02/08/2012 - 13:46h Constrangimentos no mensalão

2/08/2012

Paulo Moreira Leite – Revista Época

Sabemos que os esquemas financeiros da política brasileira são condenáveis por várias razões, a começar pela principal: permitem ao poder econômico alugar o poder político para que possa atender a seus interesses. Os empresários que contribuem com campanhas financeiras passam a ter deputados, senadores e até governos inteiros a seu serviço, o que é lamentável. O cidadão comum vota uma vez a cada quatro anos. Sua força é de 1 em 100 milhões. Já o voto de quem sustenta os políticos é de 100 milhões contra 1.

Por isso sou favorável a uma mudança nas regras de campanha, que proíba ou pelo menos controle essa interferência da economia sobre a política. Ela é, essencialmente, um instrumento da desigualdade. Contraria o princípio democrático de que 1 homem equivale a 1 voto.

Pela mesma razão, eu acho que todos os fatos relativos ao mensalão petista precisam ser esclarecidos e examinados com serenidade. Casos comprovados de desvios de recursos públicos devem ser punidos. Outras irregularidades também não devem passar em branco.

Não vale à pena, contudo, fingir que vivemos entre cidadãos de laboratório. Desde a vassoura da UDN janista os brasileiros têm uma longa experiência com campanhas moralizantes para entender um pouco mais sobre elas. Sem ir ao fundo dos problemas o único saldo é um pouco mais de pirotecnia.

No tempo em que Fernando Henrique Cardoso era sociólogo, ele ensinava que a opinião pública não existe. O que existe, explicava, é a “opinião publicada.” Esta é aquela que você lê.

O julgamento do mensalão começa em ambiente de opinião publicada. O pressuposto é que os réus são culpados e toda deliberação no sentido contrário só pode ser vista como falta de escrúpulo e cumplicidade com a corrupção.

Num país que já julgou até um presidente da República, é estranho falar que estamos diante do “maior julgamento da história.” É mais uma opinião publicada. Lembro dos protestos caras-pintadas pelo impeachment de Collor. Alguém se lembra daquela da turma do “Cansei”?

Também acho estranho quando leio que o mensalão foi “revelado” em junho de 2005. Naquela data, o deputado Roberto Jefferson deu a entrevista à Folha onde denunciou a existência do “mensalão” e disse que o governo pagava os deputados para ter votos no Congresso. Falou até que eles estavam fazendo corpo mole porque queriam ganhar mais.

Anos mais tarde, o próprio deputado diria – falando “a Justiça, onde faltar com a verdade pode ter mais complicações – que o mensalão foi uma “criação mental”. Não é puro acaso que um número respeitável de observadores considera que a existência do mensalão não está provada.

A realidade é que o julgamento do mensalão começa com um conjunto de fatos estranhos e constrangedores. Alguns:

1. Roberto Jefferson continua sendo apresentado com a principal testemunha do caso. Mas isso é o que se viu na opinião publicada. Na opinião não publicada, basta consultar seus depoimentos à Justiça, longe dos jornais e da TV, para se ouvir outra coisa. Negou que tivesse votado em projetos do governo por dinheiro. Jurou que o esquema de Delúbio Soares era financiamento da campanha eleitoral de 2004. Lembrou que o PTB, seu partido, tem origens no trabalhismo e defende os trabalhadores, mesmo com moderação. Está tudo lá, na opinião não publicada. Ele também diz que o mensalão não era federal. Era municipal. Sabe por que? Porque as eleições de 2004 eram municipais e o dinheiro de Delúbio e Marcos Valério destinava-se a essa campanha.

2. Embora a opinião publicada do procurador geral da República continue afirmando que José Dirceu é o “chefe da quadrilha” ainda é justo esperar por fatos além de interpretações. Deixando de lado a psicologia de botequim e as análises impressionistas sobre a personalidade de Dirceu é preciso encontrar a descrição desse comportamento nos autos. Vamos falar sério: nas centenas de páginas do inquérito da Polícia Federal – afinal, foi ela quem investigou o mensalão – não há menção a Dirceu como chefe de nada. Nenhuma testemunha o acusa de ter montado qualquer esquema clandestino para desviar qualquer coisa. Nada. Repito essa versão não publicada: nada. São milhares de páginas. Nada entre Dirceu e o esquema financeiro de Delúbio.

3. O inquérito da Polícia Federal ouviu 337 testemunhas. Deputados e não deputados. Todas repetiram o que Jefferson disse na segunda vez. Nenhuma falou em compra de votos para garantir votos para o governo. Ou seja: não há diferença entre testemunhas. Há concordância e unanimidade, contra a opinião publicada.

4. A opinião publicada também não se comoveu com uma diferença de tratamento entre petistas e tucanos que foram agrupados pelo mesmo Marcos Valério. Como Márcio Thomaz Bastos deve lembrar no julgamento, hoje, os tucanos tiveram direito a julgamento em separado. Aqueles com direito a serem julgados pelo STF e aqueles que irão para a Justiça comum. De ministros a secretárias, os acusados do mensalão petista ficarão todos no mesmo julgamento. A pouca atenção da opinião publicada ao mensalão mineiro dá a falsa impressão de que se tratava de um caso menor, com pouco significado. Na verdade, por conta da campanha tucana de 1998 as agências de Marcos Valério recebiam verbas do mesmo Banco do Brasil que mais tarde também abriria seus cofres para o PT. Também receberam aqueles empréstimos que muitos analistas consideram duvidosos, embora a Polícia Federal tenha concluído que eram para valer. De acordo com o Tribunal de Contas da União, entre 2000 e 2005, quando coletava para tucanos e petistas, o esquema de Marcos Valério recebeu R$ 106 milhões. Até por uma questão de antiguidade, pois entrou em atividade com quatro anos de antecedência, o mensalão tucano poderia ter preferência na hora de julgamento. Mas não. Não tem data para começar. Não vai afetar o resultado eleitoral.

É engraçada essa opinião publicada, concorda?

22/05/2012 - 10:58h FHC defende regulação dos meios de comunicação

João Brant – para o Observatório do Direito à Comunicação

17.05.2012

O título, o ambiente e o programa sugeriam que o seminário “Meios de comunicação e democracia na América Latina”, realizado no último dia 15 no Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC), seria um palco para a cantilena contra a regulação do setor e de crítica feroz às iniciativas em curso em países da região. Mas não foi esse o tom predominante.

Com a participação de ex-presidentes da Bolívia e do Equador e um ex-porta voz da presidência do México, além do jornalista brasileiro Eugênio Bucci, o debate foi marcado principalmente por duas preocupações. De um lado, o desafio de manter um jornalismo investigativo independente em um cenário de enfraquecimento dos meios tradicionais. De outro, uma afirmação quase uníssona sobre a necessidade de regulação democrática do setor, resumida pelo ex-presidente Fernando Henrique, presente ao evento: “não há como regular adequadamente a democracia sem regular adequadamente os meios de comunicação”.

Regulação em pauta

O seminário promoveu o lançamento do livro “Meios de comunicação e democracia: além do Estado e do Mercado” uma publicação conjunta do iFHC, Centro Edelstein de Pesquisas Sociais e do projeto Plataforma Democrática. A publicação é em boa parte pautada pela discussão sobre medidas de regulação dos meios de comunicação. O primeiro texto é de autoria dos argentinos Guillermo Mastrini e Martin Becerra, professores que estudam a concentração do setor na América Latina e que apoiaram a redação da lei de comunicação audiovisual aprovada no país em 2009.

No livro, o organizador da publicação, o sociólogo Bernardo Sorj, avalia que “generalizações sobre a América Latina mascaram realidades muito diferentes” e que “não é demais lembrar que qualquer legislação deverá orientar-se em primeiro lugar pelo objetivo de garantir a liberdade de expressão dos cidadãos frente ao poder do Estado e ao poder econômico”.

Na abertura do seminário, Sorj apresentou uma leitura dos contextos político e dos meios de comunicação e listou algumas das ações necessárias para alterar o quadro atual. No contexto político, o sociólogo identificou três elementos centrais: um sistema legal precário, uma crise de representação dos partidos e das ideologias políticas que valoriza o papel dos meios e a exigência de uma nova regulação dos meios em função da convergência tecnológica. Em relação ao contexto dos meios de comunicação, o sociólogo destacou a inexistência ou baixa audiência de emissoras públicas, sistemas regulatórios ultrapassados e nem sempre aplicados e uma tendência à concentração de propriedade.

As propostas apresentadas por ele reforçam a necessidade de regulação do setor privado e da ação do poder público e se assemelham em boa parte às apresentadas por setores que defendem a democratização da comunicação. Entre elas, o enfrentamento à concentração, o fortalecimento do sistema público e o apoio a pequenas e médias empresas de comunicação [ver lista completa ao final da  matéria].

Crise de valores dos meios

As apresentações trouxeram abordagens complementares da relação entre meios de comunicação e democracia. Carlos Mesa, ex-presidente boliviano, salientou uma espiral de perda de valores que vivem os meios de comunicação e seus dirigentes. Ele comparou a crise da mídia com a crise do sistema financeiro, que descreveu como “uma orgia obscena do capitalismo”. Essa crise seria fruto de uma dificuldade de se situar em um cenário de organização da informação que tem a frivolidade como elemento central. “A mídia é protagonista e fiscalizadora, juiz e parte. Mas seu poder não vem acompanhado de responsabilidade”, observou.

Carlos Mesa repercutiu uma questão que atravessou todo o seminário, que é atual dificuldade financeira para sustentar o jornalismo investigativo. O problema, segundo ele, é que “apesar de vários meios impressos tradicionais terem uma grande audiência na internet, essa audiência não se transforma em recursos financeiros”. O desafio, portanto, seria garantir ao mesmo tempo credibilidade e capacidade de infraestrutura no novo cenário.

Conhecido por defender os interesses das elites bolivianas, Mesa não deixou de expor suas convicções. Ao discutir a necessidade de regulação da comunicação, o ex-presidente ressaltou que é preciso reconhecer que pode haver diferentes tipos de regulação e criticou a reserva de espectro realizada na Argentina, Uruguai e Bolívia. “Em meu país, um terço das frequências de rádio e TV está reservado para povos indígenas e originários e setores comunitários. O que eles farão com isso?”, perguntou ironicamente.

As observações do mexicano Rubén Aguilar, ex-porta voz de Vicente Fox (presidente entre 2000 e 2006), focaram-se mais na promiscuidade dos meios de comunicação e do Estado em seu país. Aguilar descreveu a relação entre as partes como sendo historicamente pautada pelas negociações financeiras, tendo mudado pouco nas últimas décadas. “Antes o governo pagava, agora os meios cobram”, observa Rubén.

Para ele, a marginalidade da imprensa escrita – o maior jornal da cidade do México tem tiragem de 100 mil exemplares – concentra muito poder no rádio e na televisão, o que se agrava pelo fato de que dois grupos econômicos controlam a maioria dos meios eletrônicos. “Vivemos uma situação hoje em que não há conflitos entre poder e meios de comunicação. Isso é muito ruim para a democracia”. Aguilar também defendeu abertamente a necessidade de regulação do setor.

A apresentação de Osvaldo Hurtado, ex-presidente do Equador, foi a única que se centrou no discurso recorrente que identifica ameaças à liberdade de imprensa nas ações de presidentes latino-americanos. Em sua mira, Rafael Correa, Evo Morales, Hugo Chávez e Daniel Ortega. Hurtado, que presidiu o Equador no início da década de 1980, focou-se especialmente nas críticas às ações de Correa, sugerindo inclusive que a sentença que ordenou ao jornal El Universo o pagamento de US$ 40 milhões de indenização a Correa teria sido redigida dentro do palácio presidencial do Equador.

Problemas brasileiros

Ao tratar do caso brasileiro, o jornalista Eugênio Bucci avaliou que a discussão no país está dificultada por duas irracionalidades: uma de matriz de direita, que diz que nenhuma regulação é necessária; outra, de matriz de esquerda, que defende a regulação por um desejo de censurar os meios. Para Bucci, a regulação é necessária, especialmente para enfrentar três gargalos: a confusão entre religião, meios e partidos; a presença possível de monopólios e oligopólios e o abuso das verbas dedicadas à publicidade oficial. Em sua opinião, os governos deveriam ser proibidos de anunciar, porque as verbas “dão espaço para proselitismo oficial com dinheiro público”.

No debate ao final das apresentações, o cientista político Sérgio Fausto lamentou que o Brasil não tenha a cultura do debate racional e prefira a confrontação de opiniões dogmáticas fechadas. Fausto avalia que essa seria a dificuldade de a internet substituir o papel dos meios tradicionais. “A democracia do acesso gera também a corrosão de valores fundamentais sem os quais poderemos ter mais vozes e menos democracia”, disse Fausto, que é também diretor executivo do instituto FHC.

A crítica mais contundente ao sistema de comunicações brasileiro veio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Em seus comentários, FHC criticou especialmente a ausência de pluralismo. “Os meios de comunicação no Brasil não trazem o outro lado. Isso não se dá por pressão de governo, mas por uma complexidade de nossa cultura institucional”, disse FHC. “Nós temos toda a arquitetura democrática, menos a alma”.

FHC afirmou ainda que é preciso lutar pelos mecanismos de regulação que permitam a diversidade. Para ele, “não há como regular adequadamente a democracia sem regular adequadamente os meios de comunicação”.


Sumário das propostas apresentadas na introdução do livro “Meios de comunicação e Democracia: além do Estado e do Mercado”, organizado por Bernardo Sorj, publicado pelo Instituto FHC, Centro Eldenstein e Plataforma Democrática:

Regulação da ação do poder público
1. A distribuição de concessões de rádio e televisão deve passar pela criação de uma agência reguladora que aja com transparência e cujas decisões sejam abertas ao debate e escrutínio público.
2. Garantir a autonomia dos canais ou emissoras públicas direta ou indiretamente dependentes de recurso público.
3. O uso e a distribuição da dotação pública para publicidade oficial devem ser transparentes e politicamente neutros.
4. O favorecimento de certos meios, quando realizado em nome do apoio a pequenas e médias empresas de comunicação, deve ser realizado com critérios transparentes e universais, abertos ao debate e ao escrutínio público.
5. A liberdade de informação inclui a obrigação dos governos de informar.
6. Garantir o acesso público aos conteúdos sem que eles sejam parasitados por sites comerciais e garantir a neutralidade da Rede.

Regulação do setor privado
1. Combater a concentração de propriedade dos meios privados, pela ação de agências reguladoras autônomas do poder governamental (não confundir a extrema concentração com a existência de grupos de mídia economicamente sólidos).
2. Garantir a sustentabilidade do jornalismo investigativo, pela sua importância para o sistema democrático.
3. Políticas públicas para favorecer o pluralismo, com política de apoio universal ao surgimento de novos jornais e subsídios que diminuam os custos de entrada no setor.
4. Conscientizar a sociedade sobre a importância de ter acesso à informação e ser capaz de realizar uma leitura crítica da informação recebida.

