Honda (4,73%), Renault (4,46%), Peugeot (3,08%), Citroën (2,62%) e Toyota (2,42%).

03/02/2009 - 11:04h Venda de carros novos cresce 1,5% em janeiro

http://www.correiolageano.com.br/galeria/01210.jpg

Resultado mensal de 197.476 unidades vendidas é o primeiro após a redução do IPI sobre veículos

Cleide Silva – O Estado SP

As vendas de veículos novos em janeiro, incluindo caminhões e ônibus, apresentaram pequena recuperação de 1,5% ante dezembro. Primeiro mês completo de vendas com corte do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), os negócios somaram 197.476 unidades. Foi o segundo melhor resultado para um mês de janeiro, atrás de 2008, quando as vendas somaram 214,9 mil veículos, o que resulta em queda de 8,13%, mostram dados preliminares.

As montadoras veem o desempenho de forma positiva, pois tradicionalmente janeiro tem vendas menores do que as do último mês do ano. Em dezembro, as vendas tinham apresentado recuperação de 9,4%, depois de quedas de 25,6% em novembro e de 11% em outubro.

A redução do IPI, em vigor desde meados de dezembro, e a maior oferta de crédito ajudaram principalmente o segmento de automóveis, que, sozinho, cresceu 5%. Já as vendas de comerciais leves e caminhões caíram. Ainda assim, as montadoras aguardam mais medidas de socorro, como linha especial de crédito para carros usados, que normalmente entram como parte do pagamento do novo.

Outra justificativa para o desempenho de janeiro é o represamento de licenciamentos de carros vendidos em dezembro. Como foi preciso refaturar o estoque das revendas, algumas marcas demoraram a entregar os veículos e o emplacamento só ocorreu no mês passado.

Juntando carros e comerciais leves, a venda totalizou 189,9 mil unidades, 3,3% a mais que em dezembro, mas 7,63% inferior a janeiro de 2008. A Fiat liderou as vendas, com 22,8% de participação. A Volkswagen ficou com 21,6%, a GM com 20,1% e a Ford com 11,9%. Os modelos mais vendidos foram Gol (17,8 mil unidades), Uno (11,6 mil), Palio (10,7 mil), Classic (8,8 mil) e Celta (7,5 mil). A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulga na segunda-feira o balanço oficial do setor. Também fará a projeção para este ano. Para alguns executivos, se os negócios empatarem com 2008 já estará bom. Mas há quem aposte em queda de até 15% ante as 2,82 milhões de unidades vendidas no ano passado.

27/12/2008 - 12:45h Vendas de Natal têm crescimento moderado

http://oglobo.globo.com/fotos/2007/11/16/16_MVG_sp_25demarco.jpg

Sondagens preliminares apontam aumento real no faturamento de até 5%

Márcia De Chiara – O Estado SP

Às custas de muita promoção, o comércio conseguiu espantar o baixo-astral da crise e as vendas de Natal tiveram crescimento moderado. Duas sondagens sobre faturamento divulgadas ontem revelam alta de 3,5% e 5% na receita na comparação com o Natal de 2007, que foi o melhor da década.

O crescimento modesto nas vendas pode ser um bom presságio para indústria no primeiro trimestre de 2009, porque sinaliza uma reposição dos estoques ainda em meados de janeiro. A volta às compras de grandes redes varejistas logo no início do ano era algo impensável para vários industriais que cogitavam reduzir a produção no período. De toda forma, o desempenho positivo do Natal não deve interromper a forte onda de promoções que ocorre ininterruptamente desde novembro.Ontem, por exemplo, várias redes varejistas anunciavam descontos de até 70%.

“O varejo pode festejar os resultados em razão dos problemas que tivemos”, afirma o presidente da Associação dos Lojistas de Shoppings (Alshop), Nabil Sahyoun. Sondagem preliminar feita pela entidade indica crescimento real de 3,5% no faturamento do Natal deste ano em relação ao de 2007.

É bem verdade que os segmentos com maiores taxas de crescimento foram exatamente os de produtos de menor valor, como óculos e acessórios (14%) e perfumaria e cosméticos (9%), enquanto os bens duráveis, como eletrônicos, ampliaram em 4% o faturamento. Esse resultado é coerente com o valor médio da compra de Natal, que neste ano ficou 20% abaixo do registrado em 2007, observa Sahyoun. Com faturamento que deve atingir R$ 75,2 bilhões este ano, os 689 shoppings brasileiros respondem por 25% das vendas no varejo.

Outra sondagem feita com 90 lojistas pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio) aponta crescimento de 5% no faturamento no Natal, superando em um ponto porcentual a sondagem prévia. O destaque foi para artigos de vestuário e calçados, que cresceram 6% na comparação anual, enquanto itens de maior valor, como eletroeletrônicos, tiveram acréscimo de 2% nas mesmas bases de comparação. Emprego e renda em alta garantiram esse resultado, segundo avaliação da entidade. Sem a crise financeira, haveria espaço para crescimento maior, diz o comunicado da Fecomércio.

“O desempenho do Natal foi razoável, considerando que a base de comparação é forte”, afirma o assessor econômico da Serasa Experian, Carlos Henrique de Almeida. Segundo o Indicador Serasa de Nível de Atividade do Comércio, o volume de negócios entre os dias 18 e 24 de dezembro cresceu 2,8% em todo o País em relação ao mesmo período de 2007, quando o acréscimo havia sido de 5,3%. Na cidade de São Paulo, a alta foi de 1,1%.

Almeida destaca que o movimento de vendas nas cidades do interior do País superou o das capitais, cuja a população está mais atenta para as notícias sobre a crise financeira. Ele atribui o resultado positivo ao parcelamento oferecido pelas lojas.

“Ainda houve oferta de crédito neste Natal, mas com prazos reduzidos”, diz o economista. Com juros em alta e o risco crescente de desemprego, ele alerta que a inadimplência deverá aumentar no primeiro trimestre de 2009.

Os números da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) mostram queda de 1,4% em dezembro no número de consultas para vendas a prazo em relação a igual período de 2007. Nos negócios com cheque à vista ou pré-datado, houve alta de 4,7% no número de consultas. Na média dos dois sistemas, o volume de consultas cresceu 1,65%, resultado tido como “razoável” pelo economista da ACSP, Emílio Alfieri.

Nos supermercados, as vendas de Natal também não decepcionaram. Levantamento da Associação Paulista de Supermercados (Apas) aponta crescimento de 4% real na receita de vendas deste Natal ante a mesma data de 2007. “Esse desempenho foi alcançado por conta de muita promoção e redução de preço”, ressalta o vice-presidente da entidade, Martinho Paiva Moreira.

14/12/2008 - 10:23h Montadora repassa queda de IPI para preços e feirão lota

http://www2.uol.com.br/interpressmotor/imagens/10789.jpg

GM espera que entre 15 mil e 17 mil pessoas visitem evento no fim de semana

PAULA PACHECO – O Estado SP

A decisão do governo de reduzir o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) surtiu efeito dois dias depois do anúncio. As montadoras e concessionárias que apostaram em feirões para desovar os estoques abarrotados tiveram um retorno rápido. Ontem, no feirão da General Motors, na sede da empresa, em São Caetano do Sul, logo pela manhã já havia muita gente à procura da melhor oferta. Um batalhão de 350 vendedores recebia os visitantes.

