03/11/2009 - 16:48h Le Monde e o falecimento de Lévi-Strauss
Archéologue des totems et des mythes, musicien de l’esprit, l’anthropologue, père du structuralisme, est mort dans la nuit de samedi à dimanche à l’âge de 100 ans.
- Luis Favre
Archéologue des totems et des mythes, musicien de l’esprit, l’anthropologue, père du structuralisme, est mort dans la nuit de samedi à dimanche à l’âge de 100 ans.
da Folha Online
A cantora argentina Mercedes Sosa morreu hoje, aos 74 anos, no hospital em Buenos Aires onde estava internada há cerca de um mês.
Sosa foi internada por conta de um problema hepático que piorou com complicações pulmonares. Nos últimos dias, ela respirava com a ajuda de aparelhos.
O filho de Sosa, Fabián Matus, afirmou à imprensa argentina que o momento era de “oração”, mas que ainda tinha esperanças sobre a recuperação de sua mãe.
Gabriela Téllez/Efe

Mercedes Sosa durante show em San José, na Costa Rica, em março do ano passado
“Ela viveu plenamente seus 74 anos, fez praticamente tudo o que quis, não teve nenhum tipo de barreira nem medo. Viveu uma vida muito plena, que foi dolorosa, pelo exílio”, disse.
A cantora já havia sido hospitalizada em março deste ano, devido a um quadro de pneumonia e desidratação.
A saúde frágil da cantora a impediu de lançar oficialmente seu álbum duplo “Cantora”, que traz participações de Caetano Veloso, Shakira e Joan Manuel Serrat, entre outros artistas.
Com uma carreira de mais de quatro décadas, Mercedes Sosa foi uma das vozes mais representativas da música popular argentina e da América Latina.
Mercedes Sosa – Gracias a La Vida (letra de Violeta Parra) Mercedes Sosa
Mercedes Sosa canta Gracias a la Vida – Letra de Violeta Parra
Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me dio dos luceros que cuando los abro
perfecto distingo lo negro del blanco
y en el alto cielo su fondo estrellado
y en las multitudes el hombre que yo amo.
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
me ha dado el oido que en todo su ancho
graba noche y dia grillos y canarios
martillos, turbinas, ladridos, chubascos
y la voz tan tierna de mi bien amado.
Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado el sonido y el abedecedario
con él las palabras que pienso y declaro
madre amigo hermano y luz alumbrando,
la ruta del alma del que estoy amando.
Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado la marcha de mis pies cansados
con ellos anduve ciudades y charcos,
playas y desiertos montañas y llanos
y la casa tuya, tu calle y tu patio.
Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me dio el corazón que agita su marco
cuando miro el fruto del cerebro humano,
cuando miro el bueno tan lejos del malo,
cuando miro el fondo de tus ojos claros.
Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado la risa y me ha dado el llanto,
asi yo distingo dicha de quebranto
los dos materiales que forman mi canto
y el canto de ustedes que es el mismo canto
y el canto de todos que es mi propio canto.
Gracias a la Vida
Gracias a la Vida
Gracias a la Vida
Gracias a la Vida
Translate to English:
Mercedes Sosa – Thanks to life (Violeta Parra)
Thanks to life, which has given me so much.
It gave me two beams of light, that when opened,
Can perfectly distinguish black from white
And in the sky above, her starry backdrop,
And from within the multitude
The one that I love.
Thanks to life, which has given me so much.
It gave me an ear that, in all of its width
Records— night and day—crickets and canaries,
Hammers and turbines and bricks and storms,
And the tender voice of my beloved.
Thanks to life, which has given me so much.
It gave me sound and the alphabet.
With them the words that I think and declare:
“Mother,” “Friend,” “Brother” and the light shining.
The route of the soul from which comes love.
Thanks to life, which has given me so much.
It gave me the ability to walk with my tired feet.
With them I have traversed cities and puddles
Valleys and deserts, mountains and plains.
And your house, your street and your patio.
Thanks to life, which has given me so much.
It gave me a heart, that causes my frame to shudder,
When I see the fruit of the human brain,
When I see good so far from bad,
When I see within the clarity of your eyes…
Thanks to life, which has given me so much.
It gave me laughter and it gave me longing.
With them I distinguish happiness and pain—
The two materials from which my songs are formed,
And your song, as well, which is the same song.
And everyone’s song, which is my very song.
Thanks to life
Thanks to life
Thanks to life
Thanks to life
Tradução para Português:
Mercedes Sosa – Obrigado à vida (Violeta Parra)
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me dois olhos que, quando os abro
perfeitamente distingo o preto do branco
e no alto céu, o seu fundo estrelado
e nas multidões, o homem que eu amo.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o ouvido que, em toda a amplitude,
grava, noite e dia, grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuviscos
e a voz tão terna do meu bem amado.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o som e o abecedário
e, com ele, as palavras com que penso e falo
mãe, amigo, irmão e luz iluminando
a rota da alma de quem estou amando.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me a marcha dos meus pés cansados
com eles andei por cidades e charcos,
praias e desertos, montanhas e planícies
pela tua casa, tua rua e teu pátio.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o coração que todo se agita
quando vejo o fruto do cérebro humano,
quando vejo o bem tão longe do mal,
quando vejo no fundo do teus olhos claros.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o riso e deu-me o pranto
assim eu distingo a felicidade da tristeza,
os dois materiais de que é feito o meu canto
e o canto de todos, que é o meu próprio canto
Obrigado à Vida
Obrigado à Vida
Obrigado à Vida
Obrigado à Vida
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MORRE ALICIA DE LARROCHA
A pianista espanhola Alicia de Larrocha morreu ontem, aos 86 anos, em Barcelona, de parada cardiorrespiratória.
