04/11/2009 - 09:24h Claude Lévi-Strauss: Um século dedicado ao homem

Linha do tempo

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1908
Claude Lévi-Strauss nasce em Bruxelas, Bélgica, no dia 28 de novembro. Seus pais são Raymond Lévi-Strauss, pintor, e Emma Lévy. No ano seguinte, a família retorna a Paris

1914
Seu pai é convocado para lutar na 1.ª Guerra e a família muda-se para casa de parentes em Versalhes, subúrbio de Paris, voltando à capital apenas em 1918

1926
Estuda direito e filosofia em Paris, ao lado de Maurice Merleau-Ponty e Simone de Beauvoir

1935
Desembarca no Brasil e assume o cargo de professor de sociologia na USP. Sobre a São Paulo da época, disse ao “Estado”, no início dos anos 90: “Era um local de grande curiosidade, um pouco desordenada, dirigida para todos os sentidos.” No final do ano, realiza uma expedição a Mato Grosso e à Amazônia. Para o Le Monde, em 2005, declara: “A viagem ao Brasil foi a experiência mais importante da minha vida, seja pelo distanciamento e contraste, seja porque foi determinante na minha carreira. Tenho com este país uma dívida muito profunda”

1936
Depois de uma curta expedição ao Pantanal, volta à França, onde exibe material coletado no Brasil. Dois anos mais tarde, volta para nova expedição ao Mato Grosso. Em 1939, retorna à França

1940
É convocado pelo Exército francês. Oferece seus serviços como professor, em Montpellier, e deixa as Forças Armadas

1941
Resolve deixar a França e segue para os EUA. Durante uma parada do navio em Porto Rico é considerado suspeito pelas autoridades americanas. Só é liberado após visitar Jacques Soustelle, que estava na ilha a serviço do general Charles de Gaulle

1942
Já nos EUA, dá aulas de etnologia na Escola Livre de Estudos Superiores, em Nova York. Dois anos mais tarde, é chamado pelo Departamento das Relações
Culturais, retorna à França, onde passa a ocupar cargo de diretor da entidade.

1949
Publica seu primeiro livro, Estruturas Elementares do Parentesco, fruto de tese defendida um ano antes na Sorbonne

1950
Nomeado diretor da Escola Prática de Altos Estudos, faz
viagens à Índia e ao Paquistão, com apoio da Unesco.

1955
Publica Tristes Trópicos, em que narra as expedições pelo Brasil e o contato com os índios cadiuéus, bororos, nhambiquaras e tupi-cavaíbas. “Foi um livro escrito num momento complexo: fracasso na carreira e minha vida pessoal abalada pela separação de minha mulher. Vi-me, então, livre de tudo, sem estar preso a nenhuma amarra universitária e quis fazer um livro dissociado de consequências”, disse depois.

1958
É escolhido para ocupar a cadeira de antropologia social no tradicional Collège de France, em Paris.
Publica o livro Antropologia
Estrutural

1960
Cria o Laboratório de Antropologia Social no Collège de France, em Paris. No ano seguinte, funda a revista de antropologia L”Homme: Revue Française d”Anthropologie e publica as obras O Tomemismo Hoje e O Pensamento Selvagem

1964
Publica o primeiro volume das Mitológicas – O Cru e o Cozido. Os demais são Do Mel às Cinzas, de 1967, A Origem dos Modos à Mesa, de 1968, e O Homem Nu, publicado em 1971

1985
Volta ao Brasil por alguns dias, integrando uma comitiva do então presidente francês François Mitterrand. “Ainda que muito curta, essa viagem produziu em mim uma verdadeira revolução mental: o Brasil tinha se transformado completamente, totalmente. Havia se tornado um outro país. Aquela cidade, São Paulo, que eu havia conhecido no momento em que chegava a 1 milhão de habitantes, já tinha 10 milhões de pessoas. Os traços e vestígios da época colonial haviam desaparecido e São Paulo se transformara em uma cidade muito assustadora, com quilômetros de torres. A urbanização da cidade fez desaparecer a natureza. O rio Tietê, fundamental na conquista do interior do Brasil, estava moribundo. De tal forma que cabe perguntar: afinal, essa quebra dos liames entre o homem e a natureza é ou não é uma característica do nosso tempo?”, declarou em entrevista ao Le Monde, em 2005

