08/11/2009 - 12:23h Brasil se antecipa e desfaz política anticíclica

Alberto Tamer* – O Estado SP

Afinal, retira-se ou não a política de incentivos à economia para sair da recessão? Esse é um dilema dos países ricos. Do Brasil, não. Nós já estamos desfazendo as medidas anticíclicas em ordem, com redução de juros e impostos. Eles voltam aos poucos, de forma gradual e seletiva, sem afetar a demanda e aumentando a arrecadação. Mas a pergunta, quase acadêmica, voltou no cenário mundial, este fim de semana, com a reunião dos ministros das Finanças do G-20, na Escócia.

Barack Obama e Ben Bernanke dizem que não. O Banco Central Europeu diz que sim. Chega de ajuda ao sistema financeiro a partir do próximo ano, afirmou o seu presidente Jean-Claude Trichet, na quinta-feira. E só não aumentou os juros por pressão dos governos, principalmente da França. O juro permanece em 1%, com sinais de alta. O BCE tem medo da inflação que não é inflação, mas deflação. Menos 0,3% em setembro.

Nos EUA, o desemprego de 10,2% se antecipa às previsões. Não era para acontecer agora, mas no início do ano. Janeiro ou fevereiro. Preocupa, mas era esperado, pois a economia, que havia dado um salto no último trimestre, continua frágil. Ainda não se sustenta.

O governo estava preparado. No mesmo dia em que se anunciou esse índice, Obama estendeu os benefícios federais aos desempregados, que se acumulam aos estaduais, e prorrogou medidas de estímulo ao setor imobiliário. A Casa Branca informou também que novas medidas anticíclicas estão sendo estudadas e poderão ser anunciadas em breve.

Um dia antes, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), também veio a público para informar que não muda a política monetária, vai manter ainda por algum tempo o juro básico em torno de 0,25%, praticamente negativo em termos reais. Vai continuar ativo na compra de títulos do Tesouro e imobiliários. Ou seja, mais dólares vão entrar no mercado.

Para Obama e Bernanke, a economia só reage com mais estímulos. Tudo o mais, déficit, dívida, fica para depois

Na Europa, nada muda, apesar de o desemprego já estar em 9,7%, e a inflação crescendo. Não seria grave se ela não tivesse o mesmo que os EUA no Produto Interno Bruto (PIB) mundial. US$ 14 trilhões.

Quem está certo, os americanos ou os europeus? Trichet ou Bernanke?

É isso que estava na pauta da reunião dos ministros do G-20, encerrada ontem. Foi a terceira do ano ? um balanço com resultados previsíveis. A conclusão é que vão continuar estimulando a economia, mas cada um do seu modo. Só que isso não funciona porque alguns querem agir mais, outros menos. E a economia mundial vai continuar se arrastando ainda por muitos e muitos meses.

RETOMADA NÃO CONVENCE

Eles deveriam ouvir quem não foi ouvido no passado, e acertou ao prever a recessão: Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York. Para ele, a retomada é ainda incerta e não se mantém porque está sendo sustentada pelos estímulos fiscais e monetários, gastos dos governos e pela política de juros baixos. Quanto dura? Roubini arrisca. Quando muito, não mais de seis meses. É mais ou menos o prazo para que os estímulos do governo não se transformem em déficits insuportáveis. Em determinado momento, o setor privado, as empresas, terão de substituir o governo. Há ainda muitos desequilíbrios. O mercado financeiro está se recuperando mais rapidamente que a atividade econômica. Sinal, o desemprego continua aumentando. E permanece a pergunta. Quando o governo deve começar a sair? Roubini não responde, mas insinua que o setor privado ainda não está preparado. E cabe aos governos dos países desenvolvidos continuar a tarefa de prepará-los. Só devem tentar administrar melhor seus déficits. E antecipar-se a bolhas previsíveis.

QUEM ESTÁ CERTO?

Acho que nós. Estamos indo devagarzinho nas duas frentes, fiscal e monetária. Sem a ousadia dos dias que antecederam a crise e se enfrentou, com êxito, a recessão. Agora, não há pressa. O governo está começando a remover as medidas anticíclicas de forma gradual. Na área tributária, com o restabelecimento do IPI no setor automobilístico, o mais afetado pela crise. Nessa área, grande empregadora de mão de obra, evitou-se o pior. Mas esse imposto está sendo restabelecido gradualmente para que empresas e compradores se adaptem à nova realidade. E a realidade é uma economia na qual o crédito volta, o desemprego recua e o rendimento das famílias aumenta. No final da linha, isso vai representar maior arrecadação.

O mesmo está sendo feito ainda com mais cuidado na linha branca por causa do seu componente social.

Na área monetária, lembra Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, o Banco Central mantém sua posição, também com medidas graduais, sem precipitações. Reduziu o juro básico para 8,75% e o mantém nesse nível.

Não temos pressa porque nos apressamos antes, aproveitando um terreno já preparado no governo anterior e neste. A inflação caiu de 12,5% em 2002 para 4,3% neste ano.

O juro nominal em 2002 era de 19,1%, teve de ser aumentado para 23,3% no ano seguinte para conter a inflação e agora está em 8,7%.

Sabedoria? Não. Apenas soubemos aproveitar esse cenário, que nós mesmos preparamos, para nos sobrepormos aos outros, que afundaram na recessão.

*Email: at@attglobal.net

03/11/2009 - 11:09h Quanto maior a bolha atual, maior será o inevitável estouro


Para o economista Nouriel Roubini, juros negativos nos EUA e dólar fraco geram “mãe” de todos os “carry trades” e bolha global cujo estouro é inevitável

NOURIEL ROUBINI DO “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

Desde março vem ocorrendo um aumento maciço em ativos de alto risco de todo tipo -participações, preços do petróleo, energia e commodities-, um estreitamento dos “spreads” de alta rentabilidade e alta classificação e um aumento maior ainda nas classes de ativos de mercados emergentes (suas ações, obrigações e moedas).
Ao mesmo tempo, o dólar caiu muito, enquanto a rentabilidade dos títulos governamentais tem aumentado ligeiramente, mas se mantido baixa e estável.
Essa recuperação dos ativos de alto risco é movida em parte por melhores condições econômicas fundamentais. Evitamos uma quase depressão e um derretimento do setor financeiro com um estímulo monetário e fiscal maciço e pacotes de socorro aos bancos. Quer a recuperação tenha formato de V, conforme a visão consensual, ou tenha formato de U e seja anêmica, como eu argumento, os preços dos ativos deveriam estar subindo gradualmente.
Contudo, ao mesmo tempo em que as economias americana e global iniciaram uma recuperação modesta, desde março os preços dos ativos vêm subindo vertiginosamente, numa alta grande e sincronizada. Em 2008, quando o dólar subia, os preços dos ativos estavam em queda forte, mas, desde março, eles têm recuperação acentuada, enquanto o dólar cai. Os preços dos ativos de alto risco vêm subindo demais, cedo demais e rápido demais em comparação com os fundamentos.
O que está por trás dessa alta maciça? Com certeza, foi ajudada pela onda de liquidez advinda de juros a quase zero e flexibilização quantitativa das condições monetárias. Mas um fator mais importante que alimenta a bolha de ativos é a fraqueza do dólar americano, movida pela “mãe” de todos os “carry trades” [operação em que o investidor pega empréstimos com juros muito baixos, como os dos EUA hoje, e aplica em outros ativos]. O dólar virou a principal moeda a financiar os “carry trades”, na medida em que o Fed [BC dos EUA] vem segurando os juros. Os investidores que estão vendendo o dólar a descoberto para comprar ativos de rentabilidade maior e outros ativos globais em base altamente alavancada não estão só contraindo empréstimos a juros zero em termos do dólar -estão contraindo empréstimos a juros muito negativos, que podem chegar a 10% ou 20% negativos ao ano-, na medida em que a queda do dólar leva a ganhos maciços de capital sobre posições do dólar.
Resumindo: negociantes estão contraindo empréstimos a juros negativos de 20% para investir em base altamente alavancada em uma massa de ativos globais de alto risco que estão subindo devido ao excesso de liquidez e a um “carry trade” maciço. Cada investidor que joga esse jogo de alto risco fica parecendo um gênio -mesmo que só navegue numa bolha imensa-, já que os retornos totais têm estado na faixa entre 50% e 70% desde março.
A consciência que as pessoas têm do valor em risco de seus portfólios deveria ter aumentado devido à correlação crescente dos riscos entre classes diferentes de ativos, todos movidos por essa política monetária comum e pelo “carry trade”. Na prática, virou uma grande negociação comum -você compra o dólar para adquirir qualquer ativo de alto risco.
Ao mesmo tempo, porém, o risco percebido das classes individuais de ativos vem declinando, na medida em que a volatilidade diminuiu graças à política do Fed de comprar tudo que está à vista. Assim, o efeito conjunto da política de taxa zero sobre fundos do próprio Fed, flexibilização quantitativa das condições monetárias e aquisição maciça de instrumentos de dívida de longo prazo está aparentemente fazendo o mundo ser seguro -por enquanto- para o maior de todos os “carry trades” e a maior de todas as bolhas de ativos globais altamente alavancados.
Ao mesmo tempo em que essa política alimenta a bolha global, também alimenta uma nova bolha de ativos americanos. Dinheiro fácil, facilitação do crédito e fluxo maciço de capitais para os EUA por meio de um acúmulo de reservas em divisas estrangeiras em outros países tornam os deficit fiscais dos EUA mais fáceis de financiar e alimentam a bolha americana de participações e crédito.
Finalmente, um dólar fraco é bom para as participações acionárias americanas, já que pode gerar crescimento maior e elevar os lucros de multinacionais.
A política americana insensata que alimenta esses “carry trades” obriga outros países a adotar a mesma política monetária. Políticas de juros a quase zero e flexibilização quantitativa já eram seguidas no Reino Unido, na zona do euro, no Japão, na Suécia e em outras economias avançadas, mas a debilidade do dólar vem agravando essa flexibilização monetária global. Ásia e América Latina, preocupadas com a fraqueza do dólar, estão intervindo agressivamente para impedir a valorização excessiva de suas moedas. Isso segura os juros de curto prazo em níveis inferiores aos desejáveis. É possível que os BCs também sejam forçados a reduzir os juros.
Preocupados com o dinheiro quente que vem inflando suas moedas, algumas autoridades, como as do Brasil, vêm impondo controles aos fluxos de capital entrantes. Mas a bolha do “carry trade” vai se agravar: se as moedas estrangeiras se valorizarem mais, o custo negativo dos empréstimos do “carry trade” ficará ainda maior. Se intervenções ou operações no mercado aberto controlarem a valorização das moedas, a flexibilização monetária doméstica decorrente alimentará a bolha nessas economias. Assim, a bolha perfeitamente correlacionada de todas as classes de ativos globais cresce diariamente.
Mas essa bolha vai estourar um dia, levando ao maior estouro coordenado de ativos já visto: se fatores puderem levar o dólar a reverter sua queda e a se valorizar repentinamente -como em inversões anteriores-, o “carry trade” alavancado terá de ser encerrado de uma hora para a outra, à medida que os investidores cobrem suas transações a descoberto com dólar. Haverá um estouro da boiada, com o fechamento de posições de alto risco e alavancagem longa em todas as classes de ativos financiadas por transações em dólar a descoberto gerando colapso coordenado de todos esses ativos de alto risco -ações, commodities, ativos de emergentes e instrumentos de crédito.
Por que esses “carry trades” desabarão? Para começar, o dólar não pode cair a zero, e em algum momento se estabilizará; quando isso acontecer, o custo de empréstimos em dólar repentinamente se tornará zero, em lugar de altamente negativo, e o risco de uma inversão no dólar levará muitos investidores a cobrirem suas transações a descoberto. Em segundo lugar, o Fed não poderá suprimir a volatilidade para sempre. Em terceiro, se o crescimento americano surpreender positivamente, os mercados podem começar a esperar que um arrocho do Fed chegue mais cedo, não mais tarde. Em quarto, pode haver fuga do risco movida pelo medo de um repique recessivo ou risco geopolítico, como um choque EUA/Israel-Irã.
Esse processo pode não ocorrer por algum tempo, já que o dinheiro fácil e a liquidez global excessiva ainda poderão elevar os ativos por algum tempo.
Mas, quanto mais se prolongarem e quanto mais crescer a bolha, maior o crash. O Fed e outros responsáveis pela política econômica parecem não ter consciência da bolha monstro que criam. Quanto mais tempo permanecerem cegos, mais dolorosa será a queda.

NOURIEL ROUBINI é professor da Universidade de Nova York e presidente da RGE Monitor.

Tradução de CLARA ALLAIN

20/10/2009 - 10:32h Não está tudo bem com os bancos nos Estados-Unidos

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Paul Krugman*, THE NEW YORK TIMES – O Estado SP

Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos. Talvez não literalmente o pior, mas ruim. E o contraste entre a sorte de alguns e o persistente sacrifício de tantos outros era o prenúncio de um futuro incerto. Logicamente, estou falando dos bancos. Uns poucos ganharam, mas muitos reagiram com ira quando o Goldman Sachs apresentou lucros recordes e voltou a pagar bonificações enormes, enquanto nos EUA as vagas continuam se fechando.

Mas não se trata só de bancos se recuperando enquanto trabalhadores padecem. Bancos que operam com empréstimos, e não os de investimentos, voltam a enfrentar dificuldades, principalmente Citigroup e Bank of America, que calaram boatos de estatização no início do ano, declarando que haviam voltado a lucrar. Mas, agora, estão com prejuízos de novo.

Como afirmou um crítico: “Hoje, não há nenhuma instituição financeira que não se beneficie, direta ou indiretamente, dos trilhões de dólares dos contribuintes usados para sanar o sistema financeiro”. De fato: o Goldman ganhou muito dinheiro com suas operações de investimentos, mas só conseguiu continuar no jogo graças a medidas que puseram em risco vastas somas de dinheiro público, da operação de salvamento da AIG às garantias concedidas a muitos títulos do Goldman.

E quem é esse crítico? Ninguém menos que Lawrence Summers, o principal economista do governo do presidente Barack Obama – e um dos arquitetos da política para salvar bancos que, até agora, sem sido extremamente tolerante.

A que se deve a mudança de tom? Funcionários do governo estão furiosos com o setor financeiro, que empreende um lobby feroz contra reformas profundas no sistema. Mas o que eles esperavam? O governo adotou uma política suave, concedendo ajuda sem precondições; com isso, ficou com pouco poder de pressão sobre empresas como o Goldman que agora, mais uma vez, ganham rios de dinheiro.

Mas há um problema maior: enquanto o lado agressivo do setor financeiro – o das operações de investimentos – voltou a ser lucrativo, a parte que realmente importa – a dos empréstimos que alimentam investimentos e empregos – não voltou. Os principais bancos continuam fracos, e sua debilidade prejudica a economia como um todo.

Lembremos que, no início do ano, houve um amplo debate sobre o que seria preciso fazer para que o setor bancário voltasse a conceder empréstimos. Alguns analistas, me incluo no grupo, argumentaram que pelo menos algumas das principais instituições precisariam de uma grande injeção de capital, e que a única maneira de fazer isso seria a estatização temporária dos bancos mais comprometidos. Porém, o debate acabou quando o Citi e o BofA, os elos mais fracos do sistema bancário, anunciaram lucros surpreendentes. “Está tudo bem”, foi o que nos disseram, porque os bancos voltaram a lucrar.

Mas ocorreu algo curioso: Na semana passada, tanto o Citi quanto o BofA anunciaram prejuízos no terceiro trimestre. O que houve? Em parte, aqueles lucros iniciais não passaram de pura imaginação dos auditores contábeis. No entanto, em termos mais amplos, o que podemos ver é uma espécie de vingança da economia real.

Na primeira fase da crise financeira, o sistema foi punido pelos desregramentos de Wall Street; agora, a crise geral, somada a um elevado e persistente desemprego, está levando a altos prejuízos com os empréstimos hipotecários e os cartões de crédito.

E aqui está a questão: A contínua fragilidade de muitos bancos contribui para perpetuar a crise. Os bancos continuam relutando a conceder empréstimos, e o aperto do crédito, principalmente às pequenas empresas, é um obstáculo no caminho da forte recuperação de que necessitamos.

E agora? Summers não se cansa de insistir que o governo fez a coisa certa: novas injeções de capital não “teriam sido uma estratégia útil para solucionar os problemas”. De qualquer modo, em termos políticos, o momento para uma ação radical já passou.

O mais importante, por enquanto, é fazer o possível para respaldar o crescimento do emprego. Com sorte, assim será possível criar um círculo virtuoso no qual a economia em recuperação fortalece os bancos, e eles se tornam mais dispostos a conceder crédito.

Além disso, precisamos desesperadamente da aprovação de uma reforma efetiva do setor financeiro. Se não conseguirmos isso, logo os banqueiros vão assumir riscos maiores do que o que eles assumiram antes da crise.

*Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia

03/10/2009 - 14:35h Krugman: Gastar dinheiro agora significa fortalecer a economia, no curto e no longo prazos

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Paul Krugman*

As ações estão em alta. Segundo Ben Bernanke, a recessão acabou. Eu sinto uma crescente disposição entre os formadores de opinião a declarar: missão cumprida no combate à crise. E há quem afirme que está na hora de deixarmos de nos preocupar com o estímulo econômico para nos concentrarmos no déficit do orçamento. Mas não está, não. A autocomplacência que começa a se instaurar em relação ao estado da economia é insensata e perigosa.

Sim, o Federal Reserve (Fed) e o governo Obama nos tiraram da Beira do Precipício – título de um novo ensaio de Christina Romer, diretora do Conselho de Assessores Econômicos, no qual argumenta, de maneira convincente, que a política de forte expansão dos gastos públicos nos salvou de uma possível reedição da Grande Depressão.

Mas, embora evitar outra depressão seja muito bom, tudo indica que, se o governo não fizer muito mais do que planeja atualmente para promover a recuperação da economia, a situação do mercado de trabalho – no qual, hoje, a procura de emprego é seis vezes maior que a oferta – continuará sendo angustiante nos anos vindouros.