A GM colocou no feirão 70 carros novos expostos e outros 5 mil em estoque. O financiamento máximo era de 60 meses, com entrada mínima de 20% do valor do veículo. Fernando Rodrigo Macedo e a irmã Fabiana Macedo foram ao pátio da GM após pesquisar em muitas concessionárias e outros feirões. Depois que soube da redução do IPI, na noite de quinta-feira, Macedo achou que era o momento de fechar um bom negócio. Comprou com a vendedora Viviane Souza de Lima o primeiro carro zero, um Corsa hatch. Pagou R$ 10,5 mil de entrada e fechou um financiamento de R$ 570 por mês, em 60 meses, com taxa de juros de 1,72%.

Atualmente, o carro de Macedo é um Fiat Premium 1986. O sonho era comprar um modelo zero. Com a queda do preço, não só o especialista em manutenção industrial fechou negócio por um preço abaixo do que pretendia gastar como pôde incluir alguns opcionais, como direção hidráulica, ar-condicionado e vidros elétricos.

Macedo tem certeza de que fez uma boa compra. Ele teme que em janeiro, caso as montadoras se recuperem do mau momento, comecem a elevar as taxas de financiamento. “O governo poderia baixar mais os impostos, que ainda são muito altos. Se o preço dos carros baixar mais, tenho certeza que não vai faltar comprador.”

Rodrigo Rumi, gerente regional de marketing e vendas da GM, esperava receber no pátio da montadora durante o fim de semana entre 15 mil e 17 mil pessoas. Nos feirões anteriores, feitos em novembro e no começo de dezembro, o público chegou a 12 mil visitantes. “O IPI reduzido vai ajudar bastante. Já sentimos um começo de retomada nas vendas nas últimas semanas, mas agora deve melhorar”, diz o executivo.

Uma da formas de melhorar o movimento nas concessionárias, segundo ele, foi com o pagamento de até 7% a mais que o valor de mercado na compra de carros usados. “Conseqüentemente, isso reflete na venda de novos”, explica.

Durante promoções como a do feirão, segundo Rumi, as vendas chegam a ser até 35% maiores do que num fim de semana normal. No caso da GM, as condições de compra são flexíveis. O cliente pode levar o carro para casa com juro zero, 50% de entrada e o saldo em 12 vezes ou dar 20% de sinal, parcelar o restante em 60 meses e pagar juro de 1,48% ao mês nos modelos Celta e Prisma.

10/12/2008 - 11:25h Tudo que é sólido desmancha no ar

David Kupfer – VALOR

http://www.galizacig.com/avantar/files/images/20080429_economics.jpgEntre as muitas perplexidades enfrentadas por todos que tentam compreender os desdobramentos relacionados à evolução da crise financeira mundial, talvez a maior esteja na rapidez com que vem se dando o seu contágio para o mundo da produção. Tantos quantos têm acesso às informações sobre o desempenho das empresas mostram-se surpresos com o pequeno intervalo de tempo que separou o momento da quebra da corretora Lehman Brothers em 15 de setembro último, considerado o marco inicial da fase aguda da crise, e a enxurrada de notícias dando conta da suspensão de projetos de investimento em novas fábricas, ou da interrupção da produção por meio de férias coletivas, ou ainda da edição de extensos programas de demissões. Será isso um sintoma de que as atividades produtivas estão enfrentando algo além da reversão das expectativas sobre os seus níveis de demanda?

Quem imaginava que o estouro da super-bolha de ativos financeiros acumulada nas últimas décadas iria cobrar seu preço apenas dos rentistas e especuladores, vê agora que a financeirização do capitalismo contemporâneo nos países centrais está comprometendo também aquilo que parecia ser a maior virtude do modelo fabril construído nos anos recentes: o primado de um sistema de produção genuinamente “em massa”, efetivamente desintegrado no plano tecnológico e verdadeiramente organizado em escala planetária. Como facilmente evidenciado pela análise do elenco de agentes e regiões envolvidos na produção de um simples calçado vendido no mercado americano, ao contrário do que se supunha nos idos da década de 80, quando começaram a se materializar os dogmas da abertura e da desregulamentação dos mercados nos países centrais, o mundo não se tornou uma feira livre global. Muito distante do que seria o mundo walrasiano dos preços totalmente flexíveis, no qual todos os vendedores e compradores barganhariam preços ao sabor dos resultados ora superavitários, ora deficitários, dos balanços entre demanda e oferta, a globalização criou o contrário: cadeias de suprimentos em escala mundial, muito longas no espaço e, freqüentemente, também longas no tempo, nas quais as encomendas são feitas com grande antecedência, em sistemas produtivos enxutos, com insumos e produtos entregues just-in-time, sem estoques e sem desperdícios. Portanto, esquemas produtivos fortemente apoiados em planejamento da produção, sobre os quais dificilmente se pode esperar ajustamentos muito bruscos, sem grandes prejuízos da coordenação geral do próprio sistema.

Sem dúvida que a viabilização desses sistemas de produção tem como um de seus pilares a alta capacitação da engenharia, que planeja tempos e movimentos, define logísticas, sincroniza as entradas e as saídas de mercadorias, enfim, permite às empresas a absorção das fortes economias dinâmicas de escala e escopo requeridas como resposta aos imperativos de qualidade, eficiência e estabilidade impostos pelo acirramento da concorrência ao nível global. Mas também é decisivo para o eficaz funcionamento desse modelo fabril a existência de um sistema financeiro que possibilite postergar o pagamento dos custos de insumos e antecipar o recebimento das receitas pois, do contrário, as pressões sobre o fluxo de caixa poderiam comprometer a economicidade final do próprio modelo. Em suma, nesses novos sistemas produtivos, banco e indústria alcançaram um grau inédito de interpenetração, com as empresas industriais tornando-se extremamente dependentes de operações financeiras também para as suas atividades correntes. Por isso, é possível que aquilo que parecia tão sólido, o grande autômato da produção em massa, tenha se desmanchado em conseqüência da falta do lubrificante financeiro, trazida pelo sumiço da liquidez pós-crise. Embora seja muito cedo para que se disponha de elementos capazes de comprovar ou não essa tese, é possível que a grande novidade na atual crise seja o fato de que a humanidade esteja observando, pela primeira vez em sua história, quão devastadores podem ser os efeitos de uma mudança abrupta da velocidade de funcionamento de um sistema de produção em massa com as características descritas. Essa poderia ser a explicação adicional para a rapidez do contágio.

Em que medida tudo isso afeta a indústria brasileira? Nosso sistema industrial, por diversas razões, ainda estava e permanecerá muito distante desse modelo desintegrado e deslocalizado que caracteriza as cadeias virtuais de suprimento mundo afora. Dados publicados pelo jornal “Folha de São Paulo” há poucos dias dão conta de que, em 2007, metade do valor total dos investimentos das empresas industriais brasileiras foram financiados por meio da retenção de lucros das operações prévias, isto é, pela via do autofinanciamento. Dos demais 50%, metade teve origem no BNDES, restando ao mercado de capitais, à captação externa e a todas as demais formas de acumulação externa a parcela restante. Para as operações correntes, os dados não são disponíveis mas sabe-se que não devem diferir muito desses padrões. A pouca profundidade do sistema financeiro nacional, o racionamento de crédito que sempre existiu no país, os elevados juros efetivamente pagos pelos tomadores de dinheiro explicam o fato conhecido de que a penetração dos instrumentos creditícios e a alavancagem das empresas brasileiras tenham se mantido em níveis muito baixos quando comparados aos países desenvolvidos e até mesmo a muitos dos países emergentes. Dessa perspectiva, parece legítimo esperar que a indústria brasileira provavelmente não sinta os efeitos da dessincronização dos sistemas produtivos globais de forma tão intensa quanto as indústrias líderes. Nossos problemas permanecem basicamente os mesmos, justificando todos os esforços visando preservar ao máximo a demanda interna, os planos de investimentos em andamento ou prestes a serem deslanchados e a melhoria recente alcançada no nosso mercado de trabalho. Feliz ano velho para todos nós.