28/02/2012 - 09:46h Para FHC, disputa em SP ‘revitaliza’ Serra e não o tira do páreo presidencial

Ex-presidente acha correta decisão do tucano de candidatar-se à Prefeitura; ‘Não significa que ele não possa ser outra coisa’

28 de fevereiro de 2012

GUSTAVO CHACRA, CORRESPONDENTE / NOVA YORK – O Estado de S.Paulo

A candidatura de José Serra à Prefeitura de São Paulo permitirá a ele “voltar à cena política com força” e foi a decisão mais adequada para o ex-governador e para o PSDB, afirmou ontem o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em entrevista exclusiva ao Estado. “Dá a chance para o partido ganhar e dá a ele uma revitalização política”, analisou o ex-presidente.

Segundo FHC, a eleição para prefeito não significa que o ex-governador abandona o projeto de disputar a Presidência no futuro. “Política é uma coisa muito dinâmica. Tem sempre a cláusula de prudência. Política não é uma coisa em que os horizontes se fecham”, disse, ao comentar sobre a possibilidade de o tucano, mais uma vez, deixar um cargo para se candidatar a outro, como aconteceu quando era prefeito e governador de São Paulo.

O ex-presidente falou com o Estado em Nova York, onde lidera uma comitiva de 12 CEOs de empresas brasileiras ligadas à Comunitas, entidade criada por Ruth Cardoso para incentivar o investimento social corporativo.

O anúncio da candidatura de José Serra à Prefeitura não esvazia as prévias do PSDB?

Não estou no Brasil e não acompanhei de perto esta evolução. Quem está coordenando é o governador Geraldo Alckmin. Agora, o peso eleitoral do Serra é de tal magnitude que eu acho que o partido vai se ajustar à realidade política.

Mas não faltam caras novas no PSDB? Afinal, há anos Serra e o Alckmin se revezam em candidaturas em São Paulo. O PT tenta essa renovação agora com Fernando Haddad.

As prévias foram uma tentativa nesta direção. Mas quando você tem alguém com a densidade política do Serra, que se disponha a ser candidato a prefeito, do ponto de vista do PSDB há uma importância estratégica porque existe realmente viabilidade de ganhar São Paulo.

O sr. mencionou que o senador Aécio Neves (MG) é o candidato óbvio do PSDB para 2014.

Foi uma pergunta feita pela revista The Economist: quem é o candidato óbvio? Eu respondi que o Serra vai sair candidato, não vai desistir. E eles perguntaram quem seria o outro. É o Aécio. É uma coisa que todo o mundo sabe. São os dois que estão despontando com mais força.

Mas com o Serra se candidatando a prefeito…

Abre espaço para uma outra candidatura para presidente. Agora, sempre tem que colocar aquela cláusula de prudência. A política é muito dinâmica. O Serra pode ganhar ou pode perder. Nos dois casos, o fato de ele ser candidato agora reforça a presença dele como um líder. Todo líder político, enquanto quiser se manter ativo na política, tem de ter a expectativa de poder. Tem que ser candidato. Eu, por exemplo, quando deixei a Presidência, disse que não seria mais candidato a nada e não fui. Disse que estava saindo de cena. No começo, as pessoas não acreditaram. Como não sou ingênuo, ao tomar esta decisão, estava mesmo saindo de cena. Para quem não tomou esta decisão ainda, a melhor coisa a fazer é se candidatar. Você pode se candidatar em vários níveis. O Serra, ao tomar a decisão de se candidatar (para a Prefeitura), volta à cena política com força. Onde ele é necessitado neste momento? Onde o partido o vê com bons olhos neste momento? É aí (na Prefeitura). Isso significa que amanhã ele não pode ser outra coisa? Não.

Mas não pega mal para o Serra, que já foi prefeito uma vez e saiu para se candidatar (o tucano deixou a Prefeitura em 2006, para disputar a Presidência, e o governo do Estado, em 2010, para mais uma vez entrar na disputa presidencial)?

Ele vai tomar as precauções devidas porque ele tem de ganhar a eleição. Provavelmente ele vai reafirmar a disposição dele (de permanecer na Prefeitura). Mas não vi, não falei com ele. Política não é uma coisa em que o horizonte se fecha. De repente, o que estava fechado se abre. Acho que a decisão do Serra foi a mais adequada neste momento para ele e para o partido. Dá a chance para o partido ganhar e dá a ele uma revitalização política.

Mas para a Presidência, o Serra e o Aécio continuam sendo os dois nomes fortes do PSDB?

Eu acho que sim.


Tucano anuncia candidatura no Twitter; PSDB tenta adiar prévia

Serra deve enviar hoje carta ao diretório da sigla; executiva municipal quer postergar disputa interna para o dia 11 de março
28 de fevereiro de 2012

BRUNO BOGHOSSIAN, JULIA DUAILIBI, GUSTAVO URIBE / AGÊNCIA ESTADO – O Estado de S.Paulo

O ex-governador José Serra confirmou ontem querer ser candidato a prefeito de São Paulo. “Hoje (ontem) comunicarei por escrito à direção do PSDB de São Paulo minha disposição de disputar a Prefeitura”, escreveu no Twitter. Segundo a direção do PSDB municipal, a carta deve ser enviada apenas hoje.

Serra também anunciou apoio à prévia do partido para escolher o nome que disputará a eleição. Ele disse que sempre foi favorável ao processo interno. “E delas pretendo agora participar.”

Embora tenha usado o verbo “pretender”, o PSDB dá sua participação como certa, caso os outros concorrentes, o secretário José Aníbal (Energia) e o deputado Ricardo Tripoli, não desistam da prévia.

A decisão do tucano, antecipada pelo estadao.com.br na sexta-feira, deflagrou uma operação da direção do PSDB para postergar a eleição interna, marcada para domingo. Ontem, o presidente do PSDB paulistano, Julio Semeghini, entrou em contato com Aníbal e Tripoli, para pedir que aceitassem postergar a prévia em, pelo menos, uma semana.

A questão será debatida hoje em reunião da executiva municipal, para a qual Serra foi convidado. A tendência é que os tucanos ligados a ele e ao governador Geraldo Alckmin consigam aprovar o adiamento da prévia, já que têm a maioria dos 16 votos.

Um dos argumentos usados para convencer os tucanos ligados a Tripoli e Aníbal, que têm pelo menos sete votos na executiva, será o de que Serra participaria de dois debates. Ontem, no último encontro da série programada no ano passado, a proposta de adiamento foi rechaçada pelos pré-candidatos. “Podemos fazer um debate com Serra na quarta ou quinta desta semana”, afirmou Aníbal.

Nos últimos dois dias, os outros dois pré-candidatos, os secretários Andrea Matarazzo (Cultura) e Bruno Covas (Meio Ambiente), abriram mão da disputa interna. Depois que Serra mandar por escrito a carta informando querer participar da prévia, será feita a inscrição pela executiva, fora do prazo – a data final para isso era 14 de fevereiro.

Para Alckmin, a mudança na data é “irrelevante”. “Se é dia 4, se é dia 11, uma semana pra frente ou não, é irrelevante. A prévia existe se houver mais de um pré-candidato. A data é acessória.”

Vice. Ontem mesmo Serra manteve as articulações políticas em reuniões mantidas à noite, em seu escritório. O ex-governador já sonda os aliados sobre a indicação do vice. A chapa “puro-sangue”, defendida como forma de compor com os tucanos que abriram mão da prévia, tem sido bombardeada por aliados que também pleiteiam o cargo.

A dobradinha do PSDB, dizem os que são contra a puro-sangue, daria motivos para adversários alegarem que Serra não pretende cumprir os quatro anos de mandato, caso vença – em 2006, ele deixou a Prefeitura para disputar o governo estadual.

O PSD, do prefeito Gilberto Kassab, quer indicar o vice. O mais cotado é o secretário municipal de Educação, Alexandre Schneider. O DEM pleiteia a mesma indicação, alegando que era o acordo com Alckmin antes da entrada de Serra. O PPS, da pré-candidata Soninha Francine, também está no radar.

O vice-governador, Guilherme Afif Domingos (PSD), ressaltou que seu partido tem bons nomes para o posto. “Temos quadros que fizeram parte da administração Serra, mas não estamos colocando isso como condição”, salientou.

Além da questão da vice, os possíveis aliados de Serra questionam as vantagens de uma coligação na chapa proporcional com o PSD, que tem 11 vereadores. DEM e PSDB temem que a aliança com o partido de Kassab dificulte a ampliação de suas bancadas – ou até a manutenção do atual número. Ontem à noite, um grupo de vereadores tucanos anunciou apoio a Serra. “Viemos mostrar que 6 dos 8 vereadores estão com Serra”, disse o líder da bancada, Floriano Pesaro. O grupo é o mesmo que apoiava Matarazzo. / COLABOROU ROLDÃO ARRUDA

15/02/2012 - 10:15h Guizo no gato

MERVAL PEREIRA – O GLOBO

Tudo se encaminha para uma decisão partidária, o que não tem sido muito comum no PSDB. Se, como indicam certos movimentos dos últimos 15 dias, for confirmada a decisão do ex-governador José Serra de disputar a eleição para prefeito de São Paulo, os tucanos estarão próximos de uma unidade que poderá facilitar o projeto nacional de voltar à Presidência da República.

Pelo menos terão as condições políticas de estabilidade para preparar campanha com mais chances de ganhar do que as três últimas, em que o partido sempre começou dividido e não conseguiu confirmar a hegemonia que tem em dois dos maiores colégios eleitorais, São Paulo e Minas.

Se Serra se convencer de que seu sonho de disputar pela terceira vez a Presidência da República não passa disso, e cair na realidade, ele terá uma disputa difícil, mas viável, para encerrar sua carreira como prefeito da maior cidade do país, administrando o terceiro maior orçamento.

Será naturalmente parte importante do cenário político nacional, em qualquer situação, seja o próximo presidente tucano ou petista. Caso fique de fora, tentando ainda impor seu nome a um partido que já se definiu pela busca de alternativa nova representada pelo senador mineiro Aécio Neves, correrá o risco de se frustrar ou de, se sair vencedor de uma disputa sangrenta, não ter mais uma vez o partido a seu lado, inviabilizando uma eventual vitória.

Serra, oficialmente, continua dizendo que não mudou seu ponto de vista e que as notícias que surgem sobre uma mudança de pensamento são pressões, inclusive do governador Geraldo Alckmin, para que realmente mude.

O PSDB disputou e perdeu as três últimas eleições para o PT, mas teve votação ascendente. A média de votos nacional do partido está em torno de 40%, com qualquer candidato, seja Serra ou Alckmin, o que é uma base respeitável.

O que é preciso fazer é armar a aliança mais ampla possível, e o perfil adequado para tal missão parece ser o de Aécio Neves, que vem se dedicando a fortalecer os laços que mantém com partidos e
políticos hoje na base do governo mas que se incomodam com a subordinação ao PT.

O que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez ao dizer abertamente em entrevista à revista britânica “The Economist” que a candidatura óbvia era a de Aécio foi “colocar o guizo no gato”.

A liderança de Fernando Henrique no PSDB não é como a de Lula no PT, é menos impositiva e surte efeito mais pela razão do que pela emoção. Lula no PT faz o que quer, como quando impôs a candidatura de Dilma Rousseff à Presidência ou, agora, quando escolheu o ex-ministro Fernando Haddad para ser o candidato do partido à prefeitura paulistana.

Um “dedaço” de Lula surte efeito no partido e é uma vantagem político-eleitoral grande ter uma figura que se impõe tão claramente sem criar dissidências.

Como Lula é um político sensível, experiente e, sobretudo, pragmático, que prefere ganhar com um estranho a perder com um amigo, ele está sempre à frente dos demais “companheiros”, que têm grupos e facções.

Lula é ele e seus interesses, e por isso é capaz de considerar válida uma aliança com o PSD de Kassab, apenas para prejudicar a unidade do PSDB, mas, acima de tudo, para poder usar a máquina da prefeitura em benefício de seu candidato, contra a máquina do governo do estado.

Já FH é líder mais cerebral, que indica os caminhos sem impô-los, mesmo porque a estrutura partidária tucana não é verticalizada. Todos os grandes nomes têm mais ou menos a mesma capacidade de influir nas decisões.

Foi assim que o governador Alckmin se impôs como candidato a presidente em 2006, usando a força de seu prestígio pessoal e do cargo que ocupava, embora Serra diga que não foi candidato então porque não quis.

E é assim que o próprio Serra vai alimentando a esperança de que pode vir a ser novamente candidato a presidente, usando o que resta de seu prestígio político para se manter na disputa, pelo menos teoricamente, embora esteja claro que o partido todo está inclinado a apoiar uma candidatura que dê ares renovados ao partido. Mesmo que essa “renovação” seja apenas aparente, pois não há maneira mais antiga de fazer política (e, ele acredita, mais eficiente) do que a feita por Aécio. Serra prefere bastidores e cochichos ao pé do ouvido na política, deixando os holofotes para sua vida pessoal, postura que terá de mudar para consolidar sua candidatura. O fato de estar sem cargo político, e sem expectativa de poder, tira também de Serra sua capacidade de influir no partido.

Mesmo dizendo que não se candidataria à prefeitura, Serra sempre deixou porta aberta justamente para alimentar essa expectativa de poder, mas dentro do partido hoje ela tem horizonte limitado: Prefeitura de São Paulo, e não a Presidência.

Reassumindo os contatos para uma futura candidatura, Serra volta a ser peão importante para a estratégia tucana em São Paulo e no país, e ganhará força para influir em uma campanha presidencial. FH, ao pôr “o guizo no gato”, fez bem ao PSDB, e ao próprio Serra, obrigando-o a lidar melhor com a realidade que o cerca. Embora tenha ficado agastado, Serra deve ter passado a medir melhor suas reais possibilidades a partir daquela avaliação sincera e só aparentemente extemporânea.

Ele agora tem a chance de se reconciliar com o partido, alinhando-se em um projeto que não é apenas pessoal. Serra diz abertamente que prefere o Executivo ao Legislativo. Se insistir em permanecer à espera de mudança do quadro político que o favoreça a longo prazo, pode ficar exposto a ter que terminar a vida pública como senador, na hipótese não tão certa assim de ser eleito em 2014. Entre as duas opções, a perspectiva de uma eleição para a prefeitura, mesmo difícil, é bem mais atraente para um tipo de político como Serra.

A maior dificuldade para essa decisão deve ser o perigo de não ter a confiança do eleitorado paulistano, ressabiado com o uso da prefeitura como trampolim político. Serra terá de convencer seu eleitorado de que sua opção pela prefeitura é definitiva, e nada melhor para isso do que, ao anunciar sua candidatura, anunciar também o apoio à de Aécio Neves à Presidência.

Pode ser que Serra faça a primeira parte. Mas a outra é mais difícil, quase impossível.

E-mail para esta coluna: merval@oglobo.com.br

28/01/2012 - 10:09h Oposição sem rumo

28 de janeiro de 2012

MARCO ANTONIO VILLA – O Estado de S.Paulo

Nesta semana fomos surpreendidos por uma entrevista de Fernando Henrique Cardoso. Não pela entrevista, claro, mas pela análise absolutamente equivocada da conjuntura brasileira. Esse tipo de reflexão nunca foi seu forte. Basta recordar alguns fatos.

