11/03/2009 - 16:01h “Gestão” Kassab: outra licitação da merenda está sob suspeita

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Funcionário representou empresa adversária em pregão da prefeitura; vínculo indica que competição pode ter sido afetada

Ceazza mantém até hoje contrato que supera R$ 73 mi; contratos de merenda terceirizada também são investigados

ALENCAR IZIDORO – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

A empresa que fornece frutas, legumes, hortaliças e ovos usados na merenda escolar da rede municipal de São Paulo obteve seu contrato -que já passa de R$ 73 milhões- em uma concorrência suspeita.
Um funcionário dela representou formalmente uma empresa adversária no pregão da gestão Gilberto Kassab (DEM) para adquirir os alimentos in natura. Ele apresentou e negociou as propostas da concorrente -que perdeu e permitiu ao verdadeiro patrão do funcionário ganhar a disputa.
A situação, documentada em atas no “Diário Oficial”, é indício de que, na prática, não houve competição entre as empresas, dizem especialistas.
O contrato da prefeitura com a Ceazza Distribuidora de Frutas, Verduras e Legumes, firmado no final de 2006, tem validade até maio deste ano. Ela foi a vencedora da licitação com um preço 0,1% inferior ao da JJ Comercial e 0,7% inferior ao da Pontual Comercial Agrícola.
No pregão, a Pontual foi representada por Ezequiel Aparecido Rodrigues de Oliveira, que é empregado formal do grupo Ceazza há oito anos.
Especialistas em licitação ouvidos pela reportagem avaliam que essa condição sinaliza um vínculo que pode ter frustrado a disputa. Mas eles se dividem quanto à comprovação.
Professor da Fatec, Paulo Boselli diz que ela é suficiente para caracterizar uma “irregularidade por fraude à competição”. O fato de um funcionário ter acesso prévio à proposta e à estratégia da concorrente também é contestado. “Afinal, será que ele estava defendendo os interesses da empresa A ou B?”
O advogado Carlos Ari Sundfeld avalia que a situação “é um indício” de “acordo” que merece investigação, mas que ela “não é suficiente, por si só, para caracterizar a irregularidade”.
Segundo Sundfeld, são frequentes os acertos entre empresas antes de licitações para fazer “jogo de cena” e aparentar “uma disputa que não existe”.
O objetivo, diz, além da divisão de mercado, é garantir que a concorrência não seja dada como “fracassada”. Ou seja, dar legitimidade para que ela seja mantida pelo poder público.
A lei de licitações considera crime (sujeito a até quatro anos de detenção) “frustrar ou fraudar, mediante ajuste, combinação ou qualquer outro expediente, o caráter competitivo do procedimento licitatório”.
O contrato obtido pela Ceazza faz parte do modelo de autogestão da merenda escolar, pelo qual a prefeitura adquire os alimentos e seus servidores preparam a refeição dos alunos.
A administração Kassab também adota outro modelo, em mais de dois terços das escolas, pelo qual todos os serviços são terceirizados -a empresa compra os produtos, prepara a merenda e a entrega.
Esse contrato terceirizado já é investigado pela Promotoria por suspeita de conluio entre as concorrentes no pregão de maio de 2007, além da má qualidade de serviços e produtos.
O Ministério Público Estadual inclusive já recomendou que a prefeitura substitua esse modelo pelo de autogestão.
Uma das empresas investigadas é a SP Alimentação, a quem a Ceazza é ligada. Eloizo Gomes Afonso é sócio de ambas. Com uma, fornece a comida escolar terceirizada. Com outra, vende os alimentos para a autogestão.

28/05/2008 - 12:51h Uma jóia de jornalismo. A Folha está de parabéns

Eis uma maneira séria, objetiva, informativa de tratar a notícia. Leia a matéria após esta nota. Seu conteúdo é claro, com o destaque adequado à gravidade e importância dos fatos e de suas implicações. Ela está na Folha de São Paulo de hoje, na página A10 do principal caderno, embaixo à esquerda. Matéria sem foto, até para não prejulgar, nem escolher entre os denunciados pelos desvios.

O título da matéria é sóbrio, sem ilações. O fato de vários dos acusados serem filiados a partidos políticos é registrado, mas sem tentar induzir o leitor à falsa idéia que todos os membros deste partido, ou pelo menos suas figuras mais conhecidas, são culpados ou acusados e muito menos corruptos.

Teria sido muito fácil cair na tentação manipuladora, alheia ao verdadeiro jornalismo, de tentar incentivar um sentimento antitucano a partir deste escândalo do Detran de Rio Grande do Sul. Bastaria colocar o artigo na página 5 do principal caderno, ilustrado com uma foto mostrando um dos principais acusados, Lair Ferst, junto com a governadora tucana Yeda Crusius, da campanha da qual participou ativamente ao ponto de ser o avalista do local alugado pelo comitê eleitoral da governadora. Poderia se acrescentar como sublide “PSDB sob suspeita”. Perguntar para os tucanos mais emplumados se sabiam do desvio de recursos no Detran e se o dinheiro poderia ter irrigado o caixa partidário. Dedicar uma semana, dia após dia a alimentar este assunto, inclusive cobrando se os tucanos implicados nos desvios foram expulsos ou não. Em fim fazer do caso um elemento maior da desestabilização do governo gaúcho e por tabela condenar o conjunto do PSDB como falsos moralistas, hipócritas nas suas posturas éticas e demagogos sem escrúpulos quando se trata de dinheiro público, de loteamento de cargos por interesses espúrios.

Esta injustiça não será cometida, pois a mídia zela pelo equilíbrio da cobertura e não se deixa levar pelo udenismo manipulador. Os articulistas, desta vez, contribuíram para que esta sabedoria do bom jornalismo aparecesse com toda sua força, se abstendo de opiniões adjetivadoras, generalizadoras e abusivas. Quase nenhum articulista se prestou ao jogo do massacre, nem o próprio Clóvis Rossi (salvo talvez uma pequena menção feita por Elio Gaspari, mas ele tem esse jeito de não respeitar conveniências, pelo menos às mais grosseiras e evidentes).

Do conjunto do episódio fica uma moral: a mídia pode ser um fator que contribui ao debate nacional e à defesa da ética e da democracia quando se pauta com esta adequada e necessária isenção.