David Kupfer é professor do Instituto de Economia da UFRJ e coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade (GIC-IE/UFRJ. Escreve mensalmente às quartas-feiras. www.ie.ufrj.br/gic E-mail: gic@ie.ufrj.br)

19/11/2008 - 09:15h Para metalúrgicos, crise é passageira

 
Jefferson Dias/Valor
Benigno José Domingues, metalúrgico do ABC: pescaria, mas perto de casa

 

 

 

De São Bernardo do Campo – VALOR  

A chuva forte da manhã, substituiu o fim de semana ensolarado na grande São Paulo, e cedeu lugar à velha garoa, fina e constante. A instabilidade do clima, semelhante a dos mercados financeiros, fez companhia aos humores dos metalúrgicos da base sindical de São Bernardo do Campo na noite de segunda-feira. Aos poucos, alguns prevenidos chegavam com seus guarda-chuvas e jaquetas, outros não ligavam para a mudança do clima e uma camiseta já era suficiente para ficar a vontade.

O economista Luiz Gonzaga Belluzzo foi falar sobre a crise financeira e seus impactos sobre o Brasil. Metalúrgicos das grandes montadoras (Ford, Volkswagen, Mercedes Benz) e das autopeças lotaram a sala reservada para o evento. Na platéia, muitos estão com férias coletivas marcadas, mas a maioria apenas para o fim do ano, como é tradicional na base do sindicato. Os semblantes eram menos nublados do que se poderia esperar. E as preocupações também. Nas autopeças, o temor de demissões é maior; nas montadoras, os trabalhadores mantém os planos de consumo para o Natal, esperando que os brasileiros também continuem comprando carros novos.

De camisa pólo branca, Benigno José Domingues, conhecido como “Maluf” por conta de algumas semelhanças com o político, chegou com 20 minutos de antecedência. Aos 53 anos, trabalha no setor metalúrgico desde 1977, quando começou na Volkswagen. Desde 1996, está na Delga Indústria e Comércio, empresa de autopeças, como operador de empilhadeira.

Domingues conta que há vários anos não ouvia falar em férias coletivas, medida anunciada nos últimos dias na empresa em que trabalha. Ele diz que ficará parado por duas semanas (a partir de 22 de dezembro), mas não vê riscos de que a crise afete a fábrica onde está empregado, pois espera que a partir de janeiro a situação melhore. Para o período que ficará parado planeja a pescaria. “A gente tem chumaço (isca), vamos descer até o riacho e pescar um pouquinho” brinca o operário. Apesar da tranqüilidade que manifesta, está atento. “Não dá para ir para muito longe, a gente fica preocupado, o dinheiro que a gente pega é preciso guardar e segurar, a gente não sabe, né?”, pondera o metalúrgico.

Objetivo e com um bloquinho de anotações, ele foi à palestra à procura de uma “orientação”. “É muito importante participar desses debates para o nosso dia a dia, temos que fazer tudo com o pé no chão” observa Domingues. Ele admite estar preocupado com o cenário para as autopeças. Sempre atento ao que acontece com as montadoras, ele descreve que o clima entre os funcionários na empresa é de preocupação, principalmente por conta de demissões noticiadas em outras autopeças de Diadema, na base do sindicato. Ontem, em Campinas, novas demissões foram anunciadas na Foxconn, de eletroeletrônicos.

Outro operário do setor de autopeças que apareceu para conferir as análises da crise, foi José Augusto, de 38 anos. Na Welcon Fasteel, fábrica em que trabalha há cinco anos e sete meses como operador de máquina no departamento de estamparia, Augusto faz parte da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) e do Comitê Sindical da Empresa (CSE).

Na empresa foram anunciadas férias coletivas para o início de dezembro para acompanhar o calendário das montadoras, o que reforçou, no início, o clima de preocupação entre os trabalhadores, conta Augusto. “O pessoal ficou meio surpreso no começo, mas agora já estão assimilando melhor o fato, embora a maioria tema demissões”, acrescenta.

Se para os trabalhadores das autopeças as dúvidas pairam e criam nebulosidades, para os jovens colegas de trabalho e ponteadores da Ford, Sandro Randal Alves, 31 anos, e Jairo de Souza Franco, de 25, o céu cinzento da mudança não provocará diferenças.

Alves completou o ensino médio e decidiu investir em cursos do departamento de Formação Sindical. Fez dois, um de Ergonomia e outro de Formação para Formadores. Orgulha-se das oportunidades e empenha-se em acompanhar de perto tudo o que está ligado às questões trabalhistas.

A Ford informou que as férias coletivas começarão a partir de 15 de dezembro. Para Alves, a parada representa uma pequena diferença na programação dos anos anteriores, mas não implica na desaceleração na produção, e pode ser explicada como uma necessidade de adaptação dos estoques.

Para os seus companheiros de produção, contudo, a notícia não foi recebida com tanta frieza. Alves conta que há muitos trabalhadores apreensivos, mas responsabiliza a mídia pelo clima de desconfiança. Para o Natal, com sua esposa e as duas filhas, ele não pretende alterar os hábitos em comparação com outras festas. Nas férias coletivas, vai aproveitar para descansar e estudar.

Com voz de locutor de rádio e poucas palavras bem cuidadas, o companheiro de trabalho de Alves, o tímido mineiro Jairo concorda com a análise de que o setor não sofrerá grandes adaptações. Em São Paulo desde os 12 anos, quando veio morar com a tia para estudar e depois trabalhar, Jairo planeja uma visita à mãe em Minas Gerais nas férias coletivas. E não teme perder o emprego na volta.

Na Volkswagen, o clima é um pouco mais apreensivo entre os funcionários, segundo o coordenador do comitê sindical, Reinaldo Marques. As notícias de carros parados nos pátios trazem preocupação e levam os operários a questionar as medidas que a empresa pode tomar nos próximos dias.

 

10/11/2008 - 12:13h O que fazer com a China na crise

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Sergio Leo – VALOR

O Brasil tem dois tipos de preocupações em relação à China, que, apesar do tamanho, é um participante discreto das reuniões de cúpula convocadas para evitar uma ameaçadora recessão mundial. Analistas buscam na peculiar macroeconomia chinesa pistas da reação do país à crise e da capacidade de ajudar o mundo a atravessá-la. Ao mesmo tempo, o Brasil debate a melhor estratégia para lidar com a crescente voracidade chinesa no mercado internacional.

Em Brasília, as autoridades esperam receber neste mês um sinal de como a China vai combinar a retração dos mercados consumidores e as sensibilidades afetadas pelo apetite dos exportadores chineses. Vence em dezembro o prazo combinado na OMC para que os países sócios pudessem impor salvaguardas contra produtos têxteis chineses. Com a extinção das salvaguardas hoje aplicadas pelo Brasil, estará liberada a entrada de têxteis da China no mercado brasileiro, o que apavora os concorrentes nacionais. O governo brasileiro sugeriu uma alternativa às salvaguardas; os chineses fazem mistério.

O Brasil quer um “mecanismo de consultas” entre os setores privados dos dois países, sob a supervisão dos governos: sempre que houver alta muito forte nas vendas chinesas ao Brasil, se não houver acordo privado para evitar danos sérios aos concorrentes nacionais, o governo brasileiro poderia adotar “medidas administrativas” contra as “distorções” no comércio.

“É um mecanismo muito mais suave do que existe hoje”, defende o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Ivan Ramalho, que não dá detalhes sobre as “medidas administrativas” cogitadas. Os chineses temem criar precedentes contra as próprias importações e estão calados desde meados de outubro, quando receberam respostas a pedidos de esclarecimento sobre a proposta brasileira.

Neste ano, haverá déficit recorde no comércio com a China. As compras de produtos chineses vão superar em mais de US$ 2 bilhões as vendas do Brasil àquele país. Até outubro, mesmo com menor ritmo de crescimento, o déficit já chegou perto do alcançado em 2007 (US$ 1,87 bilhão): as importações brasileiras foram quase US$ 1,8 bilhão superiores às vendas para aquele mercado. “Precisamos diversificar a pauta de exportações para a China, que importa muitos manufaturados, mas não do Brasil”, diz Ramalho.

No último trimestre, houve aumento forte no ritmo de aumento das vendas à China, e uma redução do ritmo de crescimento das compras. Mas os negócios com grãos e óleo de soja são os maiores responsáveis pelo melhor desempenho, e representam, sozinhos, 42,5 % das exportações brasileiras à China. Com as exportações de minério, somam 70% do total. No caso da soja, pelo menos, é boa notícia o fato de que se destinam ao mercado consumidor interno, como reflexo da melhoria nas condições locais de alimentação e urbanização – algo que a recessão mundial não abalará muito..

O governo prepara um esforço de exportação para a China e, baseado nas estatísticas de comércio, já identificou setores como máquinas para têxteis e couros, autopeças e motores, preparações alimentícias e equipamentos diversos que os chineses compram de outros países. “Estamos na fase de identificar, no caso de máquinas e equipamentos, que produtos são comprados, de quem e por quê”, relata Ramalho. No próximo ano, missões comerciais para vender manufaturados serão enviadas à China.

O secretário-executivo da Câmara de Comércio Brasil-China, Rodrigo Maciel, argumenta que o principal fator responsável pelo aumento de importações de produtos da China são as compras feitas pela própria indústria brasileira, de máquinas e equipamentos. Essas importações de bens de capital representam, há anos, mais de 50% do total das importações, e o crescimento até setembro de 2008 chegou a 78% em relação ao mesmo período do ano passado, lembra ele.

As vendas chinesas de têxteis ao Brasil aumentaram 50%, mas perderam espaço no total das importações originadas na China, pela primeira vez nos últimos anos, de 7,9% para 7%. As de brinquedos também decresceram de 2% do total para 1,2% do total (o aumento das exportações de brinquedos em relação a 2007 foi de quase 35%). Maciel desdenha dos temores de uma invasão potencial de produtos chineses deslocados pela recessão dos mercados desenvolvidos. “O esforço estratégico das exportações chinesas para diversificar mercados já aconteceu e eles ocuparam o que podiam”, argumenta. “O Brasil foi um dos países para os quais mais cresceram as vendas da China.”

“Os chineses estão aumentando o valor agregado dos produtos vendidos para cá e isso preocupa cada vez mais setores industriais”, responde o presidente do Conselho d e Comércio Internacional da Fecomercio, Mario Marconini, que, amanhã, promove um seminário em São Paulo dedicado às conseqüências da crise para a China e o Brasil. “Todos precisamos da China, para dar fôlego ao mercado mundial. A a questão é como irão reagir à crise”, acrescenta.

Muito do que acontecerá no comércio com os chineses dependerá da reação da China ao desaquecimento na economia mundial. Até setembro, apesar da redução no ritmo de crescimento, as exportações chinesas aos EUA continuam firmes, e mesmo os bancos mais expostos a maus negócios no mercado americano mostraram bons resultados no terceiro trimestre, segundo a consultoria GaveKalDragonomics. O setor imobiliário contraiu-se com as medidas oficiais de restrição de crédito, e a produção industrial perde fôlego, mostrando sinais de acúmulo de estoques.

Ainda não se sabe se são estoques de bens intermediários, sinal de gestão de preços nas indústrias, ou de bens finais, que mostrariam preocupante retração na demanda tradicional por mercadorias chinesas. Na semana passada, as autoridades locais anunciaram liberação de quase US$ 600 milhões para incentivar o mercado interno. Mas a resposta chinesa ainda é um dos maiores enigma da crise.

Sergio Leo é repórter especial em Brasília e escreve às segundas-feiras

E-mail: sergio.leo@valor.com.br

10/11/2008 - 10:40h Ações para ampliar crédito para a safra dão resultado

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VALOR

As medidas adotadas pelo governo para garantir liquidez ao sistema de crédito rural brasileiro começam a surtir efeito. Foram até agora meia dúzia de ações pontuais, que garantiram cerca de R$ 20 bilhões em antecipação e financiamentos adicionais para suprir a saída dos tradicionais financiadores como as tradings, agroindústrias e fornecedores de insumos, notadamente na região Centro-Oeste.

A elevação dos percentuais sobre os depósitos à vista e de caderneta de poupança com aplicação obrigatória no setor, as chamadas exigibilidades bancárias, ampliaram em R$ 8 bilhões a oferta de dinheiro ao setor. A redução “carimbada” dos depósitos compulsórios e a antecipação da equalização de recursos para o Banco do Brasil agregaram outros R$ 9 bilhões ao crédito disponível. Para suprir parte da demanda por linhas de auxílio à exportação, o Conselho Monetário Nacional (CMN) abriu espaço para crédito de até R$ 2,5 bilhões para financiar capital de giro de agroindústrias com lastro em Cédulas de Produto Rural (CPRs), emitidas por produtores para antecipar recursos de custeio das lavouras.

A reação do mercado tem sido positiva. Um exemplo do efeito é o próprio Banco do Brasil, maior operador de financiamentos ao campo, que estima chegar ao fim da primeira metade desta nova safra, cujo plantio começou em outubro, com um volume de empréstimos de custeio próximo de R$ 14 bilhões. Em quatro meses do atual ano-safra, iniciado em julho, o banco emprestou R$ 9,4 bilhões. Se confirmadas a projeções, o desempenho do BB no custeio da safra em 2008 será 32,5% superior ao mesmo período de 2007.

Mesmo assim, a taxa média de juros ficou maior porque aumentou a demanda e o riscos associados ao setor, já que vários dos tradicionais financiadores do campo recuaram em razão de problemas de caixa provocados pela forte instabilidade dos preços na safra passada. A raiz da falta de crédito para o plantio da próxima safra antecede, assim, o agravamento da crise financeira global. De fato, a escassez de crédito começou com o pacote de R$ 75 bilhões de renegociação de dívidas rurais, que limitou a concessão de empréstimos aos produtores que optaram pela rolagem. E, também, porque os bancos ficaram mais seletivos, se esquivando de conceder empréstimos a quem repactuasse seus débitos.

O governo precisa agora garantir renda ao setor através da sustentação de preços e aquisições diretas para formação de estoques públicos durante a comercialização da safra. O orçamento para 2009 prevê apenas R$ 3,8 bilhões para isso. Produtores, bancos e setores do próprio governo estimam a necessidade de até R$ 10 bilhões para honrar a Política de Garantia de Preços Mínimos, prevista em lei e poucas vezes cumprida integralmente.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, garantiram, há poucos dias, que o governo cumprirá seu papel de evitar que as cotações agrícolas fiquem abaixo dos preços mínimos.

