13/06/2009 - 20:32h O amor é uma companhia

Fernando Pessoa

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro, um dos heterónimos de Fernando António Nogueira Pessoa (n. em Lisboa a 13 Jun. 1888 — m. em Lisboa a 30 de Nov. de 1935). Fonte Nothingandall

13/06/2009 - 18:00h Um dia cheio

Blog Nothingandalle

13 de Junho – Um dia cheio: Santo António, Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Álvaro Cunhal, etc.

Pintura de Vieira da SilvaLissue Lumineuse
Vieira da Silva (n. em Lisboa 13 Jun 1908 -m. Paris 6 Mar. 1992)

13 de Junho é feriado em Lisboa (e noutras localidades portuguesas: Aljustrel, Cascais, Vila Nova de Famalicão e Vila Real), porque é Dia de Santo António de Lisboa (ou de Pádua) dia em que o santo português Santo António (Fernando de Bolhões) faleceu no ano de 1231.

Há 121 anos (13.06.1888) nasceu o grande poeta português Fernando Pessoa… tão grande que não coube em si próprio e teve de criar vários:
«Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim como em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive»

«(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)»

Excerto de Tabacaria

Há quatro anos atrás 13.06.2005 morreu outro grande poeta português Eugénio de Andrade, de quem transcrevemos de seguida o poema Adeus:

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus. »

Neste dia 13 de Junho mas do ano de 1908 nascia em Lisboa a pintora mais tarde naturalizada francesa, Maria Helena Viewira da Silva.

Há 51 anos (com 60 de vida) faleceu Vasco Santana, figura ímpar do nosso cinema.

Mas este é um dia de poetas Al berto outro poeta e editor português faleceu neste dia do ano de 1997. No mesmo dia da morte de Eugénio de Andrade (13.06.2005) falecia também o político português Álvaro Cunhal. Também em 13 de Junho mas de 1984 desaparecia António Variações e nove anos mais tarde a grande fadista Hermínia Silva. Há onze anos anos desapareceu o arquitecto brasileiro Lúcio Costa. Há treze o músico americano Benny Goodman e um ano depois a actriz americana Geraldine Page.

Mas muito mais ocorreu neste dia podendo saber (quase tudo) o que aconteceu aqui On this day in History

Seja ou não feriado para si, tenha um bom dia, com sorrisos, flores, e … poesia!

16/05/2009 - 20:27h Todas as cartas de amor…

Fernando Pessoa


(Poesias de Álvaro de Campos)

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos, 21/10/1935

Uma visão breve sobre a vida e a obra do maior poeta da língua portuguesa: 1888: Nasce Fernando Antônio Nogueira Pessoa, em Lisboa. – 1893: Perde o pai. – 1895: A mãe casa-se com o comandante João Miguel Rosa. Partem para Durban, África do Sul. – 1904: Recebe o Premio Queen Memorial Victoria, pelo ensaio apresentado no exame de admissão à Universidade do Cabo da Boa Esperança. – 1905: Regressa sozinho a Lisboa. – 1912: Estréia na Revista Águia. – 1915: Funda, com alguns amigos, a revista Orpheu. – 1918/21: Publicação dos English Poems. – 1925: Morre a mãe do poeta. – 1934: Publica Mensagem. – 1935: Morre de complicações hepáticas em Lisboa.


Os versos acima, escritos com o heterônimo de Álvaro de Campos, foram extraídos do livro “Fernando Pessoa – Obra Poética”, Cia. José Aguilar Editora – Rio de Janeiro, 1972, pág. 399. Fonte Releituras

16/03/2009 - 18:40h Ode marítima

http://france.jeditoo.com/Paca/Picts/Marseille/peintures/Bernard%20buffet%20Marseille%20vallon%20des%20Auffes%201993.jpg
Marseille vallon des Auffes de Bernard Buffet

Fernando Pessoa

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

Ah, quem sabe, quem sabe,
Se não parti outrora, antes de mim,
Dum cais; se não deixei, navio ao sol
Oblíquo da madrugada,
Uma outra espécie de porto?
Quem sabe se não deixei, antes de a hora
Do mundo exterior como eu o vejo
Raiar-se para mim,
Um grande cais cheio de pouca gente,
Duma grande cidade meio-desperta,
Duma enorme cidade comercial, crescida, apopléctica,
Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo?


Tradução ao francês

Ah, tout quai est une saudade en pierre !
Et quand le navire se détache du quai
Et que l’on remarque d’un coup que s’est ouvert un espace
Entre le quai et le navire,
Il me vient, je ne sais pourquoi, une angoisse toute neuve,
Une brume de sentiments de tristesse
Qui brille au soleil de mes angoisses couvertes de gazon
Comme la première fenêtre où l’aurore vient battre,
Et qui m’entoure comme un souvenir d’une autre personne
Qui serait mystérieusement à moi.

Ah, qui sait, qui sait,
Si je ne suis pas déjà parti jadis, bien avant moi,
D’un quai ; si je n’ai pas déjà quitté, navire sous le soleil
Oblique de l’aurore,
Une autre sorte de port ?
Qui sait si je n’ai pas déjà quitté, avant l’heure
Du monde extérieur tel que je le vois
S’éclaircir à mes yeux,
Le grand quai plein de peu de gens,
D’une grande ville à demi éveillée,
D’une énorme ville commerciale, hypertrophiée, apoplectique
Autant qu’il est possible hors de l’Espace et hors du Temps ?