Em 1985 iniciou a campanha para a Prefeitura paulistana tendo como aliados o governador Franco Montoro e o governo central, que era controlado pelo PMDB, além da própria Prefeitura, sob o comando de Mário Covas. Enfrentava Jânio Quadros, um candidato sem estrutura partidária, sem programa e que entrou na campanha como livre atirador. Fernando Henrique achou que ganharia fácil. Perdeu.

No ano seguinte, três meses após a eleição municipal, propôs, em entrevista, que o PMDB abandonasse o governo, dias antes da implementação do Plano Cruzado, que permitiu aos candidatos da Aliança Democrática vencer as eleições em todos os Estados. Ele, aliás, só foi eleito senador graças ao Cruzado.

Passados seis anos, lutou para que o PSDB fizesse parte do governo Fernando Collor. Ele seria o ministro das Relações Exteriores (e o PSDB receberia mais duas pastas). Graças à intransigência de Covas, o partido não aderiu. Meses depois, foi aprovado o impeachment de Collor.

Em 1993, contra a sua vontade, foi nomeado ministro da Fazenda por Itamar Franco. Não queria, de forma alguma, aceitar o cargo. Só concordou quando soube que a nomeação havia sido publicada no Diário Oficial (estava no exterior quando da designação). E chegou à Presidência justamente por esse fato – e por causa do Plano Real, claro.

Em 2005, no auge da crise do mensalão, capitaneou o movimento que impediu a abertura de processo de impeachment contra o então presidente Lula. Espalhou aos quatro ventos que Lula já era página virada na nossa História e que o PSDB deveria levá-lo, sangrando, às cordas, para vencê-lo facilmente no ano seguinte. Deu no que deu, como sabemos.

Agora resolveu defender a tese de que a oposição tenha um candidato presidencial, com uma antecedência de dois anos e meio do início efetivo do processo eleitoral. É caso único na nossa História. Nem sequer na República Velha alguém chegou a propor tal antecipação. É uma espécie de dedazo, como ocorria no México sob o domínio do PRI. Apontou o dedo e determinou que o candidato tem de ser Aécio Neves. Não apresentou nenhuma ideia, uma proposta de governo, nada. Disse, singelamente, que Aécio estaria mais de acordo com a tradição política brasileira. Convenhamos que é um argumento pobre. Ao menos deveria ter apresentado alguma proposta defendida por Aécio para poder justificar a escolha.

A ação intempestiva e equivocada de Fernando Henrique demonstra que o principal partido da oposição, o PSDB, está perdido, sem direção, não sabendo para onde ir. O partido está órfão de um ideário, de ao menos um conjunto de propostas sobre questões fundamentais do País. Projeto para o País? Bem, aí seria exigir demais. Em suma, o partido não é um partido, na acepção do termo.

Fernando Henrique falou da necessidade de alianças políticas. Está correto. Nenhum partido sobrevive sem elas. O PSDB é um bom exemplo. Está nacionalmente isolado. Por ser o maior partido oposicionista e não ter definido um rumo para a oposição, acabou estimulando um movimento de adesão ao governo. Para qualquer político fica sempre a pergunta: ser oposição para quê? Oposição precisa ter programa e perspectiva real de poder. Caso contrário, não passa de um ajuntamento de vozes proclamando críticas, como um agrupamento milenarista.

Sem apresentar nenhuma proposta ideológica, a “estratégia” apresentada por Fernando Henrique é de buscar alianças. Presume-se que seja ao estilo petista, tendo a máquina estatal como prêmio. Pois se não são apresentadas ideias, ainda que vagas, sobre o País, a aliança vai se dar com base em qual programa? E com quais partidos? Diz que pretende dividir a base parlamentar oficialista. Como? Quem pretende sair do governo? Não será mais uma das suas análises de conjuntura fadadas ao fracasso?

O medo de assumir uma postura oposicionista tem levado o partido à paralisia. É uma oposição medrosa, envergonhada. Como se a presidente Dilma Rousseff tivesse sido eleita com uma votação consagradora. E no primeiro turno. Ou porque a administração petista estivesse realizando um governo eficiente e moralizador. Nem uma coisa nem outra. As realizações administrativas são pífias e não passa uma semana sem uma acusação de corrupção nos altos escalões.

O silêncio, a incompetência política e a falta de combatividade estão levando à petrificação de um bloco que vai perpetuar-se no poder. É uma cruel associação do grande capital – apoiado pelo governo e dependente dele – com os setores miseráveis sustentados pelos programas assistencialistas. Ou seja, o grande capital se fortalece com o apoio financeiro do Estado, que o brinda com generosos empréstimos, concessões e obras públicas. É a privatização em larga escala dos recursos e bens públicos. Já na base da pirâmide a estratégia é manter milhões de famílias como dependentes de programas que eternizam a disparidade social. Deixam de ser miseráveis. Passam para a categoria da extrema pobreza, para gáudio de alguns pesquisadores. E tudo temperado pelo sufrágio universal sem política.

Em meio a este triste panorama, não temos o contradiscurso, que existe em qualquer democracia. Ao contrário, a omissão e a falta de rumo caracterizam o PSDB. Para romper este impasse é necessário discutir abertamente uma proposta para o País, não temer o debate, o questionamento interno, a polêmica, além de buscar alianças programáticas. É preciso saber o que pensam as principais lideranças. Numa democracia ninguém é líder por imposição superior. Tem de apresentar suas ideias.

MARCO ANTONIO VILLA, HISTORIADOR, É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS (UFSCAR)

25/01/2012 - 08:59h Aécio agradece a FH, e Serra discorda do ‘amigo’


Senador, apontado pelo ex-presidente como nome ‘óbvio’ para 2014, se diz honrado, enquanto Serra diverge ’sem polemizar’

25 de janeiro de 2012

CHRISTIANE SAMARCO / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

Após ter sido citado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como o “candidato óbvio” do PSDB à Presidência em 2014, o senador Aécio Neves (MG) divulgou nota ontem em que agradece pelos elogios e valoriza o próprio perfil “agregador”. “Temos que trabalhar agora pelo fortalecimento partidário e para ampliar o alcance do nosso discurso”, afirmou. Já José Serra, que não desistiu da disputa ao Planalto, preferiu evitar a polêmica com o ex-presidente: “São opiniões dele. Não estou de acordo com algumas delas, mas não vou polemizar com um amigo”.

Na mesma entrevista, publicacada na seção Americas view do site da revista britânica The Economist, FHC criticou “erros enormes” da campanha de Serra a presidente em 2010 e disse que o ex-governador paulista poderá abrir caminhos para novas lideranças daqui pra frente. Para FHC, Serra “não formou alianças e ficou isolado mesmo internamente” durante a campanha.

O g0vernador Geraldo Alckmin optou pela neutralidade diante da polêmica. “Temos grandes nomes no PSDB preparados para essa responsabilidade. É um tema a ser amadurecido. Mas está longe ainda”, afirmou ontem.

O líder do PSDB na Câmara, Duarte Nogueira (SP), admitiu ontem, “com muita serenidade”, que fora de São Paulo, onde, segundo ele, Serra é o presidenciável natural, “há uma preferência neste momento por um nome novo, em função das derrotas de 2006 e 2010″. E concluiu: “Esse nome novo é o do Aécio.” Duarte Nogueira observou apenas que a política é dinâmica e amanhã o cenário pode mudar.

Mas na avaliação do presidente do PSDB mineiro, deputado Marcus Pestana, o futuro já tem nome na percepção hegemônica do partido: “Nove entre dez tucanos que olham para 2014 hoje veem a cara do Aécio”. Ele entende que FHC apenas “jogou luzes sobre o cenário futuro com um diagnóstico preciso dos erros do passado” e tem autoridade política e intelectual para fazê-lo.

Aécio fez questão de destacar que o momento para definir o “melhor nome, entre os vários de que dispõe o partido” será depois das disputas municipais de outubro deste ano. “No momento certo, independentemente de quem será o nome, o PSDB estará em condições de apresentar um projeto ao País que faça o contraponto ao modelo de governança representado hoje pelo PT”, disse na nota de oito linhas.

Paulistas. Vice de Serra no governo de São Paulo, Alberto Goldman contestou FHC, afirmando que “o importante na escolha do próximo presidente não é só a capacidade de fazer alianças, mas de enfrentar os grandes problemas que o País ainda tem e de dar ao desenvolvimento um ritmo compatível com o potencial do Brasil”. / COLABORARAM LUCAS DE ABREU MAIA e FELIPE FRAZÃO

03/10/2011 - 16:47h País tem lições a dar, diz brasilianista

Regis Filho/Valor/Regis Filho/ValorHagopian: para americana, alguém que saísse de coma após 20 anos se surpreenderia com a situação brasileira hoje


Por Cristian Klein | VALOR

Em meados dos anos 1980, quando quase todos no Brasil destacavam o clima de mudança trazido pela Nova República, a cientista política americana Frances Hagopian rumava na contramão. Em sua tese de doutorado, ela apontava a persistência de características autoritárias no processo de redemocratização brasileiro. Nem tudo ficara subitamente diferente entre 1984 e 1985. Exemplo mais óbvio: o primeiro presidente civil, José Sarney, havia saído das hostes do regime militar.

Hoje, mais de 25 anos depois da pesquisa, publicada no livro “Traditional Politics and Regime Change in Brazil” (1996), Frances Hagopian se diz mais uma vez remando contra a maré. Professora visitante da Cátedra Jorge Paulo Lemann para Estudos do Brasil da universidade americana de Harvard, Hagopian é extremamente otimista em relação à democracia brasileira.

Admira-se com os avanços conquistados pelo país a ponto de fazer uma metáfora. Se uma pessoa acordasse de um coma, após 20 anos, se surpreenderia ao encontrar um país totalmente transformado. Tanto na política quanto na estrutura econômica.

O argumento não é novo, e Hagopian não está propriamente isolada. Visão mais positiva já predomina em estudos acadêmicos. Mas as notícias na imprensa, sobre escândalos de corrupção, e indicadores nos quais o Brasil ainda aparece em colocações vergonhosas – como o índice de Gini (para a desigualdade) e os resultados do Pisa (para a qualidade da educação) – criam uma sensação de atraso e um clima de insatisfação.

Como o demonstrado por integrantes da plateia, que assistiam, na quinta-feira, no Centro Ruth Cardoso, na capital paulista, sua palestra “Partidos programáticos, democracia participativa e mudança da política social no Brasil”, proferida ao lado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Criticada por pintar um cenário supostamente muito róseo sobre a situação política no país, Frances Hagopian diz entender que os brasileiros ainda possam ter muitas reclamações, mas que o país, aos olhos dos estrangeiros, é outro.

A pesquisadora destaca que o Brasil tem crescimento forte, com redução de pobreza e o surgimento de uma considerável classe C, que “redesenha a pirâmide social brasileira”, além de apresentar uma “estatura internacional com a qual gerações de brasileiros só podiam sonhar”.

“O Brasil hoje é visto no mundo como uma sociedade de êxito, como o classifica a Universidade de Princeton. O país não está apenas crescendo, mas cresce de forma sensata, sem exageros de um lado ou de outro. O mundo tem algo a aprender com o Brasil”, disse, em resposta aos questionamentos de que sua visão seria muito exagerada.

Antes da palestra, em entrevista ao Valor, Frances Hagopian defendeu que o ponto crucial, para a emergência, pela primeira vez no país, de um regime de bem-estar social, foram mudanças políticas, ocorridas principalmente a partir da década de 90.

Seu argumento é o de que, devido a uma série de medidas e reformas, os partidos deixaram de ter tanto acesso a recursos do Estado para realizar a troca de favores por voto, que caracteriza o clientelismo, e teriam ficado mais programáticos.

Ela cita, entre outros marcos, os limites impostos às emendas orçamentárias individuais; a Lei Camata, que limitou os gastos públicos com salários; a Lei de Responsabilidade Fiscal; a reforma da administração do Estado, e a privatização de estatais, que reduziu o número de cargos à disposição para nomeações políticas.

A atuação mais programática seria evidenciada pelas altas taxas de disciplina partidária (em média 90% dos deputados na Câmara votam de acordo com a orientação de seus líderes) e campanhas legislativas nas quais os candidatos defendem bandeiras específicas.

“Você vê que há propostas e que os candidatos pedem votos sob a promessa de trabalhar, por exemplo, pelo transporte público ou para melhorar o ensino fundamental. Não estão prometendo apenas um cargo numa escola da prefeitura para uma professora primária”.

Nas eleições majoritárias, afirma a cientista política, a concorrência programática criou um sistema de “partidos âncoras”, o PT e o PSDB, que oferecem visões distintas ao país.

Ela reconhece que há legendas oportunistas, que estão na base do governo, seja ele qual for. Mas que isso é natural num quadro partidário fragmentado.

“O país é bem administrado. Isso não seria possível se os partidos fossem tão disfuncionais como se diz. Eles são responsáveis pelo governo. Partidos não são perfeitos em nenhum lugar, e eu falo como americana”, diz Hagopian, que faz muitas críticas ao sistema político de seu país, especialmente ao voto distrital.

Ela se refere à predominância dos interesses particulares, paroquiais, já que cada deputado deve seu mandato a um distrito, o que acaba por criar enormes dificuldades em fazer uma reforma da saúde ou de se formular uma política energética, prioridades do governo do presidente Barack Obama.

“Estou com tanta inveja da política de energia de vocês… Nos Estados Unidos, estamos há 40 anos sem uma política sensível nesta área”, diz.

Questionada sobre o que acha do sistema brasileiro, alvo de pesadas críticas e propostas de mudança – como a defendida pelo PT e atualmente em tramitação no Congresso -, a cientista política afirma não ver necessidade de alterações.

“Entendo a insatisfação. Não é o sistema que eu desenharia, se estivesse o criando do zero. Mas o Brasil tem mostrado nos últimos 15 anos que as coisas podem melhorar, mesmo sem mudança no quadro institucional. As instituições não são tão determinantes quanto pensávamos. A governança no país melhorou muito e pouquíssimas regras foram mudadas, como o fim da candidatura nata”, afirma.

Hagopian diz que a lista fechada, proposta pelo PT e na qual os eleitores só votariam nos partidos, poderia ser “um pouco melhor” do que o modelo aberto atual, porque daria impulso à coerência partidária. Sobre a retirada do direito do eleitor de escolher seu candidato e dos riscos de se aumentar o caciquismo, a americana defende que o sistema de responsabilização é diferente.

“Na lista fechada, a responsabilidade é do partido e não do candidato individual. Mas você tem que entender que eu venho dos Estados Unidos, onde temos um voto distrital…”, afirma, como se justificando.

Sua palestra foi comentada por Fernando Henrique Cardoso, a quem Hagopian chamou de “meu herói intelectual”. A cientista política só veio a conhecer o ex-presidente em visita ao país no ano passado, depois de “lê-lo muito” nos anos 70 e 80. Hagopian não esqueceu o que o sociólogo escreveu. Mas parece ainda mais encantada pelo que ele fez em oito anos de governo. E também pelo que seu sucessor, o ex-presidente Lula, deu continuidade e aperfeiçoou. Diante do retrato tão otimista do Brasil, desenhado pela admiradora, Fernando Henrique fez as ressalvas de quem já lidou diretamente com o sistema e tem deveres em ser oposição.