Na realidade, a projeção econômica do próprio governo – em que são levados em conta os novos empregos que suas medidas criarão – mostra que a taxa de desemprego, que há apenas dois anos estava abaixo de 5%, será em média 9,8% em 2010, 8,6% em 2011 e 7,7% em 2012.

Não podemos considerar aceitável essa perspectiva, em primeiro lugar, porque ela implica enorme sofrimento nos próximos anos. Além disso, se o desemprego permanecer nesse nível por tanto tempo, lançará uma sombra negra sobre o futuro dos Estados Unidos.

Os que acham que estamos fazendo o bastante para criar empregos devem ler o relatório apresentado recentemente por John Irons, do Instituto de Política Econômica, que descreve a “devastação” produzida por um desemprego persistente. Entre outras coisas, Irons destaca que o desemprego persistente na escala hoje prevista levaria a um enorme aumento da pobreza – e que existem evidências esmagadoras de que as crianças que crescem em meio à pobreza muito provavelmente terão uma vida miserável.

Esse custo humano deveria constituir nossa maior preocupação, mas suas implicações em termos de recursos também são assustadoras. As projeções do Departamento do Orçamento do Congresso, por exemplo, mostram que, no período de 2010 a 2013 – sem contar os prejuízos que já sofremos – o “déficit de produção”, a diferença entre tudo o que a economia poderia ter produzido e tudo o que ela realmente produz, será superior aos US$ 2 trilhões. O que significa que são trilhões de dólares de potencial produtivo que se perderão.

Mas a coisa é muito pior. Um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que o tipo de recessão que tivemos, causada por uma crise financeira, costuma causar danos no longo prazo em termos das perspectivas de crescimento de um país. “O caminho da produção tende a se estreitar substancialmente e de maneira persistente depois das crises do setor bancário.”

Entretanto, o mesmo relatório sugere que esse desfecho não é inevitável. “Concluímos que uma resposta mais firme de uma política fiscal no curto prazo” – medida pela qual se entende um aumento temporário dos gastos do governo – “está significativamente associada a menores perdas da produção no médio prazo.”

Portanto, deveríamos fazer muito mais do que estamos fazendo para promover a recuperação econômica, não apenas porque isso reduziria nosso sofrimento atual, como também porque melhoraria nossas perspectivas no longo prazo.

Mas será que podemos fazer mais – no sentido de oferecer mais ajuda a combalidos governos estaduais e aos desempregados, de aumentar os gastos em infraestrutura, de oferecer incentivos fiscais aos empregadores para que criem empregos? Sim, nós podemos.

O senso comum diz que ajudar a economia agora produzirá ganhos no curto prazo à custa de sofrimento no longo prazo. Mas, como acabamos de ressaltar, do ponto de vista da nação como um todo não é assim que funciona. A crise está produzindo danos no longo prazo para a economia e a sociedade e, se pudermos abrandá-la, teremos um futuro melhor.

É verdade que um aumento dos gastos com a recuperação e a reconstrução piorará a própria posição fiscal do governo. Mas mesmo neste caso, o bom senso exagera. Os verdadeiros custos fiscais desse respaldo para a economia são surpreendentemente baixos.

Gastar dinheiro agora significa fortalecer a economia, no curto e no longo prazos. E uma economia mais forte implica maiores receitas, para compensar uma considerável parcela dos custos iniciais. Segundo cálculos aproximados, a compensação chegaria a quase 100%, de forma que o estímulo fiscal não é um almoço grátis completo. Mas custa muito menos do que imaginaríamos de acordo com um suposto debate informado.

Sei que um aumento do estímulo é algo difícil de vender em termos políticos, mas é urgentemente necessário. A questão não é se podemos fazer mais para promover a recuperação, mas se podemos optar por não fazê-lo. E a resposta é não.

*Paul Krugman é Prêmio Nobel de Economia de 2008

30/08/2009 - 16:12h Um ano depois, Brasil passa no teste e sai da crise maior do que entrou

Para especialistas, avanço do País e de outros emergentes é uma das características do mundo pós-crise

Fernando Dantas – O Estado SP


O Brasil saiu da turbulência global maior do que entrou. Às vésperas do mês em que se completa um ano da crise iniciada com a concordata do Lehman Brothers, em 15 de setembro, o otimismo com o País tornou-se consensual. “O fato de que o Brasil passou tão bem pela crise tinha mesmo de instilar confiança”, diz Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para Jim O’Neill, do Goldman Sachs, e criador da expressão Bric (o grupo de grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China), “o Brasil passou por essa crise extremamente bem, e pode crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos”.

O crescimento de importância do Brasil e de outras economias emergentes é uma das características do novo mundo surgido com a crise econômica. Para comentar essa e várias outras mudanças, o Estado ouviu oito grandes economistas estrangeiros e brasileiros: Rogoff; O’Neill; Barry Einchengreen, da Universidade de Berkeley; José Alexandre Scheinkman, de Princeton; Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio gestor do Gávea Investimentos; Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA e codiretor do Instituto de Estudo de Políticas Econômicas – Casa das Garças (Iepe/CdG); Affonso Celso Pastore, consultor e ex-presidente do BC; e Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco.

Pastore observa que a recessão no Brasil foi curta, de apenas dois trimestres, comparada a quatro em países como Estados Unidos, Alemanha e França. Goldfajn nota que há os países que estão saindo da recessão no segundo trimestre e os que estão saindo no terceiro – o Brasil está entre os primeiros, com várias nações asiáticas. “Mesmo no primeiro trimestre, se olhar mês contra mês, há números fortes de crescimento no Brasil”, acrescenta.

Para Goldfajn, a crise foi um teste de estresse para diversos países, no qual alguns passaram, outros não, alguns tiveram nota boa e outros nota ruim. “Acho que o Brasil tirou nota boa, e agora está todo mundo olhando e dizendo ‘esse cara é bom’”, diz Goldfajn.

Uma das principais razões para o sucesso do Brasil em enfrentar a crise, segundo Pastore, é que ela pegou o País com o regime macroeconômico adequado – câmbio flutuante, bom nível de reservas, inflação controlada, superávit primário, dívida pública desdolarizada e caindo em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB). Essa solidez combinou-se com o sistema financeiro capitalizado, pouco alavancado, que estava proibido pela regulação de operar com os ativos perigosos, como os títulos estruturados no mercado americano de hipotecas subprime. “Uma das lições da crise é que países que tinham uma abordagem equilibrada da regulação do mercado financeiro, como Brasil, Austrália, Canadá , não tiveram crise bancária”, diz O’Neill.

A política anticíclica, baseada em corte de impostos e ampliação de gastos públicos, também ajudou, embora esta segunda parte seja criticada pelos efeitos de médio prazo. Para Pastore, os aumentos do funcionalismo e do Bolsa-Família tiveram efeitos contracíclicos, mas “por coincidência”, já que foram decididos antes da crise. “O defeito é que, se fosse política contracíclica mesmo, teria de expandir gastos transitórios, e não permanentes.”

Para a maioria dos economistas, o aumento dos gastos públicos correntes reduz o espaço do investimento, e impede que o Brasil cresça a um ritmo ainda mais forte do que os 4% a 5% que estão sendo previstos. “Não é nem preciso dizer que há um monte de coisas que o Brasil poderia fazer para crescer mais rápido”, comenta Rogoff.

De qualquer forma, o sucesso diante da crise jogou o Brasil no radar dos investidores. “À medida que continuarmos a crescer mais que o mundo, é natural que o País receba um aporte muito grande de investimentos estrangeiros diretos”, diz Pastore, acrescentando que eles aumentaram, mesmo com recessão e queda de lucros nos países que sediam as empresas que investem no Brasil.

A contrapartida dos fluxos de capital é o câmbio valorizado e o déficit em conta corrente, o que significa que o mundo está financiando o Brasil para consumir muito (o que implica poupar pouco) e investir ao mesmo tempo. Segundo Goldfajn, os brasileiros serão um dos povos convocados, junto com os asiáticos, a preencher o espaço deixado pelo fim da exuberância do consumidor americano, atolado em dívidas e necessitado de reconstruir seu patrimônio.

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”Não foi o fim do mundo que se prenunciava em dezembro”

Reação global de governos impede crise pior; papel da China se torna vital para retomada

Fernando Dantas – O Estado SP

A crise global não foi tão ruim quanto parecia no pior momento, entre o fim do último trimestre de 2008 e o primeiro de 2009. “Não foi o fim do mundo que se prenunciava em janeiro e dezembro, porque a reação dos governos foi do tamanho da crise”, diz Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA, comentando os maciços pacotes fiscais e a política monetária expansionista convencional (corte de juros) e não convencional (injeção de dinheiro na economia pela compra de títulos em poder do mercado) das principais economias do mundo.

Hoje, mesmo um observador relativamente pessimista, como Kenneth Rogoff, de Harvard, prevê que o mundo deve se estabilizar num crescimento em torno 4%, menos que o ritmo próximo de 5% dos anos anteriores à crise, mas já claramente fora da recessão. Ele ressalva que a atual recuperação “não é normal, com o sistema todo na UTI, o sistema bancário bancado pelo governo, e o mercado residencial se estabilizando apenas por causa dos grandes subsídios às hipotecas.”

Barry Eichengreen, da Universidade Berkeley, é outro que mostra ceticismo quanto ao vigor da recuperação mundial. “A mudança mais importante na economia pós-crise é o grande endividamento nos países industriais avançados, que tornará as finanças públicas restritivas, criando um ambiente inamistoso para o investimento, e que não é bom para o crescimento.” Ele se refere à necessidade que os governos dos países ricos terão de aumentar impostos e cortar gastos para contrabalançar o enorme crescimento da dívida pública na esteira dos grandes déficits fiscais da política contracíclica.

Um ponto crucial para sustentar a recuperação global é a capacidade da China de insuflar a demanda global. Para Rogoff, “a mudança número um do mundo pós-crise é que o consumidor americano, o combustível da economia mundial no último quarto de século, provavelmente será menos energético nos próximos cinco a dez anos.”

A grande questão, hoje, é saber se o recuo do superendividado consumidor americano pode ser compensado pelo avanço do consumo na China e em outros países emergentes asiáticos, e até no Brasil.

Para Rogoff, “a demanda dos mercados emergentes vai substituir a dos EUA, mas isso não acontecerá de um dia para o outro.” Essa mudança, ele continua, exige uma grande reestruturação da economia chinesa, que ainda está voltada para as exportações, e não para expandir o consumo interno.

Jim O’Neill, do Goldman Sachs, discorda: “Essa crise talvez tenha sido necessária, porque forçou a China a fazer uma transição para o crescimento puxada pela demanda interna. Isso era exatamente o que o mundo precisava para evitar a crise, e é o que mundo precisa para sair da crise.”

Para O’Neill, os dados da expansão de consumo da China são muito claros. As vendas de varejo saltaram 15,2% em julho e, nos últimos dois anos, convertidas em dólares, apresentam um avanço maior do que o recuo no consumo americano. Em relação ao setor externo, o economista inglês diz que tentou apostar recentemente, com membros da equipe econômica do governo britânico, que a China terá déficit comercial nos próximos dois anos. “Mas agora nós achamos que é possível que isso aconteça nos próximos 12 meses. Desde abril, o crescimento das importações chinesas é muito mais forte que o das exportações.”

http://www.rnnoticias.com.br/SPN/bancoimagem/Cultura/lula-e-marolinha-surf-obama.bmp

Crise mudou mapa da globalização

Mudança ocorreu tanto no comércio quanto nos investimentos e nas relações de poder de órgãos internacionais

Jamil Chade – O Estado SP

Os fluxos de investimentos mudaram de direção, a China se transformou no maior exportador do planeta e organizações consideradas como pilares das decisões internacionais hoje são questionadas e até substituídas. Em 12 meses, a crise acelerou processos de profunda mudança na geografia da globalização e uma incipiente nova relação de poder entre países.

No campo comercial, a maior novidade foi a transformação da China na maior exportadora do mundo. Por uma margem mínima, superou a Alemanha, que liderava desde 2003. A China exportou US$ 521,7 bilhões em seis meses, ante US$ 521,6 bilhões da Alemanha. Os americanos estão na terceira colocação.

A China já vinha subindo no ranking mundial. Mas a crise na Europa acelerou sua nova posição. Em 2002, a China era a quinta maior exportadora, com vendas anuais de US$ 325 bilhões, US$ 200 bilhões abaixo do que o país vendeu apenas nos últimos seis meses. Em 1997, a China era apenas a 16ª maior exportadora, com US$ 24,5 bilhões em vendas.

Nos últimos anos, dezenas de medidas foram adotadas contra os produtos chineses, que são hoje os mais afetados por medidas restritivas. Uma delas foi adotada pelo Brasil no início do ano para barrar a entrada de produtos siderúrgicos.

A crise ainda redesenhou o mapa dos principais destinos das exportações de vários países, inclusive o do Brasil. Neste ano, a China superou os EUA como o principal comprador de bens brasileiros. Além disso, passou a ser o maior fornecedor de produtos à Europa, acabando com 50 anos de relação comercial privilegiada entre europeus e americanos.

Em junho, as importações americanas estavam 34,5% abaixo dos níveis de junho de 2008. No ano passado, os Estados Unidos foram os maiores importadores do planeta, consumindo mais de 12% de tudo o que o mundo exporta.

No setor de investimentos, a crise também mudou a estratégia de multinacionais e coloca os países emergentes no centro da internacionalização. Levantamento com mais de 240 multinacionais elaborado pela ONU deixou claro que não há um risco de “desglobalização” da produção. O processo de internacionalização será retomado, mesmo mais lentamente. E será direcionado de forma cada vez mais clara aos emergentes.

A pesquisa mostrou que as multinacionais continuarão a investir no exterior para a internacionalização de suas vendas, produção e compra de ativos. Tanto em países emergentes como nos ricos, o levantamento indica que a crise está dando um incentivo extra para as empresas buscarem novos mercados, além de novos locais de produção para reduzir custos.

A tendência de uma maior atenção aos emergentes já vinha ocorrendo nos últimos dez anos. Em 1998, os países em desenvolvimento tinham 8% dos fluxos de investimentos, ante 13% em 2007. A tendência é de que a taxa aumente até 2011.

A preferência será pela Ásia, pelo tamanho do mercado e acesso a trabalhadores mais baratos. Cinco dos 15 maiores destinos de investimentos estarão na Ásia até 2011. Os países que formam o Bric – Brasil, Rússia, Índia e China – ocupam agora quatro dos cinco primeiros lugares preferidos para investimentos até 2011 e dividem as preferências com os americanos.

Em termos gerais, porém, o mundo ainda verá uma queda de investimentos em 2009 de cerca de 50%, ante 2008. Os mais afetados serão os países ricos, com redução de 60%. Mas os emergentes mostrarão certa resistência, com queda de apenas 25%. Em 2008, o mundo já sofreu queda de 15% nos investimentos, depois de atingir recorde de US$ 1,9 trilhão em 2007.

Outro sinal de mudança no mapa da globalização é a iniciativa de alguns países de reduzir sua dependência em relação ao dólar e acelerar a compra de papéis emitidos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). A decisão de Brasil, China e Rússia de se tornarem credores do FMI promove uma pequena revolução no mercado. Parte da estratégia dos emergentes é mostrar que têm como ser credores e, portanto, têm direito a uma maior voz em entidades como o FMI e o Banco Mundial.

O debate sobre os grupos e instituições financeiras ainda deixa alguns na defensiva. É o caso de Angel Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países ricos e por anos tentou atrair os emergentes. Para Gurría, o mundo passará a viver em nova relação entre instituições e diferentes grupos de países, como o G-8 ou o G-20. “Cada grupo precisa de seu espaço. Hoje, o mundo é das redes, do network. E assim é que podemos imaginar uma nova configuração de países.”

http://youpode.com.br/blog/liberati/files/2009/03/liberati.jpg

20/08/2009 - 11:44h Bancos centrais temem deflação crônica

Na Alemanha, produtos têm hoje o mesmo valor de maio de 2007

http://img.timeinc.net/time/daily/2009/0901/deflation_0116.jpg

Gustavo Chacra – O Estado SP

Os bancos centrais de países desenvolvidos começam a enfrentar o risco de a deflação se intensificar nos próximos meses, com recordes sendo anunciados nos Estados Unidos e na Europa. Na sua maior queda em seis décadas, o índice de preços ao consumidor da Alemanha despencou 7,8% em julho em relação ao mesmo mês no ano passado. Na variação mensal, a diminuição foi de 1,5%.

Segundo o Escritório Federal de Estatísticas, os produtos alemães têm hoje o mesmo valor de maio de 2007. Os preços para o consumidor na Alemanha registraram a sua primeira baixa desde a reunificação do país, em 1990, ao caírem 0,5%. A redução é dois décimos menor do que a média da zona do euro.

Do outro lado do Atlântico, o índice de preços ao consumidor americano também atingiu o seu menor nível desde 1950, ao se reduzirem 2,1% em julho, quando comparado ao mesmo mês no ano passado – em relação a junho, a inflação se manteve estável -, de acordo com dados do Departamento do Trabalho divulgados na semana passada. Assim como na Alemanha, os piores números vieram do setor produtivo, com uma redução de 6,8% nos preços desde julho de 2008, e 0,9% em junho .

A deflação tem como principal causa a redução nos preços da área energética, especialmente do barril do petróleo – apesar da elevação de ontem, que não está embutida no índice -, ao longo do último ano. Na Alemanha, a deflação anual é de 3,6% quando não se leva em conta os preços deste setor.

O Fed (banco central dos EUA) indicou que não existe risco de inflação por enquanto, o que eliminaria a necessidade de elevar os juros, evitando uma possível estagflação (inflação e recessão simultaneamente). O problema, segundo dizem alguns economistas, é que, com a deflação, há pouca margem de manobra para o Fed. Os juros já estão próximos de zero e o risco seria de um círculo vicioso como no Japão dos anos 1990.

