19/06/2008 - 15:51h Mais Buñuel: Belle de jour

Belle de Jour de Luis Buñuel, com Catherine Deneuve

19/06/2008 - 15:05h Buñuel e Lula têm a mesma preocupação

La ilusíón viaja en tranvia, de Luis Buñuel 1954

16/05/2008 - 15:59h Para Eleonora e Ivo: Maazal-tov!

12/05/2008 - 10:29h Documentário pode interessar aos fãs de tango, mas entedia os cinéfilos

Crítica/”O Último Bandoneón”

Divulgação
Cena de “O Último Bandoneón’, documentário argentino sobre tango que está em cartaz em SP


CRITICO DA FOLHA DE SÃO PAULO

Jorge Luis Borges (1899-1986), que foi um escritor imenso, mais do que grande, achava que o tango corresponde ao lado sentimental, quase desprezível da alma argentina. Como quase tudo nas opiniões de Borges, isso era controverso. Cortázar, por exemplo, outro magnífico escritor, era fã.
Mas Borges interessa justamente por suas intervenções heterodoxas. Ele dizia, quando o acusavam de não ser argentino, que não devia ser mesmo, porque “os argentinos gostam de Paris, e eu prefiro Londres”: só com isso punha uma pá de cal, mas com que classe, no nacionalismo.
Ele também podia ser malvado. Ao comentar um filme argentino, lembra que lhe disseram tratar-se “de um dos melhores filmes argentinos”. E completava: “portanto, um dos piores do mundo”. O tempo passou e nos acostumamos mesmo a entoar loas ao cinema argentino. Esquecemos que a produção de um país seja qual for é, em média, muito fraca.
É dessa fraqueza que sofre “O Último Bandoneón”, documentário -em cartaz na cidade desde a última sexta-feira- extremamente convencional do diretor Alejandro Saderman. Aqui, não há como comparar com o melhor do documentário ou do documental brasileiro.
Podemos esquecer dos que -como Eduardo Coutinho e Andrea Tonacci sobretudo-, entre nós, trabalham tão intensamente esse limite entre o real documentado e a ficção, entre real vivido, representação, apropriação e verdade.

Limitações
Em “O Último Bandoneón”, estamos diante da moça disposta a viver de seu bandoneón, mesmo que para tanto tenham de tocar em ônibus, do maestro que recria uma orquestra de tango, de aulas de dança, espetáculos do gênero. E entrevistas, pilhas de entrevistas.
Se do ponto de vista cinematográfico “O Último Bandoneón” tem muitos limites, a verdade é que pode muito bem chegar ao público que se interessa por tango em particular ou mesmo por dança de uma maneira geral.
Do falar portenho, das visitas a locais típicos, às pessoas típicas, às músicas tradicionais, tudo favorece esse contato. Não falta nem mesmo essa crença tão latino-americana de que, não fossem os nossos ritmos, os europeus morreriam sem ter como externar seus sentimentos. Esses aspectos singelos do universo musical estão contemplados também.
Num mundo tão regressivo em matéria de usos e costumes, reviver o começo do século 20 pode não ser, hoje, apenas um prazer de sexagenários. Os fãs do ritmo têm por que se esbaldar. Os cinéfilos não têm muito como não se entediar. (INÁCIO ARAUJO)


O ÚLTIMO BANDONEÓN
Produção:
Argentina, 2005
Direção: Alejandro Saderman
Com: Marina Gayotto, Natalia Arroyo, Rubén Jurado e outros
Onde: em cartaz no Reserva Cultural 4 (classificação: livre)
Avaliação: ruim

06/05/2008 - 19:32h Irving Berlin: Puttin On The Ritz

1930 do filme Puttin on the Ritz cantado por Harry Richman

 

 

na versão de Fred Astaire

 

 

e por último: Taco (1983)

01/05/2008 - 23:23h Un di felice, eterea

Placido Domingo e Teresa Stratas cantam o dueto de Alfredo e Violeta do primeiro ato da Traviata de Verdi.
Longa metragem dirigida pelo Franco Zefferelli.
Orquestra dirigida por James Levine

12/04/2008 - 14:34h Uma jóia de “La Traviata”

Beniamino Gigli canta “PARIGI, O CARA” da “TRAVIATA” de Verdi. filme italiano “DIVINE ARMONIE”, sobre a vida de Giuseppe Verdi.

05/03/2008 - 15:46h O musical que mudou a Broadway

Versão nacional conserva o leve tom operístico e a coreografia que define o caráter dos personagens

Ubiratan Brasil - O Estado de São Paulo

Versão moderna de Romeu e Julieta, metáfora sobre a ameaça que os imigrantes significam a um país rico, a eterna briga pela conquista do território - West Side Story ainda provoca leituras diversas, mas em um detalhe todos são unânimes: trata-se do musical que revolucionou a Broadway. ‘Quando foi montado, em 1957, surpreendeu não só pelos temas mas por apresentar uma ação que passava para a dança de forma natural, como se a coreografia fosse extensão dos movimentos dos atores’, comenta Jorge Takla, que comanda a primeira montagem brasileira de West Side Story, que estréia sexta para convidados, no Teatro Alfa, e sábado para o público.

