16/11/2009 - 09:34h Novas ameaças às exportações brasileiras nos maiores mercados do mundo

Americanos e europeus estudam regulação mais dura com base em problemas climáticos, trabalhistas e de segurança

Raquel Landim – O Estado SP

Estão surgindo novas ameaças às exportações brasileiras nos maiores mercados do mundo, Estados Unidos e União Europeia. Três grupos de barreiras preocupam: ambientais, trabalhistas e de segurança. Deputados americanos e europeus debatem novas legislações sobre esses temas, que são foco da agenda comercial.

Estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) aponta que por ano 15,4% das exportações brasileiras para os EUA – o equivalente a US$ 5 bilhões – estão na mira da nova legislação americana de mudanças climáticas. A lei pode atingir as vendas brasileiras de aço, celulose, papel e alumínio.

O aquecimento global tornou o tema ambiental urgente. O presidente Barack Obama deu sinais de que está disposto a assumir compromissos na reunião de Copenhague. Preocupadas em ficar em desvantagem com outros países, as empresas americanas exigem compensações.

Existem dois projetos sobre o tema no Congresso americano. O mais provável é que sejam aprovadas medidas que obriguem os importadores a comprar licenças para emissão de carbono. “Isso joga o ônus da adaptação nos países em desenvolvimento”, disse o diretor de relações internacionais da Fiesp, Mário Marconini.

A União Europeia também estuda a adoção de uma “taxa de carbono” contra produtos importados, caso os países emergentes não se disponham a assumir compromissos equiparáveis aos ricos de redução de emissões em Copenhague.

Segundo a consultora da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Sandra Rios, essas tarifas distorcem a negociação climática, que reconhece que os países ricos e em desenvolvimento têm responsabilidades diferentes pelo aquecimento global. “O problema é que essas tarifas vão equiparar os esforços. As nações emergentes têm de manter seu crescimento.”

Nas discussões trabalhistas, os sindicatos ganharam força para defender regras rígidas em acordos comerciais, depois do desemprego causado pela crise e do apoio decisivo a Obama. A maior preocupação é com o trabalho escravo e infantil.

Tramita no Congresso dos EUA um projeto para reformar a lei de aduanas. Segundo o diretor executivo da Coalização das Indústrias Brasileiras, com sede em Washington, Diego Bonomo, pode entrar em vigor uma nova lista de produtos feitos com trabalho escravo e infantil, que ficariam impedidos de entrar no país. A lista inclui 13 itens brasileiros, como algodão, calçados e tabaco.

A segurança também ganhou relevância desde os ataques de 11 de setembro de 2001. O Congresso concedeu um mandato para o Executivo americano escanear 100% dos contêineres que chegam ao país. Existe um projeto-piloto, mas a administração federal argumenta que não há condições de colocar a lei em prática.

Barreira ambiental vai afetar mais os setores intensivos de energia

Estudo da Fiesp mostra que maiores prejuízos recairão na venda de ferro e aço, celulose, argila, papel e alumínio

Raquel Landim – O Estado SP


As exportações brasileiras dos setores intensivos em energia serão as mais afetadas pelas novas barreiras ambientais dos Estados Unidos. Os prejuízos podem ser maiores nas vendas de ferro e aço, celulose, argila, papel e alumínio, conforme estudo elaborado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

A Câmara dos Deputados dos Estados Unidos aprovou no mês de junho a Lei Waxman-Markey, que estabelece metas de redução de emissões para os Estados Unidos pela primeira vez. Segundo cálculos do Departamento Governamental de Contabilidade americano, os setores que terão mais gastos para se adaptar às novas regras serão metais primários, metais não-metálicos e químicos.

Ainda não foi definido pelo Congresso, mas crescem as chances de que, para compensar os fabricantes locais e evitar a fuga de empresas para países com padrões ambientais menos rígidos, os americanos estabeleçam medidas de fronteira, como exigir que os importadores comprem licenças de emissões de carbono.

No caso do Brasil, o setor siderúrgico deve ser o mais prejudicado, já que quase 27% das exportações de ferro e aço são destinadas ao mercado americano, o que significou US$ 3,4 bilhões em 2008.

“A Conferência de Copenhague é essencialmente econômica. Não podemos ter a ingenuidade de chegar a essa discussão como se fosse apenas ambiental”, argumenta o presidente executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes.

“Se a indústria siderúrgica americana vai fazer investimentos, é legítimo que queiram compensações. O problema é que, depois da crise, o mercado está sobre ofertado. As questões ambientais podem ser um pretexto para o protecionismo”, observa. Ele afirma que existe um excedente de aço de 600 milhões de toneladas no mundo.

A indústria siderúrgica brasileira defende que as metas de redução de emissões sejam diferentes para países com consumo per capita inferior e superior a 300 quilos de aço por habitante por ano. Na avaliação do setor, o consumo de aço é um indicador de crescimento econômico e as metas ambientais não podem brecar o desenvolvimento. O Brasil consome 100 quilos por habitante/ano, enquanto a China chega a 340.

Para o presidente da Associação Brasileira do Alumínio (Abal), Adjarma Azevedo, “as barreiras ambientais são inevitáveis”. O executivo afirma que o Brasil tem de se empenhar para influenciar na implementação dessas leis. Ele diz que, dependendo dos critérios, pode ser um benefício para o Brasil, cuja matriz energética é 47% de energia renovável.

Azevedo acredita que as medidas de fronteira dos Estados Unidos vão acabar levando em consideração o conteúdo de emissão de carbono de cada país. Segundo ele, a indústria brasileira de alumínio contribui com 0,2% das emissões do País, que, por sua vez, representa apenas 4% das emissões globais.

Já a fabricação mundial de alumínio equivale a 1% das emissões do planeta.

QUÍMICO

A maior preocupação do setor químico hoje não está nos Estados Unidos, mas na Europa. A União Europeia implementou no ano passado um novo registro para as substâncias químicas que entram no bloco, conhecido pela sigla Reach. O objetivo é garantir a qualidade dos produtos químicos para não afetar a saúde da população e o meio ambiente.

Por enquanto, a regulamentação ainda não está sendo rigidamente implementada. “Mas pode ser utilizado como uma barreira se os europeus quiserem, porque impõe uma série de dificuldades para as empresas”, explica o diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Nelson Pereira dos Reis.

OUTRO LADO DA MOEDA

Para alguns setores, novas barreiras comerciais podem se transformar em oportunidades. O presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Aguinaldo Diniz Filho, disse que é “absolutamente favorável” a cláusulas sociais no comércio internacional. “É uma evolução natural da globalização.”

Para o setor têxtil brasileiro, que já opera com uma legislação trabalhista forte, novas regras são vantajosas, porque prejudicariam seu principal concorrente, a China.

Os novos temas do comércio internacional, como meio ambiente e trabalho, são causas defensáveis e não chegam a ir diretamente contra a Organização Mundial de Comércio (OMC), que prevê que os países abram exceções para proteger os recursos naturais ou para fins sociais.

A questão, alertam os especialistas, é que esses temas podem ser utilizados como barreiras protecionistas.

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Discussão sobre o etanol ganha novas proporções

Raquel Landim – O Estado SP

Símbolo do sucesso brasileiro em energia renovável, o etanol também pode ser alvo de barreiras ambientais. O setor enfrenta um momento crítico nos próximos meses, que é a regulamentação dos combustíveis de baixo carbono.

“É a nossa maior preocupação”, disse o presidente da União da Indústria Canavieira de São Paulo (Unica), Marcos Jank. O assunto está sendo debatido nos Estados Unidos e na União Europeia. Nos Estados Unidos, a discussão não é apenas federal, mas também estadual.

Não existem dúvidas de que o etanol polui menos que a gasolina. Também está claro que o etanol brasileiro, produzido com cana-de-açúcar, é menos poluente que produto americano, feito a partir do milho. A questão é qual é o tamanho da vantagem.

Segundo Jank, as discussões nos Estados Unidos e na União Europeia consideram o uso indireto da terra. Ou seja, o efeito que a expansão da produção de cana tem no desmatamento da Amazônia. A área de cana cresce no Centro-Sul, mas, teoricamente, empurra outras culturas em direção à floresta.

“São cálculos muito difíceis de fazer. E estão sendo utilizadas premissas erradas, porque há desconhecimento do álcool de cana”, disse o presidente da Unica. Jank ressalta que apenas 1% da expansão da cana-de-açúcar ocorre por meio de desmatamento, enquanto 60% é feito em áreas de pastagens.

Para as usinas, a discussão sobre o padrão do combustível se tornou mais importante que a queda da tarifa cobrada pelos Estados Unidos para a importação de etanol, de US$ 0,54 por galão, que vence em 2010.

Segundo Jank, a indústria vai fazer um forte lobby para o Congresso Nacional não renovar a tarifa. “Mas se garantirmos uma boa qualificação para o etanol brasileiro como combustível avançado ganharemos aliados nessa briga.”

08/11/2009 - 12:23h Brasil se antecipa e desfaz política anticíclica

Alberto Tamer* – O Estado SP

Afinal, retira-se ou não a política de incentivos à economia para sair da recessão? Esse é um dilema dos países ricos. Do Brasil, não. Nós já estamos desfazendo as medidas anticíclicas em ordem, com redução de juros e impostos. Eles voltam aos poucos, de forma gradual e seletiva, sem afetar a demanda e aumentando a arrecadação. Mas a pergunta, quase acadêmica, voltou no cenário mundial, este fim de semana, com a reunião dos ministros das Finanças do G-20, na Escócia.

Barack Obama e Ben Bernanke dizem que não. O Banco Central Europeu diz que sim. Chega de ajuda ao sistema financeiro a partir do próximo ano, afirmou o seu presidente Jean-Claude Trichet, na quinta-feira. E só não aumentou os juros por pressão dos governos, principalmente da França. O juro permanece em 1%, com sinais de alta. O BCE tem medo da inflação que não é inflação, mas deflação. Menos 0,3% em setembro.

Nos EUA, o desemprego de 10,2% se antecipa às previsões. Não era para acontecer agora, mas no início do ano. Janeiro ou fevereiro. Preocupa, mas era esperado, pois a economia, que havia dado um salto no último trimestre, continua frágil. Ainda não se sustenta.

O governo estava preparado. No mesmo dia em que se anunciou esse índice, Obama estendeu os benefícios federais aos desempregados, que se acumulam aos estaduais, e prorrogou medidas de estímulo ao setor imobiliário. A Casa Branca informou também que novas medidas anticíclicas estão sendo estudadas e poderão ser anunciadas em breve.

Um dia antes, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), também veio a público para informar que não muda a política monetária, vai manter ainda por algum tempo o juro básico em torno de 0,25%, praticamente negativo em termos reais. Vai continuar ativo na compra de títulos do Tesouro e imobiliários. Ou seja, mais dólares vão entrar no mercado.

Para Obama e Bernanke, a economia só reage com mais estímulos. Tudo o mais, déficit, dívida, fica para depois

Na Europa, nada muda, apesar de o desemprego já estar em 9,7%, e a inflação crescendo. Não seria grave se ela não tivesse o mesmo que os EUA no Produto Interno Bruto (PIB) mundial. US$ 14 trilhões.

Quem está certo, os americanos ou os europeus? Trichet ou Bernanke?

É isso que estava na pauta da reunião dos ministros do G-20, encerrada ontem. Foi a terceira do ano ? um balanço com resultados previsíveis. A conclusão é que vão continuar estimulando a economia, mas cada um do seu modo. Só que isso não funciona porque alguns querem agir mais, outros menos. E a economia mundial vai continuar se arrastando ainda por muitos e muitos meses.

RETOMADA NÃO CONVENCE

Eles deveriam ouvir quem não foi ouvido no passado, e acertou ao prever a recessão: Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York. Para ele, a retomada é ainda incerta e não se mantém porque está sendo sustentada pelos estímulos fiscais e monetários, gastos dos governos e pela política de juros baixos. Quanto dura? Roubini arrisca. Quando muito, não mais de seis meses. É mais ou menos o prazo para que os estímulos do governo não se transformem em déficits insuportáveis. Em determinado momento, o setor privado, as empresas, terão de substituir o governo. Há ainda muitos desequilíbrios. O mercado financeiro está se recuperando mais rapidamente que a atividade econômica. Sinal, o desemprego continua aumentando. E permanece a pergunta. Quando o governo deve começar a sair? Roubini não responde, mas insinua que o setor privado ainda não está preparado. E cabe aos governos dos países desenvolvidos continuar a tarefa de prepará-los. Só devem tentar administrar melhor seus déficits. E antecipar-se a bolhas previsíveis.

QUEM ESTÁ CERTO?

Acho que nós. Estamos indo devagarzinho nas duas frentes, fiscal e monetária. Sem a ousadia dos dias que antecederam a crise e se enfrentou, com êxito, a recessão. Agora, não há pressa. O governo está começando a remover as medidas anticíclicas de forma gradual. Na área tributária, com o restabelecimento do IPI no setor automobilístico, o mais afetado pela crise. Nessa área, grande empregadora de mão de obra, evitou-se o pior. Mas esse imposto está sendo restabelecido gradualmente para que empresas e compradores se adaptem à nova realidade. E a realidade é uma economia na qual o crédito volta, o desemprego recua e o rendimento das famílias aumenta. No final da linha, isso vai representar maior arrecadação.

O mesmo está sendo feito ainda com mais cuidado na linha branca por causa do seu componente social.

Na área monetária, lembra Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, o Banco Central mantém sua posição, também com medidas graduais, sem precipitações. Reduziu o juro básico para 8,75% e o mantém nesse nível.

Não temos pressa porque nos apressamos antes, aproveitando um terreno já preparado no governo anterior e neste. A inflação caiu de 12,5% em 2002 para 4,3% neste ano.

O juro nominal em 2002 era de 19,1%, teve de ser aumentado para 23,3% no ano seguinte para conter a inflação e agora está em 8,7%.

Sabedoria? Não. Apenas soubemos aproveitar esse cenário, que nós mesmos preparamos, para nos sobrepormos aos outros, que afundaram na recessão.

*Email: at@attglobal.net

04/11/2009 - 10:34h Itália é condenada por ter crucifixo na sala de aula

Para a Corte Europeia de Direitos Humanos, símbolo perturbaria crianças não cristãs; integrantes do governo e da Igreja criticaram a decisão


Reuters, AP e Efe, ROMA – O Estado SP

A Corte Europeia de Direitos Humanos determinou ontem que os crucifixos, símbolos da religião cristã, sejam retirados das escolas públicas italianas, pois a sua presença poderia ser perturbadora para crianças de famílias que possuem outras crenças. A decisão causou indignação e raiva em autoridades italianas e na Igreja Católica, que classificou a sentença de “ideológica e parcial”. O governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi anunciou que pretende recorrer.

“Vergonhosa”, “ofensiva”, “absurda”, “inaceitável” e “pagã” foram alguns dos adjetivos incisivos usados por integrantes do governo ao comentar a decisão do tribunal.

Para a ministra da Educação, Mariastella Gelmini, a presença dos crucifixos nas salas de aula não significa uma aderência automática ao catolicismo e sim um símbolo de uma herança italiana. “A história da Itália está marcada por símbolos e se apagamos esses símbolos, apagamos partes de nós mesmos”, disse.

Rocco Buttiglione, um ex-ministro que ajudou a escrever encíclicas papais, afirmou que a “Itália tem sua cultura, suas tradições e sua história. Os que vivem entre nós devem entender e aceitar essa cultura e essa história”.