Famosa por suas interpretações de Mozart e de compositores espanhóis, Alicia fez sua estreia aos cinco anos -aos nove, gravou pela primeira vez. Ela esteve em turnê pelo Brasil em 98, quando tocou no Festival de Inverno de Campos do Jordão.
W.A.Mozart – Piano Concerto N° 27 in B flat major, K 595 – I.Allegro
Alicia de Larrocha, piano
Orchestra della Svizzera Italiana, Nicholas Carthy

As artes cênicas perdem a revolucionária inventora da dança-teatro, que morreu ontem de câncer, aos 68 anos, na Alemanha
Beth Néspoli – O Estado SP
Morreu ontem pela manhã aos 68 anos a coreógrafa alemã Pina Bausch, a artista que dissolveu os limites entre teatro e dança, sem dúvida uma das mais importantes e influentes personalidades da artes cênicas no século 20. Pina, que faria 69 anos no dia 27, morreu no hospital “de forma rápida e inesperada apenas cinco dias após ter recebido o diagnóstico de câncer”, informou Ursula Popp, a porta-voz do Tanztheater Wuppertal.
A companhia, fundada por Pina Bausch em 1973, cujo raio de influência atingiu dançarinos do mundo inteiro, estava em apresentação na Polônia e viria ao Brasil em setembro com dois programas: Café Müller, obra para seis bailarinos, considerada marco na carreira da coreógrafa e da qual ela ainda participava, eventualmente, como bailarina; e A Sagração da Primavera, criada para 42 bailarinos. Os dois espetáculos integram a programação de segundo semestre da Temporada de Dança do Teatro Alfa, e as apresentações devem ser mantidas, apesar da perda da criadora e mestra Pina Bausch.
Pina nasceu em Solingen, na Alemanha, em 27 de julho de 1940. Estudou na mais importante escola moderna de seu país, a Folkwang, em Essen, dirigida por Kurt Jooss, onde recebeu e transformou a herança dos mestres do expressionismo como Laban. Estudou também na conceituada escola de dança norte-americana Juilliard. Logo alçou voo autoral. Um de seus méritos, apontam especialistas, foi recuperar o pensamento do coreógrafo Jean-Jacques Noverre (1727 -1810) cujo trabalho recebeu o nome de balé de ação.
A retomada da arte de Noverre, por ela aprimorada ao longo dos anos, levou à implosão da fronteira entre dança e teatro. Fenômeno estético que os brasileiros puderam conferir com seus próprios olhos no palco do mesmo Teatro Alfa, em 2007, quando Pina Bausch e seus bailarinos (entre eles, duas brasileiras, Regina Advento e Ruth Amarante), apresentaram o balé Água, que tinha o Brasil como fonte de inspiração.
Num dos números, uma bailarina entrava solitária no palco com um travesseiro na mão e se acomodava para dormir. A atmosfera era bucólica, um bangalô em meio à natureza no qual se ouviam grilos e aves noturnas. Ocorre que os sons pouco a pouco aumentavam de volume e se diversificavam num coral altissonante, não deixando a moça dormir. Entre risos, o espectador se dava conta que compreenderia seu desejo de cortar todas as árvores. Humor, sinal de inteligência, estava entre as qualidades dessa artista que revolucionou a dança.
Pina Bausch veio ao Brasil pela terceira vez em 1997 para apresentar pela primeira vez no País uma ópera, Ifigênia em Tauris, de Gluck, e a coreografia Cravos, ambas no Teatro Municipal do Rio. O impacto visual da segunda – o palco era inundado por 8 mil cravos vermelhos – foi tão intenso que, ao contrário das visitas anteriores, desta vez sua obra agradou ao grande público. Essa coreografia inaugurou uma parceria jamais desfeita, entre Pina Bausch, Marion Cito nos figurinos e Peter Pabst nos cenários. E mais. Nessa ocasião a coreógrafa conheceu o brasileiro Caetano Veloso, a quem convidou para participar da festa de comemoração, na Alemanha, dos 25 anos da Tanztheater Wuppertal, em 1998.
Na programação de aniversário, estavam sete peças: Ifigênia em Tauris (1974), Café Müller (1974), Arien (1979), Viktor (1986), Palermo, Palermo (1989), Nur Du (1996), coreografia que consagrou mundialmente a dançarina brasileira Regina Advento, e Der Fenstputzer (1997). Caetano participou com dois concertos. Em comum com o cantor e compositor brasileiro, Pina Bausch tem a participação num filme de Pedro Almodóvar, Fale com Ela.
Café Müller é uma das primeiras e mais importantes peças de Pina. Ela tem apenas 30 minutos, seus espetáculos sempre duram no mínimo duas horas, e é representada apenas por seis bailarinos, outra característica rara. Infelizmente, não terá mais a participação da coreógrafa. Ainda assim, os brasileiros poderão assistir à essa peça em setembro, apenas um mês antes do aniversário de 36 anos da Tanztheater Wuppertal. Pina foi casada com o cenógrafo holandês Rolf Borzik, morto em 1980, e atualmente com o chileno Ronald Kay.