Diretor, produtor, iluminador e cenógrafo do espetáculo, Takla preferiu manter o título original, rejeitando a tradução brasileira que acompanha a versão cinematográfica, Amor, Sublime Amor, ganhador de nada menos do que dez Oscars em 1961. ‘Preferi realizar um trabalho sem concessão, ou seja, com 42 atores e uma orquestra com 23 músicos, como prevê o original’, conta ele, que calcula um investimento total de R$ 5 milhões para levantar a montagem, além de R$ 1,5 milhão mensal para manutenção de um total de 100 apresentações.

Tamanho cuidado não é exagero - a criação original de West Side Story uniu uma equipe ainda imbatível na história da Broadway. Jerome Robbins, que se tornou o modelo máximo do coreógrafo-diretor, teve o controle total da produção, desde a concepção até a montagem final; Leonard Bernstein, com quem Robbins havia iniciado uma brilhante parceria anos antes, compôs as músicas; Stephen Sondheim, na época um jovem de 20 anos que contava apenas com o apoio do grande Oscar Hammerstein, escreveu as letras das canções; e Arthur Laurents, então um dramaturgo promissor, cuidou do libreto.

A história é ambientada no subúrbio de Nova York, onde duas gangues rivais, os Jets (os nascidos americanos) e os Sharks (imigrantes porto-riquenhos), lutam pelo domínio do bairro. Em meio a tanta incompreensão, Tony, um dos fundadores dos Jets, se apaixona por Maria, a irmã de Bernardo, comandante dos Sharks. O amor impossível, que faz lembrar Romeu e Julieta (inspiração inicial da história), é fadado ao fracasso - uma paixão irrealizável graças ao racismo e à xenofobia americana. ‘Trata-se de obra musicalmente complexa, em que atores devem cantar e dançar de forma natural, sem parecer uma demonstração de técnica’, comenta Takla.

De fato, escrito como se fosse uma ópera, o musical exige cantores com vocação lírica para os papéis principais. Mais: em uma das mais célebres canções, Maria, o ator que interpreta Tony necessita alcançar uma nota difícil, o si bemol. ‘Para conseguir isso, tive de retrabalhar minha respiração’, conta Fred Silveira, que vive Tom com firmeza e emoção e participa do oitavo musical de sua carreira. ‘Além de outra exigência, a coreográfica, é preciso preparar a emoção para o final.’

É justamente o momento em que Maria perde a inocência à custa da vida do amado. ‘Ela sofre uma mudança radical em sua rotina, tornando-se mulher graças ao ódio que separa as duas gangues’, comenta Bianca Tadini, soprano lírica que, como Maria, também atinge notas difíceis (como um dó, no final da música Quinteto) e confere dignidade à menina obrigada a amadurecer com a perda.

Também cantora lírica, Sara Sarres interpreta um papel (Anita, porto-riquenha apaixonada por Bernardo) que exigiu uma mudança em sua carreira. ‘Mudei vocalmente minha interpretação, buscando posições mais graves de minha voz.’ Com isso, ela deixou de viver as eternas mocinhas e se tornar, com presença marcante, uma mulher madura, que também sofre uma perda.

Em West Side Story, os números musicais ajudam a narrar a trama e definem o caráter dos personagens. Daí a comprovada importância dos papéis considerados secundários. ‘Cada um tem uma trajetória específica e até uma coreografia própria, o que marca bem sua posição’, comenta Luciano Andrey, desenvolto como Riff, principal amigo de Tony. ‘E, para isso, temos de usar a técnica do balé clássico adaptado ao musical’, completa Adalberto Halvez, dono de uma enorme vitalidade ao viver Bernardo.

Foi esse o grande desafio de Tânia Nardini, responsável pela adaptação da coreografia original, e também de Cláudio Botelho, que traduziu as letras sem perder o frescor - seu maior trunfo foi a versão de Tonight: como a canção exigia uma palavra de duas sílabas para substituir ‘tonight’, ele encontrou em ‘você’ a chave para manter o ritmo certo e ainda segurou a linha melódica da letra. Um esforço de equipe para garantir o estilo clássico do musical, cujo final, ao contrário da peça de Shakespeare, é mais amargo e mais condizente com o mundo moderno.

