27/10/2009 - 11:25h FMI deveria ajudar o Brasil a enfrentar fluxo de capitais

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Mundo precisa de uma abordagem menos doutrinária sobre capital estrangeiro, e discutir o IOF sobre remessas sinalizaria que o Fundo pode facilitar essa mudança

ARVIND SUBRAMANIAN E JOHN WILLIAMSON DO “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

A ação brasileira ao impor um tributo sobre certas formas de fluxo de capital estrangeiro, a fim de controlar a alta da moeda do país, tem grande importância, prática e simbólica.
O valor simbólico está no fato de que a decisão sinaliza o fim da era em que os mercados emergentes viviam enamorados dos financiamentos estrangeiros e na expressão de uma disposição de agir para moderar fluxos de capital externo. Em termos práticos, a importância está na ampliação do arsenal de que os países podem dispor para moderar o superaquecimento de suas economias. O caso serve como boa ilustração do tipo de medida que as autoridades econômicas podem usar para deter um superaquecimento incipiente nos preços dos ativos.
A resposta do FMI (Fundo Monetário Internacional) à medida foi cálida ou até ligeiramente negativa. Um importante dirigente da instituição afirmou que “esse tipo de imposto oferece alguma margem de manobra, mas nem tanto, e por isso os governos não deveriam se sentir tentados a postergar ajustes mais fundamentais. Em segundo lugar, implementar esse tipo de taxa é muito complexo, porque ela precisa ser aplicada a todos os possíveis instrumentos financeiros”; ele acrescentou que esse tipo de imposto se havia provado “poroso” em diversos países.
A resposta é decepcionante não porque esteja errada, mas porque reflete que a abordagem intelectual do FMI quanto à globalização das finanças continua a mesma. Essa abordagem sempre envolveu desaprovação implícita a esse tipo de medida, por meio de apelos aos países para que tomem medidas complementares (melhor governança empresarial, reforço de regulamentações financeiras etc.), a fim de preservar influxos estrangeiros, que o FMI vê como sacrossantos.
Para os países de mercado emergente, o problema vem sendo o de que nem sempre é fácil implementar medidas como essas em curto prazo, de modo que a questão prática premente do que fazer quanto aos influxos excessivos persiste, e não há muita orientação do FMI quanto a respostas.
Taxas sobre os fluxos de capital têm seus problemas, mas isso não é argumento contra elas. Nenhuma pessoa sensata acredita que taxas não devam ser impostas porque podem ser, e serão, sonegadas. Em lugar disso, seria necessário procurar as melhores maneiras de ordenar essas medidas (a base deveria ser o preço ou a quantidade?
Que espécie de influxo deve ser visado preferencialmente, para títulos de dívida ou de capital? Qual é a duração mais efetiva para essas limitações? Quando elas devem ser retiradas?), de modo a que os benefícios sejam maximizados, e os riscos, minimizados.
Em lugar de continuar recebendo medidas como essa com um banho de água fria, o FMI deveria considerar que elas oferecem uma oportunidade intelectual. Deveria continuar a apoiar os países em sua busca de fluxos de capital mais abertos, como objetivo estrutural, de longo prazo. Mas também é preciso que reconheça que surtos de alta no fluxo de capitais podem representar um sério desafio macroeconômico, capaz de requerer resposta cíclica diferenciada.
Para os mercados emergentes, o arsenal de medidas de política econômica contra crises futuras precisa abarcar medidas de restrição em forma contracíclica do crescimento de crédito e do endividamento, especialmente as altas no influxo de capital. O motivo mais importante para que o FMI leve a sério a medida tomada pelo Brasil se refere a ideologia e narrativa.
Se a crise mundial deriva, em parte, de um sistema de crenças que elevava de maneira indevida o status das finanças, o FMI contribuiu, de forma explícita ou implícita, para que fosse santificado o capital estrangeiro. Isso impôs um custo pesado, e subestimado, aos países de mercado emergente: caso tomassem medidas de restrição ao fluxo de capital, corriam o risco de ser vistos como avessos ao livre mercado e imprudentes em suas políticas econômicas.
Ao reconhecer que, em certos casos, limitações sensatas aos fluxos podem ser uma resposta de política econômica pragmática e razoável, o Fundo eliminaria o estigma de aversão ao livre mercado que ações como as empreendidas pelo Brasil correm o risco de sofrer.
De fato, o medo desse estigma fica evidente na recente medida brasileira: as magnitudes são pequenas, e o Brasil vem se esforçando por enfatizar a natureza temporária das limitações e as duas coisas fazem com que o mercado leve a medida menos a sério, o que prejudica sua eficiência.
Caso o estigma não existisse, o imposto sobre o fluxo poderia ter sido definido de forma melhor e aplicado com mais confiança, a fim de garantir sua efetividade. O mundo precisa de uma abordagem menos doutrinária quanto aos influxos de capital estrangeiro. Ajudar o Brasil em sua decisão, em lugar de divulgar uma resposta negativa, sinalizaria que o FMI está desempenhando papel construtivo para facilitar essa mudança.

ARVIND SUBRAMANIAN e JOHN WILLIAMSON são pesquisadores sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

24/10/2009 - 09:47h FMI apoia taxação de estrangeiro no país

Diretor diz que é preciso usar instrumentos de proteção contra excesso de entrada de recursos e ataca política cambial da China

FMI recomenda ainda que o Brasil comece a retirar os estímulos fiscais dados no auge da crise global, a fim de evitar o superaquecimento


DENYSE GODOY – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Em um primeiro momento relutante ao avaliar a decisão do governo brasileiro de taxar os investimentos estrangeiros em renda fixa e na Bolsa de Valores, ontem o FMI (Fundo Monetário Internacional) deu o seu respaldo à medida.
“Estamos diante de um problema pragmático, não de um problema ideológico. Vivemos em um mundo que não é o ideal. Então, quando os outros não agem de acordo com as regras, tampouco eu posso me comportar de maneira ortodoxa. Tenho que usar instrumentos heterodoxos, defender-me de alguma forma. E é assim”, disse, em São Paulo, Nicolás Eyzaguirre, diretor do Departamento para o Hemisfério Ocidental do Fundo.
Quando fala em nações que não obedecem às normas, ele se refere à China, que tem política de controle da taxa cambial que impede a flutuação do yuan.
Eyzaguirre emprega a primeira pessoa para colocar qual é, na sua visão, a maneira mais apropriada de agir neste momento porque ele próprio já teve que enfrentar o “monstro dos fluxos excessivos de capital” quando era ministro da Fazenda do Chile, de 2000 a 2006. “Então, a minha preocupação de amigo é que o Brasil se assegure de lançar mão de ferramentas as mais eficientes possíveis, que abarquem toda forma de entrada de recursos no país”, afirmou, explicando que até operações de comércio exterior muitas vezes podem ser utilizadas para disfarçar ingressos. Os chamados investimentos diretos -aqueles feitos em estruturas produtivas- não devem estar sujeitos a tal controle, ressalvou o economista.
Por conta dos desequilíbrios que este início de pós-crise apresenta, o Brasil precisa administrar a situação vantajosa em que se encontra, diz Eyzaguirre. Como os outros emergentes que fizeram de uma política anticíclica a sua principal estratégia para combater os efeitos da crise, o país tem que começar a retirar os estímulos fiscais concedidos. Aí se encaixam os descontos de IPI para automóveis, eletrodomésticos e material de construção.
Se isso não for feito, alerta o Fundo, o esforço do governo vai se somar aos esperados aumentos do consumo e dos investimentos dos empresários locais, levando a um superaquecimento da atividade.
Retirar os incentivos, portanto, também ajudaria indiretamente a impedir valorizações excessivas do real porque adiaria o momento de o BC voltar a elevar a taxa básica de juros.
Enquanto isso, as nações mais industrializadas enfrentarão retomada “lenta e penosa” e não devem pensar em suspender logo os pacotes de socorro à economia que criaram, disse Eyzaguirre. A América Central, que depende do turismo dos americanos e das remessas feitas a partir dos EUA por seus cidadãos que lá residem, sofrerá por consequência.

20/10/2009 - 09:58h Dívida de países ricos infla com a crise

Dívida pública média dos países da OCDE vai atingir 100% do PIB

(A relação Dívida/PIB é aproximadamente de 40% no Brasil. LF)


Andrei Netto, CORRESPONDENTE, PARIS – O Estado SP


A explosão do déficit fiscal dos 30 países mais industrializados, membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), vai impulsionar a dívida pública média a 100% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2010. O cálculo atualizado foi feito a pedido do Estado e confirma previsões negativas sobre o estado das finanças públicas das nações desenvolvidas. Segundo a revista The Economist, só nos sete países mais ricos, o G-7, a conta já supera os US$ 35 trilhões.

O desequilíbrio orçamentário é o efeito mais retardado da crise, e ameaça a estabilidade de todas as grandes potências: Estados Unidos, França, Reino Unido, Itália, Japão e, em menor escala, Canadá. O hiperendividamento – um problema que o Brasil conheceu de perto nos anos 70, 80 e 90 – é consequência direta do aumento brutal do déficit público médio nos últimos dois anos. Em 2007, a cifra atingia 1,5% do PIB dos 30 países; em 2009, chega a 8%. “O déficit explodiu no mundo com a crise, que reduziu a arrecadação e exigiu mais gastos públicos, em especial pela adoção dos pacotes de estímulo à economia”, disse Jean-Luc Schneider, diretor adjunto do Departamento de Economia da OCDE.

A relação média entre a dívida pública e o PIB é mais grave no Japão, onde estaria na casa dos 200%, nos Estados Unidos, em cerca de 100%, e na União Europeia, próximo a 90%. E a perspectiva não é de redução, mas de crescimento de 30% entre 2007 e 2017. Nesses dez anos, a dívida crescerá de 63% para 103% nos EUA, passará de 47% a 125% no Reino Unido e de 70% a 99% na França. Levantamento do banco Barclays Capital nas contas públicas da zona do euro indica situação de calamidade em países como a Grécia – onde a dívida irá de 95% em 2007 para 149% em 2015. Na Irlanda, saltará de 25% a 144%.

Apesar dos números, a preocupação de organismos como a OCDE é reforçar a confiança na capacidade de pagamento de cada país. “É preciso ressaltar que ninguém ainda está à beira da crise de confiança”, diz Schneider, citando a credibilidade do Japão, mesmo com o buraco em suas contas. “Enquanto o mercado acreditar que estes governos são capazes de cortar seus déficits, eles estarão solventes.”

O mais grave, porém, não é a conjuntura econômica adversa que impulsionou o déficit e a relação dívida/PIB, mas a trajetória do endividamento nesses mesmos países, que já aumentava antes da crise financeira e dos planos de relançamento.

Nos últimos 20 anos, houve aumento constante da dívida pública, pela falta de rigor nas políticas orçamentárias e a importância dada ao crédito para fomentar o crescimento de economias como a americana. Em 1987, a dívida pública média na zona da OCDE era de 59%, e chegava a 75% em 2007.

Esse panorama fez o diretor do Departamento de Assuntos Orçamentários do Fundo Monetário Internacional (FMI), Carlo Cottarelli, definir a situação como “sem precedentes em tempos de paz”. O esforço para reequilibrar as finanças públicas, calcula Cottarelli, exigirá que países com déficit orçamentário na casa de 3,5% revertam o desempenho, com excedentes de 4,5%. Mesmo com esse esforço, eles levarão 20 anos para reduzir a dívida a cerca de 60% do PIB.

Como o Brasil, a Europa conhece exemplos da dificuldade em controlar o endividamento público. Em seu último relatório mensal, o Banco Central Europeu (BCE) lembra que a Holanda precisou de 13 anos para reduzir sua relação dívida/PIB de 78,5% para 46% – investindo todos os anos 2,7% de sua riqueza -, enquanto a Finlândia levou 14 anos para diminuir 24% do total devido. O exemplo mais bem-sucedido na Europa é o da Irlanda, que reduziu a dívida em 69% em 12 anos. Mas precisou crescer 7% ao ano, o que lhe valeu o apelido de “tigre celta”.

CENÁRIO SOMBRIO

US$ 35 trilhões
é a previsão da revista “The Economist” de quanto estaria hoje o
déficit fiscal nos sete países mais ricos do mundo

200% é a estimativa
da relação média entre a dívida pública e o PIB no Japão, onde a situação é mais grave. Nos EUA, essa relação estaria em 100% e na UE, estaria próxima de 90%

30% é quanto
se estima seja o aumento dessa relação entre 2007 e 2017.
Nesses 10 anos, a dívida crescerá de 63% para 103% nos Estados UNidos; passará de 47% a 125% no Reino Unido; e de 70% a 99% na França

06/10/2009 - 11:20h Segundo Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, ”Brasil deve manter medidas de estímulo”

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Entrevista – Joseph Stiglitz: professor da Universidade Columbia e Prêmio Nobel de Economia; ao contrário do que pede o FMI, Brasil ainda não deveria acabar com seus pacotes de ajuda, diz analista

Patrícia Campos Mello, ISTAMBUL

O risco de a economia mundial ter uma recaída e voltar a mergulhar numa recessão é “muito grande”, e por isso o Brasil ainda não deveria acabar com seus pacotes de estímulo. Essa é a opinião de Joseph Stiglitz, professor da Universidade Columbia e vencedor do Prêmio Nobel de Economia.

Muitos analistas acham que a economia brasileira corre risco de superaquecer e projetam grande alta de juros em 2010. O Fundo Monetário Internacional (FMI) diz que o Brasil é um dos países que deveriam rever seus estímulos econômicos, porque sua economia já está se recuperando e há risco de atrair excesso de dólares.

Mas, para Stiglitz, crítico contumaz do Fundo, o conselho do FMI pode ser precipitado. Stiglitz diz também que ainda não há uma alternativa confiável para a acumulação de reservas nos emergentes como forma de proteção contra crises, divergindo de outra recomendação do Fundo. Abaixo, trechos da entrevista que Stiglitz concedeu ao Estado.

O FMI diz que o Brasil é um dos países que deveria rever seus estímulos econômicos, porque sua economia já está se recuperando e há risco de atrair um excesso de dólares. O senhor acha que está na hora de o Brasil acabar com estímulos fiscais ou monetários?

É difícil para qualquer país ter certeza sobre uma estratégia de saída porque é difícil ter qualquer certeza sobre a economia global. Portanto, é apropriado pensar em estratégias de saída para os pacotes de estímulo, mas não implementar nada ainda.

Há risco de recessão em dábliu (duplo mergulho – depois de breve recuperação, a economia voltaria a mergulhar na recessão)?

Sim, o risco de uma recessão “duplo mergulho” é muito grande. É mais arriscado tirar os estímulos agora, que pode ser prematuro, do que mantê-los até que se tenha mais certeza sobre a recuperação do mundo. O Brasil é menos dependente de exportação que outros países e muitos ficaram surpresos quando o País foi afetado pela crise. Agora o País está em recuperação. Mas não há argumento para se retirarem os estímulos o Brasil neste momento.

O FMI quer atuar como “banco central mundial” e recomenda a emergentes como o Brasil que aumentem seus déficits em conta-corrente e reduzam a acumulação de reservas. Seria a maneira de os emergentes colaborarem com o ajuste dos desequilíbrios globais, já que as reservas estão na origem desses desequilíbrios. O que o sr. acha disso?

É preciso reconhecer que os países que estão acumulando reservas não estão consumindo. E há um grande problema na economia mundial hoje, que é recuperar a demanda agregada, já que os EUA estão deixando de ser o consumidor de última instância. Mas a questão é: qual é a melhor forma de reativar a demanda mundial? Não está claro se a melhor maneira de fazer isso é aumentando o consumo, em vez de elevando o investimento. Essa foi a estratégia que deixou os EUA em apuros, então tenho dúvidas de que seja a estratégia certa.

Grande parte dos emergentes foram menos afetados que os países ricos pela recessão, e eles argumentam que um dos motivos foi precisamente o alto nível de reservas.

Exatamente. Se nós tivessemos mecanismos alternativos de proteção ou se criássemos uma economia global mais estável, poderíamos pensar em reduzir reservas. Mas o movimento de desregulamentação dos anos 80 criou um mundo mais instável, que tornou necessária uma maior acumulação de reservas. As reservas são o sintoma, não a causa.

05/10/2009 - 10:04h Valorização excessiva do real precisa ser evitada

VALOR, de Istambul

As autoridades brasileiras precisarão administrar com cuidado os fluxos de capital estrangeiro que voltaram a entrar no país com a recuperação dos mercados internacionais para evitar uma valorização excessiva do real e outros efeitos indesejáveis, alertou o Fundo Monetário Internacional (FMI). “O Brasil vai atiçar o apetite dos mercados de capitais por causa da solidez da sua economia”, disse ontem o diretor do departamento do Fundo que monitora a América Latina, Nicolas Eyzaguirre. “O problema do Brasil é como administrar a abundância.”

Foto DestaqueProjeções divulgadas no fim de semana pelo Instituto de Finanças Internacionais (IIF), associação que representa os maiores bancos do mundo, indicam que os fluxos de capital externo privado para países emergentes aumentarão bastante no próximo ano, embora ainda estejam longe de alcançar os níveis observados antes da crise.

Segundo o IIF, o Brasil deverá receber US$ 64 bilhões em investimentos no ano que vem, dos quais US$ 30 bilhões para ações e outros títulos no mercado de capitais. O fluxo para países emergentes deverá atingir US$ 672 bilhões, quase o dobro do total previsto para este ano.

O FMI recomendou que o Brasil comece a desativar as medidas de estímulo fiscal que pôs em prática no auge da crise se a recuperação da economia mundial ganhar consistência nos próximos meses. “Se a demanda privada voltar, o país poderia começar a pensar em ser um pouco menos ativo em termos de política fiscal”, disse Eyzaguirre.

Grandes bancos internacionais que sofreram enormes prejuízos com a crise devem continuar mantendo distância dos mercados emergentes. As projeções do IIF indicam que o volume de empréstimos de bancos estrangeiros para os países emergentes no próximo ano será equivalente a um décimo do volume observado em 2007, quando a crise começou.(RB)

05/10/2009 - 09:42h ”Autoproteção é a melhor opção”

Henrique Meirelles, presidente do BC, defende acúmulo de reservas

Patrícia Campos Mello, ENVIADA ESPECIAL O ESTADO SP, ISTAMBUL

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, defendeu ontem a acumulação de reservas nos países emergentes, estratégia criticada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). “Ficou demonstrado que a autoproteção é a melhor opção”, disse Meirelles ontem, em palestra na reunião. “Eu apoio a discussão de que seria mais eficiente se o FMI acumulasse as reservas para os países. Mas a questão é: quem é que vai tomar a decisão na hora em que um país precisar das reservas?”

O FMI aconselha os países emergentes a evitar acumulação excessiva de reservas, uma das causas para os desequilíbrios econômicos globais. Em vez disso, países como o Brasil deveriam usar linhas flexíveis do Fundo como “seguro” contra fugas de capital em crises internacionais. O Fundo funcionaria como um “acumulador de reservas” de última instância.

Meirelles afirmou que o alto nível de reservas – US$ 205 bilhões no início da crise – ajudou o Brasil a se recuperar mais rápido da recessão global. “As reservas internacionais do Brasil puderam compensar os bancos que restringiram as linhas de crédito para o país” durante a crise, disse o presidente do BC. “Nós conseguimos substituir o setor privado porque tínhamos reservas suficientes e isso levou a uma recuperação rápida do mercado de crédito.”

Ele lembrou que o País já voltou a acumular reservas – que estavam em US$ 205 bilhões no início da crise e agora já estão em US$ 225 bilhões e “subindo todo dia”, segundo Meirelles.

O presidente do BC afirmou também que o sistema bancário no Brasil estava muito capitalizado e segue regras conservadoras, o que ajudou na recuperação. A capitalização dos bancos está em 17%, bem acima dos 8% recomendados pelo acordo de Basileia II, disse ele.

Perguntado sobre o que vai acontecer com o Brasil quando os EUA equilibrarem suas contas externas e reduzirem significativamente suas importações, Meirelles disse que o País está preparado. “Antes de a crise começar, nossa economia já estava sendo puxada pelo consumo doméstico”, afirmou o presidente do Banco Central.

05/10/2009 - 09:00h FMI alerta para enxurrada de capital externo no Brasil

Para Fundo, governo precisa rever políticas de estímulos que adotou na crise

Mantega diz que boa parte de dólares que ingressa no Brasil é para investimento produtivo e que BC vai acumular mais reservas

FERNANDO CANZIAN – FOLHA SP

ENVIDO ESPECIAL A ISTAMBUL

A rápida recuperação da economia brasileira pode levar uma quantidade exagerada de capitais estrangeiros para o país e valorizar ainda mais o real. Isso pode afetar as exportações e aumentar rapidamente o deficit em conta corrente por conta de mais importações.
O alerta é do FMI, que recomendou ao governo brasileiro que comece a retirar os estímulos econômicos que adotou nos primeiros meses da crise.
“O Brasil já está aumentando o apetite de investidores, dada a solidez de sua economia. E precisa rever os estímulos fiscais para evitar um ingresso de dólares acima do necessário”, disse Nicolás Eyzaguirre, chefe do Departamento para o Hemisfério Ocidental do Fundo.
Em 2009, o Brasil será um dos únicos países emergentes que terá aumento no ingresso de dólares em relação a 2008.
Segundo o IIF (Instituto de Finanças Internacionais, na sigla em inglês), que reúne os maiores bancos do mundo, o país deve receber neste ano 21% mais dólares, em um total de US$ 42,7 bilhões, ante US$ 34,7 bilhões em 2008.
Nos emergentes, os ingressos serão de US$ 349 bilhões em 2009, recuo de 46,3% sobre 2008. A principal razão para a forte entrada de dólares no Brasil é o fluxo de investimentos especulativos. De US$ 8,9 bilhões em 2008, eles passarão a US$ 29 bilhões neste ano.
Em muitos casos, bancos e investidores nos países ricos vêm aproveitando a enxurrada de dólares que os BCs vêm despejando no mercado a fim de recuperar suas economias para transferir parte desse dinheiro para nações emergentes.
O Brasil, que ainda tem uma taxa de juros muito elevada diante dos padrões internacionais (8,75%), é um dos alvos preferidos desses investidores, que também vêm aplicando fortemente na Bovespa, o que ajuda a explicar sua forte alta.
Para Eyzaguirre, enquanto vários países ainda lutam para escapar da crise, o Brasil terá de se preocupar agora em “gerenciar a abundância” de dólares.
Um fluxo maior de dólares em qualquer país com câmbio livre tende a valorizar a moeda local. É o que ocorre no Brasil, onde o dólar, que chegou a superar os R$ 2,50 durante a crise, fechou na sexta a R$ 1,778.
O dólar barato encarece as exportações e barateia as importações, afetando os saldos comercial e em conta corrente (resultado das transações com o mundo). É o ocorre no Brasil.
Além do FMI, o IIF alertou para a necessidade de países emergentes não se descuidarem com o ingresso excessivo de dólares. “A perspectiva de maior crescimento e juros maiores nesses países deve atrair fluxos significativos de capital especulativo, trazendo desafios para seus governos.”
Questionado sobre o assunto, o ministro Guido Mantega (Fazenda) afirmou que muito do ingresso de dólares no Brasil é para investimento produtivo. E que o BC continuará com sua política de acumular reservas (hoje acima de US$ 224 bilhões) para tentar enxugar o excesso de dólares no mercado.

01/10/2009 - 11:56h Antecessores não viram ‘riqueza social’ do petróleo, diz Dilma

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Paulo de Tarso Lyra, de Brasília – VALOR

A chefe da Casa Civil, ministra Dilma Rousseff aproveitou o pretexto da abertura do 3º Congresso Nacional de Aquicultura e Pesca para fazer um discurso, seguido de entrevista, em que tratou dos temas da economia, da política e até da política externa. Afirmou que o Brasil saiu mais forte da crise internacional porque apostou no poder de compra das camadas mais carentes da população. “O presidente [Luiz Inácio] Lula [da Silva] tinha razão ao afirmar que a população mais pobre deste país não seria amedrontada pela crise internacional”, declarou a pré-candidata do PT à Presidência da República. Dilma previu um futuro melhor. “Em breve, voltaremos a crescer nos mesmos patamares que crescíamos antes de setembro de 2008″.

Dilma incorporou ao seu discurso o apelo dos programas sociais do governo. Segundo ela, a manutenção dos programas sociais do governo federal deu um impulso extraordinário para ajudar o Brasil a vencer a crise. Diante de representantes da indústria pesqueira – incluindo cooperativas de pescadores de todo o país – a ministra acusou os antecessores de Lula de serem incapazes de olhar para o setor com o respeito que ele merece. “Além de ser uma fonte de alimentação para a população, é um ramo da economia que gera emprego e renda”, disse.

Num discurso de campanha, ela atacou os adversários e comparou este descaso à falta de atenção que os governos anteriores têm em relação ao petróleo. “São os mesmos que não souberam perceber que o petróleo é, além de uma riqueza natural, uma riqueza social e humana”, acrescentou.

Mesmo sem estar diante do público adequado para este tipo de discurso, Dilma fez questão de ressaltar que o governo rompeu com o receituário do Fundo Monetário Internacional (FMI). Segundo ela, a cartilha apresentada pelo fundo aos países que enfrentavam turbulências financeiras era sempre a mesma: corte de investimentos e custeio. “Nós mantivemos a política de reajuste do salário mínimo, aumentamos os investimentos em infraestrutura com o lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), capitalizamos o BNDES e abaixamos as nossas taxas de juros no auge da crise financeira”, enumerou.

Ela apresentou aos participantes do encontro um balanço social e econômico do governo, afirmando que foram criados, ao longo dos sete anos e meio de governo Lula, 11 milhões de empregos. Citando dados do PNAD, ela afirmou que 20 milhões de pessoas deixaram a pobreza extrema e 26 milhões de brasileiros ingressaram na classe média. “Podemos dizer, sim, que a economia do Brasil vive um novo momento”, exaltou.

Dilma citou a descoberta das reservas de pré-sal a 7 mil metros de profundidade – “para vocês terem ideia, isto representa dez vezes a altura do Corcovado”, como mais um marco deste novo momento do país. “O Brasil hoje é muito mais respeitado nos debates internacionais”. Para ela, o desenvolvimento do país beneficiará os pescadores, pois terá impacto direto na demanda de pescado. “Estaremos colhendo, nos mares, lagos e rios, tudo o que plantamos nestes últimos anos”.

Em entrevista, Dilma defendeu a atuação do governo brasileiro na crise política em Honduras. Em um primeiro momento, disse que não tinha opinião sobre o caso, mas endossou o discurso de Lula contra o governo interino de Roberto Michelletti. “Não apenas o Brasil, mas a Organização das Nações Unidas (ONU), a Organização dos Estados Americanos (OEA) e os Estados Unidos condenaram o governo golpista que está em Tegucigalpa (capital hondurenha)”, declarou.

Dilma não quis comentar um artigo da constituição hondurenha no qual se prevê que governos que propõem prorrogação de mandato podem ser destituídos. “Derrubar um presidente legitimamente eleito é golpe. Golpe não é relativo. Não vou discutir nem relativizar, pois não cabe ao governo brasileiro fazer isso”, completou a ministra.

18/09/2009 - 15:08h “Uma nação em marcha”

Toda Mídia

NELSON DE SÁ – nelson.sa@grupofolha.com.br

Folha SP

O francês “Le Monde” publicou, com eco nos portais brasileiros, que Lula estava certo ao “prever com ironia” que no Brasil o tsunami da crise não passaria de marolinha, “vaguelette”.
O espanhol “El País” cravou o título “Brasil derrota a crise” e observou que “nem o proverbial otimismo de Lula foi capaz de prever recuperação tão rápida”.
E o site MarketWatch, do “Wall Street Journal”, postou uma longa análise sobre o avanço da JBS, da Petrobras, da Embraer, também da Bolsa e do PIB, citou até a Copa de 2014, para alertar que “os brasileiros estão chegando e eles estão comprando”. No título, “uma nação em marcha”.

(…)

E VEM INVESTIMENTO
Ontem no “WSJ”, “Investimento externo global deve crescer em 2010″, segundo a Unctad, órgão de comércio e desenvolvimento da ONU. “Países em desenvolvimento estarão entre os mais beneficiados. Brasil, Rússia, Índia e China vão atrair parcela cada vez maior.
Segundo o Valor Online, já no levantamento de 2008, também divulgado ontem pela Unctad, “Brasil sobe quatro posições”, passando Alemanha e Japão.

BOLSA TAMBÉM QUER
No mesmo “WSJ”, ontem, a breve reportagem “Bolsa do Brasil busca abrir as portas da região”, em acordos com congêneres nos países andinos Colômbia inclusive, mas não a Venezuela. Diz um diretor que o projeto é criar “um sistema de comércio com a Bovespa no centro”.

“THE PARTY’S BACK”
A Bloomberg deu no fim do dia que um banco de investimento avalia, como a Unctad, que o Brasil “verá mais entradas” de investimento. Comenta diretor: “Investidores têm memória curta, todos pensam que a festa voltou”. Ontem, a Bovespa caiu, em “realização de lucros”.


“BÉLGICA, SAIA DA FRENTE”
Em editorial e reportagem, a “Economist” elogia fartamente a atual gestão do FMI, que “Voltou dos mortos”, mas “ainda não está pronto para o futuro”.
Saúda as contribuições financeiras de “potências em alta como China, Índia e Brasil”, mas sublinha, sob o enunciado “Move over, Belgium”, que persiste o desequilíbrio. “Países ricos, sobretudo da Europa, têm poder desproporcional” em relação aos mesmos emergentes. “A Bélgica tem mais votos que o Brasil”, alerta, cobrando a mudança no encontro do G20, nos EUA.(…)

10/09/2009 - 16:38h “Spread” no Brasil só perde para Zimbábue, diz estudo


Diferença entre os juros captados e os cobrados pelos bancos é maior que a de 127 países

Para analista, tendência é que, com a estabilização da economia, “spread” fique menor no curto prazo, mas superior à média global

ÁLVARO FAGUNDES – FOLHA SP

Diferença entre os juros captados e os cobrados pelos bancos é maior que a de 127 países

Para analista, tendência é que, com a estabilização da economia, “spread” fique menor no curto prazo, mas superior à média global

ÁLVARO FAGUNDES – FOLHA SP
DA REDAÇÃO

O “spread” (a diferença entre o que as instituições pagam para captar recursos e o que cobram dos clientes) aplicado pelos bancos no Brasil é o segundo maior do mundo, ficando apenas atrás do Zimbábue, apesar de a taxa de inadimplência no país não estar nem entre as dez maiores do planeta.
Segundo levantamento do Fórum Econômico Mundial com base em dados do ano passado, o “spread” dos bancos brasileiros ficou em 35,6 pontos percentuais, maior do que a média das instituições financeiras de 127 países.
Somente o Zimbábue, cuja economia vive situação caótica e onde a inflação chegou na casa dos 231 milhões por cento em julho do ano passado, a diferença entre os juros captados e os cobrados foi maior: 457,5 pontos percentuais.
O cenário do estudo atual é similar ao do levantamento anterior -que analisava a situação em 2007-, mas, na ocasião, o “spread” brasileiro era um pouco menor: 33,1 pontos percentuais. “Spreads” altos significam custos maiores para empresas e consumidores pegarem empréstimos.
Ao mesmo tempo, a inadimplência no Brasil, que é uma das explicações usadas pelos bancos para justificar os juros altos, era a 16ª mais alta do mundo (em uma lista menos abrangente, com 34 países), de acordo com dados do FMI referentes ao quarto trimestre de 2008 -quando a crise global estava em um dos seus momentos mais agudos. Os números do Fundo mostram ainda que a taxa de inadimplência no país vem caindo nos últimos anos.
O presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, afirmou, por exemplo, no fim de julho, que o principal fator para o “spread” bancário é exatamente o nível de inadimplência, que atingiu seu recorde histórico.
Para Luis Miguel Santacreu, analista da Austin Rating, é principalmente por meio dos juros altos (que se traduzem no segundo maior “spread” do planeta) que os bancos brasileiros estão entre os mais rentáveis do mundo, apesar de a relação entre crédito e PIB estar abaixo da média global.
Sobre o calote, ele disse que os bancos colocam nos empréstimos uma “estimativa que não se concretiza na vida real”.
O analista afirmou que a tendência no curto prazo é que, com a estabilização da economia brasileira, os bancos “devolvam uma parte da gordura” obtida com o aumento dos juros durante a crise, mas que o “spread” deve permanecer entre os mais altos do mundo.
Para que essa queda continue a ocorrer no médio prazo, Santacreu afirma que são necessárias mudanças como aumento da competição entre as instituições. “Nós não vimos uma corrida forte dos bancos para brigar pelos clientes.” Ele diz ainda que é preciso tempo para avaliar se é “”perene” o movimento de queda dos “spreads” pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal, incentivado pelo governo Lula.
Ele cita ainda, entre outras medidas, a necessidade da reforma tributária e da maior formalização das empresas.

Menores “spreads”
No topo do tabela, entre os dez com menor “spread”, aparecem países desenvolvidos (como Alemanha e Japão) mas também economias emergentes: os dois primeiros são Hungria e Lituânia.
Em 2007, porém, havia um predomínio maior das nações ricas, o que mostra também o efeito da crise nas instituições financeiras desses países, que ficaram menos dispostas ao risco. A Suíça, que tinha o menor “spread” em 2007, aparecia na 27ª colocação no estudo sobre os juros no ano passado.

Editorial O Estado SP

 

Inadimplência e spread

 


A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) argumenta em sua campanha contra os elevadíssimos spreads bancários – diferença entre o que os bancos cobram dos clientes nos empréstimos e o que pagam aos aplicadores -, que o grau de inadimplência, no País, é apenas ligeiramente superior ao de outros países. Portanto, não há por que os spreads serem tão mais elevados no Brasil.

Tanto a crítica da Fiesp como a resposta dos bancos foram reproduzidas em reportagem de Leandro Modé, publicada terça-feira pelo Estado. A Fiesp valeu-se das informações compiladas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), relativas ao último trimestre de 2008 ou a 2007 (no caso da França e da Alemanha). Segundo o FMI, a inadimplência, no Brasil, é de 2,9%, contra 2,7%, na França e na Alemanha; 2,5%, na Argentina, na China, no México e na Rússia; 2,3%, nos Estados Unidos e na Índia; e 1,5%, no Japão. Ou seja, a maior diferença entre os níveis de inadimplência é entre o Brasil e o Japão e não chega a duas vezes.

Já o spread médio, no Brasil, de 26,6 pontos porcentuais, é três vezes superior ao da Argentina (8,4%), e quatro vezes superior ao da Rússia (6,5%), Alemanha (6,2%) e França (6%). Com spreads ainda menores surgem o México (5,7%), a Índia (3,8%), a China (3,1%), os EUA (2%) e o Japão (1,3%). Além disso, o spread médio no Brasil é seis vezes superior ao de 42 países analisados pelo FMI, calcula o diretor do Departamento de Tecnologia e Competitividade da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho.

A Federação Brasileira das Associações de Bancos (Febraban) põe em dúvida as conclusões do levantamento. “Não acho correto colocar os dados dessa forma”, afirmou o economista-chefe da entidade, Rubens Sardenberg. “Precisamos ter certeza de estarmos comparando as mesmas coisas.” Citando a consultoria Economática, a Febraban explica que a rentabilidade média dos cinco maiores bancos brasileiros equivaleu à média da rentabilidade dos bancos latino-americanos. “Não dá para imaginar que os bancos desses países sejam tão mais eficientes do que os nossos”, disse Sardenberg.

O Banco Central relaciona vários fatores para explicar os juros e spreads altos, tais como o custo administrativo dos bancos (que pesa 13,6% no spread total), os impostos (18,5%), os recolhimentos compulsórios (3,6%), além do lucro das instituições (26,9%). A inadimplência é o fator de maior peso (37,4%). E é evidente que o resultado final são os juros estratosféricos, cuja queda não acompanhou a da taxa Selic – reduzida de 13,75% ao ano, em setembro de 2008, para 8,75% ao ano.

“A inadimplência e a insolvência no Brasil estão dentro do padrão mundial e não justificam o juro e o spread que temos aqui”, afirma Alberto Borges Matias, professor da USP. Segundo Roriz Coelho, “entre setembro e março, o Brasil pagou em spread R$ 8,5 bilhões a mais do que deveria”.

Mas os bancos tem-se mostrado resistentes às pressões pela redução do spread – problema incluído há uma década entre as preocupações declaradas do Banco Central. Matias atribui o elevado spread ao baixo volume de crédito. “Como emprestam pouco, os bancos brasileiros têm de ganhar no preço”, diz ele. Há excesso de liquidez nos bancos, medida pelo saldo das operações compromissadas de curto prazo com o Banco Central, de R$ 444 bilhões, em meados de julho, segundo o jornal Valor. No Brasil, a relação entre o crédito e o PIB é da ordem de 45%, enquanto nos EUA supera os 180% e na Grã-Bretanha, os 200%. No exterior, emprestando muito a juros baixos, os bancos conseguem oferecer aos acionistas uma boa rentabilidade em relação ao patrimônio.

Nos últimos meses, o governo federal decidiu derrubar os spreads mediante uma política de oferta maciça de crédito do Banco do Brasil (BB) e da Caixa Econômica Federal, instituições que controla. Apoiado por ampla campanha publicitária, o presidente do BB, Aldemir Bendine, acaba de prometer novas quedas de juros. Não há dúvida de que os juros (e spreads) têm muito a cair, mas esta política não pode ameaçar a solidez dos bancos públicos.

08/09/2009 - 13:51h Usado para justificar spread alto, calote no País está na média mundial

http://dinheirama.com/blog/wp-content/uploads/2009/03/dinheirama_dinheiro_banco_educacao_financeira.jpg

Levantamento do FMI mostra que taxa de inadimplência no Brasil é semelhante à do resto do planeta

Leandro Modé – O Estado SP

Quando se pergunta a um banqueiro brasileiro por que o spread bancário (diferença entre o que a instituição paga ao captar o dinheiro e o que cobra ao repassá-lo aos clientes) no País é o mais alto do planeta, a resposta, de cara, incluirá entre as justificativas a inadimplência. Segundo eles, o nível de calote, no Brasil, é superior ao de qualquer outra nação que tenha um sistema financeiro organizado. No entanto, um levantamento do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que a relação entre empréstimos em atraso e crédito total, aqui, está dentro da média internacional.

Os dados do Fundo revelam que essa taxa era de 2,9% no último trimestre do ano passado – período mais recente disponível, uma vez que esse tipo de pesquisa não tem divulgação periódica. Na Argentina, o índice era de 2,5%, no México, também 2,5% e, na Venezuela, 2,3%.

O resultado não é muito diferente quando se consideram os países conhecidos como Brics. Na Rússia, a taxa era de 2,5%, na Índia, de 2,3% e, na China, também 2,5%. Por fim, levando-se em conta países desenvolvidos, os números tampouco diferem substancialmente: EUA, 2,3%, Japão, 1,5%, França, 2,7% e Itália, 4,6%.

“A inadimplência e a insolvência no Brasil estão dentro do padrão mundial e não justificam o juro e o spread que temos aqui”, disse Alberto Borges Matias, professor do campus de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), especialista em análise de bancos. “Das duas, uma: ou o cálculo do Banco Central para a inadimplência (usado pelo FMI) não reflete o que ocorre no País ou a parcela da inadimplência no cálculo do spread não condiz com a realidade”, completa o analista de instituições financeiras da Austin Rating, Luís Miguel Santacreu.

Ele refere-se a uma estimativa elaborada pelo Banco Central em 2007. Principal referência para discussões sobre o assunto, essa conta atribui à inadimplência o maior peso no spread total: 37,4%. O restante é dividido entre custo administrativo dos bancos (13,6%), impostos (18,5%), depósitos compulsórios (3,6%) e resíduo líquido (lucro das instituições, que chega a 26,9%).

Dados compilados pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), também com base em estatísticas do FMI, mostram que o spread no Brasil encerrou 2008 em 26,6 pontos porcentuais. O distante segundo colocado do ranking era a Argentina, com 8,4 pontos. Entre os Brics, a Rússia registrava 6,5 pontos, a Índia, 3,8, e a China, 3,1 pontos. Nos EUA, eram 2 pontos e, no Reino Unido, 1,2 ponto.

SEIS VEZES MAIOR

A Fiesp também tem números mais recentes de spread, relativos à média do primeiro trimestre de 2009, mas o Estado preferiu publicar os dados de 2008, que coincidem com o período do levantamento do FMI.

“Os bancos não têm argumento (para justificar o alto spread)”, afirmou diretor do Departamento de Tecnologia e Competitividade da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho. “Vamos ter spread alto enquanto os bancos conseguirem.”

Segundo ele, o spread brasileiro é seis vezes maior do que a média dos 42 países que estão no levantamento do FMI. “Se considerarmos o cálculo de spread da Febraban (que inclui os recursos direcionados, como o crédito à produção agrícola), o spread aqui é 4,2 vezes maior. Ainda que fossem duas vezes, seria um absurdo.”

O economista-chefe da Febraban, a entidade que reúne os bancos, Rubens Sardenberg, contesta o levantamento da Fiesp. “Não acho correto colocar os dados dessa forma. Precisamos ter certeza de estarmos comparando as mesmas coisas”, argumentou. Ele observou que a rentabilidade do sistema bancário brasileiro, comparada a outros países, mostra números parecidos.

Além disso, citando números da empresa de informações financeiras Economática, Sardenberg diz que, no ano passado, a rentabilidade média dos cinco maiores bancos brasileiros ficou na média de seus pares latino-americanos.

“Não dá para imaginar que os bancos desses países sejam tão mais eficientes do que os nossos”, afirmou. “Como os bancos de um país com spread tão mais baixo do que o brasileiro conseguem uma rentabilidade maior?”

Aqui, diz ele, a rentabilidade foi de 19% (para um spread de 26,6 pontos), ante 28% da Venezuela (spread de 6,2 pontos), 21% da Colômbia (spread de 7,4), 17% do Chile (spread de 5,8), 15% na Argentina (spread de 8,4) e 13% no México (spread de 5,7).

Governo busca reduzir spread há anos

Tentativas de reverter quadro ainda não deram resultados satisfatórios

 

Leandro Modé – O Estado SP

 


O elevado spread bancário (diferença entre a taxa de juro que a instituição financeira paga na captação do recurso e a que cobra nos empréstimos) no Brasil está na mira do governo há anos. Os resultados práticos, porém, ainda demoram a aparecer. Segundo levantamento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), com base em dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), o spread médio no País passou de 31,9 pontos porcentuais no fim de 2003 para 29,6 pontos no primeiro trimestre deste ano.

“Entre setembro e março, o Brasil pagou em spread R$ 8,5 bilhões a mais do que deveria”, reclama o diretor do Departamento de Tecnologia e Competitividade da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho. “O spread aqui é seis vezes maior do que a média mundial. Mesmo que fosse duas vezes, já seria um absurdo.”

Recentemente, o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, fizeram críticas públicas aos bancos por causa do spread alto. Em 1999, o Banco Central (BC), então comandado pelo economista Arminio Fraga, lançou um pacote de medidas para tentar reduzi-lo.

O professor do câmpus de Ribeirão Preto da USP e especialista em análise de bancos, Alberto Borges Matias, afirma que a raiz do spread alto no Brasil é o baixo volume de crédito. “Como emprestam pouco, os bancos brasileiros têm de ganhar no preço”, afirma. Em junho, a relação crédito/Produto Interno Bruto (PIB) atingiu 45% no País, segundo o BC. Embora seja um nível recorde, está abaixo de outros países. No Reino Unido, por exemplo, essa relação supera 200%. Nos EUA, está acima de 180%, na China, em 108% e na China, em 50%.

Para Luís Miguel Santacreu, analista da Austin Rating, uma das formas de estimular os bancos a reduzir juros e spreads é por meio do sistema financeiro público – estratégia escolhida pelo governo Lula após a escassez de crédito que se seguiu ao aprofundamento da crise. “Os bancos públicos estão puxando a concorrência.” Ele elogia também as medidas do BC nos últimos anos. “O BC deu mais transparência às informações sobre juros”, afirma, citando a publicação, no site da instituição, de um ranking com as taxas cobradas pelas instituições.

30/08/2009 - 16:12h Um ano depois, Brasil passa no teste e sai da crise maior do que entrou

Para especialistas, avanço do País e de outros emergentes é uma das características do mundo pós-crise

Fernando Dantas – O Estado SP


O Brasil saiu da turbulência global maior do que entrou. Às vésperas do mês em que se completa um ano da crise iniciada com a concordata do Lehman Brothers, em 15 de setembro, o otimismo com o País tornou-se consensual. “O fato de que o Brasil passou tão bem pela crise tinha mesmo de instilar confiança”, diz Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para Jim O’Neill, do Goldman Sachs, e criador da expressão Bric (o grupo de grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China), “o Brasil passou por essa crise extremamente bem, e pode crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos”.

O crescimento de importância do Brasil e de outras economias emergentes é uma das características do novo mundo surgido com a crise econômica. Para comentar essa e várias outras mudanças, o Estado ouviu oito grandes economistas estrangeiros e brasileiros: Rogoff; O’Neill; Barry Einchengreen, da Universidade de Berkeley; José Alexandre Scheinkman, de Princeton; Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio gestor do Gávea Investimentos; Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA e codiretor do Instituto de Estudo de Políticas Econômicas – Casa das Garças (Iepe/CdG); Affonso Celso Pastore, consultor e ex-presidente do BC; e Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco.

Pastore observa que a recessão no Brasil foi curta, de apenas dois trimestres, comparada a quatro em países como Estados Unidos, Alemanha e França. Goldfajn nota que há os países que estão saindo da recessão no segundo trimestre e os que estão saindo no terceiro – o Brasil está entre os primeiros, com várias nações asiáticas. “Mesmo no primeiro trimestre, se olhar mês contra mês, há números fortes de crescimento no Brasil”, acrescenta.

Para Goldfajn, a crise foi um teste de estresse para diversos países, no qual alguns passaram, outros não, alguns tiveram nota boa e outros nota ruim. “Acho que o Brasil tirou nota boa, e agora está todo mundo olhando e dizendo ‘esse cara é bom’”, diz Goldfajn.

Uma das principais razões para o sucesso do Brasil em enfrentar a crise, segundo Pastore, é que ela pegou o País com o regime macroeconômico adequado – câmbio flutuante, bom nível de reservas, inflação controlada, superávit primário, dívida pública desdolarizada e caindo em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB). Essa solidez combinou-se com o sistema financeiro capitalizado, pouco alavancado, que estava proibido pela regulação de operar com os ativos perigosos, como os títulos estruturados no mercado americano de hipotecas subprime. “Uma das lições da crise é que países que tinham uma abordagem equilibrada da regulação do mercado financeiro, como Brasil, Austrália, Canadá , não tiveram crise bancária”, diz O’Neill.

A política anticíclica, baseada em corte de impostos e ampliação de gastos públicos, também ajudou, embora esta segunda parte seja criticada pelos efeitos de médio prazo. Para Pastore, os aumentos do funcionalismo e do Bolsa-Família tiveram efeitos contracíclicos, mas “por coincidência”, já que foram decididos antes da crise. “O defeito é que, se fosse política contracíclica mesmo, teria de expandir gastos transitórios, e não permanentes.”

Para a maioria dos economistas, o aumento dos gastos públicos correntes reduz o espaço do investimento, e impede que o Brasil cresça a um ritmo ainda mais forte do que os 4% a 5% que estão sendo previstos. “Não é nem preciso dizer que há um monte de coisas que o Brasil poderia fazer para crescer mais rápido”, comenta Rogoff.

De qualquer forma, o sucesso diante da crise jogou o Brasil no radar dos investidores. “À medida que continuarmos a crescer mais que o mundo, é natural que o País receba um aporte muito grande de investimentos estrangeiros diretos”, diz Pastore, acrescentando que eles aumentaram, mesmo com recessão e queda de lucros nos países que sediam as empresas que investem no Brasil.

A contrapartida dos fluxos de capital é o câmbio valorizado e o déficit em conta corrente, o que significa que o mundo está financiando o Brasil para consumir muito (o que implica poupar pouco) e investir ao mesmo tempo. Segundo Goldfajn, os brasileiros serão um dos povos convocados, junto com os asiáticos, a preencher o espaço deixado pelo fim da exuberância do consumidor americano, atolado em dívidas e necessitado de reconstruir seu patrimônio.

http://raulmarinhog.files.wordpress.com/2008/10/lula-marolinha.jpg

”Não foi o fim do mundo que se prenunciava em dezembro”

Reação global de governos impede crise pior; papel da China se torna vital para retomada

Fernando Dantas – O Estado SP

A crise global não foi tão ruim quanto parecia no pior momento, entre o fim do último trimestre de 2008 e o primeiro de 2009. “Não foi o fim do mundo que se prenunciava em janeiro e dezembro, porque a reação dos governos foi do tamanho da crise”, diz Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA, comentando os maciços pacotes fiscais e a política monetária expansionista convencional (corte de juros) e não convencional (injeção de dinheiro na economia pela compra de títulos em poder do mercado) das principais economias do mundo.

Hoje, mesmo um observador relativamente pessimista, como Kenneth Rogoff, de Harvard, prevê que o mundo deve se estabilizar num crescimento em torno 4%, menos que o ritmo próximo de 5% dos anos anteriores à crise, mas já claramente fora da recessão. Ele ressalva que a atual recuperação “não é normal, com o sistema todo na UTI, o sistema bancário bancado pelo governo, e o mercado residencial se estabilizando apenas por causa dos grandes subsídios às hipotecas.”

Barry Eichengreen, da Universidade Berkeley, é outro que mostra ceticismo quanto ao vigor da recuperação mundial. “A mudança mais importante na economia pós-crise é o grande endividamento nos países industriais avançados, que tornará as finanças públicas restritivas, criando um ambiente inamistoso para o investimento, e que não é bom para o crescimento.” Ele se refere à necessidade que os governos dos países ricos terão de aumentar impostos e cortar gastos para contrabalançar o enorme crescimento da dívida pública na esteira dos grandes déficits fiscais da política contracíclica.

Um ponto crucial para sustentar a recuperação global é a capacidade da China de insuflar a demanda global. Para Rogoff, “a mudança número um do mundo pós-crise é que o consumidor americano, o combustível da economia mundial no último quarto de século, provavelmente será menos energético nos próximos cinco a dez anos.”

A grande questão, hoje, é saber se o recuo do superendividado consumidor americano pode ser compensado pelo avanço do consumo na China e em outros países emergentes asiáticos, e até no Brasil.

Para Rogoff, “a demanda dos mercados emergentes vai substituir a dos EUA, mas isso não acontecerá de um dia para o outro.” Essa mudança, ele continua, exige uma grande reestruturação da economia chinesa, que ainda está voltada para as exportações, e não para expandir o consumo interno.

Jim O’Neill, do Goldman Sachs, discorda: “Essa crise talvez tenha sido necessária, porque forçou a China a fazer uma transição para o crescimento puxada pela demanda interna. Isso era exatamente o que o mundo precisava para evitar a crise, e é o que mundo precisa para sair da crise.”

Para O’Neill, os dados da expansão de consumo da China são muito claros. As vendas de varejo saltaram 15,2% em julho e, nos últimos dois anos, convertidas em dólares, apresentam um avanço maior do que o recuo no consumo americano. Em relação ao setor externo, o economista inglês diz que tentou apostar recentemente, com membros da equipe econômica do governo britânico, que a China terá déficit comercial nos próximos dois anos. “Mas agora nós achamos que é possível que isso aconteça nos próximos 12 meses. Desde abril, o crescimento das importações chinesas é muito mais forte que o das exportações.”

http://www.rnnoticias.com.br/SPN/bancoimagem/Cultura/lula-e-marolinha-surf-obama.bmp

Crise mudou mapa da globalização

Mudança ocorreu tanto no comércio quanto nos investimentos e nas relações de poder de órgãos internacionais

Jamil Chade – O Estado SP

Os fluxos de investimentos mudaram de direção, a China se transformou no maior exportador do planeta e organizações consideradas como pilares das decisões internacionais hoje são questionadas e até substituídas. Em 12 meses, a crise acelerou processos de profunda mudança na geografia da globalização e uma incipiente nova relação de poder entre países.

No campo comercial, a maior novidade foi a transformação da China na maior exportadora do mundo. Por uma margem mínima, superou a Alemanha, que liderava desde 2003. A China exportou US$ 521,7 bilhões em seis meses, ante US$ 521,6 bilhões da Alemanha. Os americanos estão na terceira colocação.

A China já vinha subindo no ranking mundial. Mas a crise na Europa acelerou sua nova posição. Em 2002, a China era a quinta maior exportadora, com vendas anuais de US$ 325 bilhões, US$ 200 bilhões abaixo do que o país vendeu apenas nos últimos seis meses. Em 1997, a China era apenas a 16ª maior exportadora, com US$ 24,5 bilhões em vendas.

Nos últimos anos, dezenas de medidas foram adotadas contra os produtos chineses, que são hoje os mais afetados por medidas restritivas. Uma delas foi adotada pelo Brasil no início do ano para barrar a entrada de produtos siderúrgicos.

A crise ainda redesenhou o mapa dos principais destinos das exportações de vários países, inclusive o do Brasil. Neste ano, a China superou os EUA como o principal comprador de bens brasileiros. Além disso, passou a ser o maior fornecedor de produtos à Europa, acabando com 50 anos de relação comercial privilegiada entre europeus e americanos.

Em junho, as importações americanas estavam 34,5% abaixo dos níveis de junho de 2008. No ano passado, os Estados Unidos foram os maiores importadores do planeta, consumindo mais de 12% de tudo o que o mundo exporta.

No setor de investimentos, a crise também mudou a estratégia de multinacionais e coloca os países emergentes no centro da internacionalização. Levantamento com mais de 240 multinacionais elaborado pela ONU deixou claro que não há um risco de “desglobalização” da produção. O processo de internacionalização será retomado, mesmo mais lentamente. E será direcionado de forma cada vez mais clara aos emergentes.

A pesquisa mostrou que as multinacionais continuarão a investir no exterior para a internacionalização de suas vendas, produção e compra de ativos. Tanto em países emergentes como nos ricos, o levantamento indica que a crise está dando um incentivo extra para as empresas buscarem novos mercados, além de novos locais de produção para reduzir custos.

A tendência de uma maior atenção aos emergentes já vinha ocorrendo nos últimos dez anos. Em 1998, os países em desenvolvimento tinham 8% dos fluxos de investimentos, ante 13% em 2007. A tendência é de que a taxa aumente até 2011.

A preferência será pela Ásia, pelo tamanho do mercado e acesso a trabalhadores mais baratos. Cinco dos 15 maiores destinos de investimentos estarão na Ásia até 2011. Os países que formam o Bric – Brasil, Rússia, Índia e China – ocupam agora quatro dos cinco primeiros lugares preferidos para investimentos até 2011 e dividem as preferências com os americanos.

Em termos gerais, porém, o mundo ainda verá uma queda de investimentos em 2009 de cerca de 50%, ante 2008. Os mais afetados serão os países ricos, com redução de 60%. Mas os emergentes mostrarão certa resistência, com queda de apenas 25%. Em 2008, o mundo já sofreu queda de 15% nos investimentos, depois de atingir recorde de US$ 1,9 trilhão em 2007.

Outro sinal de mudança no mapa da globalização é a iniciativa de alguns países de reduzir sua dependência em relação ao dólar e acelerar a compra de papéis emitidos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). A decisão de Brasil, China e Rússia de se tornarem credores do FMI promove uma pequena revolução no mercado. Parte da estratégia dos emergentes é mostrar que têm como ser credores e, portanto, têm direito a uma maior voz em entidades como o FMI e o Banco Mundial.

O debate sobre os grupos e instituições financeiras ainda deixa alguns na defensiva. É o caso de Angel Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países ricos e por anos tentou atrair os emergentes. Para Gurría, o mundo passará a viver em nova relação entre instituições e diferentes grupos de países, como o G-8 ou o G-20. “Cada grupo precisa de seu espaço. Hoje, o mundo é das redes, do network. E assim é que podemos imaginar uma nova configuração de países.”

http://youpode.com.br/blog/liberati/files/2009/03/liberati.jpg

29/08/2009 - 20:26h Um ano depois, Brasil sai da crise mundial maior do que entrou

Às vésperas do mês em que se completa um ano da crise global, o otimismo com o País tornou-se consenso

Fernando Dantas, de O Estado de S. Paulo

RIO – O Brasil saiu da turbulência global maior do que entrou. Às vésperas do mês em que se completa um ano da crise iniciada com a concordata do Lehman Brothers, em 15 de setembro, o otimismo com o País tornou-se consensual. “O fato de que o Brasil passou tão bem pela crise tinha mesmo de instilar confiança”, diz Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para Jim O’Neill, do Goldman Sachs, e criador da expressão Bric (o grupo de grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China), “o Brasil passou por essa crise extremamente bem, e pode crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos”.

