15/07/2008 - 10:18h Na crise, liberalismo se refugia no Estado

 

Ajuda oficial não acalma Wall Street


Ações da Fannie Mae caíram 5,1% e da Freddie Mac, 8,3%, após plano de resgate anunciado pela Casa Branca

Patrícia Campos Mello - O Estado de São Paulo

Um dia após o Tesouro americano garantir que vai resgatar as gigantes de hipotecas Fannie Mae e Freddie Mac se for necessário, as empresas passaram por um grande teste de confiança dos investidores. A Freddie Mac conseguiu vender ontem US$ 3 bilhões em títulos de curto prazo, com forte demanda dos investidores.

Mas o plano de resgate anunciado pelo governo americano ainda não tranqüilizou Wall Street. As ações da Fannie encerraram o dia em queda de 5,1% e as da Freddie, em baixa de 8,3%. Os investidores acham que um possível resgate das instituições não salvará o sistema financeiro em geral da grande desaceleração em curso.

As empresas viram suas ações cair mais de 50% na semana passada, por temores do mercado de que elas não tinham capital para honrar compromissos. As duas são garantidoras ou donas de US$ 5,2 trilhões em títulos de hipoteca - metade do mercado hipotecário americano (só para comparar, o orçamento dos EUA para 2008 é de US$ 2,9 trilhões).

A Fannie e a Freddie garantem a liquidez do mercado de crédito imobiliário - e investidores do mundo inteiro compram seus papéis. Bancos centrais estrangeiros, principalmente na Ásia, têm US$ 979 bilhões em títulos vendidos pelas empresas.

“Fannie Mae e a Freddie Mac são grandes demais para quebrar - os riscos para economia em geral superam o risco moral”, diz Juan Licari, economista-sênior da Moody?s Economy.com. Risco moral, no caso, é estimular investidores a assumir riscos exagerados, na esperança de ajuda do governo.

Segundo Arturo Porzecanski, professor de Finanças Internacionais na American University, trata-se de empresas peculiares - têm garantias do governo, mas não são exatamente estatais, porque têm acionistas. “O governo deixou claro que assumirá a responsabilidade pela saúde das empresas.”

No domingo, o Tesouro anunciou que iria ampliar as linhas de crédito para Fannie e Freddie e poderia até comprar ações das duas. O Fed, por sua vez, abriria a janela de redesconto, antes reservada a bancos. Se efetivado, o resgate será o segundo em quatro meses por causa da crise. Em março, o Fed arquitetou a compra do Bear Stearns pelo J.P. Morgan para evitar a quebra do banco - e assumiu grande parte dos ativos arriscados.

Na sexta-feira, o banco IndyMac, à beira da insolvência por causa da inadimplência de hipotecas, sofreu intervenção. E os boatos sobre a saúde financeira do Lehman Brothers, outro banco com grande exposição ao subprime, cresceram ontem, com recuo de 12,2% nas ações. “Esse incidente (com a Fannie e Freddie) não será o último”, disse à Reuters o megainvestidor George Soros. “A atual crise financeira é a mais séria de nossa geração.”

15/07/2008 - 10:02h Fannie, Freddie e você

 

Paul Krugman* - O Estado de São Paulo

E chegamos à etapa seguinte da nossa aparentemente interminável crise financeira. Desta vez são Fannie Mae e Freddie Mac que ocupam as manchetes, com alertas funestos de um colapso iminente.

Até que ponto devemos ficar preocupados? Bem, eu assumo a posição contrária: o clima criado em torno dessas instituições de créditos particulares é exagerado. Fannie e Freddie precisam de um socorro governamental. Mas como já está claro que esse socorro virá, seus problemas não vão arrasar a economia.

Além disso, embora Fannie e Freddie sejam instituições problemáticas, elas não são as responsáveis pelos apuros que estamos passando.

Vamos aos antecedentes: Fannie Mae - Federal National Mortgage Association (Associação Hipotecária Federal) - foi criada na década de 30 para facilitar o acesso à casa própria, comprando hipotecas de bancos, liberando dinheiro que poderia ser utilizado para fazer novos empréstimos. Fannie Mae e Freddie Mac, que operam quase da mesma maneira, hoje financiam a maior parte dos empréstimos feitos nos Estados Unidos para aquisição de imóvel residencial.

Os argumentos contra Fannie e Freddie começam com relação ao seu estatuto peculiar: embora sejam companhias privadas, com acionistas e lucros, elas são “empresas subvencionadas pelo governo”, estabelecidas por lei federal, o que significa que têm privilégios especiais.

