01/10/2008 - 12:16h O telefonema das 3h da madrugada

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Paul Krugman* – O Estado de São Paulo

São três horas da madrugada, no começo de 2009, e toca o telefone na Casa Branca. Vários dos maiores fundos hedge (de risco) estão prestes a falir, diz a voz do outro lado da linha, e é provável que haja caos quando o mercado abrir.

Em quem você confiaria para atender a este chamado? Não estou sendo melodramático. O plano de resgate lançado no domingo é muito melhor do que a primeira proposta do secretário do Tesouro, Henry Paulson – melhor o bastante para merecer a aprovação. Mas não é o que poderíamos chamar de bom plano, e não vai pôr fim à crise. Tudo indica que o próximo presidente terá de lidar com algumas grandes emergências financeiras.

Então, o que sabemos sobre o preparo dos dois homens que acabarão atendendo a este telefonema? Bem, Barack Obama parece bem informado e sensato em relação aos problemas econômicos e financeiros. John McCain, por outro lado, me assusta.

Sobre Obama: é uma pena que ele não tenha demonstrado mais liderança no debate a respeito do pacote de resgate, optando ao invés disso por deixar o assunto nas mãos dos democratas no Congresso. Mas tanto Obama quanto os democratas estão cercados por assessores conhecedores da sua área, entre eles os experientes administradores de crises Paul Volcker e Robert Rubin.

Então temos o assustador McCain – mais assustador agora do que há algumas semanas. Já sabemos há bastante tempo que McCain não sabe muito de economia. Isto não importaria muito se ele tivesse bom gosto na hora de escolher seus assessores – coisa que ele não tem.

Lembre-se, o seu principal mentor na área da economia é Phil Gramm, um dos maiores inimigos da regulamentação, que tomou cuidados especiais nos seus dias de senador para impedir a supervisão dos derivativos financeiros – justamente os instrumentos levaram os mercados de crédito à beira do colapso. Gramm não teve mais função na campanha de McCain desde que declarou que os EUA são “uma nação de chorões”, mas ainda é cotado para o cargo de secretário do Tesouro.

E no ano passado, quando a campanha de McCain anunciou que o candidato havia reunido “uma impressionante equipe de economistas e professores para aconselhá-lo em relação à política econômica, quem era citado com destaque? Kevin Hassett, co-autor do livro Dow 36.000. Não é necessário dizer mais nada.

Agora, em boa medida a péssima qualidade dos assessores de McCain reflete o esfarrapado estado intelectual do seu partido. Será que já houve uma proposta econômica mais patética do que a sugestão feita pelos republicanos no Congresso, pedindo que tentemos resolver a crise financeira eliminando os impostos sobre ganhos de capitais? Instituições financeiras em apuros, por definição, não dispõem de ganhos de capitais para serem taxados. Mas até o presidente Bush tem procurado, no crepúsculo do seu mandato, o conselho de pessoas relativamente sensatas: não sou fã de Paulson, mas ele representa um enorme progresso em relação ao seu predecessor. A esta altura, temos a suspeita de que uma eventual presidência de McCain nos faria sentir saudades da competência da era Bush.

A verdadeira revelação nas últimas semanas, no entanto, foi o quanto a opinião de McCain sobre a economia é errática. A qualquer momento, ele parece ter opiniões muito fortes – mas poucos dias depois, ele parte numa direção completamente diferente.

Assim, no dia 15 de setembro ele declarou que “os fundamentos da nossa economia são sólidos”. Isto foi no dia seguinte à falência do Lehman, enquanto a crise financeira entrava num estágio novo e ainda mais perigoso.

Mas três dias mais tarde ele declarou que os mercados financeiros da América se tornaram um “cassino”, e disse que demitiria o chefe da Comissão de Valores Mobiliários – coisa que, aliás, não faz parte das atribuições do presidente.

E então ele encontrou um novo grupo de vilões – Fannie Mae e Freddie Mac, os credores patrocinados pelo governo. (Apesar de alguns verdadeiros escândalos dentro de Fannie e Freddie, eles desempenharam um papel pequeno na instalação da crise: a maioria dos empréstimos realmente podres veio de credores particulares.) E ele acusou moralmente outros políticos, incluindo Obama, de estarem sob a influência financeira de Fannie e Freddie; mas no final era uma empresa de propriedade do seu próprio chefe de campanha que recebia dinheiro do Freddie até o mês passado.

Então Paulson lançou seu plano, e McCain entrou com veemência no debate. Mas ele admitiu, vários dias depois, que não havia de fato lido o documento, o qual não consistia em mais de três páginas.

Ok, acho que você captou a imagem que quero transmitir.

