10/08/2008 - 10:51h Virar à esquerda para crescer

*JOSEPH E. STIGLITZ - O Globo

A imagem “http://www.themorningsidepost.com/images/2007/09/27/stiglitz.jpg” contém erros e não pode ser exibida.Tanto a esquerda como a direita dizem defender o crescimento econômico. Então, para os eleitores, trata-se apenas de escolher entre equipes gerenciais alternativas? Quem dera fosse tão fácil. Parte do problema se refere ao papel da sorte. A economia americana, nos anos 90, foi abençoada por baixos preços da energia, alta taxa de inovação e uma China a oferecer cada vez mais produtos de boa qualidade a preços decrescentes, tudo combinando para resultar em inflação baixa e rápido crescimento.

O presidente Clinton e o então presidente do Fed (banco central), Alan Greenspan, merecem pouco crédito por isso — embora, a bem da verdade, tenham evitado políticas que pusessem tudo a perder. Em contraste, os problemas que enfrentamos hoje — altos preços de energia e alimentos e um sistema financeiro a desmoronar — foram, em grande parte, causados por políticas erradas.

Há grandes diferenças entre estratégias de crescimento, o que torna altamente prováveis resultados também diferentes. A primeira se refere à forma em que o crescimento é concebido.

Ele não é apenas a ampliação do Produto Interno Bruto. Precisa ser sustentável: crescimento com degradação ambiental, com consumo baseado em endividamento ou exploração de recursos naturais escassos, sem reinvestimento dos rendimentos, não é sustentável.

O crescimento deve ser inclusivo; pelo menos a maioria dos cidadãos deve ser beneficiada. Truques econômicos não funcionam: um aumento do PIB pode até piorar a situação da maioria dos cidadãos. O crescimento recente dos EUA não foi nem economicamente sustentável nem inclusivo. A maioria dos americanos está pior hoje do que há sete anos.

Mas não há um compromisso entre desigualdade e crescimento.

Os governos podem estimular o crescimento via aumento da inclusão.

O maior recurso de um país é seu povo.

É essencial assegurar que todos possam desenvolver seu potencial, o que requer oportunidades educacionais para todos.

Uma economia moderna requer também assumir riscos.

As pessoas ficam mais propensas a assumir riscos se houver uma boa rede de proteção. Se não houver, elas podem pedir proteção contra a competição estrangeira. Proteção social é mais eficiente que protecionismo.

Fracasso na promoção da solidariedade social pode ter outros custos, entre os quais os necessários para proteger a propriedade privada e manter encarcerados os criminosos.

Estima-se que, dentro de poucos anos, os EUA terão mais gente trabalhando em segurança do que em educação.

Um ano na prisão pode custar mais do que um ano em Harvard. O custo de manter encarcerados 2 milhões de americanos — uma das maiores taxas do mundo — deve ser subtraído do PIB, ao invés de adicionado.

Uma segunda grande diferença entre esquerda e direita diz respeito ao papel do Estado no desenvolvimento.

A esquerda entende ser vital que o Estado proveja infra-estrutura e educação, desenvolva tecnologia e até mesmo atue como empreendedor.

O governo assentou as bases da internet e da moderna revolução da biotecnologia. No século XIX, a pesquisa em universidades que recebiam apoio governamental possibilitou a revolução na agricultura.

O governo levou os avanços a milhões de fazendeiros americanos. Empréstimos para pequenos negócios foram cruciais na criação de novos negócios e também de novas indústrias.

A diferença final pode parecer estranha: a esquerda agora entende o mercado e o papel que ele pode e deve ter na economia. A direita, especialmente nos EUA, não. A nova direita, tipificada pela administração Bush-Cheney, é realmente o velho corporativismo em disfarce novo. Ela acredita num Estado forte, com poderes executivos robustos, usados em defesa de interesses estabelecidos e com pouca atenção aos princípios do mercado. A lista de exemplos é longa e inclui subsídios para grandes fazendeiros, tarifas para proteger a indústria siderúrgica e, mais recentemente, megaoperações de salvamento de Bear Sterns, Fannie Mae e Freddie Mac. Mas a inconsistência entre retórica e realidade vem de longe: o protecionismo cresceu nos anos Reagan, inclusive com a imposição da chamada restrição voluntária das exportações de carros japoneses.

Em contraste, a nova esquerda está tentando fazer o mercado funcionar.

Mercados livres não funcionam adequadamente por si mesmos — uma conclusão corroborada pela atual debacle financeira. Defensores do mercado algumas vezes admitem que eles falham, até desastrosamente, mas alegam que têm a propriedade de se autocorrigirem. Durante a Grande Depressão, argumentos similares foram ouvidos: o governo não tem de fazer coisa alguma porque o mercado restabeleceria o pleno emprego a longo prazo. Mas, como John Maynard Keynes disse, a longo prazo todos estaremos mortos.

O mercado não é autocorretivo num período de tempo relevante. Nenhum governo pode ficar sentado assistindo a um país cair na recessão ou na depressão, mesmo quando causadas por excesso de gula de banqueiros ou por avaliação equivocada do risco pelo mercado financeiro ou por agências de classificação. Mas, se são os governos que vão pagar a conta da economia no hospital, devem fazer de tudo para tornar menos provável a internação.

O mantra da direita sobre desregulamentação dos mercados estava errado, e agora pagamos o preço.

Que, em termos de perda de produção, será alto — talvez mais de US$ 1,5 trilhão apenas nos EUA.

A direita costuma alegar seu parentesco com Adam Smith, mas enquanto Smith reconhecia o poder do mercado, reconhecia também suas limitações.

Mesmo em sua época, empresários descobriram que podiam elevar mais facilmente os lucros conspirando para aumentar preços do que produzindo de forma mais eficiente mercadorias inovativas. Poderosas leis antitruste são necessárias.

É fácil dar uma festa. Por uns momentos, todo mundo pode sentir-se bem. Já promover o crescimento sustentável é muito mais difícil. Hoje, em contraste com a direita, a esquerda tem uma agenda coerente — que não oferece só mais crescimento, mas também justiça social. Para os eleitores, deveria ser uma fácil escolha.

*JOSEPH E. STIGLITZ é economista e foi Prêmio Nobel de Economia em 2001

25/07/2008 - 16:45h Krugman defende ação do BC no Brasil

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O economista
Paul Krugman,
que vê Brasil
líder dos emergentes

FOLHA SP - DA REPORTAGEM LOCAL

FOTO Moacyr Lopes Jr -

23.jul.08/Folha Imagem


DENYSE GODOY - FOLHA SP

Não, não vai ser a China. O papel de grande líder das nações emergentes caberá ao Brasil, na avaliação do economista americano Paul Krugman, 55, embora a economia brasileira esteja crescendo menos do que poderia, segundo ele. As deficiências do Brasil, porém, impedem um crescimento maior sem inflação agora. “Não se pode ter uma política que leve o crescimento a um ritmo superior ao seu potencial”, disse. Por isso o economista apóia a elevação dos juros pelo BC.

A seguir, trechos da entrevista que concedeu ontem à Folha, por telefone, do Rio. Ele esteve no Brasil por dois dias participando de seminários.

FOLHA - Qual é a sua análise da atuação dos bancos centrais dos emergentes, como o brasileiro, que acaba de elevar os juros?

PAUL KRUGMAN - Eu diria que faz sentido, mas não posso julgar se o tamanho e o ritmo do aumento de juros estão certos.
Nos países avançados, o problema é a deflação e uma ameaça de colapso no mercado financeiro. Na maior parte do mundo emergente, as pressões são inflacionárias.

FOLHA - Aumentar os juros é a melhor alternativa no caso de uma inflação causada primeiramente pela alta dos preços das commodities?

KRUGMAN - A minha avaliação é de que, nos EUA, não é desejável usar a política monetária para lutar contra a inflação de commodities. No Brasil, muito do que está acontecendo é explicado pelos alimentos, mas não tudo. Olhando para os EUA, temos um mercado de trabalho muito fraco. No Brasil, é o contrário.

FOLHA - É possível combater a inflação sem desistir totalmente de crescer?

KRUGMAN - Sim. Entretanto, se os indicadores dizem que o país está crescendo acima do potencial, é preciso fazer alguma coisa para segurar a inflação. Não tenho provas convincentes de que o Brasil possui uma taxa de crescimento potencial de mais de 5% [ao ano]. Não se pode ter uma política que leve o crescimento a um ritmo superior ao seu potencial.

FOLHA - Como vê o novo cenário mundial, em que EUA e Europa continuam sendo as economias mais importantes, porém surgem novos grandes atores, como China e Índia?

KRUGMAN - Ninguém sabe realmente como esse novo mundo vai se desenvolver, se será preciso um poder hegemônico ou não. Esperamos que não, porque não temos um.

FOLHA - E qual é o papel do Brasil nesse mundo?

KRUGMAN - O Brasil está em uma posição bastante interessante porque é o maior país em desenvolvimento que não é a China nem a Índia. A China e a Índia têm as suas especificidades, e é difícil colocar qualquer uma delas no papel de líder para os outros emergentes, porque, de certa forma, elas são grandes demais para fazer parte de alianças. Então, é o Brasil que está rumando para a função de líder dos emergentes.

FOLHA - Nas comparações com o crescimento da Índia e da China, o Brasil fica em desvantagem. O senhor está dizendo, então, que essa comparação não é justa?