O mais importante desses privilégios está implícito: é a crença dos investidores de que, se as duas empresas estiverem ameaçadas de falência, o governo federal partirá em seu socorro.

Essa garantia implícita significa que os lucros são privatizados, mas os prejuízos são socializados. Se Fannie e Freddie prosperam, seus acionistas colhem os benefícios. Porém, se as coisas andam mal, Washington paga a conta. Cara, eles ganham, coroa, nós perdemos.

Esse tipo de aposta que vai num único sentido pode encorajar a assunção de um mau risco porque o inconveniente disso vai ser problema de algum outro. Exemplo clássico de como isso pode acontecer foi a crise das instituições de poupança e empréstimo, nos anos 80. Essas instituições ofereciam altas taxas de juro para atrair grande volume de depósitos garantidos pelo governo federal, e depois especulavam com esse dinheiro. Quando muitas das suas operações deram errado, os fundos federais acabaram pagando o pato. O custo final da arrumação da casa aos contribuintes foi de mais de US$ 100 bilhões.

Mas essa é a questão. Fannie e Freddie não tiveram nada a ver com a explosão dos empréstimos de alto risco iniciada há alguns anos, uma explosão que fez parecer insignificante o fiasco das instituições de poupança e empréstimo dos anos 80. Na verdade, Fannie e Freddie, depois de um veloz crescimento na década de 90, praticamente sumiram de cena durante o pico da bolha imobiliária.

Em parte porque os órgãos reguladores, reagindo aos escândalos contábeis nas empresas, impuseram algumas limitações temporárias para as duas instituições que restringiram suas operações de empréstimos, exatamente quando os preços das habitações estavam realmente decolando.

Além disso, elas não operaram com empréstimos considerados de alto risco porque não podem: um empréstimo de alto risco, ou suprime, pode ser definido precisamente como o empréstimo que não atende aos requisitos, impostos por lei, e Fannie e Freddie só compram hipotecas emitidas para tomadores de empréstimo que dão uma entrada substancial e cuja renda é cuidadosamente documentada.

Assim, quaisquer incentivos negativos criados por essa garantia federal implícita são contrabalançados pelo fato de que Fannie e Freddie foram e são fortemente regulamentadas no tocante aos riscos que podem assumir. Você pode dizer que a experiência de Fannie e Freddie mostra que a regulamentação funciona.

Nesse caso, porém, como elas acabaram em dificuldade? Parte da resposta está na magnitude da bolha imobiliária e no porte das quedas de preço que vêm ocorrendo hoje com o estouro dessa bolha.

Em Los Angeles, Miami e outros lugares, qualquer pessoa que fez um empréstimo para adquirir uma casa quando o mercado estava no pico provavelmente está hoje com patrimônio negativo, mesmo que tenha dado originalmente 20% de entrada. O resultado é uma taxa crescente de inadimplência, mesmo no caso de empréstimos que atenderam às diretrizes de Fannie e Freddie.

Além disso, Fannie e Freddie, embora fortemente regulamentadas quanto à concessão de empréstimos, não precisam constituir capital suficiente - ou seja, dinheiro captado pela venda de ações em vez de levantar empréstimos. Isso significa que mesmo um pequeno declínio no valor dos seus ativos pode fazê-las submergir, devendo mais do que têm.

E claro, existe um real escândalo político nesse caso: reiteradamente vinha sendo alertado que a capitalização insuficiente das duas instituições apresentava riscos para os contribuintes, porém a administração das empresas subornou o processo político, contratando sistematicamente figuras influentes de ambos os partidos. Mas, embora alarmantes, as maquinações políticas de Fannie e Freddie não tiveram um papel significativo nas causas dos nossos problemas atuais.

Contudo, não é vergonhoso que os contribuintes acabem tendo de socorrer essas instituições? Na verdade, não. Estamos atravessando uma grande crise financeira e essas crises quase sempre acabam com algum tipo de ajuda do contribuinte socorrendo o sistema financeiro.

E vamos ser claros: não se deve permitir que Fannie e Freddie vão à falência. Com o colapso dos empréstimos subprime, essas empresas hoje são mais do que nunca fundamentais para o mercado imobiliário e a economia como um todo.