Parece que a economia moderna é um lugar perigoso – e não é o tipo de perigo que você pode enfrentar falando duro e denunciando os malfeitores. Será que McCain dispõe da capacidade de julgamento e do temperamento necessários para lidar com esta parte do emprego que ele busca?

*Paul Krugman é colunista do ‘New York Times’

18/09/2008 - 09:03h ”Crise é o Muro de Berlim do livre mercado”

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Instituições voltadas para os mercados nas economias de mercado quebram e pedem socorro ao governo, diz Stiglitz

Nathan Gardels e Global Viewpoint – O Estado de São Paulo

http://blogs.zdnet.com/open-source/images/joseph-stiglitz.jpgCom a profunda crise por que passa o sistema financeiro mundial, puxada pela quebra das principais instituições de crédito dos Estados Unidos, Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia em 2001, avalia que a queda de Wall Street representa para o fundamentalismo do mercado o que a queda do Muro de Berlim representou para o comunismo. A seguir, principais trechos da entrevista ao editor do Global Viewpoint.

Barack Obama disse que a quebradeira de Wall Street é a maior crise desde a Grande Depressão; John McCain afirma que a economia está ameaçada, mas que é fundamentalmente forte. Quem tem razão?

Obama está muito mais próximo da verdade. De fato, os Estados Unidos têm pessoas de talento, grandes universidades e um excelente setor de alta tecnologia. Mas os mercados financeiros desempenharam um papel muito importante e foram responsáveis por 30% dos lucros corporativos dos últimos anos. Os principais operadores dos mercados financeiros colheram esses lucros argumentando que estavam contribuindo para administrar o risco e alocar o capital de modo eficiente e, por isso, afirmam, “merecem” os altos retornos. Ficou claro que nada disso é verdade. Eles administraram pessimamente toda a situação. Agora esta se voltará contra eles e o restante da economia terá de pagar, enquanto as engrenagens da atividade econômica começam a rodar mais devagar em razão do aperto no crédito. Nenhuma economia moderna pode funcionar bem sem um vibrante setor financeiro. Portanto, o diagnóstico de Obama é correto: nosso setor financeiro se encontra numa situação desesperadora. E, se está numa situação desesperadora, significa que a nossa economia está na mesma situação. Mesmo se não analisarmos a turbulência financeira, mas o grau de endividamento nacional, federal e do setor da habitação, veremos que há um grave problema. Nós estamos afogando. Se considerarmos a desigualdade, a mais profunda desde a Grande Depressão, veremos igualmente um grave problema. Se considerarmos os salários estagnados, perceberemos outro grave problema. A maior parte do crescimento econômico nos últimos cinco anos teve base na bolha da habitação, que acaba de estourar. E os frutos desse crescimento não foram amplamente compartilhados. Em suma, os fundamentos não são fortes.

Que medida seria necessária para enfrentar a crise de Wall Street?

Evidentemente, não precisamos só de uma nova regulamentação, mas de uma reformulação do sistema regulador. Durante seu reinado à frente do Federal Reserve (Fed) – no qual a bolha financeira e hipotecária foi crescendo -, Alan Greenspan dispunha de inúmeros instrumentos para contê-la, mas não o fez. Afinal, ele foi escolhido por Ronald Reagan por suas atitudes contrárias à regulamentação. Paul Volcker, o chefe anterior da instituição, conhecido por manter a inflação sob controle, foi demitido porque o governo Reagan julgou que ele não atuava de maneira adequada à desregulamentação. Nosso país sofreu, então, as conseqüências da escolha para o cargo de principal regulador da economia de alguém que não acreditava em regulamentação. Portanto, em primeiro lugar, para corrigir o problema precisamos de líderes políticos e de estrategistas que acreditem em regulamentação. Além disso, precisamos adotar um sistema capaz de lidar com a expansão das finanças e de instrumentos financeiros além dos tradicionais bancos.Por exemplo, precisamos regulamentar os incentivos. É preciso começar a pagar bônus pelo desempenho referente a vários anos, e não só a um ano, porque isso acaba encorajando o jogo. As opções de ações estimulam a contabilidade desonesta e precisam ser limitadas. Em suma, criamos incentivos para um mau comportamento do sistema e foi o que tivemos. Também precisamos de “redutores de velocidade” . Historicamente, toda crise financeira esteve associada a uma expansão muito rápida de determinados tipos de ativos, das tulipas às hipotecas. Se conseguirmos reduzir isso, poderemos impedir que as bolhas escapem do controle. O mundo não teria desaparecido se expandíssemos o setor de hipotecas a 10% ao ano, em lugar de 25%. Conhecemos o esquema tão bem que deveríamos ser capazes de fazer alguma coisa para contê-lo. Acima de tudo, precisamos de uma comissão de segurança para produtos financeiros, assim como temos uma comissão para os bens. Os financistas inventaram produtos que não tinham o objetivo de administrar o risco, mas criar o risco. É claro que acredito totalmente em maior transparência. Entretanto, em termos de normas reguladoras, esses produtos eram transparentes do ponto de vista técnico, mas eram tão complexos que ninguém conseguia entendê-los. Se todas as cláusulas desses contratos tivessem sido divulgadas, não teriam acrescentado nenhuma informação útil sobre o risco para os mortais comuns. O excesso de informações não é informação. Nesse sentido, os que pedem maior transparência como solução do problema não compreendem as informações. Quando você compra um produto, quer conhecer o risco, essa é a questão.

