22/11/2009 - 10:47h Israel – Palestina: Solução de 2 Estados está em xeque

Sem acordo até 2011, palestinos pressionarão por Estado único

http://laionmonteiro.files.wordpress.com/2009/01/nena_palestina_tanque_israel.jpg

John V. Whitbeck – O Estado SP

O “processo de paz” do Oriente Médio, um processo aparentemente perpétuo, chegou ao momento da verdade. Foi o que o principal negociador palestino, Saeb Erekat, afirmou em entrevista no último dia 4.

As esperanças dos palestinos de que o governo Barack Obama continuasse insistindo com firmeza para que Israel parasse de expandir os assentamentos em território palestino frustraram-se. Houve um momento particularmente decepcionante, quando a secretária americana de Estado, Hillary Clinton, usou o termo “sem precedentes” ao elogiar a promessa mínima de Israel de reduzir seu programa de expansão dos assentamentos.

Reagindo rapidamente, o presidente palestino, Mahmoud Abbas, anunciou que não se candidataria à reeleição porque agora estava claro que os Estados Unidos não se oporiam a Israel. A capitulação de Washington sugere a possibilidade de que “a solução dos dois Estados deixou de ser uma opção, e agora talvez o povo palestino deva voltar suas atenções para a solução de um Estado único, em que muçulmanos, cristãos e judeus possam viver em condições iguais”, disse Erekat.

Sua declaração clamorosa poderá assinalar uma guinada na longa e frustrante busca da paz com algum grau de justiça entre Israel e a Palestina.

STATUS QUO

Durante os longos anos do chamado processo de paz, os prazos foram constantemente desrespeitados, como era previsível. Este fracasso foi facilitado pela realidade prática de que, para Israel, o “fracasso” não teve outra consequência senão a continuação do status quo, que para todos os governos israelenses tem sido não apenas tolerável, como preferível a qualquer alternativa realizável de um ponto de vista realista. Para Israel, o “fracasso” sempre constituiu um “sucesso”, permitindo que continuasse confiscando terra palestina, expandindo suas colônias na Cisjordânia, construindo desvios acessíveis unicamente aos judeus, e em geral tornando a ocupação cada vez mais permanente e irreversível.

No interesse de todos, esta situação terá de mudar. Para que haja alguma perspectiva de sucesso numa nova rodada de negociações, o fracasso deve ter consequências claras, convincentes e inapeláveis para os israelenses.

A liderança palestina, com ou sem Abbas, agora deveria anunciar que está disposta a retomar as negociações com Israel, mas somente com base num entendimento expresso e irrevogável: se não houver um acordo de paz definitivo com base na “solução de dois Estados”, e se este não for assinado até o final de 2010, o povo palestino não terá outra escolha senão buscar a justiça e a liberdade pela democracia – mediante plenos direitos de cidadania em um Estado único em todos os territórios que, antes de 1948, constituíam a Palestina, livre de toda discriminação de raça ou religião, com direitos iguais para todos os que viverem neste Estado, como ocorre numa verdadeira democracia.

A Liga Árabe deveria então declarar publicamente que a generosa Iniciativa de uma Paz Árabe, que desde março de 2002 oferece a Israel uma paz permanente e relações diplomáticas e econômicas normais em troca do cumprimento da lei internacional pelos israelenses, expirará e será retirada da mesa de negociações, caso um acordo de paz definitivo palestino-israelenses não seja assinado até o final de 2010.

Neste momento – e não antes – poderão começar negociações sérias e cruciais. Considerando a extensão do avanço dos assentamentos israelenses em terras palestinas, talvez já seja tarde demais para se chegar a uma solução de dois Estados satisfatória, mas uma solução satisfatória nesse sentido jamais terá maior chance de ser alcançada. Se de fato for tarde demais, israelenses, palestinos e o mundo poderão, então, concentrar suas mentes e esforços de modo construtivo na única alternativa satisfatória.

É até mesmo possível que, se obrigados a trabalhar no próximo ano na perspectiva de viver num Estado totalmente democrático, muitos israelenses consigam considerar esta “ameaça” menos terrível do que têm feito tradicionalmente.

A este propósito, talvez os israelenses devessem conversar com alguns sul-africanos brancos. A transformação da ideologia da supremacia racial e do sistema político da África do Sul num sistema plenamente democrático os transformou de marginalizados em pessoas bem-vindas em toda a região.

Além disso, garantiu a permanência de uma presença branca forte e vital na África do Sul de um modo que nunca seria possível com flagrante injustiça de uma ideologia e um sistema político com base na supremacia racial e com a imposição aos nativos de “Estados independentes” fragmentados e dependentes. Este não é um precedente a ser menosprezado, mas poderá e deverá servir de inspiração.

19/11/2009 - 11:47h Brasil se torna 4º maior credor dos EUA

Brasil se torna 4º maior credor dos EUA

Investimento brasileiro em títulos americanos alcançou em setembro US$ 145 bilhões, o seu maior nível em 12 meses

Aumento das reservas e busca por aplicações mais seguras incentivam compra; China, Japão e Reino Unido são maiores credores dos EUA

http://www.otempo.com.br/otempo/fotos/20090409/fotoavulsa_08042009200003.jpg

EDUARDO CUCOLO – FOLHA SP


DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O aumento no fluxo de dólares para o Brasil tem ajudado o país a reforçar a sua posição como um dos maiores credores do governo norte-americano.
De acordo com o Tesouro dos EUA, o investimento do governo brasileiro em títulos do país alcançou em setembro o maior nível em 12 meses. São US$ 145 bilhões que estão hoje financiando a dívida do país, o equivalente a quase dois terços das reservas internacionais. Esse valor coloca o Brasil como o quarto maior credor dos EUA, atrás apenas de China, Japão e Reino Unido.
No final do ano passado, o governo brasileiro havia reduzido a aplicação nesses títulos, que ficaram muito valorizados durante a fase mais aguda da crise, quando investidores buscaram proteção naquele que é considerado o investimento mais seguro do mundo.
Ao vender esses papéis, e embolsar algum lucro, o país migrou para outras aplicações, também consideradas seguras, mas que pagavam juros maiores. É o caso de papéis de organismos multilaterais, como o KfW (o BNDES alemão) e o BIS (o BC dos bancos centrais).
Apesar do aumento em termos absolutos, percentualmente, o país ainda está distante do recorde alcançado em junho de 2008. Na época, o Brasil aplicava 80% das suas reservas em títulos dos EUA. O governo buscava, naquele momento, tirar o dinheiro dos bancos internacionais, que já enfrentavam problemas de solvência.
Uma das explicações para esse aumento nas compras é o crescimento das reservas internacionais, que estão hoje no patamar recorde de US$ 235 bilhões. As reservas funcionam como uma garantia para o país em momentos de crise. Graças a esse dinheiro, o Brasil deixou de ser um devedor e é hoje credor em moeda estrangeira.
Além dos papéis dos EUA, o BC -que administra as reservas internacionais- mantém esse dinheiro aplicado em bancos estrangeiros e em ativos como o ouro. Há ainda os recursos que estão no FMI -hoje o país é credor do Fundo em mais de US$ 5 bilhões.
Ao contrário do Brasil, outros grandes credores mantiveram, e até aumentaram, essas aplicações em papéis dos EUA no momento mais agudo da crise. O Reino Unido, por exemplo, mais que dobrou sua participação nos últimos 12 meses. Ultrapassou a posição brasileira em março deste ano, quando o Brasil chegou a ficar atrás da Rússia também. O Japão também aumenta gradativamente suas aplicações.
A China, maior credor dos EUA, tem mantido o seu nível de investimento estável nos últimos meses. O país asiático possui hoje cerca de US$ 800 bilhões nos papéis, o que representa quase 25% da dívida americana em títulos nas mãos de países estrangeiros.

18/11/2009 - 17:04h Judeus israelenses apoiam negociações de paz com palestinos

Pesquisa da Universidade de Tel Aviv também aponta equilíbrio na opinião sobre as intenções de Netanyahu

Efe – Agência Estado

JERUSALÉM – Um total de 75% da população judaica israelense apoia o desenvolvimento de negociações de paz com a Autoridade Nacional Palestina (ANP), a percentagem mais alta em anos, revelou uma pesquisa da Universidade de Tel Aviv divulgada nesta quarta-feira, 18.

O levantamento mostra que, entre os que apoiam as negociações com os palestinos, 57% consideram a suspensão da construção de colônias judaicas como importante – algo que os palestinos estabelecem como condição para avançar nas conversas -, em comparação com 37% que opinaram o contrário.

Entre os que rejeitaram o diálogo, 93% disseram não acreditar que a construção de assentamentos judaicos no território ocupado palestino deva ser interrompida.

Este é o chamado “Índice de Guerra e Paz”, elaborado mensalmente pelo Programa Evans de Pesquisa da Resolução de Conflitos da Universidade de Tel Aviv após consultar mais de 500 israelenses. A margem de erro é de 4,5%.

Obama

A pesquisa também mostra uma queda no número de israelenses que considera o presidente dos EUA, Barack Obama, como pró-palestino, e um aumento no percentual daqueles que acham que a posição do americano é neutra ou inclusive pró-israelense.

Contra os 55% que consideravam que as políticas de Obama beneficiavam a parte palestina na edição da pesquisa feita em maio de 2009, apenas 40% dizem o mesmo no último levantamento, feito em novembro.

Os entrevistados se mostram igualmente divididos em relação às supostas intenções do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de retornar às negociações com os palestinos. Assim, 46% disseram crer que suas intenções são sinceras, enquanto 45% afirmam o contrário.

Obama diz que construção de assentamentos por Israel é perigosa

Reuters/Brasil Online – O Globo

WASHINGTON (Reuters) – O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, voltou a colocar pressão sobre Israel para que o país ponha fim a seus projetos de assentamentos nesta quarta-feira, afirmando que a sua construção leva a uma situação perigosa com os palestinos.

“Acho que a continuação da construção de assentamentos não contribui para a segurança de Israel. Acho que torna mais difícil eles fazerem a paz com seus vizinhos”, disse Obama à Fox News.

“Acho que isso desagrada os palestinos de uma maneira que pode acabar sendo bastante perigoso.”

(Reportagem de Jeff Mason)

16/11/2009 - 12:17h EUA e China adiam para 2010 a possibilidade de acordo climático

CoP-15: Posição assumida por Obama e Hu Jintao deve levar a prolongamento de negociações

http://img.timeinc.net/time/daily/2009/0904/obama_hu_0401.jpg

Edward Luce, Kevin Brown, Fiona Harvey e Joshua Chaffin, Financial Times – VALOR

O presidente dos EUA, Barack Obama, admitiu ontem que a cúpula de Copenhague, no mês que vem, não vai produzir um tratado com força de lei para combater o aquecimento global, mas manteve a porta aberta para uma negociação substantiva de um novo quadro sobre mudanças climáticas.

Ao dizer que “não devemos transformar o ‘perfeito’ em inimigo do ‘bom’ “, o presidente americano selou o crescente consenso internacional de que o melhor a ser esperado do encontro no mês que vem é um forte comprometimento político.

A posição de Obama, assumida durante o encontro do Fórum de Cooperação Econômica Ásia Pacífico (Apec, na sigla em inglês), foi apoiada por todos os 21 países presentes, inclusive a China.

Analistas dizem que isso reflete um entendimento entre americanos e chineses de que não há a possibilidade ainda de os dois maiores poluidores do planeta de entrar num acordo mais amplo sobre mudanças climáticas.

Autoridades americanas disseram que os membros da Apec, responsáveis por dois terços das emissões mundiais, chegaram a um consenso sobre a fórmula de “um acordo, dois passo”, elaborada pelo premiê dinamarquês, Lars Rasmussen. Por essa abordagem, Copenhague produziria um acordo em questões substantivas, incluindo cortes significativos nas emissões dos países desenvolvidos até 2020, além de medidas dos países em desenvolvimento para segurarem os crescimentos de emissões.

Os países podem assinar um acordo sem força de lei, mas de “comprometimento político”.

Advogados poderiam então produzir um tratado articulado pronto para ser assinado na conferência da ONU em Bonn, em junho, ou no próximo encontro sobre mudanças climáticas, no México, em dezembro de 2010.

Michael Froman, conselheiro-sênior de Obama, disse: “Essa abordagem de dois passos significa que houve uma avaliação dos líderes de que não seria realístico esperar um acordo internacional com força de lei a ser negociado entre agora e o início da cúpula de Copenhague, em 22 dias”.

Autoridades europeias disseram não terem ficado surpresas com os comentários de Obama, mas pediram aos governos que tentassem fazer progressos reais no mês que vem.

Entretanto mesmo chegar a acordos políticos será difícil.

Obama ainda encontra muita dificuldade em adotar dois dos principais objetivos de Copenhague: chegar a um comprometimento dos EUA de cortar suas emissões até 2020 e definir o financiamento por parte dos EUA e dos outros países ricos para ajudar os países pobres a cortar suas emissões. E os EUA não podem adotar esses compromissos até que a legislação de clima e energia que está sendo analisada no Senado seja votada.

16/11/2009 - 09:34h Novas ameaças às exportações brasileiras nos maiores mercados do mundo

Americanos e europeus estudam regulação mais dura com base em problemas climáticos, trabalhistas e de segurança

Raquel Landim – O Estado SP

Estão surgindo novas ameaças às exportações brasileiras nos maiores mercados do mundo, Estados Unidos e União Europeia. Três grupos de barreiras preocupam: ambientais, trabalhistas e de segurança. Deputados americanos e europeus debatem novas legislações sobre esses temas, que são foco da agenda comercial.

Estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) aponta que por ano 15,4% das exportações brasileiras para os EUA – o equivalente a US$ 5 bilhões – estão na mira da nova legislação americana de mudanças climáticas. A lei pode atingir as vendas brasileiras de aço, celulose, papel e alumínio.

O aquecimento global tornou o tema ambiental urgente. O presidente Barack Obama deu sinais de que está disposto a assumir compromissos na reunião de Copenhague. Preocupadas em ficar em desvantagem com outros países, as empresas americanas exigem compensações.

Existem dois projetos sobre o tema no Congresso americano. O mais provável é que sejam aprovadas medidas que obriguem os importadores a comprar licenças para emissão de carbono. “Isso joga o ônus da adaptação nos países em desenvolvimento”, disse o diretor de relações internacionais da Fiesp, Mário Marconini.

A União Europeia também estuda a adoção de uma “taxa de carbono” contra produtos importados, caso os países emergentes não se disponham a assumir compromissos equiparáveis aos ricos de redução de emissões em Copenhague.

Segundo a consultora da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Sandra Rios, essas tarifas distorcem a negociação climática, que reconhece que os países ricos e em desenvolvimento têm responsabilidades diferentes pelo aquecimento global. “O problema é que essas tarifas vão equiparar os esforços. As nações emergentes têm de manter seu crescimento.”

Nas discussões trabalhistas, os sindicatos ganharam força para defender regras rígidas em acordos comerciais, depois do desemprego causado pela crise e do apoio decisivo a Obama. A maior preocupação é com o trabalho escravo e infantil.

Tramita no Congresso dos EUA um projeto para reformar a lei de aduanas. Segundo o diretor executivo da Coalização das Indústrias Brasileiras, com sede em Washington, Diego Bonomo, pode entrar em vigor uma nova lista de produtos feitos com trabalho escravo e infantil, que ficariam impedidos de entrar no país. A lista inclui 13 itens brasileiros, como algodão, calçados e tabaco.

A segurança também ganhou relevância desde os ataques de 11 de setembro de 2001. O Congresso concedeu um mandato para o Executivo americano escanear 100% dos contêineres que chegam ao país. Existe um projeto-piloto, mas a administração federal argumenta que não há condições de colocar a lei em prática.

Barreira ambiental vai afetar mais os setores intensivos de energia

Estudo da Fiesp mostra que maiores prejuízos recairão na venda de ferro e aço, celulose, argila, papel e alumínio

Raquel Landim – O Estado SP


As exportações brasileiras dos setores intensivos em energia serão as mais afetadas pelas novas barreiras ambientais dos Estados Unidos. Os prejuízos podem ser maiores nas vendas de ferro e aço, celulose, argila, papel e alumínio, conforme estudo elaborado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

A Câmara dos Deputados dos Estados Unidos aprovou no mês de junho a Lei Waxman-Markey, que estabelece metas de redução de emissões para os Estados Unidos pela primeira vez. Segundo cálculos do Departamento Governamental de Contabilidade americano, os setores que terão mais gastos para se adaptar às novas regras serão metais primários, metais não-metálicos e químicos.

Ainda não foi definido pelo Congresso, mas crescem as chances de que, para compensar os fabricantes locais e evitar a fuga de empresas para países com padrões ambientais menos rígidos, os americanos estabeleçam medidas de fronteira, como exigir que os importadores comprem licenças de emissões de carbono.

No caso do Brasil, o setor siderúrgico deve ser o mais prejudicado, já que quase 27% das exportações de ferro e aço são destinadas ao mercado americano, o que significou US$ 3,4 bilhões em 2008.

“A Conferência de Copenhague é essencialmente econômica. Não podemos ter a ingenuidade de chegar a essa discussão como se fosse apenas ambiental”, argumenta o presidente executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes.

“Se a indústria siderúrgica americana vai fazer investimentos, é legítimo que queiram compensações. O problema é que, depois da crise, o mercado está sobre ofertado. As questões ambientais podem ser um pretexto para o protecionismo”, observa. Ele afirma que existe um excedente de aço de 600 milhões de toneladas no mundo.

A indústria siderúrgica brasileira defende que as metas de redução de emissões sejam diferentes para países com consumo per capita inferior e superior a 300 quilos de aço por habitante por ano. Na avaliação do setor, o consumo de aço é um indicador de crescimento econômico e as metas ambientais não podem brecar o desenvolvimento. O Brasil consome 100 quilos por habitante/ano, enquanto a China chega a 340.

Para o presidente da Associação Brasileira do Alumínio (Abal), Adjarma Azevedo, “as barreiras ambientais são inevitáveis”. O executivo afirma que o Brasil tem de se empenhar para influenciar na implementação dessas leis. Ele diz que, dependendo dos critérios, pode ser um benefício para o Brasil, cuja matriz energética é 47% de energia renovável.