FHC disse que não daria tanto peso aos partidos, “inclusive ao meu”, o PSDB, ao afirmar que em algumas áreas os parlamentares “votam sem saber” e que a aprovação do Plano Real só foi possível porque o Congresso estava fraco, abalado pela CPI dos anões do Orçamento. O ex-presidente também pôs dúvidas sobre o fim do clientelismo. “Há o risco de uma troca pelo corporativismo, o que tem o mesmo efeito”, criticou, numa repetição das críticas que dirige ao PT.

A confiança de Hagopian, no entanto, segue inabalável. “O futuro do Brasil é brilhante”, insiste.

14/06/2011 - 11:05h Arte do impossível

Dora Kramer – O Estado de S.Paulo

É claro que a nova ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, pode surpreender. É uma hipótese remota, mas não é impossível que ela se saia bem na função de administrar apetites, humores e armadilhas de uma base parlamentar ampla, abrigo do maior ninho de cobras criadas da República.

A tarefa inicial é dura: desfazer a primeira impressão de que a presidente Dilma Rousseff só quis afirmar autoridade e confrontar os aliados, escolhendo uma colecionadora de arestas. Não por outro motivo a não ser a aposta de que não há o menor risco de dar certo, Ideli recebeu elogios da oposição.

Os adversários e os aliados em estado de beligerância querem mesmo é ver o circo pegar fogo na articulação política. Aqueles por dever de ofício e estes para que mais à frente a presidente se renda à necessidade de seus préstimos.

A eles Ideli precisará se mostrar bem melhor que a encomenda: conquistar confiança, confirmar influência junto a Dilma e desenvolver capacidade de fazer valer o combinado. Seja no tocante aos atendimentos materiais, seja no tocante aos acordos de procedimentos no Congresso.

No PT caberá a Ideli conduzir a pacificação com sutileza para deixar que o ex-presidente Lula dê cabo da missão (coisa que só ele pode fazer, pois só ele tem a influência necessária sobre o partido) sem dar a impressão de que Dilma está sendo tutelada.

Sutileza não é exatamente o atributo preponderante na personalidade da ministra, como se percebe no esforço de fazer frases para obter um efeito, sempre se referindo à disposição de ser afável, de ouvir, conversar e não repetir o erro da conformação centralizadora do breve período Palocci.

Por ora, louve-se o empenho de Ideli Salvatti para desfazer a má impressão, mas note-se também um quê de artificialismo, cuja resultante é contraproducente.

Dizer que vai fazer “uma operação limpa prateleira, coisa de mulher”, não agrada nem às mulheres hoje menos interessadas em ser reconhecidas por méritos domésticos, nem a parlamentares que podem não gostar de ver seus pleitos, ou eles mesmos, comparados a mercadorias em estoque nas prateleiras do Planalto.

Se Luiz Sérgio, como disse, fez mesmo o possível, restará a Ideli fazer frente ao impossível.

Intérpretes. A carta derramada em elogios que a presidente Dilma Rousseff enviou ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso suscitou as mais diversas especulações entre os tucanos que se reuniram no último fim de semana em São Paulo para duas das várias celebrações pelos 80 anos de FH.

Houve quem visse nos termos intenções estratégicas de aproximação; houve quem enxergasse a vontade de marcar diferença em relação a Lula, sempre belicoso em relação a Fernando Henrique; houve quem interpretasse como um gesto de gentileza sem conteúdo político.

Fernando Henrique não deu interpretação política ao texto, mas também acha que a presidente foi bem além da mera formalidade. “Fiquei bastante sensibilizado”, disse.

Autoria. Segundo informações do Palácio do Planalto, houve gentileza, mas houve política também na carta que Dilma mandou a Fernando Henrique. Nada a ver com Lula, mas tudo a ver com a intenção de transmitir uma disposição à distensão de ânimos. Ela sabe que não “segura” um ambiente de conflito permanente como fazia o antecessor.

A primeira versão da carta foi escrita por Antonio Palocci, obviamente antes do desfecho da crise que resultou na saída dele do governo. Depois disso o texto foi refeito algumas vezes a várias mãos por ministros e assessores palacianos.

No embalo. José Dirceu ofereceu e a revista Interesse Nacional aceitou publicar um artigo dele, cuja intenção é servir de contraponto ao polêmico texto de Fernando Henrique sobre o papel da oposição no Brasil.

O título do artigo é O papel do PT no Brasil e sai na edição de julho.

29/05/2011 - 08:33h Serra perde queda de braço em novo comando do PSDB

Andre Dusek/AE
Andre Dusek/AE

Conchavos. Sérgio Guerra e Aécio cochicham com FHC; Serra disse que desunião enfraquece


Grupo de Aécio resiste e não entrega direção do ITV, instituto tucano, ao ex-governador, que agora vai presidir Conselho Político

Christiane Samarco, Edna Simão, Felipe Recondo e Marta Salomon – O Estado de S.Paulo

O ex-governador José Serra saiu ontem derrotado na briga interna pelo comando do PSDB e pela liderança na fila de pré-candidatos da legenda ao Planalto em 2014. No novo balanço de poder, definido ontem na convenção nacional do partido em Brasília, o grupo político do senador Aécio Neves (MG) ficou com o comando de postos-chave na máquina partidária. A saída para a disputa interna foi entregar a Serra a presidência do Conselho Político, apontado por muitos como prêmio de consolação. A decisão, confidenciaram tucanos, coloca Serra mais próximo da disputa pela Prefeitura de São Paulo.

O deputado Sérgio Guerra (PE) segue na presidência da sigla. Para a primeira-vice foi escolhido o ex-governador Alberto Goldman, aliado de Serra. Aécio trabalhou e conseguiu manter na secretaria-geral o deputado Rodrigo de Castro (MG).

Recuo. Depois de uma madrugada tensa de negociações, Serra acabou forçado a recuar da pretensão de presidir o Instituto Teotônio Vilela (ITV). O grupo ligado a Aécio não abriu mão de entregá-lo ao ex-senador Tasso Jereissati (CE). Para acomodar Serra e não expor o racha na convenção, os caciques do partido turbinaram o Conselho Político tucano e destinaram a presidência do colegiado a Serra.

O novo conselho terá poderes para deliberar sobre alianças nacionais, fusões e incorporações partidárias, além de definir o processo de escolha dos candidatos a presidente e vice-presidente da República, quando solicitado pela Executiva Nacional. Mas Serra terá poder de mando limitado, porque nenhum grupo terá maioria no colegiado.

Na lista dos seis conselheiros estão o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o próprio Aécio, representando o Congresso, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, como ex-candidato a presidente, e seu colega de Goiás, Marconi Perillo, representando os oito governadores do partido. Também terá lugar o presidente do PSDB.

Razões. A queda de braço em torno do ITV, agora comandado por um aliado de Aécio, foi o pano de fundo da convenção que reelegeu Guerra ontem. A disputa antecipou 2014, em uma espécie de primeira etapa das prévias partidárias que irão escolher o candidato tucano à sucessão de Dilma Rousseff. O objeto real do duelo entre aecistas e serristas era o controle da estrutura partidária para a construção de uma candidatura presidencial. O ITV conta com um orçamento de R$ 10 milhões e o grupo de Aécio temia que Serra utilizasse a estrutura do instituto para pavimentar seu projeto de 2014.

Com auditório cheio de convencionais, Aécio, Serra, Alckmin e FHC chegaram juntos ao evento, depois de quase três horas de reunião costurando o acordo para a formação do Conselho Político. “Brigamos muito até há pouco, é verdade; mas agora estamos aqui juntos”, reconheceu FHC. “Nunca se precisou tanto de uma oposição forte e unida”, disse, no mesmo diapasão, Geraldo Alckmin. O quarteto foi recepcionado por um coro que ora pedia um “tucano na Presidência”, ora “Aécio presidente”.

No palanque, todos os discursos foram de união partidária. “Prevaleceu aqui o que o PSDB tem de sobra: espírito público”, declarou Aécio, ao destacar que “o PSDB só tem condições de chegar lá (na Presidência) unido”. Serra adotou o mesmo tom: “Nossa desunião fortalece o adversário, trai nossos princípios e esteriliza nossas ações”. “As diferenças são normais, mas não podem falar mais alto do que a nossa união. Antes de ser oficial da política, sou soldado. E contem com esse soldado em qualquer momento”, completou.

Apesar da aparência de unidade, o racha foi exposto de forma clara e o risco de ruptura ficou iminente. Na noite de sexta-feira, o embate fez subir a temperatura da crise interna a tal ponto que as três maiores estrelas do PSDB de São Paulo – FHC, Alckmin e Serra – ameaçaram boicotar a convenção. Foi um alívio quando Serra desembarcou de madrugada de ontem na capital.

28/05/2011 - 09:00h O que fazer com Serra

O ex-governador de São Paulo tenta conquistar mais espaço no ninho tucano para voltar à evidência no cenário político nacional, mas cria constrangimento entre os cardeais do PSDB

Alan Rodrigues – Istoé

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BOM-SENSO
Para Aécio Neves, o mais “correto” para Serra seria
disputar a Prefeitura de São Paulo e esquecer a Presidência

O ex-governador de São Paulo José Serra se transformou em incômodo para o PSDB. Apesar de ter conseguido mais de 44 milhões de votos nas últimas eleições presidenciais, Serra racha o partido, quer disputar a Presidência a qualquer preço e a nova cúpula tucana não sabe o que fazer com ele. Na última semana, enquanto o governo Dilma vivia sua pior crise no Congresso Nacional – derrotado na votação da Reforma Florestal e com o fantasma de uma CPI para investigar as denúncias de enriquecimento do ministro Antônio Palocci –, o PSDB submergia. O partido não conseguia se distanciar de uma crise interna que se arrasta desde as últimas eleições presidenciais entre os grupos ligados ao senador mineiro Aécio Neves e os apoiadores de José Serra. Batalha que ganhou novos contornos por conta da Convenção Nacional da legenda, que ocorre no sábado 28. Em reuniões, encontros secretos e muita conversa ao pé do ouvido, a ala ligada ao ex-governador de Minas e as forças políticas do Nordeste, capitaneadas pelo presidente do partido, Sérgio Guerra, uniram-se para tentar reduzir o papel dos serristas na direção nacional do partido. “A fila andou”, tem dito pelos corredores de Brasília o deputado federal Nárcio Rodrigues, presidente do PSDB mineiro. “A partir de agora, o partido vai ter de tomar uma posição muito mais assertiva, muito mais firme, apontando os desmandos, os descaminhos e equívocos do governo e, ao mesmo tempo, apresentando à sociedade brasileira as nossas propostas”, disse Aécio Neves na última semana a seus correligionários.

Relegado ao ostracismo depois de sua segunda derrota para o PT na corrida presidencial, Serra vem amargando fracassos sucessivos nos últimos três meses dentro de sua legenda. Foi assim nas eleições para os diretórios municipais e estaduais do PSDB, nas quais o ex-presidenciável sucumbiu ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

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INSISTENTE
Serra não se deu por vencido e luta por espaço para
ter chances de voltar a concorrer com o PT em 2014

Foi assim também quando 53 dos 55 deputados que constituem a bancada federal tucana assinaram o manifesto para reconduzir Sérgio Guerra à presidência do PSDB, indo em direção contrária aos anseios de Serra.

Para a cúpula tucana, Serra tornou-se um problema, já que, mesmo depois das seguidas derrotas, ele ainda não se deu por rendido e mantém o sonho de ocupar a cadeira mais importante do Palácio do Planalto. A intenção é legítima, mas afronta os planos da nova direção partidária que, segundo FHC, precisa imediatamente estabelecer outro discurso, que contemple a nova classe média e inicie em 2012 o desenho das eleições de 2014. “É o momento de unir nossas forças para enfrentar o inimigo comum, que é o PT, e não o nosso próprio partido”, diz, em defesa de Serra, o deputado federal Antônio Imbassay, membro do Diretório Nacional e presidente do PSDB na Bahia.
Disposto a acomodar todas as forças políticas na nova direção partidária, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso trabalhou intensamente na última semana para apartar a briga entre as duas correntes. Assim que chegou dos Estados Unidos, na noite da segunda 23, FHC encontrou-se com Sérgio Guerra para buscar uma solução menos traumática para Serra. Fernando Henrique chamou a atenção de seus aliados para o erro político do partido em ignorar o que ocorre na Casa Civil e fechar-se em copas para resolver a crise interna. Para ele, o momento é de enfraquecer o governo petista. “Ainda não é hora de discutir sucessão presidencial, mesmo porque Aécio tem hoje uma posição de vantagem sobre José Serra”, disse o ex-presidente ao portal IG, na terça-feira 24.

Outro problema vivido dentro do ninho tucano é que mesmo a solução encontrada por FHC de colocar Serra na presidência do Instituto Teotônio Vilela (ITV), instância do partido que elabora as discussões centrais e administra um orçamento anual de R$ 11 milhões, não resolve os embates entre as duas correntes. “Serra pode querer montar um partido paralelo dentro do próprio PSDB”, teme uma fonte tucana. “Um partido não pode ter duplo comando”, conclui. Para a cúpula do PSDB ligada ao senador Aécio Neves, que domina 75% da legenda, a única solução pacificadora nesse imbróglio é Serra abrir mão do sonho presidencial e se lançar, no início do próximo ano, como candidato a prefeito de São Paulo. “O ex-governador paulista sabe que a escolha do futuro presidenciável será via prévias. Nesse cenário, Serra será aniquilado”, antecipa uma fonte ligada ao senador mineiro. Serra sabe disso. Na última semana, ele já sinalizou a interlocutores que não descarta a candidatura à Prefeitura de São Paulo. Essa, segundo os aecistas, seria a costura ideal, já que atenderia o governador Alckmin na reeleição e deixaria o caminho livre para o ex-governador mineiro disputar a Presidência. Nas palavras de Aécio, “essa seria a posição mais correta”.

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25/05/2011 - 10:27h Mais um partido em chamas

Rosângela Bittar – VALOR

Tal como ocorreu com o DEM, e seguindo os passos recentes dos jovens liberais que encurralaram Gilberto Kassab e um contingente expressivo de políticos no beco de saída do partido, a direção do PSDB está empurrando porta afora um grupo de políticos, vários deles fundadores, tendo à frente o ex-governador José Serra. Começa, assim, a provar que a disputa interna do momento tem calibre para promover irrecuperável dissolução.

Até sábado, data de convenção, será possível saber se a crise no PSDB teve potencial para levar a facção paulista do partido às últimas consequências.

Disposição há. Como há, também, vontade de negociar à exaustão, nesses próximos cinco dias – e é o que ainda estão fazendo -, um espaço na direção partidária para um PSDB de fundadores, de redatores de seu programa, de seus estatutos, que ainda tem fôlego para resistir à pressão por deixar tudo no colo dos que chegaram por último.

Nas proximidades do gabinete de Fernando Henrique Cardoso, meio a uma discussão sobre a possibilidade de ele aceitar um convite para presidir o partido, foi feito um comentário que causou perplexidade, mas apenas em um primeiro momento. Disse o ex-presidente que, tal como criado, o PSDB acabou.