O crescimento de importância do Brasil e de outras economias emergentes é uma das características do novo mundo surgido com a crise econômica. Para comentar essa e várias outras mudanças, o Estado ouviu oito grandes economistas estrangeiros e brasileiros: Rogoff; O’Neill; Barry Einchengreen, da Universidade de Berkeley; José Alexandre Scheinkman, de Princeton; Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio gestor do Gávea Investimentos; Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA e codiretor do Instituto de Estudo de Políticas Econômicas – Casa das Garças (Iepe/CdG); Affonso Celso Pastore, consultor e ex-presidente do BC; e Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco.

Pastore observa que a recessão no Brasil foi curta, de apenas dois trimestres, comparada a quatro em países como Estados Unidos, Alemanha e França. Goldfajn nota que há os países que estão saindo da recessão no segundo trimestre e os que estão saindo no terceiro – o Brasil está entre os primeiros, com várias nações asiáticas. “Mesmo no primeiro trimestre, se olhar mês contra mês, há números fortes de crescimento no Brasil”, acrescenta.

Para Goldfajn, a crise foi um teste de estresse para diversos países, no qual alguns passaram, outros não, alguns tiveram nota boa e outros nota ruim. “Acho que o Brasil tirou nota boa, e agora está todo mundo olhando e dizendo ‘esse cara é bom’”, diz Goldfajn.

Uma das principais razões para o sucesso do Brasil em enfrentar a crise, segundo Pastore, é que ela pegou o País com o regime macroeconômico adequado – câmbio flutuante, bom nível de reservas, inflação controlada, superávit primário, dívida pública desdolarizada e caindo em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB). Essa solidez combinou-se com o sistema financeiro capitalizado, pouco alavancado, que estava proibido pela regulação de operar com os ativos perigosos, como os títulos estruturados no mercado americano de hipotecas subprime. “Uma das lições da crise é que países que tinham uma abordagem equilibrada da regulação do mercado financeiro, como Brasil, Austrália, Canadá , não tiveram crise bancária”, diz O’Neill.

A política anticíclica, baseada em corte de impostos e ampliação de gastos públicos, também ajudou, embora esta segunda parte seja criticada pelos efeitos de médio prazo. Para Pastore, os aumentos do funcionalismo e do Bolsa-Família tiveram efeitos contracíclicos, mas “por coincidência”, já que foram decididos antes da crise. “O defeito é que, se fosse política contracíclica mesmo, teria de expandir gastos transitórios, e não permanentes.”

Para a maioria dos economistas, o aumento dos gastos públicos correntes reduz o espaço do investimento, e impede que o Brasil cresça a um ritmo ainda mais forte do que os 4% a 5% que estão sendo previstos. “Não é nem preciso dizer que há um monte de coisas que o Brasil poderia fazer para crescer mais rápido”, comenta Rogoff.

De qualquer forma, o sucesso diante da crise jogou o Brasil no radar dos investidores. “À medida que continuarmos a crescer mais que o mundo, é natural que o País receba um aporte muito grande de investimentos estrangeiros diretos”, diz Pastore, acrescentando que eles aumentaram, mesmo com recessão e queda de lucros nos países que sediam as empresas que investem no Brasil.

A contrapartida dos fluxos de capital é o câmbio valorizado e o déficit em conta corrente, o que significa que o mundo está financiando o Brasil para consumir muito (o que implica poupar pouco) e investir ao mesmo tempo. Segundo Goldfajn, os brasileiros serão um dos povos convocados, junto com os asiáticos, a preencher o espaço deixado pelo fim da exuberância do consumidor americano, atolado em dívidas e necessitado de reconstruir seu patrimônio.

13/07/2009 - 10:16h Participação do PIB do Brasil na AL deve crescer

http://www.forumdesalternatives.org/PG/images/articles/cumbre_america_latina.jpg

Conjuntura: Peso da economia do país na região aumentou 4,4 pontos percentuais entre os anos 2000 e 2008

Cibelle Bouças, de São Paulo – VALOR

Mesmo na crise, o Brasil segue a tendência verificada ao longo da década de aumento da participação sobre o Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina, devendo encerrar a década com avanço de 5 pontos percentuais em sua participação na economia regional. Entre 2000 e 2008, o peso da economia brasileira na região cresceu 4,4 pontos percentuais, passando de 30,9% para 35,3%, conforme levantamento da Comissão Econômica para América Latina (Cepal).

Em 2009, segundo cálculo do BNP Paribas e do JP Morgan, a participação brasileira aumentará entre 0,6 e 0,7 ponto percentual e em 2010, terá incremento menor, de 0,1 a 0,3 ponto percentual. Vizinhos como Chile e Venezuela, que também ganharam importância na economia latino-americana, devem encerrar a década com avanços inferiores a dois pontos.

Em termos globais, a economia brasileira também deve apresentar resultados acima da média mundial, mas inferiores ao desempenho previsto para outros países emergentes. “As projeções para a economia brasileira são de queda no PIB de até 0,5%, que ainda é um desempenho positivo em comparação com outras economias. Esse resultado aumentará o peso relativo da economia brasileira na região”, avalia o representante da Cepal para América Latina, Renato Baumann. O organismo divulga na próxima semana as projeções de PIB para 2009.

Baumann ratifica as previsões já divulgadas por organismos como o Banco Mundial (Bird) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) de recuperação da economia global a partir do segundo semestre, mas em nível insuficiente para reverter a tendência de queda neste ano. O Bird projeta queda de 2,9% no PIB global em 2009 e expansão de 2% no próximo ano.

Para a América Latina, a previsão é de queda de 2,2% neste ano e alta de 2% no próximo. O Brasil, segundo o Bird, deve apresentar retração de 1,1% na economia em 2009 e expansão de 2,5% em 2010.

O BNP Paribas projeta para este ano queda de 1,2% no PIB brasileiro e de 2,7% na América Latina. “É uma das projeções mais pessimistas do mercado, porque o banco considera que haverá desaceleração do consumo no mercado interno por conta do aumento na taxa de desemprego. O banco também aposta em uma melhora na taxa de investimento e do setor de bens de capital apenas em 2010. Há quem espere uma recuperação já no quarto trimestre”, afirma o estrategista-chefe do BNP Paribas, Alexandre Lintz. Se for confirmado esse desempenho, o país encerrará o ano com 35,8% de participação no PIB regional, o que representa um avanço de 0,5 ponto percentual sobre a participação verificada no ano passado.

Para o Chile, que em 2008 representava 4,17% do PIB latino-americano, o banco prevê queda de 2% no PIB, levando a economia desse país a representar 4,17% da região. Para a Argentina, a previsão é de queda de 3,1% na economia e recuo na participação de 8,12% para 8,09%. O México terá a retração mais significativa da América Latina, com queda de 6,7% no PIB e redução da participação de 26,6% para 25,8%. “O ponto chave do desempenho econômico nos próximos trimestres será a recuperação da demanda doméstica. Países como o Chile e o México, cujas economias estão mais expostas, tendem a sofrer mais. Economias mais fechadas, como a brasileira, sofrerão menos”, afirma Lintz.

Outro diferencial apontado por Lintz que garantirá ao Brasil um desempenho acima da média é a capacidade do governo de estimular a economia. “A taxa de juros e os juros compulsórios são muito altos, as outras economias latino-americanas não têm tanta margem para baixar os juros e estimular o crescimento”, avalia. Outro ponto citado por ele é a possibilidade de o Brasil abrir mão de parte do superávit primário para investimento. No Chile, compara, o governo utilizou parte da poupança externa adquirida nos últimos anos com a expansão das exportações de commodities. “O Brasil fez a política anticíclica utilizando gastos correntes e não com fundo soberano, como foi feito no Chile.”

Para 2010, o BNP prevê expansão de 2,7% no PIB da América Latina, pouco acima dos 2,4% previstos para a economia global. O desempenho será puxado pelo crescimento do Brasil (3,5%), do Chile (3,2%), da Colômbia e do México (ambos com 3,1%). Argentina e Venezuela ainda registrarão quedas, de 1,5% e 2,7%, respectivamente.

Se tais estimativas forem confirmadas, a participação do Brasil no PIB da região chegará a 36,1% – avanço de 5,2 pontos percentuais na década. O Chile alcançará 4,24% de participação e também superará o nível de 2008 e o patamar do início da década, de 3,62%. O México ganhará peso na economia latino-americana, com participação de 26,07%, mas não recuperará o nível de 2008. Na década, perderá 4,47 pontos percentuais de participação no PIB regional. A Argentina ganhará participação, passando a representar 8,04% da economia da região (nível similar ao de 2008). Ainda assim, o país encerrará a década com perda de 5,6 pontos percentuais de participação.

O JP Morgan projeta para este ano queda de 1% do PIB brasileiro e de 2,9% na América Latina, com elevação da participação brasileira na economia da região para 35,9%. Para 2010, o banco projeta crescimento de 3,5% da economia brasileira e de 3,3% da economia latino-americana, elevando o peso do Brasil no PIB regional para 36,04%. Tanto o resultado brasileiro como o da região se manterão acima da média global. O JP Morgan prevê queda na economia global de 2,7% neste ano e incremento de 2,9% em 2010. “O resultado será superior à média global, mas inferior ao desempenho dos países emergentes, que devem crescer 5,2% no próximo ano, principalmente os países asiáticos”, estima o economista-chefe do JP Morgan, Fábio Akira.

Na sua avaliação, o fato de os preços internacionais das commodities haverem recuado menos do que se esperava durante a crise contribuiu para que o desempenho do Brasil e da América Latina se mantivesse acima da média mundial, já que a região é exportadora líquida de commodities.

Ainda de acordo com os cálculos do banco, a economia chilena registrará queda de 1,5% neste ano e crescimento de 3,2% em 2010, mantendo a mesma participação na economia da América Latina verificada no ano passado, de 4,2%. Na década, o ganho será de 0,58 ponto percentual. O México terá queda de 5,5% neste ano e expansão de 3,8% no próximo ano. A participação no PIB da América Latina ficará em 25,47%, abaixo dos 26,56% de 2008.

11/06/2009 - 12:09h ”Autoridades brasileiras mostraram liderança”

Strauss-Kahn elogia engajamento do País em reforçar os recursos do FMI

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Patrícia Campos Mello, WASHINGTON – O Estado SP

O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, comemorou ontem a “liderança” do Brasil na decisão de comprar até US$ 10 bilhões em títulos emitidos pelo Fundo, como forma de capitalizar a instituição. “Com esse anúncio, o Brasil se junta a outros países no cumprimento dos compromissos assumidos pelas nações do G-20 na cúpula em Londres, em abril”, disse Strauss-Kahn.

Os países do G-20 (das 20 maiores economias mundiais) haviam se comprometido em injetar até US$ 500 bilhões no Fundo Monetário Internacional para a instituição conseguir ajudar outros países a sair da crise financeira.

O Brasil, com a Rússia e a China, propuseram a ideia de comprar títulos emitidos pelo Fundo como forma de injetar recursos na instituição.

Esses países não queriam colaborar da forma tradicional enquanto não houvesse uma reforma mais profunda na instituição, dando mais poder aos emergentes.

A China prometeu comprar até US$ 50 bilhões em títulos e a Rússia, US$ 10 bilhões. Espera-se que a Índia anuncie em breve sua compra de títulos do Fundo (ler matéria abaixo).

“As autoridades brasileiras mostraram liderança e engajamento no processo de reforma do Fundo Monetário Internacional e expansão dos recursos do Fundo, e eu fico feliz porque o Brasil está mostrando forte apoio ao sistema financeiro e econômico internacional. O Brasil mais uma vez reafirma seu forte papel de liderança entre as economias emergentes”, disse Strauss-Kahn. Segundo o diretor-gerente do Fundo, os títulos devem ser emitidos “o mais rapidamente possível”.