Leia mais sobre Pina Bausch no caderno do Estadão
Nota
Rendo homenagens a José Aristodemo Pinotti. Incansável na luta contra o câncer, extraordinário profissional, salvou a vida de muitas mulheres. Fomos colegas na comissão da Saúde da Câmara dos Deputados, ocasião em que pude constatar sua grande capacidade de trabalho.
Marta Suplicy

SARAH MARSH – REUTERS – Agencia Estado
BERLIM – A coreógrafa alemã Pina Bausch, que revolucionou a linguagem da dança moderna, morreu na terça-feira, depois de ter recebido um diagnóstico de câncer dias antes. Ela tinha 68 anos.
Diretora artística do Teatro de Dança Wuppertal, Bausch ganhou fama internacional por suas performances e coreografias de vanguarda misturando dança, som e narrativas fragmentadas.
“No penúltimo domingo, ela estava aqui, no palco do Teatro de Ópera de Wuppertal, com sua companhia”, disse em seu site na Internet a companhia de dança e teatro, que Bausch liderava desde 1973.
A companhia disse que Bausch recebeu o diagnóstico de câncer apenas cinco dias antes de sua morte.
“Diferentemente de quase todos os outros, ela se libertou das estruturas tradicionais da dança, modernizou o balé clássico e cunhou seu estilo próprio e idiossincrático”, disse o vice-chanceler alemão Frank-Walter Steinmeier em comunicado.
Pina Bausch coreografou e encenou suas próprias obras, como “Café Mueller” e “Viktor”, e atuou em filmes de ícones do cinema como Federico Fellini e Pedro Almodóvar.
A coreógrafa vinha se preparando para trabalhar com o diretor Wim Wenders em um filme descrito como o primeiro filme de dança em 3D, intitulado “Pina”.
Em Paris, onde ela se apresentava com frequência, o prefeito Bertrand Delanoe e o ministro da Cultura francês, Frederic Mitterrand, expressaram suas condolências.
“O mundo da dança está de luto hoje após a perda de uma de suas representantes mais brilhantes”, disse Mitterrand.
Pina Bausch iniciou seus estudos de dança aos 14 anos de idade na Escola Folkwang, em Essen, onde estudou com vários mestres, incluindo o coreógrafo expressionista alemão Kurt Jooss.
Em 1960 ela foi a Nova York estudar na Juilliard School, mais tarde tornando-se membro da companhia de balé do Metropolitan Opera.
Em 1962 ela retornou à Alemanha, onde se tornou solista do recém-formado Folkwang Ballett. Em 1973 ela se tornou diretora artística e coreógrafo da companhia de dança e teatro Wuppertal, que acabava de ser fundada.
“Pina Bausch ampliou continuamente os limites do que chamamos de dança”, comentou John Neumeier, diretor da companhia de balé de Hamburgo. “Simplesmente não consigo imaginar um sucessor para ela.”
Lula lamenta morte do jurista Goffredo da Silva Telles Junior
colaboração para a Folha Online
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou através de uma nota divulgada no site do Governo a morte do professor e jurista Goffredo da Silva Telles Junior, na noite de ontem (27), em São Paulo.
Até por volta das 15h, o corpo do jurista era velado no Salão Nobre da Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo), no Largo São Francisco (centro de SP). O enterro será no cemitério da Consolação e está previsto para as 16h.
Familiares disseram que Telles estava em casa e morreu de causas naturais, por volta das 19h de ontem. De acordo com sua filha, Olívia Raposo da Silva Telles, 37, o advogado “morreu de velhice, como um passarinho”. Além de Olívia, ele deixa a mulher, Maria Eugênia e duas netas.
Goffredo Carlos da Silva Telles era filho de Goffredo Teixeira da Silva Telles. Para evitar confusão com o nome do pai, o jurista adotou o nome de Goffredo da Silva Telles Junior. “Júnior” era filho de Goffredo com Carolina Penteado da Silva Telles.
Ele cursou em 1937 a Faculdade de Direito da USP. Em 1932, participou como soldado da Revolução Constitucionalista de São Paulo. Desde 1940 era professor de direito na USP, onde lecionou por 45 anos.
Foi um dos mais destacados combatentes pela democracia e pelo Estado de Direito da História do Brasil. Em 1946, foi deputado constituinte e notabilizou-se, entre outras causas, pela defesa da Amazônia. Em 1977, em pleno regime militar, redigiu e leu a “Carta aos Brasileiros”, marco da resistência democrática.
Segundo a filha, apesar da aposentadoria em 1985, o jurista continuou trabalhando no seu escritório e nos últimos anos orientava alunos. Ele recebeu o título de professor emérito da Universidade de São Paulo.
Em setembro de 1967, ele se casou com Maria Eugênia Raposo da Silva Telles, advogada, formada pela Faculdade de Direito da USP.
Escritor uruguaio, autor de mais de 80 livros, deixa órfã uma legião de leitores

Eric Nepomuceno – O Estado SP
O domingo 17 de maio foi um dia de céu encapotado e rajadas de chuva e ventania em Montevidéu, que ele chamava de ‘cidade de todos os ventos’. Se tivesse olhado pelas amplas janelas de seu apartamento na Avenida 18 de Julho, Mario Benedetti constataria uma vez mais que nesta época do ano Montevidéu é um mundo de terna melancolia.