KRUGMAN - Apesar de tudo, o Brasil é um país muito mais rico. Não é razoável esperar que o Brasil cresça tão rápido como a China. A China partiu de uma pobreza tão grande que um mínimo de modernidade é um avanço notável. Comparar com o crescimento da China é injusto, mas o Brasil está crescendo menos do que poderia.

FOLHA - A que se deve isso?

KRUGMAN - As explicações usuais dizem respeito à educação, que não é boa como deveria ser. Nos países asiáticos de elevado crescimento, a educação é surpreendentemente melhor do que se esperaria, mesmo o país tendo muita pobreza. Se esse é o motivo? Não sei.

FOLHA - Os EUA já se encontram mergulhados em uma recessão?

KRUGMAN - A definição oficial de recessão nos EUA é dada por um comitê. Não temos uma definição formal, então fica difícil. Independentemente da palavra, a situação que temos claramente nos últimos seis meses é a economia crescendo, mas devagar demais. A questão é se o comitê vai decidir chamar isso de recessão, porque a maior parte de nós sente como uma recessão, com certeza.

FOLHA - O presidente George W. Bush e o presidente do Fed (banco central americano), Ben Bernanke, poderiam ter feito alguma coisa diferente para evitar que a situação chegasse ao ponto em que está?

KRUGMAN - O melhor teria sido tomar uma posição [quanto às operações com hipotecas de alto risco] entre o final de 2004 e o começo de 2005. Se o Fed tivesse começado a cortar os juros no começo de 2007, talvez pudesse ter evitado isso tudo. A redução da taxa só veio em agosto de 2007, pois antes não estava óbvio para todo mundo que havia um problema. No entanto, acho que Bernanke tem o crédito de estar agindo com a agressividade que um banco central nunca teve.

FOLHA - Quais são os principais desafios para o próximo presidente?

KRUGMAN - Ele vai ter que mostrar trabalho imediatamente. Em um ano os resultados precisam aparecer, senão terá que assumir a recessão como sua.
Ademais, será necessário fazer a reforma do sistema de saúde.

FOLHA - Em termos de projetos, dá para saber para qual direção Barack Obama e John McCain (candidatos à Presidência dos EUA) estão caminhando?

KRUGMAN - McCain quer fazer o que Bush fez, só que melhor, e isso é o máximo que é possível dizer. Sobre Obama, não sabemos ainda. Ele claramente é um democrata liberal, mas não sabemos se é um reformador modesto ou se é alguém que vai realizar grandes mudanças.

FOLHA - Alguma esperança em relação a ele?

KRUGMAN - Eu tenho esperança. Se bem que, falando de Obama, não se pode usar a palavra “esperança” [risos]. Sempre que uso o termo “esperança” na minha coluna. recebo dezenas de cartas perguntando se estou tirando sarro de Obama [o candidato utiliza a palavra nos seus slogans]. Estou preocupado, acho que ele tem uma tendência de ser cauteloso demais, de correr para o que as pessoas chamam de centro. Espero que se mostre mais determinado.

FOLHA - Para os que reclamam do protecionismo dos EUA, quem, entre Obama e Mccain, seria mais liberal em termos de comércio?

KRUGMAN - Nenhum dos dois.
Não vamos ter novamente um grande apoio dos EUA à globalização. Mas provavelmente também não teremos um período de grande protecionismo.
É provável que McCain seja mais protecionista. Para Obama, se existem acordos [multilaterais], os EUA devem obedecer a eles, enquanto McCain pode dizer que os tratados existem mas o país mudou de idéia.

FOLHA - Algum dos dois poderia ser mais simpático ao álcool de cana-de-açúcar, considerando que o biocombustível de milho não parece ser uma boa idéia e o preço do petróleo está nas alturas?

KRUGMAN - Os 5% da população dos EUA a quem interessa que o país mantenha essas medidas malucas [de incentivo ao álcool de milho] são os que têm poder de decisão política. A resposta é não, nada vai acontecer.

24/07/2008 - 09:10h Crise será longa, mas sem colapso

Paul KrugmanA imagem “http://www.valoronline.com.br/images/edicoes/ed_0002056/imagens/foto_24pri-capa-a1.jpg” contém erros e não pode ser exibida.

A atual crise financeira dos Estados Unidos e da Europa não deve levar a um colapso na economia global, mas o mundo pode se preparar para alguns anos de desaceleração no ritmo de crescimento. O professor Paul Krugman, da Universidade de Princeton, considera que a ação agressiva e pró-ativa dos bancos centrais foi providencial e deve evitar uma catástrofe econômica semelhante à registrada nos anos 30. Essa avaliação é compartilhada por analistas brasileiros como o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho. Os três economistas participaram ontem, em São Paulo, do Fórum CPFL Energia, evento que contou com o apoio do Valor e teve como tema “Crise Financeira Internacional e Crescimento da Economia Brasileira”.

Sobre o Brasil, a opinião dominante é de que o novo cenário internacional traz pressões inflacionárias e alguma desaceleração da atividade econômica, mas não a ponto de causar transtornos mais sérios. Krugman lembra que, no meio da crise, o país tem se beneficiado da alta dos preços das commodities, por ser um grande exportador de produtos primários. Com a perspectiva de alguma queda das commodities, ele acha possível que haja uma desvalorização do câmbio.


Luciano Coutinho, residente do BNDES e  Luiz Gonzaga Belluzzo, Pres. do conselho da TV Brasil

Horizonte de incertezas


Por Sergio Lamucci e Cristiane Perini Lucchesi - VALOR

A crise financeira dos Estados Unidos e da Europa que se seguiu ao estouro da bolha imobiliária americana não deve levar a um colapso na economia global, mas o mundo pode se preparar para alguns anos de desaceleração no ritmo de crescimento. Esse é o diagnóstico feito pelo professor Paul Krugman, da Universidade de Princeton, para quem a ação agressiva e pró-ativa dos bancos centrais - como o Federal Reserve, dos Estados Unidos, o Banco da Inglaterra e, em menor grau, o Banco Central Europeu - foi providencial e deve evitar uma catástrofe econômica semelhante à registrada nos anos 30. A avaliação de que os efeitos da crise não serão muito agudos, porém prolongados, é compartilhada por analistas brasileiros como o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho.

Quanto ao Brasil, a opinião dominante é de que o novo cenário internacional traz pressões inflacionárias e alguma desaceleração da atividade econômica, mas não a ponto de causar transtornos mais sérios. No meio da crise, o país tem se beneficiado da alta dos preços das commodities, por ser um grande exportador de produtos primários, como nota Krugman. O economista americano participou ontem do Fórum CPFL Energia, realizado em São Paulo. O evento, que contou com o apoio do Valor, teve como tema “Crise Financeira Internacional e Crescimento da Economia Brasileira”.

Ao comentar as origens da crise americana atual, Krugman destacou uma mudança na economia global que teve início depois da crise asiática de 1997. Após a turbulência que acometeu a região naquele ano, muitos países asiáticos adotaram uma estratégia baseada no atrelamento de suas moedas ao dólar, formal ou informalmente, e na acumulação agressiva de reservas internacionais.

O excedente dos superávits comerciais dos asiáticos passou a ser aplicado principalmente na compra de títulos públicos do Tesouro dos EUA. Esse arranjo, pelo qual os países da Ásia passaram a financiar os déficits americanos, ficou conhecido como Bretton Woods II, definição cunhada pelos economistas Michael Dooley, David Folkerts-Landau e Peter Garber. As conferências de Bretton Woods aconteceram em 1944 e determinaram um sistema de câmbio fixo global, usando como base a paridade entre o dólar e o ouro. Esse sistema acabou nos anos 70.

No Bretton Woods II, “países que eram importadores de capital se tornaram exportadores de capital”, disse Krugman. Esse mecanismo ajudou a financiar as bolhas especulativas na economia americana, diz ele, lembrando que os preços dos imóveis nos EUA cresceram 70%, em termos reais, entre 2000 e 2006.

A bolha então estourou, primeiramente com a crise do subprime (as hipotecas de alto risco), que atingiu os mercados internacionais a partir de meados do ano passado. “De agosto de 2007 para cá, nós já tivemos quatro ondas sucessivas da crise. A mais recente foi a da Fannie Mae e da Freddie Mac”, apontou Krugman, em referência às dificuldades enfrentadas pelas gigantes do financiamento imobiliário americano.

Dado o tamanho do problema, seria factível pensar num cenário parecido com o colapso financeiro dos anos 30, disse ele. A grande diferença é que os bancos centrais agiram agressivamente para evitar o pior. Com essa atuação, Krugman acredita que um colapso financeiro como o ocorrido nos anos 30 é muito pouco provável, embora não completamente implausível. “Mas, há seis meses eu tinha mais dúvidas sobre isso”, afirmou ele. Krugman não negou a existência do chamado “risco moral” - moral hazard -, de bancos não-regulamentados receberem garantias governamentais iguais aos regulamentados. “Há o risco de estarem jogando com o dinheiro público”, afirmou. Atuação das autoridades monetárias não deve impedir, também, que os EUA cresçam alguns anos abaixo do seu potencial, advertiu Krugman, que vê o seu país em recessão. “O crescimento só não tem sido mais baixo por causa do dólar fraco, que tem feito aumentar as exportações.”

Belluzzo concordou com a avaliação de Krugman, apostando que a crise não “será aguda, mas será prolongada”. Para Belluzzo, já está em curso um “credit crunch”, ou seja, uma violenta contração do crédito. “Isso gera problemas graves para a economia real”, afirmou ele, para quem também é provável que a economia americana cresça algum tempo abaixo do potencial. Coutinho, por sua vez, enfatizou que os problemas financeiros nos EUA deverão demorar bastante para ser digeridos. Quem previu em maio o fim da crise mostrou-se totalmente precipitado, observou ele.

Krugman considera crucial o papel do câmbio desvalorizado nos EUA para explicar os efeitos globais da atual crise, num mundo em que países importantes como a China tem suas moedas em alguma medida atrelada ao dólar. Além do aumento dos preços das commodities em dólar, Krugman disse que, dado o arranjo de Bretton Woods II, os “EUA estão de fato exportando inflação para o mundo”, com o dólar fraco e os juros baixos. Nos Estados Unidos, que enfrentam uma crise financeira e uma desaceleração da atividade econômica, essa combinação não é inflacionária nem expansionista. Nos países que de algum modo atrelam sua moeda à divisa americana, a situação é diferente, como por exemplo na China.

Ele lembrou que os cortes de juros do Fed têm afetado o crédito imobiliário americano, que continua com alta de taxas para o cliente final. No entanto, tem promovido uma aceleração forte de crescimento nas economias dos países emergentes. Para ele, a economia da China está superaquecida e será necessário desacelerar o ritmo de crescimento. Uma das estratégias para combater a inflação nesses países será por meio da valorização de suas moedas, acredita Krugman. Com isso, a China, um dos principais motores da economia global nos últimos anos, deverá crescer a um ritmo um pouco menor daqui para frente, o que, segundo ele, poderá levar a alguma queda dos preços de commodities, mas não a um tombo abrupto. Esse crescimento menor na China, na sua visão, não é positivo para o Brasil, que pode ter seu ritmo de expansão econômica reduzido.

Krugman foi cuidadoso ao falar do impacto da crise ao Brasil. Disse que a situação é mais complicada de se analisar, porque o país não faz parte do Bretton Woods II, tendo em seu lugar um câmbio flutuante que já se valorizou bastante em termos reais nos últimos anos. Com a perspectiva de alguma queda das commodities, ele acha possível que haja uma desvalorização do câmbio. Quanto à orientação das políticas no Brasil, disse que poderia afirmar que “elas não são obviamente estúpidas”.

Também presente no evento, o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros discordou da avaliação de Krugman sobre o papel da China. Para ele, o economista americano vê o país asiático como um personagem passivo, o que não seria condizente com a importância chinesa para a economia global. Para Mendonça de Barros, a China é, de fato, um dado novo no equilíbrio global, que mudou profundamente o panorama econômico do mundo. “O Brasil, por exemplo, foi um dos principais beneficiários do surgimento da China”, disse ele, referindo-se ao fato de o país asiático demandar fortemente os produtos exportados pelo país.

O ex-ministro avalia ainda que a China terá um papel crucial inclusive para “viabilizar a solução do problema econômico americano”. Mendonça de Barros destacou a importância cada vez maior do consumo na economia chinesa, compensando em parte a desaceleração na economia americana. Mendonça de Barros ressaltou a flexibilidade da economia dos EUA, que sempre mostra uma capacidade de adaptação a situações complicadas. “Eu aprendi que não se deve apostar contra o capitalismo americano, porque você acaba perdendo dinheiro.”

Para Luciano Coutinho, a economia brasileira tem condições favoráveis como nunca no pós-guerra para enfrentar a crise. “O colchão de reservas e a estabilidade e crescimento econômico vão permitir a digestão melhor dos problemas financeiros internacionais”, disse. Para ele, a alta de juros básicos é necessária neste momento e vai promover uma desaceleração “desejável” no crédito no Brasil. Na sua visão, “não há risco de o crédito desabar, ter uma parada abrupta”.

21/07/2008 - 08:40h Paulson vai à TV para tranqüilizar americanos

Secretário do Tesouro dos EUA foi a programas das redes CBS e CNN para dizer que depósitos bancários até US$ 100 mil estão protegidos

Agências Internacionais, Washington - O Estado de São Paulo

O secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, participou de dois programas de TV, o Face the Nation, da CBS, e o Late Edition, da CNN, ontem para tentar tranqüilizar a população dos Estados Unidos de que os depósitos bancários de até US$ 100 mil estão protegidos. Ele assegurou que o sistema bancário do país é sadio. No entanto, alertou para mais tempos difíceis pela frente. “Acredito que levará meses para que superemos essa fase.”

Apesar do cenário pouco animador, o secretário se mostrou confiante na aprovação, dentro do Congresso, de uma série de medidas propostas pelo governo para ajudar as gigantes hipotecárias semi-estatais Fannie Mae e Freddie Mac. “O Congresso entende a importância dessas instituições”, disse otimista de que o sinal verde será dado.

O presidente George W. Bush afirmou ontem que as duas empresas têm um papel central no sistema hipotecário e são fundamentais na concessão de créditos em momentos difíceis como o atual.

As medidas surgiram depois que o governo americano resolveu intervir no IndyMac, um dos maiores bancos de hipotecas dos Estados Unidos, quando correntistas retiraram mais de US$ 1,3 bilhão em apenas 11 dias. As autoridades decidiram passá-lo para a administração da Sociedade Federal de Seguro de Depósito (FIDC, na sigla em inglês). Foi o quinto banco a falir nos EUA neste ano, a exemplo do Bear Stearns.

Para o secretário do Tesouro, o número de bancos com problemas vai aumentar à medida em que lutarem para enfrentar grandes perdas de hipotecas ruins. “Claro que a lista vai aumentar dado o estresse que temos no mercado e à correção no mercado imobiliário. Mas, de novo, é um sistema bancário seguro. Nossos reguladores estão no controle dele. É uma situação controlável”, garantiu.

Durante as entrevistas, Paulson fez questão de lembrar que ninguém perdeu um centavo sequer num depósito segurado nos 75 anos em operação da FIDC. “Nós estamos passando por um período desafiador da nossa economia. São tempos difíceis. Os três maiores problemas que estamos enfrentando agora são: primeiro, a correção do mercado imobiliário que está no coração de um processo de desaceleração; segundo, a turbulência nos mercados de capitais; e terceiro, é alto preço do petróleo, que deve prolongar a desaceleração da economia”, avaliou.

Porém, ele apóia sua confiança na solidez econômica do país. “Nossa economia tem fundamentos de longo prazo muito fortes. E vocês sabem, as autoridades daqui, os reguladores, estão todos muito vigilantes”, disse.

20/07/2008 - 11:47h “O Brasil está no lado “ganhador” e esta havendo uma boa administração no geral”

“Estou certo de que já estamos em recessão”

Para economista americano, crise nos EUA pode se agravar. Mas Brasil está no lado ganhador das ‘commodities’

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ENTREVISTA Paul Krugman

Às vésperas de vir ao Brasil — onde dará palestras, no Rio e em São Paulo, quarta e quinta-feira — Paul Krugman vê a economia brasileira como “uma das partes vigorosas do mundo”. Em entrevista por telefone, Krugman não se mostra otimista com os EUA que, na sua opinião, já estão em recessão. Tampouco mostra ânimo com as eleições americanas — aprova o democrata Barack Obama, mas o considera moderado demais. Autor de diversos livros (o mais recente, “The Conscience of a Liberal”, ainda não lançado em português), professor de Princeton e colunista do “New York Times”, Krugman acredita que o mundo vive o terceiro choque do petróleo e alerta que não há muito o que fazer para conter a inflação global

Luciana Rodrigues - O GLOBO

O GLOBO: A crise financeira americana pode se agravar?

PAUL KRUGMAN
: Sim, pode piorar. Mas, agora, estou menos assustado do que estava no início deste ano. Tivemos uma crise que levou a um colapso completo da confiança no sistema. Agora, apesar de algumas falências (de bancos) e da crise na Fannie Mae e na Freddie Mac (grandes companhias hipotecárias dos EUA), os problemas estão ocorrendo numa parte da economia em que há mecanismos muito bem estabelecidos para lidar com isso. Pode haver uma corrida a bancos, mas os depósitos estão assegurados. As duas grandes financiadoras imobiliárias, Fannie e Freddie, são parcialmente patrocinadas pelo governo. Então, é ruim que a crise continue atingindo as instituições. Mas, de certa maneira, o quadro agora é mais controlável. Porém, a economia real continuará sofrendo, e estou certo de que já estamos numa recessão.

Uma recessão nos EUA afetará o mundo da mesma forma do que no passado?

KRUGMAN
: O contágio será menos intenso. Os EUA não são mais o motor da economia mundial. Podemos ter uma recessão nos EUA sem termos uma recessão no resto do mundo. Mas é preciso levar em conta que a economia européia está tendo sérios problemas também. Há uma crise similar na Europa, com bolha imobiliária. Uma crise que afeta as duas principais economias do mundo é um grande choque. Apesar disso, eu ficaria surpreso se houvesse uma recessão global.

Os grandes emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China, chamados de Brics, assumiram novo papel na economia global?

KRUGMAN
: A categoria Brics é estúpida. São todos grandes, todos são economias em desenvolvimento. Além disso, não têm mais nada em comum. Índia e China podem em algum sentido serem agrupadas. Rússia é um grande exportador de petróleo. O Brasil é grande exportador de commodities e de manufaturados. A questão principal é que o centro de gravidade do mundo migrou dos EUA e da Europa. Ambos continuam sendo grandes economias, continuam sendo os principais jogadores em campo, mas grande parte da economia mundial não está mais nos centros industriais tradicionais. A maior parte do crescimento econômico está vindo dos países emergentes.