Azevedo acredita que as medidas de fronteira dos Estados Unidos vão acabar levando em consideração o conteúdo de emissão de carbono de cada país. Segundo ele, a indústria brasileira de alumínio contribui com 0,2% das emissões do País, que, por sua vez, representa apenas 4% das emissões globais.

Já a fabricação mundial de alumínio equivale a 1% das emissões do planeta.

QUÍMICO

A maior preocupação do setor químico hoje não está nos Estados Unidos, mas na Europa. A União Europeia implementou no ano passado um novo registro para as substâncias químicas que entram no bloco, conhecido pela sigla Reach. O objetivo é garantir a qualidade dos produtos químicos para não afetar a saúde da população e o meio ambiente.

Por enquanto, a regulamentação ainda não está sendo rigidamente implementada. “Mas pode ser utilizado como uma barreira se os europeus quiserem, porque impõe uma série de dificuldades para as empresas”, explica o diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Nelson Pereira dos Reis.

OUTRO LADO DA MOEDA

Para alguns setores, novas barreiras comerciais podem se transformar em oportunidades. O presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Aguinaldo Diniz Filho, disse que é “absolutamente favorável” a cláusulas sociais no comércio internacional. “É uma evolução natural da globalização.”

Para o setor têxtil brasileiro, que já opera com uma legislação trabalhista forte, novas regras são vantajosas, porque prejudicariam seu principal concorrente, a China.

Os novos temas do comércio internacional, como meio ambiente e trabalho, são causas defensáveis e não chegam a ir diretamente contra a Organização Mundial de Comércio (OMC), que prevê que os países abram exceções para proteger os recursos naturais ou para fins sociais.

A questão, alertam os especialistas, é que esses temas podem ser utilizados como barreiras protecionistas.

http://blogdofavre.ig.com.br/wp-content/uploads/2008/05/biocombustivel2.jpg

Discussão sobre o etanol ganha novas proporções

Raquel Landim – O Estado SP

Símbolo do sucesso brasileiro em energia renovável, o etanol também pode ser alvo de barreiras ambientais. O setor enfrenta um momento crítico nos próximos meses, que é a regulamentação dos combustíveis de baixo carbono.

“É a nossa maior preocupação”, disse o presidente da União da Indústria Canavieira de São Paulo (Unica), Marcos Jank. O assunto está sendo debatido nos Estados Unidos e na União Europeia. Nos Estados Unidos, a discussão não é apenas federal, mas também estadual.

Não existem dúvidas de que o etanol polui menos que a gasolina. Também está claro que o etanol brasileiro, produzido com cana-de-açúcar, é menos poluente que produto americano, feito a partir do milho. A questão é qual é o tamanho da vantagem.

Segundo Jank, as discussões nos Estados Unidos e na União Europeia consideram o uso indireto da terra. Ou seja, o efeito que a expansão da produção de cana tem no desmatamento da Amazônia. A área de cana cresce no Centro-Sul, mas, teoricamente, empurra outras culturas em direção à floresta.

“São cálculos muito difíceis de fazer. E estão sendo utilizadas premissas erradas, porque há desconhecimento do álcool de cana”, disse o presidente da Unica. Jank ressalta que apenas 1% da expansão da cana-de-açúcar ocorre por meio de desmatamento, enquanto 60% é feito em áreas de pastagens.

Para as usinas, a discussão sobre o padrão do combustível se tornou mais importante que a queda da tarifa cobrada pelos Estados Unidos para a importação de etanol, de US$ 0,54 por galão, que vence em 2010.

Segundo Jank, a indústria vai fazer um forte lobby para o Congresso Nacional não renovar a tarifa. “Mas se garantirmos uma boa qualificação para o etanol brasileiro como combustível avançado ganharemos aliados nessa briga.”

14/11/2009 - 18:45h Sobre Ruins of the Gilded Age

Arte Photographica

Sem título, da série Ruins of the Gilded Age, 2008, Bakersfield
© Edgar Martins

Depois de ter recebido o Prémio BES Photo, em Abril, Edgar Martins publicou um portfólio sobre a crise no sector imobiliário nos EUA encomendado pela New York Times Magazine. A publicação dessas imagens, na edição impressa e no site do jornal, em Julho, ficou marcada pela polémica, depois de um leitor ter apontado manipulação digital em muitas delas. O Times retirou as imagens do site e, pouco depois, o artista divulgou um texto a explicar a sua abordagem estética ao trabalho. O caso intensificou a velha discussão acerca dos limites da manipulação fotográfica no jornalismo e sobre os desencontros entre um artista conceptual e uma publicação jornalística. O filósofo Peter D. Osborne, professor do London College of Communication, com obra publicada em fotografia e cultura visual, escreveu um ensaio sobre Ruins of The Gilded Age (que pode ser visto na Galeria Graça Brandão, em Lisboa, até 5 de Dezembro).

Eis a versão curta desse texto:

Isto não é uma casa
Algumas reflexões a propósito de Ruins of Gilded Age, de Edgar Martins

1. A palavra grega Oikonomos (economia) deriva parcialmente de Oikos, que significa “casa”. Mesmo no grego contemporâneo, que usa spiti para “casa”, existem termos associados, como oika, katoika, oikiakos, entre outros.

2. As ruínas recordam-nos da materialidade muda do mundo, as coisas que em nada se importam dos nossos projectos fúteis, que em nenhum aspecto reconhecem a ordem que as nossas arquitecturas tentam impor no mundo. Todavia, na sua esmagadora maioria, as ruínas são um dos cenários feitos da história, e a partir deles muitos significados e representações foram edificados. Pense-se na fotografia de ruínas americanas: os edifícios queimados em Atlanta em 1864, os panoramas de Arnold Genthe de São Francisco depois do terramoto na viragem do século XX, os barracões abandonados dos agricultores foreiros nas fotografias do projecto da Farm Secutiry Administration, as mansões desertas e decrépitas das plantações do Mississípi fotografadas por Clarence John Laughlin nos anos 1940, as fotografias de imprensa dos blocos de apartamentos incendiados de Newark e noutros lugares onde os negros norte-americanos se sublevaram na década de 60, cidades-fantasma e motéis destituídos e invadidos pelas ervas daninhas, os projectos de Lewis Baltz sobre desertos de ar provisório, a casa de sonhos de Joel Sternfeld destruída pelo deslizamento de terras, e, claro está, o “Ground Zero” de Nova Iorque. Os desastres norte-americanos tendem a tornar-se icónicos. São necessários para alimentar a epopeia perene que são os Estados Unidos – ou deveríamos antes dizer “foram”? –, uma epopeia de desastres superados, certamente, mas ao mesmo tempo uma epopeia assombrada pelo sentimento da sua própria precariedade, a sua própria brevidade, a sua própria incerteza face ao local a que pertence, se é que pertence. Neste sentido, a loja da Best em Houston projectada por James Wines, construída como se já tivesse sofrido graves tremores de terra, pode ser entendida ora como um desafio face ao fatal destino ora como uma defesa contra ele. A América é uma nação de colonos. A casa, o abrigo, tem uma ressonância muito especial aqui. Qualquer desastre que implique o abrigo, a colónia, torna-se rapidamente uma metáfora de todo um processo histórico.
É este o contexto no qual surge a série de Edgar Martins, Ruins of the Gilded Age, as ruínas da economia caseira.

Sem título, da série Ruins of the Gilded Age, 2008, Phoenix
© Edgar Martins

3. Supor que a elegância, a abstracção, e a cuidada tradução dos valores formais e a manipulação necessária existentes em muito do trabalho de Edgar Martins são de alguma forma qualidades inconvenientes para aplicar aos temas do seu trabalho actual seria um erro. É verdade que a crise social e que a infelicidade humana implícitas em muitas destas imagens são reais o suficiente, e impõem a qualquer fotógrafo um qualquer grau de responsabilidade ética. Porém, Martins nunca foi um fotógrafo humanista nem tampouco um documentalista social. No entanto, é precisamente a ausência da figura humana que, nesta série, acentua uma paisagem profundamente humana, o humano como um princípio que se tivesse ausentado, e que deixa um silêncio visual. É na transmutação de espaços habitados em estruturas quase abstractas que as abstracções mais amplas dos mercados financeiros se revelam, e tornados reais e presentes nas desconstruções que eles mesmos desencadearam. O abandono da figura humana destes espaços é mais do que uma opção estética. Considerando-as nos termos do que Jacques Rancière apelida “a linguagem silenciosa das coisas”(1), estas imagens retratam mais do que uma realidade imediata. Elas representam uma condição que é social e empírica mas também metafísica, e que exige uma estética que jamais se poderá fundamentar somente na observação imediata, e escolhe assim abster-se da melancolia distópica comum em muita da arte de espaços vazios. Citando Rancière mais uma vez: “o real tem de ser ficcionalizado para que possa ser pensado” (2). A palavra ficção tem conotações de um movimento falso empregue para a produção de efeitos reais (uma finta) e, ao mesmo tempo, a de uma coisa feita (as palavras “facto” e “fábrica” partilham a mesma raiz), algo real apesar de manufacturado. Martins tenta, nesta série, fazer evoluir uma “forma de visibilidade”, na qual a grandeza das imagens e das imagens que as acompanham – as de construções num equilíbrio precário, construídas pelo fotógrafo a partir dos detritos deixados no interior de edifícios vazios – fazem com que traga para primeiro plano a “qualidade de factura” do seu trabalho, a sua fictividade, e, nesse sentido, o fabrico das suas intervenções. Mas faz mais do que isso. Como se afirmou acima, estes espaços desabitados ou incompletos começam por aparecer como formas puras, sem qualquer conteúdo, tal como as abstracções económicas que as levaram a este estado. A ficção que é a factura revela a ficção que é o movimento falso, a finta, de Wall Street. Apercebemo-nos deste modo que a economia sobre a qual estas casas e interiores se construíram é tão ilusória quanto os interiores de uma fotografia de Thomas Demand. Ruins of a Gilded Age não produz uma verdade mas antes um processo de uma verdadeira “recomplicação da realidade” (3), baseada na prova da sua própria beleza, na documentação da sua própria estética.

4. Ficámos a saber que aqueles que haviam encomendado este trabalho se sentiram incomodados com a manipulação digital circunscrita que o fotógrafo aplicou sobre algumas das imagens. Bom, é verdade que o trabalho interfere sobre o real, mas um real que já havia sofrido uma interferência substancial. E eu concordaria com o filósofo Peter Osborne quando este diz suspeitar que muito do pânico sobre a perda do real implicada pelas imagens digitais não é mais do que a expressão de uma angústia mais fundamental e deslocada sobre a perda do capitalismo da sua “economia real”.

1. Jacques Rancière, (2006) The Aesthetics of Politics [v. orig. Le Partage du sensible: Esthetique et politique, 2000], London/NY: Continuum; pg. 36.
2. Rancière, op. cit.; pg. 38.
3. Uma frase empregue por Don Delillo para descrever a função do romance.

A versão completa deste ensaio pode ser lida (em inglês) na página de Edgar Martins aqui

Sem título, da série Ruins of the Gilded Age, 2008, Atlanta
© Edgar Martins

14/11/2009 - 10:38h Livre para perder

Krugman_paulPaul Krugman* – O Estado SP

Considerem, por um momento, uma história de dois países. Ambos sofreram severa recessão e perderam empregos – não na mesma escala. No país A, o emprego caiu mais de 5% e a taxa de desemprego mais que dobrou. No país B, o emprego caiu apenas 0,5% e o desemprego é apenas ligeiramente mais alto que antes da crise.

Vocês não acham que o país A poderia ter algo a aprender com o B? Essa história não é hipotética. O país A são os Estados Unidos, onde os preços das ações estão em alta, o PIB está crescendo, mas a situação terrível do desemprego continua se agravando. O país B é a Alemanha, que sofreu um grande golpe no PIB, quando o comércio mundial desmoronou, mas tem sido extremamente bem-sucedido em evitar perdas de emprego em massa.

O milagre dos empregos na Alemanha não recebeu muita atenção nos EUA, mas ele é real e suscita questões sérias sobre se o governo americano está fazendo as coisas certas para combater o desemprego.

Nos EUA, a filosofia por trás da política de emprego pode ser resumida em “se crescermos, eles virão”. Isto é, nós não temos uma efetiva política de emprego, temos uma política de PIB. A teoria é que, ao estimular o consumo em geral, podemos fazer o PIB crescer mais depressa, e isso induzirá as companhias a deixar de demitir e retomar as contratações.

A alternativa seriam políticas que enfrentem a questão do emprego. Poderíamos, por exemplo, ter programas de frentes de trabalho, no estilo do New Deal, do governo do presidente Roosevelt, na época da Depressão. Uma coisa dessas talvez seja impossível agora, mas deveríamos anotar, para registro, que em seu auge esses programas empregaram milhões de americanos a custo relativamente baixo para o orçamento.

Alternativamente, ou além disso, poderíamos ter políticas que apoiem o emprego no setor privado. Essas políticas poderia variar de regras trabalhistas que desestimulem demissões a incentivos financeiros a companhias que contratem trabalhadores ou reduzam as horas trabalhadas.

E foi isso que os alemães fizeram. A Alemanha entrou na Grande Recessão com uma forte legislação de proteção ao emprego. Essa foi suplementada por um “esquema de trabalho de curto prazo” que fornece subsídios a empregadores que reduzem as jornadas dos trabalhadores em vez de dispensá-los. Essas medidas não impediram uma perversa recessão, mas a Alemanha atravessou a recessão com perdas de empregos notavelmente baixas.

Os EUA deveriam fazer algo nessa linha? Numa entrevista recente, Lawrence Summers, o economista de maior peso no governo Obama, desdenhou: “Pode ser desejável ter uma dada quantidade de trabalho dividida entre mais pessoas. Mas isso não é tão desejável quanto expandir a quantidade total de trabalho”. É fato. Mas a verdade é que nós não estamos expandindo a quantidade total de trabalho – e o Congresso não parece estar disposto a gastar o suficiente em estímulo para mudar esse fato lamentável.

A objeção usual a políticas de emprego ao estilo europeu é que elas são ruins para o crescimento no longo prazo – que proteger empregos e encorajar a partilha do trabalho torna as companhias de setores em expansão menos propensas a contratar e reduz os incentivos para trabalhadores se transferirem para ocupações mais produtivas. E, em tempos normais, há algo a se defender nos mercados de trabalho “livres para perder” no estilo americano, em que os empregadores podem demitir à vontade mas também enfrentam poucas barreiras para contratar.

Mas estes não são tempos normais. Neste momento, os trabalhadores que perdem empregos não estão se transferindo para os empregos do futuro; estão entrando nas filas dos desempregados e ficando nelas. O desemprego prolongado já está nos níveis mais altos desde os anos 1930, e continua crescendo.

E o desemprego prolongado inflige danos prolongados. Os trabalhadores que estão fora de um emprego por muito tempo encontram dificuldade para voltar ao mercado de trabalho mesmo quando as condições melhoram. E existem custos ocultos também – não menos para as crianças, que sofrem física e emocionalmente quando seus pais passam meses ou anos desempregados.

Então, já é hora de tentar algo diferente.

* Paul Krugman é Prêmio Nobel de Economia

13/11/2009 - 14:15h EUA decaem, mas China ainda não é páreo

Nova ordem: Analistas creem na emergência de um mundo multipolar, mas não na débâcle total americana

http://www.galizacig.com/avantar/files/images/20080723_sonho-americano.JPG

John Plender, Financial Times – VALOR

Com o presidente Barack Obama iniciando uma viagem por capitais asiáticas, a suposição corrente no Ocidente é de que ele vai se encontrar com líderes de países tidos como parceiros inferiores aos EUA. Mas, a realidade é mais complexa. Em meio aos escombros da crise financeira, a posição dos EUA de superpotência e líder da economia mundial parece cada vez mais ameaçada.

Em especial, quando ele chegar a Pequim, no domingo, nada conseguirá disfarçar o fato de que Obama estará fazendo uma visita ao maior credor de seu país.

Aqueles que ficam satisfeitos com o desconforto dos EUA observam que esse colosso econômico global carrega o maior endividamento internacional do mundo e vem sendo abalado por uma moeda em desvalorização. É consenso geral que a China é a principal beneficiária de uma débâcle financeira e uma séria desafiante à hegemonia dos EUA.

Como o poder econômico frequentemente anda de mãos dadas com o poderio militar, essa mudança no poder econômico, juntamente com a fraqueza recente do dólar, vem sendo proclamada como um prenúncio do declínio americano. Esse clima é descrito de maneira primorosa por Fareed Zakaria em seu mais recente livro de sucesso, “The Post-American World And The Rise Of The Rest” (”O Mundo Pós-Americano”, Companhia das Letras). Assim veio a referência de Obama, em seu discurso de posse, de “um enfraquecimento da confiança em nosso país; um temor incômodo de que o declínio da América é inevitável, de que a próxima geração terá que reduzir suas esperanças”.

Paul Volcker, ex-presidente do Federal Reserve (Fed) e conselheiro do presidente, declarou em uma entrevista recente à PBS, a rede de televisão pública dos EUA, que a ascensão dos mercados emergentes é “simbólica da menor posição dominante relativa dos EUA, não só na economia, mas também na liderança intelectual e de outras formas”.

Os bancos centrais dos países em desenvolvimento estão esfregando sal nas feridas do gigante enfermo. O Reserve Bank da Índia juntou-se, na semana passada, aos bancos centrais de China, Rússia, México e Filipinas na decisão de aumentar suas reservas em ouro, em detrimento dos títulos denominados em dólar. Um verdadeiro coro de formuladores de políticas de países que estão com superávit em conta corrente declarou que a posição do dólar como moeda de reserva é insustentável.

A essa altura, é importante lembrar que já estivemos aí antes. No fim da década de 80, Paul Kennedy, da Yale University, chocou o mundo com sua afirmação, em “The Rise And Fall Of The Great Powers” (”Ascensão e Queda das Grandes Potências”, Ed. Campus), de que “a única resposta à questão cada vez mais discutida da capacidade dos EUA de preservar ou não sua atual posição é ‘não’”.

Esse veredito pessimista surgiu na época do crash do mercado de ações, em 1987, quando houve uma preocupação contínua com os déficits gêmeos dos EUA e os déficits em conta corrente. O país havia se tornado um devedor internacional pela primeira vez e dependia crescentemente da entrada de capital europeu e japonês. Um Japão extremamente confiante estava em ascensão. O sentimento de decadência chegou perto da histeria nos EUA quando empresas japonesas compraram o Rockefeller Center, em Nova York, a Columbia Pictures, em Hollywood, e o campo de golfe de Pebble Beach, na Califórnia. “Quem é o dono da América?”, exigiu saber a ABC News.