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Os títulos respaldados em hipotecas, que estão na base da crise, estão espalhados pelo mundo, de bancos a fundos soberanos na China, Japão, Europa e Golfo. Qual o impacto da crise para eles?

É verdade. Os prejuízos das instituições financeiras européias relativos ao crédito hipotecário subprime foram maiores que nos EUA. O fato de os EUA terem diversificado esses títulos para os seus investidores no mundo todo, graças à globalização dos mercados, amorteceu o impacto nos EUA. Se não tivéssemos diluído o risco, o resultado nos EUA teria sido muito pior. Uma coisa que agora todos compreendem como conseqüência dessa crise são as informações assimétricas da globalização. Na Europa, por exemplo, não se entendia muito bem que as hipotecas americanas são non-recourse (o valor do financiamento não pode superar o valor de mercado do imóvel) – se o valor da casa cai abaixo do valor da hipoteca, você pode devolver a chave ao banco e ir embora. Na Europa, a casa é a garantia, mas o mutuário continua pendurado pela quantia que tomou emprestado, seja qual for. É esse o perigo da globalização: o conhecimento é local porque você está muito mais a par do que ocorre em sua sociedade do que nas outras.

Então, qual é o impacto da crise de Wall Street para a globalização impulsionada pelo mercado?

O programa da globalização está estreitamente vinculado aos fundamentalistas do mercado – a ideologia dos mercados livres e da liberação do comércio. Nesta crise, vemos que instituições mais voltadas para os mercados nas economias mais orientadas para o mercado quebram e pedem o socorro do governo. Todo mundo dirá agora que esse é o fim do fundamentalismo do mercado. Assim, a queda de Wall Street representa para o fundamentalismo do mercado o que a queda do Muro de Berlim representou para o comunismo: ela diz que essa forma de organização econômica não funciona. A conjuntura mostra que a liberação do mercado financeiro não existiu. A maneira hipócrita com a qual o Tesouro americano, o FMI e o Banco Mundial lidaram com a crise asiática de 1997 e a maneira como a atual está sendo tratada enfatizou essa reação intelectual. Agora, os asiáticos dizem: Espera aí, vocês disseram que deveríamos imitá-los nos EUA. Se tivéssemos seguido o exemplo, também estaríamos no caos. Talvez vocês possam se permitir isso; nós, não.”

17/09/2008 - 20:16h Crise se agrava e bancos nos EUA correm para fechar acordos

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JACK REERINK – REUTERS – AGENCIA ESTADO

NOVA YORK – Uma onda de desesperadas negociações entre instituições financeiras invadiu Wall Street nesta quarta-feira, dia em que as ações atingiram mínimas em três anos em meio a novos sinais sobre a fragilidade do setor.

O Morgan Stanley estava discutindo uma fusão com a potência bancária Wachovia, segundo noticiou o New York Times. O presidente-executivo John Mack recebeu um telefonema do Wachovia nesta quarta-feira, mas também está em busca de outras opções, segundo o jornal.

“Neste mercado, qualquer coisa é possível. Parece que o mercado quer que o modelo de banco de investimento desapareça”, disse Danielle Schembri, analista de corretoras do BNP Paribas em Nova York.

O Washington Mutual, maior banco de poupança do país, colocou-se à venda, segundo fontes, confirmando uma notícia do New York Times. Potenciais interessados incluem Citigroup, JPMorgan, Wells Fargo e HSBC, de acordo com as fontes.

Mais tarde o chairman do Wells Fargo disse que não iria revelar no que “nós estamos ou não interessados”.

Já a concessora de hipotecas britânica HBOS chegou a um acordo em ações com o Lloyds TSB para criar uma gigante hipotecária de 28 bilhões de libras (50 bilhões de dólares).