O senhor vem ao Brasil na próxima semana. Quais são suas impressões sobre a economia brasileira?

KRUGMAN
: No próximo fim de semana (ontem e hoje), farei meu dever de casa pesquisando mais sobre o Brasil. Mas, claramente, é uma das partes vigorosas do mundo, tem ido melhor do que o resto (do mundo). Não tem tido um desempenho espetacular, mas está com um crescimento razoável. O Brasil está no lado “ganhador” da alta das commodities . E também está havendo uma boa administração no geral (na política econômica brasileira).

O governo do presidente George W. Bush pode ser responsabilizado pela crise financeira nos EUA?

KRUGMAN
: Provavelmente, teríamos uma bolha imobiliária de qualquer maneira, com ou sem o governo Bush. Mas eles (o governo Bush) sistematicamente flexibilizaram as regulamentações e mecanismos de precaução que deveriam limitar os bancos a tomarem riscos excessivos, no exato momento em que mais precisávamos dessa regulamentação. Então, o governo Bush não causou a crise, mas a tornou consideravelmente pior.

E a postura de Alan Greenspan à frente do Federal Reserve (Fed, banco central americano)?

KRUGMAN
: Greenspan pode levar grande parte da responsabilidade. Recentemente, o Fed editou novas regras para a concessão de crédito pelos bancos, para restringir financiamentos irresponsáveis. Isso poderia ter sido feito há cinco anos. E Greenspan foi avisado sobre os riscos dos empréstimos subprime (para clientes com histórico ruim), mas não fez nada. Argumentou que o mercado saberia tomar conta de si mesmo. E ainda deu garantias de que as coisas iriam bem. Disse publicamente que os preços de imóveis nunca caem, que as pessoas deveriam pegar empréstimos e fazer hipotecas. Greenspan é mais vilão do que o governo Bush.

Outra grande preocupação é o avanço da inflação mundial. O que explica a alta de preços?

KRUGMAN
: Bom, em primeiro lugar, temos o preço do petróleo, que tem subido basicamente por uma combinação de crescimento dos países emergentes com piores condições geológicas. Está mais difícil prospectar petróleo. E a China e outras economias emergentes estão consumindo muito mais petróleo. Então, temos uma combinação de demanda em expansão e oferta estagnada. No que diz respeito à alta dos alimentos, há várias razões simultâneas. A primeira é que a alta do petróleo tem muito efeito nos alimentos. Principalmente nos países em desenvolvimento, a agroindústria usa muita energia e também há o efeito dos fertilizantes (cujos preços são influenciados pelo petróleo). E há o aumento da demanda de países emergentes, principalmente da China, onde as pessoas estão ganhando mais dinheiro e, por isso, comendo mais carne. E em terceiro lugar, há questões ambientais. Tivemos eventos climáticos sem precedentes, como a seca na Austrália, que muito provavelmente já é efeito da mudança climática.
Estamos começando a ver os primeiros efeitos econômicos do aquecimento global. E, por último, há os biocombustíveis, que, na Europa e nos EUA, definitivamente, estão desviando recursos antes destinados aos alimentos.

O senhor conhece o programa brasileiro de etanol?

KRUGMAN
: Para os preços de alimentos, o etanol brasileiro é inocente. Não há um desvio na produção de alimentos nem de longe parecido com o etanol americano. E a cana-de-açúcar é uma fonte muito mais eficiente para etanol do que o milho (usado nos EUA). Então, em termos econômicos, o programa brasileiro tem muito mais sentido.
Mas as informações que recebi de especialistas em meio ambiente é que o problema com o etanol brasileiro é que ele é mais danoso em termos de emissão de gases poluentes do que parece à primeira vista. Mas eu não endosso essa afirmação, porque não fiz pesquisas independentes a respeito desse assunto.

No que diz respeito à alta do petróleo, podemos dizer que estamos no meio de um terceiro choque do petróleo?

KRUGMAN
: De certa forma sim. Não temos o mesmo impacto (dos choques anteriores).
Mas as cotações do petróleo, em termos reais, atingiram novos patamares.

Nos países pobres, alimentos caros são sinônimo de fome. A fome se tornou um efeito colateral da globalização?

KRUGMAN
: Não se pode atribuir isso à globalização. Eu sou um crítico da globalização por muitos motivos. Mas, nesse caso, havia muito mais famintos entre os anos 50 e 70 (do século passado) do que há hoje. A situação hoje está melhor em termos de segurança alimentar. Mas havia uma crença de que sempre teríamos abundância na oferta mundial de alimentos, e agora vivemos uma escassez para a qual não estávamos preparados.

O que pode ser feito para conter a inflação mundial?

KRUGMAN
: Na verdade, não há muito a ser feito. Poderíamos pensar numa política de juros mais altos para conter a demanda. Mas não está claro porque deveríamos fazer isso, se tudo que temos até agora é um choque de alimentos e de energia. A longo prazo, mais energia alternativa e mais conservação poderiam reduzir a demanda mundial por petróleo. Mas, por agora, acho que teremos que absorver esse choque.

Os americanos elegem um novo presidente este ano. Barack Obama (candidato democrata) ou John McCain (republicano) podem se sair melhor na economia do que George W. Bush?

KRUGMAN
: Bom, é difícil ser pior (do que Bush). McCain não está oferecendo qualquer mudança. E Obama está oferecendo mudanças sustentáveis, numa direção que eu aprovo, mas minhas críticas são que suas propostas não vão longe o suficiente. E, historicamente, na economia, os governos democratas sempre têm melhor desempenho. Então, temos todas as razões para acreditar que Obama oferece uma perspectiva melhor.

Historicamente, os democratas são mais protecionistas em comércio que os republicanos. Há esse risco com Obama?

KRUGMAN
: É pouco provável. É preciso fazer uma distinção entre o que os partidos falam e o que eles fazem. Se pensarmos em quais foram os governos mais protecionistas nos últimos 40 anos, foram Reagan (Ronald Reagan, de 1981 a 1989) e Bush (filho). Eles falavam sobre livre comércio, mas não o praticavam.
Enquanto isso, os democratas constantemente falam em proteger os EUA da economia mundial, mas não agem de forma protecionista. E uma das razões para isso é que os democratas, e especialmente a equipe de Obama, levam muito a sério as regras internacionais, respeitam as organizações e os tratados internacionais. Então, se tivermos um governo Obama, não voltaremos atrás em acordos comerciais já fechados. Mas, provavelmente, não haverá avanços em novos acordos. E isso é verdade para qualquer governo. Então, é muito difícil pensarmos em acordos na Organização Mundial do Comércio (OMC) ou na Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Não acredito que um governo Obama gastaria capital político com isso

18/07/2008 - 09:54h De volta a 1929

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - FOLHA SP

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O dinheiro público tem que ser mobilizado para evitar o pior; a ação fiscal para lidar com a crise de hipotecas já vem tarde

TENHO ACOMPANHADO de perto a crise bancária norte-americana e as discussões sobre o acerto ou não das ações tomadas até agora pelas autoridades responsáveis. As atenções estiveram centradas no Fed, principalmente depois do recente resgate do banco de investimentos Bear Stearns. O segmento ultraliberal dos formadores de opinião não poupou adjetivos para condenar essa operação. Mesmo entre membros do governo Bush, foram muitas as críticas azedas contra essa aplicação do dinheiro público. Um jornalista importante do “Financial Times” chegou a decretar o fim do liberalismo e, em seguida, quase tomou uma forte dose de cicuta.
Nesta última semana, mais um evento obrigou o governo americano a propor o resgate bilionário de duas instituições semipúblicas -Fannie Mae e Freddie Mac- e que estavam sendo vítimas de especulações violentas no mercado acionário de Wall Street. Duas novidades devem ser mencionadas nesse novo caso: a primeira é que a proposta veio agora da própria Casa Branca; a segunda é que as cifras envolvidas estão na casa dos trilhões de dólares, e não mais na dos bilhões, como na crise do Bear Stearns.
Esse movimento do executivo foi importante na medida em que tirou do isolamento o presidente do Fed, responsável direto e quase solitário pela decisão de resgate daquele banco. O secretário do Tesouro havia dado declarações ambíguas sobre o comportamento de Ben Bernanke.
Agora, pressionado pelo tamanho das duas instituições federais de refinanciamento de hipotecas, ele foi obrigado a assumir a proposta de injeção de dinheiro público para salvá-las de um colapso iminente.
Essa medida também foi recebida com violentas críticas pelos mesmos defensores extremados do liberalismo, inclusive vários senadores da linha dura do Partido Republicano.
Para esses, o único caminho possível para punir os irresponsáveis seria o da perda total dos recursos investidos. Mesmo que para isso fosse necessário arrastar o mundo todo para a depressão econômica. Esquecem esses senadores, entretanto, que, entre os investidores nos papéis emitidos por essas empresas, estão países como a China e os grandes produtores de petróleo do Oriente Médio. As estatísticas oficiais mostram que mais de US$ 1,2 trilhão das reservas externas desses países está investido em títulos das chamadas agências federais, como a Fannie Mae e a Freddie Mac. O que aconteceria aos norte-americanos, inclusive aqueles que esses políticos ultraliberais pretendem defender, se houvesse a falência dessas empresas e uma fuga do dólar como moeda de reserva?
Mais uma vez voltamos a discutir temas que sinceramente pensava terem sido esclarecidos pelas quebras de instituições financeiras em 1929/ 1933. Mas a semente do liberalismo religioso ainda está bem presente entre nós. Mas não adianta espernear quando uma crise bancária atinge dimensão sistêmica; o chamado dinheiro público tem que ser mobilizado para evitar o pior. Nesses momentos, quanto mais cedo os governos se moverem, menores serão os custos. A ação fiscal para lidar com a crise no mercado de hipotecas já vem tarde. Deveria ter sido tomada há alguns meses, substituindo a devolução de impostos que estamos vendo agora.
Incrível a falta que um entendimento correto do pensamento keynesiano faz nesses momentos.


LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 64, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo FHC).

lcmb2@terra.com.br

16/07/2008 - 14:29h Ano de viver perigosamente

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Por Martin Wolf - VALOR

Passou-se quase um ano desde que a crise do subprime nos EUA se tornou global. À época, muitos esperavam que a reavaliação do risco não seria mais do que uma breve interrupção no progresso da economia mundial e dos EUA. Essas esperanças foram frustradas. Os infortúnios do Fannie Mae e do Freddie Mac, o tombo dos mercados acionários e a escalada nos preços do petróleo deixam claro como esta confusão está longe do seu fim. Ela, muito provavelmente, nem passou o fim do seu começo.

Então, onde está a economia mundial agora? E para onde poderá rumar? Eis algumas respostas preliminares.

A resposta à primeira vem em duas partes principais: manutenção do aperto financeiro e aumentos nos preços das commodities. O desempenho das ações do setor bancário nos revela a maior parte do que precisamos saber sobre a crise financeira. Nos EUA, o epicentro do aperto, os bancos perderam metade do seu valor de mercado entre um ano atrás e o fim da semana passada, em relação ao índice composto S&P.

Investidores em ações não são as únicas pessoas preocupadas com a saúde dos bancos. Os próprios bancos também estão preocupados. Os prêmios de risco entre taxas de juros que incidem sobre empréstimos interbancários em dólares, euros e libras esterlinas, e as taxas oficiais esperadas para três e seis meses estão agora mais dilatados do que estiveram em março. Os prêmios de risco sobre empréstimos de seis meses agora se nivelaram aos dois picos anteriores, ocorridos em setembro e dezembro do ano passado. Esta não é uma mera crise de liquidez. Os bancos estão manifestando preocupação a respeito da solvência dos seus pares. Um bom motivo para estarem preocupados é que a qualidade das garantias básicas para grande parte do empréstimo dos anos passados - habitação - continua se deteriorando. O índice Case-Schiller de 20 cidades caiu 18% em termos nominais e 22% em termos reais entre seu pico, em meados de 2006, e abril deste ano. Essa taxa de queda também está se acelerando.

Não admira, portanto, que o mercado de ações esteja mostrando algo semelhante a pânico em torno das perspectivas para os dois empreendimentos patrocinados pelo governo, Fannie Mae e Freddie Mac, que têm financiado aproximadamente 75% de todos os financiamentos habitacionais dos EUA. Uma tomada do controle formal do governo sobre estas entidades, cujo passivo total está próximo de 40% do PIB dos EUA, não está descartada. Em termos de endividamento bruto do governo, isso faria os EUA se assemelharem à Itália.

Enquanto isso, o preço do petróleo está próximo de US$ 150 o barril. Apesar de uma parte importante da economia estar preocupada com os riscos de colapso financeiro e posterior deflação, o preço da commodity mais importante do mundo dobrou ao longo do ano passado. Em termos reais, o preço do petróleo está 25% mais alto agora do que em 1979, no auge do segundo choque do petróleo. Os preços ascendentes do petróleo e demais commodities são uma espécie de quebra-cabeças, pois o crescimento econômico mundial está se desacelerando: a maioria das projeções para junho estima o crescimento mundial em 2,9% neste ano (a taxas de câmbio de mercado), numa queda ante os 3,8% em 2007, em grande parte devido à desaceleração econômica nos países ricos, com o crescimento dos EUA projetado em apenas 1,5% neste ano, numa queda ante os 2,2% de 2007, e crescimento de 1,8% na Europa Ocidental, numa queda na comparação com 2,8%, em 2007.

Os produtores deixarão o petróleo no solo se o aumento esperado nos preços do petróleo for mais rápido do que o retorno sobre os ativos alternativos

Por que os preços das commodities estão disparando quando a economia mundial está desacelerando? A explicação popular parece ser “especulação”. No entanto, considerando que a especulação já está presente, isso não consegue explicar porque o preço do arroz está em franca aceleração agora. Outra explicação popular é o agressivo afrouxamento da política monetária dos EUA. Mas isso dificilmente consegue explicar o veloz aumento de preço do petróleo, mesmo em euros. A especulação tampouco explica o aumento nos preços de commodities que não possuem mercados futuros ativos: o minério de ferro, por exemplo.

No caso do petróleo, como observou Daniel Gros, do Centro para Estudos de Política Européia, no “Financial Times” da semana passada, a especulação é inerente à decisão de produzir. Os produtores são especuladores em relação ao valor futuro dos seus recursos - e com justiça, já que são finitos.

Os produtores deixarão o petróleo no solo se o aumento esperado nos preços reais do petróleo for mais rápido do que o retorno sobre os ativos alternativos. O que determina o preço atual, portanto, é o preço futuro esperado. Os mais importantes propulsores têm sido o crescimento potencial na demanda de países emergentes, particularmente a China, e o pessimismo em torno de fontes alternativas de abastecimento. O crescimento veloz e altamente intensivo em recursos da China é o fator mais importante: estima-se que o crescimento no país será de 10% neste ano e de mais de 9% em 2009.

Então, o que acontecerá com a economia mundial doravante? Aqui talvez o ponto mais importante seja a incerteza. É possível fazer relatos de um retorno ao crescimento acelerado na economia mundial. É igualmente fácil contar histórias sobre algo semelhante a um desastre financeiro. O equilíbrio de forças econômicas, porém, é de contração: crises financeiras e colapso dos preços dos imóveis nos EUA e em vários outros países ricos, forte alta nos preços das commodities, além de pressões inflacionárias, especialmente nos países emergentes.

É difícil enxergar um desfecho diferente de uma desaceleração sustentada na economia mundial. É até bastante provável que o crescimento de longo prazo da economia mundial seja consideravelmente mais lento do que se esperava há poucos anos. Ademais, alguns riscos poderão se combinar de formas perigosas. Um ataque ao Irã poderá empurrar o preço do petróleo para acima de US$ 200, por exemplo. Além disso, a solvência do governo dos EUA não pode ser considerada um fato consumado. Se a desalavancagem em curso na economia americana enfraquecer o consumo, a economia poderá entrar em profunda recessão. Os déficits fiscais dos EUA poderão disparar e as taxas de juro de longo prazo poderão dar um salto. Esse cenário poderá tornar a visão da dinâmica da dívida do governo dos EUA altamente desagradável. Daí poderão sobrevir uma fuga do dólar e dos bônus denominados em dólar. Quem desejará comandar o Fed depois disso?

A boa notícia é que a economia mundial se manteve surpreendentemente bem. A má notícia é que os riscos continuam completamente no pólo negativo. Será preciso muita sorte e muita capacidade de discernimento para atravessar as tempestades incólumes. É hora de fazer uma pausa deste ambiente pessimista. É o que farei agora. Voltarei no fim de agosto.

15/07/2008 - 10:18h Na crise, liberalismo se refugia no Estado

 

Ajuda oficial não acalma Wall Street


Ações da Fannie Mae caíram 5,1% e da Freddie Mac, 8,3%, após plano de resgate anunciado pela Casa Branca

Patrícia Campos Mello - O Estado de São Paulo

Um dia após o Tesouro americano garantir que vai resgatar as gigantes de hipotecas Fannie Mae e Freddie Mac se for necessário, as empresas passaram por um grande teste de confiança dos investidores. A Freddie Mac conseguiu vender ontem US$ 3 bilhões em títulos de curto prazo, com forte demanda dos investidores.

Mas o plano de resgate anunciado pelo governo americano ainda não tranqüilizou Wall Street. As ações da Fannie encerraram o dia em queda de 5,1% e as da Freddie, em baixa de 8,3%. Os investidores acham que um possível resgate das instituições não salvará o sistema financeiro em geral da grande desaceleração em curso.

As empresas viram suas ações cair mais de 50% na semana passada, por temores do mercado de que elas não tinham capital para honrar compromissos. As duas são garantidoras ou donas de US$ 5,2 trilhões em títulos de hipoteca - metade do mercado hipotecário americano (só para comparar, o orçamento dos EUA para 2008 é de US$ 2,9 trilhões).

A Fannie e a Freddie garantem a liquidez do mercado de crédito imobiliário - e investidores do mundo inteiro compram seus papéis. Bancos centrais estrangeiros, principalmente na Ásia, têm US$ 979 bilhões em títulos vendidos pelas empresas.

“Fannie Mae e a Freddie Mac são grandes demais para quebrar - os riscos para economia em geral superam o risco moral”, diz Juan Licari, economista-sênior da Moody?s Economy.com. Risco moral, no caso, é estimular investidores a assumir riscos exagerados, na esperança de ajuda do governo.

Segundo Arturo Porzecanski, professor de Finanças Internacionais na American University, trata-se de empresas peculiares - têm garantias do governo, mas não são exatamente estatais, porque têm acionistas. “O governo deixou claro que assumirá a responsabilidade pela saúde das empresas.”