Da ação do governo também dependerá o plantio no próximo ano-safra 2009/2010 em condições adequadas de crédito para atender ao volume da produção e garantir a produtividade das principais lavouras. Para isso, é preciso modernizar as regras do crédito rural e ampliar as fontes de financiamento para além dos escassos recursos oficiais subsidiados pelo Tesouro. Só com produção, produtividade e renda é que será possível evitar novos acúmulos de dívidas e os intermináveis calotes de parcela minoritária, porém barulhenta, dos agricultores.

Um passo importante na modernização da política agrícola seria, por exemplo, a ampliação do alcance do seguro rural, hoje pouco difundido e caro. Outra iniciativa poderia ser a redução do risco de crédito dos produtores por mecanismos de incentivo à proteção de preços nos mercados futuros.

Cabe ao governo estar alerta para impedir que eventuais desarranjos no setor rural produzam efeitos perversos sobre o abastecimento, a inflação e as exportações. Como se viu no primeiro semestre, a baixa oferta de produtos básicos como feijão, arroz, trigo e milho, pode ter efeito devastador sobre os preços. O pior que pode acontecer é um repique inflacionário em 2009, provocado por redução da oferta de alimentos.

07/11/2008 - 11:19h Têxteis e calçadistas reduzem férias

Davilym Dourado / valor

Com estoques altos, Buettner concede férias coletivas a todos os funcionários, afirma o presidente da empresa, João Henrique Marchewsky

VALOR de São Paulo. Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis e Recife

http://www.assintecal.org.br/assintecal/images/conteudofoto/conteudo_14731_foto_1_calcadistas.jpgNos setores têxtil e calçadista, as férias de fim de ano foram mantidas e, alguns casos, até reduzidas. Um dos principais pólos calçadistas do Rio Grande do Sul, Sapiranga está registrando reduções nos períodos de férias coletivas devido ao mercado aquecido para as indústrias do setor, disse o diretor do sindicato dos trabalhadores local, Leandro dos Santos. A Paquetá, que opera nos mercados interno e externo e emprega 3 mil pessoas na cidade, decidiu substituir o período tradicional de 15 a 20 dias de férias pelo período entre o Natal e o Ano Novo que totaliza nove dias.

O quadro é semelhante na Daibi, com 600 funcionários. Focada no mercado externo, a empresa vai conceder 15 dias de férias, contra os 20 dias nos anos anteriores, mas o período exato não foi comunicado ao sindicato, disse Santos. A Beira-Rio já informou que vai parar do dia 22 de dezembro a 10 de janeiro, repetindo os 20 dias de férias concedidos no ano passado.

Em Parobé, também no Rio Grande do Sul, a Azaléia, com 5,3 mil funcionários, deve manter, “em princípio”, os 20 dias de férias tradicionais, comentou o presidente da entidade, João Pires. A maior preocupação na cidade é com os mais de 400 pequenos “ateliês”, que empregam 4 mil pessoas e produzem como terceirizadas para empresas exportadoras, diz. Conforme Pires, com a retração de consumo nos Estados Unidos, maior importador de calçados brasileiros, e com as alegadas perdas provocadas pelas operações de derivativos, as empresas contratantes estão reduzindo as encomendas e nos últimos meses pelo menos 100 pessoas perderam o emprego nos ateliês.

Em Santa Catarina, Malwee e Marisol, darão férias coletivas a todos os seus funcionários entre novembro e dezembro, informou o presidente do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Têxteis de Jaraguá do Sul, Gildo Antônio Alves. O período de 20 dias será o mais comum entre as empresas da região, que somam 450 indústrias. Com encomendas fortes, a Marisol será uma exceção. Neste ano, a empresa reduziu as férias coletivas de 20 para 13 dias.

Em Brusque (SC), a Buettner pretende dar 14 dias de férias coletivas, começando no dia 22 de dezembro. O presidente da empresa, João Henrique Marchewsky, observa que as férias em 2007 foram de dez dias e a empresa não ficou totalmente sem produzir no período. Dessa vez, a parada será de 100% dos funcionários. O período será maior por conta do aumento dos estoques e pelas perspectivas de um primeiro trimestre mais fraca de encomendas em 2009, em razão da crise econômica mundial. A empresa tem 1,4 mil empregados.

De acordo com o Sindicato dos trabalhadores das Indústrias Têxteis de Blumenau, que representa funcionários de 211 indústrias, ainda não foram comunicadas as férias coletivas de grandes empresas como Teka, Hering e Coteminas. Vivian Bertoldi, presidente do sindicato, acredita que as empresas concederão de 10 a 20 dias. A Teka informou que fará uma parada entre 22 de dezembro e 11 de janeiro. A expectativa é de férias de 10 dias na Hering e de 20 dias na Coteminas. Caso venha a conceder, será a primeira vez que a Coteminas, com uma fábrica em Blumenau, terá férias coletivas na cidade.

O Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Calçados e Vestuário de Crato e Juazeiro do Norte, no Ceará, não recebeu nenhum aviso de férias coletivas. No ano passado, nesta mesma época, algumas firmas já tinham comunicado que dariam férias. O Sindicato dos Metalúrgicos (Sindimetal) também informou não ter recebido avisos de férias coletivas.

A Baterias Moura, de Pernambuco, optou por iniciar as férias coletivas em outubro para cerca de 10% do quadro de funcionários. O sistema funcionará assim até dezembro, segundo Sérgio Moura, vice-presidente da companhia. Em outubro, as vendas para as fabricantes de automóveis caíram 5%, e as exportações, 20%. Por causa disso, o executivo estima que as vendas do último trimestre de 2008 serão 10% menores em relação ao mesmo período de 2007.

Para o próximo ano, entretanto, a expectativa de Moura é de melhora na demanda. “Ainda são sabemos muito bem quanto, mas trabalhamos com crescimento para 2009. Por isso optamos por não demitir os trabalhadores.” O vice-presidente prevê alta de 20% nas exportações de 2009 e de 5% na venda para montadoras. Para ele, o câmbio está mais favorável às vendas externas. “E creio que os bancos das montadoras vão financiar mais os carros.”

Mesmo no segmento de autopeças, o período de férias coletivas foi mantido em algumas praças. Em Caxias do Sul (RS), apenas algumas empresas de pequeno e médio porte da cadeia de produção de autopeças, com até 200 funcionários, encaminharam os programas de férias coletivas, informou o diretor do sindicato dos metalúrgicos local, Antônio Homem. Em geral as férias vão de 22 de dezembro a 4 de janeiro. “Normalmente esse é o período concedido pelas empresas da região”, afirmou.

O grupo Randon, um dos maiores do município, também concederá férias do dia 19 de dezembro a 4 de janeiro, mantendo uma “tradição histórica” da companhia, informou o diretor corporativo de relações com investidores, Astor Schmitt. No período 2007/08, a parada foi de 22 de dezembro a 6 de janeiro. Segundo o diretor do sindicato dos metalúrgicos, a base de atuação da entidade, que inclui Caxias do Sul e oito pequenos municípios vizinhos, reúne cerca de 40 mil trabalhadores do setor.

A situação se repete em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre, onde trabalham em torno de 11 mil metalúrgicos, disse o presidente do sindicato local, Nelson Luiz da Silva. A entidade ainda não recebeu nenhum comunicado formal das empresas, mas as informações disponíveis são de que elas vão conceder 20 dias de férias entre o Natal e o Ano Novo.