Serviço
West Side Story. 140 min. (com 15 min. de intervalo). 12 anos. Teatro Alfa - Sala A (1.210 lug.). Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, telefone 5693-4000. 5.ª e 6.ª, às 21 h; sáb., às 17 h e às 21 h; dom., às 18 h. R$ 40 a R$ 130 (5.ª);R$ 60 a R$ 140 (6.ª e dom.);
R$ 60 a R$150 (sáb.). Ingressos pelos telefones 5693-4000 e 0300 789-3377 (serviço exclusivo do Teatro Alfa, com entrega no próprio teatro no dia do espetáculo). Ingresso Rápido, 4003-1212, www.ingressorapido.com.br (com taxa de conveniência). Até 27/7

05/03/2008 - 15:12h Canções de uma América que perde a inocência na rua

Musical de Bernstein e Sondheim é um registro documental do nascimento das gangues racistas nas cidades dos EUA

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de São Paulo

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O musical West Side Story nasceu há meio século como uma história de dois amantes de crenças antagônicas, um católico e outro judeu, ambos moradores no lado leste de Manhattan. O projeto logo foi abandonado. Seria esquemático demais situar o musical na parte nobre da ilha. Nem o coreógrafo Jerome Robbins, que teve a idéia de adaptar Romeu e Julieta para a linguagem do musical americano, parecia convencido. Finalmente, ao ler uma reportagem no jornal Los Angeles Times sobre gangues rivais formadas por mexicanos e americanos, Arthur Laurents, autor da peça, logo imaginou que o conflito religioso da história original poderia ser transformado numa briga étnica. Não no elegante lado leste, mas no lado oeste de Manhattan, o mais miserável.

Laurents conversou, então, com o compositor Leonard Bernstein, parceiro de Robbins no musical On the Town (1944). Coincidentemente, o maestro, um gay nada discreto habituado a rondas noturnas em bairros pobres de Manhattan, havia descoberto às margens do Rio Hudson, lá pela Rua 125, alguns garotos porto-riquenhos fazendo uma algazarra dos diabos: pulavam e brigavam entre os arcos de um prédio como se estivessem numa coreografia de Robbins. Assim nascia um dos números mais fascinantes (a seqüência do Rumble) de West Side Story, herdeiro dos musicais politizados de Brecht e Weill - sem o didatismo da dupla alemã. Estava decidido: seria um musical sobre gangues urbanas que tomam o lugar das famílias feudais de Shakespeare e lutam por afirmação étnica e pela defesa de seu território. Isso nos anos 1950, muito antes do hip-hop e dos gangsta rappers.

No lugar dos Capuletos e Montecchios, os Jets, a gangue polimorfa de caucasianos, luta até a morte contra os Sharks, outra gangue formada por imigrantes porto-riquenhos. O cenário: a América de jovens deserdados, dispostos a tudo para pertencer a algum grupo social. Em West Side Story, o sonho americano de ascensão vira um pesadelo quando um dos garotos da primeira gangue, os Jets - ou seja, os ‘jatos’, signos da América do futuro -, apaixonado pela irmã do líder porto-riquenho, mata por acidente um dos Sharks - os ‘tubarões’, bichos que não evoluem há mais de 2 milhões de anos.

Os sociólogos americanos cansaram de explicar a origem desse conflito: declínio da oferta de emprego aos imigrantes (especialmente os latinos) numa época de automação e medidas cautelares da Suprema Corte para manter negros, chicanos e nativos fora do páreo. Aprovando leis ambíguas nos anos 1950, que garantem igualdade aos cidadãos (desde que separados por raças), essa corte é ridicularizada na figura do policial Krupke, que ouve, dos garotos das duas gangues de West Side Story, mais palavrões do que suportam seus ouvidos. Tanto que Sondheim (também autor de Sweeney Todd, base do filme homônimo em cartaz) foi obrigado a mudar as letras da canção Gee, Officer Krupke, na adaptação para o cinema: nela, um garoto diz que seu pai é um bastardo, sua mãe uma ‘fdp’ e sua irmã uma biscate. Conclusão: a canção foi banida da programação da BBC por mencionar abuso sexual e uso de drogas. Mais uma vez: isso em 1957.

O pior de tudo é que nem Bernstein nem Sondheim exageravam. Quando Rita Moreno interpretou, no cinema, a cena em que Anita é acossada e quase currada pelos Jets, a atriz desabou a chorar ao lembrar que foi vítima de abuso sexual quando criança. Ela não perdoa seu algozes. Aconselha Maria, apaixonada pelo americano Tony, a procurar um bom rapaz porto-riquenho e se livrar daqueles ‘monstruosos’ ianques que a acuaram na rua (na canção A Boy Like That). Perpetuam-se os estereótipos cultivados por ambos os lados. Fica claro que eles são transmitidos pelos pais das vítimas. Os Jets não só discriminam os Sharks porto-riquenhos, acusando-os de roubar seus empregos, como enunciam um discurso racista sobre a inferioridade latina, imitando o sotaque do antípoda. A própria Anita se encarrega de traçar um auto-retrato depreciativo dos porto-riquenhos, justificando que prefere a discriminação à miséria (na canção América). Algo mudou?