A saída seria o aumento da demanda para o fim da deflação. Por enquanto, os sinais não indicam que isso venha ocorrendo. Ao contrário, o índice de confiança dos consumidores está em queda nos Estados Unidos por três motivos – elevado desemprego (9,4%), endividamento e maior propensão a poupar em vez de consumir.

13/08/2009 - 09:12h Lula tinha razão, foi uma “marolinha”

Bem na foto

http://www.rnnoticias.com.br/SPN/bancoimagem/Cultura/lula-e-marolinha-surf-obama.bmp

Celso Ming – O Estado SP

À medida que se consolida a percepção de que a crise global não foi tão destruidora como parecia e que, afinal, a virada está a caminho, é preciso perguntar quais as consequências de tudo isso para o Brasil.

Sortudo ou o que for, o presidente Lula ficou com a razão. Comparada com as projeções feitas pelo Morgan Stanley e seu economista-chefe, Marcelo Carvalho, de que o PIB do Brasil mergulharia 4,5% neste ano, a afirmação de Lula de que isso não passaria de “marolinha” estava bem mais correta.

Terça-feira, o presidente executivo do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, avisava que o PIB brasileiro no segundo semestre avança ao ritmo de 4% ou 5%. Assim, ainda que o resultado líquido do ano fique perto de zero por cento, para 2010 já se pode esperar números próximos dos 4%.

Como esta coluna já fez em outras oportunidades, não dá para fechar os olhos para a atual deterioração das contas públicas. Em apenas nove meses, o déficit do setor público saltou de 1,8% do PIB para 3,2%. E o enorme despejo de recursos na economia, que o governo alardeia como sendo política anticíclica, baseou-se em despesas de má qualidade, na medida em que se concentraram não em investimentos, que trariam retorno, mas em despesas correntes, com o funcionalismo público e aposentadorias, que ficam nisso.

Mas não se pode negar a qualidade do resto. Fato inédito, a economia brasileira sai dessa crise com reservas externas superiores às que tinha no seu início. Os juros básicos (Selic) estão em seu nível mais baixo desde 1999. A inflação ficou enquadrada na meta (e em queda). O desemprego está mais baixo do que nos países ricos. E o crédito segue em expansão e já permite o esticamento dos financiamentos habitacionais para além de 20 anos. São condições que, por si sós, constituem credenciais de grande validade para novas decolagens.

A crise e as circunstâncias trouxeram outros benefícios de longo prazo. Acabou, por exemplo, o risco de apagão no sistema de energia elétrica, um pouco porque a derrubada da atividade industrial reduziu o consumo e outro pouco porque o extraordinário período de chuvas encheu os reservatórios e ficou afastada a ameaça de insuficiência de energia elétrica por pelo menos mais três anos.

É provável que o crescimento do PIB deste ano seja alguma coisa acima de zero por cento, como novas projeções estão indicando. Mas, mesmo que seja zero, será o quinto ou o sexto melhor desempenho do planeta, atrás apenas da China, Índia, Indonésia, África do Sul e, talvez, Colômbia.

Assim como o governo americano terá de enfrentar a estratégia de saída da crise, o governo brasileiro terá de normalizar o regime tributário dos setores que foram beneficiados com isenção de IPI.

A queda das vendas da indústria automobilística em julho, de 4,9% em relação a junho, parece comprovar que os benefícios se limitaram a antecipar as compras; não criaram mercado novo. E, se foi assim, a indústria voltará a ter dificuldades nos próximos meses.

Em todo o caso, se o governo Lula não fizer nenhuma grande besteira, a economia brasileira tem tudo para mostrar bom resultado no ano que vem.

CONFIRA

Como o mercado esperava, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) manteve os juros básicos entre 0% e 0,25% ao ano. O que surpreendeu muitos analistas foi o tom brando com que o Fed tratou da recuperação da economia.

Muitos acreditavam que a recente melhora da atividade levaria o BC americano a acabar com o afrouxamento no primeiro semestre de 2010.

No entanto, o Fed fala em garantir um nível excepcionalmente baixo para os juros por um período prolongado. Uma das prováveis consequências disso é a desvalorização do dólar ante outras moedas, como o real.

13/08/2009 - 08:52h Recessão nos EUA chegou ao fim, dizem economistas


criseusa.jpgDe 52 economistas ouvidos pelo WSJ, 38 dizem que país está saindo da crise

O Estado SP

A recessão nos Estados Unidos iniciada em dezembro de 2007 já terminou, segundo a maioria dos economistas consultados em um levantamento do Wall Street Journal publicado ontem. Na pesquisa, que entrevistou 52 economistas, 27 disseram que a crise já acabou e outros 11 acreditam que chegará ao fim neste mês ou no próximo.

Eles também são quase unânimes na aprovação de Ben Bernanke como presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e desejam que ele seja nomeado para mais um mandato. Para os economistas americanos, há 71% de chance de o presidente dos EUA, Barack Obama, pedir que ele continue no posto.

O combate à desaceleração da economia definiu boa parte do mandato de Bernanke, que começou no início de 2006 e termina em janeiro de 2010, segundo os economistas. Eles disseram que a forma com que Bernanke lidou com a crise o faz merecer mais quatro anos no comando do Fed.

“Ele merece bastante crédito por estabilizar os mercados financeiros”, disse Joseph Carson, da AllianceBernstein. “A confiança na recuperação seria prejudicada se ele não fosse renomeado.” Muitos dos economistas consultados acreditam que há pouco a se ganhar com uma mudança no comando do Fed, especialmente considerando a tarefa maciça nas mãos do banco central, conforme a economia sai da recessão.

“Uma continuidade é crítica conforme emergimos desta crise. Do contrário, podemos cair nela de novo”, disse Diane Swonk, economista da Mesirow Financial. “O Bernanke é o melhor indicado para desfazer o que foi feito quando chegar a hora.” O Fed tomou medidas sem precedentes para evitar outra Grande Depressão e a estratégia de saída continua sendo uma questão-chave.

A taxa básica de juros não deve ser alterada tão cedo. Apenas seis economistas esperam que o Fed eleve este ano o juro – hoje na faixa entre zero e 0,25%. Muitos preveem um aumento em algum momento em 2010, mas mais de um quarto não vê mudança até 2011 ou mais.

“A estratégia de saída será muito, muito lenta e cautelosa”, disse John Silvia, do Wells Fargo. “O Fed vai desmontar o balanço antes de elevar o juro”, acrescentou. O balanço do Fed – o valor total dos empréstimos e títulos que possui – mais que dobrou durante a crise, para mais de US$ 2 trilhões, em meio à expansão das linhas de crédito, na tentativa de descongelar os mercados de crédito.

AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

24/06/2009 - 12:08h “O Brasil, mesmo em um mundo em declínio, terá expansão mais forte”

”Parou de piorar. Mas a crise não acabou”

Principal executivo do banco de investimentos americano diz que Brasil é um dos países em que a recuperação já começou

 

Leandro Modé – O Estado SP

 


http://johnbatchelorshow.com/images/lloyd_blankfein.jpgPela primeira vez em seus 140 anos de história, o banco de investimentos americano Goldman Sachs realizou no Brasil a reunião anual do Conselho de Administração. O encontro, realizado durante o último fim de semana em São Paulo, é prova real do aumento da importância dos países emergentes na economia global. “O Brasil, mesmo em um mundo em declínio, terá expansão mais forte. Por isso, em termos relativos, vamos crescer mais aqui”, diz o presidente-executivo e do Conselho de Administração do banco, Lloyd Blankfein, de 54 anos. Blankfein também falou sobre temas como aperto da regulação, causas da crise e futuro dos bancos de investimento – que muitos acreditavam estar fadados ao fracasso, depois da quebra do Lehman Brothers e da absorção do Bear Stearns e do Merrill Lynch por outras instituições.

O presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou o que classificou de “maior reforma do sistema financeiro desde os anos 30″. O sr. acredita que mais regulação pode evitar crises como a atual?

Se há um acidente de avião, qual a primeira coisa que se faz? Os reguladores tentam entender o que houve e, a partir daí, implementam mudanças. Alteram, por exemplo, a maneira de fabricar as aeronaves. É por isso que é tão seguro viajar de avião. Mas isso significa que não haverá acidentes de avião nunca mais? É claro que não. Há determinadas situações, circunstâncias… É o mesmo aqui (no mercado financeiro). A ideia é fazermos o sistema melhorar e ser mais seguro, mas a perfeição está além da nossa capacidade.

O sr. vê risco de regulação excessiva?

Sempre há um ‘trade-off’ (troca) entre segurança e agilidade. Se você faz as coisas muito seguras, pode-se perder inovação. A experiência recente foi muito mais guiada pela falta de segurança do que pela falta de inovação. É um pêndulo. Claramente, estamos levando-o em direção à segurança. Se for bem feito, não perderemos em termos de inovação. Mas, se fizermos de maneira pobre, pode haver perda. O plano apresentado é muito sensível a esse assunto. Isso não quer dizer que será bem executado, até porque ainda não sabemos como será executado. De qualquer forma, o ponto de virada parece muito bom.

O que essas mudanças significam para o seu negócio?

Haverá alterações para todos os negócios, não apenas para o nosso. Haverá um regulador sistêmico, maior necessidade de transparência, mais regras afetando alavancagem, liquidez e a segurança dos produtos. Mas, francamente, tudo isso está no foco porque a experiência recente nos fez mais sensíveis a esses temas. Vivemos um momento que assustou a todos. Daqui para frente, seremos mais líquidos, menos alavancados, mais focados em tocar nosso negócio de forma mais prudente. Haverá mais transparência porque nossos clientes e as pessoas que nos financiam estão mais desconfiadas. Temos de responder a todos os nossos medos e preocupações – e os do público. A regulação está no topo.

Por que tudo isso aconteceu?

Havia muito capital no mundo, muito dinheiro em circulação. Não houve problemas por muito tempo e as pessoas ficaram complacentes e se alavancaram. As taxas de juros ficaram baixas no mundo por muito tempo. Um monte de capital foi acumulado por meio de ‘pools’, como fundos de investimento, fundos hedge (os mais arriscados do mercado), fundos de private equity (participação em empresas), etc. Esse capital foi investido ao redor do mundo. Quando as coisas ocorrem facilmente, as pessoas dão como certo (os retornos) e se tornam complacentes. Com isso, o mundo ficou menos disciplinado. Algumas práticas negligentes deram resultado durante um período e, quando aconteceu (a crise), tudo se deu muito rápida e violentamente. Muitas instituições não estavam preparadas. Por isso, não reagiram suficientemente rápido aos problemas e não protegeram os clientes.

Alguns críticos culpam os bancos centrais, em especial Alan Greenspan, ex-presidente do Fed (o BC dos EUA).

Não estou em posição de culpar ninguém. Olhando em retrospectiva, vejo muitas práticas que deveriam ser diferentes. Estou certo de que, com o benefício do tempo, Alan Greenspan teria feito as coisas de forma diferente, bem como os reguladores e o Congresso. Não acho justo avaliar as coisas depois que já aconteceram. Não se pode esquecer que tínhamos pressões deflacionistas há alguns anos. Acho que o ponto mais importante é: que lições aprenderemos para o futuro? Quais as verdadeiras lições a aprender e quais as falsas? Temos de estar seguros de que aprenderemos com as boas lições, não com as más.

O sr. acredita que as pessoas estão aprendendo as boas lições? Já há quem diga que a recente alta das bolsas, sobretudo em mercados emergentes, é uma bolha.

É possível, mas acho que bolhas só são identificadas depois que estouram. Quando Greenspan fez o discurso em que falava da exuberância irracional dos mercados, o Índice Dow Jones (o mais tradicional da Bolsa de Nova York) estava abaixo de 6.000 pontos. Não era um nível em que se identificava exuberância. Em uma onda de alta, é possível ver isso com mais clareza, mas, honestamente, não sei se é uma bolha ou não. Quando se olham os fundamentos do mundo, a situação de países emergentes como o Brasil, pode ser real. Pode ser cedo demais? Pode, mas pode estar certo também. Estou calmo porque as pessoas estão questionando se é ou não exuberância irracional. Alguns acham que sim, outros, não. Esse é o bom mercado. Quando todos vão para a mesma direção, fico com medo.

Qual a percepção do Goldman Sachs para a economia mundial e, em especial, para o Brasil?

Nas economias desenvolvidas, a situação estava tão ruim que uma recuperação era inevitável. A economia real está indo na direção correta, mas devagar. O melhor que se pode afirmar, neste momento, é que a taxa de declínio desacelerou e não que já chegamos ao final (da crise). O que já vemos é o fim da deterioração. Quando se acredita que parou de piorar, é possível projetar o ponto de virada. Acreditamos que esse ponto se dará no fim deste ano. A economia real está atrás do mercado porque os valores dos ativos estavam tão baixos que uma alta das cotações era inevitável. Isso porque, no início do ano, um dos cenários para 2009 era de uma total catástrofe. Esse está fora da mesa hoje. A economia real vai se recuperar lentamente. Provavelmente sentiremos os efeitos dessa virada no início do ano que vem. Os mercados normalmente antecipam esses movimentos. Com relação aos emergentes, tudo o que acontecer nos mercados desenvolvidos será potencializado. Ou seja, mesmo um um mercado ruim, os Brics sentirão menos. Quando houver a recuperação, esses países vão senti-la mais fortemente. Na nossa opinião, o Brasil já está se recuperando. O crescimento no ano poderá ser negativo – talvez 1% – por causa do primeiro trimestre muito ruim. Mas veremos crescimento positivo no País na segunda metade do ano.

É isso que explica sua visita?

Não há correlação. Queremos ajudar as pessoas que usam nossos serviços em um ambiente de perspectiva de crescimento. Se as pessoas estão procurando financiamento, estão investindo… É isso que fazemos. Se as pessoas estão deprimidas, não acreditam no crescimento, não fazem essas coisas. O que elas querem de nós? Querem nossos conselhos, nosso ponto de vista. Claramente, nossa expansão será maior em mercados que crescem mais. E o Brasil, mesmo em um mundo em declínio, terá expansão mais forte. Por isso vamos crescer nossos negócios aqui mais em termos relativos.

O Goldman Sachs devolveu US$ 10 bilhões que pegou do governo americano no Tarp (Programa de Recuperação de Ativos Problemáticos). Não foi cedo demais?

Não. O dinheiro do governo ajudou o sistema e nos ajudou também. Sinceramente, somos gratos por isso. Uma semana antes de o governo lançar o Tarp, levantamos dinheiro no mercado e com (o megainvestidor) Warren Buffett. Ou seja, procuramos cuidar de nosso capital àquela época. Depois, conseguimos capital adicional com o regulador. Mas éramos tão líquidos que não precisamos de mais. Elementos do programa foram importantes para o sistema em geral, mas nunca quisemos que se tornasse permanente.

Os bancos, entre eles o Goldman Sachs, ganharam muito dinheiro nos últimos anos. Como manter a alta lucratividade em um ambiente bem mais desafiador?

Faremos como nos últimos 140 anos. Nosso negócio não é fazer dinheiro, mas financiar pessoas, levantar capital, investir por elas, aconselhá-las… Em diferentes momentos, esse negócio é mais ou menos lucrativo. Temos ido bem nos diferentes ciclos. Estou há 27 anos neste negócio e os clientes precisam de nós. Na verdade, não sei se a hipótese de sua pergunta está correta. Não estou dizendo que você esteja errado, mas eu não sei se está certo. Minha opinião pessoal, com segurança, é que não tenho ideia. E admito isso. Não sei, mas, com base em minha experiência, sei também que ninguém sabe.

No pior momento da crise, o modelo de bancos de investimento foi dado como morto por alguns.

Não achei que essa análise estivesse certa naquele momento e continuo achando que não está. O que é esse modelo? Ajudamos empresas a levantar capital, fazemos fusões e aquisições, levantamos financiamento no mercado de dívidas, gerenciamos seu dinheiro… Qual dessas atividades está fora de moda? Qual delas não é um bom negócio hoje?

11/06/2009 - 13:51h A atual política anticrise do governo Lula está dando certo e a recessão começa a passar


A recessão começa a passar no mundo

Alberto Tamer* – O Estado SP

mundo_deconstruction.jpg

Já existe um consenso entre os economistas e instituições internacionais: a recessão deve terminar neste ano e a recuperação se iniciará em 2010. Mas será uma recuperação lenta e desigual, maior nos EUA e nos países emergentes e irrisória na Europa. Até mesmo um economista sempre severo em suas análises, como Paul Krugman, afirmou nesta semana que a recessão nos EUA deve terminar no segundo semestre. O crescimento do PIB deve fechar o ano em torno de 0%. Pouco interessa se for um pouco mais ou menos, o importante são os sinais de que a economia americana e grande parte da mundial deixou de afundar.Não se devem repetir PIBs de 6%. A confirmar-se isso, teremos passado por uma recessão profunda, mas curta. Ou, podemos dizer, uma recessão grande, mas não uma grande recessão.

BRASIL NA LINHA DE FRENTE

brasil_olho.jpgO resultado menos negativo do PIB no primeiro trimestre mostra que isso é ainda mais válido no Brasil. Previa-se uma retração de até 2% e foi de 0,8%. Tendo em vista a queda de 3,6% no último trimestre de 2008, é difícil ver algum crescimento significativo nos próximos meses, mas está claro que estamos saindo da recessão. Insisto, porém, em reafirmar que não há muita diferença entre recuar 1% ou crescer 1%; ambos resultados significam uma economia frágil,ainda exposta a crises externas, o que exige do governo intensificar a atual política anticrise, que está dando certo. É a ela que devemos esse desempenho menos negativo do PIB e à perspectiva de que estamos em condições de superar tudo ainda neste ano.

Vejam, somente as medidas de estímulo ao consumo estão injetando na economia cerca de R$ 100 bilhões neste ano. E, mais acertadamente ainda, o governo anuncia que estuda redução do imposto sobre salários para aumentar o poder de compra do consumidor.