21/10/2008 - 07:52h Clareza e alguma ousadia

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Antonio Delfim Netto – VALOR

As condições básicas que devem guiar nossa política social e econômica são as seguintes: 1) daqui a uma geração, em 2030, seremos 240 milhões de habitantes, com 160 milhões entre 15 e 65 anos, aos quais teremos de garantir empregos decentes; e 2) nossa expectativa de vida ao nascer deverá ser muito parecida com 79/80 anos, o que aumentará o número de pessoas com idade maior do que 65 anos, às quais teremos de dar uma aposentadoria decente.

É por isso que não podemos matar, apenas por pânico do que ocorre na economia mundial, o “espírito de crescimento” que recuperamos recentemente. É meridianamente claro que tais objetivos não poderão ser atingidos com um crescimento médio do PIB menor do que 5% ao ano, perfeitamente possível quando se examina a nossa história e a quantidade e qualidade de nossos recursos naturais e humanos.

Entre os países emergentes, em particular os outros três Brics (Rússia, Índia e China), é verdade que temos crescido menos. Mas não é menos verdade que somos o único que acertou suas contas com o passado e vive num regime politicamente aberto. Não temos nenhum problema de fronteira com nossos vizinhos (e são dez!). Não temos nenhum encrave étnico, religioso ou lingüístico, enquanto cada um deles tem pelo menos meia dúzia de cada categoria. Desde 1988 temos uma Constituição que, com pequenas generosidades e maiores virtudes, está impondo o respeito às instituições e o pleno funcionamento dos três Poderes (Judiciário, Legislativo e Executivo). Ela garante um sistema democrático pluripartidário, com eleição regular do poder incumbente através do amplo, seguro e eficiente uso do sufrágio universal.

Em que outro daqueles países, por exemplo, o Supremo Tribunal Federal teria o poder de controlar a tentativa policialesca de construir o “Panopticon”, a máquina de controle universal dos cidadãos? São esses fatos que colocam à nossa disposição a possibilidade de crescer economicamente nos próximos 25 anos, tanto ou mais que qualquer um deles. Não podemos desperdiça-la.

O que pode nos impedir de fazê-lo? Toda a história econômica dos últimos cem anos mostra que só dois fatores podem abortar nosso crescimento: 1) uma crise de energia ou 2) uma crise de financiamento dos déficits em conta corrente. Mas ela mostra, também, que eles sempre resultaram do descuido dos governos e da miopia das políticas públicas, quando esquecem de vê-las uma geração à frente.

Pois bem. Com um primeiro “bônus” que colhemos da expansão mundial, estimulada por uma política monetária permissiva nos países desenvolvidos e o estímulo da exagerada desregulação financeira, nossa situação externa passou da penúria à de relativa folga (em 2002 estávamos “quebrados” e fomos ao FMI e hoje temos US$ 200 bilhões de reserva). Isso garante que, na ausência do “fim do mundo”, poderemos continuar nos próximos dois anos a importar livremente sem problemas de financiamento do déficit em conta corrente. A importação é um fator de produção imprescindível (exatamente como o trabalho e o capital) para a produção competitiva. Em outras palavras, nos próximos dois ou três anos o financiamento do déficit em conta corrente não abortará o crescimento.

E a energia? Tão pouco! Primeiro, porque o governo está mais cuidadoso. Estamos acelerando a solução do gás, construindo hidrelétricas, continuamos a insistir no etanol e no biodiesel e estamos atingindo a auto-suficiência na produção de petróleo. Segundo, porque outro “bônus” que recebemos da natureza (o pré-sal), deve garantir em quatro ou cinco anos, se usado com inteligência e competência, a nossa libertação simultânea (pelo menos por uma geração) dos dois fatores abortivos do crescimento.

No essencial, portanto, o Brasil está preparado para um crescimento médio da ordem de 5% (ou um pouco mais) pelos próximos 25 anos sem graves problemas sociais, políticos ou econômicos. É claro que há muita coisa a fazer e que podemos fazê-las erradas! É importante reconhecer o papel fundamental do Estado-indutor, mas é ainda mais importante impor-lhe eficiência. A relação custo/benefício dos serviços prestados pelo Estado brasileiro é, provavelmente, uma das mais altas do mundo e dificulta nosso crescimento. É preciso, portanto, melhorá-la.

O setor privado respondeu ao longo dos últimos 15 anos com substancial aumento da sua produtividade. Até agora, estimulado pelo alto nível de utilização do capital, ele está investindo fortemente. Qual será a sua resposta se incorporar uma expectativa pessimista com relação à demanda global e à oferta de crédito criadas pelo pânico externo? Consumidores e empresas tentarão aumentar sua liquidez, postergando o consumo e forçando a liquidação dos estoques. A contrapartida de uma redução da produção será, entretanto, um aumento do custo unitário dos salários por unidade de produto (pressão sobre os preços) e uma redução dos lucros que financiam os investimentos.

É preciso, portanto, que o Banco Central, que até aqui tem agido tempestiva e acertadamente para enfrentar os problemas de liquidez interna, introjete esses fatos na sua expectativa de inflação e modere seu apetite de elevação da taxa de juros. Por outro lado, deve aumentar sua vigilância para não permitir que nosso sistema bancário, apenas por “mania de grandeza imitativa”, reduza o crédito interno acima da precaução razoável.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

E-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

11/09/2008 - 10:18h O Brasil continua bombando

PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.



É possível cuidar da inflação e das contas externas sem paralisar o desenvolvimento econômico do país

O IBGE divulgou ontem o PIB do segundo trimestre. Mais uma vez, os resultados foram animadores. Com o passar do tempo, vai ficando mais claro que o Brasil está finalmente conseguindo deixar para trás o quadro de estagnação ou crescimento medíocre que marcou a maior parte das décadas de 1980 e 1990 e o início da atual.
No primeiro semestre, o PIB aumentou 6% em relação ao primeiro semestre de 2007. Desde o ano passado, vem ocorrendo uma aceleração gradual da economia. Todos os macrossetores estão crescendo de forma respeitável. A indústria cresceu 6,3% em relação ao primeiro semestre de 2007; a agropecuária, 5,2%; o setor de serviços, 5,3%. Brasileiro desconfia de boa notícia.
E com razão. Ficamos todos mais ou menos traumatizados pelos choques e frustrações que o país experimentou durante quase 25 anos.
Muitos podem estar se perguntando: será que estamos crescendo demais? A economia brasileira corre o risco de bater em algum teto?
A preocupação é pertinente. Se a expansão da demanda ultrapassa a capacidade produtiva, pode haver pressão inflacionária e/ou aumento exagerado das importações e desequilíbrio nas contas externas.
Os dados mostram, contudo, que o investimento produtivo vem apresentando desempenho excepcional.
A formação bruta de capital fixo está aumentando há oito trimestres consecutivos. No segundo trimestre deste ano, o investimento fixo foi nada menos que 16,2% mais alto do que em igual período de 2007.
Ora, a formação bruta de capital é o componente da demanda agregada que, deduzida a depreciação do estoque de capital existente, cria capacidade produtiva adicional na economia. O comportamento vigoroso do investimento talvez explique o fato de que não se tenha notado, no passado recente, uma elevação expressiva do grau de utilização da capacidade no setor industrial. As séries dessazonalizadas, baseadas em levantamentos da Fiesp e da CNI, indicam estabilização do nível de aproveitamento da capacidade industrial instalada. De outubro de 2007 a junho de 2008, o grau de utilização vem variando entre 83% e 84%. Segundo a FGV, o grau de utilização do potencial de produção da indústria chegou a 86,1% em julho, contra 85,2% em julho de 2007.
Em outras palavras, estima-se uma ociosidade média da ordem de 14% a 17% no setor industrial. Podem existir, é claro, pontos de estrangulamento em alguns subsetores, com efeitos sobre preços e/ou a balança comercial. Por outro lado é bem provável que os dados de capacidade instalada subestimem o potencial da indústria. Muitas firmas podem aumentar os níveis de produção de modo relativamente rápido por meio de investimentos de pequeno porte, aumento no número de turnos de trabalho e outras adaptações nos processos industriais.
Não se deve perder de vista, além disso, que também existe capacidade ociosa no mercado de trabalho.
As taxas de desemprego vêm caindo, mas ainda há muitos trabalhadores à procura de emprego ou subempregados em ocupações precárias. A taxa de desemprego aberto nas seis principais regiões metropolitanas ainda se situava em 8,1% em julho.
As taxas de desemprego total (desemprego aberto, desemprego por trabalho precário e desemprego por desalento) variavam entre 9,6% em Belo Horizonte e 21,6% em Recife.
Temos condições, portanto, de continuar crescendo. Não podemos descuidar da inflação e das contas externas. Mas parece possível equacionar esses problemas sem paralisar o desenvolvimento do país.