O país vem debatendo há tempos como lidar com a crescente população de imigrantes – a maioria vinda de países com maioria de muçulmanos – e é provável que a sentença da Corte Europeia de Direitos Humanos se converta em um outro grito de guerra para a política do governo de Berlusconi, de centro-direita, para restringir o número de recém-chegados.

O caso foi apresentado por uma cidadã italiana, Soile Lautsi, que se queixou do fato de que seus filhos tiveram de frequentar uma escola no norte do país que possuía crucifixos em todas as salas. Soile alegou que isso contrariava seu direito de dar a seus filhos uma educação secular e a corte decidiu a seu favor.

O ministro italiano de Relações Exteriores, Franco Frattini, afirmou que a corte desferiu um “golpe mortal a uma Europa de valores e direitos”, criando um mau precedente para outros países.

O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, disse que o crucifixo é símbolo da importância dos valores religiosos na história e na cultura italiana e um símbolo de união e aceitação para toda a humanidade. Para ele, a corte não tinha o direito de intervir em um tema profundamente italiano. “Parece que a corte ignora o papel do cristianismo na formação da identidade europeia, que era e continua sendo essencial.”

***

Tribunal europeu condena crucifixo em escola italiana

Corte de direitos humanos diz que símbolo pode perturbar crianças não cristãs

Governo e Vaticano criticam decisão, tomada a partir de denúncia feita por cidadã que considerou cruz uma afronta ao ensino laico

DA REDAÇÃO FOLHA SP

A Corte Europeia de Direitos Humanos condenou ontem a presença de crucifixos em escolas da Itália, alegando que os símbolos poderiam perturbar crianças não cristãs. A decisão causou protestos de italianos que consideram o crucifixo parte da cultura nacional. O governo Berlusconi prometeu recorrer da condenação.
O caso foi levado à Corte Europeia por uma cidadã italiana, Soile Lautsi, que se queixava de que seus filhos eram forçados a ir a uma escola pública com crucifixos em todas as salas de aula e que isso contrariava seu direito a uma educação laica.
A corte condenou o governo a pagar multa de 5.000 a Lautsi e, ainda que não tenha determinado explicitamente a remoção dos crucifixos, declarou em seu veredicto que “o Estado não deve impor crenças” em locais públicos e tem de manter “neutralidade na educação pública, que deve abrigar o pensamento crítico”.
O Vaticano expressou “choque” e “pesar” pela decisão, uma vez que vê o crucifixo como “símbolo do amor de Deus, de união”. “Lamento que seja considerado um símbolo de divisão ou limitação de liberdade”, disse o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi.
A ministra da Educação, Mariastella Gelmini, disse que os crucifixos não significavam aderência ao cristianismo e que apenas simbolizam a tradição italiana. Parte da oposição ao governo direitista também criticou a decisão judicial, elogiada por grupos ateístas.
A Itália é um dos países europeus envoltos em debate sobre como lidar com um crescente número de imigrantes, muitos deles muçulmanos, e a proibição da corte europeia pode servir de bandeira para o governo conservador do premiê Silvio Berlusconi intensificar a restrição à imigração.
Na França, lei de 2004 proibiu o uso de símbolos religiosos ostensivos em todas as escolas públicas. É possível que a decisão judicial de ontem -que afeta uma lei dos anos 1920, época do governo fascista, que obriga as escolas italianas a ostentarem crucifixos- estimule medidas semelhantes em outras escolas públicas europeias.
A Corte Europeia de Direitos Humanos, em ação desde 1959 em Estrasburgo, França, foi criada para punir violações previstas na Convenção Europeia de Direitos Humanos, e suas decisões são vinculantes.
Antes de chegar ali, em 2006, o processo tramitou no Tribunal Constitucional italiano (que disse não ter jurisdição sobre o caso), num tribunal administrativo e no Conselho de Estado da Itália, que o rejeitou.


Com agências internacionais

20/10/2009 - 09:58h Dívida de países ricos infla com a crise

Dívida pública média dos países da OCDE vai atingir 100% do PIB

(A relação Dívida/PIB é aproximadamente de 40% no Brasil. LF)


Andrei Netto, CORRESPONDENTE, PARIS – O Estado SP


A explosão do déficit fiscal dos 30 países mais industrializados, membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), vai impulsionar a dívida pública média a 100% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2010. O cálculo atualizado foi feito a pedido do Estado e confirma previsões negativas sobre o estado das finanças públicas das nações desenvolvidas. Segundo a revista The Economist, só nos sete países mais ricos, o G-7, a conta já supera os US$ 35 trilhões.

O desequilíbrio orçamentário é o efeito mais retardado da crise, e ameaça a estabilidade de todas as grandes potências: Estados Unidos, França, Reino Unido, Itália, Japão e, em menor escala, Canadá. O hiperendividamento – um problema que o Brasil conheceu de perto nos anos 70, 80 e 90 – é consequência direta do aumento brutal do déficit público médio nos últimos dois anos. Em 2007, a cifra atingia 1,5% do PIB dos 30 países; em 2009, chega a 8%. “O déficit explodiu no mundo com a crise, que reduziu a arrecadação e exigiu mais gastos públicos, em especial pela adoção dos pacotes de estímulo à economia”, disse Jean-Luc Schneider, diretor adjunto do Departamento de Economia da OCDE.

A relação média entre a dívida pública e o PIB é mais grave no Japão, onde estaria na casa dos 200%, nos Estados Unidos, em cerca de 100%, e na União Europeia, próximo a 90%. E a perspectiva não é de redução, mas de crescimento de 30% entre 2007 e 2017. Nesses dez anos, a dívida crescerá de 63% para 103% nos EUA, passará de 47% a 125% no Reino Unido e de 70% a 99% na França. Levantamento do banco Barclays Capital nas contas públicas da zona do euro indica situação de calamidade em países como a Grécia – onde a dívida irá de 95% em 2007 para 149% em 2015. Na Irlanda, saltará de 25% a 144%.

Apesar dos números, a preocupação de organismos como a OCDE é reforçar a confiança na capacidade de pagamento de cada país. “É preciso ressaltar que ninguém ainda está à beira da crise de confiança”, diz Schneider, citando a credibilidade do Japão, mesmo com o buraco em suas contas. “Enquanto o mercado acreditar que estes governos são capazes de cortar seus déficits, eles estarão solventes.”

O mais grave, porém, não é a conjuntura econômica adversa que impulsionou o déficit e a relação dívida/PIB, mas a trajetória do endividamento nesses mesmos países, que já aumentava antes da crise financeira e dos planos de relançamento.

Nos últimos 20 anos, houve aumento constante da dívida pública, pela falta de rigor nas políticas orçamentárias e a importância dada ao crédito para fomentar o crescimento de economias como a americana. Em 1987, a dívida pública média na zona da OCDE era de 59%, e chegava a 75% em 2007.

Esse panorama fez o diretor do Departamento de Assuntos Orçamentários do Fundo Monetário Internacional (FMI), Carlo Cottarelli, definir a situação como “sem precedentes em tempos de paz”. O esforço para reequilibrar as finanças públicas, calcula Cottarelli, exigirá que países com déficit orçamentário na casa de 3,5% revertam o desempenho, com excedentes de 4,5%. Mesmo com esse esforço, eles levarão 20 anos para reduzir a dívida a cerca de 60% do PIB.

Como o Brasil, a Europa conhece exemplos da dificuldade em controlar o endividamento público. Em seu último relatório mensal, o Banco Central Europeu (BCE) lembra que a Holanda precisou de 13 anos para reduzir sua relação dívida/PIB de 78,5% para 46% – investindo todos os anos 2,7% de sua riqueza -, enquanto a Finlândia levou 14 anos para diminuir 24% do total devido. O exemplo mais bem-sucedido na Europa é o da Irlanda, que reduziu a dívida em 69% em 12 anos. Mas precisou crescer 7% ao ano, o que lhe valeu o apelido de “tigre celta”.

CENÁRIO SOMBRIO

US$ 35 trilhões
é a previsão da revista “The Economist” de quanto estaria hoje o
déficit fiscal nos sete países mais ricos do mundo

200% é a estimativa
da relação média entre a dívida pública e o PIB no Japão, onde a situação é mais grave. Nos EUA, essa relação estaria em 100% e na UE, estaria próxima de 90%

30% é quanto
se estima seja o aumento dessa relação entre 2007 e 2017.
Nesses 10 anos, a dívida crescerá de 63% para 103% nos Estados UNidos; passará de 47% a 125% no Reino Unido; e de 70% a 99% na França

26/08/2009 - 13:25h Gastos públicos tiram a Alemanha da recessão

Autoridades alertam, porém, para o excesso de otimismo

Jamil Chade, GENEBRA – O Estado SP

 

 

Gastos públicos tiram a Alemanha de sua pior recessão desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Ontem, as autoridades alemãs confirmaram que a recessão foi superada, mas admitem que o buraco nas contas públicas explodiu. Já o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, alertou contra o otimismo e disse que a Europa ainda não está pisando em terra firme.

Segundo os dados da maior economia da Europa, o crescimento no segundo trimestre foi de 0,3% em comparação aos primeiros três meses do ano. No primeiro trimestre, a queda havia sido de 3,5%. Em relação aos 12 meses precedentes, a queda do PIB ainda é profunda, de 5,9%. Mas pelo menos é inferior à queda de 6,7% no primeiro trimestre de 2009, em comparação com o mesmo período de 2008.

AUMENTO DE GASTOS

O governo aumentou os gastos em 0,4% e os investimentos em construção foram elevados em 1,4%. O consumo privado aumentou em 0,7% graças aos subsídios estatais. Esses foram os primeiros dados positivos em 12 meses e confirmam as informações preliminares divulgadas há 10 dias.

Desde a eclosão da crise, a chanceler Angela Merkel injetou US$ 121 bilhões na economia, incluindo subsídios para a compra de carros.

Esse mecanismo não apenas serviu como um balão de oxigênio para a indústria automotiva, como puxou o aumento do consumo privado no trimestre.

ELEIÇÕES

O que todos se perguntam, porém, é até que ponto a Alemanha terá de manter a ajuda estatal. A exportação, que foi o motor de crescimento da Alemanha na última década, ainda não foi retomada com força. No trimestre, a queda foi de 1,2% e não há expectativa que se recupere rapidamente. Merkel deve ser beneficiada pelos dados publicados ontem nas eleições gerais que ocorrem no fim do próximo mês.

Carsten Brzeski, analista do banco ING, afirma que o crescimento ocorre graças aos gastos públicos. “Os números são resultado do plano de resgate do governo”, disse, em uma nota.

“A economia alemã ainda está recebendo infusões. As próximas semanas e meses podem ser positivos, mas algumas dúvidas persistem se a economia já pode se manter de pé sozinha”, disse Alex Weber, presidente do Banco Central alemão. “A recessão acabou, mas nem tudo que brilha é ouro”, completou.

CAUTELA

Merkel também adotou um tom de cautela. Segundo ela, o pior já passou. Mas o caminho nos próximos meses ainda será turbulento.

Barroso fez um alerta contra um otimismo exagerado. Na zona do euro, a contração da economia foi de 0,1% no segundo trimestre, taxa comemorada pelo mercado. A França também já saiu da recessão.

Mas um dos desafios será ainda a expansão do desemprego nos próximos meses, o que deve afetar o consumo e fazer com que a recuperação patine por alguns meses. Na Alemanha, a taxa de desemprego deve subir de 8,3% neste ano para 10,5%, segundo os dados oficiais.

Para alguns países, como no Báltico, a queda do PIB é de mais de 20%. Barroso garante que a UE vai ajudá-los. “O impacto da crise ainda é tangível na Europa e temos muito a caminhar ainda”, disse.

15/08/2009 - 11:59h A Europa volta a rugir

http://img.rtp.pt/noticias/images/articles/367611/merkel+sarkozy_epa.jpg

Carter Dougherty* – O Estado SP

A economia europeia apresentou no segundo trimestre uma recuperação mais forte do que a esperada, sustentando esperanças de que a recessão mundial esteja próxima do fim.

A grande melhoria em relação ao primeiro trimestre sublinhou o quanto a Europa e a própria economia mundial se recuperaram desde a queda livre do fim de 2008. O bom resultado foi puxado por França e Alemanha, economias que apresentaram pequeno crescimento no segundo trimestre.

Apesar de muito dependente dos gastos governamentais, a Ásia apresentou recentemente grandes melhorias. Alguns dos principais analistas esperam para este ano um crescimento de até 9% na China, e de mais de 10% no ano que vem. Enquanto isso, a brutal contração no início do ano nos Estados Unidos amainou, e há sinais indicando pequeno crescimento para o segundo semestre.

A economia da União Europeia, formada por 27 países, encolheu 0,3% no trimestre encerrado em 30 de junho, chegando a uma taxa anual de aproximadamente 1,2%. Os 16 países que usam o euro como moeda tiveram declínio de 0,1% no segundo trimestre, equivalente a uma taxa anual de 0,4%.

Apesar de negativos, os dados europeus transmitiram uma impressão muito melhor do que os do primeiro trimestre deste ano, quando se registrou, tanto na União Europeia quanto na zona do euro, uma contração de 2,5% em relação aos três últimos meses de 2008.

O significativo abrandamento da recessão colocou a Europa em um nível semelhante ao dos Estados Unidos, onde a economia se contraiu num ritmo anual de 1% no segundo trimestre. Economistas disseram que a Europa recebeu alguma ajuda dos programas governamentais, como as bonificações pagas na troca de carros antigos por veículos novos, além da maior demanda por exportações observada na China.

Mas, acima de tudo, o desempenho representou uma virada para o choque financeiro que foi sentido nas economias do mundo todo após o colapso do Lehman Brothers, em setembro, e o subsequente caos nos mercados financeiros.

A Europa ainda enfrenta a possibilidade de ver sua recuperação desacelerar ou mesmo estagnar no início de 2010 por causa das iniciativas insuficientes para a restauração do sistema bancário e do rápido aumento do desemprego. Ainda assim, as perspectivas mais animadoras, em especial na Alemanha e na França, parecem ter dado à região um impulso rumo a uma recuperação mais precoce do que a esperada.

Por causa da sua receita bastante diversa para combater a recessão, a Europa deve apresentar em 2010 um crescimento menos veloz do que o americano, segundo economistas.

No ano que vem, a maior parte de um programa de gastos no valor de US$ 800 bilhões nos EUA começará a surtir efeito, o que fará as medidas europeias parecerem quase insignificantes, apesar de suas dimensões corresponderem ao medo dos governos europeus de se verem atolados em dívidas. Uma isenção fiscal total de aproximadamente US$ 100 bilhões deu aos EUA, nos últimos meses, um impulso rumo à recuperação.

“A verdadeira diferença nas recuperações será sentida no ano que vem”, disse Thomas Mayer, economista-chefe do Deutsche Bank para a Europa. “Isso acontecerá quando os EUA se restabelecerem mais rápido do que a Europa.” Os números animadores são sustentados pelo desempenho sólido de França e Alemanha. Mesmo assim, a economia alemã, a maior da região, ainda deve registrar contração anual de 6%, dizem os economistas.

Dentro da zona do euro, França e Alemanha estão ajudando a equilibrar os desempenhos sofríveis da Itália, eterna retardatária, e da Espanha, onde o colapso do mercado imobiliário causou aguda recessão.