*Paul Krugman escreve para o “The New York Times”

15/07/2008 - 09:51h Fannie & Freddie: medidas equivalem à estatização, diz analista

 

O Estado de São Paulo

William Poole, ex-presidente do Federal Reserve Bank de St. Louis, disse ontem que as medidas anunciadas pelo governo dos EUA para socorrer as agências Fannie Mae e Freddie Mac equivalem a estatizá-las. Poole afirmou, em entrevista à Dow Jones, que as medidas anunciadas no fim de semana eram “absolutamente necessárias”, tendo em vista que o colapso das duas agências seria catastrófico para o sistema financeiro. Para ele, elas estão “efetivamente em concordata”.

Poole lembrou que outra conseqüência das medidas é o fato de a dívida emitida por Fannie Mae e Freddie Mac agora terem o mesmo status dos títulos do Tesouro americano. “Na prática, as obrigações de Fannie Mae e Freddie Mac agora são obrigações de crédito plenas do governo dos EUA, porque não será permitido que elas entrem em falência.”

Para todos efeitos práticos, as agências “estão sendo nacionalizadas”, disse Poole, que hoje é pesquisador do Cato Institute.

O ex-dirigente do Fed disse ainda que a intervenção federal na Fannie Mae e na Freddie Mac, após os esforços do Fed para socorrer o banco de investimentos Bear Stearns, compromete a capacidade de avaliação de riscos de Wall Street. “O país está agora em situação muito ruim em termos de risco moral. Os credores sabem que serão protegidos em caso de circunstâncias adversas.”

Segundo Poole, agora ficou claro que algumas empresas são julgadas grandes demais para falir, embora exista pouca clareza sobre qual é o tamanho-limite para uma intervenção do governo.

14/07/2008 - 11:31h EUA socorrem empresas de hipotecas

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Plano anunciado ontem prevê ajuda financeira a Fannie Mae e Freddie Mac e que o governo possa comprar suas ações

Empresas, que possuem ou garantem metade das hipotecas do país, poderão tomar emprestado dinheiro do Fed a juros mais baixos

STEPHEN LABATON
DO “NEW YORK TIMES’

FOLHA DE SÃO PAULO

Alarmado com o acentuado desgaste de confiança nas duas maiores empresas de crédito hipotecário dos EUA, o governo Bush pediu ontem ao Congresso para aprovar um pacote de socorro que lhe autorizará a comprar bilhões de dólares em ações da Fannie Mae e da Freddie Mac e também emprestar às companhias para suprir suas necessidades de financiamento em curto prazo.
Segundo o plano, anunciado ontem pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson, após um fim de semana de discussões com outras autoridades sobre a crise, as duas empresas poderão tomar dinheiro emprestado com taxa de juros mais baixas do Fed (o BC dos EUA).
Mais amplo que o esperado por analistas, o anúncio ocorreu antes da abertura dos mercados asiáticos, em tentativa de reduzir perdas das empresas e do mercado em razão das preocupações com os resultados das empresas hipotecárias e, conseqüentemente, com a estabilidade da economia em geral.
O plano pede que o Congresso dê ao governo autorização nos próximos dois anos para comprar uma quantidade não-especificada de ações das duas companhias. No período, o plano permitiria que as duas companhias tenham maior acesso a recursos do Tesouro, expandindo suas linhas de crédito.
Cada companhia tem hoje uma linha de crédito de US$ 2,25 bilhões, definida quase 40 anos atrás pelo Congresso. Na época, a Fannie tinha cerca de US$ 15 bilhões em dívidas a pagar. Hoje tem uma dívida total de aproximadamente US$ 800 bilhões, enquanto a Freddie deve cerca de US$ 740 bilhões.
Hoje as duas companhias também detêm ou garantem hipotecas avaliadas em mais de US$ 5 trilhões no país.
Como parte do plano, o governo também pedirá que o Congresso aumente o limite da dívida nacional. E que o Congresso dê ao Fed participação na definição de regras sobre o tamanho das reservas de capital que cada empresa deve ter.

