12/08/2012 - 18:22h Uma nova obsessão

12 de agosto de 2012

LEE SIEGEL – O Estado de S.Paulo

Diga-me o que comes e eu te direi quem és, disse famosamente o gastrônomo do século 19 Brillat-Savarin. Se isso for mesmo verdade, então a obsessão selvagem por comida e culinária que se apossou da América é muito reveladora.

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Nos últimos dez anos, aproximadamente, cada aspecto do consumo de alimentos foi hiper-racionalizado. Há dezenas de reality shows concorrentes associados a aspirantes a chefs, chefs celebridade aparecendo inesperadamente num restaurante decadente para salvá-lo, um chef celebridade abrindo uma escola de culinária e pondo seus alunos à prova. Há o Cake Boss que acompanha a vida diária de uma família que possui uma confeitaria em Hoboken, Nova Jersey. Há uma coisa chamada The Chew, em que o participante que fizer uma imitação mais perfeita de Julia Child vence.

Ademais, há os livros. Centenas de livros. Há livros que nos dizem como comer de maneira saudável, como comer de maneira elegante, como preparar uma grande variedade de peixes, como assar pão, como cozinhar para seu (sua) amado (a), como cozinhar quando se é um atleta, como cozinhar quando se é solteiro (a), como cozinhar um jantar em 20 minutos… Há memórias na forma de livros de culinária: Como eu parei de amar demais e comecei a comer bem, Como cozinhei para 25 diferentes namorados, Como preparei comida francesa enquanto aprendia sobre pintura impressionista. (Todas invenções minhas, só para dar uma ideia). Há livros que nos ensinam como cultivar a própria comida, livros expondo as práticas desumanas e anti-higiênicas da indústria alimentícia, livros classificando cada tipo de substância comestível conhecida como saudável ou não.

E há o movimento do alimento orgânico. Ele começou com um estilo consciencioso de alimentação saudável, em que os alimentos eram cultivados de acordo com critérios rígidos que excluíam pesticidas e herbicidas. Ele ainda é isso, mas também foi assimilado por corporações gigantes do ramo alimentício que aplicam o rótulo “orgânico” em tudo, até onde a categoria orgânico não faz sentido, como “batata chips orgânica”. Ao mesmo tempo, as corporações alimentícias estão introduzindo cada vez mais alimentos artificiais na categoria orgânica. Elas podem fazê-lo porque a agência do governo que supervisiona a produção de alimentos – a Food and Drug Administration – ainda não determinou precisamente o que “orgânico” realmente significa. Enquanto isso, nas mercearias, nos supermercados, e nos mercados de produtores rurais por todo o país, a busca pela comida perfeita continua.

Há duas tendências nacionais que a obsessão por alimentos incorpora. A primeira é a transformação do lazer em mais uma forma de competição. O que pode ser mais agradável e gratificante que uma bela refeição? A cozinha sempre foi o centro da vida familiar. A sala de jantar sempre foi o centro da vida social. Agora, cozinhar, comer e servir comida foram arrastados para o mesmo reino competitivo de fazer carreira ou ganhar dinheiro. As pessoas costumavam ir do trabalho para casa e espairecer na cozinha. Agora, as pessoas voltam para casa para um outro tipo de trabalho, enquanto chefs celebridade, escritores sobre culinária, e gurus da saúde espreitam por cima dos seus ombros enquanto elas cozinham.

A razão de fazer da culinária uma arte sempre foi transformar a necessidade em prazer; enfatizar o lado agradável de nossa natureza animal, em vez do duro lado da sobrevivência. Agora, porém, nos Estados Unidos, o lazer de cozinhar e comer bem virou a luta darwiniana pela supremacia: ser o “melhor” cozinheiro, comer a “melhor” comida, ter o “melhor” físico, e assim por diante. Perdi a conta das vezes em que me sentei para jantar num restaurante em Nova York enquanto meu acompanhante de jantar exibia sua robustez física para mim comendo cada item empanturrado de gordura do cardápio.

A outra tendência nacional é o controle. Seja porque as pessoas se sentem cada vez menos no controle de suas vidas, seja porque a mágica nova tecnologia as encorajou a sentir que administração de seu ambiente está ao alcance, os americanos parecem acalentar a ilusão de controle total. Boa parte disso se manifesta, como já escrevi anteriormente, na ânsia de micro-gerir as vidas de nossos filhos, e também no prevalecimento da escrita sociobiológica, que promete aplicar uma fórmula pró-ativa de existência. Mas o ato de comer agora foi trazido também para a obsessão pelo controle. É como se pela racionalização de cada aspecto do consumo de alimentos nós pudéssemos começar a consertar a própria moralidade. Afinal, nenhuma atividade de lazer está tão conectada às fontes da vida como o comer.

Há anos que se fazem comparações entre os Estados Unidos e a Roma antiga, na maneira como os EUA conduzem suas relações exteriores, na ascensão de uma casta plutocrática, na decadência da cultura. A mim me parece que essa analogia está completamente errada. Enquanto seu império se expandia a ponto de ruptura e depois começava a ruir, os romanos se entregavam ao prazer. Os americanos estão abandonando o prazer para trabalhar, na medida em que cada aspecto da vida é racionalizado e transformado em algum tipo de competição. Pouco importa o que você come. Diga-me o que pensa sobre comer, e eu lhe direi se você é saudável ou não.

10/08/2012 - 09:21h Desigualdade é raiz da crise, diz Stiglitz

Por Matthew Craft | Associated Press | VALOR

Richard Drew/AP / Richard Drew/AP
Para Joseph Stiglitz, os EUA poderiam ter uma economia mais eficiente e estável se sua sociedade fosse mais igual


O que há de errado com a economia americana? O crescimento segue aos trancos e barrancos. O desemprego está acima de 8% há três anos e meio. Cortes nos impostos e nas taxas de juro não têm funcionado, pelo menos não o suficiente. Para Joseph Stiglitz, vencedor de um prêmio Nobel de Economia, o estranho comportamento da economia pode ser atribuído ao crescente fosso entre americanos ricos e todos os demais.

Em seu novo livro, “O Preço da Desigualdade”, ele estabelece um nexo entre o crescente endividamento dos que tomam empréstimos educacionais, a bolha imobiliária e muitos outros problemas do país e maior desigualdade.

Quando os ricos continuam ficando mais ricos, diz ele, os custos se acumulam. Por exemplo, é mais fácil escapar da pobreza no Reino Unido e no Canadá do que nos EUA. “As pessoas na base da pirâmide têm menor probabilidade de realizar seu potencial”, afirma.

Leia trechos da entrevista:

Valor: Os protestos do movimento “Ocupar Wall Street” já não são mais notícia, mas o senhor argumenta que a desigualdade de renda é mais importante do que nunca. Como assim?

Joseph Stiglitz: Porque ela está piorando. Veja os mais recentes números do Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA). A riqueza mediana caiu 40% entre 2007 e 2010, levando-a de volta a onde estava no início dos anos 90. Durante duas décadas, todo o crescimento da riqueza no país, que foi enorme, foi para as pessoas bem no topo (da pirâmide). Podem ter sido duas décadas prósperas. Mas não compartilhamos, todos nós, dessa prosperidade. A crise financeira tornou isso realmente bem fácil de entender. A desigualdade sempre foi justificada com o argumento de que aqueles no topo – “os criadores de emprego” – contribuíram mais para a economia.

Depois vieram 2008 e 2009, e vimos esses sujeitos que colocaram a economia à beira da ruína levar centenas de milhões de dólares para casa. E não era possível justificar isso em termos de contribuição para a sociedade. O mito tinha sido vendido para as pessoas, e, de repente, ficou evidente para todos que não passava de uma mentira.

Mitt Romney qualificou as preocupações com a desigualdade de “política de invejosos”. Bem, isso está errado. Inveja seria dizer: “Ele está ganhando bem mais do que eu. Eu tenho inveja disso’. O que dizemos é: “Por que ele está ganhando tanto dinheiro, se ele nos trouxe para a beira da ruína?” E os que trabalharam duro são aqueles que foram arruinados. É uma questão de igualitarismo.

Valor: O objetivo dos mercados não é ser justo. Enquanto houver mercados, haverá vencedores e perdedores. O que há de errado nisso?

Stiglitz: Não estou defendendo a eliminação da desigualdade. Mas o extremo a que chegamos é muito ruim. Em particular, a forma como ela é produzida. Poderíamos ter uma sociedade mais igual e uma economia mais eficiente, mais estável, com maior crescimento. É essa, realmente, a questão. Mesmo se você não tiver quaisquer valores morais e quiser apenas maximizar o crescimento do PIB, esse nível de desigualdade será danoso. Não se trata apenas de injustiça. A questão é que estamos pagando um preço alto. A história que nos contaram é que a desigualdade era boa para nossa economia. Eu estou contando uma história diferente, que esse nível de desigualdade é ruim para nossa economia.

Valor: O senhor argumenta que isso está fazendo nossa economia crescer mais lentamente e vincula isso aos que querem viver de renda. Esse é um conceito de economista. Poderia explicar em termos leigos?

Stiglitz: Algumas pessoas obtêm renda de seu trabalho e algumas pessoas têm renda apenas porque são donas de um recurso. A renda delas não é resultado de esforço. Elas estão recebendo uma fatia maior do bolo, em vez de fazer o bolo crescer. Na verdade, eles estão fazendo o bolo ficar menor.

Valor: É como, por exemplo, eu instalar uma cobrança de pedágio num cruzamento movimentado e recolher todo o dinheiro para mim.

Stiglitz: Isso mesmo. Você apenas recolhe o dinheiro. Você não está agregando nada.

Valor: Onde o senhor vê isso nos EUA? Poderia apontar para alguns exemplos?

Stiglitz: Nós vemos isso no caso das companhias nos setores de petróleo e de recursos naturais e suas licenças para exploração mineral e madeireira. Os bancos se envolveram na concessão de empréstimos predatórios. Recentemente, as empresas Visa e MasterCard firmaram acordos aceitando pagar US$ 7 bilhões por comportamento anticoncorrencial. Elas cobravam dos comerciantes mais dinheiro, porque detêm poder monopolista.

Valor: O crescimento econômico está esfriando novamente. O desemprego parece emperrado acima de 8%. Isso é consequência de dívidas elevadas ou de gastos mais lentos?

Stiglitz: O problema fundamental não é a dívida pública. Ao longo dos últimos anos, o déficit orçamentário foi resultado de crescimento baixo. Se nos concentrarmos em crescer, teremos crescimento, e nosso déficit cairá. Se nos concentrarmos apenas no déficit, não iremos a lugar nenhum.

Essa fetichização do déficit está matando nossa economia. E isso está ligado à desigualdade. Se assumirmos medidas de austeridade, isso produzirá maior desemprego e alargará a desigualdade. Os salários caem, a demanda agregada cai, a riqueza diminui.

Todos os donos de imóveis endividados em nível superior ao próprio valor de suas casas não conseguem consumir. Nós demos dinheiro para socorrer o sistema bancário, mas não demos dinheiro para essas pessoas superendividadas. Elas não têm como gastar. É isso que nos está fazendo afundar. São os gastos domésticos.

Valor: E as pessoas que têm dinheiro para gastar, diz o senhor, gastam menos de cada dólar de sua renda. As pessoas no topo da escala de renda poupam quase um quarto de sua renda. As pessoas nos estratos mais baixos gastam cada centavo. É por isso que as reduções tributárias parecem ter pouco efeito sobre os gastos?

Stiglitz: Exatamente. Quando você redistribui dinheiro de baixo para cima, isso enfraquece a economia. E toda essa conversa sobre os investimentos dos mais ricos no país é besteira. Não, eles não investem aqui. Eles estão em busca de onde podem obter retornos mais elevados, e estão procurando no mundo inteiro. Por isso, estão investindo na China e no Brasil e na América Latina, nos mercados emergentes; não nos EUA. (Tradução de Sergio Blum)

08/08/2012 - 10:00h Obama perde apoio de grandes empresas

Por Stephanie Kirchgaessner | Financial Times | VALOR

Nove meses após assumir a Presidência, Barack Obama organizou um almoço fechado para os executivos-chefes de algumas das maiores empresas dos Estados Unidos, Amazon e Kraft entre elas. O verão de 2009 havia sido duro. As batalhas envolvendo a remuneração corporativa e os planos da Casa Branca de reorganizar o sistema de saúde e o setor de energia haviam formado uma impressão entre os líderes empresariais de que ele era “antibusiness”.

O esforço do presidente para reparar relações desgastadas falhou. Menos de um ano depois, enquanto tentava fazer a América corporativa ajudar a resgatar a economia de sua pior recessão desde a Grande Depressão, a Casa Branca revelou sua frustração. “Os riscos são grandes demais para que trabalhemos uns contra os outros”, escreveu Valerie Jarrett, conselheira de Obama, à Câmara do Comércio, um grande lobby empresarial. “[A retórica empresarial] não reconhece as medidas que esta administração vem tomando para atender os objetivos compartilhados.”

De lá para cá – após uma onda reguladora que incluiu a lei Dodd-Frank, para o mercado financeiro, e a promoção pelo presidente do plano Buffett, que estabeleceria um imposto mínimo de 30% para quem ganha mais de US$ 1 milhão por ano -, as diferenças só aumentaram.

Enquanto isso, o candidato republicano à Presidência, Mitt Romney – cofundador da Bain Capital de Boston -, está fazendo campanha para as eleições de novembro com base em sua experiência corporativa e promete tornar a vida mais fácil para as companhias, grandes e pequenas.

Essas visões conflitantes para a América corporativa coincidem com uma nova campanha de desregulamentação do sistema financeiro que permitiria a empresas e sindicatos, doar, em certas circunstâncias quantias ilimitadas de dinheiro para apoiar políticos – um ato que até agora favoreceu os republicanos.

No longo prazo, a agenda do vencedor vai moldar a política fiscal, com possíveis repercussões para uma economia mundial que tenta evitar mergulhar de volta na recessão, assim como para o ambiente regulador.

Instituições de Wall Street e executivos votaram em massa em Obama nas eleições de 2008, mas eles o trocaram por Romney em 2012. No começo de maio, executivos do setor financeiro haviam doado para Romney três vezes mais recursos de campanha do que para Obama, segundo o Center for Responsive Politics, um grupo de pesquisas de Washington.

John Engler, presidente da Business Roundtable, um grupo lobista que defende os interesses de executivos-chefes de empresas, diz: “Há uma crença entre muitos na comunidade empresarial de que a administração Obama não tem uma grande afeição pelos empresários e pelas empresas… de que uma administração Romney seria mais neutra e respeitaria mais o papel do livre mercado na determinação de investimentos bem-sucedidos”.

No mês passado, o candidato republicano atacou Obama por afirmar: “Se você tem um negócio, você não o construiu, alguma outra pessoa fez isso acontecer”. O presidente observou que a declaração enfatizou a importância da educação e da infraestrutura bancadas pelo governo para o crescimento, mas seu rival disse que se tratava de um “insulto a todos os empresários e inovadores da América”.

Na verdade, o apoio de Obama a investimentos de infraestrutura tem o apoio de muitos na América corporativa. Se Romney vencer, provavelmente haverá uma certa objeção aos grandes cortes nos gastos reservados para a melhoria de rodovias e aeroportos propostos pelos republicanos no Congresso.

A redução do déficit é a questão “mais importante” que o próximo presidente vai enfrenta, afirma Roger Altman, presidente do conselho de administração do banco de investimentos Evercore, que foi vice-secretário do Tesouro na administração Clinton. O plano de Obama – uma mistura de aumento de impostos e corte nos gastos – “é muito mais realista do que aquele colocado na mesa por Romney”, afirma ele. Mas a maioria dos setores favorece a plataforma republicana de impostos menores e menos regulamentação.

Os apoiadores de Romney veem a eleição como uma chance de introduzir uma era de cooperação com o governo, especialmente em termos regulatórios. “Há uma sensação entre os diretores com quem tenho conversado, de que existe uma demanda reprimida, um desejo das empresas por muitos gastos e investimentos, se todos acharem que os sinais estiverem claros – e de que se você arriscar capital, o jogo não mudará para você no período de um ano”, diz Engler.

“A agenda de desregulamentação gradativa de Romney poderá ter alguns benefícios de curto prazo”, afirma Jared Bernstein, ex-economista-chefe do vice-presidente Joe Biden, “mas historicamente isso tem sido uma receita de formação e estouro de bolhas, além de enfraquecer significativamente a classe média”. De sua parte, Obama afirma que as políticas de impostos baixos e regulamentação leve propostas por Romney são aquelas que “em primeiro lugar causaram a bagunça financeira”.

O presidente tem aliados no Vale do Silício e alguns em Wall Street. Ele também é visto no geral como defensor do setor industrial. Jeff Immelt, presidente-executivo da General Electric (GE), vem trabalhando com ele em políticas para melhorar o nível de emprego através do Conselho de Empregos – embora o órgão tenha se tornado alvo de um joguete político quando surgiu a informação de que ele não se reúne há seis meses. Ele tem apoiadores em Detroit, onde é creditado por ter revitalizado a indústria automobilística com um socorro financeiro à General Motors (GM). Romney tem dito que não teria feito tal resgate.

Nenhum setor tem mais a perder que o da saúde, que representa um sexto da atividade econômica dos Estados Unidos, conforme medido pelo PIB. Se for reeleito, Obama continuará implementando a lei da saúde de 2010, ampliando o seguro para que ele cubra mais de 25 milhões de americanos, enquanto que Romney, na Presidência, tentaria desmantelar a lei. Ela vem recebendo um grande apoio dos setores hospitalar e farmacêutico, mas enfrenta a oposição do setor de seguros, embora as posições ainda possam mudar até as eleições em novembro.

Mas é na questão dos impostos que as empresas sentirão o resultado de maneira mais direta. Os dois candidatos concordam que os altos impostos pagos pelas empresas e muitas brechas colocam as empresas americanas em desvantagem – e, seja quem for o vencedor, uma reorganização está praticamente garantida. Os detalhes, porém, serão em grande parte determinados pelo próximo presidente.