RESERVAS

Os títulos são vistos por alguns países, como China e Rússia, como uma maneira de diversificar suas reservas internacionais, excessivamente concentradas em dólares e títulos do Tesouro americano.

O banco central chinês já demonstrou preocupação em relação a isso e propôs que os Direitos Especiais de Saque do Fundo venham a se tornar a moeda de reserva mundial.

O Banco Central do Brasil vai decidir que ativos de suas reservas irá vender para comprar os títulos do FMI.

Os títulos do Fundo irão ter rendimento semelhante ao dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos e serão denominados na moeda do Fundo, os Direitos Especiais de Saque, que variam de acordo com uma cesta de moedas.

11/06/2009 - 11:45h O Fundo foi ao Brasil

PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. – FOLHA SP



O mais significativo é que esse aporte esteja sendo feito em meio à mais séria crise desde a Grande Depressão

O MINISTÉRIO da Fazenda anunciou ontem, por meio de nota oficial, que o Brasil pretende contribuir com até US$ 10 bilhões para o financiamento do FMI (ver www.fazenda.gov.br). Veja bem, leitor, US$ 10 bilhões! A minha vaidade nacional deu “arrancos triunfais de cachorro atropelado” (expressão de Nelson Rodrigues que eu já citei umas 500 vezes, no mínimo).
Confesso que, quando cheguei aqui, ao FMI, há pouco mais de dois anos, nunca poderia imaginar, nem nos meus sonhos mais delirantes, que o Brasil passaria a emprestar dinheiro ao Fundo. Brasileiro é um pobre e humilde ser, que tem recaídas recorrentes no “complexo de vira-lata” (Nelson Rodrigues, outra vez). Não tem e nunca teve os modos, hábitos e cacoetes típicos do credor. Durante quase toda a sua história, o Brasil foi um devedor -nato, hereditário e, não raro, inadimplente, às vezes escandalosamente inadimplente.
Parece que estamos começando uma nova fase. O significativo não é apenas que o Brasil empreste dinheiro ao Fundo, mas especialmente que isso esteja sendo feito em meio à mais séria crise econômica internacional desde a Grande Depressão da década de 1930. O que se poderia esperar nessas circunstâncias? Ora, que o Brasil recorresse ao Fundo. Até o ano passado, havia essa expectativa aqui mesmo no FMI. Esperava-se que o Brasil viesse a se candidatar à nova Linha de Crédito Flexível, uma modalidade de financiamento sem as condicionalidades tradicionais, que foi criada recentemente pela Diretoria do Fundo.
Nada disso. Em vez de o Brasil ir ao Fundo, o Fundo foi ao Brasil. O Brasil não apenas não precisou pedir dinheiro ao FMI como tem condições de emprestar um montante considerável de recursos à instituição. Evidentemente, isso não seria viável se o país não tivesse uma posição econômica razoavelmente sólida e, em especial, se não tivesse acumulado, no período que antecedeu a eclosão da crise mundial, mais de US$ 200 bilhões em reservas internacionais.
A ideia do Brasil, em princípio, é contribuir mediante a compra de bônus ou notas emitidos pelo FMI. A decisão final de efetuar o aporte de até US$ 10 bilhões ainda depende da definição pela Diretoria Executiva do Fundo das características desses bônus ou notas, assim como de outros mecanismos de financiamento. A nossa cadeira no FMI está participando dessa definição.
Estamos buscando dois objetivos. Primeiro, garantir que os mecanismos de financiamento (bônus e outros) tenham um caráter temporário, servindo de ponte para a próxima revisão geral de cotas, que deve ocorrer até janeiro de 2011, como ficou acertado pelo G20 na cúpula de Londres. A próxima revisão de cotas permitirá não só aumentar a base de recursos da instituição de forma permanente como também democratizar o FMI.
Segundo, os bônus e outros instrumentos de financiamento devem ser desenhados de forma a permitir que a contribuição constitua parte das reservas internacionais do país. Em outras palavras, os ativos emitidos pelo FMI devem ter liquidez, podendo ser imediatamente convertidos em moedas fortes, se necessário.
Acredita-se que essa discussão possa ser concluída em poucas semanas, permitindo a concretização do empréstimo brasileiro. Como disse o presidente Lula, na condição de credor, o Brasil terá mais autoridade e legitimidade para continuar pressionando pelas reformas que o FMI requer.


PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. , 54, escreve às quintas-feiras nesta coluna. É diretor-executivo no FMI, onde representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago), mas expressa seus pontos de vista em caráter pessoal.

pnbjr@attglobal.net

10/05/2009 - 11:08h Brasil, caso único. Mais crédito mesmo em recessão

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Alberto Tamer* – O Estado SP

 


Tudo indica que já estamos tecnicamente em recessão, pois se espera mais um Produto Interno Bruto (PIB) negativo. Espera-se mais um PIB negativo no primeiro trimestre, após uma queda brusca de 3,6% nos últimos três meses do ano passado. Apesar disso, a confiança externa no Brasil continua em alta porque os fundamentos da economia são positivos. Entre janeiro e quarta-feira, o Tesouro captou US$ 1,77 bilhão.

O último lançamento de títulos era de US$ 500 milhões, mas a demanda foi bem maior, chegando a US$ 750 milhões. Tudo vencendo em 2019 e a taxa de juros declinante, o que é um forte indício de confiança. O primeiro lançamento em janeiro foi com juro de 6,1% e o desta semana 5,80%. Outros países, como a Colômbia, pagaram 7,3%.

E, atentem, isso em meio a um mercado financeiro ainda tenso, dominado por medo, cautela e incerteza.

Nesta semana, houve um pouco de alívio com o resultado do teste de estresse feito nos 19 maiores bancos, revelando uma situação menos grave do que o esperado.

O Tesouro afirma que esses bancos americanos precisam de cerca de US$ 75 bilhões do setor privado ou serão socorridos pelo governo. O Tesouro e o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) afirmaram na sexta-feira que há recursos para atender imediatamente a todos, afastando, assim, o fantasma de um novo Lehman Brothers.

ELES ESTÃO VOLTANDO

Um bom sinal foi que logo após o anúncio do resultado do teste, dois bancos, o Morgan Stanley e o Wells Fargo, conseguiram levantar em apenas um dia, na sexta-feira, US$ 11,5 bilhões no setor privado. Para Wall Street, há sinais de que os investidores estão voltando ao mercado. “Não é o fundo do poço, mas o apetite dos investidores por ações e títulos é espantoso”, afirmou Michael Halaby do BNP Paribas, em Nova York ao Financial Times.

SAÍMOS NA FRENTE

Mas o Brasil saiu na frente. Antes mesmo do resultado do teste, o Tesouro nacional voltou ao mercado externo, em janeiro, e captou US$ 1,025 bilhão com prazo de vencimento em 2019 a juros declinantes. O mesmo foi feito pelo setor privado.

Nos últimos dias, corria no mercado financeiro que a agência Moody’s estaria estudando a elevação do grau de investimento do Brasil, o que poderia ocorrer muito em breve.

O Tesouro já anunciou que tem a maior parte dos dólares necessários para pagar o vencimento da dívida externa neste ano. Deve continuar aproveitando a excepcional imagem do Brasil no exterior para reforçar as reservas cambiais que praticamente continuam intactas. Nós continuamos a caminhar bem enquanto os outros tropeçam e até ameaçam cair.

VAMOS CONTINUAR ASSIM?

Depende. No momento, estão entrando tantos dólares que até incomoda… Esse cenário poderá manter-se se não houver nenhuma outra catástrofe no mercado financeiro internacional. Poucos esperam que isso ocorra, mas a maioria não descarta essa hipótese.

PERDA DE US$ 590 BILHÕES!

Ao mesmo tempo, o Fed informou na sexta-feira que os 19 grandes bancos submetidos ao teste podem sofrer perdas de US$ 599 bilhões até o fim do próximo ano. Esse é um quadro que não inspira muita confiança, mesmo com o governo declarando-se disposto a socorrer aos que precisarem.

PODE PIORAR

E é exatamente por isso que o Tesouro está aproveitando o bom momento para o Brasil.Quer captar tudo o que for preciso ainda este ano, prevenindo-se contra um eventual agravamento da crise financeira.

Afinal, não se sabe bem qual é o valor dos chamados títulos tóxicos. O Fundo Monetário Internacional estima que sejam US$ 2,8 trilhões só nos EUA. Ampliando-se para o mundo, o FMI chega a US$ 4 trilhões!

Muito ainda pode acontecer.

Certo, o Tesouro e os bancos centrais dos países mais envolvidos começam a enfrentar esse desafio com mais vigor, mas chegaram atrasados, principalmente, na União Europeia.

Tudo seria menos difícil se a economia desses países voltassem a crescer. Mas para isso é imprescindível resolver a crise no sistema financeiro que, associada à desconfiança e à redução do crédito, está provocando uma forte retração da demanda. Um grave efeito colateral é o aumento do desemprego que, nos EUA, chegou a 8,9%. No Brasil ele está em 8,5% sem dar sinais de se estabilizar.

ESTAMOS CERTOS

A coluna apresentou esse panorama para concluir que a equipe econômica está certa ao “entesourar” o que puder para se prevenir contra o pior, mesmo que essa possibilidade não seja imediata e até mesmo remota. Está certa também ao atacar desde o início as duas frentes, estímulo à demanda com a redução seletiva de impostos, ao mesmo tempo em que manejam a liquidez em um mercado financeiro felizmente sólido.

Devemos ter ainda pela frente tempestades e furacões que rugem lá fora, mas as barragens que estamos construindo para sermos menos afetados estão funcionando até agora.

Estou quase tentado a dizer que em meio a tanto infortúnio externo, somos até “felizes” e não sabíamos, mas não digo para não me chamarem de novo de otimista inconsequente.

Não sou não.Nem um pouco.Apenas um pessimista em fase de conversão.

*E-mail: at@attglobal.net

04/05/2009 - 11:11h Economistas contestam validade das previsões do FMI para o Brasil

O FMI projetou contração de 1,5% para o PIB do Brasil neste ano. A dispersão das expectativas neste momento é a mais alta da série histórica apurada pelo Banco Central (BC). O presidente do BC, Henrique Meirelles, acredita que a recuperação deve começar neste trimestre.

Valor: Já ultrapassamos o pior momento da crise?

Delfim Netto: O FMI não é bom para fazer projeções. Nunca foi, e menos ainda na gestão Strauss-Kahn. O relatório do FMI sobre a economia mundial para 2008/2009 ainda falava de um mundo estupendo, sendo que os sinais de desaceleração mundo afora já estavam colocados. As projeções do FMI não valem nada.

Valor: Mas qual é sua projeção?

Delfim: É impossível prever o que vai acontecer. O comportamento da economia é cíclico, embora o ciclo atual seja diferente. Há uma quebra de confiança e esse é o risco. O Brasil tem um ritmo de decréscimo menor. O Meirelles provavelmente não está muito errado. No quarto trimestre já veremos a economia levantando. Poderíamos estar melhor se o BC tivesse utilizado a musculatura que tem para reagir com mais rapidez.

Valor: De que forma?

Delfim: O BC podia ter dado mais conforto ao sistema bancário. O primeiro erro foi quanto ao capital subordinado. O BC poderia ter dado garantias aos bancos, completando o que faltasse às empresas nos vencimentos dos empréstimos. O segundo erro foi no fornecimento de funding aos bancos. O BC errou ainda ao inaugurar uma nova teoria, segundo a qual, banco grande é melhor que pequeno e banco público é melhor que banco privado.