Os países do Leste Europeu, em especial a Hungria e os países bálticos, continuam sofrendo grandes dificuldades. A antes poderosa economia britânica ainda enfrenta rápida alta no desemprego, apesar da possibilidade de o país também apresentar um modesto crescimento no terceiro trimestre.

Os novos números da economia alemã surpreendem após quatro trimestres consecutivos de contração na produção, sugerindo que a recessão do país – a pior desde a Segunda Guerra – tenha chegado ao fim.

A surpresa do crescimento alemão – a maioria dos economistas esperava número igual a zero ou até negativo – reflete o ganho dos exportadores com o crescimento na Ásia e com o que parece ser o fim do declínio nos EUA. A produção industrial também recebeu o incentivo de programas que conferem um bônus de 2.500 aos compradores que decidirem trocar seus carros velhos por modelos novos e menos poluentes.

“O estímulo está funcionando um pouco, mas existe também uma recuperação associada ao comércio global”, disse Erik Nielsen, economista-chefe do Goldman Sachs de Londres para a Europa.

Mas outros fatores estão influenciando as perspectivas para a Europa, criando incertezas em relação à situação econômica em 2010. Na semana passada, a notícia de que as exportações alemãs tinham dado em junho um salto de 7% em relação ao mês anterior antecipou que deve haver um crescimento no Produto Interno Bruto.

Mas isso mascarou um colapso generalizado nas encomendas do exterior; as exportações alemãs apresentaram em junho queda de 22% em relação a igual período de 2008.

E ainda é esperada para este ano uma grande alta no desemprego, conforme programas governamentais que mantinham as pessoas em folhas de pagamento particulares começarem a expirar.

O desemprego na zona do euro já está em 9,4%, o nível mais alto em 10 anos, e o crescimento anêmico dos próximos trimestres não será suficiente para frear ou compensar este aumento. Isso, por sua vez, poderia derrubar a confiança do consumidor e até provocar turbulências políticas na Europa, segundo os economistas.

O sistema financeiro é outro problema no horizonte, apesar de a sua recuperação ser mais rápida do que a esperada. O Fundo Monetário Internacional (FMI) criticou a Europa por não ter agido com suficiente agilidade para recapitalizar os bancos e limpar de ativos podres dos balanços. Mas a previsão do Banco Central Europeu (BCE) para as perdas é menor do que a do FMI e, além disso, publicou dados sugerindo que há maior fluidez nos fluxos de crédito.

“Não precisamos nos preocupar com o aperto no crédito tanto quanto pensamos que seria necessário no início do ano”, disse Julian Callow, economista-chefe do Barclays Capital.

*Carter Dougherty é jornalista

14/08/2009 - 08:58h Desemprego e fim dos pacotes de estímulo ameaçam retomada

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Gerrit Wiesmann, Financial Times, de Frankfurt – VALOR

A zona do euro poderá voltar a crescer neste trimestre, mas com que rapidez e sustentabilidade?

A mensagem trazida por dados divulgados ontem parece ser: o crescimento puxado por exportações parece estar voltando, mas será contido, por algum tempo, pelo desemprego em alta, pelos bancos ainda reticentes em emprestar e pelo fim dos pacotes de estímulo fiscal, enquanto governos buscam conter déficits orçamentários.

O crescimento na Alemanha e na França – que, reunidas, são responsáveis por quase 48% do Produto Interno Bruto (PIB) da zona do euro – por pouco não levaram a região como um todo para o território positivo. A recuperação deixou os economistas mais confiantes do que nunca em que a forte recessão na zona do euro esteja chegando ao fim quase exatamente dois anos depois de o aperto de crédito ter deflagrado a crise financeira mundial.

Mas, apesar da quase eufórica reação às inesperadas boas notícias, a maioria dos economistas mantém uma perspectiva cautelosa. O consenso é de que o crescimento na eurozona poderá se aproximar de taxas média históricas no fim do ano que vem.

Aurelia Maccario, economista do Unicredit em Milão, disse que o forte desempenho da zona do euro sugere um retorno a taxas de crescimento positivas no terceiro trimestre, com “provavelmente uma leve aceleração no fim do ano”. O crescimento poderá atingir uma taxa anualizada de 1% no segundo semestre de 2009 devido ao efeito combinado do ressurgimento da demanda mundial e de crescimento dos gastos públicos e privados, como resultado de diversos esquemas de estímulo.

Economistas disseram que as medidas de curto prazo provavelmente desempenharam um grande papel na evidente guinada rumo ao crescimento.

“Com base no que sabemos hoje, revisamos para cima nossas previsões para o terceiro trimestre – de situação praticamente inalterada para 0,5% positivo”, disse Erik Nielsen do Goldman Sachs em Londres. Para ele, outros fatores, além do estímulo, poderão começar a mostrar seu efeito.

A melhoria nas expectativas levou diversos bancos a revisarem para melhor suas previsões anuais para o PIB na zona do euro, embora a região tem um longo caminho a percorrer até retornar a níveis anteriores à crise.

O alemão Commerzbank disse que o PIB da zona do euro deverá encolher “apenas” 3,5% neste ano, em comparação com uma previsão anterior de queda de 3,8%. O Unicredit agora prevê que a economia encolherá 4%, em vez dos 4,6% projetados anteriormente.

Segundo a Eurostat, birô estatístico da União Europeia (UE), a taxa à qual a economia da zona do euro encolheu baixou para 0,1% no segundo trimestre, de calamitosos – 2,5% no primeiro.

Nielsen falou de “grande interrogações” pairando sobre o sistema bancário europeu.

Temores de que os bancos europeus sejam forçados a depreciar ativos relacionados com inadimplência devida à crise econômica e, em consequência, reduzir novas concessões de empréstimos têm preocupado políticos e o Banco Central Europeu (BCE) nas últimas semanas.

Jean-Claude Trichet, o presidente do BCE, implorou aos banco, na semana passada, que repassem as “medidas extraordinárias” que o BCE tomou para incrementar sua liquidez.

Outra razão para tratar os dados divulgados ontem com alguma cautela é o desemprego, para o qual a expectativa generalizada é de um salto de crescimento – que deprimiria o consumo – enquanto as companhias continuam a apertar os cintos.

Trichet advertiu na semana passada que “mesmo quando a economia reaquecer, o desemprego poderá continuar crescendo”. Ele ressaltou esse risco como “um dos pontos importantes que nos impõem sermos prudentes e cautelosos” durante algum tempo.

O perigo de que as verbas de estímulo – que parecem estar dando sustentação aos gastos públicos e privados – acabem antes que a zona do euro tenha superado os prenúncios de apertos de crédito e no mercado de trabalho é a razão pela qual os economistas continuam preocupados com o crescimento.

“O problema, para a zona do euro”, disse Nielsen, “é que os fatores positivos são, no momento, em larga medida de curto prazo, ao passo que os fatores negativos poderão se constituir em problemas de mais longo prazo”.

14/08/2009 - 08:34h Alemanha e França voltam a crescer e puxam economia da zona do euro

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Bloomberg – VALOR

Alemanha e França surpreenderam, voltando a crescer no trimestre passado. O resultado dos dois quase fez com que a economia da zona do euro não sofresse contração e sugere que a recessão da região, a pior desde a Segunda Guerra Mundial, pode estar chegando ao fim.

O Produto Interno Bruto da zona do euro encolheu 0,1% em relação ao primeiro trimestre, período em que contraiu 2,5% – o qual foi o maior declínio desde que os dados relativos ao bloco começaram a ser compilados, em 1995, informou o departamento de estatística da União Europeia (UE). Economistas haviam estimado que o PIB teria encolhido 0,5% nos três meses até junho, segundo mostra a mediana de 32 projeções colhidas em pesquisa da agência Bloomberg.

Na Alemanha, a maior economia da Europa, o PIB cresceu 0,3% (dado sazonalmente corrigido) em relação ao primeiro trimestre, quando caiu 3,5%. A economia da França também cresceu 0,3% no trimestre passado.

A Itália e a Holanda foram os países que puxaram a economia da zona do euro para baixo. A economia italiana contraiu 0,5%, e a holandesa teve queda de 0,9% no segundo trimestre.

O PIB da zona do euro recuou por cinco trimestres consecutivos, a mais longa contração desde o início da série histórica, que começou há 14 anos.

A demanda pelas exportações da zona do euro está melhorando no mesmo momento em que os pacotes de resgate dos governos e os juros baixos sustentam os gastos do consumidor interno. Os dados divulgados sugerem que o Banco Central Europeu (BCE) não precisará aumentar as medidas de incentivo, mas o crescente desemprego em toda região deverá ainda conter o consumo.

“Existe uma chance mais do que razoável de que a atividade econômica da zona do euro tenha agora chegado ao ponto mais baixo e que voltará a crescer no terceiro trimestre, com muitas das outras economias seguindo o exemplo da Alemanha e da França e saindo da recessão”, disse Martin van Vliet, economista-sênior do ING Bank de Amsterdã. “Tememos, porém, que a recuperação seja relativamente lenta e demorada.”

A melhora econômica da Alemanha acontece quando a premiê conservadora Angela Merkel está em campanha pela reeleição na votação marcada para 27 de setembro. “Merkel está numa boa posição para explorar a volta precoce ao crescimento econômico, mas eu me surpreenderei se ela fizer isso com muita ênfase”, disse Laurent Bilke, economista-sênior da Nomura de Londres. “Ainda se justifica uma certa cautela enquanto o mercado de trabalho continuar a se enfraquecer.”

A economia do Reino Unido, que pertence à UE, mas não à zona do euro, contraiu 0,8% no segundo trimestre, mais do que o dobro do previsto por economistas.

Em relação ao segundo trimestre de 2008, a economia da zona do euro encolheu 4,6 entre abril e junho, depois de uma contração de 4,9% nos três primeiros meses do ano, segundo o relatório.

13/08/2009 - 10:39h Pesquisa vê piora na disponibilidade de crédito

Assis Moreira, de Genebra – VALOR

A demanda por crédito aumenta na Europa e nos Bric – Brasil, Rússia, Índia e China -, mas o acesso a empréstimos torna-se particularmente duro no Brasil, Irlanda, Espanha e Rússia.

A conclusão é de uma pesquisa junto a três mil companhias feita pela Markit, companhia de informação financeira britânica, que diz ter como clientes 1.200 companhias financeiras que usam seus serviços para gestão de riscos e cumprir exigências regulatórias.

Globalmente, enquanto as indústrias dizem que precisam de mais crédito do que há três meses, a disponibilidade se deteriora. A pesquisa mostra que 82% das indústrias europeias ouvidas usam crédito. No Brasil, chega a 71%, mais que na China (44%). O Brasil, onde foram ouvidas 205 empresas, teria o maior aumento na demanda, mas também as maiores dificuldades ao lado da Irlanda.

No país, 17,5% das companhias ouvidas reclamam de restrição a financiamento, numa alta em relação as 11,5% que se queixavam em janeiro. É mais que a média nos Bric, onde 11% se queixam de crédito. A taxa só é menor na Índia, com 2%. As mais atingidas são pequenas empresas. Também as exigências e custo do crédito aumentaram, principalmente na Espanha e na Rússia, mas diminuíram no Brasil, China e Índia.

Na Europa, a queixa pela persistência do aperto de crédito é generalizada. O ministro de Finanças da Grã-Bretanha, Alistair Darling, ameaça “ser duro” com os bancos que resistem a emprestar. Na França, o governo de Nicolas Sarkozy prorrogou para até o final de 2010 um mecanismo de “mediador de crédito”, para pressionar os bancos a cumprir seu papel de intermediário financeiro.

10/08/2009 - 11:31h Pesquisa põe Brasil na liderança de otimismo na indústria

da BBC Brasil – FOLHA Online

Mais de duas em cada três empresas da indústria no Brasil estão otimistas com as perspectivas para os negócios nos próximo 12 meses, segundo um levantamento divulgado nesta segunda-feira pela consultoria KPMG.

O nível de otimismo no Brasil foi o maior expressado por empresários nos quatro países emergentes do chamado grupo Bric –Brasil, Rússia, Índia e China– e superou os percentuais observados em outra pesquisa da consultoria com empresas europeias.

Segundo a KPMG, 67,8% das empresas no Brasil expressaram otimismo em relação aos próximos 12 meses, contra 28,3% que esperam um panorama igual ao atual e 2,9% que esperam um panorama pior.

“Com os níveis de atividade indicando um aumento, as indústrias brasileiras estão planejando elevar seus níveis de empregados”, disseram os autores do levantamento.

“As previsões para gastos de capital e pesquisa e desenvolvimento também estão mais altos que na pesquisa feita no início do ano, porque o crescimento sólido nos lucros suporta níveis mais altos de investimento.”

Bric

A pesquisa ouviu 1,8 mil empresas nos quatro países dos Bric. Na Rússia, a expectativa de melhora nos próximos 12 meses ficou em 55,7% contra 6% de piora.

Na China os números foram semelhantes: 55,3% e 8,7%, respectivamente.

Já na Índia os empresários se mostraram mais cautelosos que no resto dos emergentes. Do total, 38,5% têm boas expectativas para os próximos 12 meses, contra 16% que esperam uma piora.

O diretor do braço da KPMG para mercados em crescimento acelerado, Ian Gomes, disse que o crescimento “robusto” dos Bric se baseará na demanda doméstica, o sucesso de medidas de estímulo adotadas pelos governos e sinais de estabilização da economia mundial.

“O crescimento mais rápido deve ser acompanhado por um repique nas pressões inflacionárias, à medida que a demanda por matérias-primas se acentua e as indústrias recuperam alguma capacidade de ditar preços”, afirmou.

Para ele, tais pressões devem ser “moderadas” em relação aos níveis elevados de 2008.

Europa

Em uma pesquisa separada, mas com temática e metodologia idêntica à realizada para os Bric, a KPMG consultou 3,7 mil empresas européias sobre suas expectativas em relação aos próximos 12 meses.

No continente como um todo, o percentual de empresas otimistas superou o das otimistas em 28 pontos. O Reino Unido (diferença de 54 pontos percentuais) e a Itália (49 pontos) lideraram a lista e foram os únicos que superaram a média européia.

Alemanha (diferença de 24 pontos), Áustria (22 pontos) e França (18 pontos) dão seqüência à lista.

Apenas na República Tcheca e na Grécia os empresários pessimistas ainda superam os otimistas.

O diretor da KPMG, Alan Buckle, disse que há muitas razões para um “retorno à confiança no coração industrial da Europa”, mas ressaltou que há razões para cautela.

“Antes de nos deixar ser levados pelos sinais de recuperação, não esqueçamos que ainda estamos firmemente inculcados perto do fundo do ciclo econômico. Apenas o Reino Unido expressa otimismo em relação a mais empregos, e ainda há sinais de redução no investimento”, afirmou.

“O fato de o otimismo estar muito menos em evidência quanto aos prospectos de aumento na renda nos diz que ainda há muito caminho na estrada da recuperação.”

13/06/2009 - 15:48h Crise faz murchar os prostíbulos na Alemanha

O jornal Le Monde repercute o sinal de alerta dos principais jornais da Alemanha. A crise global afeta particularmente os prostíbulos e a prostituição. As promoções não permitem reverter o declínio. Os fundamentos da “mais velha profissão” estão vacilando perante os efeitos da crise global. É que a crise golpeia mais forte a Europa e os países ricos.

Allemagne : les maisons closes broient du noir

Les patrons de maisons closes sont formels : la fréquentation de leurs établissements a, depuis cet hiver, chuté d'environ 30 %.