De certa forma, a tese do professor Kennedy estava certa. Com a China, a Índia e os outros mercados emergentes alcançando o mundo desenvolvido, os EUA deverão sofrer um declínio econômico relativo, na forma de uma parcela menor do PIB mundial, mesmo com o país crescendo mais do que a maioria das grandes economias desenvolvidas e ainda sendo a maior economia do mundo em termos absolutos.

A globalização e a liberalização doméstica estão dando a esses países em desenvolvimento a chance de obter uma participação no PIB mundial proporcional ao seu tamanho na história. O desempenho econômico da China antes de 1978 era, afinal de contas, uma aberração vista a partir de uma perspectiva de séculos.

Em um estudo sobre as maiores economias, Angus Maddison, da Universidade de Groningen, calcula que a a participação da China no PIB mundial em 1820, antes de a Revolução Industrial na Europa ganhar força, era de mais de 30%, o que é bem mais do que a participação atual dos EUA. Assim, um retorno a algo mais normal pode estar a caminho.

Mas a tese de Kennedy parecia errada ao sugerir que os EUA talvez tivessem ampliado demais o seu império, ao ponto de não conseguirem mais administrá-lo, como aconteceu com a Espanha no século XVII e o Reino Unido no século XX. O caso mais óbvio de incapacidade de administração da década de 80 foi na verdade a União Soviética, que entrou em colapso, enquanto os EUA foram bem-sucedidos logo depois no restabelecimento de seu equilíbrio orçamentário, durante o governo Clinton, sem um recuo integral em seus compromissos internacionais.

Enquanto isso, o desafio econômico japonês perdeu o passo com o estouro das bolhas imobiliária e acionária, e o país se viu ameaçado pela deflação. O pânico da mídia americana com a invasão japonesa se mostrou um indicador perfeito, ainda que involuntário, de um ponto de virada.

A questão agora é se a tese da incapacidade de administração do império estava errada ou era simplesmente prematura. Mesmo assim, prever os períodos de ascensão e queda de nações e economias é uma coisa notoriamente difícil. Charles Kindleberger, o falecido historiador econômico, foi um dos muitos que acreditavam que a vitalidade nacional se movimentava em um ciclo de vida. Entre as causas internas do declínio identificadas por ele, estavam o aumento do consumo, a queda da poupança, a resistência à tributação, a desigualdade, a corrupção, grandes endividamentos e as finanças se tornarem mais dominantes na economia do que a indústria.

Mesmo que isso bata com as atuais circunstâncias, é preciso observar que muitas dessas coisas também estavam presentes nos EUA em 1929, quando a crise financeira coincidiu com a longa transição da hegemonia econômica do Reino Unido para os EUA. Quando Kindleberger escreveu “World Economic Primacy 1500-1990″, em 1996, ele acreditava que os EUA estavam decaindo. Mas ele não tinha ideia de qual país provavelmente surgiria como a próxima potência econômica mundial, e tinha a China apenas como “azarão” para o posto.

O argumento mais poderoso de apoio à hipótese da decadência envolve o que o professor Kennedy chamava de “tarefa antiga de relacionar as intenções nacionais às finalidades nacionais”. Como há uma correlação significativa de longo prazo entre a capacidade produtiva e a capacidade de aumentar as receitas, e o poderio militar, muita coisa depende da sustentabilidade da política fiscal. Aqui, os prognósticos não são bons para os EUA.

Sob as pressões gêmeas da crise financeira e do problema de longo prazo do envelhecimento dos “baby boomers”, as projeções oficiais apontam para déficits orçamentários numa escala sem precedentes. O Peterson Institute for International Economics, de Washington, estima que, depois de chegar perto de US$ 1,5 trilhão no ano fiscal corrente – mais de três vezes o recorde anterior -, o déficit provavelmente ficará perto de US$ 1 trilhão ao ano até 2020 ou além.

Da perspectiva do fluxo de recursos que entra na economia, a contrapartida desses déficits será em grande parte encontrada na conta corrente do balanço de pagamentos. Aqui, o instituto calcula que o déficit em conta corrente poderá subir de um recorde anterior de 6% do PIB para surpreendentes 15% ou mais até 2030, o equivalente a mais de US$ 5 trilhões por ano. Ele avalia que a dívida externa subirá dos atuais US$ 3,5 trilhões para até US$ 50 trilhões, ou 140% do PIB, no mesmo período.

Esses números representam um desafio assustador para o governo Obama e uma ameaça evidente ao dólar, uma vez que há um volume muito grande de reservas em dólares em mãos estrangeiras. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que, do fim de 2000 até metade de 2009, as reservas internacionais subiram de US$ 1,9 trilhão para US$ 6,8 trilhões, dos quais US$ 2,3 trilhões estão sendo mantidos pela China. Mais de 60% dessas reservas estão em dólares.

A retórica chinesa recente, que inclui um pedido para a substituição do dólar como principal moeda de reserva do mundo por direitos especiais de saque (uma unidade contábil usada pelo FMI no trato com seus membros), sugere uma perda preocupante de confiança nas políticas monetária e fiscal dos EUA. Ao mesmo tempo, Fred Bergsten, diretor do Peterson Institute, afirma que agora é interesse dos EUA reduzir o papel do dólar e encorajar um fluxo maior de reservas para o euro, o yuan e os direitos especiais de saque (SDR, na sigla em inglês).

Mesmo assim, a ameaça ao dólar pode estar sendo exagerada. A China está sacudindo as barras da gaiola que ela mesma fez, uma vez que as reservas são uma consequência da intervenção colossal para impedir a valorização de sua moeda. Na verdade, ela está presa ao equivalente econômico da aniquilação mútua descrita pelos teóricos da guerra nuclear durante Guerra Fria. Com as exportações chegando a dois quintos do PIB, convém à China ter os EUA como tomador e gastador de último instância na economia mundial. E ela não pode abandonar o dólar sem reduzir o valor de suas próprias reservas em dólar.

Quanto ao potencial da moeda chinesa de desafiar o papel do dólar de moeda de reserva, isso poderá existir no longuíssimo prazo, mas na ausência de mercados financeiros desenvolvidos e um compromisso muito mais forte de internacionalização do yuan, isso continua sendo muito remoto.

Na verdade, o elemento mais fraco do ponto de vista do declínio dos EUA pode ser as atuais estimativas elevadas da força do desafio chinês. Elas foram elegantemente apontados em um ensaio recente sobre assuntos externos de Josef Joffe, editor adjunto do jornal alemão “Die Zeit”. A China, diz ele, é um lugar onde o resto do mundo essencialmente aluga trabalhadores e espaço de trabalho a preços muito baixos e taxas de câmbio distorcidas. Sua dependência das exportações, além de ser um calcanhar-de-aquiles econômico, tem consequências políticas. Estas incluem 70 mil casos de distúrbio social todos os anos, que não são computados nas previsões lineares de crescimento de que os banqueiros de investimento tanto gostam.

A demografia da China não ajuda: Joffe afirma que a população vai crescer antes de começar a enriquecer. Pelos números do Goldman Sachs, a China terá em 2050 superado os EUA, com um PIB de US$ 45 trilhões, contra os US$ 35 trilhões dos EUA. A idade média nos EUA será, então, a menor entre todas as grandes potências mundiais com exceção da Índia. Na verdade, a população economicamente ativa dos EUA terá crescido cerca de 30%, enquanto que na China haverá queda de 3%.

Junto com a dependência das exportações, isso representa um grande desafio para as autoridades chinesas, num país que é muito pobre. Enquanto isso, os EUA ainda possuem um sistema de ensino superior e de pesquisas sem paralelos. E, em 2008, seu orçamento militar foi de US$ 607 bilhões, representando quase metade dos gastos militares totais no mundo. O orçamento militar da China, frequentemente alardeada como a próxima superpotência, é de menos de um sétimo disso.

Ninguém pode negar as conquistas extraordinárias da China na mais acelerada revolução industrial da história humana. Estamos claramente nos movimentando para um mundo multipolar e um sistema de reserva multimoedas, no qual o poder dos EUA será mais restrito. Mesmo assim, os EUA continuam sendo de longe a mais flexível das grandes economias. A história não se move sobre trilhos – exceto para os marxistas. Se as autoridades dos EUA se mostrarem à altura do desafio fiscal e se os americanos passarem e poupar mais, há todas as chances do país escapar de um declínio significativo e continuar sendo a principal economia e potência militar do mundo por muito tempo ainda.

Isso é um “se” enorme. Mas, para o prazer de muitos, a próxima geração de americanos não vai reduzir suas esperanças e ambições no curto prazo.

http://www.danielsansao.com.br/motocontinuo/arquivos/images/xian.jpg

Retranca

China já viveu uma decadência como império


Financial Times – VALOR

A teoria da expansão excessiva dos impérios, lançada por Paul Kennedy em “The Rise And Fall of The Great Powers”, afirma que, se uma proporção grande demais dos recursos do Estado é desviada da criação de riqueza para os gastos militares, o poder nacional vai se enfraquecer no longo prazo. A questão é se um determinado Estado pode conseguir um equilíbrio razoável entre as necessidades básicas de defesa e os recursos econômicos.

A tarefa fica ainda mais difícil quando uma nação está sofrendo um declínio econômico relativo. O professor Kennedy afirmava também que os EUA não conseguiriam preservar sua posição relativa porque “simplesmente a nenhuma sociedade é conferido o direito de continuar permanentemente à frente das outras, uma vez que isso implicaria num congelamento dos padrões diferenciados das taxas de crescimento, dos desenvolvimentos tecnológico e militar, que existem desde tempos imemoriais”.

Ele concluiu que era dever dos estadistas americanos reconhecer essa ampla tendência e administrar o país, de modo que a corrosão relativa da supremacia ocorresse lentamente e tranquilamente, em vez de implementar políticas vantajosas no curto prazo, mas que seriam prejudiciais no longo prazo.

Isso carrega um reflexo notável da observação feita por Robert Temple Armstrong, o ilustre servidor público britânico, que disse na década de 70 que “o negócio do serviço civil é a administração ordeira do declínio”.

A China, embora vista por muitos como a principal beneficiária da potencial exaustão dos EUA, já passou por uma experiência própria de declínio. Até a meta de milênio anterior, ela era tecnologicamente mais avançada que a Europa, com uma agricultura mais eficiente, e a classe dos mandarins não tinha rivais em seu profissionalismo. Mesmo depois que o Ocidente a superou, economica e tecnologicamente, entre os séculos XVI e XVIII, a economia da China ainda era a maior do mundo quando a revolução industrial começou.

No entanto, entre 1820 e 1952, quando a Europa experimentou taxas de crescimento econômico sem precedentes na história, a produtividade per capita da China caiu, enquanto sua participação no PIB mundial despencou de um terço para um vigésimo. A renda per capital caiu de um nível igual ao mundial, para um quarto de média mundial no período*.

Esse desempenho terrível tem sido atribuído a várias causas, incluindo a intervenção colonial estrangeira, distúrbios internos e a inflexibilidade da burocracia diante dos desafios apresentados pelo renascimento do Ocidente.

Todos os números foram extraídos de “Chinese Economic Performance In The Long Run”, de Angus Maddison

09/11/2009 - 17:28h La negociación secreta de un acuerdo mundial sobre el ‘copyright’ alarma a los internautas

Grupos civiles envían una carta a Obama protestando por el secretismo de las reuniones.- El texto autorizaría a los propietarios de derechos a exigir a los proveedores de Internet actuaciones contra los clientes que intercambien obras protegidas

TOMÀS DELCLÓS - Barcelona – 09/11/2009 – El País

La negociación secreta de un acuerdo comercial mundial que autorizaría a las empresas y propietarios de derechos a exigir a los proveedores de acceso a Internet la vigilancia sobre el tráfico de sus clientes ha desatado la alarma de los internautas. De las negociaciones para redactar el Anti-Counterfeiting Trade Agreement (ACTA) se tienen noticias desde el año pasado, pero la semana pasada trascendió un documento de la Unión Europea en la que explicaba a sus estados miembros la posición de Estados Unidos, que se ha reservado la redacción del capítulo dedicado a Internet.

Foto

Carta a Obama reclamando un debate público

DOCUMENTO (PDF – 42,77Kb) – 09-11-2009

Grupos civiles critican el secretismo de la administración sobre ACTA

Foto

Documento filtrado de la UE sobre ACTA

DOCUMENTO (PDF – 107,15Kb) – 09-11-2009

El texto informa de la posición de Estados Unidos sobre el acuerdo comercial contra el intercambio de archivos en Internet.

Aunque formalmente se trata de un acuerdo mundial para combatir la falsificación, el texto incluye una propuesta sobre Internet. Grupos civiles han remitido una carta al presidente norteamericano en el que critican el secretismo sobre estas negociaciones, que contradice la política de transparencia anunciada por Obama.

El acuerdo, en cuya negociación intervienen unos 40 países desde Estados Unidos a la Unión Europea pasando por importantes países asiáticos, como Japón y Corea, empezó a trabajarse en secreto bajo el mandato de Bush y prosigue ahora. La semana pasada hubo una nueva reunión en Seúl y en enero se celebrará otra en México. El documento propone perseguir a quienes elaboren o distribuyan programas que desactiven DRM (sistemas anticopia) y obliga a los proveedores de acceso a Internet a controlar el tráfico de sus clientes para evitar el intercambio o distribución de material protegido por copyright. Actualmente, en muchos países, los proveedores de acceso no son responsables de la conducta telemática de sus clientes salvo que tengan noticia, documentada por la administración o un juez, de que infringen la ley.

En la citada carta se reclama que ACTA, como un instrumento que afecta a las leyes y políticas de múltiples naciones, “debería ser negociado públicamente”, a la vista de todos. “Sin el necesario balance entre intereses” se puede dañar la economía y el bienestar cívico, añaden. Estados Unidos ha comentado el documento a empresas y distintos grupos pero bajo la obligación de confidencialidad lo que les impide participar en un debate público o dar detalles sobre el proyecto. La propia UE, al informar de la propuesta de Estados Unidos, habla de que ha recibido información oral sobre el mismo.

08/11/2009 - 12:23h Brasil se antecipa e desfaz política anticíclica

Alberto Tamer* – O Estado SP

Afinal, retira-se ou não a política de incentivos à economia para sair da recessão? Esse é um dilema dos países ricos. Do Brasil, não. Nós já estamos desfazendo as medidas anticíclicas em ordem, com redução de juros e impostos. Eles voltam aos poucos, de forma gradual e seletiva, sem afetar a demanda e aumentando a arrecadação. Mas a pergunta, quase acadêmica, voltou no cenário mundial, este fim de semana, com a reunião dos ministros das Finanças do G-20, na Escócia.

Barack Obama e Ben Bernanke dizem que não. O Banco Central Europeu diz que sim. Chega de ajuda ao sistema financeiro a partir do próximo ano, afirmou o seu presidente Jean-Claude Trichet, na quinta-feira. E só não aumentou os juros por pressão dos governos, principalmente da França. O juro permanece em 1%, com sinais de alta. O BCE tem medo da inflação que não é inflação, mas deflação. Menos 0,3% em setembro.

Nos EUA, o desemprego de 10,2% se antecipa às previsões. Não era para acontecer agora, mas no início do ano. Janeiro ou fevereiro. Preocupa, mas era esperado, pois a economia, que havia dado um salto no último trimestre, continua frágil. Ainda não se sustenta.

O governo estava preparado. No mesmo dia em que se anunciou esse índice, Obama estendeu os benefícios federais aos desempregados, que se acumulam aos estaduais, e prorrogou medidas de estímulo ao setor imobiliário. A Casa Branca informou também que novas medidas anticíclicas estão sendo estudadas e poderão ser anunciadas em breve.

Um dia antes, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), também veio a público para informar que não muda a política monetária, vai manter ainda por algum tempo o juro básico em torno de 0,25%, praticamente negativo em termos reais. Vai continuar ativo na compra de títulos do Tesouro e imobiliários. Ou seja, mais dólares vão entrar no mercado.

Para Obama e Bernanke, a economia só reage com mais estímulos. Tudo o mais, déficit, dívida, fica para depois

Na Europa, nada muda, apesar de o desemprego já estar em 9,7%, e a inflação crescendo. Não seria grave se ela não tivesse o mesmo que os EUA no Produto Interno Bruto (PIB) mundial. US$ 14 trilhões.

Quem está certo, os americanos ou os europeus? Trichet ou Bernanke?

É isso que estava na pauta da reunião dos ministros do G-20, encerrada ontem. Foi a terceira do ano ? um balanço com resultados previsíveis. A conclusão é que vão continuar estimulando a economia, mas cada um do seu modo. Só que isso não funciona porque alguns querem agir mais, outros menos. E a economia mundial vai continuar se arrastando ainda por muitos e muitos meses.

RETOMADA NÃO CONVENCE

Eles deveriam ouvir quem não foi ouvido no passado, e acertou ao prever a recessão: Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York. Para ele, a retomada é ainda incerta e não se mantém porque está sendo sustentada pelos estímulos fiscais e monetários, gastos dos governos e pela política de juros baixos. Quanto dura? Roubini arrisca. Quando muito, não mais de seis meses. É mais ou menos o prazo para que os estímulos do governo não se transformem em déficits insuportáveis. Em determinado momento, o setor privado, as empresas, terão de substituir o governo. Há ainda muitos desequilíbrios. O mercado financeiro está se recuperando mais rapidamente que a atividade econômica. Sinal, o desemprego continua aumentando. E permanece a pergunta. Quando o governo deve começar a sair? Roubini não responde, mas insinua que o setor privado ainda não está preparado. E cabe aos governos dos países desenvolvidos continuar a tarefa de prepará-los. Só devem tentar administrar melhor seus déficits. E antecipar-se a bolhas previsíveis.

QUEM ESTÁ CERTO?

Acho que nós. Estamos indo devagarzinho nas duas frentes, fiscal e monetária. Sem a ousadia dos dias que antecederam a crise e se enfrentou, com êxito, a recessão. Agora, não há pressa. O governo está começando a remover as medidas anticíclicas de forma gradual. Na área tributária, com o restabelecimento do IPI no setor automobilístico, o mais afetado pela crise. Nessa área, grande empregadora de mão de obra, evitou-se o pior. Mas esse imposto está sendo restabelecido gradualmente para que empresas e compradores se adaptem à nova realidade. E a realidade é uma economia na qual o crédito volta, o desemprego recua e o rendimento das famílias aumenta. No final da linha, isso vai representar maior arrecadação.

O mesmo está sendo feito ainda com mais cuidado na linha branca por causa do seu componente social.

Na área monetária, lembra Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, o Banco Central mantém sua posição, também com medidas graduais, sem precipitações. Reduziu o juro básico para 8,75% e o mantém nesse nível.

Não temos pressa porque nos apressamos antes, aproveitando um terreno já preparado no governo anterior e neste. A inflação caiu de 12,5% em 2002 para 4,3% neste ano.

O juro nominal em 2002 era de 19,1%, teve de ser aumentado para 23,3% no ano seguinte para conter a inflação e agora está em 8,7%.

Sabedoria? Não. Apenas soubemos aproveitar esse cenário, que nós mesmos preparamos, para nos sobrepormos aos outros, que afundaram na recessão.

*Email: at@attglobal.net

07/11/2009 - 13:34h Obama enfrenta sua batalha de Anzio

O Presidente Barack Obama tem até ao fim do seu mandato para reduzir o défice orçamental dos EUA, o maior do mundo.krugman

Paul Krugman* – O Estado SP

Lembram de quando os republicanos se gabavam de que transformariam o problema da reforma da saúde na derrota de Waterloo do presidente Obama? Bem, as pesquisas de opinião sugerem que a questão trabalhou a favor dos democratas nas eleições de terça-feira. Mas, embora não deva constituir o Waterloo de Obama, a política econômica começa a se parecer com o drama americano na batalha de Anzio.

Evidentemente, as eleições não foram um plebiscito sobre Obama. Na realidade, a maioria dos eleitores concentrou-se nos problemas locais – e os que se concentraram nas questões de âmbito nacional tenderam a favorecer a política democrata. Em Nova Jersey, o eleitorado que considerou a saúde o aspecto fundamental, votou no governador Jon Corzine por uma margem de 4 a 1; e Chris Christie conquistou os eleitores preocupados com os impostos sobre bens imóveis e a corrupção.

Entretanto, nessas eleições o que pesou foi um elemento de âmbito nacional. O eleitorado de todo o país está de péssimo humor, em grande parte por causa da situação econômica que continua sombria. E quando o eleitorado está mal-humorado, volta-se contra quem está no governo. O próprio Michael Bloomberg, prefeito de Nova York, viu sua reeleição supostamente fácil transformar-se numa competição muito acirrada.

Por outro lado, os concorrentes saíram-se bem, mesmo quando não tinham uma alternativa coerente para oferecer. Christie jamais explicou de que maneira pretende reduzir os impostos sobre bens imóveis, considerando a situação calamitosa de Nova Jersey – mas, apesar disso, os eleitores resolveram correr o risco.

Isso não é nada auspicioso para os democratas nas eleições de meio de mandato, no ano que vem – não porque os eleitores rejeitarão seu programa, mas porque tudo indica que, daqui a um ano, o desemprego continuará dolorosamente elevado. E os republicanos poderão beneficiar-se disso, apesar de terem se tornado o partido sem ideias.

O que me traz de volta à analogia com o episódio de Anzio.

A batalha de Anzio, na Segunda Guerra Mundial, foi um exemplo clássico dos perigos de uma excessiva cautela. As forças aliadas desembarcaram muito atrás das linhas inimigas, apanhando de surpresa seus adversários. Em vez de aproveitar da vantagem, o comandante americano ficou parado em sua cabeça de praia, e logo foi atacado pelas forças alemãs do alto das colinas à sua volta, sofrendo pesadas baixas.

O paralelo com a atual política econômica é o seguinte: no início deste ano, o presidente Obama assumiu o cargo com um forte mandato, proclamando a necessidade de agir de maneira ousada no campo da economia. No entanto, suas medidas concretas foram mais cautelosas do que ousadas. Embora suficientes para tirar a economia da beira do precipício, não bastaram para reduzir o desemprego.

Assim, o pacote de estímulo não chegou a ser o que muitos economistas – entre eles alguns do próprio governo – consideravam necessário.

Segundo o jornal The New Yorker, Christina Romer, presidente do Conselho de Assessores Econômicos da presidência, avaliou que seria justificável um pacote superior a US$ 1,2 trilhão.

No meio tempo, o governo recuou diante das propostas de injetar enormes somas de capital suplementar nos bancos, exigindo provavelmente a estatização temporária das instituições mais frágeis. Ao contrário, adotou uma estratégia de negligência benevolente – basicamente, esperando que os bancos conseguissem se recuperar e reencontrar o caminho da saúde financeira.

Funcionários do governo poderão alegar que não dispunham de campo de manobra por causa da realidade política, e que uma estratégia mais ousada não seria aprovada pelo Congresso. Mas nunca puseram à prova esse pressuposto e também nunca apresentaram indicação de que estavam fazendo menos do que queriam. A linha oficial foi que a sua política era correta, o que torna difícil explicar, agora, o motivo pelo qual há necessidade de fazer mais.

E é preciso fazer mais. De fato, a economia cresceu bastante rapidamente no terceiro trimestre – mas não o suficiente para que houvesse um progresso significativo em relação ao emprego. E não há muitos motivos para se esperar que as coisas possam melhorar daqui para frente. O estímulo já produziu seu efeito máximo no que se refere ao crescimento. O próprio Timothy Geithner, o secretário do Tesouro, admite que os bancos continuam relutando a conceder empréstimos. Muitos economistas preveem que a expansão da economia, na sua situação atual, desaparecerá no decorrer do próximo ano.

O problema é que não está claro o que Obama poderá fazer diante desta perspectiva. Em Washington, o senso comum parece estar congelado na ideia de que os déficits orçamentários impedem um novo estímulo fiscal – ideia totalmente errada do ponto de vista da economia, mas aparentemente não importa. Ao mesmo tempo, a base democrata, tão vibrante no ano passado, perdeu grande parte do seu ímpeto e paixão, em parte porque aparentemente muitos consideraram a estratégia pouco enérgica do governo a respeito de Wall Street uma traição aos seus ideais.

Então, como o presidente não explorou suas oportunidades iniciais, está preso em sua cabeça de praia excessivamente limitada.

Se os democratas sofrerem uma pesada derrota nas eleições de meio de mandato, os gurus da mídia dirão que Obama quis fazer demais, que afinal esta é uma nação de centro-direita e assim por diante. Mas a verdade é que Obama pôs em risco seu programa ao fazer pouco demais. A decisão fatal, no início do ano, de adotar meias medidas econômicas poderá perseguir os democratas nos anos que virão.

*Paul Krugman é Prêmio Nobel de Economia

06/11/2009 - 17:22h Conceição, a crise e o Brasil

Valor: Como é sua avaliação do governo Lula?

Conceição: Muito boa. Esta é a minha avaliação e de 70% da população. Na verdade, só a classe média dita ilustrada e a grande imprensa são contra. Contra também não sei o quê. Caiu a inflação. Portanto, mantiveram a política econômica dura que diziam que não iam manter, mas mantiveram. Contra meu ponto de vista. Perdi a parada, mas fico contente que tenha perdido, porque naquela altura ia ser complicado. Como estava tudo fora do lugar, era muito ousado fazer uma política alternativa no início do primeiro mandato. Do ponto de vista da política macro, eles começaram a fazer coisas no segundo mandato. Mas não creio que vão terminar. Fizeram o correto na infraestrutura, contemplando obras nas regiões Norte e Nordeste, como a ferrovia Transnordestina, a Norte-Sul, a transposição do rio São Francisco e portos. O PAC é uma seleção de projetos muito pesada e muito boa, de que não convém desviar. Também acertaram na política social, com o Bolsa Família. O governo Lula está tocando três coisas importantes: crescimento, distribuição de renda e incorporação social. E ainda por cima fez uma política externa independente. Por que acha que ganhamos a Olimpíada? [a escolha do Rio de Janeiro para sede dos jogos, em 2016]. Porque passamos a ter prestígio de fato lá fora.

Valor Economico /06 de novembro de 2009


http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/destaque/imagens/maria_da_conc_tavares_4.jpg

Maria da Conceição Tavares, pessimista com os Estados Unidos e o mundo, tem crítica menos dura para o Brasil, “que vai bem na crise”.

É ela mesmo, 55 anos depois

Por Vera Saavedra Durão, do Rio – VALOR


Fiel ao seu estilo questionador e arrebatado, a economista Maria da Conceição Tavares continua contestando as apostas dos mercados financeiros. “A crise não acabou”, alerta a decana dos economistas brasileiros e representante da tradição crítica do pensamento econômico latino-americano, no melhor estilo de Celso Furtado. “Com a subida das bolsas, fica todo mundo no oba-oba e parece que passou. O mau sintoma é justamente a bolsa ter refluído, os bancos terem voltado a ganhar dinheiro. Isso é simplesmente aparência.”

Conceição, como é sempre chamada, fala com ceticismo sobre as perspectivas da economia americana. “O Estado está tendo de sustentar como um Hércules todo um sistema falido, mas não consegue fazer as coisas mudarem de rumo, não tem se mostrado ativo. Está fraco e isso é ruim.”

A seu ver, o governo Obama não está tendo apoio suficiente para fazer as mudanças necessárias. “Não dá para fazer reforma da saúde porque os laboratórios e os seguros de saúde não querem. Não dá para fazer reforma financeira porque os bancos não querem. Como é uma sociedade de lobby pesado, fica difícil reformar.”

Os Estados Unidos não têm, aparentemente, uma “saída boa”, diz. Para ela, todas as indicações de estagnação mais longa estão presentes na economia americana, o que coloca a liderança do país sobre a economia mundial em xeque. “Eles não têm mais liderança nenhuma. Têm peso político, diplomático e militar. Mas isso não é liderança. É império. Não têm como resolver seus problemas [financeiros e militares], nem conseguem avançar. São um império congelado.”

Conceição se diz pela primeira vez otimista com o Brasil de Lula. “Ele é um gênio político.” Mas adverte que o problema básico da economia brasileira, no momento, é o câmbio. “O Brasil não pode continuar engolindo dólares.”

Conceição tem 55 anos de Brasil. Chegou em fevereiro de 1954, casada com o engenheiro português Pedro Soares. A filha Laura nasceria meses depois. Naturalizou-se em 1957. Seu segundo marido, Antonio Carlos Macedo, professor de ciências biológicas da UFRJ, é o pai de Bruno, 44 anos. É amistoso seu relacionamento com os ex-maridos.

Portuguesa de Anadia, nascida em 24 de abril de 1930, formada em matemática em Lisboa, Conceição conta que optou pela economia influenciada por três clássicos do pensamento econômico brasileiro: Celso Furtado (1920-2004), Caio Prado Jr. (1907-1990) e Ignácio Rangel (1908-1994) – que a despertou para as questões relacionadas ao capital financeiro. “Eles marcaram profundamente minhas ideias.”

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Conceição foi aluna de Octávio Gouvêa de Bulhões (1906-1990) e Roberto Campos (1917-2001). Escreveu centenas de artigos e vários livros, dos quais o clássico dos clássicos é “Auge e Declínio do Processo de Substituição de Importações no Brasil – Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro”, de 1972. O texto original foi escrito no fim dos anos 1960, quando chefiava o escritório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) no Brasil. Na época da ditadura militar, autoexilou-se no Chile, depois de escapar da prisão graças à intervenção de Mario Henrique Simonsen, seu ex-aluno, ministro do governo Geisel.

Teve rápida passagem pelo MDB, então partido de oposição à ditadura militar. Em 1994, foi eleita deputada federal pelo PT do Rio de Janeiro, ao qual continua filiada. Aposentou-se como catedrática do Instituto de Economia da UFRJ, onde é professora emérita, e da Universidade de Campinas (Unicamp). Mas permanece ativa, dando cursos de economia internacional no Instituto Rio Branco e aulas na pós-graduação da UFRJ.

No momento, Conceição trabalha num ensaio sobre a América do Sul para um livro que José Luís Fiori, também professor na UFRJ, ex-aluno, a quem conhece desde o exílio, pretende lançar em 2010 sobre questões econômicas, financeiras e sociais da região, temas aos quais sempre esteve ligada.

Mesmo com problemas de bronquite por causa do cigarro – quando deputada, operou um nódulo benigno no pulmão – Conceição ainda consome dois maços por dia. Não tem intenção de parar. Diz que morrerá se deixar de fumar. “Para minha idade, estou ótima”, avalia a economista de palavra sempre apaixonada, que pretende comemorar seus 80 anos, em 2010, com os dois filhos, dois netos e os muitos amigos e admiradores.

A seguir, os principais trechos da entrevista que Maria da Conceição Tavares concedeu ao Valor.

Valor: Quais lições podemos tirar da crise ?

Maria da Conceição Tavares: A crise ainda não passou e não deu as lições . Nos Estados Unidos já tem um pessoal dizendo que o gasto fiscal é muito, que isso acaba dando inflação e tem que parar. Se parar o gasto fiscal, como é a única componente ativa que vem sendo acionada pelo governo Obama, as coisas não vão melhorar. Todos os sintomas estão ainda muito embaralhados. E aí sobe a Bolsa de Valores, porque houve uma pequena bolha e o pessoal já começa a dar vivas . O desemprego também não terminou, e há muita capacidade ociosa. Então, todas as indicações que apontam para uma estagnação mais longa estão lá presentes. Não houve nenhuma mudança estrutural até agora para reverter a crise.

Valor: Como fica, então, o papel do Estado neste momento?

Conceição: O Estado americano está fraco. Não está ativo. E está botando o dinheiro todo em cima dos bancos e também em cima do seguro social, do desemprego que subiu muito. Todo o sistema falido, ele sustentando, feito um Hércules, e não está fazendo essa coisa tomar rumo. É um estado fraco, desse ponto de vista. E isso é ruim, porque denota que o governo americano não tem realmente força. Não tem apoio, nem na sociedade, que é dilapidada pelo neoliberalismo, nem no “establishment”. Então, não dá para fazer a reforma da saúde porque os laboratórios e os seguros-saúde não querem. Não dá para fazer reforma financeira porque os bancos não querem. Como é uma sociedade de lobby pesado, não tem como reformar. E não tem mecanismos de demanda efetiva do lado do setor privado para aumentar o emprego. O que não é bom.

Valor: Isso significa que a liderança dos Estados Unidos sobre a economia mundial está em xeque?

Conceição: Está. Não tem mais liderança nenhuma. Eles têm peso político, diplomático e militar. Mas isso não é liderança. É império. Eles têm um poder imperial sustentado num poder militar e financeiro. A iniciativa diplomática e militar só visa manter com mão de ferro o que já conquistaram. Mas não têm como resolver os problemas, nem avançar . Os Estados Unidos não podem tomar iniciativa militar em mais lugar nenhum. Primeiro, quem vai pagar e, depois, quem vai dar o apoio? É o império congelado.

Valor: Essa fraqueza americana pode arrastar o mundo para onde?

Conceição: É uma fraqueza sistêmica. O sistema era todo estruturado por eles. Como estão débeis, o sistema fica com um peso morto muito grande. Só tem possibilidade de sair quem tem dimensão para sair, como os BRICs. O que vão fazer o México, a Argentina, o Chile? São todos atrelados à economia mundial. Quem está puxando o comércio é a Ásia. A Alemanha não está puxando mais nada. Se a Europa e os Estados Unidos puxam para baixo, só sobra a Ásia.

Valor: E a China, especificamente?

Conceição: Os chineses estão tentando substituir os americanos nos investimentos em matérias-primas que eles precisam. Estao investindo em toda parte. Em petróleo, em infraestrutura na África. Aqui na América Latina estão vindo para tudo. Siderurgia, portos. Estão fazendo um movimento de expansão não pelo comércio apenas, mas principalmente via investimento direto. Isso é que é novidade. Sobretudo na África. Coitados dos africanos. Saem de um imperialismo e entram em outro.

Valor: A China teria a liderança?

Conceição: O mundo caminha para uma multipolaridade.

Valor: Então, nesse mundo a China pode vir a ser uma liderança ?

Conceição: Aí entra outra questão. Como se resolve o nó do entrelaçamento entre China e Estados Unidos? É uma simbiose. A China tem resolvido não ser agressiva com os Estados Unidos. Do ponto de vista diplomático e militar, tem estado “low profile”. Não está dizendo que os Estados Unidos são um “tigre de papel”, como na época do Mao. É consenso em Pequim que não é para enfrentar os Estados Unidos. Mas eles têm que resolver esse impasse. O que fazem? Compram ativos dos Estados Unidos? Foi o que o Japão fez e se deu mal. E é claro que eles viram o Japão fazer isso e não vão fazer. Então, estão vindo pela periferia. Que é o correto. O Japão saiu da periferia para investir nos Estados Unidos, disparado. Os chineses não estão fazendo isso. Eles têm participação daqueles fundos soberanos em várias coisas. No Citi, por exemplo. Fazem essas aplicações para sustentar os dólares que têm, para ter alguma aplicação.

Valor: China e Estados Unidos vão se pôr de acordo para garantir uma saída da crise?

Conceição: Difícil. Não vejo nenhuma semelhança de estrutura política e ideológica. São muito dessemelhantes. Se não vão se pôr de acordo, como vai ser? A China abre mão crescentemente do mercado americano e aumenta o mercado no resto do mundo. Ela pode fazer isso. Os Estados Unidos vão fazer o quê? Estão no mundo inteiro, mas são uma potência comercial declinante.

Valor: Vão se voltar para o mercado interno?

Conceição: É o que deveriam fazer, como prometeu Obama, mas aí têm que resolver primeiro a situação da regulação do sistema bancário, das empresas e do desemprego.

Valor: Qual o papel dos BRICs na recuperação da economia global?

Conceição: Vão ter papel importante, porque têm peso específico. Não podem estabelecer uma política comum, porque são estruturas diferentes. Somos uma economia mista, a China é estatal, a Rússia era tudo privado, quebrou tudo, e está em processo de reconstrução pelo Estado. O Brasil não é potência militar, mas tem tomado muitas iniciativas na política externa e vai bem na crise.

Valor: Ben Bernanke, presidente do Fed, anunciou que pode aumentar os juros.

Conceição: Coisa sem pé nem cabeça. A dívida externa e a dívida pública deles, gigantescas, vão ficar caríssimas. Eles estão querendo fazer isso porque estão com medo da inflação. Inflação de demanda não é, porque não tem demanda efetiva. Inflação de custos de matéria-prima também não é, pois não está tendo nenhuma explosão de matéria-prima. Acho que o Bernanke está com medo é de que rejeitem a dívida pública. Ninguém está querendo comprar aqueles papéis [títulos do Tesouro]. Uma forma de atrair investidores seria subir os juros. Mas tudo isso são perfumarias. Não vai para lugar nenhum. A raiz do problema seria a reforma do sistema bancário.

Valor: O que mais, além dessa reforma, o governo americano teria que fazer?

Conceição: Reforçar o papel do Estado e fazer um ajuste global que teria que ser negociado com a China. Os dois países teriam que acertar um acordo na área comercial. Mas não há negociação entre os dois. Os Estados Unidos não têm aparentemente uma saída boa. O Obama está falando no vazio. É por isso que os conservadores prenunciam um golpe.

Valor: Existe esse risco?

Conceição: O primeiro risco que existe é que o matem. Esse é um risco clássico nos Estados Unidos. E existe o risco de ele não se reeleger. Fico com muita pena. Ele seguramente não é o cara. Parecia, mas não é.

Valor: Como as dificuldades vividas pelo Estado americano podem impactar o mundo?

Conceição: Vai depender do resto do mundo. Vamos tentar esquecer um pouco os Estados Unidos. Temos que buscar construir outras lideranças. O ideal é que houvesse um acordo mínimo entre todos os grandes, para aliviar a crise e resolver o problema global. Bastava o G-20, bastavam os 20 se porem de acordo. Mas não há acordo.

Valor: E o dólar?

Conceição: Não dá ainda para tirar o dólar [de seu papel de moeda de reserva internacional]. O dólar está fraco. Os países, em geral, se pudessem, saiam do dólar. Está ruim acumular reservas em dólar. O problema é com os que já estão acumulados, como os BRICs, sobretudo a China.

Valor: O que a China vai fazer com US$ 2 trilhões de reservas?

Conceição: Está empacada. E os títulos americanos que ela detém servem de lastro às reservas. Ela não tem como vendê-los no mercado. Está com um mico na mão. É um patrimônio morto. Não tem o que fazer com as reservas. É como se tivesse no cofre, de um lado, o patrimônio futuro, de fábricas, de realizações etc. e, do outro, um montão de estrume que não pode jogar fora.

Valor: O que pode vir daí ?

Conceição: Prevejo uma coisa arrastada, prolongada, com crises que vêm uma atrás da outra, uma bolha disso, uma bolha daquilo.

Valor: Qual a próxima bolha?

Conceição: A bolsa. Já temos uma aí montada, é a bolsa, que voltou a subir. O pessoal está investindo pesado. Mas isso mostra que o sistema está frágil, ao contrário do que julgam, não é um bom sinal. É um mau sinal. Aqui, no Brasil, por exemplo, na Bovespa, o grosso do dinheiro que está vindo de fora pra cá é pra bolsa. Não é para investimento direto no sentido autêntico da palavra. Direto, vieram US$ 11 bilhões e para a bolsa vieram US$ 17 bilhões, este ano.

Valor: Qual seria a consequência dessa bolha?

Conceição: Volta de novo a afundar. Aí vem nova bolha. Se o mercado de commodities estiver melhor, vão fazer bolha de commodities. Podem fazer outra vez bolha em cima do petróleo. Acho que vamos de bolha em bolha.

Valor: Então, a crise não acabou….

Conceição: É uma falsa euforia. Provavelmente o governo americano vai ter que parar de ajudar o setor privado, pois o déficit fiscal já está em 17% do PIB. Como já socorreram no limite, já gastaram trilhões de dólares, na próxima crise não vão poder socorrer. Foi o que aconteceu no decorrer da crise de 1929. Em 1931 e 1932, nada mudou. Só ocorreu mudança no sistema financeiro depois, quando teve outra crise bancária, em 1933. Na primeira crise ninguém se deu conta, pois despejaram toneladas de dólares em cima dos bancos. Como agora.

Valor: A história pode se repetir?

Conceição: A crise atual começou em 2007 com os empréstimos “subprime”. Em 2008 foi o auge. E agora, neste segundo semestre, está com ares de que se vai respirar. Em 2010 pode haver uma recuperação, mas em 2011 ninguém sabe o que pode acontecer.

Valor: Como o Brasil ficaria com uma reforma bancária nos Estados Unidos?

Conceição: O Brasil tem um sistema financeiro público e privado. E os bancos privados não entraram em crise. Já tinham entrado em crise com o Fernando Henrique. Aí limparam e não deixaram de manter o controle. Não temos um sistema financeiro que opera “à la livre”. Não existe isso. Temos regulação. Nosso problema básico é o câmbio. Tem que dar um jeito. A coisa cambial vai mudar no próximo governo. Não teremos mais esse presidente no Banco Central, e nem Dilma, nem Serra estão a favor dessa política cambial.

Valor: Obama disse que o cara é o Lula…

Conceição: É. O Lula, um gênio político, mistura de Vargas e JK, uma liderança do povo brasileiro que tem uma sorte danada, ademais de ser muito competente. Tem que ter competência e sorte. As coisas têm que estar a favor.

Valor: Como é sua avaliação do governo Lula?

Conceição: Muito boa. Esta é a minha avaliação e de 70% da população. Na verdade, só a classe média dita ilustrada e a grande imprensa são contra. Contra também não sei o quê. Caiu a inflação. Portanto, mantiveram a política econômica dura que diziam que não iam manter, mas mantiveram. Contra meu ponto de vista. Perdi a parada, mas fico contente que tenha perdido, porque naquela altura ia ser complicado. Como estava tudo fora do lugar, era muito ousado fazer uma política alternativa no início do primeiro mandato. Do ponto de vista da política macro, eles começaram a fazer coisas no segundo mandato. Mas não creio que vão terminar. Fizeram o correto na infraestrutura, contemplando obras nas regiões Norte e Nordeste, como a ferrovia Transnordestina, a Norte-Sul, a transposição do rio São Francisco e portos. O PAC é uma seleção de projetos muito pesada e muito boa, de que não convém desviar. Também acertaram na política social, com o Bolsa Família. O governo Lula está tocando três coisas importantes: crescimento, distribuição de renda e incorporação social. E ainda por cima fez uma política externa independente. Por que acha que ganhamos a Olimpíada? [a escolha do Rio de Janeiro para sede dos jogos, em 2016]. Porque passamos a ter prestígio de fato lá fora.

Valor: Como vê a questão ambiental no mundo e no Brasil, às vésperas da reunião de Copenhague?

Conceição: Para variar, os Estados Unidos não assinam meta nenhuma. O país de Obama, digo, o Departamento de Estado, não assina nada. O problema ambiental está complicado e complexo. No Brasil, independente do desmatamento da Amazônia, a floresta vai sofrer com o aquecimento global. Mas a coisa da Amazônia, no nosso caso, é importante e é difícil. Mas não somos decisivos para o aquecimento global. Decisivos são os Estados Unidos e a China.

Valor: A exploração do petróleo das camadas do pré-sal pode impactar as boas intenções ambientais do Brasil?

Conceição: Começamos com a ideia do verde, o álcool combustível, mas, agora que veio o pré-sal, ninguém fala mais nisso. Agora, tudo vai depender do próximo governo.

03/11/2009 - 11:09h Quanto maior a bolha atual, maior será o inevitável estouro


Para o economista Nouriel Roubini, juros negativos nos EUA e dólar fraco geram “mãe” de todos os “carry trades” e bolha global cujo estouro é inevitável

NOURIEL ROUBINI DO “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

Desde março vem ocorrendo um aumento maciço em ativos de alto risco de todo tipo -participações, preços do petróleo, energia e commodities-, um estreitamento dos “spreads” de alta rentabilidade e alta classificação e um aumento maior ainda nas classes de ativos de mercados emergentes (suas ações, obrigações e moedas).
Ao mesmo tempo, o dólar caiu muito, enquanto a rentabilidade dos títulos governamentais tem aumentado ligeiramente, mas se mantido baixa e estável.
Essa recuperação dos ativos de alto risco é movida em parte por melhores condições econômicas fundamentais. Evitamos uma quase depressão e um derretimento do setor financeiro com um estímulo monetário e fiscal maciço e pacotes de socorro aos bancos. Quer a recuperação tenha formato de V, conforme a visão consensual, ou tenha formato de U e seja anêmica, como eu argumento, os preços dos ativos deveriam estar subindo gradualmente.
Contudo, ao mesmo tempo em que as economias americana e global iniciaram uma recuperação modesta, desde março os preços dos ativos vêm subindo vertiginosamente, numa alta grande e sincronizada. Em 2008, quando o dólar subia, os preços dos ativos estavam em queda forte, mas, desde março, eles têm recuperação acentuada, enquanto o dólar cai. Os preços dos ativos de alto risco vêm subindo demais, cedo demais e rápido demais em comparação com os fundamentos.
O que está por trás dessa alta maciça? Com certeza, foi ajudada pela onda de liquidez advinda de juros a quase zero e flexibilização quantitativa das condições monetárias. Mas um fator mais importante que alimenta a bolha de ativos é a fraqueza do dólar americano, movida pela “mãe” de todos os “carry trades” [operação em que o investidor pega empréstimos com juros muito baixos, como os dos EUA hoje, e aplica em outros ativos]. O dólar virou a principal moeda a financiar os “carry trades”, na medida em que o Fed [BC dos EUA] vem segurando os juros. Os investidores que estão vendendo o dólar a descoberto para comprar ativos de rentabilidade maior e outros ativos globais em base altamente alavancada não estão só contraindo empréstimos a juros zero em termos do dólar -estão contraindo empréstimos a juros muito negativos, que podem chegar a 10% ou 20% negativos ao ano-, na medida em que a queda do dólar leva a ganhos maciços de capital sobre posições do dólar.
Resumindo: negociantes estão contraindo empréstimos a juros negativos de 20% para investir em base altamente alavancada em uma massa de ativos globais de alto risco que estão subindo devido ao excesso de liquidez e a um “carry trade” maciço. Cada investidor que joga esse jogo de alto risco fica parecendo um gênio -mesmo que só navegue numa bolha imensa-, já que os retornos totais têm estado na faixa entre 50% e 70% desde março.
A consciência que as pessoas têm do valor em risco de seus portfólios deveria ter aumentado devido à correlação crescente dos riscos entre classes diferentes de ativos, todos movidos por essa política monetária comum e pelo “carry trade”. Na prática, virou uma grande negociação comum -você compra o dólar para adquirir qualquer ativo de alto risco.
Ao mesmo tempo, porém, o risco percebido das classes individuais de ativos vem declinando, na medida em que a volatilidade diminuiu graças à política do Fed de comprar tudo que está à vista. Assim, o efeito conjunto da política de taxa zero sobre fundos do próprio Fed, flexibilização quantitativa das condições monetárias e aquisição maciça de instrumentos de dívida de longo prazo está aparentemente fazendo o mundo ser seguro -por enquanto- para o maior de todos os “carry trades” e a maior de todas as bolhas de ativos globais altamente alavancados.
Ao mesmo tempo em que essa política alimenta a bolha global, também alimenta uma nova bolha de ativos americanos. Dinheiro fácil, facilitação do crédito e fluxo maciço de capitais para os EUA por meio de um acúmulo de reservas em divisas estrangeiras em outros países tornam os deficit fiscais dos EUA mais fáceis de financiar e alimentam a bolha americana de participações e crédito.
Finalmente, um dólar fraco é bom para as participações acionárias americanas, já que pode gerar crescimento maior e elevar os lucros de multinacionais.
A política americana insensata que alimenta esses “carry trades” obriga outros países a adotar a mesma política monetária. Políticas de juros a quase zero e flexibilização quantitativa já eram seguidas no Reino Unido, na zona do euro, no Japão, na Suécia e em outras economias avançadas, mas a debilidade do dólar vem agravando essa flexibilização monetária global. Ásia e América Latina, preocupadas com a fraqueza do dólar, estão intervindo agressivamente para impedir a valorização excessiva de suas moedas. Isso segura os juros de curto prazo em níveis inferiores aos desejáveis. É possível que os BCs também sejam forçados a reduzir os juros.
Preocupados com o dinheiro quente que vem inflando suas moedas, algumas autoridades, como as do Brasil, vêm impondo controles aos fluxos de capital entrantes. Mas a bolha do “carry trade” vai se agravar: se as moedas estrangeiras se valorizarem mais, o custo negativo dos empréstimos do “carry trade” ficará ainda maior. Se intervenções ou operações no mercado aberto controlarem a valorização das moedas, a flexibilização monetária doméstica decorrente alimentará a bolha nessas economias. Assim, a bolha perfeitamente correlacionada de todas as classes de ativos globais cresce diariamente.
Mas essa bolha vai estourar um dia, levando ao maior estouro coordenado de ativos já visto: se fatores puderem levar o dólar a reverter sua queda e a se valorizar repentinamente -como em inversões anteriores-, o “carry trade” alavancado terá de ser encerrado de uma hora para a outra, à medida que os investidores cobrem suas transações a descoberto com dólar. Haverá um estouro da boiada, com o fechamento de posições de alto risco e alavancagem longa em todas as classes de ativos financiadas por transações em dólar a descoberto gerando colapso coordenado de todos esses ativos de alto risco -ações, commodities, ativos de emergentes e instrumentos de crédito.
Por que esses “carry trades” desabarão? Para começar, o dólar não pode cair a zero, e em algum momento se estabilizará; quando isso acontecer, o custo de empréstimos em dólar repentinamente se tornará zero, em lugar de altamente negativo, e o risco de uma inversão no dólar levará muitos investidores a cobrirem suas transações a descoberto. Em segundo lugar, o Fed não poderá suprimir a volatilidade para sempre. Em terceiro, se o crescimento americano surpreender positivamente, os mercados podem começar a esperar que um arrocho do Fed chegue mais cedo, não mais tarde. Em quarto, pode haver fuga do risco movida pelo medo de um repique recessivo ou risco geopolítico, como um choque EUA/Israel-Irã.
Esse processo pode não ocorrer por algum tempo, já que o dinheiro fácil e a liquidez global excessiva ainda poderão elevar os ativos por algum tempo.
Mas, quanto mais se prolongarem e quanto mais crescer a bolha, maior o crash. O Fed e outros responsáveis pela política econômica parecem não ter consciência da bolha monstro que criam. Quanto mais tempo permanecerem cegos, mais dolorosa será a queda.

NOURIEL ROUBINI é professor da Universidade de Nova York e presidente da RGE Monitor.

Tradução de CLARA ALLAIN

02/11/2009 - 11:45h Copo meio cheio

LÚCIA GUIMARÃES – NOVA YORK – O Estado SP

A última semana começou com um número que preocupou muitos jornalistas americanos. A rede CNN despencou para o quarto lugar de audiência do jornalismo na TV a cabo. E a Fox, comemorando sua condição de “perseguida” pelo governo Obama, disparou para um folgado primeiro lugar.

A CNN inventou o jornalismo de 24 horas e o fundador da Fox, Roger Aisles, inventou o comício eletrônico travestido de jornalismo.

Desde que uma assessora de Barack Obama fez o calculado primeiro disparo, no dia 12 de outubro, afirmando que a Fox não passa de uma ala do Partido Republicano, comentaristas de variada coloração ideológica discutem a sensatez da tática.

A venerada Primeira Emenda da constituição americana, que garante a liberdade de expressão, imprensa e religião, é invocada frequentemente pelos que não acreditam nela.

No ciclo viral de notícias, a estupidez se propaga com a velocidade da luz. Exemplo: Barack Obama foi comparado a Richard Nixon, o garoto-pôster da perseguição à imprensa. Desde quando um presidente que se indispõe com a imprensa ou setores dela é uma anomalia? E qual é a semelhança entre Nixon, notoriamente paranoico e conspirador, que grampeava e ameaçava jornalistas, e o atual presidente americano?

Um excelente artigo editorial no Wall Street Journal assinado por Thomas Frank, cujo espaço é um oásis de sensatez entre as tropas de choque de Rupert Murdoch, lembrou que a perseguição nas mãos das “elites” é um dos motes da rede Fox.

O levante conservador americano a partir da década de 90 alimentou-se desta falácia narrativa – entre Nova York e Los Angeles, a middle-America é explorada e desprezada pelas hordas de privilegiados que comem rúcula e dirigem carros híbridos.

Frank oxigenou o debate com dois argumentos: Obama está certo, a Fox News é um contínuo talk-show conservador. Ela foi criada pelo homem que salvou a carreira de Nixon na década de 60, reinventando o futuro presidente para a TV. Roger Ailes perde seu sono com a Primeira Emenda tanto quanto eu perco o meu com golfe.

Obama está errado na forma desajeitada como colocou a rede na berlinda. Frank diz que a Casa Branca “jogou gasolina numa fogueira” ao alimentar as teorias conspiratórias da rede adversária quando podia ter apelado para o humor, a ironia e o sarcasmo.

Um bom cursinho preparatório para enfrentar jornalista crasso é assistir a gravações não editadas das coletivas de John Kennedy, que reagia com um humor relaxado de quem está diante de um Martini e não de um microfone.

E assim voltamos a uma fundação que tem aparecido com frequência na imprensa americana. O Pew Research Center for the People & the Press toma o pulso do público americano em sua reação à mídia. O centro se tornou uma fonte preciosa de informação neste momento de confluência de duas angústias coletivas: a crise econômica na mídia tradicional e a epidemia de jornalismo ideológico.

A última pesquisa do Pew Center confirma o que sabemos: o papel da ideologia no consumo de notícias é cada vez maior. E a Fox é vista como a mais ideológica das redes de cabo. Explica-se o quarto e último lugar da CNN, atrás até de sua parente, o canal HLN, um híbrido de notícias curtas e talk-shows. A rede, apesar de vista pela maioria como “liberal” (à esquerda do espectro político americano) e de abrigar figuras como Lou Dobbs, o profeta do apocalipse causado por imigrantes, não se posiciona como pró ou contra Obama. A ópera-bufa da esquerda e da direita no cabo é protagonizada pela MSNBC e a Fox.

Enquanto o musculoso e peripatético Anderson Cooper enxuga as lágrimas com a queda de mais de 70% da audiência de seu programa em horário nobre na CNN, vale a pena notar um número mais interessante para quem acredita que o jornalismo tem um papel em qualquer democracia.

O site cnn.com de notícias está muito à frente das rivais. O publisher do New York Times, Arthur “Pinch” Sulzberger, fez analogias com o Titanic, ao ser consultado, num evento público, sobre o futuro dos jornais mas não destacou outro dado: o seu notável site teve sólidos 21 milhões e 500 mil visitantes únicos em setembro.

Vou argumentar que o declínio do jornal impresso convive com o apetite por noticiário objetivo. Já a falta de apetite pelas aventuras de Anderson Cooper pode mostrar o que acontece quando o jornalismo fica com o ouvido no chão, tentando detectar o tropel dos cavalos.

A revista Time perguntou aos leitores, logo após a morte do lendário Walter Cronkite, em julho, qual o âncora em que os americanos mais confiam. Jon Stewart, o comediante com vasta audiência jovem e apresentador do falso telejornal The Daily Show, ganhou disparado, com 44% de votos. Um sinal de triunfo da ironia como embalagem da notícia?

Em 2008, metade dos espectadores da Fox tinha mais de 63 anos e a maioria dos espectadores dos programas mais agressivamente ideológicos da rede era formada por homens. Os números foram citados por Louis Menand, na New Yorker, que comparou a cólera da Fox a um Viagra político.

Estou enganada ou há uma luz demográfica no fim deste túnel?

21/10/2009 - 10:54h O que aconteceria em caso de um colapso do dólar?

http://blogdofavre.ig.com.br/wp-content/uploads/2008/11/dolar_caindo.jpg

Crise: China sofreria, e bancos expostos a risco cambial poderiam quebrar

Peter Coy, BusinessWeek – VALOR

A crise financeira nos ensinou que os mercados podem cair mais e mais rápido do que as pessoas esperam. O preço das moradias nos EUA, por exemplo, caiu por três anos seguidos a começar de 2006, embora a sabedoria convencional dissesse até então que os preços não iriam cair nem um pouco.

Vamos aplicar isso ao dólar, que também deveria resistir a uma crise. Após se enfraquecer gradualmente desde 2002, a moeda americana subiu com a crise financeira do ano passado. Mas acumula uma desvalorização de cerca de 15% desde março, quando os investidores passaram a mudar para moedas de maior rendimento. A sabedoria convencional diz que a esses níveis, o dólar está barato, prestes a iniciar uma recuperação. “As moedas não avançam muito mais que 20% em relação às suas médias de longo prazo em termos reais [ajustado à inflação]. Já estamos lá”, afirma Michael Dooley, economista, fundador e analista-chefe da Cabezon Capital Management, firma de investimentos de São Francisco.
Foto Destaque

Assim, vale ao menos cogitar a possibilidade de um “colapso” do dólar. A razão de o estouro da bolha imobiliária ter tido efeitos tão devastadores foi a falta de imaginação: bancos, autoridades reguladoras, agências de avaliação de crédito e outros simplesmente não conseguiam acreditar que os preços das casas cairiam do jeito que caíram, de modo que todos foram pegos de surpresa.

Imaginemos que o dólar caia rapidamente mais 25% contra cada uma das grandes moedas mundiais, algo mais ou menos parecido com o declínio sem precedentes de 30% nos preços das casas. Isso significaria que seria preciso US$ 2 para comprar € 1. O lado bom é que as empresas americanas teriam mais facilidade para competir nos mercados internacionais, e o turismo teria uma explosão nos EUA. O lado ruim é que a inflação subiria nos EUA devido ao custo maior dos produtos importados. Os americanos teriam ainda mais problemas para obter empréstimos à medida que os compradores estrangeiros fossem saindo do mercado de dívida.

Fora, o dólar barato tornaria mais difícil exportar para os EUA, o que afetaria o crescimento do resto do mundo. A China poderia enfrentar distúrbios sociais. Guerras comerciais poderiam irromper. E haveria problemas em bancos expostos demais, aqueles que tinham certeza de que um estouro do dólar não ocorreria. Como diz o investidor Warren Buffett: “Você só descobre quem está nadando pelado quando a maré baixa”.

As autoridades reguladoras dos EUA estão monitorando os bancos em uma ampla variedade de riscos, incluindo a ameaça de uma quebra do dólar: “Não estamos acompanhando os riscos trimestre a trimestre, e sim minuto a minuto”, diz uma autoridade que pediu para não ser identificada.

Após o pico atingido no segundo trimestre, o dólar acumula queda de 11% contra o iene japonês, 16% contra o euro, 21% contra o dólar canadense e cerca de 30% contra o real e o dólar australiano, que estão se beneficiando do repique no preço das commodities. Em relação a uma cesta ampla de moedas de todos os parceiros comerciais dos EUA, ajustada à inflação, o dólar já caiu 15% desde o pico atingido no segundo trimestre.

Por trás da fraqueza do dólar está a taxa de juro de curto prazo dos EUA, perto de zero. Assim como fizeram antes com o iene, investidores estão tomando dólar barato emprestado para vendê-los e comprar moedas de países cujas ações e bônus prometem retornos melhores. O Federal Reserve (Fed) está mantendo o juro básico a 0,25% para estimular a economia americana e ajudar os bancos, mas um efeito colateral é que o dólar tornou-se o combustível preferido da aposta especulativa internacional, que o está sobrecarregando.

Uma outra força ajuda a derrubar o dólar: os contínuos déficits comerciais dos EUA, um custo que os EUA estão pagando por tomar emprestado do resto do mundo. Alguns economistas acreditam que, em algum momento, os EUA serão forçados a desvalorizar sua própria moeda para tornar seu endividamento mundial mais suportável. Embora o rombo comercial tenha caído para menos de 3% do PIB no segundo trimestre, contra o pico de 6% em 2006, ele ainda é alto pelos padrões históricos.

Alguns dos bancos centrais que sustentaram o dólar parecem estar com medo. Em vez de comprar só dólares para suas reservas internacionais, estão diversificando para outras moedas. Os países que revelam a composição de suas reservas colocaram 63% delas em euros e iene no segundo trimestre, segundo análise do Barclays Capital. Steven Englander, principal estrategista de câmbio do Barclays, diz: “O incentivo desses países é tentar uma diversificação discreta, e não ’sair fora a todo preço’”. A China não revela a composição de suas reservas, que superam US$ 2 trilhões.

Membros do governo Obama não parecem perturbados pela queda do dólar até agora. O dólar mais fraco ajuda a diminuir o déficit comercial ao tornar os produtos americanos mais competitivos.

Mas essa calmaria pode desaparecer da noite para o dia se os mercados financeiros sentirem que a queda do dólar vai se tornar uma bola de neve sem controle. Nesse ponto, o “campo de força” invisível que protege o dólar vai sumir, afirma Martin Weiss, presidente do Weiss Group, firma de análises de dados financeiros de Júpiter, Flórida. Weiss diz: “Nos tornaríamos mortais comuns, mais vulneráveis a ataques contra a nossa moeda”.

Nesse cenário pessimista, o declínio ganha vida própria. As vendas geram mais vendas. Bancos centrais mundiais interviriam para estimular o câmbio, mas os especuladores, tendo já experimentado o gosto da vitória, não recuariam. Paul Krugman, economista da Universidade Princeton, certa vez chamou isso de cenário coiote, numa referência ao personagem do desenho animado Papa-Léguas, que perde o chão no alto de um despenhadeiro, mas só começa a cair quando olha para baixo e vê que não há nada sob seus pés.

As especulações de que o dólar poderá sofrer um colapso podem se tornar autorrealizáveis se os operadores se apressarem a deixar a moeda. Ashraf Laidi, principal estrategista de câmbio da CMC Markets, uma corretora de Londres, diz que “agora há cerca de 30% a 40% de chances de vermos o dólar cair ao ponto de configurar uma crise”.

Os otimistas com o dólar apontam que a moeda recuperou-se ultimamente. Mas Laidi não vê nisso uma demonstração de apoio ao dólar ou à economia dos EUA. Ele diz que os investidores apenas recuaram de todos os tipos de risco e colocaram seu dinheiro no instrumento de curto prazo de maior liquidez – justamente os títulos do Tesouro americano. Englander, do Barclays, concorda: “Não se trata de uma aposta de longo prazo na economia dos EUA”.

Os operadores de câmbio não dão muito crédito às declarações de apoio ao dólar forte feitas por autoridades americanas. Observam que secretários do Tesouro desde o governo Clinton vêm dizendo que apoiam o dólar forte. Mas os EUA não vêm dando apoio à sua moeda através de compras no mercado desde 1995.

Se o dólar despencar, o preço das importações pode subir mais rápido que o esperado pelos economistas. Seria um desastre para a economia se o Fed tivesse que subir a taxa de juros para conter a inflação ou defender a moeda, enquanto o crescimento segue fraco.

O dólar mais fraco deixaria os americanos mais pobres, ao reduzir o poder de compra da moeda. E não há garantias de que isso vai estimular o setor industrial americano, diz David Mallpass, presidente da consultoria Encima Global. Para ele, a queda do dólar no fim dos anos 80 mais atrapalhou que ajudou Detroit, ao dar ao Japão poder de compra para fortalecer suas montadoras. “Podemos ficar pobres a ponto de não podermos importar muita coisa e equilibraremos a balança comercial. Mas isso seria bom para os EUA?”

No curto prazo, o maior risco seria a falência de quem fez apostas altamente alavancadas e que está vulnerável a uma queda do dólar. Isso afetaria não só os negócios de câmbio, mas também os de derivativos de juros e os swaps de defaults de crédito. Cinco grandes bancos responderam por 88% da exposição de risco de crédito a derivativos em todo o sistema bancário dos EUA no segundo trimestre.

Ninguém sabe se o dólar caminha para um desastre. Mas acreditar no melhor é arriscado.

(Copyright © 2009 The McGraw-Hill Companies Inc.)

20/10/2009 - 10:32h Não está tudo bem com os bancos nos Estados-Unidos

http://www.cartoonstock.com/newscartoons/cartoonists/pto/lowres/pton236l.jpg

Paul Krugman*, THE NEW YORK TIMES – O Estado SP

Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos. Talvez não literalmente o pior, mas ruim. E o contraste entre a sorte de alguns e o persistente sacrifício de tantos outros era o prenúncio de um futuro incerto. Logicamente, estou falando dos bancos. Uns poucos ganharam, mas muitos reagiram com ira quando o Goldman Sachs apresentou lucros recordes e voltou a pagar bonificações enormes, enquanto nos EUA as vagas continuam se fechando.

Mas não se trata só de bancos se recuperando enquanto trabalhadores padecem. Bancos que operam com empréstimos, e não os de investimentos, voltam a enfrentar dificuldades, principalmente Citigroup e Bank of America, que calaram boatos de estatização no início do ano, declarando que haviam voltado a lucrar. Mas, agora, estão com prejuízos de novo.

Como afirmou um crítico: “Hoje, não há nenhuma instituição financeira que não se beneficie, direta ou indiretamente, dos trilhões de dólares dos contribuintes usados para sanar o sistema financeiro”. De fato: o Goldman ganhou muito dinheiro com suas operações de investimentos, mas só conseguiu continuar no jogo graças a medidas que puseram em risco vastas somas de dinheiro público, da operação de salvamento da AIG às garantias concedidas a muitos títulos do Goldman.

E quem é esse crítico? Ninguém menos que Lawrence Summers, o principal economista do governo do presidente Barack Obama – e um dos arquitetos da política para salvar bancos que, até agora, sem sido extremamente tolerante.

A que se deve a mudança de tom? Funcionários do governo estão furiosos com o setor financeiro, que empreende um lobby feroz contra reformas profundas no sistema. Mas o que eles esperavam? O governo adotou uma política suave, concedendo ajuda sem precondições; com isso, ficou com pouco poder de pressão sobre empresas como o Goldman que agora, mais uma vez, ganham rios de dinheiro.

Mas há um problema maior: enquanto o lado agressivo do setor financeiro – o das operações de investimentos – voltou a ser lucrativo, a parte que realmente importa – a dos empréstimos que alimentam investimentos e empregos – não voltou. Os principais bancos continuam fracos, e sua debilidade prejudica a economia como um todo.

Lembremos que, no início do ano, houve um amplo debate sobre o que seria preciso fazer para que o setor bancário voltasse a conceder empréstimos. Alguns analistas, me incluo no grupo, argumentaram que pelo menos algumas das principais instituições precisariam de uma grande injeção de capital, e que a única maneira de fazer isso seria a estatização temporária dos bancos mais comprometidos. Porém, o debate acabou quando o Citi e o BofA, os elos mais fracos do sistema bancário, anunciaram lucros surpreendentes. “Está tudo bem”, foi o que nos disseram, porque os bancos voltaram a lucrar.

Mas ocorreu algo curioso: Na semana passada, tanto o Citi quanto o BofA anunciaram prejuízos no terceiro trimestre. O que houve? Em parte, aqueles lucros iniciais não passaram de pura imaginação dos auditores contábeis. No entanto, em termos mais amplos, o que podemos ver é uma espécie de vingança da economia real.

Na primeira fase da crise financeira, o sistema foi punido pelos desregramentos de Wall Street; agora, a crise geral, somada a um elevado e persistente desemprego, está levando a altos prejuízos com os empréstimos hipotecários e os cartões de crédito.

E aqui está a questão: A contínua fragilidade de muitos bancos contribui para perpetuar a crise. Os bancos continuam relutando a conceder empréstimos, e o aperto do crédito, principalmente às pequenas empresas, é um obstáculo no caminho da forte recuperação de que necessitamos.

E agora? Summers não se cansa de insistir que o governo fez a coisa certa: novas injeções de capital não “teriam sido uma estratégia útil para solucionar os problemas”. De qualquer modo, em termos políticos, o momento para uma ação radical já passou.

O mais importante, por enquanto, é fazer o possível para respaldar o crescimento do emprego. Com sorte, assim será possível criar um círculo virtuoso no qual a economia em recuperação fortalece os bancos, e eles se tornam mais dispostos a conceder crédito.

Além disso, precisamos desesperadamente da aprovação de uma reforma efetiva do setor financeiro. Se não conseguirmos isso, logo os banqueiros vão assumir riscos maiores do que o que eles assumiram antes da crise.

*Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia

18/10/2009 - 11:00h Outro Bric na parede?

http://www.investmentpostcards.com/wp-content/uploads/2008/05/nouriel-roubini.jpg

NOURIEL ROUBINI PARA A FOLHA, EM NOVA YORK

A sabedoria dominante raramente sobrevive a um bom teste de desgaste, e poucos testes causaram tanto desgaste como o sofrido pela economia mundial nos últimos 24 meses. Uma temporada de saudável reavaliação parece ter começado, e está lançando nova luz sobre conceitos que prevaleciam na época do boom, como o valor dos mercados opacos, o status intocável dos consumidores norte-americanos e a sabedoria da desregulamentação.

Uma das ideias dominantes na era da bolha, que escapou relativamente incólume, porém, é a suposição de que os chamados países Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) ditarão cada vez mais os rumos da economia nos próximos anos.
O conceito de Brics, cunhado em um relatório do Goldman Sachs em 2003, não é de todo ruim: já que está 75% correto, apresenta resultados muito melhores do que a maioria dos prognósticos econômicos da era.

No entanto, a crise econômica que começou em 2008 expôs um dos quatro países como impostor. Se compararmos diretamente as estatísticas vitais das economias dos Brics, fica dolorosamente evidente que, nas palavras de uma velha brincadeira de “Vila Sésamo”, “uma dessas coisas é diferente das outras”.

A debilidade da economia da Rússia, e dos bancos e empresas altamente endividados do país, em particular, ainda que mascarada nos últimos anos pelos lucros extraordinários propiciados pela alta nos preços do petróleo e do gás natural, foi exposta de maneira gritante quando a economia mundial despencou. Sobrecarregada com uma infraestrutura envelhecida, a Rússia se desqualifica ainda mais devido a políticas disfuncionais e revanchistas e a uma tendência demográfica que aponta para declínio populacional quase terminal.

Até mesmo com a modesta recuperação que os preços das commodities apresentaram nos últimos seis meses, o setor de energia da Rússia vem enfrentando quedas de produção nos últimos anos, em parte devido ao medo dos investidores estrangeiros quanto a uma possível expropriação.

O fundo soberano de investimento da Rússia, que tem parte importante na sustentação de um modelo econômico que volta a ser cada vez mais centralizado, está esgotando seus recursos rapidamente. Caso as tendências negativas se mantenham, o fundo de reserva russo pode se exaurir.

A queda russa, enquanto isso, resultou em uma espécie de brincadeira de salão entre acadêmicos, especialistas em política externa e investidores bem informados, com o objetivo de substituir o país no clube das grandes economias de mercado emergente. Diversos acrônimos foram sugeridos, do elegante Bricet, que acrescentaria a Europa Oriental e a Turquia, a Bricket, envolvendo o grupo anterior e mais a Coreia do Sul; os mais exagerados falam até mesmo em Brimc, com a adição do México à mistura.

Em todas essas revisões, a Rússia sobrevive, a despeito de o seu destino econômico estar traçado. Embora a Rússia mantenha o maior arsenal mundial de armas nucleares (ainda que um tanto envelhecidas), bem como o seu assento permanente (e, portanto, poder de veto) no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, o país se encaixaria melhor em uma lista de nações doentes do que na lista dos Brics.

Do ponto de vista de potencial e fundamentos econômicos puros, há argumentos muito mais fortes em favor da inclusão da Coreia do Sul, uma potência econômica sofisticada para a qual o principal risco continua a ser o regime de seu gêmeo maligno ao norte, cujo colapso poderia inundar o país de refugiados famintos.

O mesmo se aplica à Turquia, que ostenta um setor bancário robusto, um mercado interno próspero, importância crescente na política do Oriente Médio e de energia, integração à Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan), candidatura à União Europeia e vínculos com os Estados que lhe são aparentados etnicamente no centro da Ásia.

O caso mais convincente talvez seja o da Indonésia, o maior país muçulmano do mundo, que conta com uma classe média em rápida expansão, política democrática relativamente estável e uma economia que se destacou na Ásia a despeito da recessão mundial.

Da perspectiva dos Estados Unidos, a Indonésia representa alternativa atraente à Rússia, que até recentemente vinha disputando com a Venezuela a liderança da torcida pelo declínio norte-americano.

A Indonésia, além disso, demonstrou poder de resistência não apenas econômico como nacional. A despeito de sua composição étnica diversificada e de seu território composto por uma profusão de ilhas, o país conseguiu deixar rapidamente para trás a ditadura militar e se recuperou dos inúmeros desafios e revezes sofridos, entre os quais a crise financeira asiática de 1997, o tsunami de 2004, a emergência do radicalismo islâmico e suas inquietações internas. Embora a renda per capita indonésia continue baixa, o que importa é o potencial econômico, e quanto a isso o país brilha.

A Indonésia depende menos das exportações que seus pares asiáticos (e muito menos que a Rússia), e seus mercados de ativos (madeira, óleo de palma e carvão, em particular) atraíram forte investimento estrangeiro.

O governo, em Jacarta, enquanto isso, tomou medidas fortes de combate à corrupção e agiu para remediar os problemas estruturais. Até mesmo as tendências demográficas favorecem a Indonésia, que com seus 230 milhões de habitantes já é o quarto mais populoso país do mundo -e “uma Alemanha” (80 milhões de habitantes) mais populoso que a Rússia.

Mas as ideias da moda custam a morrer, e a Rússia agiu de maneira a cimentar o atual conceito dos Brics em forma de realidade irreversível.

A ossificação dos Brics como instituição mundial deu um dramático salto em junho, quando os líderes dos quatro países se reuniram (na Rússia, é claro), para a primeira “conferência de cúpula dos Brics”.

O encontro resultou em uma notável tirada antiamericana, já que cada um dos membros declarou seu desejo de remover o dólar de seu papel como moeda mundial de reserva.

Alguns meses antes, os quatro decidiram emitir um comunicado conjunto, antes da reunião de abril do grupo dos 20 (G20), no qual anunciavam sua determinação coletiva de mudar as regras do sistema econômico mundial.

No setor privado, proliferaram os fundos de índices Bric, ainda que o Goldman Sachs tenha procurado proteção para sua aposta nos Brics por meio da formulação de um segundo conceito, o “Next 11″, ou seja, os próximos 11 (N11). O grupo acrescentaria ao debate Bangladesh, Egito, Indonésia, Irã, México, Nigéria, Paquistão, Filipinas, Coreia do Sul, Turquia e Vietnã. Somados aos quatro países dos Brics, os N11 provavelmente formam um elenco mais lógico e defensável para a “primeira divisão” das economias emergentes.

A Rússia rejeita a ideia de demoção, e funcionários do governo norte-americano parecem ter decidido evitar o debate semântico sobre o tema. Ainda assim, não deveria ser surpresa que a Rússia tenha pressionado com tanto vigor pela conferência dos Brics em Ecaterimburgo e bancado a maior parte do custo. Por que correr o risco de ficar exposta cedo demais?

NOURIEL ROUBINI é presidente da RGE Monitor (www.rgemonitor.com) e professor da Escola Stern de Administração de Empresas, na Universidade de Nova York.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

18/10/2009 - 08:44h Pela paz: judeus americanos recusam alinhamento automático com Israel

“- O termo ‘pró-Israel’ foi sequestrado por aqueles que têm visões a que a maioria dos americanos, judeus e não judeus, se opõe, seja apoiar a guerra no Iraque, rufar os tambores para uma guerra com Irã ou colocar obstáculos no caminho para acabar com o conflito entre palestinos e israelenses- afirma Ben-Ami.” (fundador da ONG JStreet, grupo judeu de apoio a Israel na comunidade judaica de Estados-Unidos).

Clique na imagem do jornal O Globo para ampliar
JStreet_Israel

13/10/2009 - 11:50h Mentalidades monetárias equivocadas

Krugman_paulPaul Krugman*, THE NEW YORK TIMES – O Estado SP

Uma lição da Grande Depressão é que não se deve subestimar o poder destruidor das más ideias. E algumas más ideias que ajudaram a causar a Depressão mostraram-se, ai de nós, extremamente duráveis: em forma modificada, elas continuam a influenciar o debate econômico hoje.

O historiador econômico Peter Temin argumentou que a principal causa da Depressão foi o que ele chama de “mentalidade de padrão ouro”. Com isso, quer dizer não somente a crença na importância sagrada de manter o valor em ouro de uma moeda, mas um conjunto de atitudes afins: medo obsessivo de inflação, mesmo em face de deflação; oposição ao crédito fácil, mesmo quando a economia precisa desesperadamente dele, com base em que isso seria de alguma forma deturpador; afirmações de que mesmo que o governo pudesse criar empregos, ele não deveria, pois seria uma recuperação “artificial”.

No início dos anos 1930, essa mentalidade levou governos a elevar juros e cortar gastos, a despeito do desemprego em massa, na tentativa de defender as reservas em ouro. E, mesmo quando países ficavam sem ouro, a mentalidade prevalecente os deixava relutantes em cortar impostos e criar empregos.

Os EUA não vão retornar ao padrão ouro. Mas uma versão moderna da mentalidade do padrão ouro esta exercendo uma influência crescente em nosso discurso econômico. E essa nova versão de uma ideia antiga ruim poderá minar nossas chances de recuperação plena.

Considere-se, em primeiro lugar, o alarido sobre o declínio do dólar. A verdade é que isso é uma boa notícia. Por um lado, ela é sobretudo resultado do aumento da confiança: o dólar subiu no auge da crise porque investidores em pânico buscavam proteção nos Estados Unidos, e está caindo agora que o medo está cedendo.

E um dólar mais baixo é bom para os exportadores americanos, ajudando-nos a fazer a transição de déficits comerciais imensos para uma posição internacional mais sustentável. Mas, na página de opiniões do The Wall Street Journal, o que se vê é que a queda do dólar é uma coisa terrível, sinal de que o mundo está perdendo a fé nos EUA (em especial, é claro, no presidente Barack Obama).

Fica-se pensando que alguma coisa precisa ser feita para conter a descida do dólar. E, na prática, o declínio do dólar se tornou uma vara com a qual os conservadores do Congresso pressionam o Federal Reserve (Fed) a recuar no esforço de sustentar a economia. Só podemos esperar que o Fed suporte a pressão. Mas há sinais de uma mentalidade equivocada dentro do próprio Fed. Nas últimas semanas, surgiram declarações, principalmente de presidentes regionais do Fed, mas não só, pedindo o retorno do endurecimento monetário, incluindo juros mais altos.

Funcionários do Fed são, normalmente, cautelosos ao comentar a política monetária futura para não prejudicar os esforços da instituição de moldar as expectativas. Assim, é extraordinário ver esses funcionários quebrando regras, até instruindo a ação do Comitê de Mercado Aberto (Fomc) do Fed, que fixa a taxa de juros.

Mais extraordinária é a ideia de que elevar o juro no curto prazo faz sentido. Afinal, ao desemprego alcançou 9,8% e continua subindo, enquanto a inflação está bem abaixo da meta de longo prazo do Fed.

Para evitar uma “Grande Inflação”, diz Charles Plosser do Fed da Filadélfia, “teremos de agir bem antes que a taxa de desemprego e outras medidas de utilização de recursos tenham voltado a níveis aceitáveis”.

Não sei que análise está por trás desses dedos nervosos no gatilho. Provavelmente, não se tratem de análises, mas de mentalidade. E é crucial que não deixemos essa mentalidade guiar a política.

* O autor é Nobel de Economia

12/10/2009 - 20:49h John Negroponte merece um Nobel da Paz?

DEBATE ABERTO

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, John Negroponte ressurge como personagem de uma tela negra de Goya, empenhado em legitimar a truculência, esconjurando a memória histórica por saber que é dela que se elaboram projetos de soberania na América Latina.


Gilson Caroni Filho – Carta Maior

Qual a melhor maneira de superar um golpe? Fazer exatamente o que pretendem os seus autores. É dessa forma, na melhor tradição da realpolitik reaganiana, que John Negroponte, subsecretário de Estado no governo George W.Bush, vislumbra a saída para a crise hondurenha. Eleições presidenciais na data programada, sem restituição do presidente deposto Manuel Zelaya, seguindo à risca os planos do líder dos golpistas, Roberto Micheletti.

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, edição de domingo, 11 de outubro, Negroponte ressurge como personagem de uma tela negra de Goya, empenhado em legitimar a truculência, esconjurando a memória histórica por saber que é dela que se elaboram projetos de soberania na América Latina. Ao dizer que ”durante o período em que eu estava lá, a democracia foi restaurada”, falseia o passado para mascarar o presente.

O que tenta esconder o atual presidente do Americas Society/Council of the Americas, “cuja meta é defender livre comércio, democracia e mercados abertos no continente?” Qual foi o seu real papel na América Central? O exército hondurenho, segundo reconheciam os próprios norte-americanos nos anos 1980, foi treinado e aparelhado pelos Estados Unidos, a fim de ajudar a conter os movimentos de libertação nacional na região.

O projeto político das eleições que os EUA promoveram em El Salvador, em março de 1982, não resolveu a crítica situação da convulsionada nação centro-americana. Ao contrário, serviu para mostrar que crise alguma pode ser resolvida por solução eleitoreira que ignore estruturas injustas de uma sociedade capitalista periférica, que ainda tinha remanescentes feudais. A partir das eleições, a comunidade internacional observou um aumento das violações dos direitos humanos por parte dos aparatos militares e dos bandos paramilitares controlados pelo estado-maior das forças armadas e um incremento no número de refugiados nos países centro-americanos. Operações de extermínio foram levadas a cabo contra as zonas rurais e comunidades camponesas.

Após uma fraca resistência, o ditador da Guatemala, Rios Montt, foi deposto no dia 8 de agosto de 1983. Em seu lugar, subiu o general Oscar Mejia, responsável direto por massacres de populações indígenas no interior do país. A participação estadunidense no golpe foi cristalina. Mejia era criatura do Pentágono e, dias antes de tomar o poder, participou de uma reunião, em Honduras com o general Paulo Gorman, chefe do comando-sul norte-americano no Panamá. Negroponte foi o anfitrião do encontro. Não por acaso Honduras e El Salvador foram os primeiros países a reconhecer o novo governo gualtemateco.

Para a Nicarágua, os planos de Reagan eram de intervenção militar direta. O bloqueio naval ao regime sandinista funcionava a pleno vapor. Um cargueiro soviético, com 842 toneladas de medicamentos e máquinas destinadas à agricultura e à construção de estradas, foi interditado por navios norte-americanos sob a alegação de que carregava armas e helicópteros militares. De Honduras, como recorda Atílio Boron, Negroponte “monitorou pessoalmente as operações terroristas realizadas contra o governo sandinista e promoveu a criação do esquadrão da morte, mais conhecido como o Batalhão 316, que sequestrou, torturou e assassinou centenas de pessoas, enquanto nos seus relatórios para Washington negava que houvesse violações dos direitos humanos nesse país.”

Ao diário paulista, John Negroponte é taxativo: “Obviamente, por conta da situação vizinha, nós aumentamos nossa ajuda, não só militar, mas humanitária. Penso que adotamos as políticas certas, que foi justificado o que fizemos, e eu certamente não me arrependo de nada.”

A se dar crédito ao diplomata norte-americano, estudaremos a história como se visita um museu de cera. Embevecidos com a fraude disfarçada de arte, mentiremos sobre o passado para continuar mentindo sobre o presente. Esse tem sido o papel da imprensa ao fabricar o que a direita lhe solicita: a nostalgia da barbárie como tempo de boas colheitas.

É para esse imaginário que boa parte da oposição brasileira daria, se pudesse, um Nobel da Paz. Seria uma primeira página perfeita.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

03/10/2009 - 15:19h La défaite de Chicago signe le premier échec d’Obama

Barack Obama lors de la présentation des dossiers pour l'obtention des JO 2016.
AP/MATT DUNHAM – Barack Obama lors de la présentation des dossiers pour l’obtention des JO 2016.

Le Monde

Une “humiliation” ! Bruce Levin, commentateur sur ESPN, le groupe télévisuel américain spécialisé dans le sport, n’a pas même attendu le verdict final. On savait déjà Chicago évincée dès le premier tour de scrutin du Comité olympique international (CIO), le 2 octobre à Copenhague (Danemark), pour désigner la ville organisatrice des Jeux de 2016. M. Levin n’a pas précisé qui, à ses yeux, était humilié : Barack Obama ? Le couple présidentiel, Michèle s’étant plus démenée encore que son époux ? La ville de Chicago ? Les Etats-Unis tout entiers ? Chacun ressentait ce verdict d’humiliation comme il l’entendait. Tous avaient quelque chose à perdre, tous y ont un peu perdu quelque chose.

Ah, si Chicago était au moins parvenu en finale, au troisième tour de scrutin. En cas d’affrontement avec Rio de Janeiro, la ville américaine aurait vraisemblablement perdu. La carte maîtresse du président brésilien Lula était trop forte : les Jeux n’ont encore jamais eu lieu en Amérique latine. Mais M. Obama aurait eu la défaite brillante. On l’imaginait déjà, lançant “Il n’y a qu’un seul vainqueur, le continent américain”, etc. Mais être éliminée dès le premier tour : cela paraissait impensable pour Chicago.

Au-delà du sentiment d’humiliation, c’est d’abord l’incompréhension qui a dominé les Américains, comme chaque fois que leur pays est confronté à “l’impuissance de la puissance”, selon l’expression du politologue Bertrand Badie. Lorsque Jacques Rogge, le président du CIO, a annoncé l’éviction de Chicago, ses habitants, agglutinés par milliers devant le grand écran du Daley Center, en sont restés tétanisés. M. Obama, disait Larry Kajmowicz, un commerçant local, à Associated Press (AP), “a quand même un peu perdu la face”.

Forcing de dernière minute

L’agence AP résume ainsi le danger qui le guette désormais dans l’opinion. “Il veut trop faire en même temps”. Résultat : “il tente beaucoup mais réussit peu”. Son conseiller, David Axelrod, a relativisé, refusant de voir dans cet événement “un camouflet” vis-à-vis du président et de la First Lady. Barack Obama avait montré l’estime qu’il porte au CIO en repartant peu après son discours, sans attendre le vote. Il a appris le verdict dans l’Air Force One qui le ramenait chez lui. Il s’est alors dit “déçu”. A l’arrivée, il a jugé qu’ainsi va le sport : on peut “très bien jouer et ne pas gagner”. Il semblait déjà passé à l’ordre du jour.

Ce n’est pas le cas des médias. La plupart se montrent cruels. Le New York Times : “Le président n’a pas seulement échoué pour la médaille d’or, il n’a même pas eu l’argent ou le bronze”. L’agence AP : “C’est une défaite embarrassante. (…) Obama entend déjà le bruissement de la rumeur qui monte : décidément, il est meilleur pour parler que pour faire, il est plus une célébrité qu’un homme d’Etat.” L’effarement passé est venu le temps des hypothèses. Faire venir M. Obama, qui était très réticent, pour ensuite lui faire subir cet affront : le CIO est décidément très fort, entendait-on. D’autres commentateurs jugeaient que l’on ne peut espérer le séduire par un forcing de dernière minute. La venue de son épouse à sa place fut quasiment une “faute de goût”. Le CIO, même un peu “rénové”, reste un groupe de notables vieux jeu, imbus de leur importance et qu’il faut séduire. Un cénacle sensible aux enjeux de pouvoir, qui à la notoriété et ses avantages, qui d’autre encore à des avantages plus prosaïques. Le “convaincre” se travaille durant de longs mois.

Ceux qui ont de la mémoire donnent une autre explication aux récents échecs des candidatures américaines devant le CIO. Car avant Chicago, New York avait déjà été vite éjectée, il y a quatre ans, de la course à l’organisation des Jeux de 2012. Or n’est-ce pas le Congrès américain qui, en 1999, avait obligé son vieux président d’alors, l’espagnol Juan Antonio Samaranch, à se contorsionner devant ses élus et les caméras du pays et promettre que, plus jamais, le CIO ne couvrirait des faits de corruption tels que ceux que les enquêteurs américains avaient mis au jour ? M. Samaranch avait coupé les têtes de quelques vieux compagnons pour se faire pardonner des Américains.

Depuis, une bisbille à caractère financier a pourri les relations entre le CIO et sa section états-unienne (l’USOC), s’ajoutant à l’hostilité aux Etats-Unis née il y a dix ans au CIO. Gerhard Heiberg, un membre norvégien, a donné cette explication du scrutin : “Beaucoup d’entre nous étaient décidés à ne pas voter Chicago, quoi qu’il arrive”. Lorsque, lundi dernier, Barack Obama avait opté pour le déplacement à Copenhague, de nombreux élus républicains avaient fustigé un président qui abandonne son pays pour une vétille au moment où tant d’urgences sont à régler. Hier soir, les mêmes venaient sur Fox se gausser de son échec, “une défaite de l’Amérique”. Sale journée.

Sylvain Cypel (New York, correspondant)

03/10/2009 - 14:35h Krugman: Gastar dinheiro agora significa fortalecer a economia, no curto e no longo prazos

Krugman_paulMissão não cumprida

Paul Krugman*

As ações estão em alta. Segundo Ben Bernanke, a recessão acabou. Eu sinto uma crescente disposição entre os formadores de opinião a declarar: missão cumprida no combate à crise. E há quem afirme que está na hora de deixarmos de nos preocupar com o estímulo econômico para nos concentrarmos no déficit do orçamento. Mas não está, não. A autocomplacência que começa a se instaurar em relação ao estado da economia é insensata e perigosa.

Sim, o Federal Reserve (Fed) e o governo Obama nos tiraram da Beira do Precipício – título de um novo ensaio de Christina Romer, diretora do Conselho de Assessores Econômicos, no qual argumenta, de maneira convincente, que a política de forte expansão dos gastos públicos nos salvou de uma possível reedição da Grande Depressão.

Mas, embora evitar outra depressão seja muito bom, tudo indica que, se o governo não fizer muito mais do que planeja atualmente para promover a recuperação da economia, a situação do mercado de trabalho – no qual, hoje, a procura de emprego é seis vezes maior que a oferta – continuará sendo angustiante nos anos vindouros.

Na realidade, a projeção econômica do próprio governo – em que são levados em conta os novos empregos que suas medidas criarão – mostra que a taxa de desemprego, que há apenas dois anos estava abaixo de 5%, será em média 9,8% em 2010, 8,6% em 2011 e 7,7% em 2012.

Não podemos considerar aceitável essa perspectiva, em primeiro lugar, porque ela implica enorme sofrimento nos próximos anos. Além disso, se o desemprego permanecer nesse nível por tanto tempo, lançará uma sombra negra sobre o futuro dos Estados Unidos.

Os que acham que estamos fazendo o bastante para criar empregos devem ler o relatório apresentado recentemente por John Irons, do Instituto de Política Econômica, que descreve a “devastação” produzida por um desemprego persistente. Entre outras coisas, Irons destaca que o desemprego persistente na escala hoje prevista levaria a um enorme aumento da pobreza – e que existem evidências esmagadoras de que as crianças que crescem em meio à pobreza muito provavelmente terão uma vida miserável.

Esse custo humano deveria constituir nossa maior preocupação, mas suas implicações em termos de recursos também são assustadoras. As projeções do Departamento do Orçamento do Congresso, por exemplo, mostram que, no período de 2010 a 2013 – sem contar os prejuízos que já sofremos – o “déficit de produção”, a diferença entre tudo o que a economia poderia ter produzido e tudo o que ela realmente produz, será superior aos US$ 2 trilhões. O que significa que são trilhões de dólares de potencial produtivo que se perderão.

Mas a coisa é muito pior. Um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que o tipo de recessão que tivemos, causada por uma crise financeira, costuma causar danos no longo prazo em termos das perspectivas de crescimento de um país. “O caminho da produção tende a se estreitar substancialmente e de maneira persistente depois das crises do setor bancário.”

Entretanto, o mesmo relatório sugere que esse desfecho não é inevitável. “Concluímos que uma resposta mais firme de uma política fiscal no curto prazo” – medida pela qual se entende um aumento temporário dos gastos do governo – “está significativamente associada a menores perdas da produção no médio prazo.”

Portanto, deveríamos fazer muito mais do que estamos fazendo para promover a recuperação econômica, não apenas porque isso reduziria nosso sofrimento atual, como também porque melhoraria nossas perspectivas no longo prazo.

Mas será que podemos fazer mais – no sentido de oferecer mais ajuda a combalidos governos estaduais e aos desempregados, de aumentar os gastos em infraestrutura, de oferecer incentivos fiscais aos empregadores para que criem empregos? Sim, nós podemos.

O senso comum diz que ajudar a economia agora produzirá ganhos no curto prazo à custa de sofrimento no longo prazo. Mas, como acabamos de ressaltar, do ponto de vista da nação como um todo não é assim que funciona. A crise está produzindo danos no longo prazo para a economia e a sociedade e, se pudermos abrandá-la, teremos um futuro melhor.

É verdade que um aumento dos gastos com a recuperação e a reconstrução piorará a própria posição fiscal do governo. Mas mesmo neste caso, o bom senso exagera. Os verdadeiros custos fiscais desse respaldo para a economia são surpreendentemente baixos.

Gastar dinheiro agora significa fortalecer a economia, no curto e no longo prazos. E uma economia mais forte implica maiores receitas, para compensar uma considerável parcela dos custos iniciais. Segundo cálculos aproximados, a compensação chegaria a quase 100%, de forma que o estímulo fiscal não é um almoço grátis completo. Mas custa muito menos do que imaginaríamos de acordo com um suposto debate informado.

Sei que um aumento do estímulo é algo difícil de vender em termos políticos, mas é urgentemente necessário. A questão não é se podemos fazer mais para promover a recuperação, mas se podemos optar por não fazê-lo. E a resposta é não.

*Paul Krugman é Prêmio Nobel de Economia de 2008

22/09/2009 - 14:34h Reforma ou colapso


Michelle Nichols – 20.set.09/Reuters

Manifestantes pedem aos líderes globais a criação de mais empregos em protesto em Pittsburgh, onde ocorrerá a reunião do G20

PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES” – FOLHA SP

No período de medo que se seguiu à quebra do banco de investimento Lehman Brothers, parecia inconcebível que, passados apenas alguns meses, os banqueiros retomassem as práticas que conduziram o sistema financeiro mundial à beira do colapso. Seria de imaginar que, no mínimo, eles exibiriam certa discrição, por medo de causar uma reação adversa de parte do público.
Mas agora que recuamos alguns passos da beira do abismo -graças, é bom não esquecer, a imensos pacotes de resgate bancados pelos contribuintes- o setor financeiro decidiu que é hora de voltar aos seus métodos habituais de negócios. Enquanto o restante do país continua a sofrer com a alta do desemprego e as severas privações causadas pela crise, os salários de Wall Street estão retornando aos patamares anteriores ao colapso. E o setor está empregando toda a sua influência política para bloquear até mesmo as mais minúsculas reformas.
A boa notícia é que os principais funcionários do governo Obama e do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) parecem estar perdendo a paciência com o egoísmo do setor. A má notícia é que não se pode determinar se o presidente Obama está pessoalmente disposto a enfrentar os banqueiros, mesmo agora.
Primeiro, elogios merecidos: fiquei muito satisfeito quando Lawrence Summers, o principal economista do governo, criticou publicamente a campanha que a Câmara de Comércio dos Estados Unidos, em colaboração com os lobbies do setor financeiro, está promovendo para combater a proposta de criar uma agência que protegeria os consumidores contra abusos financeiros, a exemplo de empréstimos cujos termos eles não compreendem. Os anúncios veiculados pela entidade, declarou Summers, “são o equivalente, em termos de regulamentação financeira, aos anúncios sobre eutanásia que vêm sendo veiculados com relação à saúde”.
Mas proteger os consumidores contra abusos financeiros deveria ser apenas o início da reforma. Se realmente desejamos impedir Wall Street de criar uma bolha, seguida por nova contração, precisamos mudar os incentivos do setor o que significa, especialmente, mudar a maneira pela qual os executivos do setor financeiro são remunerados.
O que há de errado com o sistema de remuneração do setor financeiro? Em resumo, os executivos bancários são suntuosamente recompensados caso produzam grandes lucros em curto prazo, mas não sofrem punições equivalentes se, posteriormente, vierem a sofrer prejuízos ainda maiores.
Isso encoraja a aceitação de riscos excessivos: alguns dos homens mais responsáveis pela atual crise saíram dela imensamente ricos, devido às bonificações que receberam nos anos de bons resultados, embora as estratégias de alto risco que resultaram nessas bonificações tenham por fim dizimado suas empresas -e com isso demolido boa parte do sistema financeiro.
O Fed, que agora despertou do torpor em que vivia na era Greenspan, compreende o problema e propõe fazer alguma coisa a respeito. De acordo com reportagens recentes, o conselho do Fed está estudando impor novas regras sobre a remuneração em companhias financeiras, exigindo que os bancos reduzam suas bonificações e vinculem a remuneração aos resultados de longo, e não de curto prazo. O Fed argumenta que tem autoridade para essas medidas, como parte de sua missão mais ampla de fiscalizar a solidez dos bancos.
Mas o setor -com apoio da grande maioria dos legisladores republicanos e de alguns democratas- combaterá furiosamente essas mudanças. E, embora o governo americano deva apoiar alguma modalidade de reforma no sistema de remuneração, não está claro até o momento que venha a apoiar plenamente os esforços do banco central do país.
Fiquei atônito, na semana passada, quando o presidente Barack Obama, em entrevista à agência Bloomberg, questionou os argumentos em defesa da limitação das remunerações no setor financeiro. “Por que”, questionou ele, “devemos limitar a remuneração dos executivos financeiros de Wall Street, mas não a dos empresários do Vale do Silício ou a dos jogadores profissionais de futebol americano?”
É uma declaração que causa espanto, e não apenas porque a National Football League (NFL, organização que administra o futebol americano) tem limitações salariais em vigor. Empresas de tecnologia não derrubam todos os sistemas operacionais do mundo quando quebram; os armadores de futebol americano que exageram nos passes arriscados não precisam ser resgatados em operações de centenas de bilhões de dólares. Os bancos representam um caso especial, e o presidente dos EUA certamente é esperto o bastante para saber disso.
A única justificativa que consigo encontrar é algo que já vimos antes: a visceral relutância de Obama em adotar qualquer traço de retórica populista. E isso é algo que ele precisa superar.
Não apenas porque assumir uma postura populista quanto à remuneração dos executivos financeiros é bom em termos políticos -embora seja: o governo sofreu mais do que parece se dar conta com a percepção de que está transferindo o dinheiro arduamente ganho dos contribuintes para Wall Street e deveria receber com agrado a oportunidade de retratar os republicanos como o partido das bonificações obscenas.
Igualmente importante, porém, é que nesse caso o populismo é inteligente também em termos econômicos. Seria possível, de fato, defender a posição de que uma reforma na remuneração dos executivos bancários é a melhor coisa que podemos fazer para prevenir nova crise financeira dentro de alguns anos.
É hora de o presidente compreender que às vezes o populismo, acima de tudo o tipo de populismo que irrita banqueiros, é exatamente aquilo de que a economia precisa.


Tradução de PAULO MIGLIACCI

21/09/2009 - 12:20h Desconfiança coletiva

Lúcia Guimarães, NOVA YORK – O Estado SP

Uma nova pesquisa revelou que quase dois terços dos americanos desconfiam das notícias divulgadas por jornalistas. É o índice de credibilidade mais baixo desde que o Pew Research Center começou a fazer a pesquisa, em 1985.

O resultado é assustador ao fim de um ano cheio de acontecimentos marcantes – o crash de setembro, a pior crise econômica desde a Grande Depressão, a eleição de Barack Obama. Foi um período histórico que poderia restaurar parte do prestígio da mídia jornalística. Mas os números da pesquisa mostram que a suspeita de desinformação só aumenta.

Entre as estatísticas sombrias: 74% das 1.506 pessoas ouvidas durante a pesquisa, em julho passado, acreditam que a mídia noticia fatos de cunho social ou político sob o prisma do preconceito ideológico. O racha partidário também cresceu, com republicanos habitualmente mais confiantes na cobertura da Fox de Rupert Murdoch e democratas mais dispostos a acreditar na CNN e na MSNBC, esta francamente pró-Obama.

Posso continuar a desfiar o rosário de más notícias sobre o meu ofício, mas faço uma pausa para uma ausência notável na pesquisa. Não houve distinção entre mídias. E, como sabemos, “mídia” engloba conglomerados de tentáculos planetários como também um neonazista com educação primária blogando de cuecas nos cafundós do Estado de Montana.

Convenhamos que há uma diferença expressiva, mesmo considerando que Rupert Murdoch, o planetário, emprega gente como Rush Limbaugh e Glenn Beck, apresentadores de talk shows que desafiam qualquer parâmetro de ética. E por falar no energúmeno Beck, sua cara ocupa, esta semana, um território cobiçado, um dos centímetros quadrados mais valorizados da mídia tradicional. A capa da edição americana da revista Time.

Talvez a Time tenha fornecido involuntariamente uma explicação parcial para os resultados abismais da pesquisa do Pew Center. A capa é bombástica, como se espera, mas a foto escolhida, Beck com a língua de fora, revela mais sobre o dilema da mídia tradicional do que sobre o retratado. O título é Homem Louco: Glenn Beck Faz Mal à América?.

A pergunta é retórica, não respondo pelos outros, mas vou levar para o terreno pessoal: o que me faz mal é não poder mais contar com a maturidade de uma revista de circulação nacional, fundada há 86 anos.

Ao humanizar Beck com uma foto brincalhona, a Time já embarca emasculada na tarefa de conferir o efeito nefasto do circo de extrema direita. Ao definir Beck, notório por acusar Obama de racista, como um “talentoso empresário da angústia no mercado quente dos brancos”, a revista não detecta apenas o óbvio: que Beck fatura o temor branco num país onde as minorias raciais serão maioria em 2042 – ou antes, se as projeções do próximo censo voltarem a antecipar a transformação demográfica.

A reportagem fala de um protesto recente em Washington citando fontes liberais (nos Estados Unidos, liberal é à esquerda) e fontes conservadoras e, assim, dá o tiro no próprio pé. O fato requer a muleta do prisma ideológico para ser noticiado. A intenção da revista, imagino, é parecer equilibrada. Mas o resultado sugere o desespero de uma indústria ameaçada, tentando ser tudo para todos. A polarização política da mídia produziu o que o saudoso Nelson Rodrigues poderia ter batizado de o idiota da subjetividade.

Se vamos em frente com esta forma de editorializar o mundo, logo será sensato citar a Teoria da Evolução como uma conspiração liberal.

O crescente ateísmo do público em relação à atividade que já foi definida como o Quarto Poder parece coincidir com o esforço para sobreviver à transformação econômica. Na continuação da curva descendente, a receita de publicidade dos jornais americanos caiu 29% na primeira metade do ano.

A crise de identidade do jornalismo era inevitável diante do choque provocado pela internet. Mas concordo com quem acha que a internet atingiu uma indústria já enfraquecida por outra erosão: a perda da convicção na própria singularidade, da noção de que reportagem e fabricação de sapatos são atividades com retornos econômicos e propósitos distintos.

Além de inviabilizar as formas tradicionais de sustento da indústria, a internet mudou a hierarquia de consumo da notícia. Um sintoma evidente foi a percepção do blog caseiro como um bolchevismo, uma vanguarda para fazer justiça ao tzarismo corporativo do jornalista profissional. Sabemos onde o bolchevismo foi desaguar. Ainda atravessamos a incerteza da descentralização da notícia.

Quem pode ser contra a democratização do acesso à informação? Mas a perda da confiança do público na mídia jornalística é cria da possibilidade de todos falarem ao mesmo tempo.

Na Grécia Antiga, os mensageiros tinham proteção para ser portadores de notícias, mesmo as que desagradavam aos poderosos.

Ao se comportar como um mensageiro intimidado pela ira do destinatário, a mídia contribui para a desconfiança ilustrada pela pesquisa do Pew Center.

17/09/2009 - 16:13h Alguns jamais aceitarão um presidente negro

http://1.bp.blogspot.com/_8Us7czZwmqg/SRIues32bWI/AAAAAAAABrI/_Ib1hzzewfc/s400/charge-obama-vitoria.jpg

Maureen Dowd, THE NEW YORK TIMES

O presidente Barack Obama, que em geral tem uma atitude de grande desenvoltura, ficou estupefato. Cercado de brancos de meia idade, Joe Wilson berrou “você mente!” para o presidente, que não estava mentindo.

Mas, certo ou não, o que eu ouvi foi uma afirmação implícita: Você mente, rapaz! (o termo rapaz era usado aos negros pelos brancos do sul). Foi uma explosão inesperada, por se tratar de um parlamentar republicano de segundo escalão da Carolina do Sul, que até então mal havia chamado a atenção da imprensa.

Agora, graças ao episódio ele se transformou, da noite para o dia, num herói da direita. O deputado pertence aos Filhos dos Veteranos Confederados. Em 2000, ele liderou uma campanha para que a bandeira dos Confederados tremulasse no topo da Câmara dos Representantes da Carolina do Sul, e denunciou como uma “calúnia” a declaração de uma mulher negra, cuja veracidade foi posteriormente confirmada, que se dizia filha de Strom Thurmond, o candidato segregacionista à presidência em 1948.

Hesitei em admitir que a loucura histérica – os esforços frenéticos para pintar nosso primeiro presidente negro como o outro, o estrangeiro, socialista, fascista, marxista, racista, comunista, nazista; uma pessoa de moral duvidosa que deixará os velhos morrer; uma víbora que envenenará as crianças com sua doutrina – tinha a ver com raça.

Eu tendia a concordar com alguns assessores de Obama, segundo os quais os presidentes democratas sempre provocaram uma reação raivosa em pessoas paranoicas. Mas a chocante falta de respeito de Wilson pela pessoa do presidente – nenhum democrata jamais gritou “mentiroso” para Bush quando ele nos impingiu a falsa justificativa da guerra no Iraque – me convenceu: algumas pessoas não conseguem acreditar que um negro é o presidente, e jamais acreditarão.

“Essas explosões, em grande parte, têm a ver com a vontade de tirar de Obama a legitimidade de seu cargo”, disse o deputado democrata Jim Clyburn, um dos mais representativos da Carolina do Sul. “Estas questões devem ser tratadas com rigor. Meu pai costumava dizer: “Filho, lembre sempre de que quem cala consente.”"

Obama, da geração pós-60, vivendo no longínquo Havaí, não participou das importantes lutas racistas da história dos EUA. Agora, ele está bem no meio de um período de turbulência racial provocada por sua ascensão. Mesmo que ele e seus assessores brancos prefiram não reconhecer abertamente o fato, este presidente é a figura do defensor dos direitos humanos por excelência – um negro cuja legitimidade é continuamente contestada por um setor radical de malucos.

Durante dois séculos, o Sul temeu que os negros ou os federados tomassem o poder. Com Obama, agora eles se defrontam com ambos. O Estado que disparou o primeiro tiro na Guerra Civil nos EUA nos presenteou com o senador Jim DeMint, que exortou os conservadores a “quebrar” o presidente derrubando seu plano de reforma da saúde; com Rusty DePass, um ativista republicano que afirmou que um gorila que fugiu do zoológico é “apenas um dos antepassados de Michelle”; com Mark Sanford, que tentou recusar o dinheiro do pacote de ajuda do presidente. E agora temos Joe Wilson.

“Muitas pessoas na Carolina do Sul repudiam a ideia de que fazemos parte da união”, afirmou Don Fowler, o ex-presidente nacional do Partido Democrata, que leciona Política na Universidade da Carolina do Sul. Ele observou que quando a escravidão foi destruída por forças externas e a segregação foi abolida pelos líderes do movimento pelos direitos humanos e pelo Congresso, isso provocou uma verdadeira xenofobia.

Clyburn alertou os assessores de Obama, que querem perdoar Wilson, a ignorar os repentes ignorantes e ir em frente: “O pessoal da Casa Branca terá de descobrir como lidar com esse tipo de coisa e não deixar a situação degenerar. Caso contrário, o apoio que Obama tem recebido irá para a direção errada.”

*Maureen Dowd é cronista política