Luis Favre

Justiça aceita denúncia contra 40 acusados de desvio no Detran-RS

Empresário tucano e ex-reitor estão entre os suspeitos de desviarem R$ 44 mi

GRACILIANO ROCHA
DA AGÊNCIA FOLHA, EM PORTO ALEGRE

A Justiça Federal aceitou ontem a denúncia (acusação formal) contra 40 pessoas investigadas por fazer parte de uma suposta quadrilha que desviou R$ 44 milhões do Detran do Rio Grande do Sul. Entre os que viraram réus estão o empresário tucano Lair Ferst, o ex-reitor da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) Paulo Jorge Sarkis e dois ex-presidentes do órgão.
Segundo a denúncia, a fraude foi operada por duas fundações ligadas à UFSM, contratadas pelo Detran sem licitação e a preços superfaturados para fazer a avaliação dos candidatos a motoristas entre os anos de 2003 e 2007. Essas fundações subcontrataram empresas de consultoria e tecnologia para executar o serviço.
A Procuradoria afirma que se tratava de uma organização criminosa, que muitas vezes recebia sem prestar os serviços. O dinheiro do suposto desvio, segundo a denúncia, servia para enriquecer os donos das empresas envolvidas e para pagar propina a funcionários públicos. A fraude veio à tona em novembro no ano passado, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Rodin, prendendo temporariamente 13 pessoas.
O Ministério Público Federal denunciou 44 pessoas. Mas a juíza Simone Barbisan Fortes, da 3ª Vara Federal de Santa Maria, não viu indícios de crime na conduta de quatro pessoas -Ronaldo Etchechurry Morales, que presidiu a Fatec, uma das fundações citadas no escândalo, e três pessoas apontadas como laranjas que figuravam como sócios dos familiares de Ferst em duas empresas.
Os 40 réus serão interrogados entre 19 e 29 de novembro. Entre os denunciados estão pessoas ligadas a partidos políticos que integraram a base política do governo do peemedebista Germano Rigotto (2003-2006) e de sua sucessora, Yeda Crusius (PSDB). No loteamento político dos cargos dos dois governos, o comando do Detran coube ao PP. Agora réus, os ex-presidentes Carlos Ubiratan dos Santos (2003-2006) e Flávio Vaz Netto (2007) são filiados ao partido.
Ferst, que já integrou o diretório estadual do PSDB, foi apontado pela PF como o dono de fato da Rio Del Sur Ltda. e da Newmark Tecnologia, empresas que receberam juntas R$ 21 milhões do suposto esquema. Ele responderá por seis crimes. Dentre eles extorsão, peculato e formação de quadrilha.
Outro núcleo do suposto desvio, diz a PF, era a Pensant Consultoria, dirigida por familiares de José Antônio Fernandes, acusado de cinco crimes. O ex-reitor da UFSM Paulo Sarkis responderá por quatro crimes.
O porta-voz do governo gaúcho, Paulo Fona, disse que os funcionários do Detran na gestão de Yeda Crusius já haviam sido exonerados em 2007. “A decisão da juíza vai ao encontro das providências que a governadora adotou tão logo foi deflagrada a operação Rodin.”

outro lado

Para advogado, houve “excesso na acusação”

DA AGÊNCIA FOLHA, EM PORTO ALEGRE

O advogado de Lair Ferst, Alexandre Wunderlich, disse que o fato de a Justiça Federal não ter acolhido as denúncias contra 4 dos 44 denunciados pela Procuradoria demonstra que houve “excesso na acusação”. Luiz Felipe Tonelli de Oliveira e Sérgio de Moraes Trindade, sócios de empresas controladas por familiares de Ferst, foram denunciados, mas não serão réus do processo.
“Ao não aceitar a denúncia contra eles, a juíza foi cautelosa e deu uma demonstração do excesso na acusação”, disse Wunderlich. Ele disse que não tomou conhecimento dos fatos contidos na denúncia do MPF, mas que a linha de defesa deverá se basear nos argumentos dados por Ferst em depoimento à CPI da Assembléia.
No depoimento que durou mais de nove horas entre a tarde de terça e a madrugada de ontem, o empresário tucano refutou a acusação de que seria um dos líderes de uma organização responsável pelo suposto desvio no Detran-RS. Ferst também negou que controlava a Rio Del Sur e a Newmark e afirmou que não arrecadou fundos para a campanha de Yeda Crusius em 2006.
Os advogados dos ex-presidentes do Detran Santos e Flávio Vaz Netto disseram ontem que não comentariam as acusações porque não tiveram acesso à íntegra da denúncia feita pelo MPF.
O advogado de José Antônio Fernandes, Cyro Schimitz, disse que “será demonstrado no curso do processo que a Pensant Consultoria prestou os serviços contratados pelo Detran”. Nem o ex-reitor Paulo Jorge Sarkis nem seu advogado foram localizados ontem. (GR)

25/05/2008 - 09:22h Tucanos enlamados

A seguir duas notas sobre o escândalo da fraude no Detran de Rio Grande do Sul, envolvendo tucanos de alta plumagem. A primeira é da Folha SP de hoje e a segunda um quadro do Zero Hora de Porto Alegre. Vários dos envolvidos na fraude foram presos e indiciados pela policia Federal.

Governadora do RS enfrenta escândalos e crise fiscal

PF apura suposto esquema de fraude no Detran gaúcho

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GRACILIANO ROCHA
DA AGÊNCIA FOLHA, EM PORTO ALEGRE
Primeira mulher a governar o Rio Grande do Sul, a tucana Yeda Crusius tem conduzido seu mandato por um campo repleto de embates fiscais e políticos e denúncias de desvios.
O episódio mais recente teve início em novembro do ano passado, quando a PF deflagrou a Operação Rodin, desmantelando um suposto esquema de fraude que teria desviado R$ 44 milhões do Detran. Aliados de Yeda foram presos, entre eles o então presidente do órgão, Flávio Vaz Netto, e o tucano Lair Ferst, apontado como figura-chave do suposto esquema.
Ferst já integrou a Executiva Estadual do PSDB. O escândalo se desdobrou em uma CPI na Assembléia Legislativa. Ao depor, o deputado federal Enio Bacci (PDT), ex-secretário da Segurança, afirmou que avisara a governadora sobre irregularidades no Detran -o que foi negado pelo Palácio do Piratini.
O caso do Detran também atingiu em cheio um dos auxiliares mais próximos de Yeda, o secretário de Planejamento e Gestão, Ariosto Culau, que pediu demissão após ser filmado em um encontro com Ferst.
Yeda venceu a eleição de 2006 prometendo sanear um Estado à beira da bancarrota. O déficit fiscal fechou 2007 em R$ 1,2 bilhão, e a projeção deste ano é de R$ 600 milhões.
A estratégia da governadora para reduzir a crise financeira se baseou em um pacote fiscal que previa aumento do ICMS. Fracassou duas vezes. A primeira foi em 2006, quando pediu ao antecessor, Germano Rigotto (PMDB), que enviasse o projeto de lei à Assembléia. Houve resistência. A segunda tentativa foi em novembro. O pacote foi rejeitado por 34 a 0.
O terceiro vértice do triângulo de problemas de Yeda é o vice-governador Paulo Afonso Feijó (DEM). A relação entre os dois, que sofreu durante a campanha, azedou de vez quando Yeda articulou o pacote fiscal com Rigotto. O vice foi à Assembléia criticar a proposta.
Na terça, Feijó denunciou um esquema de contratações sem licitação e desvio no Banrisul. O presidente da estatal, Flávio Lemos, negou as acusações e chamou o vice de “irresponsável”. Procurada na sexta, Yeda não quis se pronunciar.

Resumo do jornal ZERO HORA de hoje sobre a fraude no Detran

CPI do Detran
Depoimentos
Lair Ferst
Empresário e lobista, ex-coordenador da bancada do PSDB na Assembléia. Atuou na campanha da governadora Yeda Crusius ao governo do Estado, tendo negociado contrato de aluguel de comitê. No dia 24 de abril, foi visto em companhia do então secretário estadual do Planejamento, Ariosto Culau, num shopping, provocando a demissão do amigo. Denunciado por formação de quadrilha, locupletamento em dispensa de licitação, peculato, corrupção ativa, extorsão e falsidade ideológica.
Rosane Ferst
Irmã de Ferst. Sócia da Rio del Sur, subcontratada pela Fatec. Denunciada por formação de quadrilha, locupletamento em dispensa de licitação, peculato e falsidade ideológica.
Elci Terezinha Ferst
Irmã de Ferst. Sócia da Newmark. Denunciada por formação de quadrilha, locupletamento em dispensa de licitação, peculato e falsidade ideológica
Principais requerimentos
Prorrogação da CPI por mais 30 dias
Para que sejam ouvidos:
Paulo Afonso Feijó, vice-governador
João Carlos Weber, delegado da Polícia Civil e ex-corregedor do Detran
Wilson Caignachi, ex-diretor da CEEE
Leonardo Fardim Elesbão, ex-diretor de Contratos do Detran
Carlos Dirnei Fogaça Maidana, ex-assessor do PP
Convocações:
Américo Cidade, ex-diretor do Protege
Alexandre Dornelles Barrios, advogado e denunciado no inquérito do Detran
Rogério Koff, atual diretor-presidente da Fundação de Apoio a Tecnologia e Ciência (Fateciens) – antiga Fatec
João Batista Hoffmeister, ex-diretor do Detran
Delson Martini, secretário-geral de Governo

10/05/2008 - 16:57h A via-crúcis de Yeda

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Leandro Fortes, de Porto Alegre – CARTA CAPITAL

A vida da governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, do PSDB, não tem sido fácil. Dona de um estilo político duro, aristocrático e em nada carismático, a tucana vive um misto de inferno pessoal e administrativo em que se incluem dívidas estaduais impagáveis, atrasos no pagamento de salários de servidores, popularidade em franca queda, dependência de uma bancada governista para lá de suspeita e, agora, uma CPI capaz de enlamear os portais do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho.

Até o fim de 2007, Yeda Crusius reclamava apenas de uma herança maldita dos governos anteriores do PT e do PMDB: a dívida estrutural do estado, origem de todos os problemas políticos enfrentados por ela até ali. Apenas com precatórios (títulos de dívidas judiciais do governo), o rombo do Rio Grande do Sul chega a quase 5 bilhões de reais. Isso porque, nos últimos dez anos, o estado conseguiu pagar menos de 400 milhões de reais – valor inferior à correção da dívida de um único ano.

Para enfrentar o problema, antes mesmo de tomar posse, a governadora anunciou um pacote com aumento de impostos e congelamento de salários, um tal “jeito novo de governar”, cantarolado na campanha de 2006, mas transformado em imensa dor de cabeça política para ela e o PSDB. Dois secretários estaduais renunciaram antes de assumir, o vice-governador, Paulo Afonso Feijó, do ex-PFL, foi para a oposição e, seis meses depois, 60% dos gaúchos desaprovavam o governo Yeda Crusius, segundo pesquisa do Instituto Dataulbra, da Universidade Luterana do Brasil.

Mas foi a Operação Rodin, da Polícia Federal, deflagrada em novembro do ano passado, que colocou o governo em outro patamar, o da corrupção endêmica. Trata-se de uma ação criminosa herdada da gestão anterior, do peemedebista Germano Rigotto, e aperfeiçoada no governo tucano, depois da nomeação, pela governadora, de Flávio Vaz Netto para o Departamento Estadual de Trânsito (Detran). Em vez de apurar e denunciar a bandalha instalada no órgão pela turma do PMDB, Netto, indicado pelo PP, decidiu se inserir e dominar o esquema. Acabou preso e indiciado, como os demais comparsas envolvidos nas fraudes.

A ação policial desmontou uma quadrilha ligada a fundações de apoio vinculadas à Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, para prática de diversos crimes, especialmente contra licitações, no Detran gaúcho. No rastro da operação, a oposição a ela, capitaneada pelo PT, emplacou a CPI do Detran e se apegou, sem provas, a uma denúncia de suposta utilização de 400 mil reais de sobras de campanha, por parte da governadora, para a compra mal explicada de uma casa num bairro nobre de Porto Alegre, logo depois das eleições de 2006.

No epicentro do esquema criminoso investigado pela PF está o empresário e lobista Lair Ferst, figurinha carimbada do PSDB gaúcho, apontado sem ressalvas, por gente do governo e da oposição, como principal operador da engrenagem de arrecadação de fundos da campanha tucana de 2006 no estado. Hoje, a luta de Yeda Crusius é basicamente descolar-se do nome e da má sina de Ferst, um dos 13 quadrilheiros presos na operação e figura proeminente entre os 39 indiciados pela Polícia Federal.

Na base do escândalo estão a Fundação de Apoio à Tecnologia e Ciência (Fatec) e a Fundação Educacional e Cultural para o Desenvolvimento e o Aperfeiçoamento da Educação e da Cultura (Fundae), ambas da Universidade Federal de Santa Maria. A fraude, de acordo com as investigações da PF, do Ministério Público Federal e do Ministério Especial do Tribunal de Contas do Estado (TCE), pode ter custado 40 milhões de reais aos cofres públicos do Rio Grande do Sul. Para ajudar no caso, a Receita Federal e o Coaf, ligado ao Ministério da Fazenda, foram convocados para garantir acesso a sigilos fiscal e bancário dos indiciados até agora.