PAULO NOGUEIRA BATISTA JR., 53, escreve às quintas-feiras nesta coluna da FOLHA DE SÃO PAULO. Diretor-executivo no FMI, representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago). pnbjr@attglobal.net

PIB a 3,5% não é tragédia, afirma Belluzzo

Na opinião do economista, a crise global levará o Brasil a diminuir o ritmo e pode requerer um forte corte de juros

A exploração dos campos do pré-sal ajudará o Brasil a absorver melhor o impacto da desaceleração mundial, afirma conselheiro de Lula

Joel Silva – 13.jun.08/Folha Imagem
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O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, professor da Unicamp

DENYSE GODOY – Folha SP

DA REPORTAGEM LOCAL

O desempenho da economia brasileira no segundo trimestre foi animador, mas, agora, já se notam sinais de desaquecimento, diz o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, 65, professor da Unicamp e conselheiro informal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para ele, não se deve fazer drama com a diminuição do ritmo do país, pois os futuros avanços partirão de um nível de atividade elevado.

FOLHA – O PIB brasileiro cresceu 6,1% no segundo trimestre porque os juros ainda não começaram a fazer efeito. Como fica o cenário para o Brasil em 2009, considerando também a crise global?
LUIZ GONZAGA BELLUZZO – Minha impressão é que já há sinais de desaceleração. Acho que teremos, sim, uma taxa de crescimento mais baixa. Mas precisamos ter claro que uma queda de 6% para 4% ou 3,5% [ao ano] não é nenhuma tragédia. A partir de um nível já alto, vai ter um crescimento menor. E não há como evitar essa desaceleração, pelo menos nos próximos anos, enquanto durar a desaceleração global.

FOLHA – O senhor disse anos?
BELLUZZO – O Brasil terá que atravessar um período de ajustamento, no tempo que durar a recessão global. Mas, depois, tem a exploração do pré-sal, que começa a dar resultados.
Será necessário então cuidar do financiamento à exploração. A descoberta do pré-sal pode reduzir um pouco as trombadas do ajustamento brasileiro.

FOLHA – A economia dos EUA cresceu 3,3% no segundo trimestre. Isso significa que o alastramento dos problemas bancários pela economia ainda não se deu?
BELLUZZO – Na verdade, o setor externo deu uma contribuição importante para que o PIB americano não recuasse. Porque todos os componentes da demanda agregada caíram: o emprego caiu, a produção caiu, o desemprego aumentou. O efeito positivo do setor externo vai depender [daqui para a frente] da reação das outras economias à recessão dos EUA.
Os países que precisam do empuxo da economia americana estão começando a entrar em recessão, como a Europa e a Ásia. A China certamente vai se desacelerar, e não temos certeza -pois trata-se de um momento inédito- de qual será a sua reação. O seu peso não é suficiente para compensar uma desaceleração dos EUA e da Europa. Não digo que não possa, mas tenho minhas dúvidas.

FOLHA – Analistas afirmam que o Brasil não mostra estar sofrendo muito com a crise justamente porque a China segue crescendo bastante. Quais seriam as conseqüências para o país se ela diminuir consistentemente o ritmo?
BELLUZZO – A queda de preços das commodities que estamos vendo é resultado da desmontagem de posições no mercado futuro mas também das expectativas de demanda no mundo real. Temos que esperar para ver o que acontece. O BC brasileiro está em uma situação muito difícil, precisando tomar decisões complexas. Seria conveniente que tivesse mais tempo para pensar, mas isso não é possível.

FOLHA – O senhor acha que o BC errou ao diagnosticar que a inflação tinha um componente forte de demanda interna?
BELLUZZO – Esse é um juízo muito complicado, não dá para ter uma posição radical em relação a isso. Sempre que você toma posição radical, você corre o risco de errar. Como disse [Antônio] Delfim [Neto], se você não tem certeza do que está fazendo, faça devagar…

FOLHA – No aumento da Selic, o BC está indo bem rápido…
BELLUZZO – Ali atrás, o julgamento do BC era que havia um choque de commodities junto com a aceleração do crédito e da demanda interna, um processo que poderia levar à disseminação do choque de preços. Agora, estamos em um momento diferente, mudaram as perspectivas. Diria que é um azar o BC ter que decidir agora, ele pode se equivocar.

FOLHA – Continuar elevando os juros é um equívoco?
BELLUZZO – Corre-se o risco de se cometer um exagero.

FOLHA – É possível combinar controle da inflação com crescimento da economia?
BELLUZZO – Acho que o Brasil vem tendo um comportamento mais do que razoável. Desde 2004, o país está crescendo a taxas compatíveis com uma inflação baixa. Porém, dependendo da velocidade [da desaceleração global], a política econômica [do país] é outra.

FOLHA – Como seria, nesse caso?
BELLUZZO – Tem que desmontar rapidamente esse diferencial de juros, senão você vai aprofundar a sua recessão, como os alemães fizeram em 1930. Eles acharam que o choque de 1929 era transitório, mantiveram uma política de juros altos para atrair de volta os capitais e conseguiram na realidade agravar a sua deflação interna, o que levou a um desastre. Não digo que a nossa situação é a mesma; porém, se a desaceleração for muita e a aversão ao risco continuar e começar um movimento de capitais daqui para fora, podemos ter uma situação difícil a enfrentar.

04/09/2008 - 11:06h Emprego cresce 15% na construção e setor antecipa contratações

http://www.valoronline.com.br/images/edicoes/ed_0002086/imagens/arte04bra-emprego-a14.gif

(…) Em 2007, foram criadas 176 mil novas vagas – o dobro da média dos anos anteriores – e que representou 11% do total de empregos formais abertos no Brasil naquele ano. Em 2008, apenas até julho, já foram 232 mil novas vagas na construção civil, alta de 15% em relação ao estoque total de empregos formais existentes no setor em dezembro do ano passado. E o ritmo de 15% foi três vezes superior ao de geração de vagas em toda a economia brasileira, que ficou em 5,4% até julho.