“Há um consenso geral sobre a direção que se deve tomar”, afirma Chris Krueger, analista da Guggenheim Partners, uma companhia de serviços financeiros de Washington, “mas ninguém tem certeza do caminho que será tomado”.

07/08/2012 - 08:59h É o desemprego, tontos!

Por Antonio Delfim Netto – VALOR

Na preparação e na expansão dos fatos que levaram à crise que estamos vivendo não existem inocentes: os governos falharam miseravelmente, o setor financeiro sem regulação – como o velho escorpião da fábula – cumpriu o seu objetivo matando o setor real da economia e alguns economistas, gloriosamente, “teorizaram matematicamente” a alta qualidade dos malfeitos…

Seria ridículo e pretensioso dizer que os economistas foram causa eficiente da crise. Eles foram apenas coadjuvantes (e algumas vezes beneficiários) do processo. Ajudaram a criar uma “ideologia” que pretendia dar base “científica” ao papel do mercado financeiro desregulado na aceleração do desenvolvimento econômico e do bem-estar do mundo. A mensagem construída a partir da fantástica hipótese dos “mercados perfeitos” tinha com consequência subliminar a ideia do velho presidente Reagan: “Os governos não são a solução, são o problema!” Mas é ridículo, também, isentá-los de qualquer responsabilidade. Produziriam trabalhos científicos na Academia, onde se faria “ciência pela ciência”, na qual não é proibido inventar universos que não existem, como uma sociedade com um único produto, com uma função agregada de produção domesticada, com um agente representativo que incorpora todos os consumidores e os produtores, mas onde não há nem o crédito, nem as bolsas de valores. Agora esforçam-se em incorporá-los no famoso modelo designado de DSGE (Dynamic Stochastic General Equilibrium, Equilíbrio Geral Dinâmico Estocástico). Não teriam, entretanto, responsabilidade pelo mau uso dos seus modelos, mesmo porque esses não se referem, necessariamente, a este mundo…

Paradoxalmente, nesse processo no qual parece não haver ator que tenha sido sua causa eficiente, há quem esteja recebendo a conta do malfeito. São os mais de 30 milhões de desempregados que estão nas ruas recusando-se a pagar as “falhas” dos governos – que provavelmente corrigirão nas urnas – e as “falhas” do mercado financeiro, cujos responsáveis esperam ver julgados e condenados pela Justiça. Acreditaram que os governos e os mercados sabiam o que faziam. Continuam sendo ignorados pelos estudos mais recentes de economistas ainda presos ao paradigma que a crise destruiu.

Economistas foram coadjuvantes no processo da crise

Não se estuda o verdadeiro “custo social do imenso desemprego”. Insiste-se em continuar a estimar os efeitos sobre o bem-estar (o consumo) produzidos pelas flutuações do PIB, na velha e abusada tradição de Robert Lucas (o brilhante Prêmio Nobel de 1995) para quem as flutuações do emprego são pouco mais do que ataques de vagabundagem que, ciclicamente, atingem a mão de obra. Chega-se à conclusão que sobre esse ser inefável e metafísico – o consumidor representativo – ele é pequeno. Aliás, as estimativas variam fortemente porque todos conhecem – mas ninguém leva a sério – a afirmação do economista C. Otrok (”On measuring the welfare cost of business cycles”, “Journal of Monetary Economics”, 47, 2001, 61:92) que é “trivial fazer o custo do bem-estar produzido pela variação do PIB do tamanho que cada um quiser, simplesmente escolhendo uma forma conveniente da preferência” [do consumidor]. Repete apenas o grande Vilfredo Pareto, que já no século XIX afirmou: “Me deem as hipóteses adequadas e provarei qualquer coisa”…

A demonstração mais evidente dessa “disfunção teórica” é um recente trabalho de E. B. Yehoue também inspirado em Robert Lucas (”On Price Stability and Welfare”, IMF Working Paper 12/189, julho de 2012). Suas conclusões são interessantes: “Usando um agente-representativo conservador num modelo de equilíbrio geral e baseado em parâmetros consistentes com os dados dos EUA, estimamos o custo social associado com diferentes níveis de metas inflacionárias, em particular 2%, 4% e 10%. O trabalho sugere que o custo social adicional de elevar a meta de inflação de 2% para 4% é igual a 0,3% do PIB real. Se a elevação for de 2% para 10%, esse custo se eleva a 1%. Com outros valores para os parâmetros na curva de demanda de moeda chega-se a 7% quando se eleva a inflação de 2% para 4%, e a 30% quando se passa de 2% para 10%” (página 4).

Em poucas palavras, vale “a fortiori”, o que disse – repetindo Pareto – o economista C. Otrok citado acima. Quando as hipóteses são arbitrárias, “Deus está morto e tudo é permitido!”

Mas o ponto realmente importante no trabalho de Yehoue é que, salvo algum engano, ele menciona uma única vez nas 35 páginas do artigo, a palavra “desemprego” (página 21) referindo-se ao economista prático Arthur M. Okun (1928-80), que mostrou uma regularidade entre a taxa de crescimento do PIB e a taxa de crescimento do desemprego agora conhecida como “Lei de Okun”. Obviamente, Yehoue não a utilizou porque ela introduziria ainda mais “ruído” nas suas conclusões. Aliás, uma coisa me intriga: seria o “custo social” produzido por um eventual aumento da meta de inflação de 2% para 4% nos EUA menor do que o custo do desemprego causado pela sua persistência ao longo dos últimos cinco anos de pelo menos 3% (dos 8% atuais para os 5% “normais”)? É sugestivo que nas 58 referências do artigo, nenhuma tenha no título a palavra “desemprego”!

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

E-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

01/08/2012 - 18:15h “El imperio americano se hace pedazos”


GORE VIDAL, ESCRITOR
“Cualquiera que no odie a los negros será odiado por un tercio de la población de Estados Unidos “.

Andrés Fernández Rubio Madrid 3 DIC 1996- El País

Gore Vidal enseña su colmillo retorcido desde el primer momento, cuando un fotógrafo se arrodilla para retratarle en contrapicado y él le hace señas rápidamente para que vuelva a ponerse en pie mientras masculla: “Te descuidas y todos quieren hacer Ciudadano Kane”. Luego posa para la entrevista por su lado mejor, el izquierdo, y saluda frente a un equipo de televisión a la manera de la monarquía británica; es decir, desenrollando un bote de mermelada boca abajo, como él mismo explica en su libro autobiográfico Una memoria, editado por Anaya & Mario Muchnik. Vidal ha viajado a Madrid para presentar el volumen (mañana celebrará un debate con el público en el Círculo de Bellas Artes a las ocho de la tarde), un texto escrito en defensa propia frente a libros de otros en los que se ve dibujado sin exactitud.Se las sabe todas Gore Vidal, de 70 años y uno de los grandes intelectuales norteamericanos, novelista, ensayista, dramaturgo, guionista de Ben-Hur o actor; nieto del senador populista ciego Thomas Pryor Gore; pariente de Al Gore; relacionado con Jackie Kennedy a través de un padrastro que ambos compartieron; interesado él mismo en la carrera política dentro del Partido Demócrata mucho tiempo…

“Yo quería ser presidente y dio la casualidad de que un amigo mío lo consiguió”, explica sin inmutarse Gore Vidal refiriéndose a John F. Kennedy -el escritor Martin Amis destacó en Vidal tras entrevistarle “su falta de modestia, su inigualable y divertido narcisismo, su auténtico amor por sí mismo”-.

Los Kennedy aparecen sobradamente en Una memoria, y Gore Vidal captura al lector desde el primer capítulo cuando cuenta cómo Jackie Kennedy “se subía el vestido y le enseñaba a la inocente Nini cómo hacerse una irrigación después del acto sexual”. ¿Qué opina Gore Vidal del revival de Jack y Jackie Kenedy en Estados Unidos y de aquella presidencia resumida en una palabra: Camelot? “Uhhh”, brama. “Camelot era la mafia. Y lo digo literalmente, era una familia criminal, empezando por el abuelo del presidente, que se encargaba, desde la alcaldía de Boston, de controlar el mundo del hampa en la ciudad. Su hija se casa con John Kennedy, quien hereda las relaciones de su suegro con FranK Costello, jefe de la mafia de la Costa Este de Estados Unidos. John Kennedy, hasta que su hijo llegó a presidente, comía una vez a la semana con Frank Costello en Central Park South de Nueva York: una comida entre criminales”.

Ácido comentarista de la vida americana desde su retiro italiano de Ravello, Gore Vidal cree firmemente que el declive del imperio americano es un hecho, y una ocasión alertó sobre la posibilidad de que, como en el caso de Kennedy, Bill Clinton cayese asesinado. “Pensé que el odio que Clinton y su mujer estaban generando en sectores del pueblo americano podía terminar en un intento de asesinato”, comenta. “Pasó lo mismo con John F. Kennedy. Los Kennedy también creaban a su alrededor esa clase de histeria, y, aunque los Clinton son mucho más inocentes, generan el mismo odio y una especie de rabia en un país donde cualquiera tiene en su casa una pistola”.

En opinión del sarcástico e implacable Gore Vidal, “cualquiera que no odie a los negros será odiado por un tercio de la población de Estados Unidos. Y Clinton los defiende. Ese sector también odia a las mujeres que se salen del tiesto, como Hillary Clinton, que es demasiado brillante para ellos. Como dijo una vez uno de la derecha dura: ‘Es la primera dama de cualquiera”. Y respecto a las posibles aspiraciones presidenciales de su pariente, Al Gore, Vidal afirma: “Tiene la ambición de Cromwell. Pero van a ser cuatro años terribles porque el imperio se está cayendo a trozos”. Y ofrece como datos significativos el endeudamiento del país, la falta de control de las armas, el mínimo gasto educativo v el fracaso de la cultura.

Vidal se ha hecho célebre por su mordacidad, su frialdad y sus broncas. En una ocasión Norman Mailer le tiro el líquido de un vaso a la cara y le dio un puñetazo, y su enemistad con Truman Capote, al que llama cara de feto en el libro, es legendaria -se le atribuye la siguiente frase cuando le comunicaron su muerte: ‘Ése fue un buen paso en su carrera’- En una fotografía del libro aparecen Capote, Tennessee Williams y él. “No podía soportar a Capote”, dice Vidal. “Mentía acerca de todo, la mentira era su forma de expresión artística. Podías ver cómo se lo inventaba todo sobre la marcha, sobre todo si se trataba de gente famosa.si hubiera tenido la mitad de imaginación para su obra de ficción hubiera sido un novelista importante. Comencé a evitarlo cuando supe que se dedicaba a extender mentiras sobre mí. Por el contrario, fui muy amigo de Tennessee. Gran clase. Viajábamos, reíamos… Pero se volvió loco a base de píldoras y alcohol”.

El índice de Una memoria, titulado en inglés Palimpsest, está plagado de nombres famosos con los que Gore Vidal despliega su cinismo, su humor despiadado y, a veces, como en el caso del filósofo George Santayana, su admiración y cortesía. El escritor pide que no se tome demasiado en serio a los miembros de la generación beat, por ejemplo, pese a que tienen capítulo propio en las memorias. “Fue un fenómeno basado realmente en el extraordinario don de Allen Gingsberg para la publicidad”, dice. “Allen pensaba que yo tenía demasiado éxito y que no encajaba. Pero lo cierto es que yo estaba demasiado ocupado con el sexo y la literatura, sin tiempo suficiente para ir conduciendo coches a través del país. Kerouac era un hombre dulce, aunque un mal bebedor que se acabó matando por eso. Era horriblemente estúpido, verdaderamente estúpido, pero tenía ese adorable don de la frescura. He releído En la carretera y es dulce como el trabajo de un niño: sus ojos están abiertos, se siente bien, está enamorado de Neal Cassady… Este último hecho nunca ha podido ser aceptado por ninguno de los críticos que lo han colocado en la columna de los heterosexuales. Por eso he tenido que ocuparme en mis memorias [Vidal narra su encuentro sexual de una noche con Kerouac] de sacarlo de esa columna y de ponerlo en la que realmente le corresponde, que es en la otra o en ambas a la vez. Era un espíritu libre”

Amor, sexo, amistad

“El amor es un tema sobre el que no pienso demasiado, y diría que los imbéciles que he conocido hablaban del amor en grandes términos”, afirma Gore Vidal. “Cada vez que alguien empieza a hablar de amor verdadero saco el revólver y disparo. Hay sexo y amistad, y éstas son las dos únicas cosas que me interesan. Nunca sé de qué habla la gente cuando habla de amor. Ni ellos tampoco. Lo saben cuando hablan de sexo, pero no lo quieren admitir. O cuando hablan de poder, de la manera de usar el poder de las apariencias y de su posición con respecto a los demás seres humanos”.

Pese a este duro comentario, en el libro de Gore Vidal hay un leit-motiv: un joven jugador de béisbol rubio y de ojos azules llamado Jimmie Trimble con el que Vidal se masturbaba en la adolescencia. Trimble murió asesinado en la II Guerra Mundial. “Sí, es una declaración de amor”, dice Gore Vidal. “Pero me ha costado casi 70 años darme cuenta”, añade con escepticismo. “No he pensado en ello prácticamente en todo este tiempo, aunque ha estado ahí, en la parte de atrás de mi cerebro”.

Gore Vidal se reconoce en una palabra: pansexual. Se jacta de la promiscuidad sexual que ha practicado, y añade que siempre la ha recomendado “hasta que llegó el sida”. “Gracias a Dios”, continúa, “he vivido antes de los tiempos del sida, y desconozco lo que pasa por las mentes de los jóvenes ahora, si están aterrorizados por el sexo cuando deberían estar practicándolo todo el tiempo. En mi época coincidí con varios que tenían una cosa en común conmigo: la promiscuidad total. Uno era Kennedy, otro Brando, Tennessee Williams y yo. Nos conocíamos, éramos de la misma edad, vivimos una época maravillosa, no parábamos”.

Se lo perdieron

“La sífilis fue barrida en los cuarenta y desde entonces hasta los ochenta ha habido al menos 40 años espléndidos”, continúa. “¡Lo siento por los que se lo perdieron!”Gore Vidal se enfrentó a “la dictadura heterosexual” de América a los 23 años. Su libro La ciudad y el pilar, de 1948, trataba “sobre la fundamental naturalidad, mejor dicho, normalidad, de la homosexualidad”. Poco después apareció el informe Kinsey, “donde se descubrió que el 37% de los americanos varones habíamos practicado el sexo con otros hombres”, dice. “Esto cayó como una bomba en Estados Unidos. Como también cayó como una bomba La ciudad y el pilar, porque trataba de chicos normales enamorándose y disfrutando del sexo. ¡No era posible, tenían que ser locas, tenían que ser peluqueros, era imposible entre los soldados! Tuvo críticas malas pero fue un gran éxito y un gran escándalo. Y tres meses después llegó el doctor Kinsey diciendo lo mismo. Todo el país se quedó de piedra y un intelectual -en América no tenemos muchos y de los que hay muy pocos son buenos- se preguntó: ‘¿Y dónde está el amor en el informe Kinsey?’ Y el doctor Kinsey respondió: ‘Yo no mido el amor sino las eyaculaciones”.

01/08/2012 - 17:29h Gore Vidal, crítico mordaz del modo de vida americano, fallece a los 86 años

Eva Sáiz Washington 1 AGO 2012 – EL PAÍS

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Gore Vidal retratado en Ravello (Italia), en febrero de 1995. / CHEMA CONESA


Gore Vidal, una de las figuras literarias de Estados Unidos más importantes, no solo por su heterogénea y prolífica obra creativa, sino por su capacidad para diseccionar con una elegante mordacidad la idiosincrasia de su país, falleció el 31 de julio en su casa de Hollywood Hills (California). El escritor tenía 86 años y no pudo superar una neumonía, según indicó su sobrino Burr Steers.

Dotado de una admirable capacidad narrativa, la primera vocación de Vidal no fue otra que la de dirigir su país. “La única cosa que siempre he querido hacer en mi vida es ser presidente”, dijo en varias ocasiones. Buena parte de esa inclinación política la cimentó desde la cuna. Su abuelo materno, con quien se crió tras la separación de sus padres cuando él tenía 10 años, era Thomas Gore, senador por Oklahoma, a quien Vidal solía leerle y servirle de guía cuando éste perdió la vista. La filosofía política de su abuelo, muy crítica con la deriva exterior e interna de EE UU, sin duda contribuyó a apuntalar su mordacidad con la actividad gubernamental. Además del pedigrí materno, conviene recordar que el padre del autor, Eugene Luther Vidal, fue director de Comercio Aéreo bajo el mandato de Franklin D. Roosevelt, y que él mismo era primo del presidente Jimmy Carter y del exvicepresidente Al Gore.

Pero la vocación política del autor no se quedó en meras intenciones. Vidal fue candidato del Partido Demócrata a la Cámara de Representantes por Nueva York en 1960 y trabajó para John F. Kennedy en el Comité Asesor de las Artes para la Presidencia, entre 1961 y 1963. En 1982, tras dos aventuras relacionadas con la fundación de partidos independientes, el escritor volvió  a presentarse por la formación demócrata, esta vez, al Senado por California en 1982.

Aunque nunca dejó de estar involucrado en el ámbito político –criticó duramente la deriva imperialista y la política antiterrorista de los dos mandatos presidenciales de George W. Bush-, la literatura acabó imponiéndose a su vocación presidencial. Vidal publicó su primera novela, Williwaw –inspirada en su experiencia militar en los estertores de la II Guerra Mundial-, en 1946. Pero su punto de inflexión literario lo constituyó La ciudad y el pilar de sal, una historia de temática abiertamente homosexual, considerada autobiográfica y que obtuvo altas dosis de éxito equivalentes al escándalo que generó. The New York Times se negó a escribir las reseñas de sus siguientes trabajos que, por lo demás, se ahogaron en la indiferencia de los especialistas literarios y del público en general.