Até 2003, o Detran do Rio Grande do Sul realizava os exames práticos e teóricos de direção por meio de um contrato com a Fundação Carlos Chagas (FCC). Ao assumir, o então governador do estado Germano Rigotto nomeou como secretário de Segurança Pública o deputado federal José Otávio Germano, do PP, a quem o Detran ficou subordinado. O secretário Germano não abriu nova licitação e encerrou o contrato com a FCC. Nomeou, então, para o cargo de presidente do Detran um aliado, Carlos Ubiratan dos Santos, e para diretor-financeiro do órgão, Hermínio Gomes Junior. Ambos decidiram contratar, em caráter emergencial, a Fatec, embora houvesse tempo hábil para licitar o processo. Mais tarde, a Fundação acabou contratada sem licitação e tornou-se um quartel-general onde se planejavam os desvios de dinheiro e a distribuição de propinas entre os participantes das fraudes.

De acordo com a investigação da PF, a intermediação do contrato foi feita pelo então reitor da UFSM Paulo Jorge Sarkis, com a ajuda do lobista José Antônio Fernandes e do tucano Lair Ferst. Os delegados do inquérito não hesitam em colocar Ferst como o curinga de toda esta história, baseados nas informações apuradas pelos agentes federais, após seis meses de investigação, inclusive com a gravação de quase 20 mil horas feitas por escutas telefônicas autorizadas pela Justiça Federal de Santa Maria, no interior do estado.

Chamado de “companheiro” por Yeda Crusius, Ferst é também politicamente ligado a Carlos Ubiratan, ex-presidente do Detran. Ele é apontado como o responsável pela engenharia de subcontratações feitas pela Fatec, até o fim de 2007, junto a empresas de consultoria (designadas de “sistemistas”) formadas por parentes, correligionários e “laranjas”. Uma delas, a Newmark, tem como sócios Elci Terezinha Ferst, irmã de Lair, e o cunhado, Alfredo Pinto Telles. Outra, a Rio Del Sur, abriga duas irmãs do lobista tucano, Rosana Cristina Ferst e Cenira Maria Ferst Ferreira. Para a PF, Ferst é o verdadeiro dono das empresas.

Também por intermédio de Ferst, o outro lobista do esquema, José Antônio Fernandes, conseguiu emplacar entre as empresas “sistemistas” a Pensant Consultores, da qual é sócio com dois filhos, Ferdinando e Fernando Fernandes. A quarta subcontratada, a Carlos Rosa Advogados Associados, foi indicação direta de Ubiratan. Entre os sócios do escritório estão Carlos Dahlem da Rosa e Luiz Paulo Germano, conhecido como “Buti”, irmão do então secretário de Segurança Pública José Otávio Germano – a quem o Detran estava subordinado.

De acordo com o levantamento feito pela Polícia Federal, as quatro “sistemistas” subcontratadas pela Fatec receberam, juntas, 31 milhões de reais entre 2003 e 2006. Por meio da Fundação, acreditam os investigadores, estabeleceu-se um propinoduto fixado bem no meio das gestões de Germano Rigotto e Yeda Crusius, desvendado graças a uma denúncia anônima, feita no fim de 2007, no Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul, por um professor da universidade.
Ao se debruçar sobre as atividades de Ferst, a PF descobriu, ainda, que o lobista do PSDB gaúcho também agregou ao grupo criminoso a empresa NT Pereira, administrada por Patrícia Jonara dos Santos, mulher de – sempre ele – Carlos Ubiratan. Em 2006, a firma efetivou um empréstimo, sem garantias, ao mesmo Ubiratan, no valor de 500 mil reais. A operação, de acordo com a investigação policial, teria servido para lavar dinheiro desviado e, posteriormente, utilizado para o pagamento de propinas e formação de caixa 2.

O ex-reitor da UFSM Paulo Jorge Sarkis também conseguiu que uma empresa da família, montada em nome da mulher e dos filhos, acabasse subcontratada por uma das subcontratadas da Fatec, a Pensant, do lobista José Antônio Fernandes. Entre 2004 e 2005, a Sarkis Engenharia Estrutural recebeu da Pensant 74 mil reais por serviços de consultoria. A Polícia Federal investiga, ainda, a participação de outra empresa da família Sarkis, a World Travel Turismo, nas fraudes contra o Detran.

No início de 2007, o esquema sofreria uma ruptura importante com a mudança na reitoria da Universidade Federal de Santa Maria, mas também por conta dos riscos provocados pela alta exposição dos negócios de Ferst. Entre os tucanos temiam-se, com razão, futuros problemas políticos para a governadora. Arrumou-se, então, um detalhe técnico para tirar a Fatec da jogada. Sob o argumento de aumento nos custos da prestação de serviço, a fundação exigiu mais dinheiro do Detran.

O pedido foi indeferido pelo novo presidente do órgão, Flávio Vaz Netto, recém-nomeado por Yeda Crusius, e, exatamente um dia depois da decisão, a Fundae, também ligada à UFSM, foi contratada. Mas era só espuma. Imediatamente, a Fatec foi subcontratada para prestar parte dos serviços que fazia antes como cabeça do sistema, e com os mesmos executivos. Foi uma forma de manter a quadrilha unida e evitar ressentimentos capazes de expor os movimentos do bando.

Não adiantou muito. Indiciado pela PF, Vaz Netto não aceita ser responsabilizado sozinho pelos crimes e nem ser largado à própria sorte. Nos dias 7 e 14 de abril, ele enviou dois e-mails para o secretário de governo de Yeda Crusius, Delson Martini, com quem tentou marcar uma audiência por 15 dias, sem sucesso. Nas mensagens, interceptadas pela polícia, ele ameaça fazer um “retorno voluntário” à CPI, onde depôs logo depois de ser preso, para falar de “imputações” feitas a ele “cujos pontos são de inteiro conhecimento do governo”.