NEM TUDO É MENOS MAU

minhacasa1.jpgO resultado do IBGE apresenta pontos altamente negativos, como a queda de 12,6% nos investimentos, a forte e resistente retração da produção industrial e o recuo das exportações. Isso certamente vai afetar o crescimento nos próximos meses.

Cabe ao governo insistir em três pontos básicos: intensificar as medidas de incentivo ao consumo, pôr em pratica uma política de comércio exterior por meio de impostos sobre a produção e incentivos diretos às exportações; e, finalmente, continuar estimulando o setor de construção civil, grande gerador de demanda de emprego. Cumpre, assim, a meta social, de oferecer casa à população, e econômica, de reativar o crescimento. Felizmente, já vem fazendo uma boa parte disso.

DÁ PARA CONFIAR NELES?

dinheirocorrendo.gifMas, de qualquer forma, continuamos na dependência do que vier a acontecer lá fora. Será que as economias desenvolvidas e outras emergentes, que representam a maior parte do PIB mundial, não vão desandar novamente, impedindo que voltemos a crescer?

Pode ser, mas, pelo menos no momento não parece muito provável, principalmente em países que têm hoje um papel decisivo na recuperação mundial, como os EUA e a China.

E o que estamos vendo? Nos EUA, dez grandes bancos devolveram ao Tesouro US$ 68 bilhões recebidos em momento de extrema urgência. E insinuam que é só o começo. Levantaram recursos no mercado, até mesmo vendendo ativos, para livrar-se da fiscalização direta e da intervenção do governo em suas atividades e decisões. Mas o Tesouro mostrou que continua vigilante: só aceitou o pagamento depois de analisar as contas e ver se não iria enfraquecê-los, expondo-os a novos problemas. Não quer que comece tudo de novo… Assim, até ontem recusavam receber devoluções de grandes bancos. Entre estes, o Citi e o Bank of American, que pretendia repagar US$ 90 bilhões. O fato de o sistema financeiro começar a buscar soluções de mercado é um indício de mudança em relação ao pânico de há alguns meses.

OBAMA CAUTELOSO

obama_caricatura.gifO presidente americano, a cuja política anticrise devemos tudo isso, mostrou-se cauteloso diante desses fatos. “Não é sinal de que nossos problemas passaram. Muito longe disso. A crise que esta administração herdou ainda está criando efeitos dolorosos nas empresas e nas famílias. Mas é um sinal positivo.”

Foi esse também o tom do seu secretário do Tesouro, para quem há ainda um longo e difícil caminho pela frente. Haverá avanços e recuos, mas o caminho de saída está sendo aberto.

VEJAM OS NÚMEROS!

A coluna concorda, e aproveita para responder a leitores que nos criticam por estarmos sendo otimistas demais. Não. Estamos apenas confrontando situações de há algumas semanas com a atual e registrando os sinais não para o futuro distante, mas para os próximos meses, a curto prazo. Para mim, isso é realismo, é não se deixar impressionar e influenciar por fatores altamente negativos do passado, desde que eles não estejam se repetindo no presente. Bastam duas estatística do IBGE: o PIB do último trimestre de 2008 despencou catastróficos 3,6% e no primeiro trimestre deste ano apenas 0,8%. Será que isso não significa nada? Não é sinal de recuperação? Não há como negar.

No cenário externo, a economia americana recua menos e a da China – o grande mercado – não deverá crescer neste ano apenas 5%, como o governo previa, mas 7,5%, pela estimativa oficial divulgada ontem. Estão injetando trilhões na economia. Ambos são nossos mercados preferenciais e projetam um cenário de relativa esperança.

Só resta a Europa, o “Continente Perdido”, onde o BC recusa-se a baixar o juro mesmo com inflação 0. Mas isso não afetará nosso crescimento. Ele vai depender ainda por algum tempo do mercado interno, que hoje representa 60% do PIB. Ele vai bem. E o governo tem ainda espaço para continuar intensificando a política anticíclica de incentivo ao consumo.

*E-mail: at@attglobal.net

29/05/2009 - 11:46h EUA podem ter agência para regular bancos

Novo órgão substituiria todos os hoje existentes, alguns até conflitantes

http://www.economist.com/blogs/freeexchange/fed1029.jpg

Projeto de Obama: mais controle do FED e maior regulação do sistema financeiro dos EUA

Binyamin Appelbaum e Zachary A. Goldfarb, THE WASHINGTON POST, WASHINGTON – O Estado SP

O governo dos Estados Unidos estuda a criação de uma agência única para regulamentar o setor bancário, substituindo a miscelânea de órgãos existentes hoje, que não conseguiram evitar a pior crise financeira desde a Grande Depressão.

Essa agência é um elemento chave na ampla revisão que o governo vem fazendo nas normas financeiras, que deve incluir também um novo órgão encarregado de proteger os consumidores, de acordo com três fontes familiarizadas com o assunto. Muitas das propostas vão exigir que uma nova legislação seja aprovada.

“O presidente Barack Obama pretende assinar um pacote de reformas no campo regulatório no fim do ano. A Casa Branca, o Tesouro e o Congresso estão nas fases finais da formulação da proposta. Mas ainda não há um projeto final e nada será anunciado nas próximas semanas”, disse a porta-voz da Casa Branca, Jennifer Psaki.

De acordo com uma fonte, já existe acordo quanto a alguns pontos do plano. Um deles é dar mais poderes ao Federal Reserve (Fed, o banco central americano) para que tenha ampla responsabilidade de vigiar e detectar as ameaças ao sistema financeiro. Entre esses poderes estaria a fiscalização de mercados antes desregulamentados, como o de derivativos, e de participantes, como os fundos hedge.

As autoridades defendem também a criação de uma nova agência encarregada de fiscalizar o cumprimento de leis de proteção dos consumidores de produtos financeiros, como hipotecas e cartões de crédito. E querem ainda fundir a Comissão de Valores Mobiliários (SEC, em inglês) e a Comissão Reguladora de Operações Futuras com Commodities (CFTC), que dividem a responsabilidade de proteger os investidores contra fraudes.

Outros pontos do projeto ainda estão sendo debatidos. Entre eles está a criação de uma agência única para controlar os bancos. Essa nova agência reguladora responderia pela segurança e solidez das instituições, uma responsabilidade que hoje se divide entre o Fed e três outras agências: a Autoridade Controladora da Moeda, a Agência de Supervisão de Instituições de Poupança e a Sociedade Federal de Seguro de Depósito.

Com base no sistema vigente, os bancos podem escolher seu órgão regulador. E, como as agências são financiadas pelas taxas pagas pelos bancos, elas se sentem estimuladas a disputar a sua atuação, com uma supervisão mais indulgente.

FALHAS

Também de acordo com esse sistema, a fiscalização dos maiores conglomerados financeiros está dividida entre múltiplas agências, cada uma responsável por determinadas subsidiárias, criando falhas que são exploradas por essas companhias. Muitos especialistas dizem que essas falhas contribuíram para a crise financeira.

As autoridades estão estudando ainda dar à Sociedade Federal de Seguro de Depósito (FDIC, em inglês) poderes para controlar as grandes instituições financeiras, como as matrizes de bancos, para evitar o seu colapso.

O secretário do Tesouro, Timothy Geithner, e o presidente do Fed, Ben Bernanke, em depoimentos, disseram que a crise poderia ter sido mitigada se o governo exercesse tal autoridade. Por exemplo, o caos que se seguiu à falência do banco de investimentos Lehman Brothers poderia ter sido evitado.

Certos pontos do projeto terão uma vigorosa oposição do Congresso e de outras agências reguladoras. No início do ano passado, o ex-secretário do Tesouro Henry Paulson propôs a criação de uma agência reguladora única para os bancos, retomando uma ideia que de vez em quando circula em Washington. Mas as agências atuais e o setor bancário resistem ferozmente a tais propostas.

O plano do governo também deve sofrer uma acirrada oposição dos Estados, que hoje têm poderes para conceder patentes de funcionamento e supervisionar instituições bancárias. “Do ponto de vista prático, acho que a ideia está destinada ao fracasso”, disse Ed Yingling, presidente da American Bankers Association (Associação dos Bancos Americanos).

Para ele, o governo deveria se concentrar em duas ideias que inspiram um grande consenso: a criação de um órgão regulador de riscos do sistema e uma autoridade para a solução de empresas em colapso. “Isso provavelmente todo o Congresso pode apoiar”, disse ele. “Eles podem propor muita coisa, mas existe o risco de sobrecarregar o sistema.”

Esses planos também deparam com críticos de peso. Legisladores influentes já manifestaram seu ceticismo quanto a se dar novos poderes ao Fed. A chairman do FDIC, Sheila Bair e a presidente da SEC, Mary Schapiro, defendem a criação de um conselho de órgãos reguladores que, de comum acordo, assumiriam o papel de órgão regulador encarregado do risco sistêmico.

O projeto de fusão da SEC e da CFTC também pode ser derrubado pelo Congresso. As duas agências estão sob a supervisão de comissões diferentes. Na Câmara, por exemplo, a Comissão de Agricultura fiscaliza a CFTC e a Comissão de Serviços Financeiros supervisiona a SEC. E nenhuma delas está disposta a ceder o poder.

19/05/2009 - 13:22h Não é hora de parar esse trem

http://www.nature.com/nature/journal/v457/n7232/images/457964a-i1.0.jpg
Roosevelt satirizado por usar o gasto público para enfrentar a recessão em 1938

Alan Blinder, THE NEW YORK TIMES*

Contrariamente ao que se pode ter ouvido de alguns profetas do Apocalipse, 2009 não é 1930 redux. O que devemos evitar é que 2010 ou 2011 vire outro 1936. Realisticamente, é pequeno o risco de a economia estar caminhando para uma repetição da Grande Depressão – quando o Produto Interno Bruto real dos Estados Unidos caiu 27% e o desemprego subiu para 25%. O que temos já é bastante ruim: a pior recessão desde a década de 30. Mas, a menos que nossos líderes se comportem de maneira incrivelmente estúpida, não repetiremos o trágico escorregão para o abismo de 1930 a 1933.

Basicamente, por duas razões. A primeira é que a economia tem muitas salvaguardas que não existiam naquela época – como o seguro-desemprego, a Previdência Social e a garantia de depósitos bancários, para citar apenas três. Esses programas servem como redes de segurança que amortecem a queda. Embora não sejam suficientemente fortes para impedir recessões, devem bastar para evitar outra depressão.

A razão mais importante é que o presidente Barack Obama, o secretário do Tesouro Timothy F. Geithner e o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) Ben S. Bernanke não são Herbert Hoover, Andrew Mellon e Eugene Meyer (Quem é esse? Meyer foi o presidente do Fed de setembro de 1930 a maio de 1933.)

Em nítido contraste com o pessoal do laissez-faire que governou o poleiro em 1930 e 1931, os dirigentes econômicos de hoje não estão esperando a economia periclitante se endireitar. Deram vários passos extraordinários – e estão prontos para dar outros se for preciso. Essa é a boa notícia. Mas, mesmo que uma outra depressão seja quase impossível, ainda existe o perigo de que o próximo ano, ou o ano seguinte, possa se transformar em 1936. Vamos explicar.

De seu fundo, em 1933, até 1936, o PIB avançou espetacularmente (ainda que de uma base muito baixa), com um crescimento médio de quase 11% ao ano. Mas aí, tanto o Fed como a administração de Franklin D. Roosevelt inverteram o curso.

No verão de 1936, o Fed observou o grande volume de reservas excedentes acumulado no sistema bancário, concluiu que essa montanha de liquidez poderia alimentar a inflação futura e começou a esvaziá-la. Esse endurecimento da política monetária prosseguiu em 1937, numa economia fraca que estava mal preparada para ele.

Por volta da mesma época, Roosevelt viu o que pareciam ser déficits orçamentários enormes, concluiu que era hora de colocar em ordem a casa fiscal e começou a aumentar impostos e reduzir despesas. Esse endurecimento transformou o orçamento federal de um déficit de 3,8% do PIB em 1936 num superávit de 0,2% do PIB em 1937 – uma virada de 4 pontos porcentuais em um único ano. (Hoje, uma virada desse porte significaria quase US$ 600 bilhões).

Assim, tanto a política monetária quanto a fiscal fizeram uma reviravolta abrupta em 1936 e 1937, e as consequências foram tão previsíveis como trágicas. A economia americana, que vinha saindo rapidamente do porão de 1933 a 1936, foi rudemente empurrada de novo escada abaixo, e os EUA experimentaram a chamada recessão dentro da depressão. O PIB encolheu 3,4% de 1937 a 1938; o declínio total durante a recessão, que durou de meados de 1937 a meados de 1938, foi maior.

A moral da história deveria ser clara: mudar prematuramente políticas fiscais e monetárias – de forte aceleração para uma freada violenta – pode ser perigoso para a economia.

Mas aprendemos um bocado desde os anos 1930, não é? Talvez não. Os ecos de 1936 estão sendo ouvidos agora, antes de a recessão corrente atingir o fundo. Quem estiver atento, sabe que alguns críticos do Fed estão soando alarmes sobre o estoque de reservas excedentes que criou – mais de US$ 775 bilhões na última contagem. O que está incomodando os críticos é exatamente o que incitou o Fed à ação em 1936: a vasta acumulação de dinheiro acabará sendo inflacionária.

No lado fiscal, muitos críticos de Obama se queixam ruidosamente dos enormes déficits orçamentários federais. Tentem ignorar, se puderem, a pura hipocrisia de muitos congressistas republicanos que, sem nunca terem dado um pio sobre os enormes déficits do presidente George W. Bush, de repente viraram modelos de probidade orçamentária. Mas sejam quais forem os motivos, as preocupações dos falcões do déficit de hoje lembram assustadoramente o Roosevelt de 1936 e 1937.

Felizmente, Bernanke é um estudioso atento da Grande Depressão e não permitirá que o Fed repita os erros de 1936-37. Mas seus críticos, tanto dentro como fora do Fed, já estão marcando suas políticas como perigosamente inflacionárias.

Da mesma maneira, espero e acredito em que Obama não se transformará do Roosevelt perdulário de 1933 no Roosevelt “falcão do déficit” de 1936 – ao menos até que a economia volte a um terreno sólido. Isso posto, um grupo crescente de falcões do orçamento já está mostrando as garras. Eles terão o seu dia – mas, por favor, ainda não.

Para evitar uma repetição dos desastres de 1936-37, tanto o Fed como nossas autoridades eleitas precisam manter o curso. Mark Twain explicou certa vez que, embora a história não se repita, ela com frequência rima. Não queremos nenhuma rima neste momento.

*Alan S. Blinder é professor de economia e administração pública na Universidade de Princeton e ex-vice-presidente do Fed. Tem sido consultor de vários políticos democratas.

09/05/2009 - 09:32h Acentuando o positivo

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Paul Krugman*, THE NEW YORK TIMES – O Estado SP

Viva! A crise bancária acabou! Vamos comemorar! Ok, talvez não.

No final, a divulgação desse teste de estresse dos bancos foi mais um anticlímax. Todos sabiam mais ou menos quais seriam os resultados: alguns grandes bancos precisariam levantar mais capital, mas no geral os garotos, quero dizer os bancos, estão bem. Mesmo antes de serem anunciados, o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, disse que os resultados seriam “tranquilizadores”.

Mas, para se sentir realmente tranquilo, depende do que você é: um banqueiro ou alguém tentando ganhar a vida em outra profissão.

Não vou interferir no debate sobre a qualidade dos testes de estresse em si, salvo para repetir o que muitos observadores notaram: os reguladores não têm os recursos necessários para fazer uma avaliação realmente cuidadosa dos ativos dos bancos e, de qualquer maneira, permitiram que os bancos negociassem sobre o que os resultados diriam. Uma auditoria rigorosa com certeza não foi.

Mas, se nos concentrarmos no processo, podemos nos desviar do quadro mais amplo.

Neste caso, o que estamos vendo é uma decisão do presidente Barack Obama e de seus assessores de encontrar de qualquer maneira uma solução para essa crise, na esperança de que os bancos consigam voltar a ser saudáveis.

É uma estratégia que pode funcionar. Afinal, os bancos estão fazendo empréstimos cobrando juros elevadas, e não pagando nenhum juro sobre os depósitos (garantidos pelo governo). Com o passar do tempo, podem estar de novo ricos.

Mas é importante ver essa estratégia e compreender os riscos. Lembrem-se que foram os mercados, e não o governo, que declararam os bancos subcapitalizados. E, embora os indicadores do mercado, como as taxas de juros sobre os títulos bancários e os preços de swaps de crédito, tenham caído um pouco nas últimas semanas, ainda estão em níveis considerados inconcebíveis antes da crise.

Como resultado, as possibilidades são de que o sistema não vai funcionar normalmente enquanto esses grandes bancos ficarem mais fortes do que agora. Mas o governo Obama decidiu não fazer nada espetacular para recapitalizar os bancos.

A economia vai conseguir se recuperar mesmo com bancos fracos? Talvez. Os bancos não estarão expandindo o crédito tão cedo, mas as instituições de empréstimo apoiadas pelo governo já adotaram medidas para preencher a lacuna. O Federal Reserve expandiu seu crédito em US$ 1,2 trilhão em 2008; Fannie Mae e Freddie Mac se tornaram principais fontes de financiamento hipotecário. Assim, talvez se possa deixar que a economia conserte os bancos, em vez de o contrário.

Mas há muitas coisas que podem dar errado.

Não está claro que o crédito oferecido por Fed, Fannie Mae e Freddie Mac conseguirá substituir um sistema bancário saudável. E, se não conseguir, a estratégia do governo pode se tornar uma receita para uma era prolongada de alto nível de desemprego e crescimento medíocre, como no Japão.

Na verdade, o provável é que vamos ter alguns anos de debilidade econômica. A economia pode não estar mais afundando, mas é muito difícil ver de onde virá uma recuperação de verdade. E, se a depressão continuar, os bancos se verão em situação muito mais difícil do que os testes de estresse – que só analisaram dois anos à frente – conseguem captar.