PSDB e PT encontraram seu denominador comum

Foi o sinal, evidenciou-se agora, de que os políticos de São Paulo, historicamente atados à legenda, já não consideram cláusula pétrea sua permanência. Uma coisa, porém, é a possibilidade de sair, outra diferente é ter isto no horizonte, como solução a curto prazo. Não está. A admissão da hipótese, contudo, tem efeito combustível.

Os grupos paulistas da legenda, tanto de José Serra como de Geraldo Alckmin, não pretendem morrer de véspera. Vão lutar, mas é forte a tentativa de aniquilamento, vinda do grupo do ex-governador de Minas, Aécio Neves, que depois de ter afastado Alckmin do eixo da disputa presidencial, concentrou-se na tarefa de emparedar Serra.

O pleito de São Paulo, para não perder contato com a direção partidária, é indicar o secretário geral do partido e o presidente do Instituto Teotonio Vilela, de estudos políticos. Na secretaria geral, Aécio, líder do processo, quer manter o seu mineiro Rodrigo de Castro. Para o Instituto, Alckmin convenceu Serra a aceitar a sua indicação. Segunda-feira passada, o governador paulista fez a proposta a Aécio; na terça, repetiu-a ao presidente do partido e candidato à reeleição, Sergio Guerra, hoje o principal operador do grupo aecista. Na quarta, Aécio e Guerra convocaram os senadores do partido para uma homenagem a Tasso Jereissati, no Senado, e ali apresentaram um documento de adesão e apoio ao ex-governador e ex-senadores cearense para a presidência do Instituto.

Aécio quer fazer da convenção de sábado a consagração de seu nome como candidato a Presidente da República em 2014, pelo PSDB. Está certo de que é a sua vez e o seu direito, e arma a direção partidária de forma que seja possível conduzir a caravana a seu modo, no seu tempo. José Serra quer ser candidato a presidente da República, em 2014, pelo PSDB. Acha prematura uma definição neste sábado por várias razões que tem relatado à direção do partido. Uma das principais é que não se sabe o que vai acontecer no Brasil. A análise, já feita para Sergio Guerra, é que o governo vai mal do ponto de vista moral, ético, programático, os projetos estão parados, as obras se deteriorando, a presidente recolhida, o principal ministro atingido por suspeitas.

Seria prematura uma definição dos candidatos, agora, até porque o PSDB sequer conseguiu organizar-se para atuar politicamente na oposição, com todo esse cenário a lhe facilitar a ação. Assiste, inerte, à abulia governamental. Não toma conhecimento de denúncias, das mais superficiais às mais graves.

Do ponto de vista institucional, nem o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, nem o nominado candidato a presidente da República, Aécio Neves, deram sinal de que têm tomado conhecimento de qualquer dos casos que atormentam e expõem o governo. Oposição, não há. O que há é a guerra interna, o vale-tudo para definir agora a candidatura do PSDB em 2014. E sufocar Serra, antes que consiga protelar a definição. Tarefa para a qual, segundo a campanha da própria direção do partido, já não estaria apto.

A propaganda do PSDB de Aécio (presidência do partido, deputados mineiros, publicitários, pesquisadores, amigos e imprensa) tem decretado o isolamento de José Serra. O político que recebeu 44 milhões de votos para presidente da República em 2010, que já foi eleito senador, governador e prefeito de São Paulo, estaria acuado, no partido e na política. Porém, em contradição, é à sua figura que o partido recorre quando precisa de um culpado pelos seus desacertos e incompetências. Na direção do PSDB, hoje, Serra é culpado desde o racha dos parlamentares paulistas à criação de novo partido a partir da destruição do aliado liberal.

Quem está isolado, comanda?

As cúpulas do PT e do PSDB, finalmente, encontraram seu denominador comum. Desde o escândalo Waldomiro Diniz, o PT atribui a José Serra a condição de seu “adversário-responsável”. Aproveitando-se da atual guerra de eliminação, o PT também sentiu falta e foi buscar o seu bode expiatório. Desde a semana passada, a ordem no principal partido governista é atribuir ao PSDB paulista, especialmente a José Serra, a autoria do vazamento sobre a arrecadação da empresa de consultoria do ministro Antonio Palocci, tendo como fonte dos dados de enriquecimento súbito o cálculo dos impostos pagos à prefeitura paulista. O superministro petista da Casa Civil sabe que seu inferno astral vem mesmo do fogo amigo, mas a estratégia definida pelo ex-presidente Lula tenta repetir o sucesso obtido em outros idênticos carnavais.

A direção do PSDB não assumiu sua identidade oposicionista nem nesse caso, seja para cobrar explicações sobre as suspeitas levantadas seja para combater o sofisma a que o PT recorre em todos os escândalos que protagonizou no governo federal.

Fulminar Serra é o que busca o grupo reunido em torno de Aécio. A forma, por truculenta, conseguiu até constranger Alckmin. O governador tem esfriado a já histórica disputa paulista entre o seu grupo e o de Serra. E não há razões para desconfiar da indicação que fez de Serra para o Instituto de estudos do partido, há testemunhas. Menos razões ainda para crer que apoie o enfraquecimento do PSDB em São Paulo, onde buscará, em 2014, sua reeleição ao governo.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

E-mail rosangela.bittar@valor.com.br

07/05/2011 - 10:31h Laboratório paulista

A partir de uma briga regional, políticos de vários partidos promovem uma reforma que não passa pelo Congresso e nem atende aos interesses dos eleitores

Alan Rodrigues – Istoé

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EXPERIÊNCIA
Serra, FHC, Alckmin, Marta, Temer, Lula, Mercadante, Chalita e Kassab (da esq.
para a dir.) são protagonistas dos bastidores de 2012 com reflexos em 2014

São Paulo, o maior colégio eleitoral do País e principal bunker da oposição demo-tucana, vem funcionando nos últimos meses como o laboratório para uma movimentação partidária de repercussão nacional. Com o governo federal colecionando índices de popularidade cada vez mais altos e uma oposição dividida e sem bandeiras, uma briga paroquial que coloca de um lado o governador Geraldo Alckmin e do outro o prefeito Gilberto Kassab e o ex-governador José Serra acabou se transformando, na prática, em uma espécie de reforma política que se alastra para todo o País. O problema é que essa reforma não passa pelo Congresso e desconsidera o interesse do eleitor. Seus protagonistas movem-se motivados apenas pela própria sobrevivência político-eleitoral. “Como o Congresso não fez a reforma necessária e nossos partidos não são agremiações ideológicas, os políticos estão fazendo a seu sabor e particularidade aquilo que melhor lhes cabem”, avalia o consultor Gaudêncio Torquato, professor da Universidade de São Paulo (USP). “Eles perderam a biruta e a falta de projetos coletivos permite a formação de um partido que se transforma rapidamente na tábua de salvação dos náufragos de diversas legendas, que, sem um discurso definido, procuram se aproximar daquilo que tem agradado ao eleitor nas mais diferentes regiões do País”, explica Torquato, referindo-se ao Partido Social Democrático (PSD), criado pelo prefeito paulistano Gilberto Kassab, sob as bênçãos do tucano José Serra e a batuta do veterano democrata Jorge Bornhausen.

O recado que saiu das urnas no ano passado foi decisivo para a gestação do novo partido. O eleitor de São Paulo escolheu o tucano Alckmin, decepcionou o cacique José Serra, sinalizou alguma convergência com a popularidade de Lula e do PT e, a exemplo do que fez boa parte do Brasil, repudiou o DEM. Para sobreviver e poder, se preciso, acolher o padrinho político Serra (cada vez mais isolado no PSDB), Kassab anunciou a formação do PSD, aglutinando tucanos que não se bicam com Alckmin e líderes que agonizam junto com o DEM. O laboratório paulista mostrou que realmente repercute e rapidamente passou a acolher interesses de todas as regiões, independentemente de qualquer preceito ideológico. O próprio Kassab afirma em sua peregrinação na busca das assinaturas necessárias para a formalização do partido: “O PSD não é de direita, nem de centro, nem de esquerda.” Com importantes líderes deixando o ninho tucano paulista em direção às fileiras kassabistas, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Alckmin e outros dirigentes do PSDB batalham para unir formalmente o partido ao pouco que resta do DEM. Seria uma forma de manter espaço na oposição. O problema é que a tarefa de segurar correligionários parece cada vez mais difícil. “Eles formaram um partido que é aliado do PT no plano nacional, em Minas se aproximam de Aécio Neves e do governador Anastasia, e nos outros Estados e municípios recebem todos os que querem aderir a qualquer que seja o governo local”, disse Alckmin a líderes do PSDB e do DEM na última semana.

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TENDÊNCIA
“O que acontece em São Paulo é fruto de uma mudança no cenário
político nacional e envolve todos os partidos” Jorge Bornhausen

“É lamentável o enfraquecimento das legendas para um partido que ninguém sabe o que quer”, avalia o cientista político Fábio Wanderley, doutor pela Universidade de Harvard e professor da UFMG. “Estamos vivendo uma grande crise partidária e isso não favorece a democracia”, lamenta. Principal orientador político de Kassab, o ex-senador Jorge Bornhausen reconhece a repercussão do movimento paulista. “O que acontece em São Paulo é fruto de uma mudança no cenário político nacional e envolve praticamente todos os partidos”, diz o veterano político catarinense. Ele não admite que o que move essas peças não é ideologia ou projetos para o País, mas tem razão ao dizer que a movimentação não se limita a uma oposição que saiu das urnas em frangalhos. A prova disso é que mesmo na base aliada do governo federal os movimentos no laboratório paulista não param de ocorrer, colocando em risco o projeto do ex-presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff de, em 2012, conquistar um dos principais redutos tucanos. No início do mês, o vice-presidente Michel Temer, conseguiu tirar do PSB e trazer para o PMDB o deputado Gabriel Chalita, aliado de Alckmin e um dos maiores puxadores de votos em São Paulo. Na semana passada, foi a vez de o PSB perder de sua fileiras o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, que também migrará para o PMDB. Skaf e Chalita querem disputar a prefeitura paulistana em 2012. Com essa movimentação, o PMDB, principal aliado do PT no plano nacional, tenta ser mais respeitado e cria condições para eventualmente não repetir no maior colégio eleitoral do País a parceria federal, caso não seja saciado. “O PMDB precisa deixar de ser coadjuvante nas grandes cidades e assumir a condição de estrela de real grandeza”, tem dito Temer àqueles que pretendem buscar outras legendas.

Os movimentos são intensos, mas, nas próximas semanas, os experimentos que partem de São Paulo poderão encontrar um obstáculo difícil: o Judiciário. Ao fazerem uma espécie de reforma que não passe pelos trâmites legais, os políticos estão desafiando a Constituição e poderão ter seus desejos barrados no STF, órgão já consultado por alguns deputados paulistas, que por enquanto pedem para não ser citados, mas que não admitem o papel de cobaia.

04/05/2011 - 09:37h Índice de pobreza no Brasil cai 50% em oito anos

Estudo da Fundação Getúlio Vargas indica ainda que em 2010 o País atingiu menor nível de desigualdade de renda desde 1960

Mônica Ciarelli, de O Estado de S. Paulo

RIO – A pobreza no Brasil caiu 50,64% entre dezembro de 2002 e dezembro de 2010, período em que Luiz Inácio Lula da Silva esteve à frente da presidência da República. O dado consta da pesquisa divulgada nesta terça-feira, 3, pelo professor do Centro de Politica Social da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Marcelo Neri. O critério da FGV para definir pobreza é uma renda per capita abaixo de R$ 151. A desigualdade dos brasileiros, segundo ele, atingiu o “piso histórico” desde que começou a ser calculada na década de 60.

Segundo o estudo, a queda da pobreza nos mandatos de Lula superou a registrada durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, incluindo o período de implementação do Plano Real. Nesse período, a pobreza caiu 31,9%. “Acho que essa década (anos 2000) pode ser chamada de década da redução da desigualdade; assim como os anos 90 foram chamados de década da estabilização”, afirmou Neri.

O estudo toma como base dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicilio (Pnad) e Pesquisa Mensal de Emprego (PME). Pela pesquisa, a renda dos 50% mais pobres cresceu 67,93% entre dezembro de 2000 e dezembro de 2010. No mesmo período, a renda dos 10% mais ricos cresceu 10%.

Desigualdade. A desigualdade de renda dos brasileiros caiu nos anos 2000 para o menor patamar desde que começou a ser calculada, mas ainda está abaixo do padrão dos países desenvolvidos, segundo Neri. Ele tomou como base para o estudo o índice de Gini, que começou a ser calculado nos anos 60. Com esse resultado, o País recuperou todo o crescimento da desigualdade registrado nas décadas de 60 a 80.
O índice Gini brasileiro está em 0,5304, acima do taxa de 0,42 dos Estados Unidos. Quanto mais próximo do número 1, maior a desigualdade. “Acredito que ainda vai demorar mais uns 30 anos para que possamos chegar aos níveis dos EUA”, estimou Neri.

Para o professor da FGV, o aumento da escolaridade e o crescimento dos programas sociais do governo foram os principais responsáveis pela queda da diferença de renda dos brasileiros mais ricos e mais pobres entre 2001 e 2009. “Isso mostra que a China não é aqui”, afirmou. E completou: “O grande personagem dessa revolução é o aumento da escolaridade. Mas, ainda temos a mesma escolaridade do Zimbábue”, mostrando que há um longo caminho a ser percorrido.

Entre os 20% mais pobres, a escolaridade avançou 55,6%, enquanto entre os 20% mais ricos, aumentou 8,12%. Outro fato que, para Neri, ajuda a entender a redução da desigualdade é o fato de pessoas de cor preta terem ganho aumentos de 43% no período, enquanto os brancos tiveram 21%.

03/05/2011 - 08:41h ”PSD é um balcão de negociação”, critica Tasso Jereissati


Apesar de ter anunciado que se afastaria da política, tucano participou de convenção do partido e alfinetou adversários

Carmen Pompeu – O Estado de S.Paulo

O ex-senador Tasso Jereissati (PSDB) fez críticas pesadas ao novo partido político, o PSD, criado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. “Isso não é um partido, é um balcão de negociação. É o que está virando a política no Brasil e a gente fica triste por causa disso”, disse o tucano no sábado, durante convenção do partido em Fortaleza (CE) que elegeu o empresário Pedro Fiúza como presidente do diretório municipal da legenda.

Tasso também comentou sobre a possibilidade de fusão entre os três partidos da oposição: PSDB, DEM e PPS. “Acho que é uma coisa que tem de ser analisada. Acho muito precipitado fazer isso nesse momento. Mas, provavelmente, é uma boa ideia que ela se realize.”

Logo após as eleições de 2010, nas quais não conseguiu a reeleição como senador, o tucano disse que se afastaria da política para “cuidar dos netos”. Apesar de reafirmar que não disputará nenhum cargo eletivo, ponderou que tem responsabilidade com o PSDB, com a juventude e com Fortaleza, que, segundo ele, vive um momento muito difícil.

Tanto que defendeu a criação de uma oposição “forte e de qualidade” e não poupou críticas ao PT, partido que governa a capital cearense. Tasso considera “um crime” o retorno de Delúbio Soares, ex-tesoureiro do partido, acusado de envolvimento no escândalo do mensalão. “Um ladrão confesso do dinheiro público, É um crime. Um absurdo e um desrespeito ao povo brasileiro”, afirmou. “A volta dele é uma consagração do roubo e da corrupção. Um tapa na cara da nossa dignidade.”

Padrinho. E continuou: “A Presidência da República deve dar exemplo. No momento em que o partido da Presidência e a Presidência dão um exemplo desses, estão liberando para que todo mundo seja esperto e que se locuplete da maneira que quiser, desde que tenha um padrinho. Um homem, que deu esse show de corrupção para o Brasil inteiro e que manchou a história política do Brasil, não volta assim para um partido político sem ter um padrinho muito, muito forte”.

O ex-senador aproveitou para criticar a prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins (PT), e o governador Cid Gomes (PSB), seu ex-aliado. Condenou o fato de as obras da Copa de 2014 se arrastarem e citou como exemplo a demora na reforma do aeroporto da capital cearense, construído no governo Fernando Henrique.

27/04/2011 - 08:58h FHC lamenta racha tucano e não descarta fusão com DEM

Ex-presidente admite que ”existem propostas” para criar PSDB/Democratas e faz apelo à unidade e coesão de oposicionistas

Jose Patricio/AE

Jose Patricio/AE
‘Convicção’. FHC e a oposicionista venezuelana Maria Corina


Gabriel Manzano – O Estado de S.Paulo

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso admitiu ontem que “existem propostas” em andamento para a fusão entre o PSDB e o DEM, mas acrescentou que não sabe “qual a tendência, se vai ou não ser feita” essa fusão. Foi o primeiro dirigente importante, entre os tucanos, a tocar no assunto sem descartar automaticamente a ideia.

A frase foi dita durante debate realizado no Instituto FHC sobre a situação política na Venezuela, da qual participaram vários líderes da oposição ao governo Hugo Chávez.

As propostas sobre fusão, segundo o ex-presidente, têm “aspectos delicados”. Para ele, “mais importante é manter a coesão dos partidos”. A propósito, considerou “lamentável” a saída do secretário Walter Feldman do PSDB e fez um “apelo à unidade” entre os oposicionistas. “Ninguém pode pregar a democracia se não a praticar internamente”, disse ainda. Condenou o que chama de “falta de aceitação da diversidade” (na oposição) e afirmou: “Divergências entre pessoas são normais, o que não é normal é a ruptura”.

“É lamentável a saída de qualquer pessoa, sobretudo uma pessoa importante”, avaliou, sem mencionar nomes. “Dentro de um partido é preciso se aprender a conviver com a diversidade, tem de haver pluralidade interna”. E repetiu seu apelo à união: “Faço até um apelo ao partido: temos de nos esforçar para continuar unidos”.

Deu como exemplo o grupo de palestrantes venezuelanos, entre os quais a deputada Maria Corina Machado. “Me surpreendeu a convicção deles”, observou. Sobre as relações de seu governo com Hugo Chávez, afirmou que “poderia ter sido um pouco mais efetivo”. Mas lembrou que Chávez “era mais manso” na época. / COLABOROU GUILHERME RUSSO

15/04/2011 - 11:54h As oposições, o povão e o silêncio

Cláudio Gonçalves Couto – VALOR

Este início do mandato de Dilma Rousseff tem-se caracterizado por uma grande reconfiguração do cenário político-partidário brasileiro. Trata-se de uma mudança que, ao menos em parte, vem responder a uma tendência cíclica do sistema partidário parlamentar brasileiro: a migração de legisladores eleitos pela oposição rumo a partidos da base governista no primeiro ano de seus mandatos – como já demonstrou o cientista político Carlos Ranulfo Melo em diversos estudos. Foi assim durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso (quando PSDB e, principalmente, PFL engrossaram suas fileiras com adesistas) e também durante os dois períodos de Lula (quando os partidos de centro-direita da base situacionista, PTB e PL, aumentaram significativamente suas bancadas).

Desta vez, em função da norma judiciária que proibiu a livre circulação de detentores de cargos eletivos para agremiações do governismo, ou mesmo entre elas, restou aos adesistas unicamente a opção de compor um novo partido – já que foi esta a “janela de infidelidade” mantida aberta pelos juízes. Isto explica o porquê da nova agremiação capitaneada por Gilberto Kassab ter nascido tão grande, colocando-se já de saída na condição de – no mínimo – sétima maior bancada da Câmara, como mostrou ontem reportagem do Valor. Tivéssemos ainda em vigência a antiga normatividade, que permitia o livre trânsito de políticos eleitos entre as legendas, muito provavelmente teríamos presenciado uma migração dispersa para as muitas agremiações da base situacionista – PP, PR, PSC, PRB e até mesmo o PTB, que apoiou José Serra na eleição, mas não tem qualquer vocação a manter seu oposicionismo depois de empossado um novo chefe de Executivo.

O novo quadro partidário faz do PSDB líder de polo frágil

Além de contribuir para a quase certa extinção congressual de partidos nanicos e anódinos, como PRP, PRTB e PMN, o processo de criação da nova agremiação enfraquece brutalmente o DEM (rebaixado da quarta para a oitava colocação na Câmara, perdendo pelo menos um quarto de seus membros) e o PPS (que talvez não perca posições no ranking, mas fica ainda mais esquálido). Com isto, o protagonismo tucano na oposição, que já era indiscutível, tornou-se mais pronunciado – sobretudo considerando que até este momento não foram anunciadas defecções no PSDB congressual. Como consequência disto e do fato de que apenas os tucanos têm-se mostrado capazes de liderar disputas presidenciais, a responsabilidade do PSDB e de seus líderes na condução das oposições tornou-se ainda maior do que foi no passado recente. Dificilmente voltaremos a presenciar episódios como o da rejeição da CPMF no Senado, quando foi o DEM – e não o PSDB – o principal artífice da maior derrota legislativa sofrida por Lula em oito anos. A maior dificuldade para os tucanos reside em que se consolidaram como condutores incontestes das oposições num cenário em que estas se encontram tremendamente fragilizadas.

É neste contexto que se inscrevem as recentes manifestações – eloquentes ou silenciosas – dos principais caciques tucanos. Ao proferir seu primeiro grande discurso da tribuna do Senado, galvanizando as atenções do Congresso, da classe politica, da mídia e da opinião pública durante três dias seguidos (antes, durante e depois de seu pronunciamento), Aécio Neves confirmou o acerto estratégico de sua decisão de não compor a chapa presidencial oposicionista no ano passado. Ficou o pé e marcou o território como principal liderança oposicionista na conjuntura, aquela sobre quem se lançam os holofotes e se dá ouvidos, pois atua na cena pública e deixa evidenciado o caminho que pretende seguir. Tivesse concorrido à vice-presidência, seria hoje não só um derrotado, mas um derrotado sem mandato e sem uma tribuna tão propícia à publicização de posicionamentos oposicionistas como é o Senado Federal.

Fernando Henrique Cardoso, após ter-se beneficiado pelo início de um processo de reabilitação de sua administração num lugar onde ela jamais deveria ter sido posta de canto (seu próprio partido), ganhou espaço para interferir de forma mais efetiva no debate que as oposições travam consigo próprias – definindo estratégias, procurando espaços e públicos que lhes sejam sensíveis. É nesta configuração que se inscreve a ponderação do ex-presidente segundo a qual os partidos de oposição não têm como ganhar a disputa de curto prazo no terreno do adversário – os movimentos sociais e o povão. Apesar do texto de FHC não ser de fato tão claro no caráter tático deste recuo em relação aos setores em que o PT e seu governo gozam de ampla vantagem, as críticas que lhe foram dirigidas parecem provir menos de uma leitura atenta e mais de um certo juízo a priori que se faz acerca do PSDB – como elitista, tecnocrático, academicista etc.. Ora, ainda que veladamente, a ponderação de FHC embute uma severa crítica a táticas patéticas de convencimento demagógico das massas populares, como o salário mínimo de R$ 600.

Em contraste com seus eminentes colegas de partido, José Serra tem adotado como estratégia o mesmo silêncio que caracterizou sua pré-campanha presidencial. Tal quietude parece embutir um estilo de fazer política mais dado às urdiduras de bastidores do que ao debate de posições na cena pública. Ainda mais tendo-se seguido a uma derrota eleitoral na qual Serra (quebrando um protocolo democrático segundo o qual cabe ao perdedor reconhecer a vitória alheia antes que o próprio vitorioso venha a público comemorá-la) demoradamente aguardou para ter a última palavra, esperando que a presidenta eleita fizesse seu pronunciamento para ele, finalmente, fazer o seu. Nessa ocasião, deixou manifesta sua pretensão de liderar a oposição e ser novamente candidato, acotovelando-se com os correligionários ausentes e relativizando uma ideia que foi repetidamente invocada dentro de seu próprio partido para justificar sua candidatura – a de que política tem fila. Sendo este o caso, Serra parece não ter reconhecido um corolário inescapável desta noção de fazer política: o de que a fila anda.

Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da FGV-SP. A titular da coluna, Maria Cristina Fernandes, não escreve hoje excepcionalmente

E-mail claudio.couto@fgv.br

07/02/2011 - 09:18h ‘Não vou me candidatar em 2012′, diz Serra

Entrevista: Ex-governador nega ação contra Guerra para presidir PSDB

Ana Paula Paiva/Valor – 31/10/2010

Serra: “Tivemos o voto de quase 44 milhões de brasileiros. Perto de 44% dos eleitores. Embora tenha perdido, o PSDB cresceu. Temos de honrar esses votos”


Cristiane Agostine | VALOR

Sem mandato eletivo e sem cargo de destaque no PSDB, o ex-governador José Serra (PSDB) afirma que pretende continuar como liderança da oposição no país e trabalhará para que ela seja mais “viva” e “eficiente”. Serra, no entanto, não deixa claro se pretende comandar o PSDB. Diz que não sabe ao certo quando será a eleição interna, mas ressalta que não fará “nenhum gesto” para encurtar o mandato do presidente do partido, deputado Sérgio Guerra (PE). Derrotado na disputa presidencial de 2010, Serra descarta candidatar-se em 2012 para a Prefeitura de São Paulo, e desconversa sobre suas pretensões eleitorais para 2014. Abaixo, a entrevista que o ex-governador concedeu ao Valor, por e-mail:

Valor: Como o senhor pretende retornar à cena política nacional? Quais são os seus planos?

José Serra : Eu não vou retornar, pelo simples fato de que não sai dela. É o sentido de vida que escolhi. As formas variam desde que me engajei na política, quando líder estudantil, passando pelo exílio, pela universidade, Congresso e Executivo. O conteúdo é que não varia: servir a nosso povo e ao nosso país. Parafraseando aquele poeta espanhol, o caminho será feito pelo andar.

Valor: O senhor pretende candidatar-se à presidência do PSDB?

Serra : Apesar de todas as especulações sobre isso, devo dizer que a questão é extemporânea. Nem sei bem quando será a eleição. Não vou fazer nenhum gesto que possa, de alguma maneira, encurtar o mandato do presidente Sérgio Guerra. Vou agir como gostaria que agissem comigo. E sempre pensando no interesse do Brasil. E o Brasil precisa de uma oposição com unidade de ação, ideias claras, coragem e disposição para fiscalizar, cobrar, empurrar o governo para as posições que atendam ao interesse dos brasileiros. Vou trabalhar, com minha experiência, meus conhecimentos e minha liderança, para que a oposição seja cada vez mais ágil, mais viva, mais coerente e mais eficiente. Dentro e fora da estrutura partidária. É preciso fazer embate vivo de ideias e propostas. Isso tudo é necessário ao funcionamento da democracia, melhora o país. No Brasil, às vezes, pensa-se que o vencedor leva tudo, “the winner takes all”. Mas não é assim. Tivemos o voto de quase 44 milhões de brasileiros. Perto de 44% dos eleitores que votaram, no segundo turno, apoiaram a nossa proposta. Embora tenha perdido, o PSDB cresceu. Temos de honrar esses votos. Temos de representar esses eleitores. Temos de manter esses eleitores informados e orgulhosos de sua escolha.

Valor: Qual a avaliação do senhor sobre a manifestação da bancada do PSDB da Câmara em apoio à reeleição do deputado Sérgio Guerra no comando do partido?

Serra : Criou-se um mal-entendido, um equívoco. Se os deputados estão em uma reunião e alguém propõe uma manifestação de apoio ao atual presidente do partido, é natural que todos apoiem. Todos assinaram. Em nenhum momento se colocou se haveria, ou não, outro candidato. Não era fulano contra beltrano. Eu apoiei a eleição do presidente Sérgio Guerra e o escolhi para coordenar a minha campanha. As assinaturas não devem ser interpretadas como uma manifestação contra mim, ou contra o [senador] Aécio [Neves], ou contra o [ex-presidente] Fernando Henrique [Cardoso], ou contra o [ex-senador] Tasso [Jereissati]. Como disse o [governador de São Paulo, Geraldo] Alckmin, ainda é cedo para se decidir sobre a futura direção do PSDB.

Valor: O senhor pretende candidatar-se a algum cargo eletivo nas próximas eleições, em 2012? E em 2014?

Serra : Não vou me candidatar em 2012. E 2014 ainda está muito longe. Seria burrice especular sobre o que vai acontecer daqui a quatro anos. É um erro grave trazer 2014 a valor presente.

Valor: Caso o senhor não pretenda se candidatar à Prefeitura de São Paulo em 2012, qual nome o senhor apoiaria para a disputa?

Serra : Vou apoiar o candidato que o meu partido, o PSDB, indicar.

Valor: Como poderá ser a relação política entre o senhor e o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, caso ele migre do DEM para o PMDB?

Serra : Tenho com o prefeito Kassab uma boa relação, pessoal, de amizade, pessoal e política. Mas seria tolo especular sobre algo hipotético, que pode ou não acontecer num futuro ainda indeterminado.

Valor: Como tem sido a sua relação com o governador Geraldo Alckmin? O senhor aprova a aproximação do governo paulista com o governo federal? E concorda com as mudanças que estão ocorrendo em secretarias estaduais como as de Transportes Metropolitanos, Saúde, Educação, Habitação e Desenvolvimento Social?

Serra : Minha relação com o governador é ótima. Temos conversado com bastante frequência, e vou torcer e ajudar para que ele faça um excelente governo. Tenho certeza de que fará. Qualquer governante, de qualquer partido, tem de trabalhar em cooperação com outras esferas de governo, de qualquer partido. O interesse da população deve prevalecer. É assim que eu fiz quando fui ministro, prefeito e governador. Assim que vejo o governador Alckmin agir. Sobre as ações estaduais, não estou preocupado se há esta ou aquela diferença em relação a eventuais decisões que eu tenha tomado no passado. Cada governante tem o seu jeito, seu “timing”, sua visão, sua avaliação e as condições objetivas para trabalhar. Tenho plena confiança de que o governador Alckmin vai fazer uma gestão muito boa. Além da certeza, o governador Alckmin tem o meu apoio, a minha torcida, a minha solidariedade e a minha ajuda, se precisar.

Valor: O senhor tem conversado com o senador Aécio Neves? Acredita que ele poderá ser o grande líder da oposição no Congresso?

Serra : Se ele vai ser ou não um grande líder da oposição no Congresso, depende dele. Ele tem experiência pra isso.

Valor: O senhor disse que passaria a dar palestras, a partir deste ano como forma de obter recursos. O senhor já começou a dar palestras? Quais foram os convites que o senhor recebeu?

Serra : Vou trabalhar para viver, fazendo palestras, dando aulas e escrevendo. Também sei governar e legislar. Mas, no momento, estou sem mandato.

Aliados correm para alçar tucano ao comando do partido

Cristiane Agostine, Ana Paula Grabois e César Felício | VALOR

De São Paulo e Belo Horizonte

A reação dos aliados do ex-governador paulista e duas vezes candidato a presidente José Serra ao abaixo-assinado pela reeleição do deputado Sérgio Guerra (PE) para a presidência nacional do PSDB foi apenas o primeiro lance da ofensiva de Serra para tentar obter o comando da sigla.

Braço direito de Serra no governo de São Paulo, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) já verbaliza a possibilidade de o próprio Serra assumir a presidência do partido. “É impossível o PSDB ser vitorioso sem Serra. Não é possível exclui-lo do grupo que deve ter o comando do partido. Ele tem que estar presente. Não sei se formalmente, isso vai depender da disposição dele. Pelo prestígio e pelos votos que ele teve, não é possível desenhar o futuro do PSDB sem Serra”, diz.

Senador mais votado do país em uma eleição surpreendente, Aloysio pode vir a ser um instrumento para que Serra se fortaleça no cenário nacional na próxima eleição municipal. O senador é visto por aliados do ex-governador como a única possibilidade de reunir em uma mesma candidatura na eleição para a prefeitura da capital no próximo ano o governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) e o prefeito Gilberto Kassab (DEM), além do próprio Serra. O ex-governador já visitou tucanos que estão alinhados a Alckmin e dirigentes do PPS para avisar que tenderia a ficar fora da disputa eleitoral de 2012, o que confirma agora em entrevista ao Valor. Não disse que quer se resguardar para a eleição presidencial de 2014, mas deixou esta impressão em pelo menos um interlocutor, dirigente do PSDB.

Na eleição passada, Serra era o líder nas pesquisas de opinião e tido pela oposição ao então presidente Luiz Inácio Lula da Silva como candidato natural em 2010. Por isso retardou ao máximo a sua entrada no processo eleitoral, enquanto o competidor interno, o então governador mineiro Aécio Neves (MG), procurava antecipar a definição da candidatura, propondo prévias partidárias.

Agora a possibilidade de reeleição presidencial ou de nova candidatura presidencial de Lula torna menor a possibilidade de Serra aparecer como líder nas sondagens de voto. Começa a ocorrer o fenômeno oposto ao de 2010: os aliados de Serra trabalham para antecipar o calendário de definições internas e recolocar o presidenciável como um formulador das políticas do partido e os de Aécio não demonstram pressa alguma. “A coisa mais preciosa neste momento é a unidade. Não é momento de desviarmos o foco para a discussão intestina. Já perdemos três eleições presidenciais e não temos contingente parlamentar sequer para barrar uma emenda constitucional ou convocar uma CPI”, comenta o deputado federal Marcus Pestana (PSDB-MG).

Os aliados de Serra avançam na discussão interna acusando os adversários de terem manobrado para isolar o ex-governador. Segundo Aloysio, o apoio de parlamentares à reeleição de Guerra na presidência do PSDB, registrado em um documento, foi um “processo precipitado” e “constrangedor”. “A escolha tem que ser precedida por um debate profundo. Precisamos escolher uma direção que seja capaz de implementar as mudanças e isso seguramente não se faz por lista”, disse o senador. Para o parlamentar, que foi chefe da Casa Civil no governo paulista, “quem quiser excluir Serra está trabalhando para liquidar o PSDB”. O mandato da atual Executiva Nacional do PSDB se encerra em maio.

No DEM, principal parceiro do PSDB, a vitória do deputado ACM Neto (BA) para a liderança da Câmara dos Deputados foi festejada por Aécio e o resultado foi visto como uma prévia para a escolha do novo presidente da sigla, que deve se dar entre o senador José Agripino Maia (RN) e o ex-vice-presidente Marco Maciel, mas aliados de Agripino procuram demarcar distância de Aécio. Afirmam que a prioridade para a nova direção da sigla é não se vincular a nenhuma das facções tucanas.

Internamente, trabalha-se com o cenário de que o mais provável candidato presidencial do PSDB em 2014 é Aécio Neves. O segundo cenário em termos de probabilidade seria o da candidatura de Geraldo Alckmin. Serra hoje é visto apenas como a terceira possibilidade.

A avaliação dentro do DEM é que a grande dificuldade de Aécio em 2014, além da falta de apoio do PSDB paulista, é a mesma que teve na eleição passada: seu nome permanece tendo alcance regional, enquanto tanto Serra quanto Alckmin, por terem sido candidatos presidenciais, têm ressonância nacional.

A proximidade com Serra é maior no PPS. A seção paulista da sigla é profundamente vinculada ao ex-governador e o presidente nacional do partido, Roberto Freire, eleito deputado federal, transferiu seu domicílio eleitoral de Pernambuco para São Paulo. Mas também neste partido a prioridade não é buscar uma definição imediata para 2014.

A sigla encolheu na eleição do ano passado, mas procura estruturar um bloco com o PV da presidenciável Marina Silva, com quem deve buscar coligar-se em algumas eleições municipais no próximo ano. “Não há candidato óbvio para a próxima eleição presidencial. Todas as siglas passam por redefinições internas. O PPS viveu o risco da descaracterização e deve buscar agora a reconexão com as causas e os movimentos da sociedade”, disse o deputado Arnaldo Jardim (PPS-SP).

05/02/2011 - 10:26h A volta da estrela

Às vésperas de uma eleição para definir quem comandará o partido, o PSDB recorre a FHC para evitar que uma guerra pública seja deflagrada

Alan Rodrigues – Istoé

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RETORNO
Depois de muitos anos, FHC voltou a ser o protagonista de um programa do PSDB

Em meio a uma guerra fratricida para definir quem comandará o partido pelos próximos anos, o PSDB decidiu recorrer a sua maior – porém esquecida – estrela, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, para protagonizar o programa político em rádio e televisão a que tem direito todos os semestres. Os principais dirigentes do partido, entre eles o presidente Sérgio Guerra (PE), o ex-governador de São Paulo José Serra e o senador Aécio Neves, chegaram a concordar que a melhor opção seria transferir a veiculação do programa para depois das eleições que vão eleger o novo presidente da sigla, em abril. No entanto, o Tribunal Superior Eleitoral não aceitou o pedido de transferência e o PSDB precisou, às pressas, gravar os dez minutos que foram ao ar na noite da quinta-feira 3. Ainda sem saber que bandeira empunhar e com que cara se apresentar ao eleitor, os caciques tucanos decidiram escalar FHC. Oficialmente, argumentam tratar-se de uma homenagem ao ex-presidente, que em 2011 completa 80 anos e foi solenemente escanteado do debate eleitoral nas últimas três disputas presidenciais.

O retorno de Fernando Henrique ao protagonismo partidário, no entanto, tem causas e consequências que explicitam o estado das coisas no PSDB. Em meio a uma indefinição de rumos que tomou conta do partido após a derrota de Serra nas últimas eleições presidenciais, FHC ainda é o que melhor representa uma coerência programática e um discurso oposicionista diante da hegemonia petista. É ele também que ainda representa os últimos suspiros de consenso dentro do partido, dividido entre os seguidores do senador Aécio Neves e os apoiadores de José Serra. Como resultado, Fernando Henrique agora volta a ter voz nas decisões sobre o futuro do partido, papel que lhe foi negado, ainda que de forma sutil, e do qual ele se absteve por decisão pessoal. É por isso que ele assumiu o papel que assumiu neste momento.

A opção por FHC como ator principal do primeiro programa partidário após as eleições não significa, porém, que o PSDB caminhe agora para tempos mais tranquilos. Pelo contrário. A opção de levar para a tevê as benesses do Plano Real é um duro recado aos serristas, que insistiram em negar o passado tucano na campanha presidencial.

O próximo round das disputas internas se dará em duas frentes. A primeira trata-se da eleição do novo presidente. O cargo é a atual obsessão do ex-governador José Serra, que com ele pretende voltar ao debate político nacional. Serra, porém, enfrenta Aécio Neves, que defende a permanência de Sérgio Guerra e, com isso, pretende enfraquecer seu maior adversário no PSDB. A outra frente se dá em um partido aliado do governo, o PMDB. Serra trabalha para que o prefeito paulistano, Gilberto Kassab, se transfira do DEM para o partido que deu origem ao PSDB e ocupe o espaço vago deixado pela morte do senador Orestes Quércia, seu aliado. Aécio, por sua vez, tenta evitar que isso aconteça. Fernando Henrique sempre acompanhou esses movimentos de longe. Agora, vai ter que entrar no ringue e a sua entrada agrada ao senador mineiro.

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26/01/2011 - 08:48h Conta corrente tem déficit menor que no governo FHC

Fernando Nakagawa e Fabio Graner – O Estado de S.Paulo

Os oito anos do governo Lula terminaram com menor déficit externo e maior entrada de Investimento Estrangeiro Direto na comparação com o governo anterior. O resultado da conta de transações correntes nas duas gestões do governo petista somou déficit de US$ 54,97 bilhões. O valor foi 70,5% menor que o observado nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, quando o rombo atingiu US$ 186,16 bilhões.

A diferença é explicada porque as contas externas tiveram saldos positivos expressivos no início do governo Lula, quando a economia doméstica crescia em ritmo moderado e as exportações eram beneficiadas pelos preços das commodities exportadas pelo País. No segundo mandato, quando a economia passou a crescer mais rapidamente, os saldos voltaram ao vermelho, exatamente como em boa parte do governo FHC.

07/12/2010 - 10:52h Aécio: antecipar nome do PSDB é ‘tática suicida’

Senador eleito por Minas diz que proposta defendida por FH é também ‘amadora’ e propõe ‘refundação’ do partido

Silvia Amorim – O GLOBO

● SÃO PAULO O senador eleito Aécio Neves (PSDB-MG) disse ontem que a proposta defendida pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de que o próximo candidato tucano à Presidência seja escolhido em 2012 é uma “tática suicida e amadora”. Em entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, Aécio repetiu que o PSDB precisa passar por uma “refundação”, outro ponto de discordância entre os dois.

— Eu acho que nós não podemos nos precipitar. Em 2012 talvez até já tenha um encaminhamento natural, e as coisas, quando caem naturalmente, caminham melhor. Mas você antecipar muito a indicação de um candidato é uma tática suicida e amadora. Eu não tenho vocação para a primeira e não tenho mais o direito de exercer a segunda. Então, é dar tempo ao tempo — afirmou Aécio.

Logo após o término da eleição, Fernando Henrique defendeu, pela primeira vez, a tese de antecipação para 2012 da escolha do presidenciável de 2014. — O PSDB não pode ficar enrolando até o final se é A, B, C ou D. Dentro de dois anos, temos de decidir quem é esse ‘é’ e tem de ser de todo mundo, tem de ser coletivo — argumentou.

Aécio defendeu ontem que a indicação do nome do partido para a Presidência da República ocorra após as eleições municipais e ao término do processo de reestruturação do partido: — Focarmos agora em candidatura presidencial é uma bobagem. Você pode achar que hoje eu sou uma alternativa, mas, daqui a dois anos, pode ter uma melhor. Vamos cuidar de construir um projeto para o país.

O senador mineiro admitiu que vai insistir no termo “refundação” do PSDB. O termo causou polêmica quando dito pela primeira vez, após a eleição. A ala paulista do partido vê a expressão como um primeiro passo dos tucanos mineiros para tentar assumir o comando da legenda. FH chegou a dizer que ela era “muito forte”: — Alguns colocam algum obstáculo ou um pé atrás nessa coisa da refundação. Eu vou insistir nesse termo porque tem que ser algo profundo.

Depois de uma temporada de férias no exterior, o mineiro desembarcou em São Paulo pela manhã para um almoço com o governador eleito Geraldo Alckmin (PSDB) em busca de apoio para essa “refundação”. À noite, ele se encontraria com FH.

Aécio propõe um novo programa partidário para o PSDB — o atual é de 1988 —, mudança no comando da legenda nos estados onde os tucanos tiveram desempenho pífio e a criação de um núcleo de inteligência vinculado à direção nacional, composto por técnicos, para abastecer o partido de informações sobre o governo, orientando, assim, a atuação na oposição. Alckmin mostrou-se favorável. — Estamos juntos para ajudar a reorganizar o partido. O partido foi fundado no final da década de 80. É importante atualizar o seu programa — disse o governador eleitor de São Paulo.

Aécio afirmou que o partido, equivocadamente, se aproximou de setores conservadores da sociedade nas eleições deste ano durante a discussão sobre temas polêmicos, como a legalização do aborto, e, segundo ele, é preciso voltar a ser um partido social-democrata e de centro-esquerda: — Eu confesso que foi um retrocesso — disse. ■

06/12/2010 - 20:24h Cesar Maia desanca FHC

Blog de Cesar Maia

BEM QUE FHC PODERIA TER FEITO ISSO EM SEU TEMPO!

1. A Operação-Rio, deflagrada pelo exército com ocupação de favelas a fins de 1994, terminou cancelada em 1995. A explicação é que já se havia demonstrado que nenhum território no Brasil poderia ser controlado por forças fora da lei. Mas -depois da saída do exército- voltou ‘tudo como dantes no quartel de Abranches’.

2. Em 24 de junho de 2002, a imprensa informava. (Agência Estado) “A sede da prefeitura do Rio de Janeiro, na Cidade Nova, foi metralhada na madrugada de hoje. Cerca de 100 tiros de diversos calibres atingiram a fachada do prédio e chegaram a perfurar as janelas do 13.º andar, onde funciona a chefia de gabinete do prefeito Cesar Maia (PFL). Por volta de 8h30, o Esquadrão Antibombas da Polícia Civil foi acionado. Uma granada M-3 foi encontrada perto do prédio anexo da prefeitura. A espoleta da granada explodiu e o artefato partiu-se ao meio. Se tivesse sido detonada, a granada teria causado estragos num raio de 200 metros.”

3. O prefeito Cesar Maia convidou o presidente FHC para ir ao local e mostrou a prefeitura com os tiros de fuzis. Pediu, na época, que fosse declarado Estado de Defesa. Os traficantes que atacaram a Prefeitura do Rio eram do Morro de São Carlos, em frente à Prefeitura, comandados pelo traficante Gangan, depois morto em confronto com a polícia.

4. O Estado de Defesa é um estado de exceção na ordem jurídica, previsto no artigo 136 da Constituição Federal, caracterizado pela restrição de alguns direitos dos cidadãos, com a finalidade de preservar ou prontamente restabelecer, em locais restritos e determinados, a ordem pública ou a paz social ameaçadas por grave e iminente instabilidade institucional ou atingidas por calamidades de grandes proporções na natureza.