Gore Vidal, retratado hacia 1955. / HULTON ARCHIVE/ GETTY

Además de por sus novelas, en Estados Unidos Vidal es reconocido por su actividad como ensayista y crítico, que desarrolló sobre todo en periódicos y publicaciones en el último cuarto del siglo pasado. Entre sus obras, a caballo entre la ficción y la realidad, destacan su trilogía histórico política, formada por Washington D.C. (1967), Burr (1973) y 1876 (1976), en las que reflejó su particular y muy personal visión de la historia de EE UU. En 1995 salió a la luz  su libro de memorias, Palimpsesto, en el que recogió su amistad con colegas, como Norman Mailer, Truman Capote o Tennessee Williams, y otros iconos estadounidenses como Orson Welles, Frank Sinatra, Marlon Brando, Paul Newman, Joanne Woodward –con quien llegó a estar prometido- Eleanor Roosevelt y varios Kennedy, además de reconocer que, con 25 años, ya había mantenido más de 1.000 encuentros sexuales con hombres y mujeres.

Vidal no solo escribió novelas y ensayos, en 1954 optó por trasladarse a Hollywood y escribir para la industria como un modo para ganar dinero fácil. Entre 1956 y 1970, colaboró en siete guiones, entre ellos los de Ben Hur o De repente el último verano, que coescribió con Tennessee Williams. Él mismo también intervino como actor en varias películas como Roma, de Federico Fellini, Gattaca o Ciudadano Bob Roberts. Incluso tenía su propia versión animada en las series de dibujos Los Simpson y Padre de Familia.

Eugene Luther Vidal nació en West Point, Nueva York, el 3 de octubre de 1925 en el seno de una familia de antiguas raíces políticas. El único hijo de Eugene Luther Vidal y Nina Gore se cambió el nombre por Gore en homenaje a su abuelo materno, con quien se crió en Virginia, tras la separación de sus padres. Vidal estudió en la Escuela de Saint Albans, en Washington. Tras una breve temporada en Francia, el escritor regresó a EE UU donde se graduó en la Academia Philips Exeter, para enrolarse inmediatamente después en el Ejército, en 1943. Durante la II Guerra Mundial, fue destinado a las Islas Aleutianas. Antes de trasladarse a California definitivamente en 2003, Vidal residió largas temporadas en Italia.

30/07/2012 - 09:54h Lucros de empresas nos EUA podem parar de crescer

Por Kate Linebaugh | The Wall Street Journal | VALOR

Diga adeus ao crescimento dos lucros.

A desaceleração das economias dos Estados Unidos e da China, consumidores cada vez mais preocupados, recessão na maior parte da Europa e um dólar valorizado estão encerrando um período de 10 trimestres consecutivos de crescimento dos lucros em relação a um ano antes nas maiores empresas americanas.

Até sexta-feira, o cenário apontava para mais uma subida nos lucros. Mas as previsões estão agora se tornando negativas em meio a uma série de alertas de lucro de empresas como a Starbucks Corp. e a Illinois Tool Works Inc. No terceiro trimestre, os lucros das empresas que compõem o índice S&P 500 devem encolher pela primeira vez desde logo após o fim da recessão, caindo 0,4% na comparação ano a ano, segundo a Thomson Reuters, que consulta os analistas de Wall Street.

E, com isso, um dos poucos pontos altos na cambaleante recuperação econômica dos EUA perde o seu brilho. Lucros gordos vêm alimentando os investimentos empresariais em tecnologia e maquinário, ainda que não estejam aumentando muito as contratações. Agora, contudo, a pressão sobre os lucros está levando empresas como a United Technologies Corp. e a Dow Chemical a cortar custos.

A rede de cafeterias Starbucks alertou na semana passada que o movimento nas suas lojas dos EUA começou a declinar em junho. Como a tendência continuou em julho, a companhia decidiu diminuir sua previsão de lucro para o terceiro trimestre.

“Isso não é um problema da Starbucks”, disse Howard Schultz, o diretor-presidente. “Isso é um problema macro de confiança do consumidor.”

Os preços das commodities – petróleo, cobre, alumínio e outros motores da economia mundial – têm apresentado quedas acentuadas, que sugerem que a atividade manufatureira está perdendo fôlego porque os consumidores estão comprando menos.

Ao mesmo tempo, o dólar está se fortalecendo, tendo subido 5% em relação ao euro no segundo trimestre. Um dólar valorizado prejudica as exportações dos EUA ao tornar os produtos americanos mais caros para quem os compra em outras moedas. Ele também corrói o valor das receitas das empresas americanas no exterior, quando essas receitas são convertidas para dólar.

Para o terceiro trimestre, os analistas projetam que o lucro e a receita das empresas do S&P 500 deslizarão em cerca de 0,5%, informou a Thomson Reuters. Isso se segue ao que provavelmente foram três trimestres seguidos de queda no crescimento dos lucros. Os lucros podem a voltar a crescer no quarto trimestre, dizem os analistas, dado que o desempenho no quarto trimestre do ano passado não foi tão forte quanto no terceiro.

A fornecedora de gás Airga s Inc. viu seu lucro no segundo trimestre saltar 21%, mas baixou sua previsão para o ano todo, citando a fraqueza da economia. A fabricante de jatos executivos Rockwell Collins Inc., que divulgou um aumento de 5% no lucro do terceiro trimestre, também cortou sua projeção de receita e lucro para o ano.

“O ritmo atual das vendas está aumentando, só não na taxa que nós esperávamos no começo do ano”, disse ao The Wall Street Journal Clay Jones, diretor-presidente da Rockwell Collins.

Cerca de 40 companhias já alertaram que seu desempenho no terceiro trimestre será mais fraco do que se pensou no início, comparado com 8 que foram otimistas, segundo Gregory Harrison, um analista de resultados da Thomson Reuters. A razão entre previsões negativas e positivas é a menor desde o segundo trimestre de 2001, disse ele.

No começo do ano, as empresas estavam esperando tempos difíceis na Europa e uma economia chinesa em desaceleração, mas manifestavam otimismo quanto aos EUA. A economia americana, porém, começou a se arrastar no segundo trimestre, sendo que o produto interno bruto cresceu a uma taxa anualizada de 1,5%, menor que os 2% do primeiro trimestre e os 4,1% do quarto trimestre de 2011.

A temporada de divulgação dos lucros do segundo trimestre para as empresas do S&P 500 já passou da metade. Os analistas esperam um crescimento de 6,2% do lucro no período, segundo a Thomson Reuters. Excluindo o Bank of America – que registrou um lucro de US$ 2,5 bilhões depois de ter um prejuízo de US$ 8,8 bilhões no ano passado devido a baixas contábeis ligadas a hipotecas – os lucros devem crescer somente 0,9%.

Uma queda nos preços das commodities está reduzindo as expectativas para os trimestres futuros, pois isso é um presságio de lucros menores para as petrolíferas e mineradoras. Na sexta-feira, a mineradora Anglo American PLC, que tem presença mundial, divulgou uma queda abaixo do esperado, de 38%, no lucro operacional no primeiro semestre, devido à queda nos preços das commodities. A empresa afirmou que cortaria seus gastos de capital este ano e no próximo.

Jim Russell, diretor de estratégia de ações do U.S. Bank Wealth Management, dos EUA, prevê que os lucros do terceiro trimestre cairão de 3% a 5%. “O crescimento da receita está também diminuindo o ritmo e as margens parecem que estão chegando ao máximo”, disse Russell. (Colaborou Jon Ostrower)

30/07/2012 - 09:51h Dólar alto é novo obstáculo aos EUA

Por Assis Moreira | VALOR

de Genebra

A recente alta do dólar representa outro obstáculo para os exportadores dos Estados Unidos e para os lucros das companhias, em meio a inquietações com a perda de fôlego da maior economia do mundo, que cresceu apenas 1,5% em taxa anualizada no segundo trimestre.

O valor da moeda americana continua baixo em termos efetivos (”trade-weighted basis”) pelos padrões históricos. Mas está próximo de seu nível mais alto ante o euro em dois anos – tendo subido 4% nos últimos cinco meses e cerca de 8% no ano passado em relação aos principais parceiros.

Para os exportadores, o desempenho do dólar não é boa noticia quando eles já enfrentam a baixa de demanda na Europa e em partes da Ásia. Apple e Ford estão entre as empresas que anunciaram resultados decepcionantes no segundo trimestre por causa de consumo menor pelos europeus.

“A alta do dólar não é um desastre para os EUA e por si só não vai enfraquecer mais a economia, mas vai exacerbar as desacelerações tanto do crescimento das exportações como do lucro das empresas”, avalia o analista Paul Dales, em Londres.

Ele nota que os EUA não estão expostos a flutuações no câmbio como muitas economias “simplesmente porque o país tem uma economia relativamente fechada”. As exportações representam apenas 14% no PIB americano, comparadas a 27% na França e 50% na Alemanha. Mas o dólar no seu nível atual pode baixar de 5% para cerca de 3% o ritmo de crescimento das exportações.

O outro lado é que o dólar mais alto se traduz em preço mais baixo de importações. Mas o impacto da flutuação da moeda nos preços de importações demora cerca de quatro meses.

A economia americana cresceu 1,5% em taxa anualizada no segundo trimestre, alimentando dúvidas sobre a recuperação da economia global e sobre as perspectivas de reeleição do presidente Barack Obama.

Mas analistas notam que a dura seca em alguns Estados americanos terá impacto apenas marginal no declínio da produção agrícola e no crescimento do PIB americano. Embora os EUA produzam mais milho do que qualquer outro país e sejam os supridores de metade da soja globalmente, o setor agrícola representa apenas 1%, ou US$ 130 bilhões, do PIB americano.

No primeiro semestre, a média de temperatura em seis de nova regiões americanas bateu recorde de alta. Preços futuros de milho subiram 60%; de soja, 50%; e de trigo, 25%.

No entanto, a expectativa é de que, mesmo se os preços das commodities continuarem nos níveis atuais, o impacto sobre a inflação também será pequeno.

Na zona do euro, a queda da moeda comum dá um impulso nas exportações, mas o superávit comercial vem sendo obtido também graças a menos importações.

No Japão, o déficit na balança comercial prossegue. Por sua vez, o ministro das Finanças Jun Azumi alertou que uma intervenção continua a ser uma possibilidade para baixar o valor do iene.

A moeda japonesa está no seu nível mais alto em relação ao euro e também se valorizou um pouco ante o dólar recentemente.

29/07/2012 - 18:55h Sociedade em negação

29 de julho de 2012

Lee Siegel – O Estado de S.Paulo

NOVA JERSEY – Quando teve início o tiroteio naquele cinema em Aurora, Colorado, na semana passada, o filme chegou ao fim. Depois do término do tiroteio, um novo filme começou. Poderíamos chamá-lo de filme da negação, da ilusão e dos fins felizes. Trata-se do filme nacional que vem sendo exibido desde o nascimento da república americana.

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Bertolt Brecht inventou a ideia do “efeito de distanciamento” como ferramenta teatral. Em vez de criar para uma peça um final repleto de soluções agradáveis, Brecht recomendava fins cheios de sofrimento, dor e injustiça. Assim, pensou ele, o público sairia tão perturbado, indignado e até enfurecido a ponto de se tornar intolerante diante da injustiça social ao seu redor. Gostaria que a mídia americana empregasse a convenção de Brecht.

O que ocorreu em Aurora foi aleatório, sem sentido, vazio de significado e desprovido de narrativa. O rapaz de 24 anos que cometeu os assassinatos, James Holmes, não se enquadra em nenhum tipo de perfil típico para os assassinos em massa. Não existe perfil típico para um assassino em massa. A única constante são as armas que os assassinos em massa usam para matar. Mas, como os infantis Estados Unidos são incapazes de reunir a coragem necessária para deter o lobby das armas, e como os românticos e eternamente inocentes EUA são fanáticos pela felicidade e os fins felizes, a classe comentarista americana volta sua atenção para os homens que empunham as armas. E, quando os comentaristas e especialistas terminam sua investigação e análise, eles acabam por tecer um conto perfeitamente estruturado, reconfortante nos seus esclarecimentos e explicações.

Assim, deixamos para trás O Cavaleiro das Trevas Ressurge e nos vemos agora no meio de A Lenda Heroica do Massacre de Aurora. Muitas das pessoas que estavam naquele cinema de fato agiram de maneira heroica. Lágrimas me vêm aos olhos quando penso no jovem – ele cresceu na cidade que fica bem ao lado daquela onde moro – que se jogou na frente da namorada para salvá-la. Ele foi morto por uma saraivada de balas, mas ela sobreviveu. Ao se concentrar nos feitos heroicos das vítimas e não nos atos horrendos do assassino, a mídia implica que, longe de ser uma atrocidade sem sentido, todo o evento foi uma afirmação do espírito humano. Isso me parece algo nojento e depravado. Uma das conclusões que poderíamos tirar de uma afirmação tão perversa seria a de que a doentia permissividade das leis atuais de controle das armas não deveria ser revista. Como vemos, as pessoas são capazes de suportar qualquer coisa. Mas os mortos não podem suportar nada, nem aqueles que ficaram marcados, seja mental ou fisicamente, para o resto da vida.

Depois da distorcida caricatura daquilo que realmente ocorreu no cinema naquela noite, fomos então apresentados a outro longa metragem: A História Daquilo Que Leva Um Assassino a Agir. Somos informados que Holmes tinha sido reprovado nos exames orais para seu doutoramento em neurociência. Ele sempre foi “esquisito”. Parece que nunca teve uma namorada. Apesar do fracasso no exame oral, ele era um cientista “brilhante”; e é claro que a esquisitice social e a preferência por assuntos cabeça equivalem ao assassinato em massa. Mais uma vez, não há motivo para mudar as leis de controle de armas. Basta tomar cuidado com pessoas tímidas de aparência intelectual, denunciando-as à polícia sempre que as encontrarmos.

Nenhuma revelação a respeito da vida de Holmes vai consolar alguém cuja vida tenha sido tocada pelo massacre. O fato é que as informações a respeito de sua vida e personalidade que estão agora vindo à tona são irrelevantes. Quem é religioso o considera mau, e quem é racionalista secular o vê como insano. Em ambos os casos, ele não passa de uma entidade genérica e pouco distinta. Maldade e insanidade são condições extremas e niveladoras. O que quer que tenha feito de Holmes um indivíduo desapareceu numa categoria genérica no segundo em que ele começou a matar.

Mas o posicionamento e a criação de narrativas por parte do público continuam, mesmo quando a solução para o problema está encarando todos diretamente. Logo após o massacre, o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, foi ao ar para castigar Obama, Romney e todo o establishment político por sua passividade diante do tema do controle de armamentos. “Discursos reconfortantes”, disse Bloomberg, são bem-vindos, mas não servem como substitutos de medidas que possam levar a uma mudança real. Quanta coragem, prefeito! Infelizmente, suas palavras de indignação são tão repreensíveis quanto as palavras de conforto que criticou.

Afinal, o prefeito Bloomberg é dono de uma fortuna de US$ 18 bilhões. Dezoito bilhões de dólares. Trata-se de uma soma superior ao orçamento anual de um país pequeno. O obstáculo que impede a aprovação de leis de controle das armas é a National Rifle Association, que faz contribuições anuais de milhões de dólares para os legisladores que, então, vetam todos os esforços no sentido de limitar o acesso dos americanos às armas. Bloomberg poderia usar uma parte de sua fortuna – 1 bilhão de dólares, digamos -, bater a melhor oferta da NRA e comprar, por meio do suborno legal conhecido como “contribuição de campanha”, cada um dos políticos que defendem a indústria dos armamentos no país. Em dois anos, os EUA de fato tornariam ilegal – vejam vocês! – a posse de armas semiautomáticas.

Mas é melhor ainda fazer pose e condenar eloquentemente os próprios pares a partir do cume do Olimpo. Trata-se de algo mais grandioso e de um maior heroísmo aparente. Quem sabe alguém transforme Bloomberg e sua posição ousada num frenético filme de ação. Então o tiroteio poderá recomeçar, assim como a negação e as narrativas delirantes.

29/07/2012 - 18:49h A society in denial

29 de julho de 2012

Lee Siegel – O Estado SP

NEW JERSEY – When the shooting began in that movie-theater in Aurora, Colorado last week, the movie came to an end. After the shooting stopped, a new movie began. Call it the movie of denial, illusion and happy endings. It is the national movie that has been playing since the dawn of the American republic.

Bertolt Brecht invented the idea of the “alienation-effect” as a theatrical device. Instead of a play’s finale consisting of neat resolutions, Brecht recommended endings full of suffering, pain and injustice. That way, he reasoned, audiences would leave so unfulfilled, indignant and perhaps enraged, that they would become intolerant of the social injustice around them. I wish the American media would make use of Brecht’s convention.

What happened in Aurora was random, meaningless, senseless, devoid of a narrative. The 24-year-old man who committed the murders, James Holmes, does not fit into any kind of typical profile of a mass killer. There is no type of the mass killer. The only constant is the guns mass murderers use to kill. But because infantile America cannot muster the courage to stop the gun lobby, and because romantic, eternally innocent America is fanatic about happiness and happy endings, the American commenting class turns its attention to the men who hold the guns. And by the time, the commenters and experts have finished their scrutinizing and analyzing, they have woven a tidily structured tale, comforting in its illuminations and explanations.

So from “The Dark Knight Rises” we now are in the midst of “The Heroic Tale of the Aurora Massacre.” Many of the people in that theater did indeed act heroically. Tears come to my eyes when I think of the young man – he grew up in the next town over from where I live – who threw himself in front his girlfriend to save her. He was killed by a shower of bullets, but she survived. Yet by concentrating on the heroic deeds of the victims and not on the heinous actions of the killer, the media implies that, far from being a senseless atrocity, the whole event was an affirmation of the human spirit. I find that disgusting and depraved. One of the conclusions one could draw from such a perverse affirmation is that the sick permissiveness of current gun laws should not be revised. People, you see, can endure anything. But dead people cannot endure anything, and neither can people maimed, mentally and/or physically, for life.

After the twisted caricature of what really happened in the theater that night, we were then treated to another major motion picture: “The Story of What Makes A Killer Tick.” Holmes, we were informed, had failed the oral exams for his doctorate in neuro-science. He had always been “awkward.” It seems that he never had a girlfriend. Despite the failed oral exam, he was a “brilliant” scientist; and, of course, braininess and social awkwardness equal mass murder. Once again, there is no reason to change the gun laws. Just be on the lookout for shy intellectual types and report them to the police as soon as you encounter them.

No amount of insight into Holmes’ life is going to console anyone whose life was touched by the massacre. The fact is that the information about his life and personality that is emerging now is entirely boring. He is either evil, if you are a religious person,or, if you are a secular rationalist, he is insane. In either case, he is a bland and undifferentiated entity. Evil and insanity are extreme, levelling conditions. Whatever made Holmes an individual vanished into a generic category the second he started killing.

But the public posturing and storytelling continue, even when the solution to the problem is staring everyone in the face. Right after the massacre, New York Mayor Michael Bloomberg took to the airwaves to castigate Obama, Romney and the entire political establishment for their passiveness with regard to gun control. “Soothing words,” Bloomberg said, are fine, but they are no substitute for action that will lead to real change. Good for the mayor! Unfortunately, his indignant words are just as culpable as the soothing words he deplored.

For Mayor Bloomber is worth 18 billion dollars. Eighteen billion dollars. That is more than the national budget of a small country. The obstacle to gun control legislation is the National Rifle Association, which contributes millions of dollars every year to legislators who then rebuff any effort to limit Americans’ access to guns. Bloomberg could take just a fraction of his fortune – say, 1 billion dollars – top the NRA’s best offer and buy off, in the form of the legal bribe known as the “campaign contribution,” every pro-gun politician in the country. In two years, America would – lo and behold! – actually make it illegal to own a semi-automatic weapon.

Better, however, to grandstand and eloquently condemn your peers from an Olympian height. It is grander, and more heroic-seeming. And, who knows, maybe someone will turn Bloomberg and his bold position into a fast-paced action film. Then the shooting can begin again, and so can the denying and deluding storytelling.

25/07/2012 - 09:57h Economistas preveem baixo crescimento por anos

Por Sergio Lamucci | VALOR

Do Rio

A economia global caminha para um longo período de baixo crescimento, mesmo se não se ocorrer uma ruptura da zona do euro, um risco visto hoje como cada vez mais provável, dada a inação dos líderes políticos europeus. Nesse cenário delicado, ter um mercado interno forte e finanças públicas saudáveis serão trunfos importantes, assim como contar cada vez mais com a poupança doméstica deverá ser uma necessidade. Em linha gerais, esse foi o quadro traçado por economistas como Dani Rodrik, da Universidade de Harvard (EUA), e José Antonio Ocampo, da Universidade de Columbia (EUA), que participaram ontem e anteontem do seminário “O Brasil e o Mundo em 2022″, promovido pelo BNDES em comemoração aos 60 anos do banco.

Rodrik acredita num ambiente muito negativo para a economia global nos próximos anos, o que terá como consequência derrubar o potencial de crescimento de todos os países. Na zona do euro, a possibilidade de que vários países deixem a união monetária cresceu com força; na China, existe o risco de um tombo significativo do ritmo de crescimento, talvez para a casa de 5% ao ano; e nos EUA, o quadro de impasse político nos EUA tende a prosseguir, afetando a expansão da economia.

Nesse quadro hostil, países com grandes mercados internos, como Brasil e Índia, tendem a se sair relativamente melhor que os outros, apontou ele. O colombiano José Antonio Ocampo, professor da Universidade de Columbia (EUA), destacou o mercado doméstico como um fator de dinamismo importante para a América Latina nesse cenário global, em que os preços de commodities têm perspectivas bem menos róseas.

O quadro internacional adverso reforça a importância de se mobilizar a poupança doméstica, destacou o russo Vladimir Popov, professor da Nova Escola Econômica de Moscou, para quem também é preciso tomar cuidado com fluxos de capitais voláteis.

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, também destacou a necessidade de se aumentar a poupança doméstica nesse mundo mais complicado, apostando na elevação do investimento no Brasil. Para ele, há grandes oportunidades nos setores de petróleo e gás, energia e infraestrutura, que levarão a uma alta da taxa de investimento como proporção do PIB.

Coutinho salientou ainda a importância hoje de fundamentos macroeconômicos sólidos, como baixos níveis de déficits externos, inflação sob controle – sem o que não se faz inclusão social, segundo ele – e de finanças públicas em ordem. Ocampo lembrou que a América Latina conseguiu enfim superar o problema do endividamento público, abrindo espaço para políticas fiscais contracíclicas.

O grande risco para o mundo, segundo consenso dos participantes do seminário, é de que a zona do euro viva uma ruptura. Rodrik e Wolfang Munchau, presidente da consultoria Eurointelligence, acham que essa possibilidade cresceu muito, o que teria consequências catastróficas para a economia global, especialmente se um país grande como a Espanha ou a Itália deixarem a zona monetária. Para Munchau, os países precisam pensar suas estratégias levando em conta que o baixo crescimento mundial deverá durar muitos anos, mesmo se a zona do euro evitar o pior.

Outro risco no radar dos analistas é a China. O país terá mais dificuldades num quadro de baixo crescimento global, em que os países desenvolvidos serão menos tolerantes com grandes exportadores que usam medidas “heterodoxas” para sustentar o crescimento, como políticas industriais amplas e agressivas e a manutenção do câmbio em nível desvalorizado, segundo Rodrik. Ele acha possível que a China caminhe para um período de crescimento significativamente mais baixo, na casa de 5% ao ano, o que poderia ter consequências graves no front político. Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA), é menos pessimista. Acha que a China evita um tombo forte da economia, mas insistindo nos incentivos às exportações e ao investimento, o que tende a aumentar os desequilíbrios da economia.

19/07/2012 - 18:25h A guerra do foie gras entre EUA e França

AP / AP
Californiano passa foie gras num pão em restaurante que dribla a lei estadual de proibição de venda da iguaria


Por Rodrigo Uchoa | VALOR

De São Paulo

Desde o arroubo de patriotismo culinário do início da década, quando a Câmara dos Deputados dos EUA tentou rebatizar as “french fries”, as batatas fritas, e passar a chamá-las de “freedom fries”, não se via uma batalha tão encarniçada nesse front. A polêmica com os franceses agora gira em torno do foie gras. Uma lei da Califórnia que passou a vigorar no início do mês proíbe a produção e a venda do patê de fígado de ganso. Os franceses, maiores produtores mundiais de foie gras, falam em retaliar e até iniciar uma campanha contra os vinhos californianos. No meio disso digladiam-se defensores dos direitos dos animais, por um lado, e fãs da iguaria, por outro.

Para quem não se lembra da história das “freedom fries”, tudo aconteceu por causa do sentimento antifrancês resultante da renhida oposição de Paris à invasão do Iraque, arquitetada por Washington em 2003. Agora, entretanto, não há nada de especialmente “antifrancês”, diz Julius Frank, ativista da Animal Protection and Rescue League. “Os métodos cruéis de produção é que estão sendo discutidos. Não importa se o foie gras vem da França ou não.”

O tratamento cruel a que o ativista se refere é o modo como patos e gansos são alimentados à força, por meio de um tubo, para que seus fígados se estressem. Quem já viu sabe que não é uma bela cena, para dizer o mínimo.

Philippe Martin, presidente do Conselho Geral do Departamento de Gers, sul da França e uma das principais áreas de produção de foie gras, disse no início da semana que iniciaria uma campanha para que os restaurantes do país parassem de vender vinhos da Califórnia. Martin diz que o foie gras não é só um produto agroindustrial, e sim um componente cultural. “Essa lei nos fere culturalmente.”

De qualquer modo, mesmo que as 16 toneladas anuais de foie gras feitas da França signifiquem quase 70% da produção mundial, seu principal mercado continua sendo o interno. Os franceses consumiram no ano passado 75% do foie gras que produziram.

Pode parecer uma retaliação de maluco então. Afinal, apesar de a Califórnia produzir 90% dos vinhos americanos, muito pouco é exportado para a França.

O caso deve mesmo é afetar o bolso dos restauranteurs californianos. Quem vender foie gras receberá uma multa de US$ 1 mil e mais US$ 1 mil por dia que continuar a contrariar a norma.

A maior parte dos restaurantes do Estado já retirou o foie gras de seus cardápios. Mas há quem busque brechas legais, usando o “jeitinho californiano”. Alguns estão oferecendo foie gras de graça, pois a proibição é só de vender o produto. Outros são mais ousados. O Presidio Social Club, que fica em uma área federal pertencente ao Exército, continua a vender. “Afinal, não estamos legalmente em território da Califórnia”, diz em tom desafiador Ray Tang, dono do restaurante.

15/07/2012 - 18:28h Dores do crescimento

15 de julho de 2012

Lee Siegel – O Estado de S.Paulo

Numa festa de fim de ano realizada no arborizado jardim dos fundos de um conhecido, caminhei na direção da professora de nosso filho de 5 anos no jardim da infância para agradecer a ela pelo bom trabalho e pela atenção dedicada ao longo do último ano. Ela sorriu e fez comentários simpáticos a respeito do nosso menino, e então balançou a cabeça, gentilmente. “Estou preocupada com o próximo ano dele, sr. Siegel”, disse ela. “Temo que ele esteja atrasado em relação às demais crianças.” Ela estava sugerindo implicitamente que ele fosse “deixado para trás” – ou seja, que repetisse um ano de jardim da infância em vez de avançar para o primeiro ano do ensino fundamental -, algo que a escola não pode fazer sem nossa permissão. Fiquei completamente exasperado.

Assim como os parceiros de um casamento que começa a dar sinais de desgaste deslocam para os filhos a ansiedade que envolve o relacionamento, os habitantes dos Estados Unidos – uma potência mundial que trilha o limiar da decadência – estão deslocando sua ansiedade em relação à sociedade para… as crianças. Em vez de dirigirem sua fúria contra os gananciosos banqueiros, especuladores imobiliários e outros que quase destruíram o país quatro anos atrás, especialistas e políticos têm travado uma guerra contra os professores das escolas públicas. E os administradores e professores das escolas públicas, com as costas contra a parede, têm exercido uma pressão tremenda sobre os alunos.

Afinal, se o país está se tornando mais avarento, mais desonesto, mais autocentrado e mais distraído, é impossível que a culpa seja dos reis e rainhas da política e da cultura. Claro que não. (Um jogador de beisebol dos Boston Red Sox recebeu recentemente um contrato anual no valor de US$ 14 milhões e queixou-se de ser tratado com desprezo, já que a oferta não foi de um contrato de 3 anos. Todos deram de ombros.) E os culpados não podem ser os pais, que já enfrentam dificuldades o bastante na tentativa de não sucumbirem à atmosfera geral de gratificação instantânea e se tornarem crianças eles mesmos. De jeito nenhum. Não, os culpados devem ser os professores.

O indiciamento do ensino público é um fenômeno estranho, levando-se em consideração que a acusação costuma ser feita por formadores de opinião que mandam seus próprios filhos para escolas particulares. Sob muitos aspectos, a guerra contra as escolas públicas é mais um sintoma da marginalização da classe média, já que a solução para a “crise” nas escolas públicas é a criação de escolas charter – que tiram dinheiro das escolas públicas. As escolas charter são instituições independentes (em geral, empresas cujo objetivo é o lucro) que aceitam recursos do governo, mas não são subordinadas às autoridades públicas. Em troca desta independência, as escolas charter prometem notas mais altas nos testes.

Como resultado da expansão das escolas charter, os pais de classe média que não têm a sorte de inscrever seus filhos numa escola charter são obrigados a pagar impostos prediais mais altos para compensar pelos recursos perdidos. Precisam também suportar escolas públicas com professores desmoralizados, instalações deterioradas e um grupo menor de estudantes brilhantes.

A guerra contra os professores das escolas públicas teve início em 2010 com o lançamento de Waiting for ‘Superman’, um documentário que execra o ensino público e mostra as escolas charter como a salvação. A heroína do filme é Michelle Rhee, que na época era chanceler das escolas públicas da capital americana, Washington. A própria Michelle tinha travado uma guerra contra o sistema público de ensino, instituindo a demissão em massa de professores e diretores, valendo-se quase exclusivamente dos testes padronizados para medir o progresso dos estudantes, e associando os salários dos professores aos resultados obtidos pelos alunos nos testes. Pouco tempo depois, ela foi acusada de manipular os resultados de testes, renunciando ao cargo. Mas a febre das escolas charter e sua sacralização dos testes padronizados continua, mesmo enquanto estudos respeitados mostram que os estudantes não obtêm resultados melhores nas escolas charter, apresentando até uma ocasional queda de rendimento.

O “ensino voltado para as provas” se tornou o espectro que assombra o ensino americano. Os alunos são ensinados a ler, a escrever e a fazer contas assim como os engenheiros aprendem hidráulica. Não existe mais espaço para os alunos cuja criatividade, intuição e empatia sejam mais fortes do que a mera inteligência formal. Se o ensino voltado para as provas tivesse sido o método universal de ensino desde o início da civilização ocidental, poetas e romancistas de Catulo a Dante, passando por Shakespeare e Kafka, nunca teriam saído do ensino fundamental. Toda a era romântica teria sido considerada produto do desenvolvimento retardado.

O efeito do reinado dos testes padronizados sobre os pais tem sido incalculável. Mães e pais já preocupados com o autismo, os pesticidas, a comida pouco saudável, as embalagens tóxicas, os brinquedos tóxicos, o papel das mulheres na sociedade – mães ou profissionais? – e os perigos e idiotices da internet têm agora algo para cristalizar sua ansiedade: a educação de seus filhos. Alguns pais ficam tão histéricos que optam por “deixar para trás” as crianças. Trata-se da prática de esperar um ano adicional antes de levar a criança para o jardim da infância na esperança de que o tempo extra dê a ela alguma vantagem competitiva. Assim, em questão de poucos anos, a média etária da criança americana no jardim da infância será de 32 anos. As pessoas chegarão à fase adulta em algum momento perto dos 50 anos. Pensando bem, hoje em dia, isto não parece muito distante da realidade.

Não culpo a professora de jardim da infância do nosso filho por querer que ele fique para trás, por mais que o garoto apresente nos testes resultados bons, mas não espetaculares, e apesar de seus talentos criativos serem óbvios. Ela é uma professora talentosa e decente que está sob imensa pressão para melhorar a nota média da escola nas provas, ao ponto de ser forçada a ensinar aos alunos do jardim da infância um conteúdo que está muito além do nível deles. O problema fundamental do ensino público americano não está nos professores, e sim no fato de o sistema de ensino ser administrado por pessoas que passaram a vida obtendo notas excelentes nos testes padronizados, mas que carecem de um mínimo de inteligência real – e de coração. Nos Estados Unidos de hoje, os adultos responsáveis precisam crescer, e as crianças das quais eles cuidam precisam parar de serem obrigadas a crescer rápido demais.

15/07/2012 - 18:15h Growing Up

15 de julho de 2012

Lee Siegel – O Estado de S. Paulo

At an end-of-year school party in someone’s leafy backyard, I sauntered over to our 5-year-old son’s kindergarten teacher to thank her for all her good and conscientious work over the past year. She smiled and said nice things about our boy and then softly shook her head. “I worry about him next year, Mr. Siegel,” she said. “I’m afraid he’s going to be behind the other kids.” She was implying that he should be “left back”-i.e repeat kindergarten instead of advancing to first grade-which is something that the school cannot do without our permission. I was exasperated beyond belief.

Just as the partners in a marriage that is starting to fail displace their anxiety about the marriage onto their children, people in America-a world power teetering on the edge of decline-are displacing their anxiety over society onto… the children. Instead of directing their rage against the greedy bankers, realtors and others who nearly destroyed the country four years ago, the pundits and the politicians have been waging a war against public school teachers. And the public school teachers and administrators, with their backs against the wall, have been exerting tremendous pressure on their students.

After all, if the country is becoming more avaricious, more dishonest, more self-centered, and more distracted, the fault cannot possibly lie with the kings and queens of politics and culture. Oh no. (A baseball player for the Boston Red Sox recently received a one-year contract for 14 million dollars and complained that he was being treated with contempt because he did not get a 3-year contract. Everyone shrugged.) Nor can the blame lie with the parents, who have a hard enough time trying not to succumb to the general atmosphere of instant gratification and become like children themselves. Of course not. No, the teachers must be the culprits.

The indictment of public education is a strange phenomenon, considering that it is usually made by opinion-writers and policymakers who send their own children to private school. In many ways, the war against public schools is yet another symptom of the marginalization of the middle class, since the solution to the “crisis” in public schools is to establish charter schools that take money away from public schools. Charter schools are independent institutions (often for-profit businesses) that accept public funds but which are not accountable to public authorities. In exchange for this independence, charter schools promise higher test scores.

As a result of the expansion of charter schools, middle-class parents who are not lucky enough to get their children into a charter school must not only pay higher property taxes to make up for the loss of funds. They also must endure public schools with demoralized teachers, deteriorating facilities, and a smaller pool of bright students.

The war on public school teachers began in 2010 with the release of “Waiting for Superman,” a documentary film that excoriates public education and holds up charter schools as a salvation. The hero of that film was Michelle Rhee, who at the time was chancellor of public schools in Washington D.C. Rhee herself had waged war on the public school system, instituting mass firings of teachers and principals, relying almost exclusively on standardized tests to measure students’ progress, and tying teachers’ salaries to students’ test scores. A short time later, she was accused of tampering with test scores and she resigned. Yet the craze for charter schools and their sacralization of standardized testing continues, even as respected studies show that students do no better in charter schools, and sometimes worse.

“Teaching to the test” has become the specter haunting American education. Students are taught reading, writing and math the way engineers are taught hydraulics. There is no room any more for kids whose creativity, intution, empathy is stronger than mere formal intelligence. If teaching to the test had been the universal method of education from the beginning of Western civilization, poets and novelists from Catullus to Dante to Shakespeare to Kafka would never have made it out of elementary school. The entire Romantic era would have been considered the product of retarded development.

The effect of the reign of standardized testing on parents has been incalculable. Mothers and fathers already worried about autism, pesticides, unhealthy food, toxic packaging, toxic toys, the role of women in society-mothers or professionals?-and the perils and stupidities of the internet now have something to crystallize their anxiety: their children’s education. Some parents are so hysterical that they”red-shirt” their children. That is the practice of waiting an extra year to start your child in kindergarten in hopes that the extra time will give him or her a competitive advantage. Thus in a few years, the average age of the American kindergartener will be 32. People will reach adulthood somewhere in their 50s. Come to think of it, these days, that sounds about right.

I don’t blame our son’s kindergarten teacher for wanting to leave him back, even though his test scores are good, but not stellar, and his creative talents are obvious. She is a fine and decent teacher who is under tremendous pressure to raise the school’s test scores, so much so that she is being forced to teach kindergartners at levels several years beyond them. The fundamental problem with American public education is not the teachers. The problem is that the education system is being run by people who have excelled at standardized tests all their lives, but who have no real intelligence-or heart. In America now, the adults in charge need to grow up, and the children in their care need to stop being forced to grow up too fast.

15/07/2012 - 09:36h Estados Unidos estão perto de obter a independência energética

Exploração do gás do xisto dá novo impulso à economia americana e pode deixar o país menos vulnerável à política do Oriente Médio

JOSEPH NYE , PROJECT SYNDICATE – O Estado de S.Paulo

Quando o presidente Richard Nixon proclamou, no início dos anos 70, que queria assegurar a independência energética nacional, os Estados Unidos importavam um quarto do seu petróleo. No fim da década, após um embargo ao petróleo árabe e a Revolução Iraniana, a produção doméstica estava em declínio, os americanos estavam importando metade de suas necessidades de petróleo a um preço 15 vezes maior, e era aceito que o país estava ficando sem gás natural.

Os choques de energia contribuíram para uma combinação letal de crescimento com inflação, e cada presidente americano, desde Nixon, proclamou a independência energética como uma meta. Mas poucos levaram a sério essas promessas.

Hoje, especialistas em energia não caçoam mais. No fim desta década, segundo a Agência de Informação sobre Energia (EIA) dos Estados Unidos, quase metade do petróleo bruto que os EUA consomem será produzida em casa, enquanto 82% virão do lado americano do Atlântico. Philip Verleger, um respeitado analista do setor de energia, argumenta que, até 2023, o 50.º aniversário do “Projeto de Independência” de Nixon, os EUA serão independentes em energia no sentido de que exportarão mais energia do que importarão.

Verleger argumenta que a independência energética “poderia fazer deste o Novo Século Americano ao criar um ambiente econômico em que os Estados Unidos gozam de acesso a suprimentos de energia a um custo mais baixo que outras partes do mundo”. Os europeus e asiáticos já pagam 4 a 6 vezes mais que os americanos pelo seu gás natural.

O que houve? A tecnologia de perfuração horizontal e fraturamento hidráulico, pela qual o xisto e outras formações rochosas duras em grandes profundidades são bombardeados com água e químicos, libertou grandes suprimentos novos de gás natural e petróleo. A indústria americana de gás de xisto cresceu 45% por ano de 2005 a 2010, e a participação do gás de xisto na produção total de gás dos EUA cresceu de 4% para 24%.

Gás para um século. Os EUA possuem estimadamente gás suficiente para sustentar sua taxa de produção atual por mais de um século. Apesar de muitos outros países também terem um potencial considerável de gás de xisto, existem problemas abundantes que incidem na sua exploração como a escassez de água na China, a segurança dos investimentos na Argentina, e as restrições ambientais em vários países europeus.

A economia americana se beneficiará de inúmeras maneiras de sua mudança de abastecimento energético. Centenas de milhares de empregos já estão sendo criados, alguns em regiões remotas desde há muito mergulhadas na estagnação. Essa atividade econômica adicional intensificará o crescimento geral do Produto Interno Bruto, acarretando um aumento expressivo da arrecadação fiscal. De mais a mais, a conta mais baixa na importação de energia reduzirá o déficit comercial do país e melhorará a situação de seu balanço de pagamentos. Alguns setores americanos, como o de químicos e plásticos, ganharão uma considerável vantagem competitiva em custos de produção.

Como respeito à mudança climática, porém, os efeitos da maior dependência do gás de xisto são irregulares. Como a combustão de gás natural produz menos gases do efeito estufa do que outros hidrocarbonetos, como carvão ou petróleo, ela pode ser uma ponte para um futuro com menos emissão de carbono. Mas o preço baixo do gás impedirá o desenvolvimento de fontes de energia renováveis a menos que venha acompanhado por subsídios ou impostos sobre o carbono.

Neste estágio, só se pode especular sobre os efeitos geopolíticos. O fortalecimento da economia americana claramente robusteceria o poder econômico americano – um cenário que vai na contra mão dos que retratam um declínio dos EUA.

Mas não se devem tirar conclusões precipitadas. O equilíbrio das importações e exportações de energia é apenas uma primeira aproximação da independência. Como argumento em meu livro The Future of Power (O Futuro do Poder), a interdependência global envolve tanto sensibilidade como vulnerabilidade. Os EUA podem ser menos vulneráveis no longo prazo se importarem menos energia, mas o petróleo é uma commodity fungível, e a economia americana permanecerá sensível a choques de mudanças súbitas nos preços mundiais.

Em outras palavras, uma revolução na Arábia Saudita ou um bloqueio do Estreito de Ormuz ainda poderiam causar da danos aos EUA e seus aliados. Portanto, mesmo que os EUA não tivessem outros interesses no Oriente Médio, como Israel ou a não proliferação nuclear, seria improvável que um equilíbrio das importações e exportações de energia livrasse os EUA de gastos militares – que alguns especialistas calculam que poderão chegar a US$ 50 bilhões anuais – para proteger rotas de petróleo na região.

Ao mesmo tempo, a posição de barganha dos EUA na política mundial deve ser fortalecida. O poder decorre de assimetrias na interdependência.

Durante décadas, os EUA e a Arábia Saudita tiveram um equilíbrio de assimetrias em que nós dependemos dela como uma grande produtora de petróleo e ela depende de nós para a segurança militar em última instância. Agora, as barganhas serão alcançadas em termos um pouco melhores do ponto de vista dos EUA. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

12/07/2012 - 12:10h A desigualdade inibe o crescimento

Por Raghuram Rajan – VALOR

Para compreender como conseguir uma recuperação sustentada da Grande Recessão, precisamos entender suas causas. E identificar as causas significa partir das evidências.

Dois fatos se destacam. Primeiro, a demanda mundial de bens e serviços está muito mais fraca, tanto na Europa como nos EUA, do que nos anos de economia aquecida anteriores à recessão. Em segundo lugar, a maior parte dos ganhos econômicos nos EUA em anos recentes beneficiou os ricos, ao passo que a classe média, em termos relativos, ficou para trás. Na Europa, as preocupações em relação à desigualdade de renda doméstica, embora mais atenuadas, são agravadas pela angústia diante da desigualdade entre países: a Alemanha progride vigorosamente, enquanto os países periféricos sulinos perdem sustentação.

Explicações persuasivas sobre a crise apontam para os vínculos entre a morna demanda atual e a crescente desigualdade de renda. Economistas progressistas argumentam que nos EUA o enfraquecimento dos sindicatos, juntamente com políticas fiscais que favorecem os ricos, retardaram crescimento da renda da classe média, ao mesmo tempo em que os programas tradicionais de transferência de renda foram cortados. Com suas rendas estagnadas, as famílias foram incentivadas a se endividar, especialmente oferecendo suas moradias como garantia, para manter o consumo.

Quando uma Europa reformada começar a crescer, regiões do continente poderão experimentar desigualdades no estilo americano. Mas o crescimento poderá proporcionar recursos para enfrentar isso. Muito pior seria evitar reformas sérias.

A chave para a recuperação, portanto, é tributar os ricos, aumentar as transferências de renda e restaurar a renda dos trabalhadores ampliando o poder de negociações sindicais e elevando os salários mínimos.

Países como a Alemanha, que reformaram suas leis trabalhistas para criar maior flexibilidade para os empregadores e não elevaram os salários rapidamente parecem estar em melhor forma econômica do que países como a França e a Espanha, onde os trabalhadores foram mais protegidos.

Por isso, considere o leitor uma explicação alternativa: a partir do início dos anos 1970, as economias avançadas encontraram cada vez mais dificuldades para crescer. Países como os EUA e o Reino Unido acabaram reagindo positivamente à desregulamentação de suas economias.

Maior competição e a adoção de novas tecnologias fizeram crescer a demanda e a renda de trabalhadores altamente qualificados, talentosos e com ótima escolaridade engajados em tarefas não rotineiras, como de consultoria. Funções mais rotineiras, antes bem remuneradas, desempenhadas por trabalhadores não qualificados ou moderadamente escolarizados foram automatizadas ou terceirizada. Assim, a desigualdade de renda surgiu não predominantemente devido a políticas que favorecem os ricos, mas porque a economia liberalizada favoreceu as pessoas instrumentadas para tirar proveito dela. A resposta política míope às preocupações das pessoas deixadas para trás foi facilitar seu acesso ao crédito.

A Europa Continental não desregulamentou tanto e preferiu buscar o crescimento em maior integração econômica. Mas o preço por proteger os trabalhadores e empresas foi crescimento mais lento e maior desemprego. E, embora a desigualdade não tenha crescido tanto quanto nos EUA, as perspectivas de emprego foram terríveis para os jovens e desempregados, que foram deixados fora do sistema protegido.

O advento do euro foi, aparentemente, uma bênção, porque reduziu os custos de financiamento dos países e permitiu que criassem empregos mediante gastos financiados por endividamento. A crise acabou com esses gastos, seja por parte de governos nacionais (Grécia), de governos locais (Espanha), pelo setor de construção civil (Irlanda e Espanha) ou pelo setor financeiro (Irlanda). Infelizmente, os gastos passados pressionaram uma alta dos salários sem um aumento proporcional da produtividade, deixando os grandes gastadores endividados e não competitivos.

A importante exceção a esse padrão é a Alemanha, acostumada a baixos custos para tomar empréstimos mesmo antes da sua entrada na zona euro. Alemanha teve de enfrentar um desemprego historicamente elevado, decorrente da reunificação com uma “doente” Alemanha Oriental. Nos anos iniciais do euro, a Alemanha não teve outra opção senão reduzir as proteções aos trabalhadores, limitar os aumentos salariais e reduzir as pensões, ao tentar fazer subir o nível do emprego.

A visão alternativa sugere soluções diferentes. Os EUA deveriam se concentrar em ajudar a adaptar a educação e as competências das pessoas que estão sendo deixadas para trás nos empregos disponíveis. Isso não será fácil ou rápido, mas é melhor do que conviver com corrosivos níveis elevados de desigualdade de oportunidades, bem como com um grande segmento da população dependente de transferências de renda.

Para as regiões não competitivas da zona do euro, as reformas estruturais não podem mais ser adiadas. Mas, dadas as grandes necessidades de ajustes, não é politicamente viável fazer tudo, inclusive um doloroso aperto fiscal, imediatamente. Menos austeridade, embora não seja uma estratégia sustentável para o crescimento, poderá aliviar o sofrimento do ajuste. Esse, em suma, é o dilema fundamental com que se defronta a zona do euro: a periferia precisa de financiamento enquanto se ajusta, ao passo que a Alemanha diz que não pode confiar que os países farão reformas depois que receberem dinheiro.

Os alemães vêm insistindo em mudanças institucionais – um controle mais centralizado da zona do euro sobre os bancos e orçamentos de governo da periferia, em troca de maior acesso ao financiamento à periferia.

A Europa poderá ficar em melhor situação com medidas paliativas. Se a confiança na Itália ou na Espanha voltar a se deteriorar, a zona do euro poderá ter que recorrer à tradicional ponte entre credibilidade fraca e baixo custo de financiamento: um programa monitorado de reformas no estilo defendido pelo Fundo Monetário Internacional.

Tais programas não podem dispensar a necessidade de determinação governamental, como demonstram as dificuldades da Grécia. E os governos odeiam a perda implícita de soberania e a humilhação. Mas governos determinados, como os do Brasil e da Índia, negociaram programas, no passado, que os colocaram no caminho de um crescimento sustentado.

Quando uma Europa reformada começar a crescer, regiões do continente poderão experimentar desigualdades no estilo americano. Mas o crescimento poderá proporcionar os recursos para enfrentar isso. Muito pior, para a Europa, seria evitar reformas sérias e entrar em declínio igualitário e bem comportado. O Japão, e não os EUA, é o exemplo a evitar.

(Tradução de Sergio Blum)

Raghuram Rajan foi economista chefe do FMI, é professor de Finanças na Booth School of Business, da University of Chicago e autor de Fault Lines: How Hidden Fractures Still Threaten the World Economy (linhas de fraturas: como falhas ocultas ainda ameaçam a economia mundial.

04/07/2012 - 09:08h FMI vê risco de freada mais forte nos EUA

Por Alex Ribeiro | VALOR

De Washington

O Fundo Monetário Internacional (FMI) cortou a projeção para o crescimento dos Estados Unidos nos próximos dois anos e alertou para o risco de um desempenho ainda pior, caso a crise europeia volte a se deteriorar e não seja adotada uma política fiscal menos contracionista. Os possíveis impactos negativos, disse o Fundo, podem se alastrar para outras partes do mundo.

O Fundo prevê que a economia americana vá crescer 2% em 2012 e 2,3% em 2013, ou 0,1 ponto percentual a menos que o projetado em abril para cada um dos anos. A expansão, porém, pode ser menor do que 1% em 2013 caso não seja desarmada uma série de cortes de gastos e aumentos de impostos que estão previstos para entrar em vigor em janeiro, num pacote conhecido como “abismo fiscal”.

“Uma contração muito forte da economia americana teria efeitos fora dos Estados Unidos”, advertiu a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde. Ontem, o organismo apresentou as primeiras conclusões do chamado relatório do artigo IV, em que uma equipe de 12 técnicos do Fundo faz a revisão da situação dos Estados Unidos, após três semanas de consultas com o governo americano.

O FMI recomenda um aperto fiscal mais moderado no próximo ano, de cerca de um ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB), em vez dos três pontos percentuais do PIB anunciados pelo presidente Barack Obama em seu projeto de orçamento. Também poderá ser necessária mais uma rodada de expansão monetária quantitativa, ponderou o organismo.

O FMI ainda vê a economia dos Estados Unidos crescendo de forma moderada, sem sofrer um segundo mergulho recessivo. “É uma recuperação morna”, afirmou Lagarde. Parte dos analistas ficou mais pessimista com estatísticas divulgadas anteontem que indicaram a primeira contração da atividade manufatureira em quase três anos. O chefe da missão do FMI nos Estados Unidos, Gian Mario Milesi-Ferretti, pondera que esse dado isolado não é suficiente para alterar as projeções do organismo. “São divulgados três dados econômicos por dia”, afirmou.

No cenário básico do FMI, a expansão econômica americana deverá seguir modesta devido aos esforços das famílias para reduzir o seu endividamento, à redução do apetite das empresas para investir e à retração na demanda externa por produtos americanos. Mas há o risco de um baque mais forte, dependendo de como o Congresso americano lidar com o “abismo fiscal” e da situação na Europa.

Se nada for feito, a economia americana irá sofrer uma contração fiscal de cerca de US$ 4 trilhões em janeiro, quando expiram cortes de impostos a pessoas físicas de alta renda concedidos pelo ex-presidente George W. Bush, os descontos na contribuição sobre folha de pagamento e incentivos a investimentos patrocinados pelo governo Obama; e entram em vigor US$ 1,2 trilhão em cortes automáticos de gastos.

Outro fantasma fiscal no começo do ano que vem, alerta o FMI, é um eventual impasse no Congresso para ampliar o chamado teto da dívida pública, ou seja, a autorização legislativa para o Tesouro tomar empréstimos no mercado. Ao mesmo tempo em que a contração fiscal pesa na atividade econômica no curto prazo, afirma o FMI, são necessários ajustes para conter a trajetória insustentável da dívida pública no médio e longo prazo.

Diante dos sinais de fragilidade fiscal americana, Lagarde foi questionada ontem se ela acha possível os Estados Unidos pedirem socorro ao FMI num dentro de cerca de uma década. “Não teríamos recursos para emprestar para os Estados Unidos”, afirmou Lagarde. “Mas, claramente, essa uma questão muito hipotética e improvável.”

22/06/2012 - 10:17h Mídia tem papel vital nas crises, diz Clinton

Para ex-presidente americano, acesso à informação é fundamental no mundo
22 de junho de 2012

FERNANDO SCHELLER , ENVIADO ESPECIAL / CANNES – O Estado de S.Paulo

Traduzir mensagens complicadas sobre economia e política de uma forma clara e concisa é o principal papel dos meios de comunicação na construção de um mundo mais justo e bem informado, disse o ex-presidente americano Bill Clinton, na palestra que realizou ontem durante o Cannes Lions Festival Internacional de Criatividade, do qual o ‘Estado’ o representante oficial no Brasil.

Para ele, o acesso à informação é vital para que o público possa fazer melhores escolhas e também entender a realidade em tempos de crise.

Clinton, que se dedica a trabalhos de ação social nas nações mais pobres do mundo desde que deixou o governo americano, participou do evento a convite do grupo ABC, que inclui agências como Africa e DM9DDB, comandado por Nizan Guanaes. O ABC usou Cannes e a palestra para se apresentar ao mercado internacional como uma holding internacional – o grupo tem 2,1 mil funcionários e faturou R$ 750 milhões no ano passado.

Segundo Clinton, os meios de comunicação têm a missão de explicar a consequência de certas decisões ao público geral. Ele citou como exemplo uma votação do Congresso americano, de maioria republicana, que cortou os repasses da União aos municípios com o objetivo de manter na ativa funcionários públicos como professores, bombeiros e policiais. “Ao longo de 27 meses, a economia americana conseguiu criar 4,3 milhões de empregos. Com essa decisão, foram fechados 650 mil postos de trabalho no setor público”, explicou.

O ex-presidente defendeu também que o mundo só poderá prosperar caso os diferentes grupos políticos e de lobby encontrem uma maneira de sentar na mesma mesa para conversar e encontrar um compromisso para assuntos polêmicos. “Em Manaus, durante um debate sobre a preservação da Amazônia, vi que os diferentes grupos conseguiam negociar de forma respeitosa. Acho que, nesse sentido, o Brasil está na frente dos Estados Unidos, onde tudo hoje se resume à divisão partidária.”

Europa. Bill Clinton afirmou também que a Espanha não pode ser considerada culpada pela crise que atravessa atualmente, já que ela foi originada no mercado financeiro, no setor de hipotecas, o mesmo que foi o estopim da crise de 2008. “Antes de a crise atingir o país, eles tinham um superávit do orçamento do governo”, diz. O mesmo vale para a Grécia, que, para ele, precisa buscar uma forma de recuperar a autoestima. “Parece agora que os gregos são preguiçosos, quando eles, na verdade, trabalham mais do que a média na Europa.”

A receita para a recuperação da economia mundial, diz Clinton, está em um movimento de novos investimentos na retomada do crescimento – tendência facilitada pelos juros próximos a zero nos EUA e na Europa -, seguido por maior austeridade nas contas governamentais. Para ele, a criação de empregos está intimamente ligada ao incentivo ao empreendedorismo e ao nascimento de novas empresas.

Nesse sentido, Clinton diz que a Alemanha está fazendo a lição de casa. Um exemplo positivo alemão é o do desenvolvimento de energias alternativas, com especial sucesso na geração solar. “A Alemanha já produz o equivalente a 20 usinas nucleares usando luz solar, um recorde no mundo. E, nesse processo, o país criou 600 mil empregos.”

04/06/2012 - 09:00h Mais latinos obtêm bolsas para estudar no exterior

Por Luis Garcia | The Wall Street Journal | Valor

O cearense Hilário Francelino, de 19 anos, tem estranhado o frio de Boston, mas está feliz fazendo algo que seus pais jamais sonhariam: estudar medicina numa das mais renomadas universidades do mundo, Harvard, com planos de voltar para melhorar as condições de saúde em sua terra natal.

Ele não está sozinho.

Uma nova geração de latino-americanos está engrossando o fluxo de estudantes que buscam cursos no exterior, em geral com ajuda de governos ou de instituições privadas que estão com mais dinheiro para investir na formação da mão de obra qualificada que está em alta demanda nas economias mais fortes da região.

“Minha maior vontade agora é ir para o interior, [para um lugar] que eu ainda não sei onde é, e tentar fazer uma mudança”, diz Francelino.

No fim do ano passado, o governo brasileiro lançou um programa para facilitar projetos de vida como esse.

O Ciência sem Fronteiras tem o objetivo de distribuir 75.000 bolsas até 2015 para cursos no exterior, desde graduação até pós-doutorado. Com um orçamento de R$ 3,2 bilhões, o programa pretende também atrair cientistas estrangeiros interessados em se fixar no Brasil. Outros países latino-americanos têm feito o mesmo, ou pensado em fazer.

A ideia do Ciência sem Fronteiras é colocar a universidade brasileira num “padrão internacional” e “formar gente qualificada para responder aos desafios que o país tem pela frente”, diz Márcio de Castro Silva Filho, diretor de relações internacionais da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, ou Capes – a agência do governo federal historicamente incumbida de expandir cursos de mestrado e doutorado e cuja missão foi ampliada em 2007 para incluir a formação de professores do ensino básico e a formação de pessoal qualificado no Brasil e no exterior.

Francelino não se beneficiou desse programa. Ele passou no Ceará pelo altamente criticado ensino público brasileiro, até conseguir uma bolsa do cursinho COC São Bernardo para ir estudar em São Bernardo do Campo, SP. Ele ingressou em medicina na USP em 2010. Depois de aprender inglês por conta própria, conseguiu através da USP duas bolsas oferecidas por instituições privadas para estudar nos Estados Unidos e ainda teve a ajuda de um professor, que pagou as passagens.

O Ciência sem Fronteiras prioriza as áreas exatas, como engenharia e ciências biológicas e agrárias, entre outras consideradas estratégicas pelo governo. “Imagina o que será a entrada deste grupo qualificado no mercado de trabalho”, diz Silva Filho.

A Capes fornecerá 40.000 das 75.000 bolsas do Ciência sem Fronteiras. As outras 35.000 virão do Conselho Nacional de Pesquisa Científica, o CNPq, órgão do governo voltado ao incentivo à pesquisa. Além dessas, cerca de 26.000 bolsas serão financiadas por empresas, segundo dados do programa. O Ciência sem Fronteiras enviou a partir de janeiro uma primeira leva de 650 bolsistas para pós-graduação nos EUA.

Em 2010, antes do Ciência sem Fronteiras, a França foi o país que recebeu o maior número de bolsistas da Capes (1.502), seguido dos EUA (1.023), Portugal (644) e Alemanha (452).

O número de estudantes brasileiros fazendo cursos em universidades nos EUA já vinha aumentando mesmo antes do Ciência sem Fronteiras, de acordo com uma pesquisa anual do Conselho de Escolas de Pró-Graduação dos EUA, conhecido como CGS. Mas ainda é um volume pequeno comparado com o de estudantes chineses nos EUA, por exemplo.

A pesquisa do CGS mostrou que o Brasil teve um aumento de 14% no número de inscrições em escolas de pós-graduação americanas entre 2011 e 2012, atrás da China (18%) e do México (17%), mas acima da alta total de estudantes internacionais, que foi de 9%. Números absolutos não são divulgados. Responderam à pesquisa 242 das 500 instituições que são membros do CGS.

Foi o aumento das inscrições dos países da América Latina que motivou a inclusão de Brasil e México na pesquisa deste ano, pela primeira vez, diz Debra W. Stewart, presidente do CGS. “Temos todas as razões para acreditar que o número de inscrições do Brasil continuará crescendo.”

Claro que ainda é cedo para saber se o estudo no exterior financiado pelo governo suprirá a demanda por trabalhadores qualificados no Brasil. Alguns críticos do Ciência sem Fronteiras têm dito, entre outras coisas, que o programa não é abrangente o bastante. Já os seus defensores destacam os benefícios de um passo inicial. “Esse é o primeiro movimento de um grande ato”, diz Silva Filho.

Em Harvard, Francelino pode testemunhar em favor das vantagens de sair da terra natal para estudar.

“Eu estou fazendo coisas práticas no meio dos PhDs de Harvard, o que dá uma visão científica da medicina”, diz o jovem de Várzea Grande, cujos pais, um eletricista e uma diarista, não ganham juntos R$ 2.000 por mês, segundo ele.

Francelino está morando com uma família americana em Boston, onde estava 2 graus negativos quando ele chegou à cidade em janeiro, no frio nordeste americano.

Apesar da temperatura, Francelino diz que gosta dos EUA – mas seus planos não estão lá. “Esse é um lugar muito bom. Tudo é muito bom. Mas ele não precisa de mim. Meu país e algumas regiões dele precisam mais.”

(Colaborou Carlota Fluxá.)

23/05/2012 - 09:09h Algodão, em baixa, poderá demandar apoio oficial

VALOR

Há dois anos sem ajuda do governo, a comercialização de algodão no Brasil deve ter de recorrer a subsídios para fechar no azul. A colheita começa em dez dias nos principais Estados produtores e metade das 2 milhões de toneladas esperadas entrará no mercado com preços, em média, 25% mais baixos do que há um ano e muito próximos do custo de produção.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) já se prepara para uma eventual ajuda na comercialização do produto. “Estamos conversando com a Fazenda [Ministério]“, afirmou o coordenador geral da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Silvio Farnese. O câmbio, hoje acima de R$ 2, pode ser um aliado para manter a rentabilidade do algodão sem interferência do governo. Mas o ponto-chave está no comportamento da China enquanto comprador da pluma”, avalia Farnese.

Desde 2003, o governo já liberou R$ 2,033 bilhões para apoiar a comercialização de 3,511 milhões de toneladas de algodão no Brasil. Trata-se da quarta cultura que mais recebeu no período recursos para essa finalidade, atrás do milho (R$ 4,850 bilhões), do trigo (R$ 2,850 bilhões) e do arroz (R$ 2,502 bilhões). A última vez que o setor demandou esses subsídios foi em 2009, quando o governo liberou R$ 550 milhões para comercializar 792 mil toneladas da pluma – naquele ano, os preços médios em Nova York foram de 58 centavos de dólar por libra-peso, segundo o Valor Data.

Neste momento é pico de entressafra no Brasil e o preço do algodão no mercado interno está girando em R$ 1,5901 a libra-peso – Cepea/Esalq no dia 22 – queda de 2,5% no ano. Com a entrada da safra brasileira, novamente recorde, o receio é de que as cotações internas despenquem para níveis abaixo do custo médio de produção, estimado em R$ 1,50 a libra-peso pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

Para a comercialização de algodão ser atendida pela política agrícola, os preços no mercado interno têm que recuar para níveis abaixo do preço mínimo oficial, que é de R$ 1,3486 a libra-peso (R$ 44,60 a arroba). Em Mato Grosso, maior produtor nacional da pluma, a arroba foi cotada no dia 21 a R$ 50,40 em Rondonópolis.

Metade da produção brasileira – toda ela estimada pela Conab em 1,950 milhões de toneladas – já foi comercializada com os bons preços do ano passado. A Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea) estima que as cerca de 1 milhão de toneladas fixadas nos mercados interno e externo estejam, em média, a um preço de 95 centavos de dólar por libra-peso, 25% maior do que as cotações atuais que fecharam ontem em queda de 287 pontos a 73,80 centavos de dólar a libra-peso (contrato outubro) na bolsa de Nova York.

Apesar da boa precificação feita até agora, há ainda por vender a outra metade da safra brasileira, ou seja, 1 milhão de toneladas. O tamanho da demanda das indústrias têxteis deve ser de 900 mil toneladas, em linha com a registrada em 2011, segundo informações da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), informadas ontem durante evento realizado em São Paulo pela BM&FBovespa. “As indústrias devem esperar a queda dos preços, com a chegada da safra nas próximas semanas, para entrar comprando”, diz o presidente da Abrapa, Sérgio De Marco.

Diante desses preços internacionais mais baixos – no ano, a queda acumulada em Nova York é de 19,50% e nos últimos 12 meses, de 44,97%, segundo o Valor Data – a área plantada com algodão deve cair na safra agrícola 2012/13, não só no Brasil, como em outros países produtores. “Com esses preços e a demanda mundial em baixa, a oferta tende a recuar”, diz o presidente da Anea, Marcelo Escorel. Segundo a consultoria Céleres o plantio no Brasil pode cair em 2012/13 dos atuais 1,4 milhão de hectares para 1 milhão. (Colaborou Gerson Freitas Jr.)

Pressão do Brasil influencia ‘Farm Bill’ dos EUA

Scott Eells/Bloomberg / Scott Eells/Bloomberg
Debbie Stabenow: “Tiramos o preço de referência que preocupava o Brasil, mas a visão geral do projeto segue intacta”


Por Assis Moreira | De Paris

A investida brasileira no Congresso americano contra medidas protecionistas favoráveis aos produtores rurais dos Estados Unidos começa a fazer efeito: a presidente do Comitê de Agricultura do Senado, Debbie Stabenow, retirou de sua proposta da lei agrícola (”Farm Bill”) um mecanismo de garantia de preço aos produtores de algodão, reconhecendo que era para atender as reivindicações do Brasil.

“Nos encontramos com os brasileiros e ouvimos suas preocupações. Tiramos o preço de referência que os preocupava e fizemos algumas mudanças, mantendo intacta a visão geral do projeto”, afirmou a senadora ao site especializado “Inside US Trade”, de Washington.

Em uma atitude raríssima, o governo brasileiro avisou ao Congresso dos Estados Unidos, em fevereiro passado, que várias propostas para a reforma da lei agrícola aumentariam os subsídios dos produtores americanos ao invés de reduzi-los. E deixou claro que não ficaria de braços cruzados.

A posição foi comunicada por meio de carta assinada por Roberto Azevedo, embaixador do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC), aos presidentes dos comitês de agricultura do Senado, Debbie Stabenow, do Partido Democrata de Michigan, e da Câmara dos Representantes, Frank Lucas, do Partido Republicano de Oklahoma.

Ao ser informado sobre a mudança anunciada pela senadora, Azevedo considerou que “foi um passo na direção correta, mas não atende as preocupações brasileiras”. Segundo ele, há elementos em discussão que não resolvem o longo conflito do algodão entre EUA e Brasil, já que os subsídios considerados ilegais pela OMC permaneceriam para os cotonicultores americanos.

Pelo “preço de referência” agora eliminado no âmbito do programa STAX, o cotonicultor se basearia no preço do mercado futuro, multiplicaria pela área plantada e faria o seguro sobre este resultado. Se o preço ou rendimento caísse abaixo do previsto, o agricultor receberia um valor mínimo da produção.

Pela avaliação brasileira, os cotonicultores americanos teriam, na prática, incentivo para plantar e não para atender ao mercado, já que receberiam uma garantia de preço do governo. “Estamos atendendo um número de preocupações do Brasil e de membros do Comitê de Agricultura americano, que compartilham com as apreensões”, afirma a senadora Debbie Stabenow.

Já o presidente do Conselho Nacional de Algodão, Chuck Coley, insiste que por meio da Farm Bill, os cotonicultores esperam ajudar os EUA a resolver este conflito e remover a ameaça de retaliação brasileira contra as exportações americanas.

“O Brasil está pronto para uma negociação que dê solução satisfatória mútua”, afirmou o embaixador Azevedo, sinalizando que o país espera mais contrapartidas de Washington.

15/05/2012 - 11:04h Democracias polarizadas

Martes, 15 de mayo de 2012

Santiago Mariani – La República

La concentración de ingresos en pocas manos, un fenómeno que agobia de manera creciente a los Estados Unidos desde hace cuatro décadas, ha convertido a la democracia norteamericana en la más desigual entre los países desarrollados. Los multimillonarios amasan fabulosas fortunas en medio de una sociedad donde millones de sus compatriotas tienen enormes dificultades para conseguir un mínimo aceptable de bienestar.

La fatal combinación entre riqueza para unos pocos y desesperanza de muchos coloca a la mayor potencia de la tierra a distancia del ideal democrático igualitario que se despliega en una sociedad donde las oportunidades son finalmente una realidad concreta para todos.

La solución a este galimatías de la desigualdad no aparece como algo cercano a la vista, ya que se trata de un fenómeno esencialmente político. La polarización social se retroalimenta de una inédita polarización política caracterizada por la imposibilidad de concertar y consensuar las políticas necesarias para solucionar los grandes desafíos que enfrentan como la ecuación de la desigualdad.

La imposibilidad actual de construir un consenso entre los partidos mayoritarios acerca de las acciones a tomar se debe, según manifestó recientemente el economista Paul Krugman en el New York Times, a la disfuncionalidad que genera un partido republicano conquistado por sectores extremos que no reconocen la legitimidad de la oposición política. Bajo esa premisa la cooperación se hace muy difícil pues el interés nacional queda relegado, por parte de uno de los grupos políticos dominado por el dinero y la influencia del sector que concentra los ingresos, a la imposición de una agenda propia y al triunfo en la arena política.

El costo que genera la polarización en una democracia, cuando un sistema político es paralizado y acosado por un sector que intenta imponer su agenda a costa del bienestar generalizado, es justamente el tema al cual se refirió el ex presidente Jimmy Carter en su libro “Nuestros Valores en Peligro”. Carter fue uno de los primeros políticos que señalaron, ya en 2005, las consecuencias que tendría una democracia polarizada para el bienestar y la convivencia en armonía al bloquear la posibilidad de afrontar en conjunto los problemas más acuciantes.

La experiencia pareciera indicar entonces que en una democracia que no polariza la convivencia política deja espacios para la construcción de consensos mayoritarios que posibilitan el impulso, fortalecimiento y perfeccionamiento de políticas públicas de largo plazo necesarias para el bienestar generalizado. Un ejemplo de ello podría ser la política social de Brasil originalmente concebida e impulsada por el gobierno de Cardoso y continuada y profundizada por Lula y ahora por Dilma.

En nuestra región, que tiene el triste récord de ser la más desigual del planeta y que ya ha aprobado el gusto amargo del desencuentro y la división, están apareciendo democracias que se alejan de la polarización política para dar lugar a una dinámica política virtuosa donde la pobreza y la desigualdad, nuestros mayores desafíos, se reducen de manera creciente.

04/05/2012 - 19:18h A histeria em torno de Hollande

4 de maio de 2012

Paul Krugman – O Estado SP

Em cada um de seus artigos, o FT de hoje só fala de Hollande. Alguns dos textos são razoáveis; outros, no entanto, são mais parecidos com este artigo de Josef Joffe, no qual ele declara que a provável vitória de Hollande representa “uma perspectiva desanimadora para todos, a não ser os novos keynesianos e os velhos socialistas”.

Talvez eu devesse me sentir lisonjeado pelo fato de Joffe considerar que o grande debate seja travado entre os falcões da austeridade e… eu. Mas ele diz que se trata de um debate “cansado” – porque debater as formas de combater o desemprego em massa torna-se simplesmente maçante, sabem?

Ainda assim, Joffe tem sua utilidade enquanto indicador da opinião alemã, que diz, basicamente, `conseguimos nos tornar competitivos e restaurar o crescimento; o que impede os demais de seguir o mesmo rumo?’ Ele consegue omitir o fato de que a recuperação alemã na década de 2000 foi impulsionada por uma expressiva guinada no sentido de um superávit comercial; será que todos devem fazer o mesmo, ao mesmo tempo? Como se diz “argumentação fraudulenta” em alemão?

Philip Stephens apresenta uma ótima reação contra a histeria em torno de Hollande:

“Na sua capa, a influente revista The Economist declarou que o sr. Hollande é `perigoso’ – embora, sendo britânica, tenha acrescentado a este epíteto pouco elogioso a locução `um pouco’. A revista observou que o candidato à presidência `acredita genuinamente (grifo meu) na necessidade de se criar uma sociedade mais justa’. Ora, o que poderia ser mais perigoso do que isto?”

“Este tipo de alarmismo toma como base premissas curiosas: a de que o passado nos ensina que os governos não devem jamais interferir nos mercados; e a de que a atual estratégia econômica da Europa tem sido um estrondoso sucesso tanto na reconstrução das finanças públicas quanto na restauração do crescimento econômico.”

E Wolfgang Munchau se mostra cautelosamente esperançoso, como eu.

20/04/2012 - 10:28h A nova voz do Brasil na geopolítica regional

A reunião da Cúpula das Américas constituiu uma oportunidade para o Brasil, lá representado pela presidente Dilma Rousseff, mostrar-se em seu novo papel na geopolítica latino-americana, agora em posição de proeminência, que o governo dos Estados Unidos, por gestos e palavras – do presidente Barack Obama, também presente em Cartagena, e da secretária de Estado, Hillary Clinton, que visitou Brasília dias depois -, reconhece como fato irreversível.

Do Peru ao México, com as exceções de Venezuela, Equador, Cuba e Nicarágua, os Estados Unidos ainda são a grande referência econômica. O Cone Sul do continente e a Venezuela convergiram para a órbita do Mercosul, onde o discurso predominante é o do Brasil, que consolida sua relevância com o apoio de investimentos de grandes empresas em países vizinhos.

A definição mais clara desse novo papel geopolítico deve se dar como reflexo do que serão as futuras estratégias americanas para a região – nas quais o Brasil sempre foi peça-chave, mas agora se destaca com luz própria.

Vias abertas na América Latina

Por Diego Viana e César Felício | VALOR

De São Paulo e de Cartagena

AP / AP

Barack Obama beija Dilma Rousseff em Cartagena: “Washington já se deu conta de que o Brasil tornou-se peça importante no jogo global”, diz David Rothkopf

No fórum de 590 dirigentes de empresas que ocorreu de forma paralela ao encontro de chefes de Estado da Cúpula das Américas, em Cartagena, o papel que o Brasil desempenhou ficou claro: a presidente Dilma Rousseff dividiu o cenário do principal painel com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Sentado entre ambos, como se fosse um elo entre dois polos, estava o presidente anfitrião, o colombiano Juan Manuel Santos. Era a manhã do sábado, 14 de abril. Santos anunciaria na tarde do dia seguinte a entrada em vigor do Tratado de Livre Comércio (TLC) com os Estados Unidos.

A imagem ilustra a polaridade que se estabeleceu no continente a partir do início do século XXI. Entre o Peru e o México, com as exceções de Venezuela, Equador, Cuba e Nicarágua, os EUA ainda são a grande referência econômica. Quase todos os países nesta faixa estabeleceram tratados de livre comércio com os EUA. Santos, como anfitrião da Cúpula das Américas, esteve à frente desse bloco. O cone sul do continente e a Venezuela convergiram para o Mercosul, em que o discurso predominante é o de Dilma.

Talvez seja uma coincidência da diplomacia, mas a Cúpula ficou espremida entre duas visitas de Estado entre Brasil e EUA, cujos contatos estão mais frequentes do que nunca em tempos sem crise. Antes do encontro na Colômbia, Dilma Rousseff visitou Barack Obama em Washington. Em seguida à cúpula, Hillary Clinton tomou um avião para Brasília, onde declarou que “é difícil imaginar um Conselho de Segurança da ONU [Organização das Nações Unidas] reformado sem a presença de um país como o Brasil”. A declaração é um passo discreto na direção do apoio ao pleito brasileiro por um assento permanente no conselho.

O papel central exercido pelo Brasil nas reuniões de Cartagena está ancorado na sua participação crescente, e muitas vezes central, na economia dos vizinhos. “Hoje, quem está exposto a riscos na América Latina não são mais os EUA, mas o Brasil”, diz Matias Spektor, coordenador do Centro de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas. Portanto, “os investimentos fornecem instrumentos importantes para influenciar os caminhos da região, principalmente através dessa relação de dependência recíproca com os vizinhos”.

“Hoje, quem está exposto a riscos na América Latina não são mais os Estados Unidos, mas o Brasil”, diz Matías Spektor

Essa exposição é fruto dos investimentos importantes que o governo e as empresas brasileiras mantêm em outros países da região. A política do país está ancorada em um regime definido como “solidário” pelo Itamaraty, ou seja, orientado para se inserir nas economias vizinhas de acordo com suas necessidades: tecnologia de pesca para países caribenhos, mediação com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias) na Colômbia, fornecimento de petróleo com segurança para o Chile.

Empresas de peso, públicas e privadas, têm presença forte no continente, como Vale e Petrobras. Também avançam companhias do setor financeiro – agências do banco Itaú estão espalhadas por Buenos Aires e Santiago do Chile -, e empreiteiras, como a Odebrecht, responsável pela modernização do porto de Mariel, em Cuba, e a OAS, que constrói uma estrada na Bolívia como parte do projeto de abrir uma conexão viária para o Oceano Pacífico.

A magnitude da presença brasileira no continente é descrita por Kellie Meiman, diretora-executiva na consultoria McLarty Associates, que foi diplomata no Brasil e em outros países do continente: “Ao visitar os países da América do Sul e Central, ouvia constantemente falar nas ‘big americans’, empresas americanas que dominavam a economia desses países. Agora, esse discurso teve de abrir espaço para um novo ator, as ‘grandes empresas brasileiras”.

O peso dos investimentos nos países vizinhos produz uma interdependência que, por sua vez, é um primeiro passo para a integração regional, ao torná-la necessária. A Petrobras é responsável por quase um quarto da arrecadação de impostos bolivianos, enquanto a energia que alimenta as indústrias do Sudeste brasileiro vem, em grande parte, da usina binacional de Itaipu, na divisa com o Paraguai. Uma crise em algum desses países, política ou econômica, poderia trazer riscos para a economia brasileira.

Nem sempre a interdependência é recebida com sorrisos pelos vizinhos. A construção de uma estrada em terras indígenas na Bolívia, com financiamento do BNDES, foi suspensa no ano passado pelo presidente do país, Evo Morales, acusado pela imprensa de ser um “títere do imperialismo brasileiro”. Os protestos indígenas tiveram um impacto particularmente forte no país, porque Morales foi eleito como um representante da população indígena.

AP

O presidente do México, Felipe Calderón: alfinetada no Brasil após mudança no regime automotivo binacional com seu país, que reduziu a importação de carros mexicanos

Também na Bolívia, as relações com a Petrobras são dúbias. Em 2006, o governo de Morales anunciou a nacionalização do gás boliviano e tropas do país chegaram a ocupar uma refinaria da Petrobras. No ano seguinte, duas refinarias foram compradas pela Bolívia, ainda no esforço de nacionalização. Foram momentos de crise, mas, como assinala o embaixador Antonio Simões, subsecretário-geral da América do Sul do Ministério das Relações Exteriores, não se chegou ao extremo de cortar o fornecimento de gás para o Brasil.

“Não teria sido do interesse deles interromper o fornecimento, vender para o Brasil é importante”, diz o embaixador, usando o caso boliviano como exemplo para as vantagens de estreitar as relações com os vizinhos sem passar a impressão de se tratar de um comportamento de tipo imperialista. O temor boliviano, hoje, foi, desde a independência, expresso também por outros países, a começar pela Argentina.

A atuação diplomática do Brasil é considerada “muito sofisticada” por Riordan Roett, cientista político especializado em América Latina, professor da universidade Johns Hopkins e autor de “The New Brazil”. A crise com a Bolívia foi resolvida com uma conversa entre Lula e Evo Morales em Brasília. Quando houve um desentendimento com Fernando Lugo, presidente do Paraguai, por causa da divisão da energia da usina de Itaipu, em 2009, a solução foi encontrada pelo mesmo método. “A maior preocupação dessa diplomacia é evitar ou minimizar danos”, diz Roett.

Durante o governo de George W. Bush nos EUA, encerrado em 2009, a orientação da política externa americana foi de delegar ao Brasil a execução, ou ao menos a defesa, de algumas de suas bandeiras, particularmente a oposição às políticas bolivarianas de Hugo Chávez e o combate agressivo, militarizado, ao narcotráfico. “Condoleezza Rice [então secretária de Estado] veio ao Brasil para exigir que o Brasil ‘fizesse alguma coisa’ contra a Venezuela”, diz Roett. “Brasília, já no governo Lula, foi muito sábia ao não seguir o que Washington preconizava.”

“‘Delegar’ é uma curiosa escolha de palavras”, afirma Julia Sweig, do “think tank” americano Council on Foreign Relations. “Na verdade, não consigo imaginar alguém em Brasília usando essa palavra para descrever as políticas que Washington tentava empurrar para cima do Brasil.”

“Para alguém que trabalhou tanto com a América Latina, é uma pena que o continente não receba mais atenção dos EUA”, diz Donna Hrinak

Ainda durante a gestão de Bush, ficou evidente que o Brasil não pretendia ocupar o espaço que Washington lhe oferecia de maneira tão categórica. Hoje, resta aos EUA reconhecer que o Brasil, em particular, e a América Latina, em geral, “já deixaram há muito tempo de ser seu quintal”, como frisa Spektor.

“Em Washington, o governo já se deu conta de que o Brasil está em outro patamar, tornou-se uma peça importante no jogo global”, diz David Rothkopf, presidente da consultoria internacional Garden Rothkopf. “Mas ainda não está agindo plenamente de acordo com isso.”

Os sinais, segundo Rothkopf, são contraditórios. Por um lado, o Departamento de Estado, comandado por Hillary Clinton, designou Thomas Shannon para a embaixada em Brasília. Trata-se de um dos mais prestigiados diplomatas de seu país e um nome muito próximo a Hillary. Antes de assumir o cargo no Brasil, foi secretário-assistente para assuntos do Hemisfério Ocidental. Por outro lado, o tratamento oferecido ao Brasil continua inferior a seu prestígio e, principalmente, à atenção dispensada a outros países de importância semelhante, como a Índia e a China. Rothkopf ilustra essa discrepância citando o caso do acordo nuclear com o Irã, costurado por Brasil e Turquia em 2010. “Enquanto o Brasil foi criticado e punido, nenhuma palavra foi dita em relação à Turquia. A relação dos EUA com aquele país nunca esteve melhor”, comenta.

Dentre os temas que opõem as duas maiores forças do continente, aquele que mais reverbera nos demais países é o do “tsunami monetário”, como diz a presidente Dilma Rousseff. “Temos que tomar medidas para nos defender, e não nos proteger. É importante diferenciar defesa de protecionismo. Não podemos deixar nosso setor industrial ser canibalizado”, disse Dilma aos empresários.

O excesso de liquidez atinge os países do continente de maneira desigual. O real tem o câmbio mais valorizado porque sua economia é a maior do continente. Como consequência, afirma Roett, Dilma tem o discurso mais vigoroso em defesa de políticas compensatórias e de proteção à indústria. Os demais países podem interpretar esse discurso como recusa à abertura do mercado, não só para os produtos industriais chineses, mas também aos capitais financeiros abundantes.

Roett não vê essas medidas como tendência para o longo prazo. As iniciativas de integração regional são mais fortes, a começar pela rodovia que liga o Brasil aos portos do Peru, a partir de Rio Branco e Porto Velho. Para evitar o risco de desindustrialização, assunto que está em pauta no Brasil atualmente, será necessário tomar medidas de mais longo prazo, como investimento em qualificação da mão de obra e reformas institucionais. “Tenho esperança de que isso aconteça, mas admito que não é uma esperança muito realista”, diz Roett, citando as dificuldades do sistema político.

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Cristina Kirchner em Cartagena:
para presidente de consultoria internacional,
a Argentina deve “entrar em crise muito em breve”

Na parte de cima da América Latina, pontifica o “laissez faire, laissez passer”. “As coordenadas para o crescimento não estão no protecionismo, mas na abertura comercial, e não estão na expropriação de ativos, mas na garantia de livre empresa”, afirmou o presidente mexicano Felipe Calderón, aplaudido de pé. O discurso era uma alfinetada diretamente dirigida ao Brasil, em resposta à mudança no regime automotivo binacional com o México no mês passado, que reduziu drasticamente a importação de carros vindos do país de Calderón.

O caso mexicano é particular e ilustra a dinâmica da economia latino-americana nas últimas duas décadas. Com a criação do Nafta (Acordo de Livre-Comércio da América do Norte, na sigla em inglês), o país foi inundado de investimentos americanos – com destaque para as chamadas indústrias maquiadoras, que aproveitavam a eliminação das tarifas e os baixíssimos salários para montar produtos sem transferir tecnologia – e se tornou a principal economia do continente.

Já no século atual, com a ascensão da China, seguida da alta vertiginosa dos preços de produtos primários, a balança do continente passou a pesar a favor do Brasil. Os países cuja política econômica estava voltada para o mercado interno foram favorecidos, ao promover uma redistribuição da renda e uma alta dos salários. Até 2004, Brasil e México tinham PIBs em nível semelhante, mas, desde então, o produto brasileiro disparou, permitindo ao país a manifestação de ambições diplomáticas mais vistosas.

A ascensão do Brasil não foi bem recebida pelos mexicanos. O país investe numa oposição ativa contra a candidatura brasileira a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Na votação para a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), no ano passado, o México foi o único país latino-americano a não apoiar o candidato brasileiro, José Graziano, que acabou eleito.

No mês passado, os chefes de Estado dos países da Aliança do Pacífico, formada por México, Peru, Chile e Colômbia, se reuniram pela primeira vez em Santiago. O grupo, constituído pelos principais países do bloco mais ligado à economia americana – portanto, contrapostos à corrente inspirada em iniciativas como o Mercosul -, tem no México seu integrante mais entusiasmado.

Para Rothkopf, é normal que a ascensão internacional do Brasil provoque reações de preocupação – e de ciúmes – em alguns de seus vizinhos, notadamente aqueles que aspiravam a um destino semelhante. O México, em particular, tem sido uma barreira eficaz contra algumas pretensões do Brasil também junto ao governo americano, diz Rothkopf. Um dos motivos da lentidão no avanço do governo Obama para o reconhecimento do pleito brasileiro na ONU é a tentativa de evitar ferir os sentimentos mexicanos. “Será que as Filipinas têm ciúme da proeminência da China?”, pergunta Rothkopf. “Será que o Canadá tem ciúmes dos EUA? Ninguém aqui fica cheio de dedos com os ciúmes do Canadá.”

“Os EUA já perderam a influência que tinham no continente, isso é fato consumado”, diz Julia Sweig, do Council on Foreign Relations americano

Roett acrescenta mais uma causa para a irritação mexicana com o Brasil. “O Itamaraty concentra seus esforços na integração da América do Sul”, diz. Em 2000, foi feita a primeira reunião de presidentes sul-americanos. O México reclamou e acabou obtendo status de observador. Vicente Fox, presidente mexicano de 2000 a 2006, quis integrar o país ao Mercosul, mas foi rejeitado. “A proximidade com os EUA sempre incomodou a América do Sul, não só o Brasil.”

Por outro lado, o Brasil tem uma situação melhor do que as demais potências ascendentes, no objetivo de conjugar a posição global e a local. Ao contrário da China, e principalmente da Índia, não tem conflitos históricos ou de fronteira com seus vizinhos. E, ao contrário da Alemanha que crescia na época de Otto von Bismarck, “há 140 anos que o Brasil não entra em guerra no continente”, ressalta Rothkopf.

Roett cita o barão do Rio Banco, “essa figura adorável”, para assinalar a tradição brasileira de trabalhar em conjunto com os vizinhos, em vez de escolher a via do confronto. “Ao contrário de vários outros países da América do Sul, o Brasil não tem quase nenhum conflito de fronteiras.” O embaixador Simões segue na mesma linha de Roett. Entende que as eventuais desconfianças dos vizinhos quanto às verdadeiras intenções do Brasil são compreensíveis, mas equivocadas, e afirma que “o Brasil não quer ser rico, mas crescer com seus vizinhos”.

Outrora a maior rival do Brasil no continente, hoje a principal parceira comercial e política abaixo do Rio Grande, a Argentina, na pessoa da presidente Cristina Kirchner, foi frustrada, na cúpula de Cartagena, em seu propósito de obter uma declaração conjunta sobre a disputa das ilhas Malvinas. Também muito distante do encontro dos empresários, Cristina voltou para Buenos Aires ainda na manhã de domingo para preparar a expropriação da petroleira YPF, até o momento de capital espanhol, no dia seguinte.

A única reação significativa à decisão de Cristina veio da Espanha, que ameaçou com retaliações e avaliou a parte da companhia que terá de vender em US$ 10,5 bilhões. Em perspectiva histórica, o pouco barulho é significativo. Há menos de uma década, uma decisão drástica como a da Argentina teria provocado uma reação em cadeia no continente, como nas crises políticas dos anos 1960 e 1970 e na montanha-russa financeira dos anos 1980 e 1990.

Já não é assim. “A Argentina está claramente isolada”, diz Julia Sweig. “Os investidores sabem que o ambiente econômico e político do continente está sólido e estável.” Para Rothkopf, “a Argentina só fez o que fez porque está sem dinheiro. Acredito que entrará em crise muito em breve”.


Obama e outros líderes das Américas após posar para fotos em Cartagena: Equador foi o único a boicotar a cúpula em razão da ausência de Cuba dos debates, exigência americana

Do outro lado do panorama continental, os países que gravitam em torno dos EUA têm no baixo custo da mão de obra um de seus principais ativos e na violência urbana a principal debilidade. Jornais favoráveis ao governo colombiano festejavam os índices animadores do país, como a inflação de apenas 3,4% no ano passado e o crescimento de mais de 100% das exportações nos últimos cinco anos.