Mas ele não saiu da cama. Passou o dia todo alternando o sono sossegado com períodos de um despertar calado, distante. Pelo fim da tarde sua respiração tranqüila foi se fazendo mais suave, mais suave, até que, quando faltavam cinco para as 6, parou de vez. Assim, dormitando na penumbra e sem nenhum olhar de despedida, foi-se embora esse poeta cálido e bondoso, tímido e cordial como corresponde aos uruguaios de velha estirpe. Um homem de resistência e compromisso permanente, num tempo em que isso já não significa quase nada. Continuou sendo o militante de sempre, contra ventos e marés. “As causas nas quais creio me dão impulso, e por defendê-las durmo tranquilo. Não me sinto derrotado em minhas crenças ideológicas e vou continuar lutando por elas. Sem êxito, já sei”, dizia.
Se tivesse ficado por aqui até o dia 14 de setembro, cumpriria 89 anos. Não quis esperar. Na verdade, Mario começou a ir embora em abril de 2006, quando morreu Luz López, com quem foi casado durante 60 anos. Continuou escrevendo, mas a vida já não tinha graça. Dizia ele, nesses últimos tempos: Acontece a noite e estou sozinho/ a duras penas carrego meu próprio peso/ a morte levou o bom amor/ e já não sei para quem continuar vivendo.
Deixou desolada uma multidão de leitores, e, nos amigos, um vazio sem fim. “Que será de nós sem sua bondade inexplicável?”, escreveu Eduardo Galeano. “Mario foi, sobretudo, um homem bom”, assegura o poeta argentino Juan Gelman, outro companheiro de longas jornadas. Ao saber de sua morte, o espanhol Fran Sevilla disse: “Há dias que não deveriam amanhecer.” A lista de amigos que amargam essa dor é enorme, se espalha pelos mapas, vai de pintores a músicos, de escritores a poetas, de jovens esperançosos a velhos lutadores das causas perdidas, ou quase, nesta América Latina. Em silêncio, abrumados pela própria dor, ficam milhões de leitores em todo o mundo. De certa forma, saber dessa amplidão de gente que se deixou embalar e acalentar pela sua poesia serve de consolo aos amigos. “Mario ocupava um lugar muito maior do que ele mesmo achava”, diz um deles, o escritor português José Saramago.
Foram mais de 80 livros publicados ao longo de 63 anos. Alguns, como os romances La Tregua e Gracias por el Fuego, tiveram mais de cem edições. Escreveu contos, romances, ensaios, crítica literária e obras de teatro. Mas foi sua poesia que fez dele um dos latino-americanos mais lidos nos últimos muitos anos. Seus versos estão em camisetas, bolsas, cartões-postais, xícaras, cartazes, e foram transformados em canções cantadas por gerações. Muitos desses versos, copiados por milhares de jovens que fingiam uma autoria imaginada, venceram amores esquivos. Cada vez que alguém dizia a Mario que tinha conquistado o grande amor graças aos seus poemas roubados, ele sorria feliz.
Seu livro de estréia, La Víspera Indeleble, vendeu exatamente nove exemplares. Foi seu presente de casamento para Luz, em março de 1946. Dez anos e cinco livros mais tarde, publicou Poemas de la Oficina. E com esses ?poemas de escritório? ganhou prestígio. Não foi nenhum êxito de vendas, mesmo porque a tiragem era de 500 exemplares. Mas ele se tornou conhecido. Naquela altura, fazia parte do mítico semanário Marcha, dirigido por Carlos Quijano, e integrava a mais importante geração literária de seu país, a de 1945, ao lado da poeta Idea Villariño e de um mestre absoluto, Juan Carlos Onetti.
Filho de um farmacêutico e de uma dona de casa, foi batizado seguindo a estranha tradição italiana de nomes longuíssimos: Mario Orlando Hamlet Hardy Brenno Benedetti. Tinha 4 anos quando a família saiu de Paso de Los Toros e foi para Montevidéu viver uma infância de privações, que se estenderam adolescência afora. Trabalhou como vendedor de peças de automóvel, depois foi taquígrafo, mensageiro, contador, gerente de imobiliária, jornalista e funcionário público, entre muitas outras atividades.
Em seus contos e romances, estendeu sempre um olhar solidário e compreensivo para a pequena classe média uruguaia – a aridez da vida dos burocratas, a rotina amarga de um cotidiano de pouco horizonte e sonhos restritos. Traçou as distâncias entre esperança e realidade, e seus personagens eram gente comum, encontrados nos mergulhos na alma humana que Mario soube fazer tão bem. Com o romance La Tregua, de 1960, chegou ao grande público. O livro teve 150 edições em 24 países. Cinco anos depois, com Gracias por el Fuego, veio a consagração definitiva entre os escritores latino-americanos da segunda metade do século 20.
Sua poesia assegurou a ele a legião de leitores que desde o domingo, 17 de maio, ficaram órfãos. Foram 36 livros, sem contar antologias e compilações, de poemas em linguagem simples, espontânea, coloquial, ele que foi o poeta dos sentimentos, das emoções e das idéias, versos vivos que eram como conversas numa varanda entardecida.