A onda de acordos em potencial segue o resgate surpresa, no valor de 85 bilhões de dólares, da seguradora AIG pelo Federal Reserve na véspera, um movimento que não conseguiu acalmar os mercados.

“Parem a insanidade”, pediu um relatório do UBS quando as ações financeiras estavam em queda livre.

O resgate da AIG segue o colapso do Lehman Brothers Holdings e a venda da Merrill Lynch para o Bank of America Corp, além de movimentos de bancos centrais em todo o mundo para inundar o sistema financeiro com recursos.

“O medo agora é sobre quem será o próximo”, afirmou John O’Brien, vice-presidente sênior do MKM Partners. “Quase parece que as pessoas pegam um livro e dizem qual será o próximo alvo. E isso espalha um temor contínuo.”

As ações do Morgan Stanley caíram 43 por cento e as do Goldman recuaram 27 por cento, mesmo após ambos divulgarem resultados trimestrais acima do esperado na terça-feira.

Isso levantou comentários de que os dois principais bancos de investimentos dos Estados Unidos que ainda restam podem ter que se juntar a um banco comercial para sobreviver à turbulência.

“Acho que o Goldman Sachs e o Morgan Stanley se tornarão parceiros de dança. Eles não querem ser… a vítima desta semana”, disse William Larkin, gestor de renda fixa do Cabot Money Management.

O custo de proteção da dívida do Morgan Stanley e do Goldman saltou, refletindo os temores dos investidores de que seus títulos não sejam mais seguros que aquelas considerados como “junk”. O porta-voz do Goldman Lucas van Praag disse que a queda dos papéis da empresa é “resultado de um temor completamente irracional e não é baseado em fundamentos”. O Morgan Stanley culpou os investidores de curto prazo.

Enquanto isso, a Casa Branca disse estar “preocupada sobre mais empresas”.

E em um sinal de uma ação regulatória com pouco efeito aparente, a SEC, o órgão regulador do mercado de capitais dos EUA, restringiu as vendas a descoberto.

“Parece que a SEC está um dia atrasada… O Morgan Stanley claramente está na mira dos vendedores a descoberto”, disse Andrew Brenner, vice-presidente sênior do MF Global.

As autoridades norte-americanas já gastaram 900 bilhões de dólares para aliviar os problemas dos setores financeiro e imobiliário. Grande parte desse dinheiro pode ser recuperado, se os ativos não caírem ainda mais.

Neste ano, o governo já socorreu as agências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac e o Fed estruturou a venda do falido banco de investimento Bear Stearns ao JPMorgan Chase .

(Colaboraram Svea Herbst-Bayliss, Jon Stempel, Jennifer Ablan, Joseph Giannone, Jeffrey Hodgson e Kevin Plumberg)

23/08/2008 - 09:51h USA: a cratera da crise das hipotecas


O ônus das hipotecas

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Jenny Anderson* – O Estado de São Paulo

Quando as ações da Fannie Mae e da Freddie Mac despencaram, as ações de companhias financeiras padeceram. Mas poucas sofreram tanto quanto as do Lehman Brothers, o encrencado banco de investimento cuja ação perdeu mais de 10% em 11 dias do último trimestre.

Nos últimos 12 meses, o preço das ações da Freddie recuou 95%. Nesse período, o Lehman caiu 76%. O índice financeiro Standard & Poor’s diminuiu 42%. A título de comparação, o Merrill Lynch caiu 68% e o Citigroup, 64%.

A conexão entre Lehman, Fannie e Freddie é clara, diz Richard X. Bove, analista da Ladenburg Thalman. “Os negócios do Lehman são mais amplos que os da Fannie e da Freddie, mas o vínculo é que eles estavam fazendo a mesma coisa – montando pacotes hipotecários e os vendendo”, diz ele.

Ademais, o banco de investimento e as agências patrocinadas pelo governo retinham as hipotecas, que agora estão gerando prejuízos e obrigando as empresas a levantar capital num mercado que não se mostra muito disposto a fornecê-lo.

Os infortúnios do setor imobiliário se espalharam por Wall Street. O Merril Lynch deu baixa de US$ 45 bilhões e o Citigroup de US$ 49 bilhões nos ativos. Eles também embarcaram na farra das hipotecas, e seus acionistas e empregados agora estão pagando o preço.

Mas o Lehman ficou no centro do furacão por causa de seu tamanho menor, sua exposição significativa em hipotecas – cerca de US$ 61 bilhões em hipotecas e ações lastreadas em ativos – e sua aparente relutância em adotar medidas drásticas.