Mas também recordavam o desemprego persistente em 11,9% da população econômica ativa (no Brasil, de 5,7% em fevereiro) e um dos 20 salários médios mais baixos do mundo. Não é à toa que a principal reação contra os TLC nos Estados Unidos tenha partido da central sindical AFL-CIO, preocupada com a migração da mão de obra para países de salários mais baixos, que, graças a essa condição e aos acordos de livre comércio, exportariam produtos de menor preço para os EUA – com ganho certo em geração de postos de trabalho e divisas.

Se existe a divisão na economia, no âmbito político a equação é outra. “Caminhamos do Consenso de Washington para o consenso sem Washington”, comentou, em Quito, o presidente do Equador, Rafael Correa, o único a boicotar a cúpula em razão da ausência de Cuba em Cartagena, uma exigência americana.

Nos debates a portas fechadas, os Estados Unidos ficaram “solos, solitos”, ironizou o chanceler da Venezuela, Nicolás Maduro, que representava o presidente Hugo Chávez, ausente por doença. A política interna é citada como principal entrave à atuação dos EUA no continente. “Para alguém que, como eu, trabalhou tanto com a América Latina, é uma pena que o continente não receba mais atenção dos EUA”, diz Donna Hrinak. A ex-embaixadora no Brasil faz a ressalva, porém, de que uma das principais funções da diplomacia americana, hoje, é criar condições para a atuação do setor privado. “Mas o setor privado, adiantando-se aos diplomatas, “já busca intensamente maneiras de investir no continente, particularmente no Brasil.”

Em ambos os lados do espectro político, a referência evocada é quase sempre a mesma: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Para Julia Sweig, “a América Latina deveria ser uma região importantíssima para os EUA”. A explicação, paradoxal segundo ela, está justamente na tranquilidade e na solidez da região. A política externa americana se concentra em regiões de conflito e instabilidade que possam colocar em risco a segurança alimentar, energética e econômica do mundo. Trata-se de uma visão, segundo Kellie Meiman, baseada na “realpolitik”: uma diplomacia baseada em preocupações práticas e imediatas. “Os EUA já perderam a influência que tinham no continente, isso é fato consumado”, diz Sweig.

Maduro exagerou ao falar da solidão americana. Os Estados Unidos ficaram em companhia do nada tropical Canadá em sua intransigência em relação a Cuba, na resistência a discutir uma mudança na política antidrogas no Continente e na oposição a se debater a reivindicação argentina pelas Malvinas. E até Felipe Calderón, antes de chegar à Colômbia, passou por Cuba para se encontrar com Raúl Castro.

Neste “consenso sem Washington”, a estrela de Hugo Chávez esmaece. A tendência é para o predomínio dos presidentes eleitos pela esquerda, mas com compromissos de manutenção de políticas econômicas favoráveis ao meio empresarial. É o caso de Dilma Rousseff, do peruano Ollanta Humala, do uruguaio José Mujica – cujo país acaba de subir no rating das agências de classificação de risco – e do salvadorenho Mauricio Funes.

O grupo começa a ganhar a adesão de uma geração eleita pela direita e interessada em políticas sociais. Estão no grupo o colombiano Santos, que promove uma reforma fundiária que beneficia as famílias de camponeses atingidas pelos grupos de extermínio, e o guatemalteco Otto Pérez, defensor de investimentos em saúde e educação no tratamento da violência urbana.

AP / AP

Hillary Clinton com o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, em Brasília: sinais de apoio ao pleito brasileiro por uma assento permanente em conselho da ONU

Em ambos os lados do espectro político, a referência evocada é quase sempre a mesma: o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva. Lula virou uma espécie de símbolo na região porque foi, nas palavras de Donna Hrinak, o primeiro a chamar para os próprios latino-americanos o peso da responsabilidade de resolver os problemas do continente. A transição política suave entre o governo do PSDB e o do PT também é citada como prova da maturação do continente, em paralelo com o controle continuado da inflação e a ênfase em políticas sociais.

Um elemento citado por diplomatas para explicar a transformação de Lula em “grife” na política continental é o sucesso em provocar a sensação, na população, de que a vida está melhorando de fato. Mesmo em países com grande sucesso econômico, como o Chile, o orgulho com a força financeira pode ser eclipsado pela ausência dessa sensação. O Chile sofreu com vastos protestos estudantis no ano passado e seu presidente, Sebastián Piñera, não goza de bons índices de popularidade.

Aproveitando a aproximação, primeiro da União Europeia e depois, principalmente, da China, esses países estão conseguindo conjugar a liberdade de mercado com a atenção a problemas sociais. A retórica inflamada de Hugo Chávez empalidece diante da capacidade que países como o Brasil e o Peru – em que a eleição de Humala, no ano passado, causou a mesma apreensão que a vitória de Lula em 2002 – têm demonstrado de produzir crescimento econômico com sucessos na área social, sempre com independência de políticas, mas sem bater de frente a cada momento com os EUA ou os mercados.

Para ser protagonista dessa nova tendência, falta a Dilma certos gestos de apelo popular, nos quais Lula sempre foi pródigo. Em Cartagena, a presidente não bebeu cerveja em uma boate, como a secretária de Estado Hillary Clinton. Jantou em um restaurante refinado da cidade colombiana e se retirou, sem acenar para turistas brasileiros. “O Piñera é mais simpático”, lamentou uma paulistana a passeio. O presidente do Chile, apesar de não fazer parte do grupo que reivindica o legado de Lula, visitou comunidades carentes durante sua estadia na Colômbia.

16/04/2012 - 10:39h Cúpula expõe divisão da América Latina no comércio com os EUA

Sob o olhar de Obama, Dilma Rousseff cumprimenta o colombiano Juan Manuel Santos na Cúpula das Américas


Por César Felício | VALOR

De Cartagena

A passagem do presidente Barack Obama pela Cúpula das Américas, em Cartagena, na Colômbia, mostrou que os países latino-americanos se distanciam dos Estados Unidos em questões políticas e sociais, mas a divisão permanece em relação às políticas comerciais. Obama e o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, anunciaram o início da vigência do Tratado de Livre Comércio entre os dois países em 15 de maio. E a aliança do Pacífico, entre os países com os quais os Estados Unidos possuem tratado de livre comércio, como Colômbia, Chile, Peru, México e América Central, preocupa empresários do Mercosul.

“Precisamos nos aproximar dos Estados Unidos rapidamente, para que o Mercosul não fique limitado”, comentou durante a cúpula o empresário argentino do setor de soja Gustavo Grobocopatel, num intervalo do Fórum de Empresários, que ocorreu de modo paralelo à reunião dos 29 presidentes das Américas.

O bloco do Pacífico é um sucedâneo em escala reduzida da Alca, a aliança de livre comércio das Américas, proposta pelos Estados Unidos nos anos 90 e sepultada na terceira cúpula dos presidentes, em Mar del Plata, em 2005. E tem como um de seus eixos a reação às medidas protecionistas adotadas recentemente pelo Brasil e pela Argentina.

“É imperioso o Brasil se abrir mais ao mercado internacional, como havia sinalizado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva da última vez que manteve um encontro bilateral com a Colômbia. É fundamental, se o Brasil quiser ter o peso econômico e político que lhe corresponde”, afirmou ao Valor o ministro da Fazenda da Colômbia, Juan Carlos Echeverry. De acordo com o ministro, a aliança é quase um antibloco.

“Todos os países da aliança possuem diversos tratados de livre comércio. Esta coisa de bloco é um pouco ‘demodé’. Nós temos 44 tratados de livre comércio e um deles é com o Mercosul. E é por isso que nosso intercâmbio aumentou como nunca”, afirmou Echeverry.

Nos últimos cinco anos, as exportações colombianas quase dobraram, passando de US$ 24,4 bilhões para US$ 56,8 bilhões, e as importações foram de US$ 26,1 bilhões para US$ 54,4 bilhões. Apenas 2,4% deste intercâmbio é com o Brasil e 2,9% com a Venezuela, que junto com a Bolívia é um país associado ao Mercosul e busca ser membro pleno.

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, manteria uma reunião bilateral com a presidente Dilma Rousseff na noite do domingo, mas o encontro foi cancelado de última hora por “problemas de agenda”, segundo alegou o Itamaraty. Santos iria tratar com Dilma da possibilidade de Brasil e Estados Unidos apresentarem uma proposta conjunta de ação contra a crise econômica global durante a reunião do G-20, que acontecerá em junho no México. A Colômbia assistirá à reunião como convidada especial.

Ao participar do Fórum de Empresários, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou que os tratados de livre comércio “eram o caminho”.

Na mesma linha, o presidente do México, Felipe Calderón, fez uma crítica direta ao Brasil, afirmando que o país “infelizmente foi na direção oposta” da liberdade comercial. Ele reiterou sua posição de que “é com menos protecionismo, e não com mais, que se vai reagir à crise internacional”.

O tratado de livre comércio entre a Colômbia e os Estados Unidos foi aprovado no final do ano passado pelo Congresso americano. Neste mês, o Congresso colombiano aprovou as últimas medidas exigidas pelo governo americano para que fosse definida a data de início do acordo. O Legislativo colombiano endureceu as normas de direitos autorais e de patentes.

Pelo texto, 82% dos produtos industriais americanos entrarão no país com alíquota zero, e 99% dos produtos industriais colombianos terão livre acesso aos Estados Unidos. As vendas para os EUA representam 37% das exportações colombianas, mas o acordo é visto com cautela por alguns empresários locais. “No nosso setor, não há competitividade que torne viável as vendas para o mercado americano”, comentou Luis Fernando Pelaez, executivo da Sofasa, a montadora da Renault na Colômbia.

Cuba, Malvinas e narcotráfico fazem reunião terminar sem um texto final

Por De Cartagena

A Cúpula das Américas se encerrou ontem com uma curta declaração conjunta dos governantes, em que anunciaram a criação de uma “entidade coordenadora para harmonizar estratégias e ações dos Estados americanos em relação ao crime organizado transnacional”. Segundo o presidente anfitrião, o colombiano Juan Manuel Santos, caberá à OEA estruturar a instituição, que irá avaliar o resultado das atuais políticas antidrogas e propor eventuais modificações.

A aceitação de uma mera avaliação das políticas atuais, e não de uma mudança de estratégia, foi uma das poucas concessões feitas pelo presidente dos EUA, Barack Obama. A mudança de enfoque na luta ao narcotráfico era o principal pleito dos países centro-americanos e da própria Colômbia.

Os EUA, sempre apoiados pelo Canadá, opuseram-se à discussão sobre as ilhas Malvinas, uma reivindicação da Argentina, motivo pelo qual a presidente Cristina Kirchner se retirou da cúpula antes de seu final. E vetaram a inclusão de Cuba no fórum continental. Em razão do impasse em relação a esses temas, mais uma vez não houve uma declaração final do encontro, que precisaria do consenso de todos os países. O texto único foi substituído por declarações curtas, sobre temas pontuais. Já havia sido assim na cúpula de 2009. “Está se convertendo em uma tradição”, comentou o chanceler brasileiro, Antonio Patriota.

A pedido do Brasil e apoiado pela Argentina, os líderes também subscreveram um compromisso “de garantir uma ampla participação no segmento de alto nível” na cúpula ambiental Rio+20, que acontece em junho no Rio. Há dúvidas sobre a vinda de Obama.

A poucos meses da eleição presidencial, Obama foi à Colômbia com pouca margem de manobra em relação a temas que influem diretamente no eleitorado doméstico. E havia antecipado, ao discursar no fórum de empresários que ocorreu em paralelo à cúpula, que não iria transigir em relação a Cuba ou legalização de drogas.

Em entrevista coletiva ao lado de Santos, Obama negou o receio eleitoral. ” Nossa posição em relação a Cuba nunca foi outra, desde que fui eleito. Não houve mudança”, afirmou. E justificou o veto à menção às Malvinas afirmando que isso seria uma intervenção em uma disputa que divide “dois países com quem os Estados Unidos tem uma relação próxima”.

Em seu discurso, a presidente Dilma Rousseff pediu “um esforço anticíclico” dos países da Europa e dos EUA “para que a crise econômica deles não seja transferida a uma região que tem se desenvolvido”. Segundo relato feito pelo ministro da Educação, Aloizio Mercadante, Dilma também se somou à reivindicação dos demais países em relação à questão cubana.

Dilma cancelou de última hora um encontro bilateral que estava previsto com o presidente colombiano e antecipou sua volta ao Brasil. Antes de se retirar, almoçou em um restaurante típico da cidade.

13/04/2012 - 10:52h Plano Colômbia não interrompeu narcotráfico mas ‘enfraqueceu as Farc’


Mais de 90% da cocaína consumida nos EUA ainda é colombiana; ação antidrogas acabou fragilizando a guerrilha.

13 de abril de 2012

BBC Brasil – O Estado SP

Dez anos após o início do Plano Colômbia, o principal resultado da ação antidrogas pode ter sido o enfraquecimento de movimentos guerrilheiros de inspiração política, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil.

Embora o aparelhamento das forças de segurança colombianas não tenha conseguido interromper o tráfico para os Estados Unidos, onde 95% da cocaína consumida ainda tem origem no país sul-americano, segundo o Departamento de Defesa, a ação pode ter ajudado a minar as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o ELN (Exército de Libertação Nacional).

“Não concordo com a ideia de que combater a insurgência de esquerda tenha sido a principal meta do Plano Colômbia. Mas ele serviu a isso, na medida em que usou ataques aéreos massivos e equipou o Exército, atingindo fortemente muitas frentes e bases da guerrilha”, disse Jorge Restrepo, professor e diretor do Centro de Estudos para a Análise de Conflitos (CERAC).

No final da década de 1990, a guerrilha colombiana teve um crescimento significativo e se envolveu com o narcotráfico como forma de autofinanciamento.

Para alguns analistas, deter as guerrilhas sempre foi um dos objetivos de “fundo” do Plano Colômbia. Para o sociólogo Ricardo Vargas, o esforço e o dinheiro investidos no combate ao narcotráfico no país tiveram como maior objetivo enfraquecer as Farc.

Vargas afirma que boa parte dos mais de US$ 7 milhões (R$ 12,8 milhões) investidos pelos EUA no plano foi utilizada para financiar a compra de equipamentos para o Exército, como aeronaves e armamentos.

“Para combater as Farc, o Plano Colômbia serviu muito bem”, disse Vargas. Segundo o sociólogo, a Força Aérea colombiana recebeu aeronaves modernas e grandes plantações de coca foram eliminadas por erradicadores manuais e por fumigação. Além disso, os grandes cartéis que trabalhavam em parceria com as Farc ou que eram controlados pela guerrilha foram desmantelados.

Segundo Vargas, o enfraquecimento da guerrilha e a propaganda sobre o avanço contra o narcotráfico, mudaram também a percepção de segurança da sociedade.

“A segurança em algumas regiões aumentou. Mas, na zona rural, a instabilidade continua. A coca continua sendo produzida e a guerrilha continua aliada aos traficantes, aos grupos paramilitares e a gangues criminosas comuns, que estão se multiplicando. Isso tudo é um sinal de que algo não saiu como o planejado”, afirma Restrepo.

Resultados

Um dos resultados mais alardeados por americanos e colombianos é a redução de quase 50% na área plantada de coca na Colômbia.

Apesar dos altos investimentos americanos, a mais vistosa ação antidrogas no continente não conseguiu interromper o tráfico de narcóticos para os Estados Unidos, onde 95% da cocaína consumida ainda tem origem no país sul-americano.

A informação faz parte de um relatório do Departamento de Defesa americano sobre a estratégia internacional de combate aos narcóticos dos EUA, dois anos depois do término oficial do Plano Colômbia.

O debate sobre o que o plano de cooperação realmente alcançou ganha força neste momento por causa do interesse demonstrado por presidentes de vários países em discutir alternativas para combater os problemas relacionados às drogas durante a Cúpula das Américas em Cartagena.

Na onda de debates que antecedem a reunião dos países membros da Organização dos Estados Americanos (OEA), o próprio presidente colombiano, Juan Manuel Santos, questionou os êxitos do Plano Colômbia.

Para o presidente colombiano, o plano foi um sucesso sob o ponto de vista de alguns dos resultados. Além da redução do cultivo da coca, grandes cartéis da droga foram desmantelados e líderes importantes morreram ou foram presos.

Em declarações recentes à imprensa, Santos ressaltou o que chamou de “contradição interna”.

“Quanto mais bem sucedidos somos (no combate às drogas), mais sobe o preço da cocaína em Los Angeles ou em Chicago. E o consumo não está baixando, só crescendo”, disse.

Produtividade x distribuição

Segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil, mesmo os resultados utilizados para comprovar o sucesso do Plano Colômbia devem ser avaliados com cuidado.

A redução do cultivo da coca, por exemplo, não representaria uma mudança tão positiva, já que os produtores investiram em plantas resistentes e conseguiram espécies de alta produtividade.

“Hoje se utiliza plantas de coca até três vezes mais produtivas que antes. Por isso, em uma área plantada muito menor, pode-se obter quantidades maiores de matéria-prima, em metade do espaço usado anteriormente”, disse o professor Jorge Restrepo.

Restrepo diz ainda que as grandes apreensões e o desmantelamento dos cartéis na Colômbia não alcançaram a redução esperada no consumo de droga nos Estados Unidos e na Europa.

“Quando se vê a quantidade consumida nestes países, é impossível não perceber a discrepância entre os números apresentados no combate ao narcotráfico nos países emissores da América Latina e na outra ponta, onde está o maior consumo”, reflete.

Um dos motivos que ajudaram a manter a oferta, diz, foi a mudança no processo de produção e distribuição da droga, que acabou se espalhando pela América Central e o México.

“Com a descentralização dos centros produtores, espalhados por diversas regiões e por vários países, ficou mais difícil combater o sistema, cada vez mais internacionalizado.”

Outro motivo, na opinião do pesquisador, tem raízes no envolvimento com o narcotráfico. De acordo com Restrepo, um “gargalo” importante no combate ao narcotráfico é a corrupção presente em várias instâncias do poder público.

“Não há como negar que há servidores e políticos colombianos que servem ao narcotráfico, permitindo que o sistema funcione, mesmo com todo o aparato formado para combatê-lo”, afirma.