Finalmente, ante a possibilidade de perdas maiores, a relutância do governo em controlar os bancos ou deixá-los ir à falência cria uma situação de “cara, eles ganham, coroa, nós perdemos”. Se tudo correr bem, os banqueiros vão ganhar muito. Se a estratégia fracassar, os contribuintes pagarão por mais um resgate financeiro.

Mas o que me preocupa mais em relação ao rumo dessa política não é nada disso. É a minha sensação de que as perspectivas de uma reforma financeira fundamental estejam desaparecendo. Alguém se lembra do caso de H. Rodgin Cohen, conhecido advogado de Nova York, tachado pelo The New York Times de “eminência parda de Wall Street”? Ele foi notícia em marco, quando se informou que o seu nome tinha sido retirado depois de ter sido considerado para vice-secretário do Tesouro.

Bem, esta semana Cohen disse que o futuro de Wall Street não será diferente do passado recente, e declarou: “Não estou nada convencido que exista alguma coisa inerentemente errada com o sistema”. Ei, e essa pequena coisa sobre causar o pior colapso global desde a Grande Depressão? Não importa.

São palavras aterradoras. Elas sugerem que, enquanto o Fed e o governo Obama continuam insistindo que estão comprometidos com uma regulamentação financeira mais rígida e uma supervisão maior, os “insiders” de Wall Street falam da indulgência da política bancária até agora – sinal de que, em breve , conseguirão voltar a jogar o mesmo jogo de antes.

Portanto, apesar de os banqueiros acharem os resultados desses testes de estresse “tranquilizadores”, nós devemos ficar muito amedrontados.

*Paul Krugman é Prêmio Nobel de Economia de 2008

07/05/2009 - 08:36h Inflação vai desafiar política de juro zero do Fed, diz Phelps

Entrevista: Nobel de Economia diz que BC americano deve elevar juros assim que preços começarem a subir

 Anna Carolina Negri/Valor

O economista americano Edmund Phelps, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2006, ontem em São Paulo

 

Vanessa Adachi, de São Paulo – VALOR

 

O vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2006, Edmund Phelps, levou 45 minutos e foi atendido por dois garçons diferentes para conseguir comer um sanduíche de queijo quente no pão de forma, ontem à tarde, em São Paulo. Foi, provavelmente, o mais demorado sanduíche de queijo de seus 75 anos de vida.

Quando finalmente conseguiu colocar as mãos no sanduíche, reagiu com felicidade e pediu uma segunda Coca-Cola. Eram mais de 14h30, ele ainda não havia almoçado e se preparava para fazer uma apresentação de 40 minutos no II Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade. Além de Phelps, o evento teve a participação de dois vencedores do Nobel da Paz, David Trimble (1998) e Mohan Munasinghe (2007).

Ninguém espera encontrar o ganhador de um Nobel nessas condições. A nobreza do título sugere uma situação com mais pompa e circunstância. Mas foi assim, sentado à mesa do barulhento restaurante do saguão do hotel Holiday Inn do Centro de Convenções do Anhembi, na zona Norte de São Paulo, que Phelps conversou com a reportagem do Valor, entre uma mordida e outra no sanduíche, devorado em poucos minutos.

Bem humorado e descontraído, Phelps fez uma porção de comentários irônicos e contou uma piada. Fazendo algumas longas pausas para refletir, falou de política monetária, crise econômica e dos cem primeiros dias do governo do presidente americano Barack Obama. O economista americano, que ganhou o Nobel por ter derrubado a tese de que a inflação poderia gerar emprego, acha que o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, não poderá errar a mão no momento em que o otimismo de consumidores e empresários começar a pressionar por juros mais altos na economia. “Se o Fed lutar contra isso, mantendo os juros onde estão, começaremos a ver uma aceleração da inflação.”

Phelps acredita que a taxa natural de desemprego dos EUA aumentou por questões estruturais, como a excessiva alavancagem dos bancos e a preferência dos fundos hedge por ativos líquidos em vez de investimentos produtivos. Em sua visão, a taxa natural tenderá para algo em torno de 6,5%, um ponto percentual acima do que era antes do “boom” da internet e da construção civil. Por isso, em sua opinião, o Fed deve tomar cuidado para não se orientar equivocadamente ao calibrar os juros para reduzir o desemprego, sob risco de acelerar a inflação.

Phelps, que é casado com uma argentina há mais de 30 anos e esteve no Brasil “seis a sete vezes só nos últimos dois anos”, considera o Banco Central brasileiro um dos mais capazes e de julgamento mais sólido do mundo. “Não acho que os brasileiros deveriam ser muito duros com o Banco Central. Numa situação como a atual, é impossível fazer todo mundo feliz.”

O ganhador do Nobel está satisfeito com os cem primeiros dias do governo de Barack Obama, mas criticou a lentidão para “colocar os bancos em pé e emprestando”.

Para ele, o empréstimo bancário é a chave para fazer as economias americana e europeia recobrarem o dinamismo perdido. Por isso, Phelps está trabalhando em uma proposta de criação de uma nova classe de bancos, voltados exclusivamente para o financiamento de projetos de inovação das empresas. Esses bancos, acredita ele, deveriam contar com subsídio do governo.

Ironicamente, Phelps tem trabalhado nesse projeto com Leo Tilman, ex-estrategista chefe do Bear Sterns, justamente um dos bancos de investimento que colapsou com a crise das hipotecas. “Talvez você já tenha ouvido falar do Bear Sterns”, disse, às gargalhadas, antes de prosseguir com suas ideias.

Valor: O sr. escreveu um artigo em que afirma que a taxa natural de desemprego nos Estados Unidos mudou. Aumentou por causa de mudanças estruturais. Então, o sr. acha que a política monetária do Federal Reserve está equivocada? Teremos inflação no futuro?

Edmund Phelps: Acho que nós gostaríamos de ver uma recuperação da taxa de desemprego, uma queda do desemprego. O perigo é essa recuperação ocorrer muito rapidamente, as autoridades monetárias empurrarem isso muito rapidamente, o que causaria inflação. Um dos problemas é que, uma vez que uma vez que os consumidores se tornem mais otimistas e os empresários enxerguem melhores oportunidades de investimento, então as taxas de juro tenderão a subir. O que nós gostaríamos de ver é o banco central [o Fed] subindo os juros de forma correspondente para evitar uma subida da taxa de inflação.

O juro não poderá ficar baixas para sempre, terá que subir logo. Haverá forças do mercado empurrando as taxas de juro para cima. Se o Federal Reserve lutar contra isso, mantendo os juros onde estão, começaremos a ver uma aceleração da inflação. E isso não será bom. Será pior se tivermos um sobreposição de inflação e alto desemprego.

Valor: Mas o sr. não acha que há sinais contrários? Por exemplo, uma reportagem do “Financial Times” na semana passada falava de uma análise interna do Fed indicando que, pela chamada regra de Taylor (que relaciona a taxa de juro apropriada ao desemprego e à inflação), as taxas de juro deveriam estar 5% negativas agora para recuperar o emprego. Isso sugere que o Fed pode pensar diferente do sr.?

Phelps: É um ótimo ponto. Eu vi no jornal também e naquele momento eu fiquei sem saber como reagir a isso [risos].

Valor: E agora?

Phelps: Agora eu vejo que só mostra a utilidade limitada da regra de Taylor. Bem, não estou dizendo que o Fed deveria elevar os juros hoje. Vamos deixar a regra de Taylor decidir os juros hoje. O que estou dizendo é que, quando a economia começar a se recuperar e os consumidores e empresários se sentirem mais confiantes, haverá tremendas pressões para elevar os juros. Nesse momento é melhor esquecer a regra de Taylor. É melhor que o Fed responda elevando os juros.

Valor: Só para esclarecer. Neste momento o sr. não acredita que o Fed deveria adotar uma política monetária diferente da atual, de juro zero?

Phelps: Estou perfeitamente satisfeito com as taxas superbaixas no momento presente. Mas é terrivelmente importante que o Fed esteja pronto para dar um salto nas taxas quando a inflação se acelerar.

Valor: O sr. vê algum sinal de recuperação econômica agora?

Phelps: Eu não vivo disso [de fazer previsões econômicas]. [Risos]. Eu vou ficar com as previsões do Ben Bernanke [presidente do Fed] de que ao final do ano o PIB começará a crescer novamente. Parece correto. Eu sou um dos economistas mais otimistas nos Estados Unidos. Muitos agora estão falando que a taxa de desemprego irá a 11%, 12% e eu acho que ficará entre 8% e 10%. Agora está em 8,5% e as apostas são de que deve ir a 8,9%, mas nós realmente não sabemos. Mas eu espero que ela não suba acima de 10%, estou bem convencido.

Valor: O sr. diz que há uma falta de dinamismo nas economias dos EUA e da Europa e que a retomada de empréstimos bancários é indispensável para impulsionar o dinamismo. Qual a sua proposta?

Phelps: Minha proposta é a criação de uma nova classe de bancos, voltados a financiar investimentos inovadores no setor empresarial. Nos EUA, quase todo mundo tem direito a subsídio: a agricultura tem, os setores de exportação e importação têm, a indústria da construção civil tem subsídios gigantescos. As pessoas têm subsídios para ter filhos.

Valor: Então o sr. sugere que essa nova classe de bancos receba subsídios do governo?

Phelps: Sim. Poderia ser um subsídio para cada dólar de empréstimo que eles façam, por exemplo. Essa ideia ainda está nascendo e os detalhes ainda precisam ser trabalhados

Valor: Mais alguém concorda com o sr.?

Phelps: Joseph Stiglitz gosta da ideia. E tenho trabalhado ativamente nessa ideia com Leo Tilman, que era estrategista-chefe do Bear Sterns. Talvez você já tenha ouvido falar do Bear Sterns [gargalhadas].

Valor: E quanto ao governo?

Phelps: Ainda não fizemos uma proposta ao governo. Talvez eu deva correr para apresentá-la antes que o governo gaste todo o dinheiro [risos].

Valor: Em que ponto da crise o sr. acha que estamos?

Phelps: Estamos próximos do fundo.

Valor: Mas estamos antes de atingir o fundo ou acabamos de passar o fundo do poço?

Phelps: Talvez o fundo do poço tenha sido atingido semana passada e não nos demos conta. Talvez, quando os dados forem revisados, a gente se dê conta.

Valor: O sr. acredita em recuperação de agora em diante?

Phelps: Acredito em retomada, mas apenas parcial. Admitindo que, na metade dos anos 90, antes do boom da internet e da construção civil, a taxa natural de desemprego era de 5,5%. Temos muitas evidências para acreditar que esse é o número correto, mais ou menos. Bem, temo que conforme a recuperação avance, tenderemos para uma taxa natural de 6,5%, ou talvez 6%. No fim dos anos 90 o boom resultou de um extraordinário desenvolvimento do comércio na internet. Será um milagre se tivermos algo assim nos próximos dois anos.

Mas, na ausência disso, acho que depois de um ímpeto inicial a recuperação vai perder velocidade e tenderemos a ver uma taxa de desemprego se estabilizando em torno de 6% a 6,5%.

Valor: E a respeito dos cem primeiros dias de governo do presidente Barack Obama. O sr. acha que ele adotou as medidas corretas para superar a crise?

Phelps: Achei que o pacote de estímulo foi muito bom em evitar algumas armadilhas. O plano não jogou simplesmente dinheiro para as famílias. Foi bom por enfatizar os projetos de infraestrutura. Apesar de que muitos desses projetos não criarão empregos. Eles incluíram projetos de alta tecnologia do Vale do Silício, que não criarão empregos. Fizeram um ótimo trabalho. Mas é surpreendente quanto tempo eles estão levando para alcançar algum tipo de consenso dentro do governo sobre como colocar os bancos de pé e emprestando.

Valor: Estão demorando demais e há um risco?

Phelps: Sim. Obama venceu a eleição em novembro, já estamos em maio e nenhuma ação foi tomada. Os bancos ainda não estão fazendo muitos empréstimos.

O governo tomou iniciativas para garantir dívidas de vários tipos e fazer o mercado de títulos de dívida andar de novo. Mas a minha maior preocupação com Obama é que ele imagina que conseguirá tornar a economia americana mais inovadora novamente por meio de um grupo de iniciativas governamentais nas áreas de saúde, energia e mudanças climáticas. E a minha impressão é que essa é uma ideia perigosa. Pode funcionar, mas estou cético porque, antes de tudo, não me parece uma boa ideia permitir que agências governamentais tomem decisões envolvendo inovação, porque elas não estão próximas o suficiente da realidade comercial, dos aspectos práticos envolvidos. A tomada de decisão será muito politizada e com falta de informações práticas.

Além disso, muitas empresas do setor privado estarão trabalhando sob contratos com o governo para fornecer várias coisas. Quando a empresa está inovando para os consumidores, você tem 200 milhões de consumidores, todos diferentes uns dos outros. E você acha um nicho de consumidores que gosta do seu produto, da sua inovação. Com o governo, você só tem que se preocupar que o governo goste do seu produto.

Valor: É um cliente apenas.

Phelps: Exato. A economia de um cliente. Acho que vou adotar essa expressão.

Valor: O sr. segue a economia brasileira de perto?

Phelps: De vez em quando. Venho ao Brasil com frequência. Estive no Rio um verão inteiro, mas muito, muito no passado. Não vou dizer quando. Se te disser o ano, você não vai acreditar. [risos]

Valor: O sr. acha que o Banco Central brasileiro está fazendo um bom trabalho agora?

Phelps: Comparado a quê? [risos] Sabe, há uma velha piada nos EUA. Dois homens estão conversando e um pergunta ao outro: como está sua mulher? E o outro responde: comparado a quê? [Gargalhadas] Na verdade, acho que o Banco Central brasileiro é provavelmente um dos que possui julgamento mais sólido, um dos mais capazes entre os bancos centrais. Não acho que os brasileiros deveriam ser muito duros com o Banco Central. Numa situação como a atual, é impossível fazer todo mundo feliz.

Valor: Muitos economistas acreditam que o Brasil será um dos primeiros países a sair da crise. O sr. concorda?

Phelps: Parece que sim. Provavelmente o preço das commodities caiu demais, então há uma recuperação aí, o Brasil se beneficiará. E a taxa de crescimento é boa.

Valor: Mas estamos em recessão agora.

Phelps: Mas é uma economia que parece que está começando a se recuperar. É muito melhor do que uma economia que está estabilizada na baixa. Mas o Brasil tem muitas oportunidades de fazer melhorias estruturais. Tenho certeza de que o país poderia ter um sistema bancário melhor, um sistema bancário que atenda melhor o setor empresarial.

Valor: O país tem um sistema bancário forte, certo? Mas também muito conservador.

Phelps: Sim, foi isso que quis dizer. Vocês chamam isso de “forte”? [risos]

Valor: Não é uma qualidade para o sr.? É um defeito?

Phelps: Não, não é uma boa qualidade.

Valor: Um ano atrás o sr. disse que o câmbio valorizado podia ajudar o Brasil, estimulando a produção doméstica a criando empregos. Agora tudo mudou, tivemos uma grande desvalorização. Como o sr. vê esse cenário?

Phelps: Há muitos efeitos da desvalorização ou apreciação de uma moeda. As pessoas tendem a olhar apenas o que o câmbio faz para as exportações. Mas há efeitos no custo dos materiais importados, tem efeitos no custo de produção de nossos rivais em outros países. A desvalorização de uma moeda é como um aumento tarifário. Coloca os estrangeiros em grande desvantagem. Se não gosta de tarifas, não deveria gostar de depreciação da moeda.

Valor: E a respeito do prêmio de US$ 1,4 milhão que o sr. ganhou pelo Nobel de Economia? O sr. perdeu alguma coisa dele com a crise?

Phelps: Não, nós não perdemos nem um centavo. Colocamos no banco. Depois ficamos preocupados com o banco [gargalhadas].

Valor: Qual o banco?

Phelps: Não vou te contar ou minha esposa ficará muito brava. Vai achar que estou espalhando minhas informações pessoais por aí.

Valor: Mas é um banco forte?

Phelps: Nós achávamos que era um banco forte. [risos] Mas nós colocamos o dinheiro em títulos do governo.

Valor: Então agora vocês não estão ganhando muito dinheiro.

Phelps: Não. Mas também não perdemos nada. Quantas pessoas você conhece que não perderam um centavo nessa crise?

03/05/2009 - 13:28h EUA vivem grande onda de estatização

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Depois de bancos e seguradora, governo deve entrar em montadoras

Patrícia Campos Mello – O Estado SP

Em pouco mais de seis meses, o governo dos Estados Unidos se tornou sócio de duas empresas de hipoteca, a Fannie Mae e a Freddie Mac, uma seguradora, a AIG, vários bancos e em breve deve ter participação em duas montadoras, Chrysler e General Motors. O presidente Barack Obama afirma que o objetivo do maior país capitalista do mundo não é estatizar e administrar empresas privadas.

“Somos acionistas que querem sair. Não quero administrar montadoras ou bancos. Já tenho duas guerras para administrar. É o suficiente”, disse,durante entrevista na semana passada. “Assim que a situação se estabilizar e a economia estiver menos frágil, vamos sair e achar investidores privados.”

Mas economistas à esquerda e à direita acreditam que será bem complicado o governo se desembaraçar de suas participações acionárias. Segundo eles, o país deve manter seu título de “Estados Socialistas da América” por um bom tempo.

“É como na guerra do Iraque: eles entraram, mas não têm uma estratégia de saída”, compara William Shughart II, professor de Economia da Universidade do Mississippi e pesquisador do Independent Institute, entidade que apoia o livre mercado. “Suponho que o governo queira ter algum retorno sobre esse dinheiro que pôs nas empresas e, para isso, essas companhias precisam sair do vermelho, o que vai demorar muito tempo”, diz. “Se o governo sair muito rápido, o contribuinte vai arcar com enorme prejuízo.”

Dean Baker, codiretor do Center for Economic and Policy Research, entidade de esquerda, concorda. “O governo vai ter de manter essas participações nas empresas, no mínimo, até 2011, 2012.”