O Citigroup vendeu sua grande franquia alemã de banco de consumo, enquanto o Merrill Lynch se conformou e vendeu um portfólio de US$ 31 bilhões de obrigações de dívida colateralizada relacionada a hipotecas por 22 centavos por dólar, além de sua participação na Bloomberg LP. O Lehman não quis comentar seus planos.

Depois de um trimestre desastroso, analistas rebaixaram suas estimativas para o terceiro trimestre do Lehman. Onde haviam previsto um pequeno lucro, eles agora esperam uma baixa contábil de até US$ 4 bilhões e um prejuízo de US$ 3,30 por ação no trimestre.

Na quinta-feira, Bove elevou a classificação do Lehman para compra, mas isso não confortará os funcionários do Lehman. Ele diz que a companhia está madura para um take over (compra de controle acionário) hostil por causa do desencontro entre o que os investidores pensam que a companhia vale e o que a administração pensa que ela vale – bem mais.

“Os investidores não estão dispostos a aceitar nenhuma visão positiva da companhia; a administração não está disposta a vender por um valor profundamente deprimido”, escreveu Bove. “O palco está pronto para uma oferta hostil pelo controle da companhia inteira.” Com a incerteza reinante nos mercados, não está claro que compradores poderiam se apresentar.

O Lehman vem tentando sair da encrenca. Depois de perder US$ 2,8 bilhões no segundo trimestre, sobretudo por conta de baixas em investimentos em imóveis residenciais, ele levantou US$ 6 bilhões.

Depois de explorar os mercados e diluir a participação de acionistas, está ficando sem opções. Ele colocou à venda seus negócios lastreados em hipotecas comerciais e aproximadamente US$ 40 bilhões de investimentos em imóveis comerciais, segundo pessoas envolvidas nas negociações.

Ele também está buscando ofertas para sua divisão de administração de investimentos, incluindo o muito valorizado complexo de fundos Neuberger Berman, segundo fontes envolvidas nas discussões. Também está tentando vender uma participação a fundos de riqueza coreanos, segundo uma pessoa informada das discussões.

O banco de investimento está tentando agressivamente reduzir o risco em seu balanço com a venda de alguns ativos (no segundo trimestre, o Lehman vendeu US$ 22 bilhões em ativos ilíquidos de um total de US$ 147 bilhões em ativos).

Patrick Pinschmidt, um analistas do setor financeiro para o Morgan Stanley, disse num relatório de pesquisa no fim de julho que não esperava que as vendas de ativos e baixas contábeis seriam tão grandes como no segundo trimestre. Mas “vemos o Lehman continuando a reduzir exposições em imóveis comerciais de olho na redução de seus ativos ilíquidos totais em outros US$ 20 bilhões até o fim do ano”, ele escreveu.

Os investidores estão ficando cada vez mais nervosos com a falta de um plano declarado da administração, enquanto outras condições econômicas enfraquecem. O crescimento global está se desacelerando e o panorama para a Fannie e a Freddie continua nebuloso. Some-se a isso a contínua deterioração do mercado de hipotecas comerciais e residenciais, e o Lehman tem encontrado pouca margem de manobra.

Segundos dados que a Standard & Poor?s divulgou na quinta-feira, mais de 41% das hipotecas subprime contraídas em 2006 estão inadimplentes – uma proporção menor que as do Merrill Lynch e do Morgan Stanley, mas maior que as do Credit Suisse e do JP Morgan (O Lehman não precisa necessariamente reter os papéis hipotecários em pacotes para vender, embora seja mais provável que ele retenha mais pedaços desses que de outros.) Hipotecas para pessoas com o crédito um grau acima do subprime (alto risco), chamado Alt-A, estão sendo leiloadas. A Standard & Poor’s estima que mais de 21% dessas hipotecas feitas em 2006 estejam inadimplentes.

Para agravar ainda mais o panorama já tétrico do setor hipotecário, o desempenho geral dos mercados de capitais está ruim no terceiro trimestre – uma questão para todas as empresas, mas de novo, que parece atingir mais duramente o Lehman.

Os spreads de crédito aumentaram em algumas classes de ativos e grandes empresas continuaram mostrando fraqueza.

Segundo pesquisa do Goldman Sachs, a subscrição de dívida – um grande negócio do Lehman – despencou. Para o setor, a subscrição de dívida garantida por ativos caiu 47% em relação ao trimestre anterior, e a emissão garantida por hipotecas caiu 28%. No total, as emissões garantidas por ativos caíram 80% em relação ao terceiro trimestre de um ano atrás, e as ofertas garantidas por hipotecas caíram 87%.