Sua vida foi a de um homem de esquerda, de compromisso com seu tempo e sua gente – um compromisso que custou perseguições e ameaças, exílio, desterro, as dores das separações e das perdas. Acreditava num outro mundo possível. Foi um suave indignado, um doce iracundo. Aliou sempre o rigor da palavra escrita – “como escritor, meu primeiro compromisso é com a literatura” – com sua visão de mundo: “Como cidadão, tudo que afeta o homem me diz respeito, e se o cidadão é escritor é natural que a preocupação política apareça em sua obra”, dizia.
Galeano nos apresentou na Buenos Aires de 1973, onde eu morava e ele chegou exilado. Ao longo desses anos todos o mundo rodou e nós também, e nos encontramos em Lima e Madri, no México e em Havana, em Paris e em Manágua, e dele guardo a memória de um humor ingênuo e tímido, uma esperança tranqüila e permanente, um olhar límpido, guardo a certeza de ter sido amigo de um homem bom, generoso e solidário. O tempo e as distâncias diminuíram nosso convívio mas não nos afastaram jamais. E o que mais me dói agora é nunca ter dito a Mario quanto eu gostava dele.
Um de seus poemas dos últimos tempos pede: quando me enterrem/ por favor não se esqueçam/ da minha caneta. Na manhã da terça-feira, dia 19, Mario Benedetti foi enterrado em Montevidéu. Milhares de pessoas o acompanharam ao longo de 30 quarteirões, seu derradeiro passeio pela cidade. Nenhuma delas jamais esquecerá sua caneta, nem as palavras que escreveu.
Nossa amiga e companheira Guta nos deixou
José Dirceu
Infelizmente, Maria Augusta Carneiro Ribeiro, a Guta, não resistiu às conseqüências do acidente que sofreu há algumas semanas. Guardarei dela a imagem de combatente e de resistente – marcas que a acompanharam sempre, até agora nesses dias em que, hospitalizada, lutou bravamente pela vida. Essa coragem e disposição são as características maiores que ficam de sua vida inteira.
Sua morte é uma grande perda para os amigos que, como eu, sempre a acompanharam e a admiraram. Guta, junto com companheiros seus do MR-8 e da Dissidência Guanabara – Vladimir Palmeira e Ricardo Vilas Boas – fez parte do grupo dos 15 presos políticos (entre os quais, eu) trocados pelo embaixador americano Charles Burke Elbrick em 1969.
Eu a conheci naquela viagem pós-troca para a cidade do México e depois nos meses de convivência lá, até a nossa ida para Cuba, onde ela viveu um período e se preparou para voltar ao Brasil. Sempre estivemos próximos e ligados politicamente, embora distantes geograficamente, em países e depois em Estados diferentes.
Nesse momento em que me despeço dela, lembro-me de quando nos encontrávamos e de nossa relação afetuosa. Era como retomar o papo do dia anterior. A partida de Guta é uma grande perda para mim e para toda a nossa geração.
Nos últimos anos, ela trabalhou como Ouvidora da Petrobras. Sua última luta (ou a penúltima, antes da que travou pela vida no hospital) foi em defesa do seu sobrinho neto, Sean, cujo pai – o norte-americano David Goldman – trava na justiça, com o pai adotivo brasileiro, uma batalha para levá-lo aos Estados Unidos.
A permanência da criança no Brasil, com a família de sua mãe – Bruna Bianchi Carneiro Ribeiro, já falecida – foi a última grande causa na qual Guta se engajou. Essa é uma causa, portanto, que podemos e devemos abraçar como uma homenagem a Guta.
No início da noite, recebi a informação de que o corpo da companheira Guta será velado amanhã, das 9 às 15h na capela número 7 do Cemitério São João Batista. Às 13 horas haverá uma homenagem de seu filho Luis Henrique e companheiros e ao término do velório, o corpo será cremado.
Foto de Guta, no alto (D): site da Petrobras; imagem dos ex-presos políticos – autor desconhecido

Morre guerrilheira trocada por embaixador dos EUA
Atual ouvidora-geral da Petrobrás, ela estava internada desde 25 de abril, quando sofreu acidente grave de carro em Búzios
Felipe Werneck – O Estado SP
Morreu ontem, no Rio, Maria Augusta Carneiro Ribeiro, a Guta, única mulher entre os 15 presos políticos libertados em 1969 em troca do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, sequestrado dias antes, na mais ousada das ações executadas por organizações de esquerda durante o regime militar. Maria Augusta tinha 62 anos e trabalhava desde 2003 como ouvidora-geral da Petrobrás.
Ela havia sofrido um acidente grave de carro no dia 25 de abril, em Búzios, no litoral norte do Rio. O Hospital Copa D?Or, para onde foi transferida de helicóptero um dia após o acidente, informou que ela morreu às 10h40, vítima de falência múltipla de órgãos. De acordo com o hospital, Maria Augusta foi submetida a diversas cirurgias, mas não resistiu.
Em nota, a Petrobrás destacou a trajetória “marcada pela luta em prol dos direitos humanos e pela redemocratização do País” de Maria Augusta. Ela tinha 21 anos quando, no dia 7 de Setembro de 1969, os jornais de todo o País apresentaram a fotografia de 13 dos 15 presos políticos libertados em troca do embaixador Elbrick – sequestrado numa ação conjunta da Ação Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).