O pior é que, para o contribuinte, se trata de um péssimo negócio. “Se o governo fosse o administrador da minha carteira, já estava despedido. Imagine investir em GM, Chrysler, Bank of America e Citibank”, diz Sydney Finkelstein, professor de administração no Dartmouth College e autor do livro Pense de novo: porque bons líderes tomam decisões erradas.

O maior desafio a partir de agora é conciliar os interesses como acionista – o maior lucro possível para a companhia – e como governo – pode ser aumentar o emprego, o crédito e outros. “O governo pode se focar em resultados políticos em vez de lucro”, diz Baker. “Por exemplo, a Casa Branca pode decidir que a GM e a Chrysler devem se concentrar na produção de carros elétricos, mesmo que isso não dê lucro no curto prazo, porque ajudaria na redução da emissão de poluentes, um grande objetivo de Obama.”

Apesar de dizer que não quer administrar as empresas ou influenciar no dia a dia das operações, a Casa Branca já está imprimindo sua marca nas companhias. Para começar, defenestrou Rick Wagoner, ex-presidente da GM.

Estabeleceu limites de remuneração após os escândalos dos bônus na AIG e está fazendo o mesmo na Fannie Mae e Freddie Mac. O governo comprometeu US$ 400 bilhões com essas duas empresas – e quer ter certeza de que estão cumprindo sua função “social” de reativar o mercado imobiliário com financiamentos de juros mais baixos, ainda que essa não seja a melhor opção em termos de rentabilidade. As companhias já advertiram que isso vai afetar seus resultados.

Em última instância, o governo está recompensando quem mais errou. A Ford, por exemplo, será vítima de competição desleal da Chrysler e da GM. A Ford não recebeu injeção de recursos do governo porque não estava tão mal quanto as outras duas grandes de Detroit. Agora, o governo está subsidiando seus concorrentes. “É como se fosse um imposto implícito sobre a Ford”, diz Dan Ikenson, diretor associado do Cato, instituto libertário. Ikenson, como outros conservadores, está preocupado com a “guinada socialista do governo”.

Hoje em dia, diz Ikenson, somando-se os US$ 700 bilhões do plano de resgate aos bancos (o Tarp, de onde saiu boa parte das injeções de capital no sistema bancário), o pacote de estímulo de cerca de US$ 787 bilhões e o orçamento de US$ 3,5 trilhões, o governo está como investidor ou garantidor de cerca de US$ 5 trilhões – mais de um terço da economia americana, cujo PIB é de US$ 14 trilhões.

Na opinião de conservadores, o governo deveria ter deixado várias empresas e bancos quebrarem, como parte da chamada destruição criativa do livre mercado, em vez de manter companhias zumbis que vão atrasar a recuperação da economia. Para economistas de esquerda e para a Casa Branca, Obama não tinha opção. Era arriscado demais deixar empresas ou bancos quebrarem – e isso ficou claro após o contágio causado pela quebra do banco Lehman Brothers.

Além do mais, perder milhares de empregos na maior crise desde 1930 não seria politicamente sustentável. “O governo Obama está assumindo o controle das empresas porque a alternativa seria um desastre para a economia”, diz Baker.

O problema, para alguns, é a moda pegar. “A Casa Branca abriu a porteira e agora vem aí a boiada”, afirma Shughart. “O governo federal perdeu a credibilidade de dizer que não vai mais resgatar ninguém. Estão fazendo fila para pedir dinheiro, as empresas de autopeças são as próximas”, avalia.

30/04/2009 - 10:26h Plano Obama é bom para o Brasil

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Alberto Tamer* – O Estado SP

 


Um balanço dos intensos 100 dias de Obama é positivo para o Brasil. Na verdade, ele e sua equipe estão agitando e revolucionando a economia americana, que receberam em frangalhos. Não perdeu tempo com as discussões acadêmicas sobre se deveria primeiro socorrer o sistema financeiro para depois estimular a demanda e o crescimento. Desde os primeiros dias, atacou as duas frentes, consciente de que ambas se interdependem e são imprescindíveis para superar a recessão. O mercado financeiro tem sido saneado a custos elevados e a política fiscal começa a dar algum ânimo ao consumidor. Somente isso impediu que o PIB não tivesse uma queda maior que 6,1% neste trimestre. De novo, herança do passado, quando o PIB recuou 6,3%. Somente nos próximos meses o dinheiro da política fiscal começará a entrar no sistema. Se tudo continuar como está – mercado financeiro socorrido e demanda estimulada – a recessão americana poderá terminar em 2009. No momento, a economia parou de afundar ou afunda mais lentamente, o que já é um bom resultado. Afinal, alguém agora está fazendo alguma coisa, oportuna e certa.

FOI BOM PARA NÓS

O grande mérito dos 100 dias de Obama é que sua política está trazendo alguma sensação de alívio no mercado financeiro. E é aí que nos beneficia. Estamos muito longe da normalidade, mas o governo e as empresas brasileiras voltaram a captar no mercado financeiro internacional depois de uma longa e difícil ausência. Além disso, os investimentos financeiros começam a afluir novamente nas bolsas ou na compra de títulos do governo e outros papéis.

O simples anúncio da vitória de Obama abriu novas oportunidades ao Brasil. O governo captou US$ 1 bilhão, no dia 6 de janeiro. E isso após uma ausência de quase 8 meses no mercado. A última captação havia sido feita em 14 de maio de 2008.

O setor privado foi mais ativo. Em março, entraram US$ 750 milhões de captação da Telemar e devem estar entrando US$ 700 milhões de empresas do grupo Friboi. A Odebrecht também levantou US$ 150 milhões em bônus no dia 3 de março. “Os governos (federal e estadual) tem dado ênfase na infraestrutura para sustentar a economia”, afirmou Paulo Cesena, diretor financeiro da empresa. Estão programadas outras operações nesse mesmo setor, estradas, usinas. Também a Petrobrás votou a ser ativa no mercado financeiro.

Nada disso seria possível há 8 meses. O plano de Obama está sendo bom para o Brasil. E isso pode ser apenas o começo. Se o governo brasileiro lançar concorrência para outras obras a serem executadas pelo setor privado, certamente mais recursos entrarão no país nos próximos meses.

HÁ MUITA BOBAGEM…

Nos balanços dos 100 dias, tenho ouvido e lido as coisas mais controversas e algumas até engraçadas. Um professor acadêmico disse que o Brasil não se beneficiou com a nova política de Obama porque os EUA não liberaram o comércio agrícola e continuam dando subsídios aos seus produtores… Isso é falta de informação ou deformação ideológica (abaixo o Satã do Norte…). De acordo com o Ministério da Agricultura, entre janeiro e março deste ano, as exportações do agronegócio para os EUA representam apenas 10,1% do total. Eles são ainda os maiores importadores, mas, ainda de acordo com a tabela do ministério, elas são de apenas US$1,4 bilhão.

Pode argumentar que nossas vendas totais – não só do agronegócios – para os EUA caíram 37,8% no trimestre. Mas esse não foi um fenômeno isolado. Houve aumento de 20,9% para a Ásia, com destaque para para a China, 62,7%. Todos os demais mercados reduziram drasticamente as compras do Brasil e de outros países. O caso do nosso “querido” Mercosul é típico: uma retração de 29,2%.

O protecionismo dos países afundados na recessão não será atenuado com palavras de queixa e protesto. Cabe ao Brasil aproveitar as oportunidades e atrair os recursos que tanto precisamos. Obama está acertando. E nós também se o governo continuar criando condições para captar aqueles dólares que apenas agora começam a dar tímidos sinais de vida.

*E-mail: at@attglobal.net

28/04/2009 - 12:37h Dinheiro para nada

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Paul Krugman, The New York Times* – O Estado SP

No dia 15 de julho de 2007, o jornal The New York Times publicou um artigo com o título “Os mais ricos dos ricos gabam-se de uma nova Idade do Ouro”. O mais badalado dos “novos titãs” era Sanford Weill, ex-chairman do Citigroup, segundo o qual ele e seus colegas do setor financeiro haviam ganhado imensas fortunas graças à sua contribuição para a sociedade.

Logo após a publicação do artigo, o edifício financeiro que Weill se vangloriava de ter ajudado a construir, ruiu,provocando imensos danos no caminho. Mesmo que seja possível evitar uma réplica da Grande Depressão, levará anos para a economia mundial se recuperar da crise atual.

Tudo isso explica por que deveríamos nos sentir incomodados por um artigo publicado pela edição do Times de domingo, mostrando que as remunerações nos bancos de investimento, que haviam despencado no ano passado, voltaram a subir vertiginosamente – alcançando os mesmos níveis de 2007.

Por que isso incomodaria? Em primeiro lugar, não há mais razões para se acreditar que os mágicos de Wall Street contribuam realmente com algo positivo para a sociedade e, muito menos, para justificar cheques descomunais.

Não esqueçamos de que a era dourada de Wall Street em 2007 era um fenômeno relativamente novo. Da década de 30 à de 80, aproximadamente, o setor bancário era um ambiente estável, um tanto tedioso, que, em média, não pagava melhor do que outros setores e mantinha as engrenagens da economia funcionando.

Portanto, por que motivo alguns banqueiros começaram de repente a ganhar imensas fortunas? Segundo fomos informados, eles foram premiados por sua criatividade e inovação financeira. Entretanto, a essa altura, é difícil pensar em inovações financeiras recentes que realmente tenham sido uma contribuição para a sociedade, e não em maneiras mais modernas de estourar bolhas, burlar normas e executar sofisticadas operações fraudulentas.

Num recente discurso de Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve (Fed, banco central americano) tentava defender a inovação financeira.

Seus exemplos de “ótimas inovações” na área de finanças eram: 1) os cartões de crédito – não exatamente uma ideia nova; 2) a proteção contra saques a descoberto; e 3) as hipotecas subprime. (Não estou inventando.) Foram essas então as coisas pelas quais os banqueiros receberam toda aquela dinheirama? Pode-se argumentar que temos uma economia de livre mercado e cabe ao setor privado decidir quanto valem seus funcionários. E isso me leva ao segundo ponto: na realidade, Wall Street deixou de fazer parte do setor privado. Agora, é um setor do Estado, tão dependente da ajuda oficial quanto os beneficiários da Assistência Temporária para as Famílias Necessitadas, ou seja, do Estado “previdenciário”.

Não estou falando apenas dos cerca de US$ 600 bilhões já destinados ao Tarp – Programa de ajuda aos ativos com problemas financeiros. Há também as imensas linhas de crédito oferecidas pelo Fed, empréstimos em larga escala do Federal Home Loan Banks, os contratos da AIG pagos pelo dinheiro dos contribuintes, a imensa expansão das garantias da Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC) e, mais amplamente, o respaldo implícito a todas as companhias financeiras consideradas excessivamente grandes ou estratégicas, para entrarem em colapso.

Pode-se argumentar ainda que é necessário salvar Wall Street para proteger a economia como um todo – com o que eu concordo. Mas, considerando todo o dinheiro dos contribuintes que está envolvido nisso, as companhias financeiras deveriam atuar como empresas de serviços públicos, e não voltar às mesmas práticas e aos cheques polpudos de 2007.

Além disso, pagar enormes somas a pilantras não é apenas vergonhoso. É perigoso. Afinal, por que os banqueiros assumiram riscos tão grandes? Porque o sucesso – ou mesmo uma aparência temporária de sucesso – oferecia recompensas gigantescas: os próprios executivos que estouraram suas companhias podiam e, na realidade, saíram com centenas de milhões de dólares. Agora, as mesmas compensações continuam a ser dadas a pessoas que fazem seus jogos arriscados com o respaldo do governo.

Mas o que está acontecendo? Por que essas remunerações voltaram a ser estratosféricas? Não podemos achar plausível a afirmação de que as companhias precisam pagar esses salários para preservar seus melhores funcionários: se o emprego no setor financeiro está despencando, para onde estarão indo essas pessoas?

Não, a verdadeira razão pela qual as financeiras voltaram a pagar salários tão altos é simplesmente porque podem. Elas voltaram a ganhar muito dinheiro (embora não tanto quanto afirmam), e por que não? Afinal, podem tomar dinheiro emprestado a um custo reduzido, graças às garantias oferecidas pelo governo, e emprestar esse dinheiro a taxas muito mais altas. Portanto, a ordem é aproveitar ao máximo, porque amanhã poderão ser enquadradas numa nova regulamentação.

Ou talvez não. Na imprensa financeira há uma sensação palpável de que a tempestade já passou: as ações subiram, a queda livre da economia se reverteu e o governo Obama provavelmente permitirá que os banqueiros se safem apenas com alguns discursos mais severos. Certo ou errado, os banqueiros aparentemente acreditam que, em breve, os negócios, do modo como costumavam realizar, voltarão à normalidade.

Só podemos esperar que nossos líderes mostrem que estão errados e façam as reformas necessárias. Em 2008, os banqueiros que ganhavam cifras astronômicas e assumiam riscos com o dinheiro dos outros derrubaram a economia mundial. A última coisa de que precisamos, agora, é dar-lhes a chance de fazer tudo isso de novo.

*Paul Krugman é Prêmio Nobel de Economia de 2008

27/04/2009 - 11:49h Reforçar a estabilidade regional é essencial para integração sul-americana e para o Brasil

Lula marca data para o real sul-americano

Sergio Leo – VALOR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já marcou data para anunciar seus planos ambiciosos para o uso do real nas transações da América do Sul. Esses planos avançam além da campanha feita por ele para estender aos sócios sul-americanos o mecanismo de comércio em moeda local, já lançado com a Argentina – embora sem muito sucesso até agora, como noticiaram Raquel Landim e Janes Rocha, em reportagem do Valor, na semana passada. Na próxima reunião da Unasul, que agrega os países da região, ainda neste semestre, Lula quer apresentar aos parceiros uma proposta que pode ampliar o uso do real nas relações entre os vizinhos.

O mecanismo ainda não está pronto, e passa por discussões na equipe econômica, onde, jura-se no Palácio do Planalto, já existe concordância do reticente Banco Central. Sem dar detalhes da proposta, os assessores de Lula descrevem uma proposta que se assemelha à linha de swap em dólares aberta pelos EUA ao Brasil e outros países, no ano passado, pela qual os beneficiados por trocar no Federal Reserve suas moedas por dólares, até um limite e por um tempo limitado, que se esgota nesta semana. Mas terá diferenças, ao incorporar mecanismos de compensação de moedas.

Os países sul-americanos serão autorizados a sacar, do BC, uma quantia em reais, que poderão usar para o comércio com o Brasil ou até repassar a outros países no continente (que, por sua vez, poderiam usar a moeda para pagar compromissos no mercado brasileiro). Falta ainda, segundo um graduado assessor de Lula, definir o total que será posto à disposição dos vizinhos. Lula quer que seja uma quantia significativa.

O mecanismo em elaboração difere do sistema de pagamentos em moeda local já adotado com a Argentina porque ele permite o uso do real em outros pagamentos, além de operações comerciais. E permite também aos países beneficiados usar os reais adquiridos para transações com outros países. Além da óbvia vantagem para o Brasil, por permitir a maior circulação da moeda brasileira entre os países do continente, o novo sistema, segundo se argumenta no Planalto, ajudaria aos outros governos da América do Sul a reduzir sua dependência de dólares em transações internacionais na região – em um período de escassez de moeda americana no continente.

O Brasil tem superávits no comércio com todas as nações da América do Sul, à exceção da Bolívia. Os bolivianos tem déficits no comércio com os outros países, e um enorme superávit com o Brasil, graças à venda de gás ao mercado brasileiro. A cessão de dólares aos vizinhos permitira a esses países reduzir seus problemas de balanço de pagamentos em dólar, inclusive na Bolívia, que poderia usar os reais para comprar produtos de outros países andinos, ou da Argentina, por exemplo. Esses são os argumentos que Lula levará à reunião da Unasul, em junho.

Lula conversou sobre o assunto, na semana passada, em Buenos Aires com a presidente da Argentina, Cristina Kirchner. Foi um dos principais assuntos levados por ele para a conversa privada com a presidente. O tema também foi abordado ligeiramente durante a reunião dos ministros com os chefes de Estado.

A ampliação do uso do real é um desdobramento natural da série de iniciativas que vem sendo tomada na relação bilateral, na tentativa de, progressivamente, permitir à Argentina menor dependência do dólar, já que o país, desde a decretação da restruturação unilateral de sua dívida, em 2005, tem acesso muito limitado ao mercado de capitais internacional. O Brasil, na visita, ampliou, de US$ 120 milhões para US$ 1,5 bilhão o valor das operações que podem ser firmadas sob amparo do Convênio de Crédito Recíproco (o CCR, espécie de mecanismo de compensação em moedas locais acoplado a um seguro de exportação). Firmou acordo, ainda, para que compromissos como compra e venda de energia elétrica e pagamentos previdenciários possam ser realizados em moeda local, real ou peso.

Não é a única iniciativa no continente, de redução da dependência em relação ao dólar para transações com vizinhos. Atento aos movimentos brasileiros, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, reuniu seus associados na Alternativa Bolivariana das Américas (Alba), pequenos países centro-americanos e do Caribe, além da Bolívia, e com Equador e Paraguai firmou um acordo para um mecanismo de compensação regional a que denominaram “sucre”, embrião, segundo o venezuelano, de uma futura moeda regional.

Como muitos dos anúncios de Chávez, o “sucre” tem muito de intenção e pouco de realidade, por enquanto, já que iniciativas de livre trânsito cambial na Venezuela esbarram no rígido controle de pagamentos internacionais feitos pelo governo. Chávez, no fim de semana, recebeu o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, e como outros governantes do continente, mostrou interesse no mecanismo de comércio em moeda local entre Brasil e Argentina. A conversa não foi além de perguntas interessadas do venezuelano. Não se sabe como compatibilizar o mecanismo com o controle cambial imposto no país.

A iniciativa brasileira de expandir a circulação do real no continente pode ser interpretada por dois ângulos. Um deles, se adotada a retórica com que o venezuelano Chávez cerca medidas do gênero, pode ser vista como uma medida antiamericana – o que não é – destinada a botar a colherzinha do Brasil na sopa da desconstrução dos Estados Unidos como emissor da moeda de troca mundial.