Antes do aquecimento do setor, a disponibilidade de mão-de-obra possibilitava às empresas recrutarem seus funcionários um mês antes do início das construções. Hoje, já há companhias iniciando o processo de contratação de pessoal com seis meses de antecedência para assegurar a disponibilidade de mão-de-obra e para dar mais tempo para a capacitação. (…).

Quadro e fonte jornal Valor, artigo de Samantha Maia “Emprego cresce 15% na construção e setor antecipa contratações” (leia a integra no Valor)

10/07/2008 - 09:52h Eles agora consomem

Celso Ming – O Estado de São Paulo

A cúpula das duas cúpulas (G-8 + G-5) que terminou ontem no Japão mostrou, como se esperava, mais palavrório do que determinação no ataque aos grandes problemas globais.

Essa impotência ou, melhor expressado, essa falta de vontade política de fazer algo mais consistente talvez mostre que os problemas ainda precisem piorar para então começarem a melhorar.

Subjacente aos grandes temas há um fato inegável. Enquanto apenas os ricos consumiam, a poluição ambiental aumentava e os suprimentos eram desperdiçados, mas o processo não produzia escassez. As crises do capitalismo eram de superprodução. O problema era escoar as montanhas de estoques.

A partir do momento em que duas dezenas de países pobres passaram à condição de emergentes e iniciaram o processo de consumo com o objetivo de alcançar o padrão dos ricos, a escassez se acentuou. Passaram a faltar energia, matérias-primas e alimentos. E os preços dispararam.

Em conseqüência da falta de alimentos (e de outras matérias-primas), um grande número de países acionou seu arsenal de medidas defensivas, como a imposição de restrições a exportações ou o aumento das posições compradas nos mercados futuros. Isso, por sua vez, acentuou a escassez e a alta de preços. E, é claro, há os especuladores, que sempre puxam a corda mais esticada.

No caso da escassez de alimentos, os comunicados oficiais não evitam troca de acusações. Os países pobres, carregados de razão, argumentam que ela é, em grande parte, conseqüência da política protecionista dos países ricos, que há décadas despejam subsídios na produção de grãos e, assim, tiram competitividade da agricultura em países pobres.

Os países ricos, por sua vez, argumentam que o crescimento do consumo nos emergentes vem acontecendo rapidamente demais e que por isso precisa ser contido por meio de políticas macroeconômicas, como a valorização das moedas nacionais, o aumento dos juros e a adoção de critérios trabalhistas que, na prática, aumentam os custos de produção dos países emergentes.

Em apenas dez anos, cerca de 400 milhões de asiáticos, antes excluídos dos mercados de trabalho e de consumo, foram incorporados ao sistema global. No momento, seu objetivo é alcançar uma fração do padrão de consumo dos ricos, o que é suficiente para acentuar os desequilíbrios.

Um tanto dispersas e pouco sistematizadas, há pelo menos três posições que tentam a superação da escassez.

Há aqueles para os quais é preciso atacar os sintomas. Sugerem mais controles nos mercados futuros ou mais supervisão por parte de instituições estatais para coibir a especulação.

A segunda posição é a dos otimistas, que entendem que este é o jeito pelo qual a economia mundial avança, aos trancos, a partir da superação natural dos desequilíbrios. É a posição dos que desprezam a limitações dos recursos naturais e entendem que tudo se resolve com mais investimentos e mais produtividade.

E, em terceiro lugar, há aqueles para os quais não há saída senão mudar o padrão global de consumo. Se o povão espalhado pelas grotas do planeta passar a consumir, não haverá o que chegue e a vida, tal como conhecemos hoje, ficará impossível.

Talvez a saída seja uma mistura dessas duas últimas posições. Mas, decididamente, não é coisa para já.

06/05/2008 - 12:35h Expansão da indústria é a maior em 5 anos, diz CNI


Faturamento cresceu 7,6% no 1º trimestre em relação ao mesmo período de 2007

Uso da capacidade instalada tem pouca variação, o que indica, segundo a entidade, maturação do investimento realizado pelas empresas

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LUCIANA OTONI – Folha de São Paulo

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Favorecido pelo consumo aquecido e pela necessidade de repor estoques, o setor industrial registrou o maior ritmo de crescimento dos últimos cinco anos no primeiro trimestre de 2008 na comparação com o quarto trimestre do ano anterior, segundo pesquisa divulgada ontem pela CNI (Confederação Nacional da Indústria).

Na análise com o primeiro trimestre de 2007, os resultados de janeiro a março deste ano também são positivos, com os indicadores apresentando elevadas taxas de expansão.

Essa boa performance, porém, pode não se repetir no segundo trimestre. Segundo a CNI, a tendência é de leve acomodação da produção entre abril e junho. “A retomada de alta dos juros, o câmbio valorizado e a concorrência do produto nacional com o estrangeiro apontam para uma pequena redução do ritmo de expansão”, avaliou o gerente-executivo da CNI, Flávio Castelo Branco.

De acordo com a CNI, na comparação do primeiro trimestre com o quarto trimestre do ano passado, as indústrias registram aumento médio de 1,8% do faturamento, de 2,1% nas horas trabalhadas na produção e de 1,1% no pessoal empregado. Considerando essa base de comparação, foram as maiores variações desde 2003.

Em relação aos três primeiros meses de 2007, as variações dos indicadores no primeiro trimestre de 2008 são ainda mais expressivas. As altas foram de 7,6% para faturamento, de 6% para horas trabalhadas e de 4,9% para pessoal empregado na produção.

Os segmentos com os melhores desempenhos são montadoras de veículos, fábricas de máquinas e equipamentos, indústria de alimentos, de bebidas e metalúrgicas.

Num contexto de expansão, o setor registrou estabilidade no uso da capacidade instalada, com o indicador de 83,1% mantendo-se praticamente no mesmo nível nos últimos seis meses. Segundo a CNI, a ampliação da produção, combinada com estabilidade no uso do parque fabril, indica maturação de investimentos.

Para alguns analistas, a ampliação da capacidade de produção é um dado positivo que, porém, não deve demover o Banco Central do propósito de continuar a elevar os juros como forma de evitar a disparada de preços. “Não vai ser a estabilidade ou ligeira queda no nível de uso da capacidade instalada que fará o Banco Central ficar menos preocupado. Hoje, a maior preocupação da autoridade monetária são as surpresas inflacionárias”, comentou Zeina Latif, economista do Banco Real.


Comportamento

Na Tendências Consultoria, a avaliação é que outros indicadores, como o que o IBGE divulga nesta terça, irão auxiliar o BC na análise do comportamento da produção industrial. A economista Cláudia Oshiro disse que o resultado do primeiro trimestre indica que as indústrias poderão ampliar a atividade sem elevar a capacidade de produção.

No Ipea, o diretor de Estudos Macroeconômicos, Marcelo Nonnenberg, informou que o dinamismo levará o instituto a elevar a previsão de expansão do setor neste ano. Inicialmente, o Ipea estimou aumento de 4,8% para a indústria, percentual que deve passar para 5%. A despeito disso, ele avaliou que a atividade industrial deve desacelerar no segundo trimestre porque as comparações começarão a ser feitas com bases mais elevadas de 2007 e porque a subida dos juros deve exercer efeito sobre as expectativas de consumo e produção.

De forma isolada, as variações de março sinalizam amortecimento. Em relação a fevereiro, que foi um mês de resultado forte, o faturamento e as horas trabalhadas recuaram 0,5% e 0,3%, respectivamente.