No domingo, o Tesouro anunciou que iria ampliar as linhas de crédito para Fannie e Freddie e poderia até comprar ações das duas. O Fed, por sua vez, abriria a janela de redesconto, antes reservada a bancos. Se efetivado, o resgate será o segundo em quatro meses por causa da crise. Em março, o Fed arquitetou a compra do Bear Stearns pelo J.P. Morgan para evitar a quebra do banco - e assumiu grande parte dos ativos arriscados.

Na sexta-feira, o banco IndyMac, à beira da insolvência por causa da inadimplência de hipotecas, sofreu intervenção. E os boatos sobre a saúde financeira do Lehman Brothers, outro banco com grande exposição ao subprime, cresceram ontem, com recuo de 12,2% nas ações. “Esse incidente (com a Fannie e Freddie) não será o último”, disse à Reuters o megainvestidor George Soros. “A atual crise financeira é a mais séria de nossa geração.”

15/07/2008 - 10:02h Fannie, Freddie e você

 

Paul Krugman* - O Estado de São Paulo

E chegamos à etapa seguinte da nossa aparentemente interminável crise financeira. Desta vez são Fannie Mae e Freddie Mac que ocupam as manchetes, com alertas funestos de um colapso iminente.

Até que ponto devemos ficar preocupados? Bem, eu assumo a posição contrária: o clima criado em torno dessas instituições de créditos particulares é exagerado. Fannie e Freddie precisam de um socorro governamental. Mas como já está claro que esse socorro virá, seus problemas não vão arrasar a economia.

Além disso, embora Fannie e Freddie sejam instituições problemáticas, elas não são as responsáveis pelos apuros que estamos passando.

Vamos aos antecedentes: Fannie Mae - Federal National Mortgage Association (Associação Hipotecária Federal) - foi criada na década de 30 para facilitar o acesso à casa própria, comprando hipotecas de bancos, liberando dinheiro que poderia ser utilizado para fazer novos empréstimos. Fannie Mae e Freddie Mac, que operam quase da mesma maneira, hoje financiam a maior parte dos empréstimos feitos nos Estados Unidos para aquisição de imóvel residencial.

Os argumentos contra Fannie e Freddie começam com relação ao seu estatuto peculiar: embora sejam companhias privadas, com acionistas e lucros, elas são “empresas subvencionadas pelo governo”, estabelecidas por lei federal, o que significa que têm privilégios especiais.

O mais importante desses privilégios está implícito: é a crença dos investidores de que, se as duas empresas estiverem ameaçadas de falência, o governo federal partirá em seu socorro.

Essa garantia implícita significa que os lucros são privatizados, mas os prejuízos são socializados. Se Fannie e Freddie prosperam, seus acionistas colhem os benefícios. Porém, se as coisas andam mal, Washington paga a conta. Cara, eles ganham, coroa, nós perdemos.

Esse tipo de aposta que vai num único sentido pode encorajar a assunção de um mau risco porque o inconveniente disso vai ser problema de algum outro. Exemplo clássico de como isso pode acontecer foi a crise das instituições de poupança e empréstimo, nos anos 80. Essas instituições ofereciam altas taxas de juro para atrair grande volume de depósitos garantidos pelo governo federal, e depois especulavam com esse dinheiro. Quando muitas das suas operações deram errado, os fundos federais acabaram pagando o pato. O custo final da arrumação da casa aos contribuintes foi de mais de US$ 100 bilhões.

Mas essa é a questão. Fannie e Freddie não tiveram nada a ver com a explosão dos empréstimos de alto risco iniciada há alguns anos, uma explosão que fez parecer insignificante o fiasco das instituições de poupança e empréstimo dos anos 80. Na verdade, Fannie e Freddie, depois de um veloz crescimento na década de 90, praticamente sumiram de cena durante o pico da bolha imobiliária.

Em parte porque os órgãos reguladores, reagindo aos escândalos contábeis nas empresas, impuseram algumas limitações temporárias para as duas instituições que restringiram suas operações de empréstimos, exatamente quando os preços das habitações estavam realmente decolando.

Além disso, elas não operaram com empréstimos considerados de alto risco porque não podem: um empréstimo de alto risco, ou suprime, pode ser definido precisamente como o empréstimo que não atende aos requisitos, impostos por lei, e Fannie e Freddie só compram hipotecas emitidas para tomadores de empréstimo que dão uma entrada substancial e cuja renda é cuidadosamente documentada.

Assim, quaisquer incentivos negativos criados por essa garantia federal implícita são contrabalançados pelo fato de que Fannie e Freddie foram e são fortemente regulamentadas no tocante aos riscos que podem assumir. Você pode dizer que a experiência de Fannie e Freddie mostra que a regulamentação funciona.

Nesse caso, porém, como elas acabaram em dificuldade? Parte da resposta está na magnitude da bolha imobiliária e no porte das quedas de preço que vêm ocorrendo hoje com o estouro dessa bolha.

Em Los Angeles, Miami e outros lugares, qualquer pessoa que fez um empréstimo para adquirir uma casa quando o mercado estava no pico provavelmente está hoje com patrimônio negativo, mesmo que tenha dado originalmente 20% de entrada. O resultado é uma taxa crescente de inadimplência, mesmo no caso de empréstimos que atenderam às diretrizes de Fannie e Freddie.

Além disso, Fannie e Freddie, embora fortemente regulamentadas quanto à concessão de empréstimos, não precisam constituir capital suficiente - ou seja, dinheiro captado pela venda de ações em vez de levantar empréstimos. Isso significa que mesmo um pequeno declínio no valor dos seus ativos pode fazê-las submergir, devendo mais do que têm.

E claro, existe um real escândalo político nesse caso: reiteradamente vinha sendo alertado que a capitalização insuficiente das duas instituições apresentava riscos para os contribuintes, porém a administração das empresas subornou o processo político, contratando sistematicamente figuras influentes de ambos os partidos. Mas, embora alarmantes, as maquinações políticas de Fannie e Freddie não tiveram um papel significativo nas causas dos nossos problemas atuais.

Contudo, não é vergonhoso que os contribuintes acabem tendo de socorrer essas instituições? Na verdade, não. Estamos atravessando uma grande crise financeira e essas crises quase sempre acabam com algum tipo de ajuda do contribuinte socorrendo o sistema financeiro.

E vamos ser claros: não se deve permitir que Fannie e Freddie vão à falência. Com o colapso dos empréstimos subprime, essas empresas hoje são mais do que nunca fundamentais para o mercado imobiliário e a economia como um todo.

*Paul Krugman escreve para o “The New York Times”

15/07/2008 - 09:51h Fannie & Freddie: medidas equivalem à estatização, diz analista

 

O Estado de São Paulo

William Poole, ex-presidente do Federal Reserve Bank de St. Louis, disse ontem que as medidas anunciadas pelo governo dos EUA para socorrer as agências Fannie Mae e Freddie Mac equivalem a estatizá-las. Poole afirmou, em entrevista à Dow Jones, que as medidas anunciadas no fim de semana eram “absolutamente necessárias”, tendo em vista que o colapso das duas agências seria catastrófico para o sistema financeiro. Para ele, elas estão “efetivamente em concordata”.

Poole lembrou que outra conseqüência das medidas é o fato de a dívida emitida por Fannie Mae e Freddie Mac agora terem o mesmo status dos títulos do Tesouro americano. “Na prática, as obrigações de Fannie Mae e Freddie Mac agora são obrigações de crédito plenas do governo dos EUA, porque não será permitido que elas entrem em falência.”

Para todos efeitos práticos, as agências “estão sendo nacionalizadas”, disse Poole, que hoje é pesquisador do Cato Institute.

O ex-dirigente do Fed disse ainda que a intervenção federal na Fannie Mae e na Freddie Mac, após os esforços do Fed para socorrer o banco de investimentos Bear Stearns, compromete a capacidade de avaliação de riscos de Wall Street. “O país está agora em situação muito ruim em termos de risco moral. Os credores sabem que serão protegidos em caso de circunstâncias adversas.”

Segundo Poole, agora ficou claro que algumas empresas são julgadas grandes demais para falir, embora exista pouca clareza sobre qual é o tamanho-limite para uma intervenção do governo.

15/07/2008 - 09:43h Fannie & Freddie

 

 Celso Ming - O Estado de São Paulo 

Aprofundando o entendimento de que, pelo menos na atual crise americana, banco não quebra, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, anunciou na noite de domingo o resgate dos dois mamutes do crédito hipotecário dos Estados Unidos.

São eles Fannie Mae e Freddie Mac, responsáveis pelo financiamento ou pela recompra de quase US$ 6 trilhões do mercado total de US$ 12 trilhões em hipotecas. São agências capitalizadas e/ou financiadas pelo setor privado, mas com forte respaldo em recursos oficiais na medida em que operam um segmento de interesse público e social. Enfim, são as Government Sponsored Enterprises (GSEs).

Em conseqüência da crise das hipotecas de alto risco (subprime), essas agências foram consideradas tecnicamente quebradas na semana passada. Mas o governo americano tratou de arranjar-lhes um “proer” generoso, constituído por três providências independentes: (1) acesso às operações de redesconto do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), como se fossem bancos comerciais; (2) abertura de financiamentos especiais do Tesouro, de US$ 2,25 bilhões para cada uma; e (3) autorização para que o Tesouro compre suas ações, em volume ainda a ser determinado, o que caracteriza certo grau de estatização.