Les patrons de maisons closes sont formels : la fréquentation de leurs établissements a, depuis cet hiver, chuté d’environ 30 %.AFP/JOHN MACDOUGALLBerlin, Correspondante LE MONDE

Accrochée aux fenêtres des maisons closes d’Allemagne, la petite lampe rouge – signe discret, mais sans ambiguïté – semble bien pâlotte. Et les affiches, parfois plus explicites, collées aux carreaux n’y changent rien : les temps sont rudes, pour le milieu allemand de la prostitution. “Si le client n’arrive même plus à financer son logement, sa nourriture et sa voiture, comment voulez-vous qu’il fasse des frais pour du sexe ?”, demande Monika Heitmann, de l’association Nitribitt, qui, depuis plus de vingt ans, assiste les prostituées de Brême.

Oui, même le Rotlichtmilieu (le “milieu de la lanterne rouge”) semble touché par la crise, et “tire la sonnette d’alarme”, comme l’a titré le quotidien Süddeutschezeitung. Les patrons de maisons closes sont formels : la fréquentation de leurs établissements a, depuis cet hiver, chuté d’environ 30 %. Contraintes et forcées, bien des “filles” se retrouvent au chômage partiel. Tandis que le plus vieil établissement de Francfort, le FKK Sudfass, a fermé ses portes en début d’année, après trente-sept ans de service, le secteur lutte pour sa survie.

Certes, le quotidien économique Handelsblatt souligne que la situation n’est guère plus brillante à Amsterdam, où, d’après lui, le “ralentissement drastique” de l’activité va “porter le coup de grâce” à de nombreuses maisons du fameux Quartier rouge. Mais l’Allemagne, où le gouvernement Schröder a décidé de légaliser la prostitution en 2002, afin de décriminaliser le milieu et de donner des droits aux prostituées, s’inquiète du sort de ces dernières.

Peu évoqué en France, le sujet n’a ici rien de tabou. “Le rapport marchand à la sexualité est beaucoup plus répandu en Allemagne qu’en France, notamment dans la capitale, témoigne le sociologue Yves Sintomer, directeur adjoint du Centre franco-allemand Marc-Bloch à Berlin. Ce n’est pas un hasard si le leader européen du sex-shop (Beate Uhse) est allemand !”

Comment l’expliquer ? Peut-être par “une culture moins pudique du corps, de la nudité, et du sexe en général, qui serait liée au mouvement naturiste du début du XXe siècle, lequel a fortement marqué les moeurs, notamment, par la suite, en ex-RDA. Tout cela, appuyé par certains courants féministes, s’est cristallisé en faveur de la légalisation de la prostitution et a permis sa large acceptation dans la société.” Un lien entre la “FKK” (Frei Körper Kultur, “culture du corps libre”) et la prostitution souvent reconnu par les professionnels.

On saura donc tout, grâce au quotidien populaire Bild mais aussi à la presse la plus sérieuse, des misères que connaît le milieu. “Aujourd’hui, nos filles gagnent au maximum 500 euros par semaine, là où elles s’en faisaient facilement 1 500 avant”, se lamente Ralf Gottschald, patron d’un établissement de Hanovre. Pour gagner leur vie, les prostituées en viennent à tout accepter. Face à “la concurrence dramatique” qui, d’après Marion Detlefs, de l’association berlinoise Hydra, s’est installée, certaines renoncent même à “faire respecter les fondamentaux du métier : port obligatoire du préservatif, interdit du baiser buccal”.

Une dégradation des conditions de travail observée depuis plusieurs années par cette association de terrain, en contact permanent avec les quelque 700 maisons closes que compte la capitale allemande. “La crise du milieu de la prostitution ne date pas d’aujourd’hui, surtout à Berlin où la paupérisation de la population est plus forte qu’ailleurs”, insiste Marion Detlefs. “Pour avoir une chance de survivre, les maisons closes multiplient les offres attractives, cherchent à tout prix à se distinguer. Ce sont les prostituées qui font les frais de cette surenchère.”

De fait, jamais les établissements n’ont fait preuve d’autant d’imagination. A Berlin, le FKK Artemis propose ainsi des tarifs spéciaux pour les retraités ainsi que pour les chauffeurs de taxi – “ces derniers, nous ramenant pas mal de clients, paient moitié prix le dimanche et le lundi”, justifie Ekki Krummeich, le tenancier. A Berlin toujours, le Pussy Club, ouvert en 2008, avec son forfait “Zwei für eins” (”Deux pour le prix d’un”), invite madame à prendre part aux ébats. “Nous n’avons fait que répondre à une demande de notre clientèle, parfois exprimée par les conjointes elles-mêmes”, s’en explique Alex Schuh, le gérant.

Mais c’est encore avec sa formule à 70 euros que le Pussy Club bat tous les records. Pour cette somme en effet, le client a droit de “faire tout ce qu’il veut, autant qu’il le veut, aussi longtemps qu’il le peut” (uniquement toutefois aux heures creuses, de 10 heures à 16 heures). Le Pussy Club signe ainsi le triomphe du “bordel discount”, un nouveau type d’établissement qui connaît un succès grandissant. A n’en pas douter, “le concept est promis à un bel avenir”, se félicite Alex Schuh.

“Que voulez-vous, c’est la seule solution, si l’on veut trouver une parade à la crise”, assure Isabelle Rozier, patronne berlinoise du Belle Escort Club. “A moins d’opter pour la direction opposée : celle de l’offre exclusive (qu’elle a elle-même choisie pour son établissement, dont le “High Class tariff” s’élève à 500 euros, pour trois heures). En tout cas, il faut se décider. Rester dans l’offre moyenne, c’est mourir à coup sûr.” Bien qu’il mise sur la niche du luxe – en partant du principe qu’”il y aura toujours une clientèle en mesure de payer” -, le Belle Escort Club a lui aussi subi la récession de plein fouet : sa patronne estime à 20 % la baisse de fréquentation de son établissement.

Comme le client “déserte les bordels et les clubs trop onéreux pour s’acheter du sexe au coin de la rue”, selon le très sérieux quotidien Die Welt, “de plus en plus de prostituées retournent faire le trottoir”, atteste Monika Heitmann. “Ce qui les vulnérabilise davantage, témoigne Marion Detlefs. Au moins, dans une maison close, elles appartiennent à une structure, et bénéficient d’une certaine solidarité. Dans la rue, la concurrence est plus féroce que jamais, les Polonaises et les Bulgares sont accusées de faire baisser les tarifs et de ruiner le métier.”

Alors, aujourd’hui, Samanta, 34 ans “préfère arrêter, et travailler à nouveau comme vendeuse”. Son revenu, affirme-t-elle, a chuté de 60 % par rapport à ce qu’elle gagnait il y a dix ans. “Cela n’a pas de sens de continuer”, en conclut-elle. “Il est clair que les sommes que l’on pouvait gagner il y a vingt ans dans ce secteur n’ont plus cours. Mais le métier existera toujours”, veut croire Anke Christiansen, une ancienne prostituée âgée de 54 ans, qui, en 2003, a fondé avec deux copines à Hambourg le Geizhaus, le tout premier bordel discount du pays. Lequel affiche fièrement son slogan : “C’est l’avarice qui rend lubrique.” Lequel sonne singulièrement bien avec l’esprit du temps.

Lorraine Rossignol

11/06/2009 - 13:51h A atual política anticrise do governo Lula está dando certo e a recessão começa a passar


A recessão começa a passar no mundo

Alberto Tamer* – O Estado SP

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Já existe um consenso entre os economistas e instituições internacionais: a recessão deve terminar neste ano e a recuperação se iniciará em 2010. Mas será uma recuperação lenta e desigual, maior nos EUA e nos países emergentes e irrisória na Europa. Até mesmo um economista sempre severo em suas análises, como Paul Krugman, afirmou nesta semana que a recessão nos EUA deve terminar no segundo semestre. O crescimento do PIB deve fechar o ano em torno de 0%. Pouco interessa se for um pouco mais ou menos, o importante são os sinais de que a economia americana e grande parte da mundial deixou de afundar.Não se devem repetir PIBs de 6%. A confirmar-se isso, teremos passado por uma recessão profunda, mas curta. Ou, podemos dizer, uma recessão grande, mas não uma grande recessão.

BRASIL NA LINHA DE FRENTE

brasil_olho.jpgO resultado menos negativo do PIB no primeiro trimestre mostra que isso é ainda mais válido no Brasil. Previa-se uma retração de até 2% e foi de 0,8%. Tendo em vista a queda de 3,6% no último trimestre de 2008, é difícil ver algum crescimento significativo nos próximos meses, mas está claro que estamos saindo da recessão. Insisto, porém, em reafirmar que não há muita diferença entre recuar 1% ou crescer 1%; ambos resultados significam uma economia frágil,ainda exposta a crises externas, o que exige do governo intensificar a atual política anticrise, que está dando certo. É a ela que devemos esse desempenho menos negativo do PIB e à perspectiva de que estamos em condições de superar tudo ainda neste ano.

Vejam, somente as medidas de estímulo ao consumo estão injetando na economia cerca de R$ 100 bilhões neste ano. E, mais acertadamente ainda, o governo anuncia que estuda redução do imposto sobre salários para aumentar o poder de compra do consumidor.

NEM TUDO É MENOS MAU

minhacasa1.jpgO resultado do IBGE apresenta pontos altamente negativos, como a queda de 12,6% nos investimentos, a forte e resistente retração da produção industrial e o recuo das exportações. Isso certamente vai afetar o crescimento nos próximos meses.

Cabe ao governo insistir em três pontos básicos: intensificar as medidas de incentivo ao consumo, pôr em pratica uma política de comércio exterior por meio de impostos sobre a produção e incentivos diretos às exportações; e, finalmente, continuar estimulando o setor de construção civil, grande gerador de demanda de emprego. Cumpre, assim, a meta social, de oferecer casa à população, e econômica, de reativar o crescimento. Felizmente, já vem fazendo uma boa parte disso.

DÁ PARA CONFIAR NELES?

dinheirocorrendo.gifMas, de qualquer forma, continuamos na dependência do que vier a acontecer lá fora. Será que as economias desenvolvidas e outras emergentes, que representam a maior parte do PIB mundial, não vão desandar novamente, impedindo que voltemos a crescer?

Pode ser, mas, pelo menos no momento não parece muito provável, principalmente em países que têm hoje um papel decisivo na recuperação mundial, como os EUA e a China.

E o que estamos vendo? Nos EUA, dez grandes bancos devolveram ao Tesouro US$ 68 bilhões recebidos em momento de extrema urgência. E insinuam que é só o começo. Levantaram recursos no mercado, até mesmo vendendo ativos, para livrar-se da fiscalização direta e da intervenção do governo em suas atividades e decisões. Mas o Tesouro mostrou que continua vigilante: só aceitou o pagamento depois de analisar as contas e ver se não iria enfraquecê-los, expondo-os a novos problemas. Não quer que comece tudo de novo… Assim, até ontem recusavam receber devoluções de grandes bancos. Entre estes, o Citi e o Bank of American, que pretendia repagar US$ 90 bilhões. O fato de o sistema financeiro começar a buscar soluções de mercado é um indício de mudança em relação ao pânico de há alguns meses.

OBAMA CAUTELOSO

obama_caricatura.gifO presidente americano, a cuja política anticrise devemos tudo isso, mostrou-se cauteloso diante desses fatos. “Não é sinal de que nossos problemas passaram. Muito longe disso. A crise que esta administração herdou ainda está criando efeitos dolorosos nas empresas e nas famílias. Mas é um sinal positivo.”

Foi esse também o tom do seu secretário do Tesouro, para quem há ainda um longo e difícil caminho pela frente. Haverá avanços e recuos, mas o caminho de saída está sendo aberto.

VEJAM OS NÚMEROS!

A coluna concorda, e aproveita para responder a leitores que nos criticam por estarmos sendo otimistas demais. Não. Estamos apenas confrontando situações de há algumas semanas com a atual e registrando os sinais não para o futuro distante, mas para os próximos meses, a curto prazo. Para mim, isso é realismo, é não se deixar impressionar e influenciar por fatores altamente negativos do passado, desde que eles não estejam se repetindo no presente. Bastam duas estatística do IBGE: o PIB do último trimestre de 2008 despencou catastróficos 3,6% e no primeiro trimestre deste ano apenas 0,8%. Será que isso não significa nada? Não é sinal de recuperação? Não há como negar.

No cenário externo, a economia americana recua menos e a da China – o grande mercado – não deverá crescer neste ano apenas 5%, como o governo previa, mas 7,5%, pela estimativa oficial divulgada ontem. Estão injetando trilhões na economia. Ambos são nossos mercados preferenciais e projetam um cenário de relativa esperança.

Só resta a Europa, o “Continente Perdido”, onde o BC recusa-se a baixar o juro mesmo com inflação 0. Mas isso não afetará nosso crescimento. Ele vai depender ainda por algum tempo do mercado interno, que hoje representa 60% do PIB. Ele vai bem. E o governo tem ainda espaço para continuar intensificando a política anticíclica de incentivo ao consumo.

*E-mail: at@attglobal.net

09/06/2009 - 11:22h Um cénario inquietante para Europa

Vitória do populismo, radicalismo e eurocéticos

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Gilles Lapouge* – O Estado SP

Nenhuma surpresa. Os conservadores triunfaram nestas eleições europeias em quase todos os 27 países-membros. Mas esse resultado é paradoxal.

A crise financeira, que teve origem nos bancos americanos, não levou à condenação do liberalismo econômico pregado pela direita, de Ronald Reagan e Margaret Thatcher a Angela Merkel e Nicolas Sarkozy. Isso porque, há seis meses, os governos de direita reagem com inteligência e brio. Sacudidos pela crise, aplicaram remédios dignos de intervencionistas de esquerda. Hoje, não se sabe mais em que partido se oculta o “liberalismo” econômico.

O resultado nos ensina que a fé na Europa vacila, o que é mostrado por dois índices. O primeiro é o nível sem precedente de abstenção: 60% dos cidadãos europeus não se preocuparam em sair de casa para votar.

O segundo é o avanço da extrema direita e eurocéticos (os que não acreditam no bloco ou querem destruí-lo). O caso mais espantoso é o da Grã-Bretanha, onde o Partido Trabalhista só reuniu 15,3% dos votos. Uma derrota tão amarga que a pergunta é se o premiê Gordon Brown conseguirá sobreviver.

Quem se beneficiou da queda trabalhista foi a direita e os eurocéticos. O Partido Conservador, adversário tradicional dos trabalhistas, ficou em primeiro ao arrebanhar 28,6% dos votos. Mas o partido de Brown não conseguiu nem o segundo lugar; foi derrotado pelo Partido da Independência Britânico (UKIP), que obteve 17,4% dos votos. O UKIP exige simplesmente a saída do país da União Europeia (UE).

Outro caso inquietante é o da Holanda, onde o Partido para a Liberdade (PVV), liderado por Geet Wilders, seduziu 17% dos cidadãos, ficando próximo do governista Partido Democrata-Cristão. O líder do PVV, um tribuno da direita mais primitiva, urra contra os imigrantes e contra a UE, a quem culpa por abrir as portas da Europa para as hordas do Terceiro Mundo.