Outra interpretação, mais do agrado do governo brasileiro, é a de que a crise financeira e de confiança nos mercados mundiais ameaça fortemente as contas externas dos países da região, com quem o Brasil tem uma parcela substancial de seu comércio. Se quiser reduzir as fontes de pressão sobre as políticas comerciais dos parceiros sul-americanos e minimizar seus efeitos sobre as vendas de produtos brasileiros na região, o governo brasileiro tem de buscar mecanismos criativos e menos dependentes do fluxo de dólares para esses países. Lula mandou seus técnicos encontrarem esses mecanismos e conta tê-los em mãos, até junho.

Sergio Leo é repórter especial e escreve às segundas-feiras

E-mail: sergio.leo@valor.com.br

26/04/2009 - 10:16h Crise global: ‘Economia ficará fraca por 3 anos”


Stephen Roach: presidente da divisão Ásia do Banco Morgan Stanley; conhecido pelo pessimismo e por ter previsto a crise, economista diz que rali recente do mercado se mostrará ‘desapontador’

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Leandro Modé – O Estado SP

 


Em um breve perfil na Wikipédia, a enciclopédia online mais consultada do mundo, o economista americano Stephen Roach é definido como um “urso permanente”. No mercado financeiro, o grande mamífero peludo é o símbolo do pessimismo. Embora rechace a qualificação, dizendo que tenta ser apenas “realista”, Roach é amplamente conhecido pelas previsões catastrofistas. Durante anos – e muito antes de a atual crise estourar -, Roach, que comandava até 2007 o departamento econômico do Banco Morgan Stanley, alertou para os desequilíbrios da economia global. Em síntese, chamava a atenção para o consumismo dos americanos, para a política monetária frouxa do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) e para o excesso de poupança nos países asiáticos, notadamente a China. O tempo mostrou que ele estava certo. Olhando para a frente, Roach diz que só vê alguma recuperação tênue da economia global em 2010. Por isso, avalia que o rali das últimas semanas nas bolsas mundiais se mostrará desapontador. “Minha visão é que, após um boom extraordinário e insustentável, haverá um movimento de volta que deixará a economia fraca por ao menos três anos”, disse ao Estado, por telefone, de Cingapura. Há cerca de dois anos, Roach comanda a divisão da Ásia do Morgan Stanley.

Temos visto alguma recuperação nos mercados financeiros, especialmente em países emergentes. É sustentável?

Ainda é muito cedo para termos um sinal preciso da economia global. É bem possível que o pior em termos de contração tenha ficado para trás, mas ainda veremos uma recessão severa no mundo. O mais importante é que qualquer recuperação, quando vier, será limitada. O mercado financeiro está antecipando uma recuperação mais forte, algo em que não acredito.

Ou seja, é cedo demais?

Sim, esse rali vai se mostrar desapontador, uma vez que veremos alguma recuperação só em 2010.

A principal razão para essa melhora é o relativo otimismo com o plano americano para resgatar os bancos. Como o sr. o avalia?

Não concordo que essa seja a principal razão. Nos últimos três meses, houve leves sinais de melhora da atividade econômica, do mercado imobiliário, do consumo nos EUA e das exportações de países emergentes. Mas, a despeito disso, penso que o conceito do plano do secretário (Timothy) Geithner para os bancos é bom, pois contempla um mecanismo para estabelecer um preço para os ativos tóxicos e sua retirada dos balanços dos bancos. A questão é se os investidores vão participar. Em resumo, é bom na teoria, mas há dúvidas sobre a execução.

É preciso ver se vai funcionar na prática, então.

Exatamente. Há também a questão de privatizar os ganhos e socializar as perdas. Há uma possibilidade séria de que a conta venha a ser paga pelos contribuintes americanos.

É inevitável a estatização do sistema bancário americano?

O governo está fazendo tudo o que pode para evitar uma nacionalização formal. Não está claro se no fim da linha ainda veremos uma nacionalização mais profunda, ainda que o governo tenha assumido boa parte de várias instituições.

O sr. falou em alguns números melhores na economia global nos últimos meses, mas espera uma recuperação apenas em 2010. Não soa contraditório?

Há uma expressão que define bem isso: ainda são números ruins, mas não tão ruins como antes. Refletem apenas o fato de que tivemos um raro declínio na atividade econômica nos últimos seis ou sete meses. A maior parte dele decorre do congelamento dos mercados de crédito e de capitais após a quebra do Lehman Brothers. Não é normal esperar que esse ritmo de queda se mantenha. Então, algum freio nessa deterioração poderia provocar certo otimismo. Algo com o que não concordo.

O sr. afirmaria que em alguns países a situação parou de piorar?

Não. Isso é explicado por um conceito técnico, segundo o qual há uma grande diferença entre melhora e desaceleração das taxas de queda.

O FMI informou esta semana que espera a primeira recessão global desde a 2ª Guerra. Qual o seu cenário?

Nos meus 30 anos de projeções econômicas, raramente concordo com o FMI. Mas acho que, dessa vez, a expectativa deles para 2009 é bem próxima da minha, que é de um recuo de 1,5% no PIB mundial. A recessão alcançou o mundo todo. Acredito que, mesmo para 2010, qualquer recuperação será fraca. O PIB mundial talvez cresça entre 1,5% e 2%.

Qual a expectativa para a China?

Acho que os números da China também serão fracos. O crescimento neste ano deve ficar entre 6% e 6,5%, levando-se em conta os dados já divulgados do primeiro trimestre. Não acho que a economia chinesa crescerá tão rapidamente quanto a projeção oficial do governo, de 8%. A queda em relação ao desempenho anterior é significativa, e se explica pela fraqueza na demanda externa e porque a China é muito dependente dessa demanda.

Quais as consequências desse enfraquecimento da China para países que exportam bastante para lá, como o Brasil?

Essa é uma das razões pelas quais o Brasil terá uma contração neste ano. A principal compradora de matérias-primas do mundo é a China. Em 2007, a expansão chinesa foi de 13%. Em 2009, ficará perto da metade disso. Ou seja, não teremos mais o superboom de commodities dos últimos anos. Com isso, grandes fornecedores de matérias-primas como Brasil, Nova Zelândia e Austrália sentirão impacto relevante.

Sei que o sr. não é responsável pelas projeções do Brasil, mas a previsão do Morgan Stanley para o PIB brasileiro em 2009 – retração de 4,5% – causou surpresa por aqui. O sr. realmente acredita que esse é um número crível?

Espero que sim. Já fui responsável pela equipe econômica e acho que eles têm boas razões para a projeção.

Olhando a partir de hoje, como o sr. vê a ideia de “descolamento” dos emergentes?

É uma piada. Como esperar que economias em desenvolvimento, em que grande parte do crescimento dependia da demanda externa, iam descolar? O rápido crescimento das economias emergentes era uma história maravilhosa, mas resultava de dois movimentos: explosão do comércio global e aumento da parcela das exportações no PIB, sobretudo na Ásia. Com a desaceleração do comércio, a maioria das economias emergentes falhou em estimular a demanda doméstica. Todas as economias desenvolvidas estão em recessão. Basicamente, a ideia de descolamento foi uma piada, uma piada de mau gosto.

Durante anos, o sr. alertou para os desequilíbrios globais. Como avalia as medidas que os governos estão adotando para estimular suas economias?

Os governos estão fazendo o que podem para limitar a queda. Mas há o risco de que estejam focando demais o reestímulo do consumo nos EUA, o que é uma estratégia pobre. Essa foi uma das razões chave para que os EUA entrassem nessa confusão. Os consumidores compraram além de suas possibilidades, o que criou as duas bolhas que estouraram: no crédito e no mercado imobiliário. Tentar recriar outro período de excesso de consumo e encorajar os americanos a consumir, em vez de poupar, é um grande erro. Realmente me preocupo que essas políticas de estímulo resultem em desequilíbrios semelhantes nos EUA. Para cada dólar de excesso de consumo nos EUA, há um dólar de poupança em algum lugar do mundo.

O que fazer para evitar isso?

Esse é um problema global, portanto, deveríamos ter políticas que lidassem com a questão da poupança mundial – concentrada principalmente na Ásia – e com os déficits (em conta corrente e fiscal) nos EUA. Os chineses têm de consumir mais e os americanos, poupar mais. Não estou convencido de que as políticas atuais atingirão esse objetivo.

O G-20 poderia agir para isso?

Fiquei muito desapontado com o comunicado da última reunião do G-20. Creio que o grupo falhou ao encaminhar esse problema dos desequilíbrios globais. O texto mencionou a questão de relance e não trouxe uma proposta de ações concretas para lidar com o tema. Os esforços do G-20 que devem ser celebrados estão basicamente relacionados ao fortalecimento do FMI.

Olhando dois ou três anos à frente, a inflação é um risco no mundo?

Não. O buraco entre oferta e demanda na economia mundial é de tal ordem que inflação não será problema no período de três a cinco anos. Há muita fraqueza no mercado de trabalho e no consumo.

O sr. é conhecido como um pessimista. Mas, no início do ano, no Fórum Econômico Mundial, foi chamado de otimista pelo colunista do ‘Financial Times’ Martin Wolf. Como se define neste momento?

Martin fazia uma brincadeira. Na sessão de abertura do Fórum, eu disse que via uma recessão muito séria e um período de fraqueza na economia mundial durante os próximos três anos. É o meu pronunciamento habitualmente “bearish” (pessimista). Mas Martin disse que eu não estava “bearish” o bastante. Alguns jornalistas escreveram que eu havia mudado meu ponto de vista. Não quero ser conhecido como pessimista nem como otimista, mas como realista. Minha visão é que, após um boom extraordinário e insustentável, haverá um movimento de volta que deixará a economia fraca por ao menos três anos. Não creio que seja otimismo.

O sr. poderia resumir as causas dessa crise, em poucas palavras?

Foi um problema sistêmico causado por instituições financeiras, governos, legisladores, consumidores – especialmente nos EUA – e um problema particular: uma política monetária pobre do Fed de Alan Greenspan. Essa política gerou a bolha de ativos, não prestou atenção à estabilidade financeira e ignorou a responsabilidade regulatória.

Como vê a proposta da China de criar uma moeda de reserva do FMI para substituir o dólar?

É uma proposta que deve ser seriamente considerada. Com exceção dos últimos meses, o dólar vinha se desvalorizando havia seis anos. Daqui para a frente, essa é a tendência. Muitos gestores no mundo vão preferir aplicar recursos em uma cesta de moedas e, assim, reduzir o peso do dólar.

11/04/2009 - 08:54h Sem reforma financeira, crise atual será só início de dias piores

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Progresso econômico alcançado após a Grande Depressão, quando os bancos eram conservadores e pouco lucrativos, deve inspirar regulamentação do setor

PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES” – FOLHA SP

HÁ 35 anos, quando eu estava fazendo minha pós-graduação em economia, apenas os menos ambiciosos dos meus colegas procuravam carreiras no mundo das finanças. Já então os bancos de investimento pagavam mais do que as universidades ou o serviço público -mas não muito mais, e de qualquer maneira todo mundo sabia que trabalhar em bancos era, para ser franco, tedioso.
Nos anos que se seguiram, os bancos se tornaram qualquer coisa menos tediosos, como bem sabemos. As transações ousadas floresceram, e as escalas salariais das finanças dispararam, o que levou o setor a atrair alguns dos melhores e mais brilhantes jovens do país. (Está bem: não estou certo quanto à parte do “melhores”).
E todos nos asseguravam de que nosso setor financeiro superdimensionado seria a chave para a prosperidade. Em lugar disso, porém, as finanças se transformaram no monstro que devorou o mundo. Recentemente, os economistas Thomas Philippon e Ariell Reshef publicaram um estudo que poderia levar o título “Ascensão e Queda dos Bancos Tediosos” (mas na verdade se chama “Salários e Capital Humano no Setor Financeiro dos EUA, 1909-2006″), no qual demonstram que as atividades bancárias passaram por três eras nos Estados Unidos ao longo dos últimos cem anos.
Antes de 1930, os bancos eram um setor excitante, povoado por diversas figuras monumentais, responsáveis pela construção de gigantescos impérios financeiros (alguns dos quais, como se descobriu posteriormente, baseados em fraudes). Esse setor financeiro ativo e ambicioso presidiu uma rápida expansão do nível nacional de dívidas. A dívida domiciliar, como proporção do PIB (Produto Interno Bruto), quase dobrou entre a Primeira Guerra Mundial e 1929.
Durante essa primeira era de predomínio das finanças, os executivos dos bancos recebiam salários médios muito superiores ao de suas contrapartes em outros setores. Mas o setor perdeu o glamour quando o sistema financeiro entrou em colapso durante a Grande Depressão.
Bancos conservadores
O setor bancário que emergiu daquele colapso era estreitamente regulamentado e bem menos audacioso do que antes da Depressão e também muito menos lucrativo para aqueles que o geriam. Os bancos se tornaram tediosos, em parte porque os banqueiros se tornaram muito conservadores quanto aos empréstimos. A dívida domiciliar, que havia caído acentuadamente como proporção do PIB durante a Depressão e a Segunda Guerra Mundial, estabilizou-se em níveis bastante inferiores aos dos anos 30.
É estranho dizer, mas a era de bancos tediosos foi também uma era de espetacular progresso econômico para a maioria dos norte-americanos. Depois de 1980, porém, os ventos políticos mudaram, muitas das regulamentações que pendiam sobre os bancos foram suspensas, e os bancos voltaram a ser excitantes.
A dívida começou a subir rapidamente, e terminou por atingir proporção do PIB semelhante à que existia em 1929. E o setor financeiro explodiu em tamanho. Pela metade da década, respondia por um terço dos lucros empresariais. Enquanto essas mudanças aconteciam, as finanças uma vez mais se transformaram em carreira de alta remuneração.
De fato, a disparada nas rendas do setor financeiro teve papel importante na criação de uma segunda era dourada nos Estados Unidos. É desnecessário dizer que os novos superastros acreditavam ter direito à fortuna conquistada. “Acredito que os resultados que nossa companhia obteve, que são a origem da grande maioria de minha fortuna, justificam o que recebi”, disse Sanford Weill em 2007, um ano depois de se aposentar no Citigroup. E muitos economistas concordavam.

Colapso
Apenas algumas pessoas afirmavam que esse sistema financeiro superdimensionado poderia chegar a um fim destrutivo. Talvez o mais notável desses profetas de dificuldades seja Raghuram Rajan, da Universidade de Chicago e ex-economista chefe do FMI (Fundo Monetário Internacional). Ele argumentou, em uma conferência de 2005, que o rápido crescimento do setor financeiro havia ampliado o risco de “um colapso catastrófico”.
Mas outros participantes da conferência, entre os quais Lawrence Summers, hoje presidente do conselho de assessoria econômica da Casa Branca, ridicularizaram as preocupações de Rajan. E o colapso aconteceu. Boa parte do aparente sucesso do setor financeiro era ilusório, como agora sabemos. (As ações do Citigroup perderam mais de 90% de seu valor desde o discurso autocongratulatório de Weill.)
Ainda pior, o colapso do castelo de cartas das finanças causou devastação no restante da economia; o comércio mundial e a produção industrial estão caindo mais rápido do que aconteceu na Grande Depressão. E a catástrofe resultou em apelos por maior regulamentação do sistema financeiro. Mas minha sensação é de que as autoridades estão pensando simplesmente em termos de reordenar as posições nos organogramas de fiscalização dos bancos. Não estão preparadas para fazer o que precisa ser feito: tornar os bancos tediosos novamente.
Parte do problema é que bancos tediosos significam banqueiros e executivos mais pobres, e o setor financeiro continua a ter muitos amigos em posições de poder. Mas é também questão de ideologia. A despeito de tudo que aconteceu, muita gente que ocupa cargos importantes ainda associa um mundo financeiro sofisticado a progresso econômico. Será possível persuadi-los do contrário? Teremos a força de vontade necessária a impor reformas financeiras sérias? Se não, a crise atual não será um evento único, mas sim um prenúncio do que está por vir.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

PAUL KRUGMAN, economista, é colunista do jornal “The New York Times” e professor na Universidade Princeton (EUA).

05/04/2009 - 10:30h O capitalismo artificial de Obama

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Joseph E. Stiglitz * – O Estado SP

A proposta de US$ 500 bilhões ou mais da administração Obama para lidar com bancos em dificuldade dos EUA foi descrita por alguns participantes do mercado financeiro como uma proposta que só tem ganhadores. Na verdade, há ganhadores e perdedores: os bancos ganham, os investidores ganham – e os contribuintes perdem.

O Departamento do Tesouro espera nos tirar dos apuros reproduzindo o sistema furado que o setor privado usou para fazer o mundo se esborrachar, com uma proposta marcada pela alavancagem exagerada do setor público, complexidade excessiva, incentivos fracos e falta de transparência.

Façamos um parêntese para recordar o que causou esses apuros. Os bancos se meteram, e meteram nossa economia, em encrencas ao se alavancar excessivamente – o que significa que eles usaram relativamente pouco capital próprio e captaram empréstimos substanciais para comprar ativos imobiliários de altíssimo risco. No processo, usaram instrumentos de alta complexidade como obrigações de dívida colateralizadas.

A perspectiva de alta compensação incentivou os administradores a serem míopes e assumirem riscos excessivos, em vez de fazerem empréstimos prudentes com o dinheiro. Os bancos cometeram todos esses erros sem ninguém saber, em parte porque muita coisa do que estavam fazendo era financiamento “fora do balanço”. Em tese, o plano da administração baseou-se em permitir que o mercado determine os preços dos “ativos tóxicos” dos bancos – incluindo empréstimos pendentes para a compra de casas e papéis lastreados nesses empréstimos. A realidade, porém, é que o mercado não vai precificar os próprios ativos tóxicos, mas opções desses ativos.

As duas coisas têm pouco em comum. O plano do governo significa, com efeito, garantir quase todos os prejuízos. Como os investidores privados são poupados da maioria das perdas, então eles principalmente “valorizam” seus ganhos potenciais. Isso é exatamente o mesmo que receber uma opção.

Considerem um ativo que tem uma chance de 50% de estar valendo ou zero ou US$ 200 no prazo de um ano. O “valor” médio do ativo é US$ 100. Ignorando juros, é por esse valor que o ativo seria vendido num mercado competitivo. É isso que o ativo “vale”. Pelo plano do secretário do Tesouro Timothy Geithner, o governo forneceria cerca de 92% do dinheiro para comprar o ativo, mas se posicionaria para receber somente 50% de qualquer ganho e absorveria quase todos os prejuízos. Que parceria!

Suponham que uma das parceiras público-privadas que o Tesouro prometeu criar esteja disposta a pagar US$ 150 pelo ativo. Isso é 50% acima de seu valor real e o banco fica mais que feliz de vender. Assim, o parceiro privado coloca US$ 12, e o governo fornece o resto – US$ 12 em “capital” mais US$ 126 na forma de um empréstimo garantido.

Se no prazo de um ano o valor real do ativo for zero, o parceiro privado perde os US$ 12 e o governo, US$ 138. Se o valor real for para US$ 200, o governo e o parceiro privado racham os US$ 74 que sobraram após saldar o empréstimo de US$ 126. Nesse cenário róseo, o parceiro privado mais que triplica o investimento de US$ 12. Mas o contribuinte, tendo arriscado US$ 138, ganhou meros US$ 37.

Mesmo num mercado imperfeito, não se deve confundir o valor de um ativo com o valor da opção na alta desse ativo. Mas os americanos provavelmente perderão ainda mais do que esses cálculos sugerem, por causa de um efeito chamado seleção adversa. Os bancos podem escolher os empréstimos e papéis que querem vender. Eles desejarão vender os piores ativos e, em especial, os ativos que acham que o mercado superestima (e por isso está disposto a pagar demais por eles). Mas o mercado provavelmente reconhecerá isso, o que empurrará para baixo os preços que está disposto a pagar. Somente se o governo assumir uma parte suficiente dos prejuízos esse efeito de “seleção adversa” será superado. Com o governo absorvendo as perdas, o mercado não se importa se os bancos o estão “enganando” com a venda de seus ativos mais abjetos porque o governo arca com o custo.

O principal problema não é a falta de liquidez. Se fosse, um programa bem mais simples funcionaria: fornecer os recursos sem garantias para empréstimos. A questão real é que os bancos transformaram empréstimos ruins numa bolha e ficaram enormemente alavancados. Eles perderam seu capital, e esse capital precisa ser reposto.

Pagar valor de mercado justo pelos ativos não funcionará. Só pagando a mais os bancos serão recapitalizados. Mas pagar a mais vai transferir os prejuízos para o governo. Em outras palavras, o plano de Geithner só funciona se e quando o contribuinte perder muito. Alguns americanos temem que o governo possa temporariamente “nacionalizar” os bancos, mas essa opção é preferível ao plano Geithner. Afinal, a Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC) já assumiu o controle de bancos em situação falimentar antes e o fez bem.

Ela chegou a nacionalizar grandes instituições como o Continental Illinois (assumido em 1984, de volta para mãos privadas alguns anos depois), e o Washington Mutual (desapropriado em setembro passado e imediatamente revendido). O que a administração Obama está fazendo é muito pior que nacionalização: é capitalismo artificial, a privatização de ganhos e a socialização de perdas. É uma “parceria” em que um parceiro rouba o outro. E essas parcerias – com o setor privado no controle – têm incentivos perversos, piores até que os que nos colocaram na encrenca.

Em sendo assim, qual é o apelo de uma proposta como essa? Talvez seja o tipo de dispositivo de Rube Goldberg que Wall Street adora – inteligente, complexo e não transparente, permitindo enormes transferências de riqueza para os mercados financeiros. Ele permitiu que a administração evitasse voltar ao Congresso para pedir o dinheiro necessário para arrumar nossos bancos e forneceu uma maneira de evitar a nacionalização.

Mas nós já estamos sofrendo com uma crise de confiança. Quando os altos custos do plano se tornarem visíveis, a confiança ficará ainda mais desgastada. E a tarefa de recriar um setor financeiro e ressuscitar a economia será ainda mais difícil.

*Joseph E. Stiglitz ganhou o Nobel de Economia em 2001

31/03/2009 - 11:49h A reputação manchada dos EUA

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Paul Krugman, The New York Times *

Há dez anos, a capa da revista Time estampava Robert Rubin, então secretário do Tesouro, Alan Greenspan, então presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), e Lawrence Summers, então vice-secretário do Tesouro. A revista chamou a trinca de “comitê para salvar o mundo”, creditando-lhe a condução do sistema financeiro global numa crise que parecia aterrorizante na época, embora pareça um pequeno solavanco comparada ao que estamos enfrentando hoje.

Os três homens naquela capa eram americanos, mas ninguém estranhou isso. Afinal, em 1999, os Estados Unidos eram o líder inconteste da resposta global à crise. Esse papel de liderança só em parte se baseava na riqueza americana; num grau importante, ele refletia também a estatura da América como um modelo exemplar. Todos achavam que os EUA eram o país que sabia lidar bem com as finanças.

Como os tempos mudaram.

Pouco importa o fato de que dois membros do comitê desde então sucumbiram à maldição da capa da revista, o colapso de reputação que amiúde acompanha a notoriedade na mídia. (Summers, que ocupa hoje a chefia do Conselho Econômico Nacional, continua prestigiado.) Bem mais importante é a extensão em que nossas pretensões à solidez financeira – pretensões com frequência invocadas quando fazemos preleções a outros países sobre a necessidade de mudarem suas atitudes – se mostraram vazias.

Aliás, os EUA de hoje se parecem com o Bernie Madoff das economias: durante muitos anos, eles foram respeitados, admirados até, mas acabaram se revelando ter sido uma fraude o tempo todo.

É penoso ler hoje uma palestra feita por Summers no início de 2000, quando a intensidade da crise econômica dos anos 1990 estava diminuindo. Discutindo as causas daquela crise, Summers apontou coisas que faltavam aos países em crise – e que, por implicação, os EUA possuíam. Essas coisas incluíam “bancos bem capitalizados e supervisionados”, e “contabilidade corporativa transparente e confiável”. Bem, bem.

Um dos analistas que Summers citou na palestra, alias, foi o economista Simon Johnson. Num artigo do número corrente da revista The Atlantic, Johnson, que foi economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) e hoje leciona no Massachusetts Institute of Technology (MIT), declara que as dificuldades atuais dos EUA são uma “recordação chocante” de crises em lugares como Rússia e Argentina – incluindo o papel-chave desempenhado pelo capitalista de compadrio.

Nos EUA, como no terceiro mundo, ele escreve , os “interesses econômicos de elite – financistas, no caso dos EUA – jogaram um papel central na criação da crise, fazendo especulações cada vez maiores com o respaldo implícito do governo, até o colapso inevitável”. Mais alarmante, eles agora estão usando sua influência para impedir precisamente os tipos de reformas que são necessários e urgentes para tirar a economia da queda livre.

Não espanta, pois, que um artigo no New York Times de domingo sobre a resposta que o presidente Barack Obama receberá na Europa tenha sido intitulado “Capitalismo de Fala Inglesa em Julgamento”.

Agora, a bem da verdade, é preciso dizer que os EUA não foram o único país onde os bancos extrapolaram. Muitos líderes europeus ainda se recusam a admitir os problemas econômicos e financeiros do continente que são, provavelmente, tão profundos como os nossos – embora as redes de segurança social muito mais sólidas de suas nações signifiquem que nós provavelmente experimentaremos um sofrimento humano maior. Seja como for, é um fato que a crise custou aos EUA muito de sua credibilidade, e, com ela, muito de sua capacidade de liderar.

E isso é uma coisa muito ruim.

Como muitos outros economistas, venho reavaliando a Grande Depressão à procura de lições que possam nos ajudar a evitar uma repetição. E uma coisa que se destaca da história do início dos anos 1930 é a extensão em que a resposta mundial à crise foi debilitada pela incapacidade de cooperar das principais economias do mundo.

Os detalhes de nossa crise atual são muito diferentes, mas a necessidade de cooperação não é menor. Obama captou isso com extrema correção na semana passada, quando declarou: “Nós todos vamos ter de dar passos para levantar a economia. Não queremos uma situação em que alguns países façam esforços extraordinários e outros países não”. Essa é, contudo, a precisa situação em que nos achamos. Eu acredito que mesmo os esforços econômicos dos EUA não são adequados, mas eles têm sido bem maiores que a maioria dos outros países ricos têm se mostrado disposta a fazer. E a cúpula do G-20 desta semana seguramente será uma ocasião para Obama repreender e espicaçar os líderes europeus, em particular, para que estes joguem seu peso na solução da crise.

Mas os líderes estrangeiros não se mostram hoje muito dispostos a ser censurados por autoridades americanas, mesmo quando – como neste caso – os americanos estão certos.

A crise tem causado muitos prejuízos. E um deles são os danos à reputação dos EUA, um ativo que perdemos no exato momento em que nós, e o mundo, mais precisamos dele.

*Paul Krugman é articulista

24/03/2009 - 10:36h Plano Geithner: Política financeira do desespero

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Paul Krugman, THE NEW YORK TIMES * – O Estado SP

No fim de semana, The Times e outros jornais noticiaram os detalhes, que haviam vazado, do plano de salvamento dos bancos elaborado pelo governo Obama. Se os artigos estiverem corretos, o secretário do Tesouro, Tim Geithner, convenceu o presidente Barack Obama a reciclar a política do governo Bush – especificamente, o plano “cash for trash” (dinheiro por lixo) abandonado, há seis meses, pelo então secretário do Tesouro, Henry Paulson.

É mais do que uma decepção. Na realidade, isso me enche de desespero. Afinal, acabamos de passar pela tempestade provocada pelas bonificações pagas pela AIG aos seus executivos. Ao mesmo tempo, o governo não conseguiu dirimir as indagações a respeito do que os bancos estão fazendo com o dinheiro dos contribuintes.

E agora Obama aparentemente montou um plano financeiro que, em essência, pressupõe que os bancos são fundamentalmente sadios e que os banqueiros sabem o que estão fazendo. É como se o presidente estivesse determinado a confirmar a crescente percepção de que ele e sua equipe econômica não têm senso de realidade, que sua visão econômica está obnubilada por vínculos excessivamente estreitos com Wall Street. Quando Obama se der conta de que precisa mudar de curso, seu capital político talvez já tenha desaparecido.

Falemos um pouco da situação. Neste exato momento, nossa economia é arrastada para o buraco por um sistema financeiro deficiente, paralisado pelas enormes perdas dos títulos atrelados a hipotecas e outros ativos. Como os especialistas em História da economia poderão explicar, é uma situação que continua se repetindo, em nada diferente de dezenas de outras crises semelhantes ocorridas ao longo dos séculos. Existe um procedimento consagrado pela prática para tratar dos efeitos de uma crise financeira abrangente: o governo assegura a confiança no sistema garantindo muitas dívidas dos bancos. E, ao mesmo tempo, assume o controle temporário dos bancos, para limpar seus livros contábeis.

É o que a Suécia fez no início dos anos 90. É também o que nós fizemos depois da debacle das instituições de poupança e empréstimos dos anos Reagan. Não há motivo para, agora, não fazermos a mesma coisa.

Mas o governo Obama, como o do Bush, aparentemente procura uma saída mais fácil. O elemento comum aos planos de Paulson e de Geithner é a insistência em que os ativos podres valem muito mais do que qualquer um está disposto a pagar. E, portanto, o plano deve usar o dinheiro dos contribuintes para que os preços dos ativos podres cheguem a níveis “justos”. Paulson propôs que o governo pagasse diretamente pelos ativos. Geithner propõe um esquema complicado, segundo o qual o governo empresta dinheiro a investidores privados, que o usam para comprá-los. A ideia, afirma o principal assessor econômico de Obama, é usar “a capacidade e a experiência do mercado” para estabelecer o valor dos ativos tóxicos.

Mas o plano de Geithner oferece uma aposta segura: se os valores dos ativos subirem, os investidores lucrarão, mas se caírem, abandonarão a dívida. Portanto, não se trata de deixar que os mercados façam seu trabalho. Trata-se de uma forma indireta de subsidiar.

Deixando de lado o custo provável da operação para os contribuintes, há algo estranho ocorrendo. Na minha opinião, é a terceira vez o governo Obama lança um remanejamento do plano Paulson, cada vez acrescentando coisas supérfluas e garantindo que estão fazendo algo completamente diferente.

Mas o problema real é que não funcionará. Sim, os ativos podres talvez sejam um tanto subvalorizados. O fato é que os executivos do setor financeiro apostaram literalmente seus bancos na convicção de que não havia bolha da habitação e na crença de que níveis de endividamento sem precedentes com a compra da casa própria não constituíam nenhum problema. Perderam a aposta. E nenhuma mágica financeira – pois o plano de Geithner não passa disso – poderá mudar esse fato.

Perguntarão: por que não adotar o plano e ver o que acontece? Uma resposta é que o tempo está se esgotando: a cada mês que passa sem que se encontre uma solução para a crise financeira, mais 600 mil empregos serão eliminados.

Mas o mais importante é que Obama está desperdiçando sua credibilidade. Se seu plano falhar – como quase certamente falhará – é improvável que consiga convencer o Congresso a desembolsar mais recursos para fazer o que ele deveria ter feito logo de início.

Entretanto, nem tudo está perdido: o público quer que Obama consiga o que pretende; o que significa que ele ainda pode salvar seu plano de ajuda aos bancos. Só que o tempo está se esvaindo muito depressa.

*Paul Krugman é articulista

24/03/2009 - 10:06h Pacote de Obama é alternativa à estatização

Detalhes do plano de Geithner afastam por enquanto o temor de soluções radicais temidas pelos investidores

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Secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner

Fernando Dantas – O Estado SP

O mercado respirou aliviado ontem, com o sinal de que o governo americano finalmente fez uma opção firme sobre a direção a tomar para superar a gravíssima crise financeira, optando por uma solução de mercado e não estatizante para lidar com o problema trilionário dos ativos tóxicos.

“Havia uma crítica de que faltava diagnóstico, ação e consenso político, e hoje nós começamos a ver algum movimento, o que é positivo”, analisou Beny Parnes, diretor-executivo do Banco BBM e ex-diretor do Banco Central (BC). Ele ressalva, porém, que “o problema é complexo e de solução muito demorada”. Para Parnes, ainda não está claro se a velocidade de execução do plano, se ele tiver de fato a adesão do setor privado, será suficiente para conter a queda na economia real.

Há quase um consenso entre economistas e participantes do mercado de que o problema dos ativos tóxicos – rebatizados como ativos “legados” ou “herdados” (o que significa o rescaldo ruim do passado recente) – é o principal nó da crise global. “Este plano revela os preços (dos ativos) e injeta liquidez nos bancos, com um pouco de incentivo aos investidores (privados)”, diz o economista Otaviano Canuto, que está em transição de uma vice-presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para uma do Banco Mundial.

O plano de Geithner é criar vários fundos que disputarão as carteiras de crédito e os títulos de securitização de crédito considerados tóxicos. Esses fundos serão parcerias público-privadas, em que o investidor e o Tesouro dividem o capital em 50%. O detalhe crucial, porém, é que, para comprar os ativos tóxicos, no caso das carteiras de crédito, o investidor recebe empréstimos do governo garantidos pela Corporação de Seguro de Depósito Federal (FDIC, na sigla em inglês).

No exemplo do próprio Tesouro, o investidor que arriscar US$ 6 poderia alavancar, em parceria com o Tesouro, US$ 84. Mas perderá, no máximo, os US$ 6 iniciais. “Se o fundo perder tudo, US$ 72 serão prejuízo do contribuinte”, explica um analista de banco.

Essa abordagem, em que o governo estimula o próprio setor privado a comprar os ativos tóxicos, tira de cena – pelo menos por enquanto – as hipóteses de nacionalização ou da formação do chamado “banco ruim” ou “agregador”, onde seriam jogados todos os ativos podres. Tanto num caso como no outro, é provável que os credores dos bancos tivessem perdas ou fossem forçados a converter os créditos em capital (o que também prejudica os acionistas atuais, pela diluição).

A circulação dessas hipóteses de uma abordagem mais traumática da crise bancária pelo governo Obama, nos últimos meses, é um dos fatores que explicam a queda das ações dos bancos a níveis ínfimos.

18/03/2009 - 11:40h Krugman vê um ‘colapso coordenado’

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Bloomberg – VALOR

O Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman disse que o mundo atravessa um “colapso mundial coordenado”, cuja aparência “é pior na Europa e no Japão” do que nos Estados Unidos.

“O que começou como uma recessão relativamente branda” nos EUA “se tornou uma queda vertical”, disse Krugman em evento realizado em Bruxelas. “Esta é uma crise que está afetando gravemente a indústria de transformação.”

Krugman, que defendeu o aumento dos incentivos fiscais, disse que os instrumentos convencionais dos BCs não são suficientes para revitalizar o crescimento da economia. O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, e o do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA), Ben S. Bernanke, “não conseguem empregar suas ferramentas convencionais para enfrentar o colapso” econômico, disse o economista, da Universidade de Princeton.

Para o BCE, “toda a base intelectual do euro repousa na hipótese de que a política monetária pode, por si só, dar conta do recado”, disse Krugman. “O BCE ainda não cortou tudo o que podia (em termos de juros), mas ficarei surpreso se não acabar fazendo isso.”

“Trichet ainda está dizendo que não há risco de deflação na Europa, afirmação que, na minha opinião, expressa um estranho excesso de autoconfiança”, disse Krugman.

“Os Estados Unidos não estão fazendo o suficiente para combater a crise e a Europa está fazendo um pouco menos da metade do realizado pelos Estados Unidos”, disse Krugman. “Corremos um grave perigo.”