A mudança na rotina de fraudes e desvios no Detran ocorreu porque o novo reitor da UFSM, Clóvis Silva Lima, colocou-se contra a atuação das “sistemistas” e recusou-se a assinar documentos da Fatec, enquanto o esquema de Ferst não fosse desmontado. Por esta razão, Vaz Netto optou por contratar a Fundae, entidade sem ligações administrativas com a reitoria. Sem a Fatec, o lobista Fernandes, dono da Pensant, e Sarkis, ex-reitor da UFSM, perderam influência na quadrilha. Assim como Ubiratan, ao deixar o Detran. Iniciou-se, então, um movimento para afastar Ferst do esquema e deixar os contratos das “sistemistas” nas mãos apenas do novo presidente do Detran. O lobista, é claro, reagiu.

De acordo com informações levadas à CPI do Detran pela Polícia Federal, para sair do esquema, Ferst teria pedido 6% do faturamento mensal dos pagamentos feitos às empresas sistemistas, inclusive à Fatec, o equivalente a 120 mil reais mensais. O dinheiro seria entregue por Rubem Höher, coordenador do Projeto Detran junto à Fundae e sócio da Doctus, nova “sistemista” integrada ao esquema de prestação de serviços do órgão pela fundação, administrada pelo filho dele, Ricardo Höher. Ferst teria recebido os pagamentos por seis meses (720 mil reais), segundo depoimento de Rubem Höher à PF.

Sob o comando de Vaz Netto, o esquema fraudulento do Detran assumiu uma nova configuração. As empresas ligadas à Ferst (Newmark e Rio Del Sur) foram excluídas, mas no lugar delas entraram a Doctus (subcontratada pela Fatec), da família Höher, e a IGPL (subcontratada pela Fundae), também ligada ao lobista José Antônio Fernandes, o mesmo da Pensant. E mais: outro escritório de advocacia entrou na farra, o Nachtigall Advogados Associados, do qual é sócia Denise Nachtigall Luz, esposa de Ferdinando Fernandes – ele mesmo, filho de José Fernandes, da Pensant.

Como em uma disputa de máfias, a família Fernandes se sobrepôs ao poder da família Ferst no esquema de fraudes do Detran, a partir do segundo semestre de 2007. Isso porque, de um lado, a Pensant, conforme contrato firmado com a Fundae, passou a abocanhar 14% do faturamento da prestação de serviço no órgão (em torno de 2,5 milhões de reais por mês). De outro, aumentou a participação com o ingresso da IGPL e do escritório Nachtigall. As investigações tocadas pelo Ministério Público Especial do TCE, no entanto, obrigaram o Detran a rever essas contratações. À frente da autarquia, Vaz Netto fez novas adequações contratuais e realizou reuniões para tratar, também, de troca de linhas telefônicas por conta de uma preocupação flagrante com escutas.

Mais adiante, Vaz Netto optou, ainda, por se livrar da família Fernandes. Para tal, rescindiu os contratos com a IGPL e a Nachtingall, firmados pela Fatec (esta, é bom lembrar, subcontratada pela Fundae), mas permitiu a entrada de outra empresa, a Pakt. Curiosamente, a nova “sistemista” tinha como sócios quatro funcionários da Fatec – Luciana Carneiro, Marilei de Fátima Brandão Leal, Damiana Machado de Almeida e Fernando Osvaldo Oliveira Júnior. Mais estranho ainda, apurou a PF, é o fato de Luciana Carneiro ser secretária-executiva do Projeto Detran na Fatec e responsável pela proposta de rompimento do contrato com a IGPL. Na mesma investigação, a PF descobriu, por meio de interceptação de e-mails, o plano de contratação de outro escritório de advocacia, o Höher & Cioccari Advogados, da família Höher, dona da “sistemista” Doctus. Ou seja, a quadrilha criou uma espécie de rodízio criminoso para se perpetuar no esquema.

Em um dos momentos mais tensos da crise, na semana passada, o delegado Luiz Fernando Tubino, ex-chefe da Polícia Civil no governo do petista Olívio Dutra, depôs na CPI do Detran e acusou Yeda Crusius de ter recebido 400 mil reais de Ferst para comprar uma casa em Porto Alegre. O dinheiro seria sobra de campanha da eleição de 2006, arrecadado em esquema de caixa 2. Tubino, na verdade, verbalizou uma fofoca antiga nos meios políticos gaúchos. O delegado costuma atirar para todo lado. Ainda no governo do PT, ele chegou a acusar Dutra de se beneficiar com dinheiro da máfia do jogo do bicho no estado.

Assessor de imprensa da governadora tucana, o jornalista Paulo Fona não vê sentido algum na acusação de compra da casa. “Isso é uma politização absurda”, diz Fona. De fato, ele tem um argumento poderoso: um documento da Polícia Federal no qual é negada a existência de qualquer investigação sobre a casa da governadora. No papel, o superintendente da Polícia Federal no Rio Grande do Sul, Ildo Gasparetto, apoiado em ofícios dos delegados responsáveis pela Operação Rodin, Sérgio Busato e Gustavo Schneider, afirma desconhecer a origem das declarações feitas pelo delegado Tubino na CPI do Detran. Yeda Crusius, no entanto, ainda não se livrou da suspeita de ter se beneficiado com dinheiro de caixa 2 arrecadado pela quadrilha do Detran, base das acusações feitas pela oposição na CPI do Detran. A PF só analisou, até agora, 20% das escutas telefônicas autorizadas pela Justiça.

A informação do delegado sobre a casa de Yeda Crusius ganhou força por agradar a oposição, mas também por conta de um acontecimento paralelo. No mesmo dia do depoimento de Tubino, o secretário estadual de Planejamento e Gestão, Ariosto Culau, foi flagrado por repórteres do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, enquanto tomava chope em um shopping com Ferst. Segundo diálogo reproduzido pelo jornal, Culau foi ao lobista para acalmar e dar apoio ao aliado tucano. O secretário foi demitido. Para o presidente da CPI do Detran, o deputado estadual Fabiano Pereira (PT), a intenção era mesmo a de manter Ferst sob controle. “Foi um deboche”, afirma.

Fabiano Pereira também não está numa cruzada fácil. Dos 55 deputados da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, 35 votam com Yeda Crusius. A base governista é formada por parlamentares do PSDB, PTB, PP e PMDB. A oposição conta uma base flutuante de 19 a 20 deputados, a depender do tema de votação, porque um dos parlamentares, do PDT, costuma fechar também com o governo estadual. E há três deputados do ex-PFL, ligados ao vice-governador, instados a votar, eventualmente, contra a governadora. É uma confusão e tanto.

Na CPI, o equilíbrio de forças também é precário. Dos 12 integrantes, cinco estão, normalmente, com a oposição, e sete com o governo. Mas quando há empate, vale o voto de Minerva do presidente da comissão, que é do PT. Não tem sido fácil, portanto, vencer os governistas. Por duas vezes, o plenário da CPI refutou a tentativa do deputado Fabiano Pereira de prorrogar os trabalhos da comissão. Sem essa prorrogação, dificilmente a oposição vai ter fôlego para dar conseqüência às denúncias do Detran. “Não queremos que isso seja uma guerra entre oposição e governo”, afirma Pereira. “Estamos divididos entre os que querem e os que não querem investigar o caso.”

26/04/2008 - 09:47h O ruido provocado pelo silêncio da mídia paulista sobre o DETRAN de RS faz o Estadão reagir. Já a Folha…

Escândalo do Detran atinge secretário no RS

Integrante do primeiro escalão do governo gaúcho é flagrado com suspeito de desvio de verbas

Marcos Nagelstein

Num shopping da Capital, Ferst (E) e Ariosto tomaram chope na noite de ontem, em clima de aparente tranqüilidadeFoto: Marcos Nagelstein

Elder Ogliari – O Estado de São Paulo

Um encontro de cerca de meia hora do secretário do Planejamento do Rio Grande do Sul, Ariosto Culau, com o empresário Lair Ferst, na noite de quinta-feira, constrangeu o governo de Yeda Crusius (PSDB). Ferst foi um dos 14 presos pela Operação Rodin da Polícia Federal, em novembro do ano passado, e um dos 39 indiciados ao final do inquérito, em março deste ano, por suposta participação em um desvio de R$ 40 milhões do Departamento Estadual de Trânsito (Detran).

Informados de que o secretário e o empresário tomaram chope na praça de alimentação de um shopping, deputados da oposição e até aliados pediram a exoneração de Culau ainda durante a madrugada de ontem. A governadora não atendeu aos pedidos. “Ele é uma pessoa qualificada e íntegra e não está na minha linha de ação demitir um secretário porque ele tomou um chope com um amigo”, justificou Yeda.

O episódio dá mais munição à oposição na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga o desvio Detran. A fraude consistia na contratação, pelo órgão, da Fundação de Apoio à Ciência e Tecnologia (Fatec), vinculada à Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), sem licitação. A fundação terceirizava os serviços de elaboração e aplicação de testes para emissão de carteiras de motorista para empresas, entre as quais duas de familiares de Ferst. As empresas superfaturavam os serviços e repassavam parte de seus ganhos a diretores do Detran.

Desde a instalação da CPI, em fevereiro, a oposição faz de Ferst um alvo, porque ele atuou na linha de frente na campanha política de Yeda em 2006. Culau, por sua vez, comandou uma força-tarefa que estudou a situação jurídica do Detran e participou do anúncio da rescisão do contrato com a Fundação para o Desenvolvimento e Aperfeiçoamento da Educação e da Cultura (Fundae), substituta da Fatec desde abril do ano passado.

A decisão colocaria o governo na ofensiva, mas o encontro com Ferst, poucas horas depois do anúncio, deu novas armas à oposição.

CASA DE YEDA

Ao explicar o episódio, Culau disse que estava esperando por amigos no shopping quando recebeu um telefonema de Ferst e aceitou tomar um chope com ele. O encontro foi flagrado pela reportagem do jornal Zero Hora. “Foi uma ingenuidade política minha”, disse.

Outro tema polêmico voltou à CPI durante a madrugada. Em depoimento à comissão, o delegado de Polícia Civil Luiz Fernando Tubino disse ter recebido a informação, da quebra de sigilos pela Polícia Federal, de que Lair Ferst teria pago R$ 400 mil do custo da casa adquirida por Yeda no final de 2006. Sem apresentar provas, sugeriu que cabe à CPI buscar as informações. A casa foi comprada por R$ 750 mil.

Na quarta-feira Yeda já havia anunciado que processaria o deputado Fabiano Pereira (PT) por ele insinuar que os dados da aquisição não fecham com a declaração de bens da governadora em 2006 .

A governadora sustenta que reuniu o dinheiro com a venda de um automóvel e dois apartamentos, além de um financiamento bancário. O depoimento de Tubino foi qualificado como “grosseira mentira” pelo porta-voz do governo gaúcho, Paulo Fona. “No momento certo a governadora vai demonstrar cabalmente como comprou a casa dela”, prometeu.

24/04/2008 - 23:05h Novidades em Rio Grande do Sul…

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Rompimento unilateral

A governadora Yeda Crusius acaba de anunciar o rompimento unilateral do contrato do Detran com a Fundae. Uma comissão de licitação será instalada amanhã para elaborar um edital para a contratação do novo prestador de serviço. A Fundae ainda oferecerá o serviço durante 30 dias, até que o edital seja publicado.

O contrato não prevê multa rescisória em caso de interrupção.

A Fundação Educacional e Cultural para o Desenvolvimento e Aperfeiçoamento da Educação e da Cultura (Fundae) foi contratada em abril de 2007 pelo Detran, em substituição à Fundação de Apoio à Tecnologia e Ciência (Fatec) para a elaboração e aplicação de testes para a Carteira Nacional de Habilitação.

Investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal apontam que a contratação beneficiava irregularmente empresas subcontratadas, previamente escolhidas. O esquema resultou em uma fraude de cerca de R$ 40 milhões na autarquia.

O contrato Detran-Fundae já foi tarde

Durou exatos um ano e oito dias o contrato entre Detran e Fundae. Nunca na história do Estado um contrato se manteve por tanto tempo cercado de tantas e tão graves suspeitas.

Apenas para refrescar a memória:

1) O contrato foi celebrado sem licitação, procedimento que só se admite em caso de emergência ou de calamidade pública ou para fins de ensino e pesquisa.

2) Uma das justificativas oficiais para a troca de fundações — da Fatec, que prestava o serviço desde 2003, para a Fundae — foi a eliminação das chamadas “sistemistas” (empresas subcontratadas). Doze dias antes de fechar o contrato com o Detran, porém, a Fundae firmou com a Fatec outro contrato pelo qual a última prestaria serviços à primeira.

3) Numa manobra comandada pela Pensant Consultores, apontada como cabeça do esquema, 109 examinadores da Fatec foram demitidos e recontratados pela Fundae no mesmo dia, 12 de maio. Sem isso, a Fundae não teria podido começar a prestar o serviço no dia 14 de maio.

4) Segundo o ex-secretário executivo da Fatec Silvestre Selhorst, em depoimento à Polícia Federal, a assinatura do contrato com a Fundae teria sido precedida por uma longa negociação sobre pagamento de propina.

5) O contador Rubem Höher, coordenador do projeto Detran na Fundae, afirmou à Polícia Federal ter entregue R$ 175 mil em propina numa mala ao ex-diretor da CEEE Antônio Dorneu Maciel.

Pedido de explicações

Mais uma sessão da CPI do Detran que promete ser polêmica teve início há pouco. O deputado Elvino Bohn Gass (PT) abriu a sessão pedindo que a CPI peça ao governo a exposição de motivos que levou a governadora Yeda Crusius a romper hoje o contrato com a Fundae.
Bohn Gass sustenta que Yeda deu aval para que Vaz Netto contratasse a Fundae nos mesmos moldes que havia sido contratada a Fatec, ou seja, sem licitação.
— Queremos saber as razões pelas quais, neste momento, foi tomada essa decisão — disse o deputado.

Prevenção a fraudes

Para acabar com a possibilidade de desvios como os que ocorreram no Detran, o procurador do Ministério Público de Contas Geraldo da Camino sugere uma alteração no inciso 13 do artigo 24 da lei 966/93.

Uma das mudanças seria garantir que prestadoras de serviço (como no caso do Detran, na elaboração e aplicação de testes para a emissão carteira de habilitação) comprovem que dispõem de infra-estrutura para prestar integralmente o serviço, vedando a possibilidade de subcontratação. Também, que seja comprovada a compatibilidade do serviço com os preços de mercado.

Da Camino está depondo neste momento na CPI do Detran. O procurador está sendo coberto de elogios pelos deputados e conhece cada detalhe da investigação.

Justo hoje

Em seu depoimento na CPI do Detran, o procurador do Ministério Público de Contas Geraldo da Camino disse ter ficado “muito espantado” com o fato de o governo não ter rompido com a Fundae no dia seguinte à Rodin.

Com o rompimento do contrato do Detran com a Fundae anunciado hoje, a governadora Yeda Crusius admitiu que, após o prazo de 30 dias em que a Fundae seguirá prestando os serviços, outra prestadora terá de ser contratada emergencialmente. Quando questionado sobre o que seria possível fazer para resolver essa situação, o procurador disse que não há outro jeito. Terá de haver contratação emergencial, sim, uma vez que o processo licitatório não estará concluído tão rapidamente. O presidente da CPI, Fabiano Pereira ressaltou que a CPI ficará de olho nessa contratação e sugeriu que o Ministério Público de Contas faça o mesmo.

Alguns deputado chegaram a brincar que o anúncio de rompimento coma Fundae, feito justamente hoje, foi uma homenagem ao depoimento do procurador à CPI. A vereadora Stela Farias (PT) disse que a interrupção é uma “vitória da força-tarefa da Rodin e da CPI”.

17/04/2008 - 21:00h Rio Grande do Sul: Zero Hora informa, o resto da mídia oculta

Vaz Netto manda recado ao Piratini

Em e-mail endereçado ao secretário-geral de Governo, Delson Martini, ex-presidente do Detran pede que aliados do governo o defendam na CPI e ameaça retornar voluntariamente à comissão

Indiciado pela Polícia Federal (PF) por suposto envolvimento na fraude do Detran, o ex-presidente da autarquia Flavio Vaz Netto enviou um recado ao Palácio Piratini: se os aliados da governadora Yeda Crusius não assumirem sua defesa na CPI que investiga o assunto, ele poderá optar por um “retorno voluntário” à comissão.

O destinatário do recado, enviado em dois e-mails nos dias 7 e 14, é o secretário-geral de Governo, Delson Martini.

A tentativa do procurador aposentado de marcar uma audiência com Martini, revelada ontem pela Página 10 de Zero Hora, gerou constrangimento no Palácio Piratini e agitação entre deputados da CPI. Demitido pela governadora em 7 de novembro, um dia depois de ser preso pela PF, Vaz Netto disse ontem por telefone que está há 15 dias tentando se reunir com Martini.

- É um assunto pessoal – afirmou.

Questionado sobre se o tema da conversa envolveria o Detran, desconversou:

- São questões que ficaram para trás, que eu preciso resolver com ele.

Disse que temas administrativos estão incluídos na pauta, mas negou-se a dar detalhes. As tentativas de contato foram por meio de telefonemas e e-mails. Vaz Netto garante ter ligado três vezes para o número direto do gabinete de Martini, no Piratini. Atendido por uma funcionária que se identificou como Janete, deixou recado pedindo retorno.

Sem obter resposta, decidiu tentar contato por e-mail. No dia 7, enviou uma mensagem de seu e-mail pessoal para o endereço do secretário-geral. No dia 14, pediu que sua mulher e procuradora fizesse nova tentativa, também direcionada ao e-mail de Delson. Foi a essa mensagem que Zero Hora teve acesso ontem. Em ambas Vaz Netto não obteve retorno.

Secretário-geral afirmou desconhecer o assunto

O presidente da CPI do Detran, deputado Fabiano Pereira (PT), afirmou que o fato de Vaz Netto procurar Martini indica que o secretário-geral “sabe mais sobre as questões do escândalo do Detran do que tem dito publicamente”.

- Nos parece muito estranho que Delson Martini continue sendo interlocutor dessas questões, porque o próprio Vaz Netto falou que já tratou com ele antes. Naquela época o objetivo era intermediar o tema do Lair Ferst (empresário) – destacou o presidente da comissão.

O deputado Elvino Bohn Gass (PT) afirmou que vai reapresentar à comissão a proposta de convocação de Martini para depor. No dia 31 de março, o pedido foi rejeitado pela CPI por oito votos a quatro.

Acompanhando a governadora no Fórum dos Governadores ADVB 2008, no Rio de Janeiro, Martini não aceitou falar sobre o pedido do ex-presidente do Detran. Do Rio, o secretário-geral embarcou para São Paulo. Por meio de um assessor de imprensa que acompanhava Yeda, Martini afirmou que desconhece o assunto e que soube da intenção de Vaz Netto pelo jornal. Segundo a assessoria da Secretaria-Geral, não há pedido de audiência de Vaz Netto protocolado na agenda do titular da pasta. O porta-voz do governo, Paulo Fona, preferiu não entrar na polêmica, informando que a questão deve ser respondida pelo secretário-geral.

*Colaborou Leandro Fontoura

O que diz o e-mail

“Aos cuidados do Exmo. sr. secretário Delson Martini.