Wilders seduziu com um discurso rudimentar. Afirmou que o Alcorão é um “livro fascista” e foi processado por incitação ao ódio. Mas isso não o perturbou. Para ele, “as pessoas estão fartas da Europa como se apresenta hoje, uma imensa Europa, com a possível entrada da Turquia, para a qual os holandeses já contribuíram com bilhões”.

Mais do que um grande sucesso dos conservadores e um recuo geral dos socialistas, as eleições nos mostram cenários muito inquietantes: o avanço do populismo, a consolidação da direita radical e, sobretudo, o florescimento tumultuoso das formações antieuropeias.

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris

07/06/2009 - 16:42h França: recorde de abstenção no escrutino europeu. O partido de Sarkozy obtêm um bom resultado e o PS um forte recuo

AU QG d'Europe Ecologie, on célèbre la troisième place au scrutin européen, dimanche 7 juin.
REUTERS/PHILIPPE WOJAZER – AU QG d’Europe Ecologie, on célèbre la troisième place au scrutin européen, dimanche 7 juin.

Européennes : l’UMP en tête, le PS en fort recul

Première confirmation : la France se dirige vers un nouveau record d’abstention aux élections européennes. Selon les premières estimations, environ 60 % des Français auraient boudé le scrutin.

Les listes UMP arrivent en tête au plan national (28,3 % des voix), devançant largement celles du Parti socialiste, qui ne franchit pas la barre symbolique des 20 % des voix (17,5 %), les listes d’Europe Ecologie (14,8 %) complétant ce trio de tête, selon une estimation TNS Sofres-Logica réalisée pour Le Monde, Le Point, France 2, France 3 et France Inter.

L’UMP réussit son pari. Les leaders de la majorité s’étaient fixé un double objectif : rester le premier parti de France et atteindre la barre des 25 % de suffrages. Avec ses 28,3 %, l’UMP est même au-dessus des estimations les plus favorables. Rachida Dati, élue en Ile-de-France, évoque “un succès pour le président de la République”. Dans la région Sud-Est, l’UMP totalise 29,7 % des voix.

Le PS est deuxième. Mais sans la manière. Martine Aubry espérait un score supérieur à 20 %. Au niveau national, on serait donc à 17,5 %. Le PS n’avait pas vraiment réussi dans la dernière ligne droite de la campagne à faire entendre sa différence avec d’autres listes à gauche qui se définissaient comme les dépositaires d’un “vote sanction”. Comme un symbole de l’effondrement socialiste, dans le Sud-Est, la liste PS, conduite par Vincent Peillon, totalise seulement 15,5 % des voix. Elle est devancée par la liste Europe Ecologie.

Pour François Bayrou, l’échec est encore plus cuisant. Le MoDem serait en dessous de 9 %, loin des 18,57 % obtenus par son leader au premier tour de la présidentielle de 2007. Surtout, la formation centriste ne parvient pas à s’imposer comme le troisième parti de France, une place abandonnée aux écologistes.

Les listes Europe Ecologie emmenées par Daniel Cohn-Bendit, Eva Joly et José Bové réaliseraient près de 15 %. La performance des écologistes en Ile-de-France sera scrutée avec attention : vu le bon score obtenu dans l’Hexagone, il n’est pas impossible que les écologistes franciliens dépassent les socialistes.

Les listes du Front de gauche totalisent 6,3 % des voix. L’association avec le Parti de gauche de Jean-Luc Mélenchon a redonné des couleurs au Parti communiste. Il y a deux ans, Marie-George Buffet totalisait 1,93 % des voix à l’élection présidentielle. Derrière arrivent les listes du Nouveau parti anticapitaliste (NPA) d’Olivier Besancenot, qui, avec 5 %, atteint l’objectif qu’il s’était fixé. Les listes de Lutte ouvrière ferment la marche avec 1,3 %.

A l’extrême droite, le Front national recueille 6,5 % des voix, alors que Libertas (le MPF de Philippe de Villiers et les chasseurs du CPNT) totalise 5 % des voix. Dans la région Sud-Est, Jean-Marie Le Pen, qui conduisait la liste FN, recueille 8,5 % des voix.
Le Monde.fr

07/06/2009 - 16:02h Eleições ao parlamento europeu: à direita é vitoriosa em vários paises

La droite l’emporte dans nombre de pays européens

LEMONDE.FR avec AFP et Reuters

Le Parlement européen à Strasbourg.
AFP/FREDERICK FLORIN Le Parlement européen à Strasbourg.

Les premières estimations donnent les partis de droite vainqueurs dans plusieurs pays européens, dimanche 7 juin. Le Parti populaire européen (PPE) semble bien parti pour rester la force politique dominante du futur Parlement européen et garantir ainsi la reconduction de José Manuel Barroso comme président de la Commission européenne.

Allemagne. Les conservateurs de la chancelière allemande Angela Merkel étaient largement en tête avec 38 % des voix, malgré un recul par rapport à 2004, selon les premières estimations des télévisions publiques. Selon les estimations, les sociaux-démocrates (SPD) enregistrent leur plus mauvais résultat avec 21,2 % à 21,5 % des voix.

Les Verts recueillent 11,5 à 12 % des voix, contre 11,9 % en 2004. Les libéraux du FDP réalisent une performance, en remontant de 6,1 % des voix en 2004 à 10,5-10,8 %. La gauche radicale (Die Linke) rassemble 7 à 7,5 % des voix, en léger progrès par rapport aux 6,1 % des dernières élections européennes.

Pays-Bas. Le parti d’extrême droite islamophobe et antieuropéen du député Geert Wilders aurait remporté 16,4 % des voix, soit la deuxième place derrière les chrétiens-démocrates du Premier ministre Jan Peter Balkenende, à 20 %.

Autriche. Le parti conservateur, avec 29,7 % des voix, est en tête devant les sociaux-démocrates (23,9 %), qui subissent une déroute historique, selon des estimations diffusées par la télévision publique ORF. Viennent ensuite le surprenant eurosceptique Hans-Peter Martin, soutenu activement par le plus grand quotidien du pays, avec une percée à 17,8 %, et une extrême droite en hausse par rapport à son score en 2004.

Hongrie. La plus grande formation de l’opposition de droite, le parti Fidesz, arrive en tête avec 67 % des voix, s’assurant une avance écrasante sur les socialistes du MSZP (19 %) au pouvoir, alors que l’extrême droite fait une perçée, avec 8 % des suffrages.

Bulgarie. Le parti de droite du maire de Sofia a remporté les élections devant les socialistes du Premier ministre Sergueï Stanichev, selon les sondages à la sortie des bureaux de vote de quatre instituts. Le GERB, dont les membres rejoindront les rangs du groupe parlementaire conservateur du Parti populaire européen (PPE), a recueilli entre 25,5 % et 26,5 % des voix et les socialistes entre 19,5 % et 20 %.

Slovénie. Le parti démocrate SDS (opposition de centre droit) a remporté les élections devant le parti social-démocrate SD du Premier ministre Borut Pahor, selon des estimations données par la télévision nationale. Le SDS a recueilli 26,46 % des suffrages et obtient 2 des 7 sièges d’eurodéputés alloués à la petite république d’ex-Yougoslavie. Derrière lui, le SD est crédité de 18,22 % des voix (2 sièges).

Roumanie La gauche sociale-démocrate et la droite démocrate-libérale, qui forment la coalition au pouvoir en Roumanie, sont à égalité, avec entre 30 % et 31 % des voix. Ils sont suivis par les libéraux (opposition), avec environ 16 % des suffrages, et l’Union démocratique des Magyars (opposition), entre 9 % et 10 %.

Seule exception, en Grèce, l’opposition socialiste est arrivée largement en tête, devant le parti conservateur de la Nouvelle Démocratie (ND) du Premier ministre Costas Caramanlis, selon les sondages de sortie des urnes des principales télévisions. Les scores du Pasok, socialiste, varient de 36 à 39,5 % selon les chiffres de ces chaînes, avec un écart de l’ordre de 6 points au détriment de la ND, créditée de 30 % à 33 % des voix.

04/06/2009 - 19:31h Extrema-direita holandesa fica em segundo lugar em eleição para o Parlamento Europeu

Geert Wilders http://i436.photobucket.com/albums/qq84/Bv-id/GeertWilders.jpg

colaboração para a Folha Online

O partido de extrema-direita do polêmico deputado Geert Wilders (PVV – Partido pela Liberdade) conquistou a segunda maior bancada do país no Parlamento Europeu nas eleições realizadas nesta quinta-feira, com 14,8% dos votos, segundo uma pesquisa divulgada pela televisão pública após o fechamento dos locais de votação. Holanda e Reino Unido foram os primeiros dos 27 países da União Europeia a ir às urnas para escolher os representantes no legislativo supranacional. Os demais países escolherão os eurodeputados até o próximo domingo.

O partido de Wilders, que concorreu pela primeira vez às eleições para o Parlamento Europeu, superou o Partido Trabalhista (Pvda) e só tem pela frente os democratas-cristãos CDA, do primeiro-ministro, Jan Peter Balkenende, que se mantêm como a principal legenda, com 20,3%.

Em número de cadeiras, o PVV obteria 4 das 25 que cabem à Holanda, frente ás 5 do CDA (Apelo Cristão-Democrático), 4 do Pvda, 3 dos liberais do VVD (Popular por Liberdade e Democracia/Liberal da Holanda) e da esquerda do D66 (Democratas 66) e 2 de Groen Links (Esquerda Verde), os socialistas e os cristãos do CU (União Cristã).

A jornada eleitoral se fechou com uma participação de 40%, ligeiramente superior à de cinco anos atrás, que foi de 39,1%.

A projeção da televisão pública informou que o grande derrotado foi o Pvda, membro da coalizão governamental, que cai de 23,6% das eleições anteriores até 13,4%. O partido é liderado pelo ministro das Finanças, Wouter Bos.

O outro grande partido do governo, o conservador CDA, também teve um retrocesso, ao passar de 24,4% a 20,3%, enquanto a terceira legenda da coalizão que governa o país, a calvinista CU -que participou das eleições em aliança com o nanico SGP- sobe ligeiramente, de 5,9% a 6,5%.

Também cresceu a esquerda liberal do D66, que passa de 4,2% a cerca de 10%, com um aumento de 1 para 3 cadeiras.

O grande vencedor, o PVV de Wilders –um homem ameaçado pelo islamismo radical após as duras críticas contra o islã–, representa as ideias mais antieuropeias no panorama político holandês.

Em uma celebração nesta quarta-feira, ele disse que o resultado conseguido por seu partido era uma resposta a uma União Europeia cara e em expansão, e uma reação contra o governo holandês.

“As pessoas já tiveram o suficiente da Europa como ela está agora –uma Europa grande, com a Turquia possivelmente ingressando– em que nós gastamos bilhões a cada ano”, disse ele. “Eu acho que as pessoas já tiveram o suficiente de Balkenende e do gabinete de Bos”

Em março do ano passado, ele disponibilizou na internet um vídeo em que denunciava o suposto caráter “fascista” do Alcorão. Por causa da produção, a Holanda recebeu ameaças de grupos islâmicos.

Várias vezes, o governo holandês tentou convencer Wilders a renunciar a seu projeto, temendo uma reação similar à ocorrida após a publicação de charges do profeta Maomé na imprensa dinamarquesa.

Wilders vive sob proteção policial, após o assassinato, em novembro de 2004, do cineasta holandês Theo van Gogh, cometido por um radical islâmico por causa de outro filme, no qual denunciava a condição da mulher no islã.

O porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Mohammad Ali Hosseini, divulgou na época um comunicado em que condenou o filme, classificado por ele de uma “vingança” por parte de alguns cidadãos ocidentais contra o islã e os muçulmanos.

Depois dos holandeses e dos britânicos, que também votaram em eleições locais nesta quinta-feira, entre sexta e sábado votarão para o Parlamento Europeu os irlandeses, tchecos, letões, eslovacos, malteses e cipriotas.

Dezenove dos 27 países da EU — entre eles Alemanha, França, Espanha, Itália e Polônia– vão às urnas no domingo.

Com Efe, Associated Press e France Presse

26/05/2009 - 11:00h Europa pode atrasar recuperação global

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Anthony Faiola, The Washington Post*

A crise financeira nos Estados Unidos pode ter levado o mundo para uma recessão global, mas o maior entrave a uma recuperação em grande escala pode agora estar do outro lado do Atlântico: na Europa.

Na sexta-feira, a Grã-Bretanha reportou o mais forte declínio trimestral da sua economia nos últimos 30 anos. A produção de veículos caiu 55% ante o ano anterior. Na sexta-feira, a agência de classificação de risco Standard & Poor´s, numa medida extraordinária, anunciou estar revisando para negativa a perspectiva de crédito da Grã-Bretanha, o que aumenta o espectro de um rebaixamento da classificação máxima AAA dos títulos do governo. E alguns países europeus, incluindo Alemanha e Itália, estão enfrentando a pior desaceleração econômica da sua história.

Nove meses após o pior desaquecimento econômico que se tem conhecimento desde a Grande Depressão, a queda livre que se verificou nos Estados Unidos parece que está dando lugar a um declínio mais moderado. Mas os economistas não estão conseguindo ver um pulso firme nos países europeus e em outros industrializados, como o Japão, que também colabora para atrasar uma recuperação global. A recessão nesses países deverá ser mais profunda e longa que nos Estados Unidos, onde o ritmo de demissões diminuiu e há alguns sinais de vida nos mercados financeiros.

Existem alguns sinais de estabilização no Velho Mundo. Na Alemanha, a confiança do investidor está em alta, em meio a notícias de que as encomendas à indústria começam a voltar à normalidade, depois de meses de quedas acentuadas. Mas, para muitos economistas, a Europa vai sair da recessão depois dos Estados Unidos, num prazo de pelo menos três a seis meses.

Segundo os críticos, isso, em parte, se deve ao fato de a Europa estar demorando muito para lançar programas de estímulo governamentais e endireitar seu sistema financeiro. Alguns países, como a Irlanda, estão com tanto problema de caixa que elevaram os impostos em meio a uma profunda recessão, piorando ainda mais a situação. Além disso, só recentemente é que os líderes europeus se dispuseram a fazer testes de estresse amplos e sistemáticos nos bancos, similares aos realizados nos Estados Unidos.

E tudo indica que os bancos europeus precisam ser submetidos a esses testes, e rápido. Enquanto os bancos dos EUA já deram baixas contábeis de metade do valor estimado de US$ 1,1 trilhão em empréstimos problemáticos e ativos tóxicos, as instituições europeias só deram baixa em menos de 25% do US$ 1,4 trilhão de ativos podres, segundo relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI). Muitos bancos da Europa Ocidental também investiram pesado na Europa do Leste, onde o risco de nova onda de insolvências, tanto de consumidores como de empresas, é considerável.

“A recuperação aqui depende da recuperação fora”, disse o secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, ao Comitê de Apropriações da Câmara. “Nossos esforços para se conseguir uma reforma financeira nos Estados Unidos precisam ser acompanhados de esforços similares em todas os lugares para terem êxito”. E, diante da posição crítica do Congresso em relação à Europa, Geithner defendeu as ações adotadas pelos seus governos até agora, dizendo que foram “melhores do que os senhores pensam”.

Contudo, as dificuldades da Europa são uma má notícia para a recuperação global. A União Europeia, que congrega 27 países, representa quase um quarto da atividade econômica global e uma saída demorada da crise vai retardar também a recuperação do comercio mundial e dos investimentos estrangeiros.