De acordo com o acerto feito entre o governo e os sequestradores, os presos foram despachados para a Cidade do México, seguindo depois para Cuba. Na foto, diante de um avião Hércules 56, Guta aparecia entre os militantes Ricardo Vilas Boas e Ricardo Zarattini.
Também fazia parte do grupo o ex-ministro José Dirceu, que ontem relembrou o episódio em seu blog. Disse que conheceu Guta na viagem para o México. “Guardarei dela a imagem de combatente e de resistente, marcas que a acompanharam sempre, até agora nesses dias em que, hospitalizada, lutou bravamente pela vida”, escreveu ele em seu blog.
O ex-ministro elogiou a atuação de Guta na Petrobrás, afirmando que transformou a ouvidoria em “importante ferramenta para a garantia da transparência, valorização dos princípios éticos e respeito aos direitos humanos”.
Quando foi detida, em maio de 1969, Guta militava na Dissidência Guanabara do Partido Comunista, que mais tarde passaria a ser conhecida como MR-8. Na prisão, foi torturada e teve alguns de seus dentes quebrados.
No exterior, passou por Chile, Itália, Argélia e Suécia. Voltou ao Brasil em 1979, após a Lei da Anistia, e participou da fundação do PT do Rio. Durante o governo de Benedita da Silva dirigiu da Fundação Santa Cabrini, da Secretaria de Justiça. Segundo Dirceu, a última causa na qual ela se engajou foi na defesa de seu sobrinho-neto Sean, cujo pai , o norte-americano David Goldman, disputa na Justiça, com o pai adotivo brasileiro, a guarda da criança.
Guta não gostava de falar sobre a tortura que sofreu naquele ano de 1969, quando o País era governado por triunvirato militar, após o marechal Costa e Silva ter sofrido uma isquemia cerebral e sido afastado da Presidência da República.
obituário
Ricardo Daehn e Tiago Faria – Correio Braziliense
| Paulo de Araújo/CB/D.A Press – 13/3/08 |
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| Augusto Boal em sua última visita a Brasília, em março do ano passado: dinâmica de teatro-fórum |
Referência das artes cênicas brasileiras no mundo, o diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta Augusto Boal morreu na madrugada de ontem, aos 78 anos. Fundador do Teatro do Oprimido, sedimentado na encenação como meio de reflexão social e ação política, foi expoente do Teatro de Arena de São Paulo até os anos 1970. Ele sofria de leucemia e morreu de insuficiência respiratória. “Boal é um dos deuses do arquipélago do teatro, um dos mitos da nossa religião. Uma perda irreparável”, lamentou o diretor Aderbal Freire-Filho, que enviou a notícia aos amigos.
Uma forte corrente em favor da candidatura do teatrólogo ao Nobel da Paz, em 2008, com endosso de países como França, Venezuela, Suécia e Guiné-Bissau, referendou ainda mais o valor do autor de mais de 30 publicações, com teorias (difundidas em mais de 70 países) que nutriam a ação de mais de 300 grupos mundo afora. O diretor do Centro de Teatro do Oprimido, porém, não tinha vaidade: “Sou orgulhoso, mas pelo fato de aquilo que comecei ser praticado hoje por centenas de milhares de pessoas no mundo inteiro”. O movimento calcado em princípios pedagógicos de Augusto Boal preza princípios democráticos caros ao artista, que, nos anos 1970, esteve exilado na Argentina. Mecanismo de transformação social, as bases pregadas por ele incitavam a liberdade em cena. “A arte é criativa, ela não pode ser amarrada em coisas preestabelecidas”, defendia.
“Desejamos que a plateia abandone sua prisão, que é a poltrona”, disse Boal ao Correio, por ocasião de uma dinâmica de teatro-fórum com alunos da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes e da Universidade de Brasília em março de 2008. Com gênese nos tempos da ditadura, o teatro dele servia como modalidade lúdica, qualificada por questionamentos e pela participação. “Sou um homem da paz. Mas a paz tem um inimigo: a passividade”, sublinhou o teórico, que, na prática, concebia a estética com “a comunicação através dos sentidos”.
O homem de teatro capaz de agrupar 12 mil pessoas numa marcha, como aconteceu em Calcutá (Índia), recebeu grandes homenagens em vida. Uma das mais recentes foi na Maison Fontenoy (em Paris), numa proposta da Unesco em comemoração ao Dia Mundial do Teatro (27 de março). Na capital francesa, ele recebeu o título de Embaixador Mundial do Teatro. Discursos de representantes do Internacional Theatre Institute embalaram os festejos, marcados por exposição de fotos e apresentação da peça O cozinheiro disse para o coelho: vamos preparar o jantar?, criação do filho dele, Julián Boal.
Contestação
Nos palcos, Boal levou ao limite o espírito de contestação. A partir do golpe de 1964, encenou espetáculos de protesto como Opinião, que reuniu Zé Kéti, João do Vale e Nara Leão. O objetivo era plantar a semente de um foco artístico de resistência política. Como consequencia, assinou projetos que aliaram crítica social a invenções de linguagem. Em Arena conta Zumbi (1965), experimentou o “sistema curinga”, em que oito atores se revezavam para interpretar os personagens. A boa repercussão permitiu a produção do também histórico Arena conta Bahia, com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Tom Zé. Em Arena conta Tiradentes, o diretor abandonou a narrativa linear em prol da conexão livre de fatos e personagens que refletiam o período de repressão.
Apesar de reforçado nos anos de chumbo, o papel protagonista na renovação do teatro brasileiro começou antes. Em 1956, ao entrar para o Teatro de Arena de São Paulo, ajudou a consagrá-lo como uma das principais companhias do país. O sucesso veio rapidamente. Logo na primeira direção (Ratos e homens, de John Steinbeck, de 1956), venceu o prêmio de revelação da Associação Paulista de Críticos de Arte. Ainda que a ligação com temas políticos já aflorasse, seu primeiro texto encenado foi uma comédia de costumes, Marido magro, mulher chata. A pesquisa teatral se aprofundou no sentido de estreitar as relações entre arte e realidade, sempre com a proposta de formar novos dramaturgos. Em 1960, agregou a criação artística à oficina de atores na montagem de Fogo frio, de Benedito Ruy Barbosa, em conjunto com o Teatro Oficina.
Aos 9 anos, Boal já ensaiava peças em casa com os irmãos. Quando decidiu estudar engenharia na Universidade do Brasil (atual UFRJ), aos 18, não abandonou o trabalho com textos para o palco. Nos anos 1950, dividiu a rotina entre estudos acadêmicos na Columbia University (Ph.D em engenharia química) e aulas de dramaturgia na School of Dramatic Artis, com John Gassner. Tratado pelo jornal britânico The Guardian como o “reinventor do teatro político”, Boal manteve-se defensor da liberdade de expressão. “Não me incomodo de perder quando existe um debate ideológico e social. Mas ser derrotado por um Estado armado, com canhões e tanques de guerra, dá uma tristeza enorme”, disse ao Correio em junho de 2007.
Colaborou Nahima Maciel
É uma perda enorme para a cultura brasileira e para os povos oprimidos da Terra
Guilherme ReisNo teatro brasileiro, é o artista que conseguiu maior projeção, talvez menos pelo trabalho artístico do que pelos escritos teóricos
Antonio AraújoEra instigante como conseguia conjugar a arte teatral e a educação, a arte teatral e cidadania
Fernando Villar
A importância do teatro do Boal é descobrir que, quando você protagoniza uma cena, protagoniza sua vida, deixa de ser oprimido e cria ferramentas para lutar contra o sistema
Silvia Paz
Em Boal, o importante é o ser humano. Tudo é possível, inclusive transformar a realidade, a fome, a miséria, as opressões, o trabalho escravo, o meio ambiente
Geo Brito
colaboração para a Folha Online
O diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta Augusto Boal morreu na madrugada deste sábado no Hospital Samaritano, do Rio de Janeiro. Ele tinha 78 anos.
| Zé Paulo Cardeal/Tv Globo |
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| Dramaturgo Augusto Boal morreu na madrugada deste sábado (2) no Rio de Janeiro |
Boal sofreu uma insuficiência respiratória às 2h40 de hoje.
Segundo a assessoria do hospital, ele estava internado desde o dia 28 de abril.
O corpo foi removido da instituição às 16h deste sábado.
Boal nasceu no dia 16 de março de 1931, no Rio de Janeiro.
Fundador do Teatro do Oprimido, ele também ficou conhecido por sua participação no Teatro de Arena da cidade de São Paulo (1956 a 1970).
28.06.07/Folha Imagem

Deputado Carlo Wilson (PT-PE) morreu aos 59 anos
Morreu por volta das 22h deste sábado (11) em Recife o deputado federal Carlos Wilson (PT-PE). Ele estava internado há cerca de um mês em tratamento contra o câncer.
De acordo com o hospital Santa Joana, onde Wilson estava internado, o câncer do deputado, que começou nos rins, já estava em estado avançado e havia atingido outros órgãos.
Em fevereiro, durante a votação para escolher o novo presidente da Câmara, Wilson sentiu-se mal e deixou o plenário antes do fim da votação.
Advogado, Wilson foi da Arena na década de 70 e estava em sua quarta legislatura como deputado federal. Antes de chegar ao PT em 2003, passou por PMDB (1980 a 1992), PSDB (1993 a 1999) e PTB (1999 a 2002).
Foi vice-governador de Pernambuco entre 1987 e 1990 e chegou a assumir o governo entre 1990 e 1991. Também foi senador por seu Estado de 1995 a 2003.
Durante o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi presidente da Infraero, cargo que ocupou até 2006.
Entre suas proposições na Câmara, é autor da proposta de emenda constitucional que prevê suspensão do mandato para quem responde a processo por ferir o decoro parlamentar.
Segundo o hospital, o velório do deputado acontece no Palácio do Campo das Princesas, sede do Governo Estadual. O enterro está marcado para às 16h, no cemitério Morada da Paz.
Olavo Setubal

Rubens Barbosa * – O Estado de São Paulo
Foi na transição do período autoritário para a democracia que conheci Olavo Setubal. Indicado por Tancredo Neves, em 1985, para o Ministério das Relações Exteriores, fui convidado para chefiar seu gabinete, o primeiro diplomata chamado por ele para integrar sua equipe. Naquele primeiro governo civil depois de tantos anos, ele teria preferido ser ministro da Fazenda, mas acabou no Itamaraty, sem jamais, como ele mesmo dizia, ter passado em frente à porta do Ministério.
A proximidade no dia a dia me privilegiou acompanhar de perto o homem público que, como prefeito de São Paulo e depois como ministro das Relações Exteriores, marcou presença na política brasileira, além de criar e consolidar uma das maiores instituições financeiras nacionais que é o Grupo Itaú.
A gestão Olavo Setubal no Itamaraty foi curta, de menos de um ano, e lamentavelmente interrompida pela aventura, logo abortada, de disputar o governo do Estado de São Paulo em 1986. Dias depois de deixar o Ministério, num domingo, o dia da convenção, chamou-me por telefone de São Paulo para contar que acabava de retirar sua candidatura. Disse-lhe, com a lealdade e a franqueza que caracterizava nosso relacionamento, que não me surpreendia pois o partido me parecia mais interessado no apoio financeiro que poderia representar do que na sua candidatura. Perdia São Paulo um eventual grande governador e o Itamaraty o grande ministro que já estava sendo.
Lembro quando, em seu primeiro dia como ministro, recebeu o ex-perseguido político Miguel Arraes que vinha da Argélia para pedir o apoio do Itamaraty para o Sarauí, um movimento revolucionário que lutava pela independência do Marrocos. Doutor Olavo ouviu-o longamente e depois que Arraes saiu, perplexo, indagou de seus principais assessores: “Que movimento é esse ? Em São Paulo, nunca ninguém ouviu falar de Sarauí”.
Mesmo após sua saída do Itamaraty, ao longo de minha carreira, continuei a manter estreito e estimulante contato com dr. Olavo, como carinhosamente o chamávamos. Tínhamos longas conversas e o assunto era sempre Itamaraty, política nacional e internacional. “E o nosso Itamaraty como anda?”, era pergunta sua habitual.
Sempre muito bem informado, dr. Olavo era um arguto analista da cena política e econômica brasileira. É verdade que de seu ponto de vista, ou seja, o de um moderno banqueiro nacional.
Certa vez, disse-me ter cometido em sua carreira de homem público, dois grandes erros: o primeiro foi não ter aceitado o convite do MDB para candidatar-se ao Senado em 1974 quando cedeu a vaga a Severo Gomes, e o outro, o de não ter permanecido no Itamaraty.
Apesar da curta passagem pelo Ministério das Relações Exteriores, Olavo Setubal deixou sua marca ao promover a aproximação com a Argentina e, com isso, dar início ao processo de integração do Cone Sul, e também quando, solitariamente, decidiu pela adesão do Brasil ao Grupo de Contadora, formado para apoiar a Nicarágua, em uma região que estava, naquele momento, longe das prioridades do Itamaraty. Essas duas decisões tomadas por Setubal, com reservas de boa parte da burocracia itamaratiana, representou uma renovação e uma guinada nas prioridades da Chancelaria em relação à América do Sul. A chamada “diplomacia de resultados”, inspirada por sua trajetória de empresário e por sua sensibilidade de político, teria certamente introduzido novas e modernas práticas de gestão na Casa assim como, creio eu, teria mudado muitas das percepções tradicionais da atuação diplomática.
Acredito também que, se tivesse permanecido como ministro do Exterior até o fim do governo Sarney, e com o respaldo de uma administração brilhante no Itamaraty, poderia ter sido reservado ao político Olavo Setubal, um papel de relevo no tabuleiro da sucessão presidencial.
Da convivência assídua e próxima com dr. Olavo ficaram-me lições profissionais importantes que procurei levar para as posições de chefia que ocupei pelos 20 anos subseqüentes: coerência nas opiniões, visão clara das prioridades, realismo nas decisões e foco em resultados.
Olavo Setubal tinha uma clara percepção em relação ao futuro do Brasil. Confiava nos avanços da democracia e da economia. Realista, dizia que PIB é poder, indicando que de nada adianta arroubos na política externa sem uma base econômica sólida. O Brasil só teria uma posição importante no concerto das nações na medida em que o PIB crescesse, a economia se estabilizasse e a moeda se fortalecesse.
Nos últimos anos, deixando a presidência do Itaú para Roberto Setubal, mas permanecendo à frente do Conselho da holding Itaúsa, concentrou-se na estratégia do grupo financeiro e industrial. Soube educar os filhos e prepará-los para uma sucessão tranqüila na direção da instituição.
Tornou-se um grande colecionador de objetos de arte, o que ajudou a transformar o Itaú em um diversificado e importante acervo de objetos, esculturas e pinturas.
Viúvo de Tide, mãe de seus sete filhos e, mais tarde, ao lado de sua segunda mulher, a extraordinária Dayse, pôde dedicar-se a fazer o que o trabalho e sua dedicação ao Itaú antes não permitiam: viajar, sobretudo para a Europa, onde merecidamente aproveitava da boa mesa e do bom vinho. Nos últimos dois ou três anos, apesar de debilitado e com crescente dificuldade de locomoção, continuou interessado pela vida, pelas artes e pelo Brasil, que acaba de perder um de seus filhos mais ilustres, exemplo de cidadão e um dos pilares do moderno capitalismo brasileiro.
*Rubens Barbosa foi chefe de Gabinete do ministro Olavo Setubal