5. No sábado (04/12/2010), o ministro Jobim afirmou que o Exército continuará a atuar no Rio sob seu próprio comando: (Globo, 05) “- Estamos encerrando a primeira etapa. O que é importante deixar claro é que o comando dessa Força de Pacificação é do Exército. Será uma Força de Paz comandada por um militar designado pelo Comando Militar do Leste – disse Jobim”. Ou seja: uma desejável e requerida intervenção. Um localizado “estado de defesa”…, informal.

7. Neste domingo (Estado SP – Globo, 05/12/2010), o ex-presidente FHC saudou as medidas: “O Rio marcou um gol, um golaço. E digo bem: foi a cidade do Rio de Janeiro, e não apenas seu governo, a polícia ou as Forças Armadas. A César o que é de César: a articulação entre governo, polícias e Forças Armadas foi importante e deixa-nos a lição de que sem articulação entre os muitos setores envolvidos na luta contra o crime organizado e sem disposição de combatê-lo a batalha será perdida”. Pena que a Operação Rio não teve esse desdobramento. Pena que não foi no governo dele. O Rio teria ganhado 8 anos. O tráfico não teria avançado tanto. E provavelmente não teria havido vácuo para a entrada das milícias.

04/12/2010 - 09:50h Quero te ver pelas costas

José Serra e Sérgio Guerra brigam pela liderança do PSDB, enquanto os tucanos ainda discutem o que fazer com a legenda

Hugo Marques – ISTOÉ

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RESSENTIMENTOS
Líderes ainda não superaram
as feridas da derrota eleitoral

Lá se vão mais de 30 dias do segundo turno da eleição presidencial e o PSDB ainda não conseguiu juntar os cacos da derrota. O partido continua zonzo e sem rumo como um boxeador nocauteado. E, para piorar as coisas, os tucanos começaram a brigar entre si pelo controle da legenda. No centro da disputa está o ex-governador José Serra, candidato derrotado ao Planalto. Ao voltar da Europa, mal refeito do revés nas urnas, ele avisou que quer ocupar a presidência do PSDB, desalojando do cargo o pernambucano Sérgio Guerra, senador em fim de mandato e deputado federal eleito. Sem função pública pelo menos até 2013, Serra antecipa uma disputa que só ocorreria em maio, na escolha da nova Executiva Nacional do partido.

A briga no PSDB é resultado de uma campanha que deu preferência à figura do cacique político, representado exatamente por Serra. “Os caciques foram importantes nas sociedades indígenas antigas, mas isso não pode perdurar nas democracias”, diz o sociólogo Antonio Lavareda. Sem dúvida, repercutiu muito mal no PSDB a pretensão de Serra de controlar o partido, apesar de derrotado na corrida para o Planalto. Há dez dias, o ex-governador esteve em Brasília e bateu boca com Guerra, que, então, buscou o apoio do futuro governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e do senador eleito por Minas Aécio Neves. Na segunda-feira 28, Alckmin tratou de lançar uma alternativa que, na prática, enterra as aspirações de Serra: “A discussão deve começar pelos diretórios municipais”, sugeriu. “Não se pode iniciar pelo fim, mas pela base.”

Serra quer assumir o lugar de Guerra para ganhar visibilidade na oposição. Ele já imagina por onde atacar: “A Dilma encontrará uma máquina pública que cresceu muito, uma dívida interna que explodiu e uma inflação em alta”, disse Serra a um grupo de senadores do PSDB. Seus correligionários, no entanto, ainda não superaram as mágoas com os equívocos cometidos na corrida presidencial. “O Serra fez uma campanha errática, com elogios ao governo. Chegou à estupidez de levar o Lula para a campanha e o partido ficou muito mal”, critica o deputado Antonio Carlos Pannunzio (PSDB-SP). “Só é possível unificar o PSDB se Serra, Aécio, Fernando Henrique e Alckmin fizerem um grande acordo”, completa. Enquanto o acordo não vem, o partido faz o que pode para levantar a cabeça. No dia 15, os oito governadores tucanos eleitos encontram-se em Maceió. “Vamos discutir um plano de ação para o futuro”, diz o governador de Alagoas, Teotônio Vilela (PSDB).

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06/11/2010 - 10:20h Bicadas no ninho tucano

Em busca dos culpados pela derrota nas urnas, lideranças do PSDB se engalfinham em briga interna para decidir quem dará as cartas no partido

Alan Rodrigues – Revista ISTOÉ

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OPINIÃO
Aécio e Serra divergem mais uma
vez sobre o futuro do PSDB

Passada uma semana das eleições presidenciais, o PSDB ainda sente os efeitos da ressaca da derrota. Atolado em dívidas que ultrapassam os R$ 20 milhões, o partido, em vez de juntar os cacos, afinar o discurso e marchar unido em oposição ao governo petista, mergulha numa crise interna resultante das feridas abertas durante a campanha. Nos últimos dias, os tucanos divergiram publicamente sobre temas que envolvem desde o relacionamento com o futuro governo Dilma Rousseff até o melhor momento para a escolha do candidato do PSDB à Presidência em 2014. A raiz da cizânia, porém, é a definição do tucano que personificará a cara da oposição daqui em diante. Para o candidato derrotado à Presidência da República, José Serra, ele, do alto de seus mais de 42 milhões de votos, está mais do que credenciado para exercer esse papel. Mas para quem tem este objetivo, os serristas começaram mal. Logo após a contagem dos votos, Xico Graziano, integrante destacado da campanha de Serra, colocou em seu Twitter: “Perdemos feio em Minas. De quem será a culpa?” A insinuação contra o ex-governador Aécio Neves alvoroçou os tucanos mineiros. Eles passaram a atribuir toda a responsabilidade pelo resultado à atuação desastrosa do candidato Serra.

Logo apareceram também claramente as divergências quanto ao estilo da oposição. Tucanos como o governador eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o senador eleito Aécio Neves defendem uma renovação nos postos de liderança nos próximos anos, além da adoção de uma linha de oposição mais propositiva. “Faremos oposição responsável e generosa a Dilma”, disse Aécio na quinta-feira 4. Para os tucanos com menos de 60 anos, o único dirigente da legenda capaz de estruturar uma frente de resistência ao governo do PT e dar uma cara nova à oposição é Aécio Neves.

Para conturbar ainda mais a legenda, na última semana, dirigentes tucanos foram surpreendidos com a notícia de que Serra trabalha nos bastidores para ser o novo presidente nacional do partido. Para Serra, seria a chance de fugir de um possível ostracismo político previsto para os próximos anos quando estará sem mandato eletivo. Mas a ambição de Serra é tida internamente como uma tarefa mais difícil do que vencer uma eleição presidencial. Os tucanos não confirmam, mas nove em cada dez representantes do partido preferem ver o perfil centralizador de Serra longe da direção partidária. “Não é preciso trocar o comando. O primeiro passo é saber onde estamos errando”, avalia Nárcio Rodrigues, presidente do PSDB em Minas Gerais.

Outra polêmica que serviu para alimentar o racha interno foi levantada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Em entrevista, ele defendeu a antecipação da escolha do candidato do PSDB ao Planalto de 2014 para 2012. “Falar agora de estratégia para daqui a quatro anos é totalmente descabido”, disse o deputado federal Jutahy Magalhães Jr. (PSDB-BA), aliado de Serra, para quem a decisão só beneficiaria Aécio. Alckmin e o governador eleito do Paraná, Beto Richa, também consideraram a discussão prematura. “FHC é nosso grande líder. Sempre deve ser ouvido. Mas há tempo para se discutir”, disse Alckmin. O único a concordar com FHC foi o presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra. “Na minha opinião, devemos ir para a eleição municipal já com candidato à Presidência”, diz ele.

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VOLTA
Serra busca apoio para ser o
presidente do partido em 2011

O que o tucanato não revela publicamente é que FHC não está muito preocupado com a data em que será escolhido o candidato. Na verdade, a declaração do ex-presidente representa um duro recado a Serra. No entender de FHC, o ex-governador paulista fez tudo errado e, por isso, o PSDB saiu derrotado das eleições presidenciais.

Para tentar dar um ponto final à disputa interna e definir estratégias de atuação, a Executiva Nacional do PSDB reúne-se no próximo final de semana. O entendimento não será fácil. Há um clima de animosidade entre as principais lideranças do partido, que refletem claramente a disputa pelo espólio tucano. O problema é que os antigos donos do partido, em especial a ala paulista capitaneada por Serra, entendem que a derrota nas urnas não significa uma derrota interna. Um dos pontos de divergência entre as principais forças do PSDB é exatamente em relação a como o partido deve se mostrar ao País. Serra, Guerra e seus aliados continuam acreditando que a melhor estratégia é apostar na força da personalidade de seus líderes para conquistar eleições, como ocorreu neste ano. Aécio e dirigentes de outros Estados entendem que o PSDB, ao contrário, deve abandonar a personificação de suas propostas e encaminhá-las de forma mais institucional.

O que sairá desse embate é incerto. Assim como incertos são os destinos dos principais atores dessa batalha. A princípio, a lógica diz que Serra sai de cena e que Aécio emerge como a grande força tucana. Mas na política, assim como na economia, análises cartesianas nem sempre são capazes de prever com precisão o resultado das equações mais simples.

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08/10/2010 - 09:23h País privatizou 100 estatais em dez anos


Auge das privatizações ocorreu no governo Fernando Henrique Cardoso, mas o processo continuou no governo Lula, aponta estudo

Fernando Dantas – O Estado de S.Paulo

A privatização, que pode voltar a ser um tema importante do segundo turno da eleição, como em 2006, vem sendo praticada por sucessivos governos brasileiros desde a década de 80. Ela representou, no Brasil, uma inflexão da tendência de forte participação do Estado na economia, cimentada nas décadas de 40 e 50 com a criação da CSN, da Vale do Rio Doce, da Chesf e da Petrobrás, entre outras empresas.

Foi em 1981, no governo Figueiredo, que a privatização ingressou no cardápio de políticas públicas do governo federal, com o estabelecimento de uma comissão especial para reduzir a participação do Estado na atividade produtiva. Mesmo no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que se diz antiprivatista, houve desestatizações como as dos bancos estaduais do Maranhão e do Ceará, além da concessão à gestão privada de 2.600 quilômetros de rodovias federais – considerada por alguns como uma forma de privatização.

O auge da privatização, sem dúvida, ocorreu no governo de Fernando Henrique Cardoso, quando foi passado para mãos privadas o controle de empresas do porte do Banespa, da Vale e do sistema Telebrás. Porém, mesmo no governo de Itamar Franco, que era pouco simpático à privatização, houve vendas importantes e simbólicas, como as da CSN, pioneira da industrialização do Brasil, e da Embraer, até hoje símbolo de sucesso em alta tecnologia no País.

Segundo trabalho de Roberto Macedo e outros economistas, de 2005, o Brasil transferiu para o setor privado, entre 1991 e 2001, mais de 100 empresas estatais, além de diversas participações minoritárias. A privatização nesse período rendeu ao governo o equivalente a US$ 68 bilhões, e US$ 18 bilhões em dívidas transferidas aos novos donos. Além disso, houve vendas de ações de empresas que permaneceram estatais no valor de US$ 6 bilhões, e um total de US$ 10 bilhões em concessões de serviço público.

Diversas foram as razões usadas para justificar a privatização, ao longo de sucessivos governos. Uma das principais era a de tirar dos ombros do Estado uma enorme penca de empresas deficitárias e mal geridas, não só para que o setor privado supostamente as tornasse mais eficientes, mas também para permitir ao governo concentrar-se em atividades típicas do setor público como saúde, educação e segurança. Algumas das empresas privatizadas, porém, eram eficientes, admiradas e estavam em boa forma quando foram vendidas – o melhor exemplo é a Vale.

O estudo de Macedo, do qual também participaram Franciso Anuatti, Milton Barossi e Antonio de Carvalho, analisou todas as empresas privatizadas desde 1991, para as quais foi possível encontrar demonstrações financeiras. A conclusão foi de que, de fato, houve um generalizado aumento de lucratividade e de eficiência operacional nas empresas privatizadas.

Segundo o trabalho, “a perda de suporte financeiro do Estado também implica um ajuste financeiro por meio do aumento da liquidez corrente e redução do endividamento de longo prazo”. Já os efeitos sobre investimento, produção e pagamento de dividendos e impostos foram “menos evidentes”.

Em 2006, o economista-chefe do Santander, Alexandre Schwartsman, fez um estudo que mostrava a importância fiscal do processo de privatização. Segundo suas estimativas, naquela época a relação entre a dívida pública e o PIB, que estava em 50,1% do PIB (hoje é de 41,4%), seria 9,6 pontos porcentuais maior, atingindo quase 60%, caso os recursos da privatização não tivessem sido usados para abater o endividamento. No trabalho, o economista frisou que calculou por baixo o impacto. Ele ressalva que o cálculo tem de ser atualizado, por causa de mudanças na metodologia do PIB.

Os críticos da privatização acusam os governos que a praticaram – principalmente o de Fernando Henrique Cardoso – de ter liquidado patrimônio público em troca de muito pouco retorno. A Vale, cuja parcela de controle foi vendida em 1997 por US$ 3,14 bilhões, hoje tem um valor de mercado total em torno de US$ 160 bilhões. Os antiprivatistas também apontam escândalos, como o que envolveu a privatização da Telebrás, enquanto os defensores dizem que foi apenas uma tentativa de aumentar o preço das teles.

Vídeo no Youtub com declarações de FHC dizendo que o maior defensor da privatização da Vale do Rio Doce era José Serra.

06/10/2010 - 06:57h FHC vê com ceticismo chances do PSDB

“São pequenas”, diz FHC

João Villaverde | VALOR

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso acredita que o candidato de seu partido, o PSDB, à Presidência da República, José Serra, tem “pequenas chances de ser eleito”. A afirmação foi feita ontem, minutos antes de palestra do analista econômico Martin Wolf, convidado do Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC).

O Valor acompanhou conversa entre o ex-presidente e Wolf, em que este perguntou sobre o resultado das eleições realizadas no domingo. “Estou no Brasil desde sábado, e cheguei aguardando a eleição da candidata do presidente Lula, então fiquei surpreso com a realização de segundo turno. Quais são as chances do candidato Serra ser eleito?”, perguntou. “As chances são pequenas”, respondeu FHC. Para o ex-presidente, as chances de Serra estão assentadas na articulação que fará com o ex-governador e senador eleito por Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB).

A candidata do governo, Dilma Rousseff (PT), obteve 16,2 pontos percentuais mais votos que Serra no Estado, governado por Aécio desde 2003, e onde, no domingo, também foi eleito Antônio Anastasia (PSDB) como novo governador. “A onda verde foi um dos principais fatores [para levar a disputa ao segundo turno], mas Marina [Silva, candidata do PV à Presidência] funcionou mais como terceira via mesmo”, disse o ex-presidente, quando perguntado se Marina Silva, terceira colocada nas eleições, poderia ser a saída para alavancar votos para Serra.