Um quinto de todas as exportações dos EUA, incluindo artigos de grande valor, como reatores nucleares e aviões, vão para a UE, com empresas americanas, como McDonald´s e Google, contabilizando parte cada vez maior de suas receitas na região. Os países em desenvolvimento da Europa do Leste e da África também dependem dos investimentos europeus, que evaporaram nos últimos meses.

Apesar de investidores privados já terem começado a injetar dinheiro em mercados emergentes, muitos países ainda estão prevendo mais saídas de investimento estrangeiro em 2009, pela primeira vez em anos.

Alguns, como China e Índia, continuam a crescer, mas em ritmo mais lento, e os especialistas duvidam que será suficiente para compensar a desaceleração econômica na Europa.

“O resultado é que a Europa não será um motor numa recuperação global, mas, na verdade, o oposto disso”, disse Eswar Prasad, membro da Brookings Institution e professor de polícia comercial da Cornell University. “A Europa vai entravar a economia mundial nos próximos dois anos”.

*Anthony Faiola é repórter

22/05/2009 - 09:52h Crise global vai continuar mesmo depois da recessão

ENTREVISTA – NOURIEL ROUBINI

Para economista, movimento atual de recuperação das Bolsas não é sustentável

Luiz Carlos Murauskas/Folha Imagem
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O economista Nouriel Roubini concede entrevista em São Paulo; para ele, o crescimento do Brasil neste ano ficará entre 0 e -1%

DENYSE GODOY – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Nouriel Roubini à Folha ontem, após participar de seminário promovido pela Serasa Experian em São Paulo.

FOLHA – O senhor está sorrindo hoje! É difícil vê-lo assim nas fotos, nas imagens da televisão… Isso contribui para a sua fama de “Doutor Apocalispe”?
NOURIEL ROUBINI –
[Fica sério] A crise econômica é um assunto tão grave que, quando estou falando a respeito, simplesmente acho que sorrir não é apropriado. As pessoas me chamam de “Doutor Apocalipse” porque fui o primeiro a prever o atual desastre, mas prefiro ser chamado de “Doutor Realista”.
Não vejo, à nossa frente, uma depressão ou uma longa recessão, como muitos apontam. Creio que vamos sair desta crise no ano que vem. Ainda estou preocupado, no entanto, com determinados aspectos econômicos de curto prazo.

FOLHA – Alguns analistas afirmam já detectar aqui e ali sinais de recuperação da economia americana. Quais indicadores realmente apontam o começo de um restabelecimento e quais não devem ser interpretados assim?
ROUBINI –
Os índices mais importantes a acompanhar são os relativos a consumo, investimento das empresas, produção industrial e mercado imobiliário. Eles continuam caindo. Só que estão recuando menos do que o observado no ano passado -se apresentassem o mesmo ritmo de queda dos últimos meses de 2008, não estaríamos em uma recessão, mas em uma depressão profunda. Isso não significa uma luz verde, mas uma luz amarela, na minha opinião. Não se pode tomá-los como indicativos de retomada.

FOLHA – Então, em que ponto da crise nos encontramos agora?
ROUBINI –
Eu havia afirmado que a recessão dos EUA duraria 24 meses. Como começou em dezembro de 2007, deve terminar em dezembro de 2009. Transcorridos 17 meses, já passamos de dois terços do caminho, portanto, em termos de recessão. Entretanto, não chegamos nem perto do fim da crise bancária ou de crédito -esta deve levar mais dois ou três anos para passar.

FOLHA – O senhor quer dizer que não se deve comemorar o fato de já ser possível avistar o final do período de contração?
ROUBINI –
Sim. No caso de economias avançadas como os EUA, a Europa e o Japão, o cenário para os próximos dois anos é de crescimento abaixo do potencial. O potencial americano é de um avanço de 2,75% a 3% ao ano, mas ficará abaixo de 1% em 2010, o que é medíocre. Apesar de não estar mais em uma recessão, tecnicamente falando, o sentimento no país será o de estar porque o desemprego seguirá subindo por ao menos um ano e meio. Assim aconteceu nas últimas duas retrações, em 1991 e 2001, e tende a se repetir.

FOLHA – Quais são as perspectivas para o Brasil?
ROUBINI –
O Brasil deve no máximo apresentar crescimento zero neste ano; o mais provável é que tenha uma pequena retração do PIB [Produto Interno Bruto], entre 0 e 1% negativo. Após fortes quedas no último trimestre de 2008 e no primeiro deste, o desempenho fica positivo no segundo, pelas nossas previsões. A sorte do Brasil é possuir um mercado doméstico robusto a ser explorado. Já as exportações dependem mais da recuperação do preço das commodities, que dependem da retomada da China. Com uma agressiva política de governo, a China realmente tem reagido nos últimos meses.

FOLHA – Os seus críticos argumentam que o senhor previu essa crise diversas vezes nos últimos anos, por isso acertou.
ROUBINI –
Ouvi essa história de que até mesmo um relógio parado está certo duas vezes por dia. Mas essas críticas são tolas e injustas, pois não fiz previsões genéricas sobre a crise, basta ler com atenção tudo o que escrevi. Fui bastante específico, dei detalhes sobre os problemas financeiros, quando e como seriam os seus desenvolvimentos. Por exemplo, falei, um ano e meio atrás, que dois grandes bancos de investimento dos EUA iriam à lona em dois anos. Adivinhe. Levou sete meses apenas para o colapso do Lehman Brothers e do Bear Stearns. Pode-se dizer na verdade que eu fui até muito otimista quando falei de prazos.

FOLHA – Onde o senhor tem investido o seu próprio dinheiro?
ROUBINI –
Nos últimos três anos, deixei na poupança ou em títulos de depósito interbancário, bem longe do mercado financeiro. Aí me falam: “Você ganhou quase zero”. Bem, é melhor ganhar zero do que perder 50%, não é? Continuo fora do mercado financeiro porque ainda vejo riscos de recuos macroeconômicos e no lucro das empresas, além de turbulências no setor financeiro. É claro que vai chegar o tempo de recuperação do preço dos ativos financeiros em nível global. Porém, só vejo isso ocorrendo daqui a um ano ou até um ano e meio. Não acredito que a escalada recente das Bolsas seja sustentável, porque o movimento está indo além do que os dados sobre a economia permitem. Por esse motivo, pode haver uma correção.

FOLHA – Como tem sido a vida de economista-celebridade? O que mudou na sua rotina?
ROUBINI –
Não acho que eu seja uma celebridade porque não tenho vida de celebridade. Trabalho 12 horas por dia, sete dias por semana, e gasto 80% do meu tempo viajando pelo mundo. Se eu fosse celebridade, não estaria passando a vida a conversar com jornalistas e outros pesquisadores -eu estaria pegando uma praia no Rio de Janeiro [risos]. É muito trabalhoso fazer análise porque requer que visitemos o mundo inteiro para falar com pessoas, empresários, investidores, autoridades. Não tenho uma bola de cristal.

FOLHA – Circula uma piada segundo a qual os únicos que estão lucrando com a atual crise são os advogados, por causa das falências de empresas, e os economistas, que nunca deram tantas palestras. Entendo que o seu trabalho seja desgastante; no entanto, é uma oportunidade de ganhar dinheiro e fazer o seu nome no planeta todo.
ROUBINI –
O momento é bastante complexo e interessante para os economistas. Aconteceram mais coisas no último ano e meio do que nos 70 anteriores. Só acho que não se pode dizer que alguém está tirando vantagem da pior crise financeira desde a Grande Depressão. Há enormes custos humanos, sociais, fiscais. É muito sério. Eu e os outros economistas estamos engajados em ajudar o mundo a entender o que aconteceu e a buscar uma solução.

16/05/2009 - 13:27h PIBs de França e Alemanha caem e afundam Europa

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Economia alemã recua 3,8% no 1.º trimestre; França cai 1,2% e entra em recessão; zona do euro cai 2,5%

Jamil Chade – O Estado SP

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando a Europa estava arrasada, nunca o continente esteve em uma situação tão dramática como hoje, em termos econômicos. Ontem, autoridades anunciaram a maior queda do Produto Interno Bruto (PIB) da Alemanha em quase 40 anos e a entrada oficialmente da França em recessão. As notícias abalam as esperanças de que a crise está perdendo força. Mas governos acreditam que o primeiro trimestre foi o fundo do poço e que perdas dessa magnitude não serão vistas nos próximos meses.

A queda das duas maiores economias da Europa levaram o continente a um cenário negativo. A contração do PIB na zona do euro já atravessa quatro trimestres consecutivos e atinge uma taxa recorde de 2,5%. Os dados ainda mostram que a recessão é mais profunda na Europa que nos Estados Unidos, a origem da crise.

A economia alemã – a maior da Europa – teve um recuo histórico de 3,8% de janeiro a março – a maior em um trimestre desde 1970, quando o cálculo começou a ser feito. Maior economia exportadora do mundo, a Alemanha sofre com a queda da demanda mundial. No último trimestre de 2008, o PIB alemão já havia encolhido 2,2%.

A BMW, maior fabricante de carros de luxo da Europa, sabe o que essa crise significa. Teve de cortar postos de trabalho e produção. Em abril, a queda das vendas foi de 23%. Norbert Reithofer, presidente da empresa, está cético sobre uma reação no curto prazo. “Não prevemos uma recuperação antes de 2010.” A queda na demanda mundial por carros e máquinas também foi um dos motivos que levaram o PIB alemão ao tombo. Para o ano, o governo prevê que o PIB cairá 6%.

Os alemães tentam dar um sinal de que o pior já passou. “Essa queda brusca não deve mais ocorrer”, afirmou o porta-voz do governo, Thomas Steg. “Temos claras indicações de que o primeiro trimestre foi o mais difícil.” Pesquisas de opinião indicam que a confiança de empresários começa a se recuperar.

Na França, a contração do PIB foi de 1,2% no mesmo período. Por ser o segundo trimestre consecutivo de queda, o país entrou tecnicamente em recessão. O recuo foi menor do que a redução de 1,5% do trimestre anterior. A queda das vendas externas, de 7,2%, e do setor automotivo, de 12,8%, puxou a retração.

Para Christine Lagarde, ministra de Finanças da França, a previsão é de queda do PIB de 3% no ano, o dobro do que vinha sendo previsto. A recuperação viria apenas em 2010 e, mesmo assim, “gradualmente”. Em 2008, o crescimento foi de apenas 0,3%.

Críticos dizem que os governos europeus passaram meses negando que a crise chegaria e muitos ainda hesitam em gastar dinheiro para programas de recuperação.

O PIB da zona do euro caiu 2,5% no primeiro trimestre e 4,6% em um ano. A taxa é a pior em 13 anos, quando os cálculos começaram a ser apurados. Nem mesmo a redução da taxa de juros pelo Banco Central Europeu para os níveis mais baixos já vistos – de 1% – parece ter sido suficiente.

Ao contrário do que se esperava, a queda do PIB da zona do euro foi mais intensa nos três primeiros meses do ano que no fim de 2009, quando foi de 1,6%. Dos 16 países que usam o euro, apenas um não está em recessão. Nos onze países que não usam o euro, a queda foi de 2,5%.

Na comparação com o primeiro trimestre de 2008, o recuo médio dos 27 países da Europa foi de 4,4%. Na Letônia e Eslováquia, a queda foi de 11,2%. Hungria e Romênia caíram 6,4%.

A Itália registrou a maior perda desde 1980. A queda foi de 2,2%, contra uma contração de 2,1% no quarto trimestre de 2008. No ano, o PIB encolheu 5,9%, o pior resultado em 29 anos.

A Espanha registrou queda de 1,8% no trimestre e 2,9% em termos anuais – a pior marca desde 1970. No Reino Unido, a queda foi de 1,9% no trimestre, contra recuo de 1,6% no trimestre anterior.

Até o setor do luxo começa a sentir. A Bulgari registrou seu primeiro prejuízo em uma década. A L?Oreal, maior empresa de cosméticos do mundo, classificou o trimestre de “duro”. O setor de cosméticos é tido como o mais resistente às crises.

Na Europa, o que todos querem saber é se esse foi ou não o fundo do poço. A Comissão Europeia admite que a queda foi maior do que a esperada. Mas aposta em melhoria e recuperação em 2010. “Existem alguns sinais, mas a volta do crescimento ainda está longe”, diz o comissário de Assuntos Econômicos da Europa, Joaquin Almunia.

O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, apontou ontem sinais positivos de recuperação. “Prevemos uma retomada da conjuntura mundial para o primeiro semestre de 2010. A virada da situação deve ocorrer em outubro, novembro ou dezembro de 2009″, disse. Para o governador do Banco da Inglaterra, Mervyn King, a recuperação será “lenta”.

06/04/2009 - 08:57h A crise é dura com o Leste Europeu

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Filhos da Revolução descobrem agora a crise capitalista

Húngaros, checos e eslovacos enfrentam recessão e questionam efeitos da entrada na União Europeia

 

Jamil Chade, PRAGA – O Estado SP

 


Iva, Tomaz, Miroslava e Maria. Eles são húngaros, checos, eslovacos e não têm ideia do que seja viver em um regime comunista. Eles nasceram no ano ou logo depois das mudanças na região e a queda da União Soviética. Mas, hoje, 20 anos depois da Revolução de Veludo que derrubou o regime na ex-Checoslováquia e em plena crise mundial, a geração dos filhos da Revolução está descobrindo que a mera adesão à União Europeia não os blindou contra o desemprego, a crise e a recessão.

2009 era para ser o ano de celebrações no Leste Europeu. Além dos 20 anos da Revolução, a região comemora o quinto aniversário da expansão da UE para o Leste e ainda o ano da entrada do primeiro país da Europa Central na zona do euro, a Eslováquia. Mas a crise mudou o cenário e as sociedades começam a se questionar se a adesão à UE, ao capitalismo e mesmo à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) são fatores suficientes para garantir o bem-estar da população.Três governos na região já caíram diante da crise e outros enfrentam protestos violentos.

“Ninguém questiona se deveríamos ou não ter entrado na UE e abandonado o lado comunista. Isso é claro. Mas o capitalismo puro também não funcionou e estamos vendo isso com a crise”, afirmou Miroslava Durankova, uma universitária de 21 anos do norte da Eslováquia.

Seu argumento é resultado de um fenômeno que a região não conhecia nos anos do comunismo: a disparidade social. Hoje, o salário médio de um eslovaco é sete vezes maior que a média de 1989. Mas um estudo da Universidade de Bratislava mostrou que, na realidade, o poder de compra ainda é o mesmo de há 20 anos. Ou seja, o que uma pessoa ganha lhe dá a possibilidade de comprar exatamente o que adquiria em 1989. Agora, porém, há uma grande diferença: a liberdade de escolha, liberdade política e liberdade de movimento.

O sistema permitiu que uma parte da população enriquecesse e que uma classe média pudesse viajar. Enquanto o Leste Europeu cresceu a taxas altas, os mais pobres conseguiram empregos e também se beneficiaram. Mas, com a crise, os mais pobres correm risco de ficar sem trabalho. E, dessa vez, não contarão com os imensos subsídios do Estado.

“Há 20 anos, o governo fingia que pagava salários e a população fingia que trabalhava. Agora, a situação é outra e cada pessoa deve ganhar sua vida”, diz o diretor do Departamento de Educação da Universidade Eslovaca de Tecnologia, Miroslav Babinsky. Ele conta que, em 1989, com pouco mais de 20 anos, fugia das aulas de engenharia na Universidade de Bratislava para praticar um crime: imprimir panfletos alertando a população de que novos dias viriam. “Quando a revolução ocorreu, tínhamos a impressão de que tudo nos era permitido e que tudo seria fácil”, disse.