Fernando Pessoa, Ode Maritime, traduction de Patrick Quillier, en collaboration avec Maria Antonia Câmara Manuel et Michel Chandeigne, in Œuvres poétiques, Bibliothèque de la Pléiade, 2001, p. 214

24/11/2008 - 18:23h Reparação poética

Blog do Além – Carta Capital

A coluna Blogs do Além, criada pelo publicitário Vitor Knijnik e que estreou na edição 500 de CartaCapital, procura imaginar como seriam as páginas pessoais de personalidades do passado.

Chega a vez de um dos mais importantes poetas portugueses inaugurar seu diário virtual. Bem-humorado, Fernando Pessoa se apresenta: “uma espécie de Cristiano Ronaldo da poesia portuguesa, só que sem essa coisa de metrossexual, porque de frescura já basta a poesia”.

No seu primeiro post, intitulado “Reparação Poética”, Pessoa afirma não haver mais espaço para a poesia neste mundo. “Não enquanto existirem advogados e o politicamente correto. Depois de longas batalhas judiciais, o Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa a uma associação de poetas que me acusou de difamar os que têm por ofício fazer versos”.

Sobre mim

Reparação poética

Não há mais lugar para a poesia neste mundo. Não enquanto existirem advogados e o politicamente correto. Depois de longas batalhas judiciais, o Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa a uma associação de poetas que me acusou de difamar os que têm por ofício fazer versos.
Vocês devem se lembrar do poema que serviu para a acusação:

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Esse episódio vem me causando muito desassossego. Realmente, é desafiador fazer poemas dentro desses novos requisitos sociais. Mas não me resta outra escolha. Até porque a sentença me obrigou a reescrever o primeiro verso, que causou tanta celeuma.

Alguns poetas, no intuito de transmitir certos sentimentos, podem, de certa maneira, simular algum desconforto ou dor que eles realmente não estão sentindo. Às vezes nem é por mal. É inconscientemente, mesmo. Só que essa simulação – repito que isso pode acontecer com alguns poetas, e não com a maioria – pode ser tão perfeita, mas tão perfeita, que esse desconforto ou dor passam a ser sentidos de verdade verdadeira por quem fabricou aqueles sentimentos não fabricáveis. Essa dor, inclusive, se persistir, deve ser examinada por um médico especializado. Pois bem: aquilo que tinha começado como uma dor de mentirinha e que depois virou uma dor de verdade, no fundo dos fundilhos era uma dor que já existia como dor, sendo que em nenhum momento o tal poeta dolorido sequer pensou em provocar dor em mais alguém a não ser nele mesmo. Coitado.

Reconheço que perdeu um pouco da graça, mas ficou mais popular, pode até ser adaptado para uma mini-série da Record.

22/09/2008 - 22:37h É necessário ser um

Rodin Fugit amor (detalhe)

http://www.musee-rodin.fr/images/imagra/s1154.jpg

Enquanto não superarmos
a ânsia do amor sem limites,
não podemos crescer
emocionalmente.

Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos
a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes, é
necessário ser um.

(O poema, segundo leitores, não seria de Fernando Pessoa como indicado no site de onde foi reproduzido).

21/09/2008 - 18:53h Uma maior solidão

Edward Hopper, Nighthawks, Noctambules, Noctâmbulos, Noctámbulos, 1942

nighthawks.jpg

por Fernando Pessoa

Uma maior solidão
Lentamente se aproxima
Do meu triste coração.

Enevoa-se-me o ser
Como um olhar a cegar,
A cegar, a escurecer.

Jazo-me sem nexo, ou fim…
Tanto nada quis de nada,
Que hoje nada o quer de mim.

Fernando Pessoa, 23-10-1931

13/06/2008 - 16:22h Aniversário

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© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr

Aniversário

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[473]

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

15/10/1929

Uma visão breve sobre a vida e a obra do maior poeta da língua portuguesa:

- 1888: 11 de junho Nasce Fernando Antônio Nogueira Pessoa, em Lisboa.

- 1893: Perde o pai.

- 1895: A mãe casa-se com o comandante João Miguel Rosa. Partem para Durban, África do Sul.

- 1904: Recebe o Prêmio Queen Memorial Victoria, pelo ensaio apresentado no exame de admissão à Universidade do Cabo da Boa Esperança.

- 1905: Regressa sozinho a Lisboa.

- 1912: Estréia na Revista Águia.

- 1915: Funda, com alguns amigos, a revista Orpheu.

- 1918/1921: Publicação dos English Poems.

- 1925: Morre a mãe do poeta.

- 1934: Publica Mensagem.

- 1935: Morre de complicações hepáticas em Lisboa.

Os versos acima, escritos com o heterônimo de Álvaro de Campos, foram extraídos do livro “Fernando Pessoa – Obra Poética”, Cia. José Aguilar Editora – Rio de Janeiro, 1972, pág. 379.

© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr