25/06/2012 - 08:33h País eleva vendas para vizinhos que estão fora do Mercosul

Por Rodrigo Pedroso | VALOR

De São Paulo

A queda das exportações à Argentina, em função das medidas protecionistas adotadas pelo governo de Cristina Kirchner, fez com que o Mercosul diminuísse as compras de produtos brasileiros entre janeiro e maio. Por outro lado, o Brasil aumentou as vendas a parceiros não tão tradicionais, como Colômbia e Venezuela, fazendo com que os países fora do bloco ganhassem importância na pauta de exportações brasileiras para a América do Sul.

De janeiro a maio, as exportações para Argentina, Paraguai e Uruguai encolheram 10,3% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo estatísticas do Ministério do Desenvolvimento (Mdic). Dos US$ 9,4 bilhões gerados com as vendas ao bloco, US$ 7,5 bilhões vieram da Argentina, maior parceiro sul-americana – a Venezuela aparece em segundo lugar, com US$ 1,9 bilhão.

Nos cinco primeiros meses de 2011, os argentinos compraram US$ 8,4 bilhões do Brasil. Essa queda em relação ao ano anterior praticamente corresponde à perda de US$ 1 bilhão nas vendas para todo o bloco, porque o Paraguai manteve US$ 1 bilhão em compras, e o Uruguai recuou de US$ 932 milhões para US$ 838 milhões.

O restante do continente apresentou tendência inversa, com as exportações crescendo 9% e alcançando um total de US$ 6,9 bilhões. A diferença pode ser explicada como uma forma de os exportadores buscarem mercados alternativos, na visão de José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

“As empresas estão procurando novos compradores, pois todos os cenários são péssimos, já que a economia argentina está em desaceleração e não há perspectivas de incremento nas trocas com Paraguai e Uruguai”, explica Castro. “Sabendo disso, elas não vão esperar piorar o comércio para se mexer, sendo que há espaço em outros mercados, que também são próximos e contam com relativa facilidade de acesso.”

O principal salto neste início de ano foi dado pelos venezuelanos, que compraram US$ 557 milhões a mais, impulsionados pela maior demanda por carne e máquinas e aparelhos mecânicos brasileiros. Os colombianos, por sua vez, importaram US$ 1,1 bilhão, soma 11,5% maior em relação a 2011. As importações brasileiras de toda a América do Sul mantiveram-se estáveis ao redor de US$ 12 bilhões.

Para Fabio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores, o desaquecimento das economias mais desenvolvidas impede um crescimento mais expressivo do comércio entre o Brasil e seus vizinhos. Segundo ele, o continente depende da flutuação do preço das commodities e da demanda de outros parceiros para gerar receitas, que por sua vez possibilitam mais importação.

“Há uma evolução positiva nos mercados fora do Mercosul, mas em valores não é muito significativa. O resultado de agora acontece mais pelo enfraquecimento do mercado doméstico argentino, que está gerando esse protecionismo. A adoção de barreiras faz parte da cultura deles. Sempre quando o cenário muda, eles dificultam”, diz Silveira.

O momento econômico da América do Sul favorece as vendas brasileiras. “O continente está com média de crescimento maior do que outras regiões. Por ser um polo, o Brasil se beneficia desse aumento de demanda. A única exceção é a Argentina”, afirma Rafael Bistafa, economista da Rosenberg & Associados.

A projeção de elevação do Produto Interno Bruto (PIB) da Colômbia e da Venezuela para este ano é maior que o da Argentina. Dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) apontam crescimento de 4,5% para os colombianos e 5% para os venezuelanos, enquanto os argentinos estão com estimativa de 3,5%.

A maior demanda desses países é movida principalmente por dois setores, na visão de Sandra Manuelito, economista da divisão de desenvolvimento econômico da Cepal: petróleo e construção civil. “Além de ser ano eleitoral na Venezuela, a commodity ainda está sendo vendida a um patamar alto. A Colômbia está exportando volume maior do produto e tem expansão puxada pela habitação”, diz a economista.

O ritmo mais intenso aumenta a capacidade de consumo desses mercados internos. “Há um redirecionamento também por causa do cenário externo. Mas ainda enfrentamos sérios problemas de infraestrutura e integração física. Isso tira competitividade dos produtos em relação aos asiáticos, o que dificulta uma expansão maior ou mais sustentada”, afirma Sandra.

O primeiro trimestre do ano mostrou a diferença na estimativa da Cepal. Na comparação com o mesmo período de 2011, o PIB venezuelano cresceu 5,6%, enquanto o argentino teve expansão de 4,8%. A Colômbia ainda não divulgou os dados dos primeiros meses de 2012.

O “fator Argentina”, como define Castro, deve fazer com que, para o resto do ano, a tendência seja de encolhimento do Mercosul e aumento ou estabilização do patamar de crescimento dos outros países. Desde 1º de fevereiro, encabeçada pelo secretário de Comércio Interior, Guilhermo Moreno, A Argentina reforçou políticas de controle às importações. A equipe econômica de Cristina Kirchner deseja manter o superávit de cerca US$ 10 bilhões alcançado na balança comercial do ano passado. Não fosse o Brasil, o resultado poderia ser melhor. Em 2011, a relação foi superavitária para os brasileiros em US$ 5,8 bilhões.

Aproveitando o alto preço da soja no mercado internacional, os argentinos venderam boa parte da safra nos primeiros meses de 2012, segundo Castro. De agora em diante, as exportações argentinas devem ter desempenho pior, afetando o nível de importação. “De janeiro a maio, as vendas brasileiras para eles caíram 11%. Como eles estão fazendo o possível para zerar o déficit com o Brasil, a queda deve se acentuar e fechar o ano em torno de 20%.”

18/01/2012 - 10:15h El Perú crecería a 5,1% en el 2012, dice el Banco Mundial

GESTIÓN


Somos vulnerables a los precios de los commodities y a la demanda de Europa

Miércoles 18 de Enero del 2012

“Las políticas monetarias restrictivas, una mayor aversión al riesgo y condiciones en el financiamiento externo más estrictas están haciendo más lenta la demanda interna, al tiempo que la atenuación del crecimiento mundial [en particular la menor demanda de los países de ingreso alto y de China] está reduciendo las exportaciones de la región”. Así explica el Banco Mundial (BM) la proyección de menor crecimiento para la región y, en general, del mundo en desarrollo.

Según los estimados del BM, el crecimiento de América Latina para este año será de alrededor de 3,6%, lo que marca una reducción importante del estimado inicial de 4,2%.

“De manera más general, la producción industrial en la región se redujo en 2% y 1,8% en el segundo y tercer trimestre, respectivamente, luego de una sólida expansión del 9,2% en el primero. Las exportaciones se desaceleraron de 14% en el segundo trimestre a solo 1,4% en el cuarto trimestre”, detalla el informe.

EL PERÚ Y LOS RIESGOS
El Perú, que para el BM crecería 5,1% este año y 5,6% el próximo, comparte la mayoría de los riesgos y vulnerabilidades de sus pares de la región: la caída de los precios de los minerales reduciría los ingresos y “el espacio fiscal” en los países exportadores, lo que “causaría dificultades”para sus cuentas corrientes y sus posibilidades de financiamiento externo.

Otro frente vulnerable a la crisis que atraviesa Europa es el comercial. Si bien las economías en problemas del Viejo Continente no son grandes receptoras de productos de América Latina (apenas el 4,2%) la zona del euro más grande representa el 14,8%: “20% de Brasil y Chile y alrededor de 15% del Perú y Argentina”. Por último, el flujo de remesas hacia la región también podría verse afectado, según el reporte que el BM presentó anoche en Beijing, China.

10/01/2012 - 13:15h Acuerdo con Venezuela cubre toda la oferta exportable peruana

OTORGARÁ SEGURIDAD A LAS PYMES EXPORTADORAS

Ministro dice que se instalará consejo administrador del convenio

Martes 10 de Enero del 2012

EL COMERCIO

El acuerdo de alcance parcial de naturaleza comercial que el Perú suscribió con Venezuela el pasado fin de semana, cubre el 100% de las actuales exportaciones nacionales al mencionado país y, además, permitirá ampliar esta canasta, dijo el ministro de Comercio Exterior, José Luis Silva.

El ministro también mencionó que dentro de este acuerdo se instalará un consejo administrador encargado de incorporar nuevas partidas al ámbito del tratado y según las necesidades de ambos países.

Según adelantó el ministro Silva a la agencia de noticias Andina, en los próximos días se instalará dicho consejo y se coordinará la modalidad de funcionamiento.

“Esperamos la visita de una delegación de funcionarios venezolanos como respuesta a la visita peruana”, explicó refiriéndose a la reunión del presidente Ollanta Humala con su homólogo Hugo Chávez.

También subrayó que el presidente del Perú le ha dado la directiva a su ministerio de reforzar la relación comercial con los países de la región, de tal modo que se pueda hacer frente a la posible crisis en Europa y Estados Unidos.

AVANCE POSITIVO
Carlos Durand, presidente de la Cámara de Comercio de Lima (CCL), mencionó que el haber firmado este acuerdo le quita una serie de preocupaciones a las pymes de sectores como el de confecciones, químico y metalmecánico, los cuales generan productos con valor agregado.

“Venezuela es un mercado nada despreciable. Yo estimo que con este acuerdo nuestras exportaciones a este destino podrán llegar a bordear los US$1.000 millones. Así recuperaríamos los índices de ventas del 2008”, explicó Durand.

En opinión de Juan Varilias, presidente de la Asociación de Exportadores (ÁDEX), este acuerdo toma un singular interés, porque despeja el temor que tenían muchos exportadores en el sentido que se pudieran cambiar las condiciones de acceso al mercado venezolano.

“Los exportadores piensan de manera dinámica y a largo plazo, por lo tanto, es importante también, que exista la figura de una vigilancia y evaluación del comercio con el objetivo de ampliar el ámbito de las preferencias arancelarias a nuevos productos que se puedan desarrollar en el futuro, tanto en Venezuela como en el Perú”, comentó luego de señalar que su gremio está a la espera de los textos del acuerdo para emitir una opinión técnica más fundamentada.

SECTORES
En el 2011, las exportaciones peruanas a Venezuela bordearon los US$800 millones, según la CCL. En tanto, según ÁDEX, los sectores que más vendieron a ese país entre enero y noviembre del año pasado fueron el de confecciones (US$281,3 millones); le sigue el subsector químico (US$201,3 millones). Otros sectores que presentaron buen desempeño fueron el siderúrgico y metalúrgico, textil, agropecuario y agroindustrial.

MÁS DATOS
Hace seis años Venezuela decidió separarse de la Comunidad Andina, pero las preferencias arancelarias otorgadas a sus ex socios se extendieron por cinco años.

Esto motivó diversas negociaciones para que se ampliara el libre ingreso de productos.

El acuerdo con Venezuela también buscará proteger las inversiones de ambos países.

25/08/2011 - 09:19h Cresce dependência do Brasil em relação à China, diz banco

Por Assis Moreira e Arícia Martins – VALOR

O Brasil está ajustando “passivamente” sua economia a demandas da China, numa forma crescente de dependência, avalia o banco Nomura, em Nova York, em nota enviada aos clientes. “Vemos a dependência se aprofundar. Para o melhor ou pior, o futuro econômico do Brasil será mais e mais em função de decisões tomadas em Pequim”, estima o banco.

A relação econômica bilateral, avaliam os economistas da instituição, está sendo marcada por uma parceria do tipo Norte-Sul (rico e pobre) entre duas economias em desenvolvimento. O relatório destaca que o Brasil se torna mais dependente das exportações de commodities para o mercado chinês. Ao mesmo tempo, companhias brasileiras estão cada vez mais dependentes de componentes baratos produzidos na China.

O mercado chinês absorveu 15,2% das vendas externas brasileiras em 2010, ante 2% em 2000, segundo estudo divulgado em abril pelo Banco Central. A autoridade monetária ressalta que o saldo comercial da balança voltou a ser “amplamente favorável” ao Brasil a partir de 2009, ano em que o país asiático passou a ser o principal parceiro comercial do Brasil, destronando os EUA. Em 2010, o Brasil exportou US$ 30,8 bilhões à China e importou US$ 25,6 bilhões, o que resultou em superávit de US$ 5,2 bilhões, praticamente igual ao registrado em 2009.

As exportações brasileiras à China se concentram em matérias-primas. Em 2001, 63% dos embarques brasileiros eram representados por produtos básicos. No ano passado, o número cresceu para 84%. Em 2010, os chineses absorveram 46,1% das exportações brasileiras de minério de ferro, 64,6% das de soja e 24,9% do petróleo.

Na prática, a relação Brasil-China replica a relação de dependência experimentada pelo Brasil com os EUA no período pós-Segunda Guerra Mundial, escrevem os analistas Tony Volpon e George Lei, do Nomura. O banco constata que, com a eleição de Dilma Rousseff, a natureza do debate envolvendo a política econômica no país mudou e mais atenção tem sido dada aos perigos da desindustrialização e da excessiva valorização do real. No entanto, estima que o governo Dilma “não desenvolveu alternativa coerente para sua crescente dependência em relação à China”.

Analistas consultados pelo Valor concordam em parte com o Nomura. Segundo um deles, a dependência existe no setor de commodities, mas a exportação total do país tem outros destinos relevantes além do mercado chinês.

Caso o país asiático diminua a taxa de crescimento, como reflexo das turbulências externas, o superávit comercial brasileiro seria atingido com a queda do volume de importações chinesas, assim como do preço das commodities, influenciados pela forte demanda da China, projetam economistas. A única saída para diminuir a dependência chinesa seria fortalecer a indústria nacional e aumentar as exportações de manufaturados.

“Se a relação Brasil-China não é igual à relação Brasil-EUA no passado, uma hora será”, prevê Fabio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores, que vê como “óbvia” a redução do crescimento chinês nos próximos anos. Em um primeiro momento, diz, o impacto seria relativamente pequeno, mas no prazo de um ano e meio a dois anos, a exportação brasileira seria prejudicada e a atividade interna teria desaceleração mais forte.

Para Welber Barral, sócio da Barral M Jorge Consultores, a dependência do Brasil em relação à China só é verdadeira no mercado de commodities, mas não se estende a toda a pauta de exportações. Segundo ele, apesar de a China ser no momento o principal parceiro comercial do Brasil, não há como comparar a relação Brasil-China com a Brasil-EUA há dez anos.

“A China não chega a ter um percentual tão grande das exportações brasileiras. Os EUA, ao contrário, já chegaram a ter 26% das vendas externas do Brasil”, observa o consultor. Barral ressalta, no entanto, que o país sai perdendo com a pouca diversificação das exportações destinadas aos chineses. “O Brasil é muito dependente da China em algumas commodities. Isso não é bom para o país.”

Relatório do departamento de relações internacionais e comércio exterior (Derex) da Fiesp mostra que o predomínio de produtos básicos na pauta exportadora brasileira à China se aprofundou em 2011. De janeiro a julho, enquanto as commodities representaram 88% do valor exportado à China, 96% das importações procedentes do país asiático foram de manufaturados. O superávit total do Brasil com a China atingiu US$ 16,2 bilhões em sete meses, mas a balança de manufaturados acumula déficit de US$ 16,2 bilhões de janeiro a julho, com previsão de encerrar o ano em US$ 32 bilhões.

O setor de commodities, nota o Derex, tem receita garantida pelo aumento de preços, já que, em volume, as exportações de minério de ferro tiveram crescimento pouco expressivo entre janeiro e julho (13%), enquanto as de soja caíram 5% e a de óleos brutos de petróleo, 14%. No mesmo período, as importações brasileiras de manufaturados chineses aumentaram 34% em quantidade embarcada e 33% em valores absolutos.

Para Barral, caso a China desacelere o crescimento nos próximos anos, o Brasil seria afetado de três formas: o quantum de exportações seria reduzido, assim como o valor delas, e o real seria desvalorizado. “Boa parte do superávit brasileiro vem de preços de commodities. Se houver redução da demanda, o preço cai. Se cai o preço, o real se desvaloriza.”

Para reagir ao impacto, Silveira, da RC, diz que o Brasil poderia, em um primeiro momento, praticar políticas anticíclicas, como o incentivo ao crédito, mas não pode “queimar reservas para o resto da vida”. “Chegará uma hora em que os preços das commodities vão ser ajustados para baixo. Isso vai custar caro para o país”, diz o economista.

03/03/2011 - 08:45h Dilma adota estratégia de exportação para o pré-sal

Sergio Leo | VALOR

De Brasília

O governo brasileiro quer se tornar grande exportador de gás e petróleo aos Estados Unidos, para evitar que os combustíveis extraídos da camada pré-sal no litoral do Brasil reduzam a proporção de fontes de energia “limpa”, renovável, como a hidroeletricidade, na matriz energética brasileira. A intenção de exportar a maior parte do petróleo e gás do pré-sal para não “sujar” a matriz foi comunicada pela presidente Dilma Rousseff a enviados do governo americano que estiveram no país em preparação à visita do presidente Barack Obama.

A estratégia brasileira foi bem recebida em Washington, onde a oferta é vista como uma oportunidade para concentrar no continente americano cada vez mais os fornecedores de combustível fóssil aos EUA, reduzindo a dependência em relação ao Oriente Médio. Ainda não estão concluídas as conversas para o mecanismo que consolidará essa cooperação na área de energia, mas o tema já está escolhido como um dos principais assuntos da visita de Obama ao país e de seu comunicado conjunto com Dilma Rousseff, no sábado, dia 20.

O interesse em ter os EUA como grande consumidor do petróleo do pré-sal foi comunicado por Dilma, em fevereiro, ao secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner e, em janeiro, aos senadores republicanos John McCain e Jonh Barrasso. Os EUA obtêm do Canadá e do México, seus maiores fornecedores, pouco mais de um terço do petróleo que importam; outro terço vem da Arábia Saudita, Nigéria e Venezuela. O Brasil é o décimo maior fornecedor aos EUA.

A perspectiva de obter no Hemisfério Ocidental, em região de influência americana, a maior parte do petróleo consumido nos EUA é recebida com entusiasmo em Washington, segundo uma autoridade que acompanha os preparativos para a vinda de Obama. Mesmo com o aumento da produção local, o Escritório de Energia Americano prevê que o país continuará importando cerca de metade do petróleo que consome e só em 2035 deve reduzir essa parcela a 45%.

O Eximbank americano já ofereceu à Petrobras desde 2010 financiamento de até US$ 2 bilhões para investimentos no pré-sal, com participação de empresas do país. A oferta de linhas do mesmo porte deve ser oficializada durante a visita do presidente americano para financiar joint ventures de companhias brasileiras e americanas no exterior, especialmente na África, em projetos de infraestrutura e exploração mineral.

A tentativa da Exxon de explorar poços em águas ultraprofundas foi malsucedida, como registrou a empresa em seu balanço, no ano passado, ao contabilizar como perdas dois poços na bacia de Santos onde investiu algumas centenas de milhões de dólares antes de considerá-los inviáveis comercialmente. A empresa teria obtido, porém, informações geológicas importantes que poderão ser usadas em novas tentativas, segundo uma fonte que acompanha o assunto.

16/01/2011 - 11:24h Balança comercial, o susto é outro

ALBERTO TAMER – O Estado de S.Paulo

Há uma onda de susto, refletida pela imprensa, com o resultado da balança comercial em 2010 que registrou déficit de US$ 37 bilhões nas transações industriais. É o dobro de 2009 se forem excluídos setores que usam mais intensamente matérias-primas, como aço, açúcar e celulose, como revelou na sexta-feira a colega Raquel Landim, no caderno de Economia do Estado, com base nos dados oficiais. As importações de produtos industriais aumentaram 40%, enquanto as exportações do setor cresceram apenas 23,5%, confirma o Ministério do Desenvolvimento. O quadro é mais grave do que parece porque boa parte boa parte desses “nacionais” exportados foi fabricada no País utilizando componentes, e até mesmo matérias-primas, importadas. Fica difícil saber o que é produzido (não só fabricado) no Brasil ou indiretamente importado.

Apenas cinco! O que impressiona e assusta é que as exportações de básicos estão concentradas em apenas cinco produtos. Minério de ferro, petróleo em bruto, complexo de soja, carne e açúcar que são vendidos para poucos mercados, como o chinês. Eles representaram 43% de todas as exportações brasileiras. É uma espécie de “primarização” dentro da primarização da pauta comercial. Alguns produtos primários sobrepondo-se a outros e fragilizando o comércio exterior. Alguns afirmam que é o custo Brasil que corrói a competição, outros acusam os preços baixos das importações vindas da China com os quais não se pode competir numa economia aberta, como a nossa. Quando muito é defender, provisoriamente, os setores mais atingidos. O que ajuda, mas não resolve.

O que eles não dizem. Na reportagem de sexta-feira, Raquel Landim ouviu economistas e representantes do setor produtivo. A impressão final é que está faltando um pouco de realismo nessas análises. Vamos por partes. Primeiro, é preciso avaliar as consequências desse desequilíbrio comercial.

Contas externas. Elas repercutem negativamente sobre o aumento do déficit nas contas externas, que só não é maior por causa das exportações de básicos. Mas não há risco imediato ou em médio prazo. As reservas cambiais se aproximam de US$ 300 bilhões, podem passar de US$ 400 bilhões este ano. O BC e o Tesouro devem continuar agindo para conter a valorização do real que, por sua vez, onera as exportações e estimula as importações. Há também o duplo efeito sobre o financiamento dessa reserva. Ele é até agora suportável. O custo atual do seguro das reservas compensa os riscos ainda não afastados de uma nova crise financeira internacional.

Dívida interna. Por outro lado, a dívida interna, que está bem administrada, pode ser controlada por meio de instrumentos internos, que o governo já anunciou. Não se prevê, também, uma redução dos investimentos externos. Ao contrário, eles estão aumentando até demais. É sem dúvida um cenário desconfortável que preocupa, mas ainda não assusta.

São apenas cinco! O que os analistas não estão acentuando, pelo menos nas entrevistas, é o duplo efeito da primarização do comércio exterior. O que está havendo é acima de tudo, uma primarização dentro da primarização. E é séria. Não é só o aumento das exportações de básicos, mas sim, repito, sua concentração em apenas cinco commodities. E isso sem levar em conta a grande influência dos preços das commodities na valorização do real, que reduz a capacidade de competição da indústria nacional. Nesse cenário, o risco não está só na queda do superávit comercial, mas na concentração.

Uma tendência perigosa que se acentua e se agrava, mas que pouco se fala. Por quê?

13/01/2011 - 10:46h A luta do câmbio vai ser dura

Alberto Tamer – O Estado de S.Paulo

E temos aí uma nova batalha cambial, agora não lá fora, mas no Brasil. A novidade é que, desta vez, o governo não esconde a decisão de conter a valorização do real para evitar maior dano na balança comercial e na conta externa. Vai agir. Antes, dizia que tudo seria resolvido pelas forças do mercado, que o equilíbrio voltaria logo com a manutenção do saudável câmbio flutuante. Ele é bom, sim, vai mantê-lo, mas não está ajudando muito porque nossos parceiros comerciais, Estados Unidos, China, administram a flutuação para baixo, não para cima.

Ben Bernanke diz que não defende um dólar fraco, adota medidas extremas que o enfraquecem. A China, afirma que não pode valorizar o yuan para não quebrar empresas locais. Desculpas para intervir.

Não deu certo. O governo parece convencido de que o aumento do IOF sozinho ajudou, mas não muito. O dólar continua abaixo de R$ 1,7. Vai usar de outros instrumentos de defesa. Acredita no câmbio flutuante, sim, vai mantê-lo ao mesmo tempo em que reage convencido de que é preciso mais. E mais não só agora, afirmam os analistas do mercado, um “mais” quase permanente, que deve durar enquanto forem mantidas as desvalorizações do dólar e do yuan e outras moedas.

As forças do mercado estão sendo enfraquecidas por intervenção direta de grandes participantes do mercado mundial, como Estados Unidos e China, nossos dois principais parceiros comerciais.

O governo decidiu agora seguir o mesmo caminho, como vem afirmando o ministro Guido Mantega. Não esconde mais que o objetivo é a defesa aberta do mercado interno, ameaçado de déficit do qual só escapou em 2010 pelo excelente resultado das exportações de commodities.

Festa de paradoxos. Aqui, o governo se defronta com uma espécie de festival de paradoxos, do crescimento da inflação e do real valorizado, que reduzem a capacidade de administrar o câmbio.

O primeiro, é o paradoxo vem do excepcional crescimento econômico. Ele vem atraindo investimentos em um mercado financeiro internacional ainda instável e com poucas oportunidades seguras e rentáveis como no Brasil. Este é um assunto velho para o leitor da coluna.

Além do afluxo de investimentos financeiros, há a aumento dos preços das commodities, que, admitem o governo e analistas, representam um fator decisivo na cotação do real. O preço sobe lá fora, entram mais dólares e o real se valoriza. O fato irônico e paradoxal é que esses preços são ditados em grande parte pela desvalorização do yuan, sempre atrelado ao dólar. A China, na verdade, dita os preços das commodities, absorvendo a alta com uma moeda fraca.

Triplo sofrimento. Nesse cenário, o Brasil sofre três vezes, ao mesmo tempo. Primeiro, quando o real se valoriza com a entrada de dólares via exportação de commodities. Segundo, quando o yuan, que segue o dólar, também se desvaloriza em relação ao real. E terceiro, quando essa desvalorização do yuan em relação ao real facilita e explica o aumento significativos das exportações chinesas para o Brasil. Isso é mais porque são compostas essencialmente de produtos industriais que estamos deixando de produzir.

É a armadilha do câmbio que o governo enfrenta no momento. Uma espécie de círculo vicioso real-yuan-dólar-real numa sucessão de causa e efeito que pretende quebrar.

E tem inflação, juros. Ah! se fosse “só”isso… Não é. Há a inflação de quase 6%, ameaçando romper a meta. Isso vai exigir uma nova elevação dos juros pelo Banco Central talvez nos próximos dias, o que irá atrair ainda mais investimentos que… bem vocês já sabem, mais dólares no mercado, mais valorização do real. Temos aí a armadilha da inflação e dos juros mais altos para contê-la.

Vai dar? Vai. O BC deve continuar comprando dólares, elevando as reservas cambiais para mais de US$ 300 bilhões. Só no ano passado, foram mais de US$ 40 bilhões. O ruim, é que aumenta o seu custo de financiamento e a divida interna no final da linha – títulos do Tesouro para não transformar os novos dólares em reais e inflação. O bom, é que o país fica protegido contra uma crise cambial ou turbulências externas.

Avaliando bem, a economia brasileira se enfrenta com desafios superáveis mesmo num cenário externo adverso que se prevê para este semestre.

06/01/2011 - 08:14h Novo governo começa bem

Alberto Tamer – O Estado de S.Paulo

Os primeiros sinais do novo governo, na área econômica, são positivos. Em menos de uma semana, dois fatos mostram que as promessas feitas no calor da posse, se transformam em atos. O contingenciamento do Orçamento, inchado pelo Congresso, e a flexibilização das regras para restituir o imposto devido às empresas exportadoras são os primeiros sinais positivos.

Pode-se acrescentar, mas ainda na fase da expectativa, a decisão de Dilma Rousseff de dar força ao Ministério do Desenvolvimento, tratado até agora como de segunda classe, com predominância da Fazenda, da Receita e do Itamaraty. O ex-ministro fez tudo que pode, mas perdeu sempre para a Fazenda a luta para estimular investimentos, produção e exportação. A presidente foi muito clara: dá prioridade ao comércio exterior e não aceita confrontos entre ministros. Mas é ainda só promessa? Parece que não. O novo ministro, Fernando Pimentel, além de economista, é um velho amigo de Dilma. Ele afirmou na posse que o Brasil não pode continuar onerando as vendas externas. Tem de mudar. Dilma convocou uma reunião já este mês para tratar do assunto.

Salário mínimo realista. Há ainda o fato de a presidente ter fechado questão sobre os R$ 540 do salário mínimo, contrariando sua linha de combate à miséria. Há, porém, uma explicação para isso. O mínimo teve um ganho real de quase 54% nos últimos oito anos. O aumento de R$ 30 oferecido agora representa uma renda adicional de R$ 18 bilhões. Cerca de 47 milhões de empregados têm os salários atrelados ao mínimo e em muitos Estados, como São Paulo, o valor é ainda maior. Um aumento maior sem avanço proporcional da produção representa mais inflação que corroi a renda prejudicando, a médio prazo, os que se pretendia beneficiar. Um desafio que só se resolve aumentando substancialmente a produção. Esse deveria ser o próximo passo do governo. E aqui está a segunda ponta da linha: cabe a Dilma dar força política ao ministro do Desenvolvimento, para que suas intenções não fiquem apenas nas intenções. Pelo menos por ora, espera-se que não.

Agricultura salvou. Há muita comemoração com o aumento surpreendente das exportações em 2010. Superaram as metas e fecharam o ano em US$ 201,9 bilhões, apesar do real valorizado. Magnífico num ano em que o mercado mundial permanece retraído. Será? Não é bem assim. Muito se tem falado que os “produtos básicos” sustentaram esse resultado, passaram a representar quase 50% das exportações. A agricultura sozinha evitou o possível déficit da balança comercial. Pode-se dizer que, sem muito alarde, ela tem salvado a economia brasileira. Os dados definitivos do ano saem hoje, mas o resultado até novembro, que não deve ser muito alterado, mostra uma agricultura vigorosa, atendendo ao mercado interno e ocupando cada vez mais espaço no mercado mundial. Nos dados sobre os básicos, misturam-se minério de ferro e petróleo com produtos agrícolas ou semimanufaturados fabricados com eles. De dezembro de 2009 a novembro de 2010, as exportações do agronegócio totalizaram US$ 75,3 bilhões. As importações do setor, por sua vez, somaram US$ 13 bilhões. A balança comercial do agronegócio, portanto, teve superávit de US$ 62,3 bilhões para um superávit comercial total de apenas US$ 202 bilhões. Pode-se imaginar o déficit sem a agropecuária. No ano passado, ela foi responsável, no período analisado, por 40% do total.

Isso se deve, sim, ao forte aumento dos preços das commodities agrícolas no mercado mundial por causa das quebras de safra em países produtores e as importações da China, mas só em parte. Não tivesse havido uma safra de grãos de 141 milhões de toneladas, ligeiramente superior ao recorde do ano anterior, e não teríamos exportado o que exportamos sem prejudicar o consumo interno.

É cedo ainda para fazer previsões. O que se pode dizer é que os primeiros sinais em seis dias do novo governo justificam ter esperança. Vamos esperar.

28/12/2010 - 08:28h Vendas do País têm maior expansão entre 70 países

Jamil Chade – O Estado de S.Paulo

Graças à alta nos preços das commodities, o Brasil registrou até outubro a maior expansão nas exportações entre as 70 principais economias, superando a taxa de crescimento da China e ainda subindo no ranking do maiores exportadores. Dados da Organização Mundial do Comércio (OMC) apontam que a expansão nas vendas nacionais foi de 33%, inflada pela alta nas commodities e pela recuperação das compras da China e de outros mercados emergentes.

Com US$ 163,3 bilhões em exportações até outubro, o Brasil superou a Suíça no ranking da OMC e passou a ocupar a 23ª posição no levantamento. O Brasil praticamente se igualou à Malásia e reduziu bastante a diferença com a Índia e a Austrália.

Economistas apontam que se o ritmo de crescimento das vendas nacionais for mantido nos dois últimos meses de 2010, o Brasil deve acabar o ano em uma posição no ranking ainda melhor, voltando a ocupar pelo menos a 22ª posição, posto que matinha em 2008. Desde então, a valorização do real prejudicou as exportações, que passaram a depender da variação nos preços das commodities para permitir maior arrecadação.

Até outubro, o Brasil havia superado a expansão das exportações chinesas, de 32%. A China é o maior exportador do planeta, confirmando sua posição em 2010 acima dos EUA e da Alemanha. A taxa brasileira é ainda quase duas vezes superior à média mundial, quatro vezes a expansão da Europa e superior à média de toda a Ásia, de 29%.

Na América do Sul, a expansão das exportações foi de 22%, contra 20% nos EUA, que se recuperou da crise profunda de 2009.

Invasão de importados. As exportações contam apenas parte da história. Como o Estado antecipou há um mês, o Brasil aparece nos números da OMC como o que sofreu a maior invasão de importações em 2010, com taxas superiores às exportações.

A comparação entre o que o Brasil importou entre janeiro de 2010 e outubro mostra um aumento das de 49%. O real valorizado e o crescimento do mercado doméstico são os principais motivos do fenômeno. No fim de dezembro de 2009, o Brasil importava US$ 12,8 bilhões. Em setembro de 2010, esse volume já chegava a US$ 18,7 bilhões.

Nenhuma das 70 economias avaliadas registrou uma variação tão grande como a do Brasil.

12/12/2010 - 11:24h Depois de PIB histórico, Dilma enfrentará cenário adverso em 2011

Com pressões inflacionárias e crise europeia, Brasil deve crescer menos

Martha Beck – O GLOBO

● BRASÍLIA. A presidente eleita Dilma Rousseff herdará um país com o melhor desempenho econômico desde a redemocratização — o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos) terá uma expansão de, ao menos, 7,5% em 2010. Mas os panoramas doméstico e internacional mostram que não será nada fácil a tarefa de manter o crescimento elevado nos próximos quatro anos. Como se não bastasse o desafio de sustentar um resultado histórico, o novo governo tem pela frente, logo em seu primeiro ano, um cenário de inflação interna em alta e de crise nos países desenvolvidos. Combinados, esses problemas
têm o potencial de atingir em cheio a atividade no país. Tanto que os técnicos do governo já reduziram sua projeção de crescimento de 5,5% para algo entre 4% e 5% em 2011.

A escalada dos preços de alimentos — embora sazonal — é um fator de preocupação para a equipe econômica, que pode elevar os juros em 2011 para manter a inflação dentro da meta: — Se não houver controle dos preços de alimentos, pode-se acabar aumentando juros para compensá-lo. Isso acaba contendo também o crescimento — admite um técnico do governo.

Colapso na Europa levaria a saída de capitais do Brasil

No front externo, a crise fiscal na Europa e o desaquecimento dos EUA não têm mostrado sinal de melhora. Isso significa que as exportações brasileiras devem
continuar enfrentando dificuldades, o que complica a vida do Brasil na hora de financiar seu déficit externo. O indicador deve fechar o ano em 2,5% do PIB, segundo o Ministério da Fazenda. Para 2011, o cenário é ainda mais negativo: 2,7% do PIB. — Não há perspectiva de melhora na Europa. Já nos EUA, o Congresso deve colocar o presidente Barack Obama contra a parede e obrigá-lo a fazer um ajuste fiscal (o que deixa a economia ainda mais estagnada) — afirma o técnico.

Eventuais melhoras só começarão a dar sinais a partir de 2012. Até lá, as exportações brasileiras devem continuar sofrendo com menos compradores e perdendo espaço em função do câmbio.

Em relação à Europa, o grande temor está na piora do quadro fiscal de países como Irlanda, Grécia, Portugal e Espanha. Hoje, o Brasil é atraente para investidores
estrangeiros que buscam rentabilidade nas taxas de juros elevadas do país. Mas, como esses aplicadores também têm recursos na Europa, tudo pode mudar de uma hora para outra: — No caso de um colapso geral na União Europeia, pode haver saída de capital do Brasil para socorrer negócios e fechar rombos fora do país. Aí passamos de um quadro de excesso de entrada de dólares para o risco de uma saída muito brusca — alerta o economista e e exdiretor do Banco Central Carlos
Eduardo de Freitas.

E, se nos últimos dois anos o que salvou o crescimento brasileiro foi o mercado doméstico, agora o panorama é outro. A ordem da presidente eleita é combater a escalada da inflação e colocar a política fiscal em ordem, fazendo cortes de gastos e cumprindo a meta cheia de superávit primário. Tudo isso tem o poder de reduzir a atividade no mercado interno.

Segundo o economista do BNDES Fábio Giambiagi, para concretizar o discurso de austeridade fiscal, a equipe econômica não poderá exagerar nas concessões, o que significa que não poderá reduzir tributos e capitalizar o BNDES nas mesmas proporções dos últimos anos: — Fazer política anticíclica agora é mais difícil do que foi em 2008 e 2009.

Risco de deterioração nas contas externas

Para Giambiagi, o governo tem que observar seu déficit em conta corrente com lupa: — Se o mundo estiver caminhando para uma normalização do quadro das economias, o Brasil tem condições de financiar seu déficit externo. Mas se houver uma deterioração, a situação se complica. Além disso, há o problema da
guerra cambial. Com o mercado doméstico desaquecido, países como EUA, Alemanha e Japão estão fazendo esforços para tentar desvalorizar suas moedas e dar mais competitividade a suas vendas externas. Na outra ponta está a China, maior exportador mundial, que mantém o yuan desvalorizado artificialmente para vender mais. Tudo isso faz com que o real fique forte, retirando competitividade dos produtos nacionais. Embora o Brasil tenha adotado medidas como aumentar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para conter os efeitos ruins sobre o câmbio, elas não bastam. — É preciso que outras medidas sejam adotadas pelas outras nações. A grande resposta virá, de todo modo, da recuperação global mais equilibrada — explicou ele.

O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, destaca que o mercado doméstico continuará sendo o motor da economia nos próximos quatro anos. Ele acredita que o Brasil ainda tem condições de crescer em torno de 5%, mas para isso o governo precisará dosar muito bem a política fiscal: — Ele pode até cortar investimentos, mas, se souber administrar as despesas, a área fiscal vai ficar bem e o crescimento da economia vai se concretizar. ■

COLABOROU: Vivian Oswald

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Editoria de arte – O Globo

02/12/2010 - 10:23h Governo amplia incentivos à indústria


Nova política industrial deve incluir medida de contenção a importações, manutenção de subsídios industriais e meta para mão de obra

Alexandre Rodrigues / RIO Ricardo Leopoldo / SÃO PAULO – O Estado de S.Paulo

O governo põe, nos próximos dias, um ponto final na proposta de nova política industrial para o governo de Dilma Rousseff. A informação, antecipada pelo “Estado” na semana passada, foi confirmada ontem pelo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho. Entre as novidades estão incentivos tributários às exportações.

“O programa está bastante detalhado, pendente de entendimentos finais porque uma parte tem a ver com tratamento tributário às exportações, que precisa ser aperfeiçoado”, comentou Coutinho, em evento na Fiesp, em São Paulo. Segundo ele, a segunda versão da Política de Desenvolvimento Produtivo, que chamou de PDP-2, tratará também do combate a “certos canais de importação quanto ao aperfeiçoamento de mecanismos de ressarcimento tributário”.

Coutinho não deu detalhes sobre os itens da política industrial do governo Dilma, mas o Estado apurou que a intenção é aumentar de quatro para oito as principais metas. A definição virá em reunião prevista para a próxima semana, no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, com representantes dos órgãos envolvidos.

As quatro metas do programa de 2008 – que não devem ser cumpridas este ano, prazo estipulado inicialmente – referiam-se à taxa de investimento, exportações, inovação e elevação da quantidade de empresas exportadoras. Entre os temas cogitados para compor as novas metas estão sustentabilidade ambiental e qualificação profissional.

A redução de emissões de gases de efeito estufa e a formação de engenheiros deverão servir de parâmetro para metas. Outro objetivo do novo plano é agregar categorias, como a cadeia produtiva do trigo, a indústria de brinquedos e a de eletrônicos de consumo (televisores, celulares, aparelhos de som) aos setores definidos como prioritários pela primeira PDP (carnes, software, petroquímica e fármacos).

A ideia é aumentar o enfoque em cadeias produtivas com instrumentos de incentivo específicos para cada segmento. Criada há dois anos e meio, a PDP tinha como meta principal a elevação da taxa de investimento fixo para 21% do PIB ao ano. Pelas projeções atuais, essa relação só será alcançada em dois ou três anos. Em 2010, deve ficar perto de 19%.

Coutinho ressaltou que a presidente eleita Dilma Rousseff já assumiu compromisso com a elevação de investimentos, reduzindo despesas de custeio. Ele destacou que, com investimentos num patamar próximo de 22% ou 23% do PIB em 2014, o Brasil terá condições mais sólidas de lidar com a demanda interna.

Ele ressaltou que o PDP-2 também vai tratar da concessão de créditos às empresas. “Temos que rediscutir a atuação do BNDES e do mercado financeiro para conjuntamente financiar o investimento industrial”, disse.

Crédito subsidiado. Coutinho também indicou que a prorrogação do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), que oferece crédito subsidiado para a compra de máquinas e equipamentos, deve ser uma das medidas sugeridas. O programa, que tem orçamento de R$ 134 bilhões e foi prorrogado até março de 2011, é apontado com um dos responsáveis pela recuperação da taxa de investimento após a crise. “Eu não sou dono do timing, mas temos que, rapidamente, apresentar uma perspectiva”, comentou. “Vou traduzir para o governo federal o sentido de urgência.”

Na área de comércio exterior, a meta de alcançar 1,35% de participação nas exportações mundiais, fixada na primeira PDP, pode até ser cumprida, mas em função do aumento das vendas de produtos básicos, que tomaram a liderança dos manufaturados na pauta comercial brasileira. As outras duas metas frustradas são a elevação do gasto privado em pesquisa e desenvolvimento a 0,65% do PIB (a taxa atual é de 0,5%) e o aumento em 10% do número de micro e pequenas empresas exportadoras. Houve queda no número de pequenos exportadores em meio à valorização do câmbio.

29/11/2010 - 09:48h Estratégias para a guerra cambial

Sergio Leo – VALOR

Enfático ao falar do compromisso do próximo governo com o controle das contas públicas, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, confirmado no mesmo cargo pela presidente eleita Dilma Rousseff, evita comentar a opinião compartilhada por colaboradores – e, até recentemente, pela própria Dilma – de que é urgente uma intervenção mais forte sobre as taxas de juros. Economistas ligados a Mantega discordam da tese de que é preciso cortar gastos para abrir espaço à queda dos juros. Afirmam que é exatamente o contrário: a redução dos juros abriria “espaço fiscal” para os investimentos e a redução da dívida pública.

Falta clareza, também, sobre a estratégia do futuro governo contra a valorização da moeda brasileira, tema de debate intenso entre especialistas. Uns culpam o real valorizado pelo que chamam de “reprimarização” de exportações ou “desindustrialização” do país. Outros veem a valorização como inevitável e cobram políticas para conviver com ela. A discussão aparece, bastante instrutiva, na próxima edição da “Revista Brasileira de Comércio Exterior”, que entra em circulação na próxima semana.

Dedicado à valorização persistente da moeda brasileira, o número do quarto trimestre da RBCE constata que não há quem proponha a volta ao regime de câmbio fixo no país, mas há divergências em relação a dois pontos considerados essenciais: as reformas macroeconômicas, entre elas o aperto na política fiscal, para apoiar a queda dos juros e influenciar a taxa de câmbio, e as microeconômicas, aperfeiçoando o mercado de câmbio e promovendo medidas para reduzir o “custo-Brasil”.

A discussão entre economistas vai além do o receituário para desvalorizar o real, como mostra o polifônico retrato feito pela RBCE. O economista Samuel Pessôa, da FGV, por exemplo conclui que a redução do custo-Brasil (medidas “horizontais”, como redução de tributos, melhoria da infraestrutura, redução da burocracia) não deterá a perda relativa de importância da indústria na pauta exportadora.

Não há no país quem proponha a volta ao regime de câmbio fixo

O maior competidor da indústria nacional não é a indústria estrangeira, mas o setor primário nacional (soja, minério, carnes), diz Pessôa, para quem a tendência de valorização do câmbio, no Brasil, segue a dinâmica mundial de aumento da demanda por commodities.

A redução do custo-Brasil também beneficia a competitividade dos produtos básicos. Reverter a chamada “desindustrialização” exige medidas dirigidas apenas ao setor industrial, como o corte de impostos sobre folhas de pagamento da indústria de transformação, sugere.

Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, defende que os juros são a única variável doméstica com influência sensível sobre a taxa de câmbio. Pesariam mais os fatores externos, como os preços das commodities e a taxa de câmbio entre o dólar e as outras moedas do mundo.

Carlos Thadeu de Freitas Gomes e João Felipe Santoro Araújo veem, porém, razões “estruturais” domésticas para a valorização do real, como a carência de poupança, que provoca atração de poupança externa, ou a posição de risco do país, ou, ainda, a proporção de ativos estrangeiros em relação a ativos domésticos no exterior.

Como a maioria dos articulistas nesta edição da RBCE, Thadeu de Freitas e Schwartsman defendem a adoção de medidas fiscais para permitir a queda dos juros, sem que a facilidade de crédito daí resultante inflame as pressões inflacionárias. O efeito dessas medidas, porém, será pequeno, adverte Schwartsman: a queda de quatro pontos percentuais nos juros elevaria o dólar a apenas R$ 1,75, exemplifica.

Pessôa diz que as movimentações financeiras, no mercado de câmbio, são incapazes de exercer influência consistente sobre a cotação do real, porque os fluxos de saída de investimentos compensam, no médio prazo, os fluxos de entrada. Não é o que diz o economista da UERJ Mário Cordeiro de Carvalho Júnior, que, em detalhado artigo sobre os mercados futuros e as chamadas operações de “carry trade”, alerta para as “bolhas de choque” da expansão monetária americana sobre países emergentes como o Brasil.

Carvalho Júnior descreve o sistema cambial brasileiro, herdado do período de fortes controles e temor de evasão de divisas, e comenta que são falhos os instrumentos do governo para lidar com essa “concorrência imperfeita”, em que bancos e fundos estrangeiros são os únicos autorizados a operações no mercado de futuro, que influem nas cotações presentes para importadores e exportadores. Um receituário capaz de impor custos às operações especulativas é indispensável, garante.

A revista tem, ainda, artigos instigantes do diretor da Fiesp Roberto Giannetti da Fonseca, do secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, e do estrategista do banco WestLB Roberto Padovani, entre outros.

Um debate inconcluso, no qual não se conhece ainda a posição do novo governo. Preocupante é saber que os integrantes já anunciados defendiam, até recentemente, amenizar os efeitos negativos do câmbio sobre a indústria apelando a medidas protecionistas, de controle administrativo das importações.

Sergio Leo é repórter especial e escreve às segundas-feiras

E-mail sergio.leo@valor.com.br

16/11/2010 - 09:51h Desindustrialização preocupa o Ministério do Desenvolvimento

Sergio Leo | VALOR

De Brasília

O país vive um preocupante processo de “desindustrialização negativa” que pode ameaçar as contas externas, alerta documento reservado do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) obtido pelo Valor. O documento, que circula na equipe econômica, diz ser um “fator de preocupação e sinal de alerta” a influência da balança comercial no aumento do saldo negativo nas contas externas, que torna o Brasil cada vez mais dependente de investimentos especulativos. Ele sugere ao governo criar uma “diretriz” para elevar o saldo comercial, em torno de 9% das exportações.

O governo, segundo o MDIC, deveria fixar um “nível mínimo” considerado aceitável para a relação entre saldo comercial e exportações, e apoiar exportadores para garantir esse resultado. No primeiro semestre, essa relação superávit/exportações ficou em 8,8%, para um saldo de US$ 7,9 bilhões. Para eliminar a necessidade de cobrir as contas externas com investimentos em carteira (ações e títulos) do exterior, seria necessário que o superávit no período tivesse sido de US$ 19,5 bilhões, desempenho considerado “inexequível” pelo próprio ministério.

O documento propõe que, após fixado o “nível mínimo aceitável” para o saldo comercial (segundo sugere, no primeiro semestre deveria ter sido 14,3%), o governo adotaria medidas para elevar as exportações de forma a reduzir pela metade a necessidade de financiamento para as contas externas.

Numa clara oposição às intenções do Ministério da Fazenda, que tem proposto medidas de controle das importações no debate interno do governo, o MDIC argumenta, no texto, que a busca de um saldo comercial mais alto deve ser feita com iniciativas de estímulo às exportações, com “medidas estruturantes” – como redução de tributos sobre exportadores, simplificação de procedimentos burocráticos e políticas de incentivo à desvalorização do real.

Baseados no desempenho das exportações no primeiro semestre, os técnicos do ministério previam que as exportações teriam de ter crescido US$ 5 bilhões acima do resultado obtido entre janeiro e junho, ou 35% além do desempenho do mesmo período em 2009. No segundo semestre, o surpreendente desempenho das exportações elevou a previsão de exportações, de US$ 180 bilhões para US$ 195 bilhões, o que reduziria o esforço para obter o superávit maior – o número exato teria de ser recalculado pela equipe econômica.

O documento, concluído em julho, mesmo mês em que, coincidentemente, o Banco Central interrompeu a escalada de alta nas taxas de juros, toma partido no debate se há ou não desindustrialização no país argumentando que é evidente a “reprimarização” da pauta de exportações (predomínio de bens primários, como minério de ferro, soja e grãos). A desindustrialização não se caracteriza pela queda na produção física da indústria, que pode até aumentar, argumenta o estudo. “A característica fundamental do processo de desindustrialização é a perda relativa de dinamismo da indústria na geração de renda e emprego na economia”, define o texto.

Para o ministério, a “reprimarização” ameaça o país desde 2007 e ficou evidente no primeiro semestre, quando a participação dos produtos manufaturados (máquinas, veículos, eletrodomésticos) no total das exportações foi de 40,5%, abaixo dos 43,4% da participação de produtos básicos – “composição que retrocede ao patamar de 2008″, diz o documento.

Enquanto o Brasil exporta cada vez mais commodities (ferro, soja) do que importa, o comércio de produtos manufaturados segue tendência inversa, e passou, de um superávit em favor do país de US$ 4 bilhões em 1992, para um déficit de US$ 9,8 bilhões em 2007 – valor que subiu para US$ 30,5 bilhões só no primeiro semestre de 2010. O ministério prevê um “déficit histórico”, até o fim do ano. A indústria de transformação, que chegou a um superávit recorde de US$ 31,9 bilhões em 2005, passou a ter mais importações que exportações a partir de 2008 e registrou um déficit de US$ 13,9 bilhões no primeiro semestre de 2010.

Setores de “baixa-média” tecnologia como os de têxteis, confecções e móveis, que mantiveram superávits comerciais até o começo da década, já têm déficits ou, como no caso de móveis e indústrias diversas, deverão ter saldo negativo até o fim do ano, prevê o MDIC. No caso de couro e calçados, as vendas de couro têm compensado o déficit no subsetor de calçados.

Outro exemplo da “deterioração” é o segmento de veículos automotores e equipamentos de transporte, considerado de média-alta e alta intensidade tecnológica e que passou de um superávit anual de, em média, US$ 9,1 bilhões entre 2004 e 2007 a um déficit de US$ 3,1 bilhões em 2009, que deve se elevar neste ano. O déficit no primeiro semestre já é maior que o alcançado em todo o ano 2000 por setores de intensidade alta e média-alta, que já eram deficitários, como o de máquinas de informática, elétricas e de comunicação, equipamentos médico-hospitalares, automáticos e de precisão e químicos e artigos de borracha.

Há uma “tendência estrutural de geração de déficits em importantes segmentos da tecnologia de transformação”, nota o documento, que classifica essa tendência de “um sinal de alerta para uma possível vulnerabilidade da atividade econômica nacional e para as contas externas do país”. Nos últimos três anos, as exportações aumentam a um ritmo inferior ao do crescimento do país e, na falta de medidas compensatórias, o câmbio influencia diretamente a perda de competitividade das vendas da indústria ao exterior, mostra o estudo. Já as importações aumentam acima do ritmo de crescimento da economia, ameaçando o saldo comercial, e os investimentos diretos já não são suficientes para cobrir as necessidade de financiamento do déficit nas contas externas totais.

É um cenário preocupante, “posto que reflete uma dependência de capitais de curto prazo, sujeitos a volatilidade e nervosismos dos agentes financeiros internacionais”, alerta o ministério.

13/11/2010 - 08:28h Atenção ao câmbio

http://www.fgv.br/mailing/ibre/carta/novembro.2010/images/carta.jpg

Em artigo recente, Martin Wolf, o renomado colunista do Financial Times, dividiu as principais economias em “cigarras” e “formigas”. No primeiro grupo, estão, entre outros países, Estados Unidos, Reino Unido e Espanha. E, no segundo, Alemanha, China e Japão. A diferença básica é que as cigarras consomem em excesso, e têm volumosos déficits em conta corrente, enquanto as formigas são poupadores, e exportam capitais com seus superávits em conta corrente.

A grande crise financeira global, que eclodiu no final de 2008, provocou uma ruptura – mas não o fim – da relação de interdependência entre as cigarras e as formigas da economia global. O lado financeiro do circuito de capitais entre os dois tipos de países entrou em colapso. Ao fim da fase mais aguda da crise, constatou-se que a capacidade das cigarras de absorver poupança alheia nos volumes ofertados pelas formigas estava seriamente comprometida. Com o sobre-endividamento das famílias e dos governos do grupo das cigarras, a roda dos capitais continuou girando, mas ajustes têm sido efetuados.

Dessa forma, criou-se um hiato de produto no mundo: a produção é maior do que o consumo, e a disposição a poupar é maior do que a de investir. Há, portanto, recursos subtilizados na economia mundial. Pelo lado do capital, a sobra derruba os juros internacionais e estimula o surgimento de bolhas de ativos. Pelo lado do trabalho, os países tentam empurrar o desemprego uns para os outros, estimulando a demanda externa por seus produtos com políticas que, por diferentes caminhos, buscam a desvalorização cambial.

No mundo pré-crise, em diferentes momentos, regiões e países afetados por turbulências e problemas econômicos foram bem sucedidos na saída pela demanda externa, estimulando suas economias e reduzindo o desemprego com a desvalorização de suas moedas. É o caso da Suécia em 1992, da Ásia emergente em 1997 e do Brasil em 1999. O problema atual é que uma enorme parcela da economia mundial, englobando a maioria dos países ricos, vive uma situação de subutilização dos seus recursos produtivos. Não é possível, portanto, que todos consigam simultaneamente jogar nas costas de outros países a tarefa de prover demanda para a economia mundial. Há certo paralelismo entre a situação de hoje e o período que se seguiu à Grande Depressão, quando o aumento do protecionismo e o fechamento das economias nacionais foram tentativas desesperadas de cada país de preservar a demanda doméstica para seus próprios produtos.

Uma solução óbvia para o quadro atual seria uma mudança de comportamento das formigas, que passariam a consumir mais.

Mas a análise do comportamento da Alemanha e da China, os dois principais representantes desse grupo, indica que é politicamente irrealista contar com essa saída. Na verdade, no intuito de restaurar
as finanças públicas, a Alemanha apertou o cinto fiscal depois da crise, o que reduziu, em vez de aumentar, o consumo agregado. Já a China insistiu na sua política de câmbio fixo em nível subvalorizado, sustentada por gigantesca acumulação de reservas internacionais, na tentativa de preservar o modelo exportador que produziu um milagre econômico que já dura três décadas.

A dificuldade de se chegar a uma solução concertada para os desequilíbrios globais impulsiona os países a buscar soluções individuais. No caso do maior deles, os Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed), o banco central, está embarcando num maciço programa de afrouxamento monetário quantitativo, de US$ 600 bilhões, pela aquisição de títulos longos do Tesouro em poder do público.

Nesse contexto, sobra para os demais países que não foram muito debilitados pela crise, como o Brasil, a tarefa de sustentar a demanda global. Na prática, o processo decorre da fortíssima tendência à valorização real do câmbio contra o dólar e, em menor medida, contra a cesta de moedas representativa dos parceiros internacionais.

Nessa situação, diante das dificuldades práticas de se reequilibrar o câmbio e os saldos em conta corrente dos gigantes da economia global, aumenta a aceitação de que os países em geral se valham de mecanismos de controle de capitais para evitar a sobrevalorização das suas moedas. Criticado no passado por organismos multilaterais e pelo “establishment” financeiro global, o controle de capitais agora é elogiado, o que fica claro na reação positiva do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do prestigiado jornal britânico Financial Times a medidas recentes desse tipo adotadas em países como Brasil, Colômbia, Tailândia e Coreia.

O Brasil, em particular, se viu envolto na tendência à sobrevalorização cambial num momento em que a demanda interna já estava aquecida pelas medidas tributárias e fiscais adotadas para incentivar a economia na esteira da crise global, e que deram à atividade um ímpeto particularmente forte em ano eleitoral. Os riscos, portanto, são aqueles que tipicamente afetam países que se vêem no papel de cigarras – sobrevalorização cambial, prejudicando a competitividade da economia, sobretudo no setor industrial; e formação de bolhas de ativos imobiliários e financeiros.

Há, também, fatores fundamentais que provocam a apreciação do real. Exportadores de matérias-primas, como o Brasil, são favorecidos pelo efeito combinado da recuperação de emergentes superpopulosos como China e Índia, que puxam a demanda por commodities, e o hiato de produto persistente e elevado nos países centrais – que, junto com a superprodução chinesa, leva ao barateamento dos produtos industriais. Na Carta do Ibre do mês de outubro, examinou-se a melhora recente dos termos de troca brasileiros, bem mais forte do que a ocorrida no período que antecedeu a crise.

No Brasil, portanto, a valorização do câmbio deriva tanto da conta corrente, ligada aos termos de troca, quanto da conta financeira, em função da grande liquidez internacional que empurra capitais para o país. Além disso, a alta taxa de juro interna – quando comparada às taxas próximas a zero nos principais centros da economia global – e a perspectiva de mais apreciação cambial também são fatores que reforçam o interesse do investidor estrangeiro pelo Brasil.

Hoje, após curto período de carência de demanda agregada na esteira da eclosão da crise global em 2008, a economia brasileira retornou à sua tradicional situação de excesso de demanda. A inflação está acima da meta. Porém, como há disposição do mundo em financiar o país, a forte pressão dos recursos que entram valoriza o câmbio, o que derruba o preço dos bens comercializáveis internacionalmente e ajuda a evitar um descolamento ainda maior da inflação. Outra forma de enxergar o mesmo fenômeno é notar que a valorização cambial permite a expansão do consumo dos bens comercializáveis, acomodando o excesso de demanda. Assim, o câmbio garante a absorção de poupança externa – equivalente ao déficit em conta corrente – que fecha o hiato interno de recursos.

O governo, porém, preocupa-se acertadamente com a elevação do câmbio que, como mencionado, está sendo ampliada por uma conjuntura global muito peculiar. Até o momento, a estratégia do governo tem sido a de acelerar a compra de reservas, tributar de forma crescente as entradas de capital para a renda fixa e encarecer as apostas no real no mercado de derivativos da BM&F. Um dos riscos da estratégia de conter a valorização é que a absorção de poupança externa fique abaixo do necessário para equilibrar o mercado interno, provocando pressões inflacionárias.

Neste caso, o BC pode ser obrigado a elevar os juros, reforçando a atração do diferencial de juros, e trazendo mais capitais, numa espécie de círculo vicioso. Para um país que depende de poupança
externa, impedir que ela entre em volumes excessivos é um delicado exercício de sintonia fina.

Um problema adicional é que a ação do BC torna-se previsível para o mercado. As compras de dólares são feitas para impedir uma valorização excessiva, mas o mandato das metas de inflação força a autoridade monetária a enxugar os reais postos em circulação naquelas operações, para manter o nível da taxa de juro real. Dessa forma, operadores podem contar não só com a tendência de valorização, ainda que contida, mas também com o juro muito elevado. A aposta nos ativos em reais torna-se unidirecional, estimulando o aumento destas operações, o que também alimenta o círculo vicioso mencionado acima.

O Brasil chegou, portanto, a uma etapa do manejo macroeconômico que tem se revelado cara (o custo da acumulação de reservas) e pouco eficaz, já que a combinação de juro alto e câmbio valorizado se mantém, trazendo os riscos de desindustrialização e bolhas de ativos que se quer evitar. Por isso, parece inevitável a adoção de medidas para combater o problema cambial – sem jogar fora, é claro, o modelo extremamente bem sucedido de câmbio flutuante, metas de inflação e de superávit primário.

A opção preferida pela maioria dos economistas é a de se promover um aperto significativo na política fiscal, levando o superávit primário para bem além da meta de 3,3% do PIB que, acredita-se, o novo governo pretenda restaurar, cumprindo-a sem truques contábeis ou receitas questionáveis. Do ponto de vista da teoria macroeconômica, não resta dúvida de que aquela é a opção ideal.

Promove-se um vigoroso aumento da poupança pública e resfria-se a demanda, num autêntico movimento contra cíclico, permitindo a queda mais acelerada dos juros e o fechamento do diferencial de juros que atrai capitais financeiros. Supondo-se tudo o mais constante, resta pouca dúvida de que a saída fiscal induz um câmbio menos valorizado.

No Brasil, porém, como já foi salientado em Cartas do Ibre anteriores, o modelo distributivo – que decorre de nossas instituições democráticas, com base em escolhas legítimas do eleitorado – ampliou enormemente os gastos correntes e as transferências públicas a indivíduos. Dessa forma, é forçoso admitir a dificuldade em se promover, a curto prazo, uma forte correção fiscal. O grosso do impulso dos gastos vem de políticas populares, como os aumentos reais do salário mínimo e a ampliação dos gastos em educação e saúde.

Na impossibilidade de se fazer um ajuste apenas com a ferramenta fiscal, a opção complementar mais razoável é, de fato, o uso de controles dos fluxos de capital aos quais o governo vem recorrendo. É interessante notar, como mencionado acima, que há hoje um grau de aceitação internacional bem maior em relação a esse tipo de política. Mas o problema desses mecanismos é que a criatividade do mercado sempre consegue recriar as mesmas operações em canais que ainda não foram bloqueados ou encarecidos.

Assim, no limite, a alternativa para de fato impor um custo a quaisquer recursos que entrassem no país, dando ao governo uma torneira sem vazamentos para fazer a sintonia fina entre a necessidade de poupança externa e o volume de dinheiro que ingressa, seria a da taxação horizontal que abrangesse toda a conta financeira e a conta corrente. Nada poderia ser isentado, nem mesmo o dólar dos exportadores. Como não incluiria as importações, limitando-se aos fluxos entrantes, tal medida provavelmente não acarretaria problemas na Organização Mundial do Comércio (OMC). Provavelmente não será necessário ir tão longe. Contudo, é bem possível que o governo vá ampliando o rol de canais de fluxo de divisas tributados, à medida que intensificar seu combate à valorização cambial.

Uma terceira opção para lidar com a questão cambial, bem mais ousada, é a de deixar a apreciação se aprofundar, interrompendo as aquisições de divisas. O efeito colateral mais perigoso dessa opção é o de provocar danos ao tecido industrial e bolhas de ativos. Os riscos, porém, não devem ser exagerados, já que uma valorização menos controlada traz a contrapartida de reviravoltas inesperadas na trajetória do câmbio. Além disso, o efeito anti-inflacionário do real mais apreciado poderia levar a uma queda do juro mais rápida. Assim, não haveria aquele cenário tão previsível de valorização gradual e juro alto, o que poderia até reduzir os fluxos de capital, aliviando a pressão no câmbio.

Adicionalmente, esse esquema poderia incluir medidas tributárias para aliviar setores mais prejudicados pela valorização no momento inicial. De qualquer forma, por representar uma mudança muito drástica de política econômica, essa alternativa não parece politicamente factível no momento.

Um último cenário, claramente indesejável, é o que poderia ser chamado de “saída argentina”. Neste caso, o governo atuaria com metas explícitas ou implícitas para o câmbio nominal, buscando uma desvalorização real. O problema é que, para tanto, intervenções no mercado cambial não bastam, como o exemplo brasileiro bem indica. É preciso também que elas não sejam totalmente esterilizadas, o que significa deixar que reais injetados no mercado, para comprar dólares, permaneçam em mãos do público e engendrem uma forte queda da taxa de juro real. Como fica claro, isso significa implodir o regime de metas de inflação, já que a taxa de juro deixa de ser um instrumento de controle da inflação, e passa a ser uma ferramenta auxiliar da política de metas de câmbio nominal.

Como na Argentina, é até possível trabalhar com um câmbio real menos apreciado, mas mesmo esse efeito estará sob constante corrosão de uma inflação que certamente decolará para níveis muito acima dos que prevaleceram no Brasil nesta década. De fato, essa estratégia consegue alterar durante longo tempo o câmbio real e o equilíbrio da economia, mas com o custo de uma contínua aceleração da inflação e piora da distribuição de renda.

Dessa rápida análise de opções para a política cambial, o cenário mais realista, e talvez mais sensato, parece ser mesmo o de se combinar as duas primeiras alternativas, com o ajuste fiscal que for politicamente viável e mecanismos de controle da entrada de capitais. Quanto a esse segundo ponto, porém, é necessário levar em conta que a eficácia é diretamente proporcional à abrangência dos canais afetados. Talvez a combinação acima possa incluir uma pitada da terceira opção, com o governo trazendo mais imprevisibilidade ao mercado de câmbio, permitindo piques de valorização maiores, com a redução na acumulação de reservas. E, para concluir, dado o trauma brasileiro com a convivência com elevadas taxas de inflação, a quarta opção, realimentadora das pressões inflacionárias, parece não ser apropriada.

06/11/2010 - 10:53h Governo sob pressão no dólar

Para empresários, em vez de esperar G-20, Brasil deve tomar medidas imediatas contra alta do real

— A situação do câmbio é extremamente difícil, sobretudo para a indústria, e defendo o controle de capitais na entrada, mas de forma seletiva, e sou favorável à quarentena — diz Adilson Primo, presidente da Siemens no Brasil.

Wagner Gomes e Ronaldo D’Ercole – O GLOBO

SÃO PAULO, RIO, BRASÍLIA e CHICAGO

Para empresários e executivos brasileiros, o governo deve agir imediatamente para proteger o real da enxurrada de dólares que inundará o mercado, após a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de injetar US$ 600 bilhões para ativar a economia do país. Em vez de esperar por decisões coordenadas no âmbito de organismos multilaterais, como o G-20 (grupo das maiores economias), o Brasil deve adotar já medidas que inibam uma valorização do real ante o dólar.

O setor produtivo defende uma maior tributação sobre o capital estrangeiro que chega ao país em busca de ganhos especulativos no mercado financeiro, inclusive a cobrança de imposto de renda (IR). Também propõe a adoção de uma quarentena, antes da repatriação desses recursos aos países de origem.

— A situação do câmbio é extremamente difícil, sobretudo para a indústria, e defendo o controle de capitais na entrada, mas de forma seletiva, e sou favorável à quarentena — diz Adilson Primo, presidente da Siemens no Brasil.

O maior controle sobre os fluxos de capital externo, porém, deve ser seletivo, preservando os investimentos produtivos, concordam os empresários.

A questão é definir que mecanismos usar para diferenciar os dois tipos de capital.

Robson Braga de Andrade, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), vê risco de desindustrialização e defende ações drásticas.

— A situação está se agravando e só o IOF não resolve. Temos que ver, por exemplo, a questão do imposto de renda, aplicando-o sobre o capital estrangeiro. Se o brasileiro paga IR, não há motivo para o capital estrangeiro não pagar — diz Andrade, que também é favorável à quarentena.

Coutinho: país não pode ser refém de EUA e China

Em estudo intitulado “O que esperam as autoridades para agir fortemente no câmbio?”, divulgado anteontem, o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) observa que o Brasil vive um paradoxo: enquanto o país consegue “gerar os estímulos ao consumo e ao investimento que tanto faltam às economias centrais (…)”, “as políticas monetária e cambial vêm impedindo o espraiamento dos benefícios dessa situação por toda a economia”.

Reflexo disso são os dados do IBGE sobre a produção industrial, que vinha se desacelerando e no último trimestre (julho-setembro) caiu 0,5% ante o segundo trimestre.

— O governo está sensível à questão cambial, mas precisamos de uma ação mais enérgica — diz Rogério César de Souza, economistachefe do Iedi, autor do estudo.

Para o ex-ministro do Desenvolvimento e copresidente do Conselho da BR Foods, Luiz Fernando Furlan, o quadro tornou-se tão complexo que o câmbio, que antes era visto como “uma choradeira dos exportadores”, hoje é uma preocupação generalizada. Horácio Lafer Piva, expresidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) e membro do Conselho da Klabin, concorda e vê como complicador o fato de a situação do câmbio não depender exclusivamente do governo brasileiro.

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, disse ontem que as autoridades brasileiras estão atentas ao problema e têm instrumentos para evitar a apreciação continuada do real. Para ele, a quarentena é uma opção, mas o governo deve buscar medidas menos agressivas inicialmente e depois, se for necessário, ações mais fortes.

Segundo Coutinho, o Brasil não pode ficar refém das políticas cambiais protecionistas de países como Estados Unidos e China. Já o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, disse que a injeção de recursos anunciada pelo Fed vai gerar mais distorções nos mercados mundiais.

Após cair 1,35% anteontem, o dólar fechou em leve alta ontem, de 0,11%, a R$ 1,680. Na semana, a moeda americana perdeu 1,35%. O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo, fechou em queda de 0,53%, aos 72.606 pontos.

A caderneta de poupança fechou outubro com captação de R$ 2,561 bilhões, recorde para esses meses, mas quase 50% inferior ao resultado visto em setembro (R$ 4,847 bilhões), quando houve antecipação de metade do décimo terceiro salário a aposentados e pensionistas do INSS.

Segundo o BC, o saldo da aplicação chegou a R$ 364,598 bilhões no mês passado.

COLABORARAM Emanuel Alencar e Patrícia Duarte, com agências internacionais

19/10/2010 - 06:45h IOF vai a 6% para combater especulação e conter a valorização excessiva do Real

Tasso Marcelo/AE
Fome de juros. ‘Queremos reduzir o apetite dos aplicadores de curto prazo’, disse Mantega para justificar as novas medidas


Para tentar conter o dólar, IOF vai a 6%

Duas semanas depois de subir o IOF para 4%, governo volta a elevar imposto para estrangeiros, incluindo apostas no mercado futuro

Raquel Landim – O Estado de S.Paulo

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou ontem mais duas medidas para tentar conter a valorização do real em relação ao dólar. Mais uma vez, o instrumento escolhido foi o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Só que agora o governo decidiu atuar não só no mercado à vista, mas também no mercado futuro. Ontem, o dólar fechou cotado a R$ 1,66.

A primeira medida é no mercado à vista: o IOF incidente nas operações de câmbio feitas por investidores estrangeiros para aplicar em renda fixa sobe de 4% para 6%. No dia 4 deste mês, o Imposto sobre Operações Financeiras nessas operações havia subido de 2% para 4%.

A segunda medida é no mercado futuro: o IOF que incide sobre as operações de câmbio feitas por investidores estrangeiros para pagar as garantias exigidas pelas bolsas de valores, mercadorias ou futuros sobe de 0,38% para 6%. O aumento da alíquota vale apenas para estrangeiros. Bancos e empresas nacionais não foram incluídos.

As garantias representam o valor que os investidores depositam na BM&FBovespa para garantir o pagamento dos ajustes diários, que é quanto perderam ou ganharam naquele dia. Normalmente, a garantia exigida é de 10% do valor investido.

O objetivo do governo é reduzir a rentabilidade das operações no mercado futuro e diminuir a possibilidade de fazer grandes apostas. O volume de margem dos estrangeiros hoje é de R$ 20 bilhões, o que significa uma capacidade de fazer negócios no valor de R$ 200 bilhões.

As novas alíquotas começam a valer para as operações feitas a partir de hoje. “O objetivo é atenuar os excessos que possam ser cometidos. Não vai parar a valorização do real”, reconheceu Mantega, em coletiva de imprensa ontem. “Queremos reduzir o apetite dos aplicadores de curto prazo, que querem ganhar rapidamente com os juros altos.”

Ele disse que, no longo prazo, o Brasil é um País muito atraente para os investidores, porque oferece segurança e taxas de juros elevadas. Mas negou que as medidas adotadas não estejam surtindo o efeito esperado.

Segundo Mantega, se o IOF não tivesse subido, a valorização do real teria sido mais forte, principalmente com a entrada de recursos para a capitalização da Petrobrás. Em setembro, o ingresso líquido de capitais chegou a US$ 16 bilhões.

Guerra cambial. O ministro voltou a afirmar que existe uma guerra cambial no mundo, que precisa ser “desativada”. Ele descreveu um círculo vicioso em que os EUA inundam o mercado de liquidez, a China atrela o yuan ao dólar, e os demais países tomam medidas para evitar a sobrevalorização de suas moedas.

“A solução é uma ação coordenada entre os países. Fazer uma espécie de acordo cambial. Mas enquanto não se consegue chegar a um acordo, não posso ficar assistindo à valorização do real”, disse Mantega.

Ação mais agressiva do governo pode ter novos capítulos

Cenário: Fabio Graner e Adriana Fernandes – O Estado de S.Paulo

Com o reduzido efeito da elevação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para 4% sobre investimentos estrangeiros em renda fixa e fundos de investimento, o governo partiu para uma ação mais agressiva que ainda poderá ter novos capítulos. Ao elevar o imposto no ingresso de capitais para renda fixa para 6%, a equipe econômica busca praticamente inviabilizar aplicações de estrangeiros com prazos inferiores a um ano. Isso porque o novo “pedágio” é cobrado pelo governo uma vez só na entrada e, quanto mais tempo o capital externo ficar no País recebendo juros, o peso do IOF vai se diluindo. Em outra frente, o governo encareceu bastante as operações de mercado futuro ao cobrar também 6% de IOF nos depósitos de garantia (margem) para essas operações. O uso dos derivativos era o caminho que investidores externos vinham usando para driblar o custo na entrada de capital.

O momento do anúncio de uma postura mais incisiva do governo na “guerra cambial” que ocorre mundo afora leva em conta dois fatores principais: o anúncio da emissão de dólares pelo Fed (o banco central americano), por meio da política de “afrouxamento quantitativo”, e o fato de que a primeira elevação de IOF (para 4%) não causou o efeito esperado. A política do Fed, de reativar a economia dos EUA com a ampliação da oferta de dólares, é reconhecida pelo Brasil como o fator principal por trás da valorização do real e de outras moedas ao redor do mundo.

Com as medidas anunciadas, a equipe econômica agora vai observar a reação do mercado de câmbio. De qualquer forma, fontes do governo afirmam que o governo ainda tem opções extras de ação para conter a valorização do real em um mundo com o dólar em queda livre: “Temos um saquinho de maldades”.

A opção de usar o IOF de 6% nas margens de garantias foi uma saída técnica da equipe econômica para driblar a restrição de taxar os derivativos diretamente, o que, segundo o ministro Guido Mantega, não seria possível. Ao encarecer as garantias – que não são derivativos, mas são parte essencial dessas operações na BMF&Bovespa – o governo tenta desestimular ações especulativas de estrangeiros no mercado futuro. A medida também foi alternativa à impossibilidade de a equipe econômica mexer diretamente nos requerimentos de garantias, o que cabe à Bolsa. Antes de anunciar as medidas, o ministro se encontrou com representantes da BMF&Bovespa, conforme o Estado antecipou na edição de sábado. A pressão contra a especulação no mercado futuro vai continuar, avisou uma fonte do governo.

Efeitos das medidas sobre o câmbio ainda são incertos, dizem especialistas

Principais dúvidas referem-se à mudança das regras no mercado futuro, onde o IOF da chamada ‘margem’ foi elevado de 0,38% para 6%

Leandro Modé – O Estado de S.Paulo

Os efeitos das novas medidas anunciadas ontem pelo governo para conter a valorização do real ainda são incertos, segundo especialistas do mercado financeiro. Eles aguardam os detalhes da regulamentação para fazer uma avaliação mais precisa. As dúvidas principais referem-se à mudança das regras no mercado futuro, onde o IOF da chamada margem subiu de 0,38% para 6%. Nem mesmo a BM&FBovespa compreendeu a mudança.

“Estamos esperando a publicação para entender melhor a incidência”, afirmou o presidente executivo da BM&FBovespa, Edemir Pinto. Ele lamentou a decisão do governo, porque acredita que os investidores vão migrar para outras opções disponíveis no mercado, que não são reguladas (e controladas) como o ambiente da BM&FBovespa.

“Ainda estou tentando entender o racional do governo porque na Bolsa os riscos são mitigados e se evita o risco sistêmico. Aqui, o governo sabe exatamente o tamanho das posições.”

O governo avalia que a maior parte da pressão sobre o real vem das operações no mercado futuro, argumento que é rechaçado pelo presidente da Bolsa. No fim da semana passada, estrangeiros tinham cerca de US$ 13 bilhões em apostas pró-alta do real.

O diretor executivo da NGO Corretora de Câmbio, Sidnei Nehme, também não entendeu as medidas na prática. Segundo ele, não está claro como será a incidência do IOF de 6% (em vez dos 0,38% anteriores).

A margem é uma garantia que os agentes que operam no mercado futuro têm de deixar depositadas. Seu objetivo é proporcionar segurança aos negócios. Em geral, a maioria desses agentes usa título público.

Nehme pondera, no entanto, que há alternativas no mercado que não envolvem o depósito de margens. “Há bancos brasileiros que oferecem a estrangeiros o aluguel de títulos públicos “, exemplificou. Segundo ele, também não ficou claro, no anúncio do ministro da Fazenda, Guido Mantega, se esse tipo de operação será afetado.

Como já se especulava há alguns dias que o mercado futuro seria o novo alvo do governo, as ações da BMF&Bovespa caíram quase 5% ontem. “Independentemente de qual medida, já se sabia que o volume de negócios da Bolsa seria impactado de qualquer forma”, observou o estrategista-chefe do banco WestLB, Roberto Padovani.

Nehme explica que os investidores que vêm ao Brasil fazem o chamado hedge de sua operação. Ou seja, protegem seu capital de uma eventual desvalorização do real. Com a medida do governo, isso fica mais caro.

Para Padovani, a tendência para a taxa de câmbio dependerá mais do ambiente externo do que de medidas adotadas pelo governo para segurar a alta do real. Ontem, o dólar fechou a R$ 1,662, queda de 0,06% em relação a sexta-feira. No ano, a moeda acumula perda de 4,53%.

Desestímulo. A incerteza dos analistas sobre o efeito da medida do mercado futuro inexiste quanto à decisão do governo de elevar de 4% para 6% o IOF para investimentos em renda fixa. “Esse aumento significa que o investidor estrangeiro precisará deixar o dinheiro no Brasil por ao menos 214 dias para conseguir alguma rentabilidade”, calcula Nehme. “É uma taxa que desestimula o capital de curto prazo.” Entre janeiro e agosto, o País recebeu US$ 20 bilhões para aplicação em títulos públicos.

O Brasil é um dos países mais atraentes do mundo hoje para esse tipo de investimento, porque a taxa básica de juros aqui (de 10,75% ao ano) é a maior do planeta tanto em termos reais (descontada a inflação) quanto nominais. Nas nações desenvolvidas, ao contrário, o juro está em zero para estimular o crescimento econômico no pós-crise.


Repercussão

EDEMIR PINTO
PRESIDENTE EXECUTIVO DA BM&FBOVESPA
“Ainda estou tentando entender o racional do governo porque na Bolsa os riscos são mitigados e se evita o risco sistêmico.”

ROBERTO PADOVANI
ESTRATEGISTA-CHEFE DO BANCO WESTLB
“Independentemente de qual medida, já se sabia que o volume de negócios da Bolsa seria impactado.”

15/10/2010 - 07:59h Reservas do país têm novo recorde


Compra de dólares ajuda a alcançar patamar inédito de US$ 280 bilhões

Patrícia Duarte e Lino Rodrigues – O Globo

BRASÍLIA e CAMPINAS. As reservas internacionais do Brasil alcançaram um patamar jamais visto, atingindo, na última quartafeira, US$ 280,096 bilhões, segundo o Banco Central (BC). O crescimento em outubro, até o dia 13, foi de 1,78%, ou US$ 4,89 bilhões. Esse recorde se deve aos ganhos financeiros das aplicações das reservas e à compra de dólares pelo BC no mercado à vista de câmbio. Nos primeiros oito dias de outubro, últimos dados disponíveis, as aquisições do BC somavam US$ 2,764 bilhões.

As reservas internacionais são uma espécie de colchão financeiro do país e servem para atenuar possíveis ataques especulativos contra a moeda e reduzir o risco de insolvência do país. Com o nível atual, por exemplo, o Brasil é credor em sua dívida externa que, em agosto, estava em US$ 235,365 bilhões.

Ou seja, possui mais capital do que deve.

O BC tem reforçado as reservas internacionais por meio de compra de dólares também para evitar mais valorizações do real frente à moeda americana.

Esse movimento foi especialmente evidente em setembro, quando as reservas pularam 5,31%, para US$ 275,206 bilhões.

No ano, BC comprou US$ 32 bi no mercado Isso ocorreu devido à capitalização da Petrobras no mês passado, que movimentou R$ 120 bilhões e atraiu muitos recursos internacionais para o país. Isso obrigou o BC a entrar no mercado de dólar para evitar mais apreciação do real. Só naquele mês, o BC adquiriu no mercado de câmbio quase US$ 11 bilhões, cifra recorde.

Em todo o ano, até 8 de outubro, o BC já comprou US$ 32,124 bilhões no mercado à vista.

Já as reservas internacionais do país engordaram US$ 41,576 bilhões. E não devem parar por aí, já que a autoridade monetária tem realizado dois leilões de compra de dólares por dia.

Apesar disso, o dólar oscila na casa de R$ 1,60, dificultando as exportações. O Brasil tem atraído muitos investidores estrangeiros por causa da boa expectativa de crescimento econômico, de cerca de 7,5% neste ano, e da maior taxa de juros do mundo em seus títulos. Hoje, a Selic está em 10,75% ao ano.

Receita fará controle on-line de importações expressas

Ontem, a Receita Federal iniciou a primeira etapa da operação de informatização do sistema de controle on-line das chamadas remessas expressas, que promete trazer maior agilidade e segurança a importações de encomendas aéreas de produtos com valor até US$ 3 mil. O novo programa, desenvolvido nos últimos dois anos e que já está sendo operado nos aeroportos internacionais de Cumbica, Galeão e Viracopos, será integrado a órgãos de fiscalização do governo federal, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Sistema de Vigilância Agropecuária Internacional (Vigiagro), do Ministério da Agricultura.

— Isso possibilitará maior eficiência no combate a importações irregulares ou ilegais, como nos casos de alimentos e medicamentos — disse o secretário da Receita, Otacílio Cartaxo, durante apresentação do sistema no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas.

Com as mudanças, também será permitido a importação de itens como livros, jornais e periódicos para revenda até o limite de US$ 3 mil, e de amostras e bens para uso próprio por empresas e pessoas físicas (inclusive compras via internet através de cartão de crédito).

A expectativa é que o novo sistema leve a um aumento de 10% no volume de importação e exportação realizadas através de remessas expressas por via aérea. No ano passado, o setor movimentou R$ 201 milhões, somando mais de 3,5 milhões de volumes.

11/10/2010 - 09:20h Meirelles: Brasil protegerá economia e não importará desequilíbrio de ricos

Presidente do Banco Central defende intervenção no câmbio quando necessária

Fernando Eichenberg – O GLOBO

Correspondente

WASHINGTON e DUBLIN. O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, disse que o Brasil não pode “importar o desequilíbrio de outros países” por meio dos valores artificiais de moedas nacionais. Ele ressaltou a necessidade de uma discussão global para corrigir as atuais distorções cambiais causadas pela depreciação forçada de certas moedas.

— O Brasil não vai pagar o preço do desequilíbrio de diversos países. Isto não é correto.

Estamos preparados para discutir uma solução global. Vamos propor que as diversas moedas possam achar um caminho através de flutuações adequadas.

Mas, independentemente de qualquer coisa, o Brasil tomará medidas de defesa e providências para proteger a sua economia — garantiu.

A chamada “guerra cambial” foi o principal tema da reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (Bird), encerrada ontem em Washington, e será retomada em novembro por chefes de Estado, em Seul, no encontro dos países do G-20, grupo formado pelas principais economias avançadas e emergentes do planeta.

Valorização do yuan será gradual, insiste China China e Estados Unidos, que exigem o fim da desvalorização do yuan face ao dólar, acirraram as tensões em Washington, embora o diretor-gerente do FMI, Strauss-Kahn, tenha buscado um tom mais diplomático. Ontem, o presidente do BC chinês, Zhou Xiaochuan, voltou a afirmar que a apreciação da moeda chinesa deve se dar de forma gradual. Ele comparou a medicina oriental com a ocidental para explicar os desafios do debate cambial.

— A China gostaria de (fazer uso de) maneiras mais graduais para promover o equilíbrio entre as demandas interna e externa — disse Zhou, após seminário no último dia do encontro do FMI. — Na China, várias pessoas acreditam nos médicos chineses.

Nos países ocidentais, eles acreditam nos médicos treinados no Ocidente.

Meirelles espera que o debate sobre o câmbio no G-20 seja mais conclusivo e “decisivo” que o ocorrido da reunião do FMI.

— Nós não vamos entrar em discussões específicas entre um e outro país. Existem discussões bilaterais. O Brasil já definiu sua posição. Estamos fazendo a nossa parte. Não vamos aceitar assumir desequilíbrios para tentar ajudar o reequilíbrio de outros países — disse.

Ele mencionou “a experiência e o histórico” do Banco Central na intervenção no câmbio de acordo com as necessidades exigidas, com base em uma política definida desde 2004, capaz de absorver os excessos de liquidez na economia brasileira.

— Já houve momentos de compra e de venda de câmbio.

Já houve momentos, inclusive, em que se justificou a atuação nos mercados futuros. Agora com a operação da Petrobras, o Banco Central estava preparado para fazer compras mais volumosas em função do grande fluxo de recursos esperados.

Meirelles diz que está observando “com toda a atenção” o déficit em conta corrente, e que o Brasil está tomando providências para manter sua economia equilibrada.

— O Brasil está adquirindo o excesso de liquidez externo que entra na economia através da compra de reservas. Está tomando medidas para evitar que essa canalização de liquidez se dê através do sistema financeiro e possa contaminar toda a economia, fazer com que comece a acelerar o processo de déficit em conta corrente através do endividamento excessivo.

Irlanda deve cortar C 4,5 bi do orçamento em 2011 Segundo ele, é a política monetária expansionista dos EUA, e não o acúmulo de reservas por parte dos países emergentes, o maior responsável pelos desequilíbrios mundiais.

— O desequilíbrio mais importante atual é a expansão monetária americana, usada para combater o baixo crescimento e o desemprego elevado nos EUA.

Isso ocasiona grande injeção de liquidez na economia internacional.

Não é o acúmulo de moedas de emergentes que vai assumir essa responsabilidade.

Sobre os rumos da política fiscal na futura troca de governo no Brasil, foi evasivo.

— É legitima a discussão de se colocar qual será a trajetória fiscal do próximo governo. É uma questão de aguardarmos o próximo governo assumir para anunciar a sua política fiscal.

Também ontem, o ministro das Finanças da Irlanda, Brian Lenihan, afirmou que o corte no orçamento de 2011 será bem acima da meta inicial de C 3 bilhões (US$ 4,2 bilhões). O país está sob pressão para provar que pode diminuir o maior déficit orçamentário da União Europeia.

A imprensa local informou que o corte poderá ser de C 4,5 bilhões, o quarto plano de austeridade em dois anos. (Com agências internacionais)

13/09/2010 - 09:21h Ainda na média

George Vidor – O Globo

Desde 1970 a economia brasileira convive com déficits nas transações correntes (mercadorias e serviços) de suas contas externas que, em média, foram equivalentes a 2,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Após um breve período de superávits, o déficit ressurgiu em 2008 e este ano está próximo de 2% do PIB. Mesmo que bata em 2,5%, como indicam algumas projeções, estará na média.

Na visão das autoridades monetárias, o déficit apenas voltou à sua tendência histórica e, por isso, não preocupa. Mas há muitos prognósticos apontando para uma deterioração muito rápida das transações correntes, o que poderia dificultar o financiamento em moeda estrangeira da economia brasileira num futuro não distante.

O que evitaria esse cenário de deterioração seria um incremento nas exportações que levasse as vendas do país a aumentarem mais que as importações.

Tal avanço viria por várias frentes, mas existe uma em especial na qual essa reação tem condições de ocorrer em prazo relativamente curto (três a quatro anos): a do petróleo e seus derivados.

Se confirmadas as projeções de crescimento da produção brasileira, em 2013 o Brasil já teria um excedente de mais de um milhão de barris diários.

Até lá, as refinarias em construção também estarão produzindo, o que reduzirá quase a zero a importação de derivados. A produção de óleo leve também aumentará muito com os campos do pré-sal na Bacia de Santos, eliminando grande parte da necessidade de importação desse tipo de petróleo.

Assim, a exportação brasileira de petróleo e derivados poderia se multiplicar por seis a partir de 2013, e as importações desses itens encolheriam fortemente.

O saldo comercial proveniente do petróleo, se não houver desvio de rota, encolheria o déficit em transações correntes para menos de 2% do PIB, mantendose na média dos últimos quarenta anos, portanto.

(…)

Leia a integra da coluna de George Vidor, no jornal O Globo

09/09/2010 - 09:39h As vendas de máquinas agrícolas sinalizam euforia

- O Estado de S.Paulo

O ritmo das vendas no atacado de máquinas agrícolas automotrizes superou, em agosto, o de autoveículos, indicando aumento dos investimentos no plantio e colheita de grãos. Mostrou, ainda, a reação dos produtores brasileiros à frustração de safras em países afetados por graves problemas climáticos, como a Rússia e a Argentina.

No mês passado, segundo os dados da associação das montadoras (Anfavea), as vendas internas de máquinas agrícolas cresceram 1,6% sobre julho e 29,4% sobre agosto de 2009. Entre os primeiros oito meses de 2009 e 2010, a alta foi de 45,7%. Os dados de produção, que incluem as exportações, foram ainda maiores: 8.565 unidades de tratores, cultivadores, colheitadeiras e retroescavadeiras foram fabricadas no mês e 60.921, no ano, com crescimento de 53,5% em relação a igual período de 2009.

Além da produção e das vendas, o aumento no emprego no setor de máquinas automotrizes, de 2,9%, no mês, e de 26,5%, em relação a agosto de 2009, ocorreu em porcentuais mais elevados que os das montadoras de autoveículos (0,7% e 10,3%, respectivamente).

Em agosto a produção total da indústria automotiva atingiu 329,1 mil veículos, com aumento de 3,4%, em relação a julho, e de 11,5%, em relação a agosto de 2009. Comparando os meses de janeiro a agosto dos dois períodos, o crescimento da produção foi ainda mais acelerado (+17,5%), mas também é reflexo do desempenho insatisfatório do primeiro semestre de 2009. As vendas alcançaram 312,8 mil unidades, no mês passado, e somaram 2,19 milhões, entre janeiro e agosto. O presidente da Anfavea, Cledorvino Belini, projeta vendas de cerca de 300 mil unidades/mês até dezembro, estimuladas pela confiança dos consumidores.

Boas condições de financiamento e o ingresso de novos consumidores que ascenderam à classe C são os principais fatores que contribuíram para o aquecimento do mercado interno. Mas os consumidores também foram beneficiados pela concorrência dos importados. Os licenciamentos de veículos nacionais aumentaram 5,7% entre 2009 e 2010, mas as importações cresceram 35,8% – chegando a 394 mil unidades em oito meses. A participação dos importados nas vendas internas foi de 15,6% para 18%.

Mais difícil será, em 2011, manter o ritmo de crescimento deste ano, cujos números foram ajudados pela liberalidade fiscal e monetária em ano eleitoral e pelo desafio de manter o crescimento das exportações, beneficiadas, estatisticamente, pela comparação com 2009.

08/09/2010 - 09:55h As importações disparam

Celso Ming – O Estado SP

Há meses as importações crescem a mais de 40% ao ano, mas só agora vêm as reações, algumas delas indevidas porque não têm proporção com as causas.

O presidente da Fiesp e da CSN, Benjamin Steinbruch, por exemplo, alega que a disparada está provocando desindustrialização e pede defesas radicais: “Temos de fechar o Brasil.”

Outros empresários entendem que o problema é principalmente a agressividade comercial chinesa, que empurra produtos a preços de dumping (abaixo do preço de custo para quebrar o concorrente). E reivindicam medidas protecionistas especificamente “contra esse jogo desleal da China”.

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Certos analistas de comércio exterior veem tudo como consequência da crise internacional, que, para eles, provocou queda do consumo nos países ricos, cujas empresas se empenham agora em empurrar encalhes para os emergentes, que afinal mostram invejável crescimento do PIB, como o Brasil. Eles argumentam: “Somos pelo livre comércio, mas a gente não pode ser trouxa e permitir o jogo deles à custa do desemprego do nosso trabalhador.”

Afora isso, existem aqueles para os quais o problema de fundo está concentrado no câmbio excessivamente baixo e querem a desvalorização do real em relação ao dólar, embora nem sempre saibam o que fazer para que isso aconteça.

O salto de vara das importações tem, sim, alguma coisa a ver com os ataques comerciais dos chineses, com a própria crise e com o câmbio adverso. Mas esses não são o fator preponderante.

Se a forçada de mão da China e dos demais países ricos fosse a causa principal, outros países emergentes, como a Austrália, a Índia e o México, também estariam sendo engolfados por essa guerra comercial. E, no entanto, isso não está acontecendo nas mesmas proporções, embora por lá também as importações estejam crescendo com força. E aferrar-se à desindustrialização parece soar desafinado no momento em que falta mão de obra, as linhas de montagem da indústria batem recordes, a produção cresce a 14% ao ano, os investimentos avançam mais de 26% ao ano, como mostraram as Contas Nacionais.

O câmbio também não ajuda. Mas, se fosse o fator preponderante, estaria derrubando as exportações. E, no entanto, nos oito primeiros meses de 2010, as exportações totais do Brasil cresceram 28% e as do segmento dos industrializados, os mais sensíveis ao câmbio, avançaram 24%, números impressionantes para um ano de crise global.

O principal fator causador da disparada das importações é o aumento das despesas correntes do governo (de 17%), que criam poder aquisitivo e consumo. As exportações deste ano poderiam ser ainda maiores se o consumo interno não estivesse reduzindo a produção exportável. Enfim, as causas do esticão das importações e as do alentado aumento do rombo externo (déficit em conta corrente) são as mesmas.

Isso posto, não faz lá muito sentido partir para retaliações protecionistas, como elevação generalizada das tarifas alfandegárias ou medidas retranqueiras contra certos países, como a China e um punhado selecionado de nações ricas. A questão cambial, por sua vez, tem de ser enfrentada com inteligência. O Banco Central não para de empilhar reservas, que hoje estão a US$ 262 bilhões, e quanto mais resplandecentes estiverem mais capitais atrairão.

Não cabe restringir o afluxo de recursos estrangeiros, justamente no momento em que o País mais precisa de investimentos e de reforço de capital, como as necessidades da Petrobrás estão ilustrando. Enquanto se manteve protegido, até 1990, o comércio exterior brasileiro permaneceu acanhado e sem futuro. Hoje apresenta um fluxo comercial de US$ 400 bilhões por ano e o resultado disso é um setor produtivo bem mais dinâmico.

16/08/2010 - 07:34h Exportações registram aumento forte em todas as regiões do país

Agência Brasil, de Brasília – VALOR

De janeiro a julho deste ano, as exportações brasileiras tiveram crescimento acentuado em todas as regiões do país, comparado a igual período do ano passado, mas a maior expansão percentual verificou-se no Nordeste, uma região tradicionalmente de poucas vendas externas.

Nos 145 dias úteis até final de julho, os nove estados da região exportaram produtos no valor de US$ 8,8 bilhões. Foi um aumento de 43% sobre os US$ 6,1 bilhões registrados no mesmo período de 2009, de acordo com boletim divulgado na sexta-feira pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) com detalhes da balança comercial por regiões, por estados e pelos 2.147 municípios com vendas externas.

Na sequência, aparecem as vendas da Região Sudeste, com alta de 36% no mesmo período, de US$ 43,4 bilhões para US$ 59,3 bilhões. Depois, vêm as exportações da Região Norte, com alta de 19%, de US$ 5,71 bilhões para US$ 6,8 bilhões. Já as da Região Sul evoluíram 11%, para US$ 20,8 bilhões, e as da Região Centro-Oeste cresceram 7%, para US$ 9,4 bilhões.

Na balança comercial dos municípios, Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, manteve a primeira colocação com embarques de US$ 5 bilhões no ano. Dentre os dez mais bem colocados nas vendas internacionais, a cidade de São Paulo aparece em segundo lugar com US$ 3,6 bilhões, seguida por Parauapebas, no Pará, com US$ 3,1 bilhões.

Em seguida aparecem Santos, cidade do litoral de São Paulo, com vendas equivalentes a US$ 2,8 bilhões; São José dos Campos (SP), com US$ 2,5 bilhões; Itabira (MG), com US$ 2,47 bilhões; Paranaguá (PR), com US$ 2,45 bilhões; São Bernardo do Campo (SP), com US$ 2,1 bilhões; Vitória (ES), com US$ 2,08 bilhões; e Macaé (RJ), com US$ 2,05 bilhões.

15/08/2010 - 09:34h Metade das indústrias vai contratar

Pesquisa da Fiesp com 440 empresas apresenta o melhor resultado em cinco anos analisados pela entidade e supera o período pré-crise

Marcelo Rehder – O Estado de S.Paulo

Uma em cada duas empresas da indústria paulista pretende fazer novas contratações de empregados no segundo semestre de 2010, apesar dos sinais de desaceleração do crescimento econômico. A informação é de uma pesquisa da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que ouviu 440 empresas do setor entre os dias 7 e 30 de julho. É o melhor resultado em cinco anos analisados pela entidade (desde 2006).

A marca anterior havia sido registrada na virada do primeiro para o segundo semestre de 2008, quando 45% das empresas responderam que fariam contratações no período. Os planos, no entanto, foram por água abaixo depois da quebra, em setembro daquele ano, do Lehman Brothers, o segundo maior banco de investimento dos Estados Unidos, o que desencadeou a maior crise mundial desde a grande depressão, nos anos 30.

Hoje o otimismo da indústria supera o que existia no melhor momento pré-crise. Para 71% das empresas pesquisadas, a expectativa para os negócios no segundo semestre deste ano é favorável, enquanto só 7% estão pessimistas. Até então, o melhor resultado havia sido o de 2007, quando 67% dos entrevistados se disseram otimistas em relação à segunda metade do ano.

“Analistas dizem que teremos uma redução da atividade no segundo semestre, mas as empresas não pensam dessa maneira”, afirma o diretor do departamento de pesquisas e estudos econômicos da Fiesp, Paulo Francini. “Elas apostam e dizem que o semestre será bom comparativamente ao primeiro.”

Mas nada que possa ser comparado ao ritmo de crescimento chinês dos três primeiros meses do ano. Na verdade, o período foi marcado por uma forte antecipação de compras, motivada pelo anúncio antecipado do fim dos incentivos fiscais oferecidos pelo governo federal, marcado para começar em abril.

“Evidente que o primeiro trimestre seria beneficiado e o segundo sofreria as consequências dessa antecipação de consumo”, diz Francini. “Uma vez isso diluindo e dissipando, as coisas todas prosseguem na mesma toada que estavam.”

Mesmo com o fim dos incentivos ao consumo, setores que se beneficiaram da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), como o automotivo, continuam bastante otimistas.

“Estamos caminhando a passos largos para mais um recorde anual de vendas”, diz o vice-presidente da General Motors do Brasil (GM), José Carlos Pinheiro Neto.

A estimativa do executivo é de que as vendas do mercado como um todo superem 3,3 milhões de unidades este ano. Em 2009, o setor atingiu o recorde de 3,1milhões de veículos vendidos. No caso da GM, a meta é chegar a 650 mil unidades, superando a marca do ano passado, de quase 600 mil.

Os reflexos sobre o mercado de trabalho são evidentes. Só este ano, a GM já contratou 1.021 novos empregados. Desse total, mais da metade, o equivalente a 552 contratações, foram para a fábrica da montadora em São Caetano do Sul, na região do ABC paulista.

Previsões otimistas. A unidade de São Caetano vai receber investimentos de R$ 2,650 bilhões até 2012, para modernização e ampliação das linhas de produção. No total, o plano de investimento da GM para o período 2008-2012 em suas fábricas instaladas no País já supera os R$ 5 bilhões.

A previsão da montadora é de que, à medida em que os novos programas forem saindo do papel, haverá necessidade de mais contratações, o que deve ocorrer nos próximos meses.

A expansão da massa salarial e a oferta de crédito farto continuam a sustentar o consumo e, consequentemente, a produção industrial e o emprego.

O metalúrgico Jobson da Silva Gregório, de 25 anos, é um dos beneficiados por esse ciclo virtuoso. Depois de ficar um ano desempregado, Gregório acaba de ser admitido como operador de máquina por uma metalúrgica da capital paulista.

No período em que ficou desempregado, o metalúrgico aproveitou para fazer um curso de metrologia no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). “Como os salários oferecidos pelo mercado estavam muito baixos e eu tinha uma reserva da indenização que recebi na outra firma, resolvi aguardar um pouco e investir na qualificação”, diz o metalúrgico. O curso teve duração de três meses.

Agora, segundo ele, a situação melhorou. Tanto que no período de três meses de experiência na empresa, ele vai ganhar R$ 1.100 por mês, cerca de R$ 100 a mais do que recebia no emprego anterior, onde ficou por quatro anos.

Caso seja efetivado, o que ele acredita que deverá acontecer, será ainda maior. E novas oportunidades também começaram a aparecer. Em menos de um mês de empresa, ele já recebeu três ligações de agências com ofertas de emprego. “Nem procurei saber dos detalhes, porque estou satisfeito.”

Expectativa para exportação é a melhor em três anos

Entre as 440 empresas pesquisadas pela Fiesp, 43% preveem aumento nas vendas e outras 40% esperam estabilidade

- O Estado de S.Paulo

As expectativas para as exportações no segundo semestre de 2010 são as melhores dos últimos três anos. Do total de 440 empresas pesquisadas pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), 43% preveem aumento nas vendas externas. Para outras 40%, haverá estabilidade, enquanto 18% falam em queda.

A Semikron, única fabricante de semicondutores de potência (base para fabricação de componentes eletrônicos) no País, faz parte do grupo de otimistas. Com fábrica em Carapicuíba, na Grande São Paulo, a empresa normalmente exporta 60% de tudo que produz. No entanto, com a retração dos mercados mundiais, essa participação havia caído para 40% .

“Agora está voltando ao normal”, diz o gerente administrativo-financeiro da Semikron, Paulo Lagazzi. “Os mercados europeus, que são nossos principais clientes voltaram a comprar forte, principalmente a Alemanha.”

Tanto que o faturamento da empresa deu um salto. A previsão inicia era de fechar o ano com aumento de15% nas vendas totais. Mas esse número já foi revisto para 45% .

A empresa deverá faturar R$ 80 milhões em 2010, ante R$ 55 milhões no ano passado. Para reforçar a produção, foram 110 novas contratações desde o início do ano. Hoje, a Semikron emprega 480 pessoas.

“Temos planos de contratar mais no segundo semestre. Não tanto quanto no primeiro, mas vamos, ao menos, chegar a 500 empregados”, diz Lagazzi.

Mas é no mercado interno que a indústria aposta suas fichas. Das empresas pesquisadas, 67% esperam aumento das vendas domésticas no segundo semestre. Só 10% preveem queda.

Embalada pela novas regras para o controle de ponto eletrônico no País, a Dimep Sistemas de Acesso, Segurança e Ponto deverá ter crescimento de 50% nas vendas este ano.

Sem incluir os novos equipamentos exigidos pelo Ministério do Trabalho, o aumento de vendas será de 12%. “A economia em geral está bastante aquecida”, diz Dimas de Melo Pimenta III, vice-presidente da Dimep.

Só no segundo trimestre do ano, a empresa contratou mais 100 pessoas para dar conta do aumento das vendas. “Hoje, estamos com 650 empregados e planejamos contratar mais 60 até o fim do ano”, conta o executivo.

Além das contratações, a Dimep investiu R$ 2 milhões em máquinas e equipamentos. Com isso, a capacidade de produção será ampliada em 20% a partir do mês que vem. “Estamos trabalhando em três turnos, 24 horas por dia, desde maio.”

29/07/2010 - 10:33h Tributação: Medidas isentam obras da Copa, mexem com importação de autopeças e com o Minha Casa, Minha Vida

Governo usa MP para fazer 15 importantes mudanças tributárias

Luciana Otoni, de Brasília – VALOR

A Receita Federal publicou ontem a Medida Provisória 497, que estabelece 15 mudanças relevantes de caráter tributário. As alterações abrangem isenção para a compra de material para a reforma e construção de estádios de futebol, estímulo para empresa exportadora, eliminação do redutor do Imposto de Importação de autopeças e a transferência para o fisco federal da responsabilidade de fiscalização da contribuição previdenciária dos servidores públicos.

A MP também estabelece novos critérios de operacionalização de alfândegas, além de mudança na cobrança do Imposto de Renda de ganhos de capital e alteração para efeito de cobrança de tributos da cadeia de combustíveis, automóveis, bebidas e fármacos.

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Em termos de comércio exterior, a Receita Federal amplia o regime aduaneiro de drawback e passa a autorizar as empresas exportadoras a adquirirem no mercado interno matérias-primas e insumos com suspensão de PIS/Pasep, IPI e Cofins. A obrigatoriedade é que os insumos sejam usados na industrialização de produtos destinados à exportação. O impacto tributário da medida dependerá de adesão.

No segmento automotivo, fica estabelecido que o redutor de 40% em vigor para o Imposto de Importação na compra de autopeças será reduzido para 30% em 30 de outubro deste ano. Passa a 20% em 30 de abril de 2011, sendo eliminado a partir de 1º de maio do próximo ano.

A mudança, que deverá ter repercussão no preço dos automóveis, renderá R$ 756 milhões ao governo neste ano, sendo que em 2011 o ganho sobe para R$ 907 milhões. A Receita explicou que a eliminação do redutor foi adotada para estimular o desenvolvimento da cadeia de fabricação de autopeças. No entanto, o setor avalia uma lista de exceção a essa medida, da qual poderão fazer parte algumas peças sobre as quais não há interesse de fabricação no país.

No mercado de capitais, a receita alterou o conceito de operações de “day trade”, a partir do qual é calculada a cobrança de 20% de Imposto de Renda sobre os ganhos de capital. Na nova sistemática, o fisco passa a considerar como “day trade” as operações de compra e venda de ativos financeiros em um mesmo dia, em uma mesma corretora ou distribuidora.

Ao restringir o conceito do “day trade”, o fisco argumentou que a forma anterior de avaliação das operações entre mais de uma corretora ou distribuidora dificultava o controle. “Na prática, era difícil chegar a essa tributação”, justificou o subsecretário de Tributação e Contencioso, Sandro Serpa.

Com o objetivo de agilizar a reforma e construção de estádios com vistas à Copa do Mundo de 2014, o governo definiu os incentivos para as construtoras. As empresas que tiverem aprovados projetos de restauração e edificação de estádios no Ministério dos Esportes poderão adquirir, no mercado interno, material, bens em geral e serviços com suspensão de PIS/Pasep, Cofins e IPI. Nos casos de importação desses itens, a construtora não recolherá Imposto de Importação, Cofins-Importação e IPI-Importação. As micro e pequenas empresas não poderão se beneficiar da medida. Segundo Serpa, o incentivo acarretará renúncia tributária de R$ 35 milhões neste ano, e de R$ 350 milhões até 2014.

A Receita aproveitou a MP para fazer uma revisão integral da legislação aduaneira. A partir disso, fará novas exigências técnicas para os agentes que administram recintos alfandegários em portos, aeroportos e portos secos. Entre essas medidas, os aeroportos e portos que fazem movimentação, armazenamento e despacho aduaneiro terão que dispor de vigilância eletrônica e sistemas para que o fisco federal possa fazer o controle remoto da fiscalização aduaneira. Portos, aeroportos e portos secos terão prazo de dois anos para adequação às medidas.

A fim de coibir sonegação, o fisco federal também está apertando o cerco nos segmentos de combustíveis, venda de automóveis, bebidas, fármacos e pneus. Nesses segmentos, a Receita passa a equiparar atacadistas e produtores para fins de cobrança do PIS/Pasep e Cofins. “A medida desestimula a prática de elisão tributária”, justificou Serpa.

O governo também incluiu na MP 497 a determinação que transfere do Ministério do Planejamento para a Receita Federal a obrigação de fiscalizar, cobrar e controlar a arrecadação da contribuição dos funcionários públicos para o regime de Previdência Social do servidor público. Essa contribuição é de 11% sobre o salário e abrange cerca de 937 mil servidores, entre ativos e inativos.

Os dados do regime dos servidores não são divulgados pelo governo e a estimativa de arrecadação não foi apresentada ontem pela Receita. A informação que se tem é divulgada pelo Ministério da Previdência, que informou que, no ano passado, o déficit desse regime ficou em R$ 47 bilhões, ultrapassando pela primeira vez o resultado negativo do regime geral de Previdência. A fiscalização da Receita Federal aos órgãos responsáveis pelo desconto e transferência dos recursos ao Tesouro começa neste semestre.

19/07/2010 - 11:54h Projeções para o saldo comercial crescem com ajuda das exportações

Silvia Costanti/Valor
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Castro, da AEB: resultado comercial reduz déficit em conta corrente


Vera Saavedra Durão e João Villaverde, do Rio e de São Paulo – VALOR

O superávit da balança comercial brasileira deste ano está sendo revisto para cima e a principal razão é um aumento do valor exportado em decorrência do preço do minério de ferro e de outras commodities. No começo do ano, as projeções para o saldo comercial estavam em torno de US$ 8 bilhões a US$ 10 bilhões. Agora, o intervalo de resultado positivo varia de US$ 15 bilhões a US$ 18 bilhões.

A Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB) também aumentou sua projeção para o superávit comercial, apesar do avanço das importações. O Valor apurou que o saldo projetado para o ano passou para um valor entre US$ 15 bilhões a US$ 16 bilhões, e não mais em US$ 12 bilhões. O novo dado também reduz a estimativa para o déficit em conta corrente do país, que baixa de US$ 49 bilhões para US$ 41 bilhões.

Na nova conta da AEB, as exportações devem encerrar o ano com receita de US$ 183,5 bilhões ante US$ 153 bilhões em 2009, avançando 19,6% com predomínio absoluto de produtos básicos e semimanufaturados. O fato não ocorria desde 1978, informou José Augusto de Castro, diretor da AEB. As importações devem somar US$ 172 bilhões, crescendo 35% ante os US$ 127,6 bilhões do ano anterior.

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Todos os analistas revisaram suas projeções e fizeram isso mais pelo aumento das exportações. A LCA projetava, em fevereiro, saldo comercial de US$ 7,8 bilhões, valor agora corrigido para US$ 16,2 bilhões. A principal contribuição para esse aumento veio da expectativa de exportações totais de US$ 195,8 bilhões, US$ 10 bilhões acima da projeção de fevereiro.

Os economistas do Santander também reviram suas projeções. No início do ano, o banco estimava exportações de US$ 162 bilhões, mas agora já trabalha com um resultado de US$ 203 bilhões – um salto de 25,3% em seis meses. “Percebemos que estávamos subestimando as vendas externas, que vieram mais fortes do que as projeções”, diz Cristiano Souza, economista do Santander. Além disso, há o efeito do minério de ferro.

O desempenho da conta de comércio este ano está melhor do que a esperada por causa da alta do preço do minério de ferro, que acrescentou às projeções mais US$ 10 bilhões em relação aos valores antes estimados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MIDC). “As vendas de minério de ferro este ano devem totalizar US$ 23 bilhões e a Vale deve ultrapassar a Petrobras na disputa pelo primeiro lugar no ranking das maiores exportadoras do país”, diz Castro.

As vendas de minério estão tão aquecidas que na segunda quinzena de julho a média diária de exportações do insumo bateu recorde absoluto emplacando US$ 162 bilhões por dia. “De 5 a 11 de julho foram negociados US$ 810 milhões de minério de ferro”, revelou o diretor da AEB. Ele atribui este desempenho singular ao reajuste do minério que subiu mais de 100% no segundo trimestre.

Segundo ele, minério, petróleo e derivados e soja vão responder por mais de 30% da receita de exportações. Isto eleva a participação dos primários , semimanufaturados e commodities como álcool e açúcar refinado na pauta de vendas externas a quase 70%, ante menos de 40% dos manufaturados industriais – a conta ainda não está fechada. “Não vejo este desempenho como um processo de desindustrialização do país, o fato é que o projeto de transformar o Brasil numa plataforma de exportação de manufaturados adernou”, ironizou o diretor da AEB.

Os produtos manufaturados industrializados “made in Brazil” estão perdendo competitividade e atratividade por várias razões, sejam de natureza tributária ou cambial, dentre outras, argumenta Castro. “O que acontece é que ficou caro investir para exportar industrializados no Brasil, sem falar no nosso atraso tecnológico”, dispara.

O diretor da AEB não vê com otimismo o cenário recessivo que se desenha nos países do euro. Os maiores compradores de produtos brasileiros hoje são em primeiro lugar a China (15% da receita de exportação), Estados Unidos (10%) e Argentina (8,8%), seguidos da Alemanha e Holanda. “Se a recessão europeia se aprofundar poderá derrubar o preço das commodities em 10% em 2011. Se isso acontecer, podemos ter déficit comercial ano que vem.”

Souza, do Santander, não tem grandes preocupações com um aprofundamento da crise europeia. Para ele, a recuperação dos países desenvolvidos será lenta, mas ocorrerá. “A China, também, não crescerá tão fortemente quanto vem crescendo. Mas será algo suave, de um PIB que deixa de avançar 12% para aumentar 8% ou 9%”, diz. Esse ritmo menos acelerado, no entanto, acarretará em menor disposição para comprar exportações brasileiras.

O reflexo de um resultado negativo na conta de comércio afeta diretamente o balanço de serviços e consequentemente amplia o déficit em conta corrente. A consultoria OPUS, de José Márcio Camargo, estima que se a crise externa persistir, o déficit em conta corrente pode cravar em US$ 60 bilhões. “O Brasil não pode a longo prazo continuar aumentando este déficit. Ou aumenta taxa de poupança ou vai ter que crescer entre 4,5% a 5%, por conta do mau resultado das contas externas”, analisa Camargo.