Neste fim de semana, ele foi votar para presidente da Eslováquia. Seu voto iria para a oposição, de direita. “Acabamos com o comunismo, mas os atores são os mesmos. Se dizem religiosos e até pró-capitalistas. Mas são os mesmo que nos oprimiram. Não podemos aceitar”, disse. “Se o sr. Hugo Chávez (presidente da Venezuela) quiser saber o que é socialismo, deveria perguntar a quem viveu aqueles anos aqui.”

Só 30% dizem viver melhor do que no comunismo

População apoia a democracia e a economia de mercado, mas o desemprego preocupa

 

Jamil Chade, PRAGA – O Estado SP

 


Um estudo do Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento concluiu que apenas 30% da população do Leste Europeu afirma que vive melhor hoje que no período comunista. Só 15% da população acha que hoje a corrupção é menor. Mas o apoio à democracia e à economia de mercado são incontestáveis. Os motivos para a desilusão são econômicas: salários, desemprego, dificuldades e falta de serviços, como de saúde. “A vida ficou muito dura para a gente”, diz Miroslav Babinsky, da Universidade Eslovaca de Tecnologia.

Nos primeiros anos da transição, a produção caiu em 70% no Leste Europeu. Na última década, o crescimento voltou. A esperança era de que 2009 terminasse com uma alta de 25% na produção da região, em comparação a 1989. Mas a crise mudou o cenário. Para 2009, a diferença entre o PIB per capita no Leste Europeu e da UE será maior que a diferença em 1989. Algumas estimativas apontam que a região precisará de outros dez anos para completar as promessas dos líderes de 1989 de garantir uma melhor vida para todos.

Zuzana Matejovská tinha 9 anos na Eslováquia quando o regime soviético caiu. “Me lembro de que todos diziam que as coisas ficariam muito caras. Como eu gostava de sucrilhos, peguei todo o dinheiro que eu tinha na época das mesadas e voltei para casa no dia seguinte com três litros de leite. Eu estava muito orgulhosa de mim mesmo”, afirmou.

O que ela não imaginaria é que, 20 anos depois, trabalharia para a União Europeia e seria uma das organizadoras de cúpulas presidenciais do bloco. “Ninguém sabia o que iria ocorrer”, admitiu a jovem de 29 anos, em um inglês fluente e com um salário 15 vezes maior que o de seus pais nos anos 80.

Mas ela não esconde querer que seus filhos tenham a mesma infância que desfrutou. “Tive uma infância incrível e posso até estar dizendo algo politicamente incorreto, mas quero que meus filhos tenham uma vida como a minha durante o regime comunista. Ou seja, que saibam valorizar a liberdade que existe hoje. A geração que veio depois de mim não sabe o que era viver com tudo contado e controlado”, disse.

“Não tenho ideia do que era viver naquela época”, admitiu Iva Surchokrylova, uma estudante de 19 anos do colegial em Praga. “Minha mãe sempre me diz que eu tenho muita sorte de ter nascido após o comunismo.” Seu namorado, Tomas Palvik, lembra que está desempregado. “Eu sei que nossa vida é melhor que a de nossos pais. Mas eu não tenho trabalho.”

05/04/2009 - 10:01h G-20 resolve pouco, mas Brasil se saiu bem

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Alberto Tamer – O Estado SP

O Brasil se saiu bem na reunião do G-20. O presidente teve um desempenho à altura de um país adulto. Disse que o Brasil tinha lições a dar pelo que já fez desde o inicio da crise e ainda vem fazendo, com estímulos fiscais e redução de impostos. Isso enquanto os outros ainda discutiam e discordavam sobre os caminhos a tomar. Mostrou que o nosso sistema bancário tem liquidez e está sólido, enquanto os grandes bancos dos países ricos estremecem suas bases.

No fundo, o seu recado, que foi muito ouvido, dava a entender que não precisamos muito deles; eles é que precisam de nós e dos países emergentes ou em desenvolvimento, que tentam ajudar a evitar que o mundo afunde ainda mais na recessão. Foi duro ao atacar os bancos americanos e europeus (”Eles precisam criar juízo”), mas delicado ao pedir, agora, a união de todos para, enfim, enfrentar a inflação de forma eficaz para obter resultados imediatos, que, mesmo após a reunião, ainda estão distantes.

PRECISAMOS MENOS

Para nós, foi uma boa reunião mesmo porque, no fundo, não precisávamos tanto do que não veio: uma verdadeira reforma do sistema financeiro internacional baseada em mais responsabilidade e transparência. Um projeto comum, efetivo, real, urgentíssimo de estímulo fiscal para reanimar o comércio, a demanda e o crescimento; uma decisão, não apenas promessa, de conter o protecionismo e liberalizar o mercado. O que veio foi a mesma promessa ridícula e irritante de retomar as negociações de Doha, mas sem datas, prazos e sem mais nada. Blá-blá-blá. Ninguém vai abrir comércio nenhum quando está em recessão.

O PACOTE DE US$ 1,1 TRILHÃO

O que animou foi o comprometimento dos países ricos, a formação de um pacote de US$1,1 trilhão aumentando os fundos do FMI para US$ 750 bilhões. Os outros US$ 250 bilhões serão destinados ao financiamento do comércio exterior. Nós não vamos precisar do dinheiro do fundo, aliás, Lula e Mantega disseram que até podem dar uns US$ 5 bilhões desde que continuem constando das reservas cambiais. Mas poderemos nos beneficiar, sim, aproveitar o crédito ao comércio exterior para retomar as exportações que devem recuar 20% neste ano.

NÃO É PARA JÁ

Falta agora efetivar o programa. O Japão já emprestou US$ 100 bilhões, a China garante US$ 40 bilhões e a União Europeia promete US$ 100 bilhões. Nesse caso, porém, vai depender de aprovação dos 27 países. E os EUA, que entrariam com o resto, dependem do Congresso. Não vai ser fácil. Como se pode ver, nada deverá vir pelo menos nos próximos meses. Talvez lá para outubro, mesmo porque o FMI vai estar preocupado primeiro em socorrer os países pobres. As decisões do G-20 não irão tirar o mundo da recessão. Seus resultados, além de modestos, tardarão muito.

CONCORDAR EM

NÃO DISCORDAR

Os chefes de Estado concordaram em não discordar em público para passar um clima de união que não existiu e restabelecer a confiança mundial abalada por tanta discórdia e insensatez no combate à crise. EUA, Brasil e China entraram e saíram defendendo uma política fiscal mais agressiva. França e Alemanha a rejeitaram.

EUA DISSERAM NÃO

Outra discórdia não resolvida: EUA defendem uma reforma financeira em cada país e não global. Os franceses e alemães se opuseram até o fim. Querem uma reforma do sistema financeiro internacional. “Isso é inegociável”, proclamou Angela Merkel. Para não haver discordância pública, decidiram dar ao FMI a função de promovê-la no correr do tempo. Sem prazos nem metas específicas. Vai levar anos… Então deu certo? Não, não deu.Um dia após a reunião, Timothy Geithner, rejeitou a solução globalizada. Foi mesmo rude. “Isso não vai acontecer. Não houve espaço de apoio para isso no encontro.” Os EUA querem eles mesmos limpar o seu sistema. Acham que se cada um fizer o mesmo, tudo será resolvido de forma mais fácil e eficiente. Mas o que ficou aprovado em Londres?

E OS US$ 5TRILHÕES?

Mas o G-20 aprovou tudo isso para aplicar numa política fiscal de incentivo à demanda. Está lá, no comunicado final. Isso, sim é para “inglês ver”. Alguns países querem que todos gastem mais? Pois vamos gastar mais, concordaram. Quanto? Que tal US$ 5 trilhões em incentivos fiscais só para efeito de relações públicas? Só não ficou esclarecido, é lógico, quem vai gastar quanto, quando e como. Não estaríamos sendo um pouco cínicos? Pois quem vai fiscalizar o cumprimento da promessa? Quem vai “obrigar” a madame Merkel a abrir os cofres ou reduzir impostos? E a França, a Inglaterra, outros signatários?

Os EUA, China, Japão, saíram dizendo que iam gastar até mais. Lula deve ter dado risada ao dizer que já estamos fazendo há meses o que ainda estão discutindo, revirando os mais modernos tratados de economia. O que sabemos é que, se ficarmos esperando, vai acontecer o que Keynes dizia: “A longo prazo, todos estaremos mortos”.

*E-mail: at@attglobal.net

31/03/2009 - 15:33h Capitalismo anglo-americano em julgamento

The New York Times
March 29, 2009
From top to bottom: Keystone/Getty Images; Ron Edmonds/Associated Press; Charles Platiau/Reuters

PARTNERS Roosevelt and Churchill cast the postwar mold; Bill Clinton and Tony Blair extended its triumph in the late 1990’s; now Barack Obama and Gordon Brown defend it.

Anglo-American Capitalism on Trial

By JOHN F. BURNS and LANDON THOMAS Jr. – The New York Times

Published: March 28, 2009

LONDON — Sitting in a gilded upper room at 10 Downing Street last week listening to Prime Minister Gordon Brown outline his ambitions for reforming the world economy had something of an out-of-this-world feeling. With Mr. Brown seated beneath a 16th-century oil painting of Queen Elizabeth I, it was tempting to imagine for a moment that Britain was again rising grandly to the challenges of the age, in the way of Good Queen Bess.

The occasion was a briefing for reporters on the Group of 20 summit meeting to be held Thursday at a conference center in the London docklands, close to the historic City of London, Britain’s financial hub. Mr. Brown was intense, and prolific with facts. He was also visibly exhausted, hours before leaving on a five-day, 20,000-mile trip to Europe, the United States and Latin America before the conference.

The event for which he was preparing is as weighty as any London has hosted in decades. It will be attended by President Obama and the leaders of 21 other nations, including Europe’s wealthiest countries and Russia, China, and India. Organizers say that those attending generate 80 percent of the world’s wealth, making the gathering a potential powerhouse for global reform.

The meeting is too short — a single day — to make more than a start on fixing the weaknesses in the international financial system that contributed to the current crisis. But it will help determine the extent to which the economic model shaped largely by Britain and America after World War II — call it Anglo-American capitalism — survives as the touchstone for economic growth worldwide.

For Mr. Brown, it is a make-or-break moment. His government faces an election within 14 months that current polls suggest could bring a crashing end to more than 12 years of Labor rule. While Mr. Obama will be judged in time on how well he can negotiate America’s way out of the financial crisis, Mr. Brown carries the added burden of having overseen Britain’s economy as chancellor of the exchequer for a decade before becoming prime minister in 2007. From that comes a belief, common in Britain, that he is one of those mainly responsible for the country’s current woes.

Partly because of the heavy burden of government debt built up during his stewardship, and the uncurbed recklessness of the country’s banks, Britain’s recession is already the harshest in Western Europe. The Brown government has committed tens of billions to the recapitalization of Britain’s banks and a raft of stimulus measures, pushing its budget deficit to levels unknown sinde World War II without any sign yet that the economy’s plunge has been slowed.

But Mr. Brown has a plan, set out at the briefing. His goal at the G-20 meeting is to make a start on reforming, and eventually saving in more regulated form, the model of the Anglo-American free-market system. It is a plan that Mr. Brown hopes will give Canary Wharf a place in history somewhat like Bretton Woods, the New Hampshire resort where, in July 1944, the United States and Britain led other nations in creating the International Monetary Fund, the first of a group of international organizations that became the pillars of the postwar international system.

In many ways, the new order was the legacy of Franklin D. Roosevelt and Winston Churchill, embodying the common beliefs in freedom that had bound the wartime alliance, as they had infused the wider bonds between what Churchill called “the English-speaking peoples” since the flowering of liberal thought in the 17th and 18th centuries.

Just as Roosevelt and Churchill shared that bond, so, now, do Mr. Obama and Mr. Brown. Both men, reacting to events on Wall Street, in the City and in other financial centers, have spoken, with unaccustomed asperity, of the greed and irresponsibility of bankers, hedge-fund managers and others who, the two men have as much as said, have betrayed the system and come close to wrecking it.

Now, the conviction that the system must be rebuilt to curb future excesses forms a starting point for the reforms that will come under discussion in London. Like Mr. Brown’s, President Obama’s message to his own compatriots has focused on ways of revitalizing the system, often to the exasperation of those among their supporters who would favor more radical measures.

Even as both men have embarked on enormous increases in public-sector spending, they have maintained that solutions to the crisis lie in reawakening the markets and recapitalizing the banks, rather than having the government take them over, and in placing financial institutions under closer supervision rather than tearing at the system’s foundations. And both, when they respond to public anger at the private sector, have seemed more geared to managing that anger than stoking it.

Still, Mr. Brown may not have strengthened Washington’s confidence in him as a partner with his habit of tailoring his remarks to popular predilections on opposite sides of the Atlantic. In New York and Washington, he has been lionized for his pathfinding decision last fall to recapitalize Britain’s banks, a step later followed by the Bush and Obama administrations. He has responded by emphasizing Britain’s close ties to America, and the two countries’ responsibility to lead in reforming the system they gave the world. He frequently mentions his summer vacations on Cape Cod.

But at home, and on his visits to Continental Europe, the prime minister seems, as often as not, to cast America as the villain. In response to a wave of opposition demands that he apologize for his failings as chancellor of the exchequer, he has insisted that Britain’s financial woes, and the world’s, came “from America,” as though Britain was as much a victim as it was a perpetrator of its ills through the venality of its own financial institutions and its failures of regulatory oversight.

Speaking to the European Parliament last week before flying to New York, he flattered legislators by saying that “we in Europe are uniquely placed to lead the world” in meeting the challenges of remaking the world’s economic system, not only because the union’s 500 million people constitute “the greatest and biggest single market in the world,” but because of European moral sensibilities. Without mentioning the United States, he implied that the moral contagion that has afflicted market economies ran counter to a common European belief that “liberty, economic progress and social justice advance together, or not at all.”

As chancellor, Mr. Brown celebrated the “light touch” regulation of the City of London under which American banks and investment houses flocked to build up their London operations. He appeared, to his critics on Labor’s left, to have accepted a Faustian deal under which the unbridled excesses of the City were tolerated because they generated windfall tax revenues that allowed Labor to splurge on public sector spending.

But in Strasbourg, France, the prime minister seemed to fall back on his roots as the son of a Scottish preacher, and as a student politician of the radical left, focusing on the demons that detractors believe are inherent in the capitalist system. Europe, he told the legislators, had learned the truth that “riches are of value only when they enrich not just some communities, but all.” He added: “As we have discovered to our cost, the problem of unbridled free markets in an unsupervised marketplace is that they can reduce all relationships to transactions, all motivations to self-interest, all sense of value to consumer choice and all sense of worth to a price tag.”

If the implication was that Gordon Gekko-style greed was an American contagion, Mr. Brown is far from alone in Europe. Among some of those who worked through the boom years in the City of London, the moment when matters began to get out of hand under the international financial architecture that began to take shape at Bretton Woods can be dated to the collapse of the Soviet Union. One result, these people now say, was an American triumphalism that translated, in the financial world, to the kind of free-for-all Mr. Brown spoke about in Strasbourg.