1994
Lança Saudades do Brasil, coletânea de fotos feitas por ele no País nos anos 30. Dois anos depois, lança Saudades de São Paulo, livro de fotografias com o mesmo conceito

2005
Recebe o 17º Prêmio Catalunha, na Espanha

2008
Homenagens marcam, em todo o mundo, o centenário de seu
Nascimento

2009
Morre no dia 1.º de novembro, em Paris

Fonte O Estado SP

23/11/2008 - 16:15h RETRATO DE UM HOMEM INVISÍVEL

“Sem forças” e encerrado em seu apartamento em um bairro nobre de Paris, Lévi-Strauss não deverá participar das comemorações de seu centenário; amigos falam sobre a convivência com o antropólogo

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GABRIELA LONGMAN – FOLHA SP

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM PARIS

 

Mais importante intelectual vivo, Lévi-Strauss completa cem anos, no próximo dia 28, recolhido.

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Tido como o pai do estruturalismo e grande responsável pela afirmação da antropologia no campo das ciências humanas, ele assistiu -ou participou- às infinitas transformações políticas, sociais e comportamentais do século 20.

Depois de atravessar duas guerras mundiais, um Maio de 68 e todos os rebuliços que se seguiram, a Paris atual tem muito pouco em comum com aquela em que ele passou a infância e a juventude.

Grande área residencial da burguesia parisiense -comparável, talvez, ao bairro de Higienópolis, em São Paulo-, o 16º arrondissement foi desde sempre a casa de Lévi-Strauss.

É ali que mora, há mais de 50 anos, num quinto andar do número 2 da rua dos Marroniers. A poucas quadras, fica a rua Passy, endereço onde viveu por mais de 20 anos com os pais, num apartamento de onde se avistava ainda o campo e suas fazendas.

Hoje, os prédios de La Défense -principal centro financeiro da França, localizado no extremo oeste- transformaram a paisagem.

A arquitetura de arranha-céu que Lévi-Strauss vira em São Paulo nos anos 1930 e em Nova York nos anos 1940 ganharia um canto específico para se desenvolver, para que o restante de Paris mantivesse preservada a unidade estética dos prédios baixos, telhados com chaminés, terraços de ferro e os bulevares haussmanianos que deixam transparecer os séculos 18 e 19.

Se a arquitetura se manteve em certa medida uniforme, para a alegria dos turistas, a população mudou.

Milhões de chineses, marroquinos, brasileiros, senegaleses, malianos são agora tão parisienses quanto aquele professor de etnologia que trabalhava como subdiretor do Museu do Homem e visitava os mercados de pulgas em busca de peças exóticas para sua coleção.

O kebab é tão popular quanto o crepe. O pluriculturalismo -termo em grande medida lévi-straussiano- é a marca principal desta nova cidade e de seus subúrbios, com todos os problemas de imigração e discriminação que gravitam em torno desse novo quadro.

A Paris de Godard e Truffaut é substituída pela de Laurent Cantet, com “Entre Paredes”.

http://varenne.tc.columbia.edu/bib/illustrations/levi_strauss-pensee.jpg“Sem forças”

Mas esta cidade, mais lévi-straussiana do que nunca, tornou-se distante para Lévi-Strauss, que praticamente não sai mais de casa.

No dia 25, não irá ao colóquio que o Collège de France organiza com a presença de alguns de seus principais seguidores.

E, no 28, não estará presente à grande jornada de homenagens que o Museu do Quai Branly prepara para o centenário, com leituras de suas obras, projeção de documentários e fotos das expedições.

“É preciso dizer que ele está absolutamente sem forças”, adverte à Folha, por telefone, a secretária que gerencia sua correspondência.

As visitas de seus ex-alunos se tornam cada vez mais raras, assim como rareou-se seu hábito de escutar música clássica ao longo da tarde.

Mas são fatos recentes. Até o ano passado, Lévi-Strauss recebia amigos para jantar, lia publicações de sua área.

Com freqüência, atravessava ainda o rio rumo ao Quartier Latin, onde fazia visitas ao Laboratório de Antropologia Social (LAS), que ele fundou em 1960 após sua nomeação para a recém-criada cadeira de antropologia social do Collège de France, grande consagração de seu nome e seu trabalho.