Venho a sua presença, em representação a Flavio Vaz Netto, para reiterar o pedido de audiência que, a esta altura, revela-se urgente em razão da matéria a ser tratada e do fato de que o Dr. Flavio Vaz Netto estará na Capital até amanhã, dia 15/04, viajando na manhã do dia seguinte. Permito-me, na condição de sua procuradora, sugerir, respeitosamente, o acolhimento da presente solicitação. Reitero-lhe, outrossim, que a matéria a ser tratada na audiência versará sobre assuntos de interesse comum e de governo e, ainda, do retorno voluntário do Dr. Flavio à CPI do Detran, fundamentalmente em razão de imputações que lhes estão sendo feitas sem a contradita da base aliada cujos pontos são de inteiro conhecimento do governo . Pontos que, na ausência de esclarecimento por parte do governo o fará de moto próprio.”

Quem vai prestar depoimento

Luiz Gonzaga Isaía (indiciado)
Foi um dos fundadores da Fundae e hoje é um de seus diretores.

Jeferson Sperb
Supervisor da Divisão de Habilitação do Detran.

Valter Ferreira da Silva
É diretor do Sindicato dos Instrutores e Examinadores de Condutores de Veículos. Deverá falar sobre a transição da Fatec pela Fundae.

16/04/2008 - 18:22h Porque este dossiê não vaza?

detran_rs.jpgRio Grande do Sul não deve fazer parte do Brasil. É a única explicação que encontro para a total ausência de informação sobre o escândalo do Detran e sobre o desenrolar da CPI sobre este tema na Assembléia gaúcha.

Inicialmente pensei que era o peso da mídia no eixo São Paulo – Rio que deixa pouco espaço para os problemas nos demais Estados. Mas hoje reparei que falavam da sogra do governador do Ceará, então não pode ser isso.

Talvez os leitores deste blog pudessem ajudar a desvendar o mistério.

A jornalista Rosana de Oliveira, do jornal Zero Hora de Rio Grande, resume assim a questão do Detran:

Entenda a fraude

O escândalo, segundo investigação da Polícia Federal, se deu da seguinte forma:
1) Entre 2003 e 2007, o Departamento Estadual de Trânsito (Detran) contratou fundações (Fatec e Fundae) para a realização de exames teóricos e práticos necessários para a emissão de carteiras de habilitação.
2) Essas fundações terceirizaram o trabalho a outras empresas, que, além de não efetivar os serviços na íntegra, teriam superfaturado os preços pelo trabalho prestado.
3) Em contrapartida, essas empresas terceirizadas pagariam propina a dirigentes do Detran.
4) O esquema desviou mais de R$ 40 milhões de dinheiro público.
A troca de fundações
Por que houve substituição da Fatec pela Fundae em abril de 2007?
Segundo investigação da Polícia Federal, foi uma manobra dentro do esquema criminoso visando a eliminar do negócio algumas empresas subcontratadas e a manter outras a fim de preservar o pagamento de propina.
Por que a Fundae acabou subcontratando a Fatec?
A Fundae, de acordo com as investigações, foi convidada a assumir o contrato com o Detran sem ter condições técnicas e de pessoal para prestar o serviço. Por isso teria ficado acertado que a Fatec seria subcontratada.

Curioso que nenhum político seja mencionado, mais pelo menos a questão da fraude aparece clara.

O que não é claro é que ninguém fale desta história gaúcha.

Já o casamento da filha da ministra Dilma Roussef é um tema que não será ignorado pela mídia.

Questão de interesse público, indiscutivelmente.

LF

PS além do Blog da jornalista Rosana de Oliveira, o Blog RS urgente também acompanha diariamente o desenrolar deste escândalo.

12/04/2008 - 13:14h Carteira de habilitação gaúcha, no bico tucano

Escândalo à moda gaúcha

Carta Capital -Mauricio Dias

tucano_bico_azul.jpg
Mauricio Dias

Embora seja ignorado pela imprensa do Sudeste, o vento político provocado no Rio Grande do Sul pela CPI do Detran, instalada na Assembléia Legislativa de Porto Alegre a partir das ações da Polícia Federal, sopra tão forte quanto o minuano pelo Pampa gaúcho.

O “silêncio retumbante” no Sudeste talvez se explique pelo fato de o escândalo, um desvio de dinheiro público calculado em quase 45 milhões de reais, em um período de cinco anos, ter como causa mais provável a formação de caixa 2 de campanhas eleitorais, notadamente do PSDB. Eventualmente pode ter propiciado o enriquecimento ilícito de alguns dos atores. Em frase que junta práticas políticas do século XXI com ensinamentos do Padre Vieira (século XVII), o “dinheiro não contabilizado” nem sempre passa das mãos por onde passa.

O esquema foi iniciado em 2003 e desmontado pela Polícia Federal em novembro de 2007. Segundo o Inquérito da PF, o Departamento de Trânsito contratou, sem licitação, uma fundação, a Fatec, ligada à Universidade Federal de Santa Maria para aplicar as provas teóricas e práticas da carteira de habilitação.

Quem mais lucrou com o contrato foram as empresas ligadas à família de Lair Ferst, um dos coordenadores da campanha da atual governadora do estado, a tucana Yeda Crusius. Duas empresas da família Ferst receberam, juntas, mais de 23 milhões de reais. Lair Ferst integrou a direção da vitoriosa campanha do PSDB para o governo do estado, em 2006. Em dezembro de 2007 estava entre os 13 presos apanhados no arrastão da Polícia Federal.

Há mais gente envolvida da base aliada da governadora. Na época em que a roda da fortuna começou a girar, o deputado José Otávio Germano, do PP, era o secretário de Justiça ao qual está subordinado o Detran. Em 2007, com o novo governo, foi estabelecido outro contrato com a Fundae, da mesma cidade. Com a Fatec e a Fundae, o contrato que custava cerca de 900 mil reais por mês chegou perto da casa dos 2 milhões de reais mensais.

Em março, ao encaminhar o inquérito ao Ministério Público Federal, a PF pediu o indiciamento de 39 pessoas, incluindo deputados e secretários de estado que dispõem de foro privilegiado. Os crimes apontados são os de formação de quadrilha, corrupção ativa e passiva e peculato, entre outros. Todas elas estão sendo chamadas a depor na CPI do Detran, presidida pelo deputado Fabiano Pereira, do PT.

O episódio mostra o vôo curto e desajeitado da ética tucana. No Sudeste o PSDB acusa. No Sul se defende das denúncias de corrupção. As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.