Not that London needed encouragement. The Big Bang that liberated financial institutions in the City had come in 1986, sweeping away the cobwebbed traditions of centuries and putting London, at last, in a position to compete with, and in some cases outmatch, Wall Street’s most aggressive practices. The genteel if not downright sleepy practices of post-imperial Britain gave way to what one British banker from that era described as the end of Anglo-American capitalism, and the beginning of a more virulent “American-Anglo” form.

“We were star struck — the American way had become more glamorous,” said George G. Blakey, a stockbroker who has written a book on the history of the London Stock Exchange. “This was the beginning of globalization, and this new American culture swept away everything I had been accustomed to.”

Now, a wave of voices around the world would like a new Big Bang to sweep away the Bretton Woods template and the era of Anglo-American dominance it ushered in. Prime Minister Vladimir Putin of Russia has suggested as much, to nobody’s great surprise, and even France’s otherwise pro-American president, Nicolas Sarkozy, has said the “Anglo-Saxon” presumption of dominance should be abandoned.

Against this background, what the British and American leaders will be attempting at the G-20 conference, along with their partners from around the world, will be to begin building a new global financial system that curbs the rampant and often conscienceless free-marketeering of the past 20 years with a new sense of accountability and restraint, but without extinguishing the spirit of enterprise that arrived in America with the Pilgrims who landed at Plymouth Rock.

It is a task some have likened to rebuilding an aircraft in midflight, and on its success may depend the future well-being of much of the world’s population of 6.5 billion, not to mention the fragile political prospects of Mr. Brown.

22/03/2009 - 11:30h Europeus têm rede de proteção contra crise

Mesmo com desemprego, exemplos mostram que sistema atenua tombo

 

http://patrickalexanian.typepad.fr/.a/6a00e552188d1188330105367a2dda970b-800wi

Andrei Netto e Jamil Chade, PARIS e GENEBRA – O Estado SP

 


A recusa da Europa em redobrar esforços em programas de resgate da economia, como defende a administração de Barack Obama nos Estados Unidos, se deve à confiança dos governos da União Europeia no capitalismo de bem-estar social, que age de forma automática em tempos de crise. Exemplos concretos demonstram que, embora a turbulência global tenha efeitos duros na atividade econômica, a qualidade de vida da maioria dos desempregados pela crise foi preservada.

O francês Patrick Barbe sintetiza bem o momento econômico da Europa. Em 2006, um ano antes da eclosão da crise do subprime – os créditos imobiliários de alto risco negociados nos Estados Unidos -, o pequeno empresário, hoje com 51 anos, aventurou-se na criação de uma empreiteira. A intenção era explorar o potencial imobiliário de pequenos apartamentos para famílias sem filhos, vendidos por cerca de 60 mil. De acordo com suas estimativas, o negócio deveria movimentar 5 milhões.

Depois de investir 600 mil no negócio e empregar sete funcionários, Barbe viu a bolha imobiliária estourar. O crédito secou e seus planos começaram a afundar. “No Natal passado, eu não tinha mais clientes”, lamenta. Em 25 de fevereiro, menos de três anos depois de criá-la, sua empresa foi liquidada pela Justiça. Os sete funcionários foram demitidos. Ele próprio se enquadrará nos programas de auxílio social da França, se desejar.

“De um dia para o outro, o Estado passou a arcar com os custos do desemprego. Eu preferia ver meus funcionários recebendo salários da minha empresa”, diz Barbe. “Esta crise está destruindo tudo. Ela nos castiga duplamente, porque a iniciativa privada perde força, e o Estado assume a conta.”

Segundo cálculos da Comissão Europeia, os pacotes de estímulo após a falência do banco Lehman Brothers, em setembro, somam 200 milhões. Mas a este valor, argumentam líderes políticos como o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, precisam ser adicionados os gastos dos Estados com programas sociais.

Na prática, entre seguros-desemprego, auxílios-moradia – para pagamento de aluguel -, custeio integral dos transportes, programas de renda mínima, bolsas para estímulo à natalidade, saúde e educação gratuitas, o valor investido em meio à atual crise salta para algo entre 3,3% e 4% do Produto Interno Bruto (PIB) da região, de 400 milhões a 485 milhões. É essa injeção de recursos na sociedade que garante qualidade de vida em tempos difíceis.

Raphael Espinoza, PhD em Economia pela Universidade de Oxford e economista do Fundo Monetário Internacional (FMI), vê impacto positivo nos chamados “estabilizadores automáticos” – a designação técnica dos programas sociais. Segundo ele, os planos de auxílio amortizam entre 35% e 40% do impacto da crise na renda das famílias – renda, diga-se, já elevada. Para o todo da economia de um país como a França, segundo a Comissão Europeia, os estabilizadores atenuam 10% da queda do consumo no primeiro ano e 20% no segundo.

O efeito sobre o mercado de trabalho também é significativo, segundo Espinoza. “A cada 1% de PIB perdido pela economia do país, os estabilizadores salvam o equivalente a 20 mil empregos”, explica, ressalvando: “Mas as ferramentas que atenuam a crise também reduzem a capacidade de crescimento em épocas de ciclos econômicos positivos.”

EFEITO COLATERAL

Outro efeito colateral dessas políticas é o desequilíbrio nas contas públicas. Na França, por exemplo, a perspectiva para 2009 aponta déficit de 5,6% do PIB. Mesmo na Alemanha, onde a austeridade é palavra de ordem, o buraco aberto deve chegar a 4%. Isso ocorre porque na Europa o orçamento age como regulador da vida econômica. Quando a atividade se desacelera, o volume de recursos arrecadados com impostos – indexados ao lucro e à renda – cai.

Na prática, a iniciativa privada é poupada, passa a pagar menos taxas e preserva parte da saúde financeira para a retomada econômica. Em contrapartida, o Estado paga a fatura. Os governos abrem mão do equilíbrio fiscal, deixando o déficit público crescer para injetar mais recursos diretamente nas contas bancárias das famílias.

Poucos desempregados do mundo têm o privilégio de contar com um sistema tão generoso quanto o da Suíça. É o que Antonio de Souza, 34 anos, filho de portugueses, acabou de descobrir. Há duas semanas, ele perdeu o emprego numa pequena fábrica de peças para a indústria de relógios. Mas já foi avisado de que receberá 80% do seu salário pelos próximos 11 meses. “A renda não cairá tanto. O problema é mais emocional, por ter sido rejeitado.”

Caso nenhuma oportunidade de trabalho surja nos próximos meses, Souza cairá no sistema de ajuda social. Terá o aluguel coberto pelo governo, além de atendimento em saúde. Para completar, receberá US$ 1 mil por mês em dinheiro e uma bolsa para alimentação.

Segundo o vice-secretário-geral do Departamento de Empregos de Genebra, Bernard Favre, a ideia do sistema suíço é evitar que uma demissão contamine a economia. “Se alguém perde sua renda, vai comprar menos, o que pode gerar mais desemprego.” Para Clemente de Lucia, economista do banco BNP Paribas, o desempregado europeu está em melhor condição do que nos Estados Unidos porque as políticas de bem-estar social amortecem o impacto em tempos de turbulência.

21/03/2009 - 13:41h Economia mundial: queda da indústria lembra Depressão

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Declínio industrial não é surpreendente, mas sua profundidade e velocidade criam tendência que acentua piora

Nelson D. Schwartz – The New York Times – O Estado SP

Desde que foi fundada pelo seu bisavô em 1880, a empresa de Carl Martin Welcker, localizada em Köln, Alemanha, espelhou a situação vivida pelas indústrias não apenas na Europa, mas no mundo todo. Isso ainda é verdade hoje. Ecoando um padrão familiar às indústrias da Europa, Ásia e Estados Unidos, Welcker diz que a sua empresa, Schuette, fabricante das máquinas responsáveis pela produção de 80% das velas de ignição usadas em todo o mundo, vive uma “tragédia”. Os pedidos caíram 50% em relação ao mesmo período do ano passado e Welcker está cortando custos e considerando demissões.

O fato de o setor industrial estar em declínio não é surpreendente, mas a profundidade e a velocidade da queda são impressionantes e criam uma tendência que acentua a si mesma, semelhante às falências em cadeia que resultaram na Grande Depressão.

Na Europa, por exemplo, onde a indústria corresponde a quase 20% do Produto Interno Bruto (PIB), a produção caiu 12% em relação ao mesmo período do ano anterior. No Brasil, a queda foi de 15%; em Taiwan, chegou a impressionantes 43%. Até na China, que virou a grande fábrica do mundo, o crescimento produtivo desacelerou, as exportações caíram 25% e milhões de trabalhadores industriais foram demitidos.

Nos Estados Unidos, até pouco tempo atrás um país relativamente próspero para o setor industrial, apesar da erosão constante dos empregos de trabalho braçal, a produção industrial caiu 11% em fevereiro em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com estatísticas publicadas pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) na segunda-feira.

“A atividade industrial despencou, estamos vivendo o pior declínio observado desde a 2.ª Guerra Mundial”, disse Dirk Schumacher, principal economista do Goldman Sachs para a Europa em Frankfurt.

O padrão detectado na indústria e no comércio lembra ameaçadoramente a maneira com que a crise financeira iniciada em 1929 cresceu até chegar à Grande Depressão: o aperto no mercado de crédito e o medo do consumidor reduziram a demanda por bens manufaturados em todos os países, um após o outro, criando uma espiral descendente que reduziu o comércio global.

“A queda na atividade industrial sugere que, apesar de a situação ter sido ruim no quarto trimestre, atualmente as coisas estão no mínimo tão ruins quanto antes”, disse Robert J. Barbera, economista-chefe da ITG, empresa de Nova York especializada em pesquisa e comércio. “Trata-se de uma clássica situação em que o momento adverso alimenta a sua própria piora. Não é uma condição que possa se corrigir rapidamente por si mesma.” Isso significa que mais trabalhadores podem esperar pela perda de seus empregos no mundo nos próximos meses conforme as indústrias continuarem a reduzir a produção, especialmente enquanto o comércio global se contrai.

O comércio está diminuindo num ritmo ainda maior do que a produção. As exportações da Alemanha estão 20% menores do que há um ano, as japonesas caíram 46% e, nos EUA, caíram a uma taxa anual de 23,6% no quarto trimestre de 2008.

Welcker diz nunca ter visto nada igual. Para efeito de comparação, ele precisa fazer referência à Grande Depressão e à 2ª Guerra Mundial, quando a fábrica da Schuette foi destruída.

Depois de se concentrar na Alemanha e na Europa nas décadas posteriores à guerra, a Schuette prosperou conforme a globalização abriu novos mercados na Europa Oriental e na Ásia. Nos últimos 5 anos, as vendas, estimadas em 58 milhões, dispararam para 100 milhões (US$ 131 milhões).

A reversão súbita na atividade industrial mundial sugere que os americanos não devem esperar tão cedo pelo alívio econômico vindo do exterior, apesar de o clima em Wall Street estar um pouco mais otimista ultimamente e do pedido feito pelo presidente Barack Obama para que os governos estrangeiros aprovem mais pacotes de estímulo e gastos públicos.

Apesar de a atividade industrial corresponder a cerca de 14% do PIB americano, na economia mundial ela corresponde a 18%, e a 33% do PIB chinês, segundo o Banco Mundial.

Isso significa que China, Brasil, Índia e outros países emergentes que escaparam das piores consequências da crise de crédito vão sofrer cada vez mais, derrubando a demanda em economias mais avançadas mesmo quando os pacotes de estímulo começarem a dar resultado. Esse efeito de depressão funciona em ambos os sentidos.

Apesar da noção equivocada de que os EUA não produzem mais nada hoje em dia, a queda na demanda por artigos produzidos no país – como turbinas a jato, locomotivas, equipamento médico, produtos farmacêuticos e artigos de alta tecnologia – vai prejudicar as perspectivas de crescimento dos EUA.

“A atividade industrial corresponde a dois terços das exportações americanas e contribuiu mais do que qualquer outro setor da economia para o crescimento do PIB nos últimos 20 anos”, disse David Huether, economista-chefe da Associação Nacional de Industriais em Washington. “Nossa parcela da atividade industrial mundial permaneceu estável entre 20% e 23% na última década.” Em outras partes do mundo, até mesmo indústrias saudáveis como a Toyota também reduzem a produção, o que contribui para o enorme declínio nas exportações japonesas.

Apesar de os problemas das indústrias automobilística e pesada terem recebido a maior parte da atenção, o sofrimento atinge também os fabricantes de produtos como artesanato, tecidos e joias.

O setor industrial da Índia, que corresponde a cerca de 16% do PIB do país, viu seu primeiro declínio na produção trimestral em mais de uma década.

E apesar dos cortes nos impostos e de um pacote de estímulo de US$ 64 milhões anunciado em fevereiro, a indústria têxtil indiana pressiona o governo para obter mais ajuda.

Na Schuette, que conta com 550 trabalhadores e é símbolo do fundamental setor intermediário dos empreendimentos familiares alemães, os tempos difíceis fazem parte da história da empresa.

Welcker se lembra dos casos de família que se recorda dos caminhões cheios de dinheiro usado para pagar os salários durante a superinflação da época da República de Weimar e também a completa destruição da fábrica depois que os soldados americanos atravessaram o Reno em 1945 perto de onde estão as instalações da Schuette hoje.

“Não restou pedra sobre pedra.” Hoje, ele comemora o fato de a situação não ser tão ruim quanto naquela época. “Mas a velocidade com que as encomendas foram reduzidas”, disse ele, “é a maior que já vi.”

18/03/2009 - 12:23h Franceses fazem greve geral contra Sarkozy

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Agências internacionais – VALOR

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, enfrenta amanhã uma greve geral contra suas políticas econômicas. E os grevistas contam com o apoio da maioria da população francesa.

Oito federações sindicais prometem para amanhã uma greve geral de um dia para exigir do governo e das empresas medidas que protejam os empregos e os salários em meio à crise financeira.

A manifestação deverá envolver escolas, hospitais e o sistema de transporte pelo país. Até mesmo os trabalhadores da Eletricite de France, a empresa de energia francesa, disseram que vão diminuir a produção das usinas nucleares.

A greve conta com o apoio maciço dos franceses, segundo pesquisas divulgadas ontem. Numa delas, da Ifop, 78% dizem apoiar o movimento; noutra, da BVA, 74%.

Ontem, em visita a uma fábrica da Alstom, em Ornans, leste da França, Sarkozy rejeitou a ideia defendida por setores de seu partido de elevar impostos. “Eu não fui eleito para elevar impostos. Eu não vou fazer isso”, disse.

Muitos analistas preveem que a França terá uma retração de até 2% este ano. A Comissão Europeia diz que a taxa de desemprego saltará 25%, chegando a 9,8%.

Segundo o semanário “Le Canard Enchaine”, Sarkozy comparou a mobilização de amanhã com as manifestações de maio de 1968. “Questões sociais geralmente se aquecem em maio”, disse ele, segundo a publicação. O governo já aprovou um pacote de estímulo da economia de 26 bilhões de euros. Em 29 de janeiro, no entanto, sindicatos levaram 2,5 milhões para as ruas cobrando mais medidas. Sarkozy anunciou 2,65 bilhões de euros adicionais principalmente para famílias de baixa renda. As medidas foram classificadas como insuficientes pelas entidades de trabalhadores.

Desde o início do ano, protestos por medidas contra os efeitos da crise vêm se repetindo pela Europa, do Reino Unido a Grécia, da Alemanha a Portugal.