Visitar hoje o laboratório no nº 52 da rua Cardinale Lemoine é mergulhar na atmosfera parisiense dos anos 1970, com o carpete vermelho manchado, um cheiro agridoce e o design editorial antiquado dos periódicos, expostos lado a lado numa pequena vitrina de vidro.

Com a Sorbonne, a Escola Normal Superior e o Collège de France ali próximos, o 5º arrondissement continua sendo por excelência o bairro dos estudantes -embora as jovens pró-Sarkozy não lembrem em muito as radicais feministas que passeavam pelas ruas no tumulto daquela época.

Dirigido atualmente por Pierre Descola, o centro de pesquisa tem cerca de 50 membros e uma das mais importantes bibliotecas da área de etnologia e etnografia.

Escaninho vazio

Entre os avisos no mural da entrada, uma folha sulfite anuncia um colóquio em homenagem a Lévi-Strauss na Rússia e escaninhos de madeira guardam a correspondência destinada a cada um dos membros. O de Lévi-Strauss está lá, sim, embora vazio.

A vice-diretora Brigitte Derlon lembra-se bem de vê-lo chegar até bem pouco tempo, caminhando com certa dificuldade, mas bem-disposto.

Quando criou o laboratório, o etnólogo francês contava com a companhia de um pesquisador romeno, Isac Chiva, a quem nomeou subdiretor.

Fugindo do stalinismo, o jovem judeu chegou a Paris, onde foi aluno de Lévi-Strauss na Escola Prática de Altos Estudos antes de tornar-se seu parceiro. Hoje, também recolhido em seu apartamento, tem dificuldade para rememorar antigos nomes, datas, histórias.

“Lévi-Strauss está bem, afinal tem cem anos. O problema sou eu, que tenho 82 e estou assim. É muito difícil lembrar. Não deveria ter aceitado te receber para esta entrevista, pois não tenho mais memória”, diz.

Cada frase é interrompida e seguida por longos silêncios e as perguntas ficam quase todas sem resposta.

Mas, ao ouvir falar em Lévi-Strauss, o colega caminha da sala até sua biblioteca e começa a mostrar as primeiras edições de “Antropologia Estrutural”, “As Estruturas Elementares do Parentesco” e “Tristes Trópicos” autografadas.

“Para Isac Chiva, pesquisador sutil e tenaz, em testemunho de minha estima e amizade”, diz uma das dedicatórias. Esses amigos de tanta convivência jantavam juntos há um ano, mas hoje muito raramente trocam um telefonema.

Resposta doce

De uma geração bem mais jovem de pesquisadores, Emmanuel Devaux foi procurá-lo em 1978. “Eu era um jovem tímido. Queria saber se era pertinente partir para um trabalho de campo na América do Norte, e não na Amazônia, como faziam todos os meus colegas do departamento”, contou à Folha.

Lévi-Strauss recebeu-o, muito cortês. “Vá sim, mas saiba que será deprimente”, foi a resposta. Em 2007, Devaux enviou-lhe um livro, em que questionava os conceitos estruturalistas. “Recebi uma resposta muito doce que dizia: “Leio seu livro ainda, embora muito lentamente. O que me deixa mais tempo para meditar sobre nossas concordâncias e discordâncias”.”

As atuais concordâncias e discordâncias de Lévi-Strauss em torno da imigração na França, da eleição de Obama, da crise financeira e de outras ordens do dia são um mistério. Faz alguns anos que parou por completo de dar entrevistas por “já não se considerar um homem deste tempo”.

E de que tempo ele é, então? Talvez daquele tempo mítico que ele próprio descreve em “A Via das Máscaras”.

Tempo em que a coleção de arte primitiva morava no Museu do Homem, e não no enorme Museu do Quai Branly, criado por Jean Nouvel.

Tempos de Barthes, Bachelard, Braudel. Hoje, todos eles viraram nomes de ruas parisienses, escritos em letras brancas sobre placas azuis.

Saussure é uma avenida movimentada perto da Porte de Clichy, bem ao norte. Foucault é uma alameda que termina no rio, colada ao Trocadéro.

Hoje, solto num tempo em que seus amigos, inimigos e seguidores diretos já desapareceram, Lévi-Strauss persiste como homem e como mito -ele que tanto analisou a interação simbólica entre vivos e mortos na sociedade dos bororos.

Disputando com Sartre o título de intelectual mais influente do século 20, ele é ainda um senhor de cem anos, recolhido no silêncio. Absolutamente vivo.

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