Para o Lehman, a subscrição de dívidas garantidas por ativos caiu 89% desde o segundo trimestre, e 94% de um ano atrás; a subscrição de dívidas hipotecárias recuou 44% ante o trimestre anterior e 94% ante um ano atrás.

Bove vê todo esse clima ruim como uma oportunidade para um investidor hostil abocanhar o Lehman Brothers, cuja capitalização de mercado recuou para US$ 9,5 bilhões.

“Se vai acontecer, eu não sei”, disse ele. “Poderia acontecer? Seguramente. Oportunidades como essa raramente aparecem nos mercados.”

*O autor escreve para o “The New York Times”

25/07/2008 - 18:02h Caixa lançará cartão para substituir fiador no aluguel

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Mariana Sallowicz – Do Diário de São Paulo

SÃO PAULO – Os cerca de 6,5 milhões de brasileiros que moram de aluguel no país vão ganhar mais uma opção na hora de locar um imóvel. A Caixa Econômica Federal finalizou o projeto do Cartão Aluguel, que virá para substituir o fiador, cheque-caução ou seguro-fiança.

O locatário que optar por ele, receberá um cartão de crédito para pagar o aluguel todos os meses. Se atrasar, o banco acerta, mas depois cobra, com juros. O proprietário nem fica sabendo do problema.

- O produto está montado. Agora, esperamos a área de tecnologia de informação fazer algumas alterações no sistema para começar – afirma o vice-presidente de Governo da Caixa, Jorge Hereda.

Por conta desses ajustes, a data de lançamento não está totalmente fechada. A Caixa está substituindo a tecnologia dos cartões de crédito, que passarão a funcionar com chip eletrônico. Assim que finalizar a mudança, lançará o Cartão Aluguel.

Muitos inquilinos encontram dificuldade na hora de assinar o contrato por não terem um fiador. Uma outra opção, o seguro-fiança, também é inviável financeiramente para alguns, já que chega a custar uma vez e meia o valor do aluguel.

O locatário terá que desembolsar uma taxa de anuidade. Ele fará o acerto direto com o banco, que enviará uma fatura mensalmente, assim como ocorre com o cartão de crédito.

As taxas de juros, no caso de atraso, devem ser semelhantes às cobradas pelos cartões de crédito, de cerca de 10% ao mês. A instituição financeira vai analisar a capacidade de pagamento do locatário, antes de conceder o crédito.

COMO VAI FUNCIONAR

CARTÃO ALUGUEL

O inquilino terá que procurar agência da Caixa Econômica Federal para solicitar o dinheiro de plástico exclusivo para o aluguel.

AVALIAÇÃO

A Caixa vai analisar a ficha cadastral dos interessados para conceder a nova garantia de locação. Inquilinos vão pagar o aluguel mensalmente por meio do extrato enviado à residência.

DESPESA

O inquilino será o responsável pelo pagamento da taxa de anuidade do cartão. A cobrança já é conhecida para quem usa o modelo.

IMOBILIÁRIA

De posse do cartão aluguel, os inquilinos devem procurar a administradora de imóveis e escolher o apartamento. Em seguida, é só passar o cartão exclusivo da Caixa Econômica para fazer a operação a fim de garantir o fechamento do negócio, sem fiador ou outra garantia.

INADIMPLÊNCIA

Secovi lembra que a inadimplência na locação ainda é muita alta. Atualmente, representa de 9% a 10%. Isso porque o Judiciário é muito lento para julgar uma ação de despejo. À vezes, o proprietário ou administradora leva mais de uma ano para retomar o imóvel.

Fonte: Jornal O Dia

15/07/2008 - 10:18h Na crise, liberalismo se refugia no Estado

 

Ajuda oficial não acalma Wall Street


Ações da Fannie Mae caíram 5,1% e da Freddie Mac, 8,3%, após plano de resgate anunciado pela Casa Branca

Patrícia Campos Mello – O Estado de São Paulo

Um dia após o Tesouro americano garantir que vai resgatar as gigantes de hipotecas Fannie Mae e Freddie Mac se for necessário, as empresas passaram por um grande teste de confiança dos investidores. A Freddie Mac conseguiu vender ontem US$ 3 bilhões em títulos de curto prazo, com forte demanda dos investidores.

Mas o plano de resgate anunciado pelo governo americano ainda não tranqüilizou Wall Street. As ações da Fannie encerraram o dia em queda de 5,1% e as da Freddie, em baixa de 8,3%. Os investidores acham que um possível resgate das instituições não salvará o sistema financeiro em geral da grande desaceleração em curso.

As empresas viram suas ações cair mais de 50% na semana passada, por temores do mercado de que elas não tinham capital para honrar compromissos. As duas são garantidoras ou donas de US$ 5,2 trilhões em títulos de hipoteca – metade do mercado hipotecário americano (só para comparar, o orçamento dos EUA para 2008 é de US$ 2,9 trilhões).

A Fannie e a Freddie garantem a liquidez do mercado de crédito imobiliário – e investidores do mundo inteiro compram seus papéis. Bancos centrais estrangeiros, principalmente na Ásia, têm US$ 979 bilhões em títulos vendidos pelas empresas.

“Fannie Mae e a Freddie Mac são grandes demais para quebrar – os riscos para economia em geral superam o risco moral”, diz Juan Licari, economista-sênior da Moody?s Economy.com. Risco moral, no caso, é estimular investidores a assumir riscos exagerados, na esperança de ajuda do governo.

Segundo Arturo Porzecanski, professor de Finanças Internacionais na American University, trata-se de empresas peculiares – têm garantias do governo, mas não são exatamente estatais, porque têm acionistas. “O governo deixou claro que assumirá a responsabilidade pela saúde das empresas.”

No domingo, o Tesouro anunciou que iria ampliar as linhas de crédito para Fannie e Freddie e poderia até comprar ações das duas. O Fed, por sua vez, abriria a janela de redesconto, antes reservada a bancos. Se efetivado, o resgate será o segundo em quatro meses por causa da crise. Em março, o Fed arquitetou a compra do Bear Stearns pelo J.P. Morgan para evitar a quebra do banco – e assumiu grande parte dos ativos arriscados.

Na sexta-feira, o banco IndyMac, à beira da insolvência por causa da inadimplência de hipotecas, sofreu intervenção. E os boatos sobre a saúde financeira do Lehman Brothers, outro banco com grande exposição ao subprime, cresceram ontem, com recuo de 12,2% nas ações. “Esse incidente (com a Fannie e Freddie) não será o último”, disse à Reuters o megainvestidor George Soros. “A atual crise financeira é a mais séria de nossa geração.”

15/07/2008 - 09:43h Fannie & Freddie

 

 Celso Ming – O Estado de São Paulo 

Aprofundando o entendimento de que, pelo menos na atual crise americana, banco não quebra, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, anunciou na noite de domingo o resgate dos dois mamutes do crédito hipotecário dos Estados Unidos.

São eles Fannie Mae e Freddie Mac, responsáveis pelo financiamento ou pela recompra de quase US$ 6 trilhões do mercado total de US$ 12 trilhões em hipotecas. São agências capitalizadas e/ou financiadas pelo setor privado, mas com forte respaldo em recursos oficiais na medida em que operam um segmento de interesse público e social. Enfim, são as Government Sponsored Enterprises (GSEs).

Em conseqüência da crise das hipotecas de alto risco (subprime), essas agências foram consideradas tecnicamente quebradas na semana passada. Mas o governo americano tratou de arranjar-lhes um “proer” generoso, constituído por três providências independentes: (1) acesso às operações de redesconto do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), como se fossem bancos comerciais; (2) abertura de financiamentos especiais do Tesouro, de US$ 2,25 bilhões para cada uma; e (3) autorização para que o Tesouro compre suas ações, em volume ainda a ser determinado, o que caracteriza certo grau de estatização.

A justificativa para a injeção de dinheiro público em empresas privadas foi evitar uma catástrofe financeira de proporções incomensuráveis. Foi o mesmo argumento evocado pelo governo inglês em setembro passado, quando estatizou uma companhia de crédito imobiliário, a Northern Rock, que enfrentava corrida de depositantes, e o evocado pelo Fed em março, quando impediu o naufrágio do Bear Stearns e abriu a janela do redesconto para bancos de investimento, que até então não estavam sob o seu guarda-chuva. Além da avaria financeira – é o argumento -, a quebra dessas empresas provocaria prejuízos políticos imediatos, especialmente às vésperas das eleições presidenciais.

Quem passar o aspirador na memória vai se lembrar de que, ao final dos anos 80 e início dos 90, os Estados Unidos também enfrentaram séria crise das sociedades de poupança e empréstimo, que atingiu 747 instituições e exigiu dos cofres públicos um socorro de US$ 160 bilhões.

O mercado financeiro ontem respirou aliviado, mas, ato contínuo, tomou corpo a percepção de que não há almoço grátis e de que operações assim produzem conseqüências. Uma delas é a de que a eliminação dos riscos – já que o governo os assume – abre um campo enorme para uma dobradinha perigosa constituída de abusos e impunidade (moral hazard). Outra, a aplicação da advertência bíblica de que “abismo atrai abismo” e, com base nesse precedente, todas as ameaças de quebra do gênero terão cobertura de dinheiro do contribuinte. Os abismos seguintes são maior deterioração das contas públicas e mais inflação.

Assim, está aberta a temporada para que os analistas discorram sobre a inevitável questão: what’s next? E o que se sabe é que, apesar do generoso apoio oficial, um grande número de bancos continua precisando de transfusão de sangue. É uma das encrencas que perpetuam o estrangulamento do crédito e a impossibilidade de que o Fed puxe os juros para combater a inflação.

CONFIRA

Força exportadora – A novidade da balança comercial não é o crescimento das importações, de 51,2%, no valor acumulado do ano. É o salto das exportações, apesar do câmbio adverso.

Até há algumas semanas, cresciam entre 15% e 18%. Agora crescem a 25,2%. Esse impulso permite projetar para todo este ano exportações próximas dos US$ 200 bilhões.

Também convém prestar atenção no avanço menos notado da corrente de comércio (soma das exportações e importações). Cresceu 36,1% no acumulado do ano. Quanto maior esse número, menor a influência do capital externo sobre o câmbio.

12/07/2008 - 11:14h USA: Mercado imobiliário à beira do colapso

ANÁLISE

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DO “FINANCIAL TIMES” – FOLHA DE SÃO PAULO

COM O preço do barril de petróleo acima de US$ 146 e a oscilação nos mercados mundiais de ações, o tumulto na economia mundial se agravou durante esta semana. Mas o acontecimento mais notável foi o fato de que velhos pecados socialistas agora terão de ser pagos nos Estados Unidos, a terra do capitalismo de livre mercado.
Os problemas afetam duas empresas de financiamento hipotecário coloquialmente conhecidas como Freddie Mac e Fannie Mae e definidas como “empresas patrocinadas pelo governo”. O significado exato dessa descrição pode ser revelado em breve.
Com um passivo combinado de US$ 5,3 trilhões, o equivalente a cerca de 38% do PIB (Produto Interno Bruto) dos Estados Unidos, essas imensas companhias são universalmente vistas como grandes demais para falir.
Já que respondem por cerca de três quartos das novas hipotecas, elas também são importantes demais para que se permita que cheguem à falência.
Caso deixem de existir, o mercado de habitação poderia entrar em colapso, devastando a estabilidade financeira norte-americana.
Mas, se o governo federal tiver de incorporar as dívidas das duas empresas às suas contas, seu passivo financeiro bruto passaria a exceder os 100% do PIB. Felizmente, as coisas ainda não se agravaram a esse ponto, já que os ativos das duas instituições continuam a ter valor.
O verdadeiro problema, demonstrado pela queda vertiginosa nos preços de suas ações, é que o capital de que dispõem parece insuficiente para sustentar seus passivos, dada a escala dos possíveis prejuízos.
William Poole, ex-presidente do Federal Reserve de St. Louis, argumentou nesta semana que a Freddie Mac teria de ser considerada insolvente caso o valor de seus ativos fosse estimado a preços de mercado.
Se for acatada a suposição de que manter a capacidade das duas gigantes para emprestar é fundamental, existam apenas duas saídas: as duas teriam de levantar imensos montantes em capital adicional ou o governo teria de garantir seus passivos de maneira explícita.
Em seu depoimento ao Congresso nesta semana, Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve, encorajou as duas instituições a levantar dinheiro.
Isso certamente seria dispendioso para os acionistas existentes e arriscado para os novos. O governo mesmo poderia investir nessa operação de aumento de capital. Alternativamente, o governo poderia assumir controle direto sobre uma ou ambas as empresas, presumivelmente zerando o valor das ações em circulação.
O nome do processo, aparentemente, seria “conservadoria”. Do lado oposto do Atlântico, o termo usado seria “nacionalização”. E a decisão faria com que a nacionalização do Northern Rock pelo governo britânico parecesse não mais do que uma bagatela.
Os problemas da Fannie Mae e Freddie Mac são importantes em si. Mas são ainda mais importantes pelo que nos dizem sobre a crise em curso: ela continua a se expandir. Os preços das casas continuam a cair nos Estados Unidos, os prejuízos do setor financeiro devem aumentar, o crédito continua apertado, a economia norte-americana continua fraca, o consumo domiciliar está sob pressão cada vez mais intensa e os preços do petróleo estão subindo ainda mais.
Enquanto isso, o Departamento do Tesouro e o banco central estão improvisando desesperadamente. Os mercados de ações ao menos perceberam até que ponto as coisas estão difíceis. Apenas os mais otimistas acreditariam que o pior está por vir. A crise, na verdade, está se agravando.


Tradução de PAULO MIGLIACCI