Recado ao mercado
Dar ao Fed um papel de consultor na supervisão das companhias é visto como mais uma maneira de tranqüilizar os mercados nervosos.
O governo Bush espera que o Congresso aprove rapidamente o novo plano, como parte da medida para ajudar o mercado habitacional e reformular as normas de Fannie Mae e Freddie Mac. Na sexta, o Senado aprovou a medida, e a Câmara espera discuti-la nesta semana.
O anúncio do plano no início da noite de ontem teve a intenção de enviar um forte sinal aos mercados de que o governo apóia as duas empresas.
Durante o fim de semana, autoridades graduadas do Tesouro e do Federal Reserve monitoraram de perto os preparativos para que a Freddie Mac levantasse dinheiro para ajudar suas necessidades de fundos em curto prazo. Autoridades passaram o sábado e o domingo sendo informadas sobre o apetite de Wall Street por uma oferta de dívida de US$ 3 bilhões pela Freddie Mac que estava marcada para hoje.
As autoridades disseram estar observando para avaliar se as fortes quedas das ações das duas empresas na semana passada poderiam contagiar o mercado de dívida e minar a confiança dos credores.
A Fannie Mae e a Freddie Mac tornaram-se centrais para os mercados de habitação do país. Elas compram hipotecas de bancos e outros credores, seguram algumas delas e vendem outras na forma de títulos lastreados por hipotecas. Juntas, elas possuem ou garantem cerca da metade das hipotecas dos Estados Unidos.
Nos últimos meses, as ações das duas companhias despencaram quando uma onda de execuções de hipotecas erodiu a confiança nas mesmas.


Tradução de LUIZ ROBERTO MENDES GONÇALVESCom o “Financial Times”

14/07/2008 - 11:09h EUA tentam salvar financiadoras de hipotecas

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Fed e Tesouro anunciam pacote para resgatar Fannie Mae e Freddie Mac e evitar colapso do mercado financeiro

O GLOBO

WASHINGTON e LOS ANGELES. O Tesouro dos EUA e o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) anunciaram ontem um pacote de ajuda para salvar da insolvência Fannie Mae e Freddie Mac, duas gigantes do setor de financiamento de hipotecas para casa própria. A medida visa a restituir a confiança nas duas firmas e evitar um potencial desastre no mercado financeiro global. Numa decisão que pode representar uma escalada na exposição dos contribuintes americanos, o Fed disse que as duas firmas poderão recorrer a recursos emergenciais da instituição a taxas baixas.

Paralelamente, o Tesouro anunciou que vai aumentar temporariamente a linha de crédito para as empresas e até mesmo, se necessário, comprar participação nos dois grupos.

O anúncio do Fed evocou sua atuação para salvar o banco de investimento Bear Stearns em março, quando permitiu o acesso de bancos de investimentos a seus recursos emergenciais pela primeira vez desde a Grande Depressão.

“A contínua vitalidade (das duas empresas) é importante para manter a confiança e estabilidade do nosso sistema e mercados financeiros. Assim, precisamos agir para responder à presente situação, enquanto nos preparamos para uma estrutura regulatória mais forte”, disse o secretário do Tesouro, Henry Paulson, em um comunicado lido ontem por ele nas escadarias da sede do Tesouro.

Uma alta fonte da instituição disse que as medidas anunciadas por Paulson ainda precisam ser aprovadas pelo Congresso, mas expressou confiança de que terão sinal verde dos parlamentares ainda esta semana. Charles Schumer, senador democrata por Nova York, elogiou o pacote e disse que deverá reavivar a confiança do investidor em Fannie Mae e Freddie Mac.

As duas firmas são privadas, com um grupo de acionistas, mas recebem subsídios do governo.

Com a crise financeira, as ações das duas gigantes se desvalorizaram fortemente.

IndyMac sofre intervenção após declarar insolvência O diretor-executivo da Fannie Mae, Daniel Mudd, disse em uma nota que a firma tem reservas suficientes para atravessar a crise, além de acesso a financiamento do mercado. Mesmo assim, ele disse que poder acessar os recursos emergenciais postos à disposição pelo Fed e o Tesouro ajudará a reconstruir a confiança do mercado.

As duas empresas compram hipotecas de mutuários e as revendem em pacotes garantidos pelo Tesouro, gerando novos fundos que tornam os mercados de hipotecas mais líquidos. Fannie Mae e Freddie Mac têm papel fundamental no mercado de habitação dos EUA e muitos temem que uma insolvência teria conseqüências nefastas no mercado financeiro.

O clima de tensão no setor cresceu no sábado, após o anúncio de que o banco IndyMac fora declarado insolvente e sofrera intervenção de autoridades federais. O IndyMac é a segunda instituição financeira a quebrar na esteira da crise no setor de hipotecas.

O Escritório Supervisor de Caixas de Poupança (OTS, da sigla em inglês) anunciou ter transferido as operações do IndyMac à Corporação Federal Garantidora de Depósitos (FDIC, da sigla em inglês), depois de considerar que o banco não tinha como fazer frente à demanda de saque dos clientes, que se viram limitados a retirar pequenas quantidades.