A justificativa para a injeção de dinheiro público em empresas privadas foi evitar uma catástrofe financeira de proporções incomensuráveis. Foi o mesmo argumento evocado pelo governo inglês em setembro passado, quando estatizou uma companhia de crédito imobiliário, a Northern Rock, que enfrentava corrida de depositantes, e o evocado pelo Fed em março, quando impediu o naufrágio do Bear Stearns e abriu a janela do redesconto para bancos de investimento, que até então não estavam sob o seu guarda-chuva. Além da avaria financeira - é o argumento -, a quebra dessas empresas provocaria prejuízos políticos imediatos, especialmente às vésperas das eleições presidenciais.

Quem passar o aspirador na memória vai se lembrar de que, ao final dos anos 80 e início dos 90, os Estados Unidos também enfrentaram séria crise das sociedades de poupança e empréstimo, que atingiu 747 instituições e exigiu dos cofres públicos um socorro de US$ 160 bilhões.

O mercado financeiro ontem respirou aliviado, mas, ato contínuo, tomou corpo a percepção de que não há almoço grátis e de que operações assim produzem conseqüências. Uma delas é a de que a eliminação dos riscos - já que o governo os assume - abre um campo enorme para uma dobradinha perigosa constituída de abusos e impunidade (moral hazard). Outra, a aplicação da advertência bíblica de que “abismo atrai abismo” e, com base nesse precedente, todas as ameaças de quebra do gênero terão cobertura de dinheiro do contribuinte. Os abismos seguintes são maior deterioração das contas públicas e mais inflação.

Assim, está aberta a temporada para que os analistas discorram sobre a inevitável questão: what’s next? E o que se sabe é que, apesar do generoso apoio oficial, um grande número de bancos continua precisando de transfusão de sangue. É uma das encrencas que perpetuam o estrangulamento do crédito e a impossibilidade de que o Fed puxe os juros para combater a inflação.

CONFIRA

Força exportadora - A novidade da balança comercial não é o crescimento das importações, de 51,2%, no valor acumulado do ano. É o salto das exportações, apesar do câmbio adverso.

Até há algumas semanas, cresciam entre 15% e 18%. Agora crescem a 25,2%. Esse impulso permite projetar para todo este ano exportações próximas dos US$ 200 bilhões.

Também convém prestar atenção no avanço menos notado da corrente de comércio (soma das exportações e importações). Cresceu 36,1% no acumulado do ano. Quanto maior esse número, menor a influência do capital externo sobre o câmbio.

14/07/2008 - 11:31h A crise do subprime ainda não acabou

Por Ernani Teixeira Torres Filho e Gilberto Rodrigues Borça Junior - VALOR

No último mês de maio, o secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson, e importantes colunistas internacionais de economia, como Paul Krugman (”The New York Times”) e Anatoli Kaletski (”The Times”), se sentiram confortáveis para anunciar que o pior da atual crise financeira - a crise do subprime - já havia passado. No entanto, no início de junho, essa visão otimista foi abalada pelos rumores de que, novamente, outro grande banco de investimento americano - dessa vez o Lehman Brothers - estava enfrentando dificuldades.

Esse evento marca mais uma etapa em uma crise cheia de surpresas. De fato, em maio de 2007, aos primeiros sinais de turbulência, Ben Bernanke, presidente do Banco Central americano (Fed), afirmou que “o efeito dos problemas no segmento subprime sobre o mercado imobiliário como um todo será, provavelmente, limitado, e não esperamos conseqüências significativas para o resto da economia ou do sistema financeiro”. Assim, na sua visão inicial, o impacto da crise do subprime no mercado financeiro e na economia norte-americana como um todo seria bastante limitado.

Entretanto, quatro meses depois, Bernanke já demonstrava apreensão. Em agosto, alertava que “vários eventos que se seguiram à crise do subprime levaram os investidores a acreditar que o risco de crédito poderia ser maior e mais difundido do que se pensava anteriormente. A liquidez foi reduzida significativamente e as taxas de risco (spreads) aumentaram”.

A crise atingiu seu auge em março de 2008, com a quebra do quinto maior banco de investimento americano, o Bear Stearns. Nessa oportunidade, não só o diagnóstico, mas principalmente a atitude do Fed, sofreu profunda modificação. Surpreendentemente, o Banco Central americano, em uma mudança de atitude gestada durante um fim de semana, assumiu US$ 30 bilhões de créditos do Bear Stearns, evitando sua falência e facilitando sua aquisição pelo JP Morgan Chase. Esse fato representou uma alteração dramática no marco regulatório do sistema financeiro norte-americano. O Bear Stearns, por se tratar de um banco de investimento, e não de um banco comercial, não estava formalmente sob a jurisdição do Fed, mas mesmo assim foi objeto de intervenção.

Se o problema dos créditos podres parece ter passado, ainda restam a deflação dos ativos e a baixa liquidez dos bancos

O estopim da crise financeira foi o aparecimento dos créditos “podres” do mercado imobiliário americano, os chamados subprimes, que estavam, até então, “escondidos” em mecanismos complexos e pouco transparentes de securitização de créditos, os chamados produtos financeiros estruturados - como os CDOs (Collateralized Debt Obligation) e as SIVs (Structured Investment Vehicles). Esse fenômeno foi, em boa medida, um resultado do aumento das taxas de juros e, conseqüentemente, da queda dos preços dos imóveis nos EUA. As perdas anunciadas até o momento somam cerca de US$ 400 bilhões e estes valores tendem a aumentar nos próximos meses.

A surpresa do Fed com a dimensão da crise financeira americana lembra o estouro da bolha imobiliária japonesa de 1989. A exemplo dos EUA, o Banco Central japonês aumentou as taxas de juros para reduzir o processo especulativo que alimentava a alta no preço das residências e, do mesmo modo que o Fed, foi surpreendido pela gravidade da crise que se seguiu. No caso do Japão, todos os grandes bancos japoneses chegaram a estar tecnicamente falidos, e há quase duas décadas a economia local está praticamente estagnada.

A despeito dessas semelhanças, não há sinais de que o problema econômico americano venha a adquirir dimensões “japonesas”. Até o momento, o pragmatismo das autoridades dos EUA e da Europa impediu que a crise em curso comprometesse seriamente o funcionamento, tanto da economia americana quanto da internacional. Mesmo assim, pode ser um pouco cedo para afirmar que “o pior já passou”.

Se o problema dos créditos subprime parece já não ser mais o ponto central da crise, ainda estão em operação dois outros importantes mecanismos de alimentação: o processo de deflação dos ativos e a baixa liquidez dos bancos. Esses fenômenos geram graves limitações ao funcionamento dos mercados de crédito. Enquanto não for possível ter segurança sobre o valor das residências, ações e títulos privados, os investidores tenderão a se manter retraídos. Do mesmo modo, enquanto a “liquidez de médio prazo” dos bancos (superior a 28 dias) não estiver definitivamente atendida, a tensão continuará a bloquear o crédito.

Apesar de ainda estar em curso, a análise da crise já permite que se tire pelo menos duas lições importantes. A primeira é que o arcabouço regulatório em uso e em discussão - Basiléia I e II - precisa ser repensado, particularmente no que diz respeito à capacidade de auto-regulação do mercado. A segunda diz respeito ao financiamento dos investimentos em economias emergentes que, como o Brasil, estão em processo de aceleração do crescimento. É importante garantir que o atual ciclo de investimento continue sendo sustentado por mecanismos domésticos de financiamento. Assim, são elevados os riscos de se voltar a depender em demasia de fundos externos para financiar os grandes projetos industriais e de infra-estrutura em curso.

Ernani Teixeira Torres Filho e Gilberto Rodrigues Borça Júnior são, respectivamente, superintendente e economista da Área de Pesquisa Econômica (APE) do BNDES. Vide informe Visão do Desenvolvimento nº 50 ( www.bndes.gov.br/conhecimento/ publicações/catalogo.asp )

14/07/2008 - 11:31h EUA socorrem empresas de hipotecas

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Plano anunciado ontem prevê ajuda financeira a Fannie Mae e Freddie Mac e que o governo possa comprar suas ações

Empresas, que possuem ou garantem metade das hipotecas do país, poderão tomar emprestado dinheiro do Fed a juros mais baixos

STEPHEN LABATON
DO “NEW YORK TIMES’

FOLHA DE SÃO PAULO

Alarmado com o acentuado desgaste de confiança nas duas maiores empresas de crédito hipotecário dos EUA, o governo Bush pediu ontem ao Congresso para aprovar um pacote de socorro que lhe autorizará a comprar bilhões de dólares em ações da Fannie Mae e da Freddie Mac e também emprestar às companhias para suprir suas necessidades de financiamento em curto prazo.
Segundo o plano, anunciado ontem pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson, após um fim de semana de discussões com outras autoridades sobre a crise, as duas empresas poderão tomar dinheiro emprestado com taxa de juros mais baixas do Fed (o BC dos EUA).
Mais amplo que o esperado por analistas, o anúncio ocorreu antes da abertura dos mercados asiáticos, em tentativa de reduzir perdas das empresas e do mercado em razão das preocupações com os resultados das empresas hipotecárias e, conseqüentemente, com a estabilidade da economia em geral.
O plano pede que o Congresso dê ao governo autorização nos próximos dois anos para comprar uma quantidade não-especificada de ações das duas companhias. No período, o plano permitiria que as duas companhias tenham maior acesso a recursos do Tesouro, expandindo suas linhas de crédito.
Cada companhia tem hoje uma linha de crédito de US$ 2,25 bilhões, definida quase 40 anos atrás pelo Congresso. Na época, a Fannie tinha cerca de US$ 15 bilhões em dívidas a pagar. Hoje tem uma dívida total de aproximadamente US$ 800 bilhões, enquanto a Freddie deve cerca de US$ 740 bilhões.
Hoje as duas companhias também detêm ou garantem hipotecas avaliadas em mais de US$ 5 trilhões no país.
Como parte do plano, o governo também pedirá que o Congresso aumente o limite da dívida nacional. E que o Congresso dê ao Fed participação na definição de regras sobre o tamanho das reservas de capital que cada empresa deve ter.

Recado ao mercado
Dar ao Fed um papel de consultor na supervisão das companhias é visto como mais uma maneira de tranqüilizar os mercados nervosos.
O governo Bush espera que o Congresso aprove rapidamente o novo plano, como parte da medida para ajudar o mercado habitacional e reformular as normas de Fannie Mae e Freddie Mac. Na sexta, o Senado aprovou a medida, e a Câmara espera discuti-la nesta semana.
O anúncio do plano no início da noite de ontem teve a intenção de enviar um forte sinal aos mercados de que o governo apóia as duas empresas.
Durante o fim de semana, autoridades graduadas do Tesouro e do Federal Reserve monitoraram de perto os preparativos para que a Freddie Mac levantasse dinheiro para ajudar suas necessidades de fundos em curto prazo. Autoridades passaram o sábado e o domingo sendo informadas sobre o apetite de Wall Street por uma oferta de dívida de US$ 3 bilhões pela Freddie Mac que estava marcada para hoje.
As autoridades disseram estar observando para avaliar se as fortes quedas das ações das duas empresas na semana passada poderiam contagiar o mercado de dívida e minar a confiança dos credores.
A Fannie Mae e a Freddie Mac tornaram-se centrais para os mercados de habitação do país. Elas compram hipotecas de bancos e outros credores, seguram algumas delas e vendem outras na forma de títulos lastreados por hipotecas. Juntas, elas possuem ou garantem cerca da metade das hipotecas dos Estados Unidos.
Nos últimos meses, as ações das duas companhias despencaram quando uma onda de execuções de hipotecas erodiu a confiança nas mesmas.


Tradução de LUIZ ROBERTO MENDES GONÇALVESCom o “Financial Times”

14/07/2008 - 11:09h EUA tentam salvar financiadoras de hipotecas

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Fed e Tesouro anunciam pacote para resgatar Fannie Mae e Freddie Mac e evitar colapso do mercado financeiro

O GLOBO

WASHINGTON e LOS ANGELES. O Tesouro dos EUA e o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) anunciaram ontem um pacote de ajuda para salvar da insolvência Fannie Mae e Freddie Mac, duas gigantes do setor de financiamento de hipotecas para casa própria. A medida visa a restituir a confiança nas duas firmas e evitar um potencial desastre no mercado financeiro global. Numa decisão que pode representar uma escalada na exposição dos contribuintes americanos, o Fed disse que as duas firmas poderão recorrer a recursos emergenciais da instituição a taxas baixas.

Paralelamente, o Tesouro anunciou que vai aumentar temporariamente a linha de crédito para as empresas e até mesmo, se necessário, comprar participação nos dois grupos.

O anúncio do Fed evocou sua atuação para salvar o banco de investimento Bear Stearns em março, quando permitiu o acesso de bancos de investimentos a seus recursos emergenciais pela primeira vez desde a Grande Depressão.

“A contínua vitalidade (das duas empresas) é importante para manter a confiança e estabilidade do nosso sistema e mercados financeiros. Assim, precisamos agir para responder à presente situação, enquanto nos preparamos para uma estrutura regulatória mais forte”, disse o secretário do Tesouro, Henry Paulson, em um comunicado lido ontem por ele nas escadarias da sede do Tesouro.

Uma alta fonte da instituição disse que as medidas anunciadas por Paulson ainda precisam ser aprovadas pelo Congresso, mas expressou confiança de que terão sinal verde dos parlamentares ainda esta semana. Charles Schumer, senador democrata por Nova York, elogiou o pacote e disse que deverá reavivar a confiança do investidor em Fannie Mae e Freddie Mac.

As duas firmas são privadas, com um grupo de acionistas, mas recebem subsídios do governo.

Com a crise financeira, as ações das duas gigantes se desvalorizaram fortemente.

IndyMac sofre intervenção após declarar insolvência O diretor-executivo da Fannie Mae, Daniel Mudd, disse em uma nota que a firma tem reservas suficientes para atravessar a crise, além de acesso a financiamento do mercado. Mesmo assim, ele disse que poder acessar os recursos emergenciais postos à disposição pelo Fed e o Tesouro ajudará a reconstruir a confiança do mercado.

As duas empresas compram hipotecas de mutuários e as revendem em pacotes garantidos pelo Tesouro, gerando novos fundos que tornam os mercados de hipotecas mais líquidos. Fannie Mae e Freddie Mac têm papel fundamental no mercado de habitação dos EUA e muitos temem que uma insolvência teria conseqüências nefastas no mercado financeiro.

O clima de tensão no setor cresceu no sábado, após o anúncio de que o banco IndyMac fora declarado insolvente e sofrera intervenção de autoridades federais. O IndyMac é a segunda instituição financeira a quebrar na esteira da crise no setor de hipotecas.

O Escritório Supervisor de Caixas de Poupança (OTS, da sigla em inglês) anunciou ter transferido as operações do IndyMac à Corporação Federal Garantidora de Depósitos (FDIC, da sigla em inglês), depois de considerar que o banco não tinha como fazer frente à demanda de saque dos clientes, que se viram limitados a retirar pequenas quantidades.

10/06/2008 - 10:02h Fed deveria se inspirar no BC do Brasil, diz ‘Le Monde’

AFP/JOSHUA ROBERTS Le président de la Réserve fédérale américaine, Ben Bernanke, mardi 11 décembre.
Le taux de croissance brésilien devrait dépasser 4 % cette année.
Ben Bernanke, le directeur de la Fed,
devrait s’inspirer de la politique monétaire brésilienne.
Le Monde

 

 

 

 

Para jornal francês, política de juros altos adotada pelo Banco Central brasileiro saneou a economia do País

BBC Brasil

PARIS - O presidente do Federal Reserve (Banco Central norte-americano), Ben Bernanke, deveria inspirar-se na política monetária brasileira, afirma um artigo publicado nesta terça-feira, 10, no jornal francês Le Monde. O jornal destaca o recente aumento da taxa de juros de 11,75% para 12,25% imposto pelo Banco Central brasileiro e opina que a “política de juros altos saneou a economia brasileira”.

“A taxa de poupança no Brasil é o dobro da dos Estados Unidos, o déficit da balança de pagamentos é moderado, os brasileiros consomem menos do que os americanos e economizam mais. A taxa de crescimento do país deverá ultrapassar os 4% este ano”, afirma o diário. “Ben Bernanke, presidente do Fed, deveria se inspirar na política monetária brasileira.”


Remédio brasileiro

Segundo o Le Monde, a alta taxa de juros no Brasil serviu durante muito tempo para bancar investimentos em uma economia de riscos. “Hoje já não é mais o caso”, diz. “A dívida externa do Brasil é inferior a 50% de seu Produto Interno Bruto, as contas correntes estão perto do equilíbrio e o déficit público é baixo, mesmo que os juros altos aumentem a dívida do governo”.

O jornal diz que o Brasil não está mais na lista dos países de risco desde que a agência de avaliação de risco Standard & Poor’s concedeu o grau de investimento. “Os Estados Unidos estampam um grande déficit em sua balança de pagamentos e está com a moeda fraca. A taxa de poupança é baixa, às vezes negativa; o governo está mergulhado em déficits mesmo mantendo o crescimento do país”, diz.

“Uma política monetária à brasileira poderia remediar esses problemas”, conclui o Le Monde. BBC Brasil.

LE MONDE


M. Bernanke devrait s’inspirer de la Banque centrale du Brésil

Le Brésil a augmenté le 4 juin son taux d’intérêt à court terme, le Selic, de 11,75 % à 12,25 %. L’inflation, elle, devrait atteindre 5,1 % en 2008. Cette politique de taux d’intérêt réels élevés a assaini l’économie : le taux d’épargne brésilien est le double de son homologue américain, le déficit de la balance des paiements est modéré, les Brésiliens consomment moins et épargnent plus. Le taux de croissance devrait dépasser 4 % cette année. Ben Bernanke, le directeur de la Fed, devrait s’inspirer de la politique monétaire brésilienne.

Le niveau élevé des taux à court terme brésiliens a longtemps été censé rémunérer l’investissement dans une économie à risques. Ce n’est plus le cas, puisque les forts taux d’intérêt ont permis depuis 2002 de stabiliser à la fois la balance commerciale et l’économie. La dette extérieure du Brésil est inférieure à 50 % du produit intérieur brut, les comptes courants sont proches de l’équilibre et le déficit public est faible, même si des taux d’intérêt élevés accroissent la charge de la dette de l’Etat. L’agence de notation Standard & Poor’s a relevé la note accordée à la dette souveraine du Brésil, qui ne fait désormais plus partie des pays à risque. Les bons du Trésor brésiliens sont rémunérés moins d’un point de pourcentage de plus que leurs homologues américains.

Un taux Selic à 12,25 % équivaut à un taux au jour le jour américain de 10,25 %, quand le niveau actuel de celui-ci est de 2 %. Les Etats-Unis affichent un déficit excessif de la balance des paiements et le dollar est faible. Le taux d’épargne américain est faible, voire négatif ; le gouvernement est drogué aux déficits, même quand la croissance est soutenue. Une politique monétaire à la brésilienne pourrait remédier à ces problèmes.