Samuel Pessoa: Estou relativamente otimista com o desempenho da atividade. O choque externo não nos desorganizou. O estrago que a inovação provocou no sistema financeiro mundial não chegou aqui. As estatísticas até meados do terceiro trimestre mostram cenário de desaceleração, mas sem desorganizar o sistema de trocas. Os preços das commodities agrícolas em 2008 subiram muito com a especulação. E a queda, por causa da crise, colocou os preços no nível de 2006, que já era alto. As exportações já começam a reagir. O emprego também não mostra um desastre.

Valor: O sr. concorda com as previsões do FMI?

Pessoa: Os números do FMI são inconsistentes. É difícil olhar para o PIB ano a ano, é melhor olhar para uma média de três anos. Se o PIB for muito ruim em 2009, será muito bom em 2010. Se cair os 1,3% do FMI, então, vai crescer 4,5% em 2010 porque a base será muito baixa. Não faz sentido essa previsão do FMI de que o Brasil vai crescer muito pouco dois anos seguidos. Na época da bonança internacional, crescemos 6%. Sem a ajuda do exterior, voltamos para a média de 4% e não de algo como 0,8% que o Fundo espera.

Candido Bracher: O crescimento neste ano pode ficar próximo do número do FMI. Se crescermos zero já vai ser bom. O importante é que esta é a primeira vez que o país pode reagir, numa crise, com redução dos juros. Nas outras crises, a dependência externa fez com que a primeira preocupação fosse a atração de capitais externos. O país reagia aumentando os juros. Essa reação criava uma dificuldade adicional para as empresas, que já precisavam lidar com a retração do mercado externo. O cenário de hoje lembra muito 2003, quando viemos de uma forte elevação do dólar e de queda da atividade. Uma série de empresas e setores estava endividada e enfrentou queda de lucratividade. Dois ou três anos depois, as empresas e os setores já estavam reequilibrados, lucrativos, muito bem financeiramente. Naquele momento saímos da crise engatados no crescimento internacional, mas tínhamos juros muito mais elevados. Hoje, nossas taxas de juros são muito menores.

Valor: O sr. acha possível sair mais rapidamente da crise?

Bracher:
Vamos sair bem da crise, mas isso não quer dizer que sairemos rapidamente. Já está se formando um consenso no mercado de que as coisas pararam de piorar. Ninguém mais espera que esta seja uma recessão em V e nem mesmo em U. Teremos uma recuperação muito lenta. E não será gradativa porque haverá volatilidade.

Valor: Já há colocação de dívida por parte das empresas?

Bracher: Sim. O Itaú-BBA liderou esse retorno. Tivemos a colocação de US$ 200 milhões da Odebrecht por cinco anos e de US$ 750 milhões da Telemar por dez anos. Li no Valor a notícia da emissão do JBS.

Valor: Um dos componentes da crise é a postergação e o cancelamento de investimentos. O país estava em um dos mais longos ciclos de investimento de sua história recente e isso foi abortado. Isso afeta a capacidade de crescer no futuro?

Delfim: Nos grandes projetos de infraestrutura, não há queda. O BNDES tem feito um acompanhamento e não há queda nessa área, mas em bens de capital, sim. Os projetos só vão voltar quando tiver demanda. Estávamos muito bem porque foi a crença no crescimento do produto que despertou o espírito animal do empresário e fez elevar o nível dos investimentos nos últimos três anos. Mas o investimento público está crescendo muito, e ele é vital para recapturar o ânimo dos investidores privados. As obras do PAC continuam em bom ritmo e há o estímulo do programa de construção de moradias que deve crescer bastante, o que obviamente aumenta o consumo de produtos de toda a natureza na escala das obras civis e cria as condições de expansão da demanda.

Pessoa: Devemos ter uma retomada da demanda no princípio de 2010. No começo, a recuperação da economia vai se dar com ocupação da capacidade ociosa. Pela primeira vez, em muito tempo, não teremos risco de oferta. Será um ano tipicamente keynesiano. Hoje, temos vários seguros. Nos últimos cinco anos, nossos termos de troca estiveram equilibrados quando olhamos exportações, importações e destinos.

Delfim: Fui a Maringá (PR) e lá não há crise na soja, na cana, no açúcar, porque o câmbio corrigiu o efeito da queda dos preços das commodities.

Bracher: Algumas das nossas ineficiências se tornaram virtudes. A situação lembra um conto do Jorge Amado (Os velhos marinheiros), em que um sujeito que não sabia navegar assume um barco. Como ele não tem a mínima ideia do que fazer, usa todas as amarras para prender o barco e vira alvo de gozação dos marinheiros. Durante a noite, vem uma tremenda tempestade e no dia seguinte só sobra o barco dele no cais. O Brasil tem uma taxa de compulsório sobre depósito à vista de 50%, quando o mundo tem 10%; tínhamos juros reais de quase 10% ao ano, quando o mundo tinha zero, 2%, 3%, 4%. Essas ineficiências permitiram irrigar o mercado de liquidez e permitiram um alcance à política monetária que outros países não puderam ter porque já tinham juros próximos de zero. A pequena participação das exportações no PIB, de 15%, nos tornou menos sensíveis à retração externo.

04/05/2009 - 10:52h Surgem sinais do processo de recuperação

Debate: Delfim Netto, Candido Bracher e Samuel Pessoa analisam os principais temas da agenda econômica

Cristiano Romero, de São Paulo – VALOR

Ana Paula Paiva/Valor
Candido Bracher: consenso em formação de que as coisas pararam de piorar

É impossível prever com precisão o que vai acontecer com a economia brasileira e mundial nos próximos meses, mas o pior da crise financeira internacional, pelo menos para o Brasil, já pode ter passado. A economia brasileira está entrando em processo de recuperação e, por causa da capacidade ociosa de vários setores, deve voltar a crescer em 2010. A crise, embora tenha atingido o país de forma severa, não desorganizou a economia.

Estas são algumas das conclusões de três observadores privilegiados da crise mundial e seus efeitos sobre o Brasil – o ex-ministro e ex-deputado Antônio Delfim Netto, o presidente do banco Itaú-BBA, Candido Bracher, e o professor Samuel Pessoa, da Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas. A convite do Valor, eles debateram os principais temas econômicos da atualidade.

Em geral, os três estão otimistas quanto às perspectivas de recuperação do Brasil nesta crise, considerada a mais grave desde a Grande Depressão de 1929. Delfim e Pessoa acham que a projeção de queda de 1,3% do PIB em 2009, feita pelo FMI, é inconsistente. Já Bracher diz que ela pode estar correta.

“As projeções do FMI não valem nada”, criticou o ex-ministro. “Estou relativamente otimista com o desempenho da atividade. O choque externo não nos desorganizou”, opinou Pessoa, que, além de dar aulas na FGV-RJ, assessora o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). “Vamos sair bem da crise, mas isso não quer dizer que sairemos rapidamente. Já está se formando um consenso no mercado de que as coisas pararam de piorar”, comentou Bracher. As medidas adotadas pelo governo Lula para enfrentar a crise foram, com poucas exceções, bem avaliadas por Delfim, Bracher e Pessoa.

A única iniciativa criticada de forma consensual foi a adoção de estímulos para que os bancos públicos comprem bancos privados em dificuldades. Na avaliação do professor de FGV, a medida, “um estímulo à estatização”, foi tomada com o beneplácito do Banco Central (BC).

Ana Paula Paiva/Valor
Candido Bracher: consenso em formação de que as coisas pararam de piorar

O BC também foi criticado por Delfim e Bracher. Os dois afirmaram que a autoridade monetária poderia ter reagido de forma mais célere no início da crise, em setembro de 2008. “Poderíamos estar melhor se o BC tivesse utilizado a musculatura que tem para reagir com mais rapidez”, criticou Delfim.

Delfim e Pessoa polarizaram as opiniões quando o tema foi taxa de juros. Enquanto o ex-ministro defendeu a tese de que a taxa Selic é alta por causa de um equívoco da política monetária conduzida pelo BC, o professor da FGV disse que o problema é estrutural. “Quando o país fica bem, os empresários se entusiasmam e o investimento vem, a poupança doméstica não cresce. É por isso que os juros ficam altos”, avaliou Pessoa.

O economista ligado ao PSDB afirmou que o governo Lula não pode ser acusado de gastador na área de custeio. Lembrou, no entanto, que Lula elevou muito as despesas sociais e de pessoal, difíceis de serem revertidas. Na sua avaliação, isso criou um tema para a campanha eleitoral de 2010 e um desafio para o próximo governo. Pessoa não vê, no entanto, risco de insolvência fiscal em 2009 e 2010.

Participaram do debate Denise Neumann, José Roberto Campos e Vera Brandimarte

27/04/2009 - 11:18h Bric pressiona Fundo por mais poder de voto

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Bob Davis, The Wall Street Journal, de Washington – VALOR

A pressão do Brasil, Rússia, Índia e China para que o Fundo Monetário Internacional faça sua primeira emissão de títulos tornou-se parte de uma estratégia por parte dos países em desenvolvimento para ganhar mais poder de decisão no FMI.

Esses quatro países declararam-se dispostos a contribuir para quadruplicar os recursos do FMI, que chegariam a US$ 1 trilhão, sobretudo adquirindo títulos. Estes seriam denominados na quase-moeda do FMI, os chamados Direitos Especiais de Saque, com vencimento de cerca de um ano, e seriam vendidos apenas para os bancos centrais. Se os países do Bric conseguirem o que desejam, os títulos também poderão ser vendidos em mercados secundários, para ficarem mais líquidos.

A proposta de compra dos títulos se destina a enviar uma mensagem dupla, disse Eswar Prasad, ex-autoridade do FMI que continua em contato constante com os representantes chineses e indianos. Os países do Bric estão dispostos a contribuir com o FMI, mas “não querem se comprometer a contribuir com mais dinheiro antes de conseguir mais” poder de voto no Fundo, disse Prasad.

Os direitos de voto e a emissão de títulos do FMI são questões que estiveram no alto da pauta das reuniões do órgão, que também discutiu o estado da economia global e o apoio a ser oferecido a países de baixa renda.

Em declaração feita no sábado ao principal comitê consultor do FMI, o ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega, disse que o FMI “ainda tem que tratar do seu pecado original: o seu déficit de democracia”. O ministro da Fazenda egípcio, Youssef Boutros-Ghali, presidente do conselho desse grupo consultivo, disse ao Wall Street Journal que deseja obter o envolvimento dos líderes nacionais para reformar o sistema de votação do FMI. A cota de cada país nas votações do FMI supostamente reflete, de modo geral, o poder econômico global do país mas, no momento, concede um peso muito maior àqueles que se tornaram poderosos depois da Segunda Guerra Mundial.

Em março de 2008 o FMI anunciou que a participação dos países emergentes aumentaria em apenas 5,4 pontos percentuais. Agora o FMI se comprometeu a reexaminar a questão em 2011; mas os países do Bric acreditam que a necessidade que o Fundo tem de maiores aportes lhes dá mais poder de fogo.

27/04/2009 - 10:51h Traduzir as palavras em atos: aumentar o poder de voto do Brasil e dos Brics no FMI é adequar a instituição a nova realidade

”Influência do Brasil é maior que seu poder de voto”

 

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Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do FMI

Patrícia Campos Mello, WASHIGNTON – O Estado SP

 


O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, afirmou ontem que a influência do Brasil no Fundo já aumentou muito, independentemente da reforma da estrutura de votos na instituição. “Na última reforma de cotas, os votos do Brasil passaram de 1,4% para 1,8%, o que não muda muita coisa”, disse. “Mas o Brasil está se tornando um dos países mais importantes da economia mundial. A importância do que o Brasil diz na cena internacional e o papel desempenhado pelo presidente Lula são mais relevantes do que os votos que o País tem no Fundo”, afirmou ele em entrevista de encerramento da reunião.

Strauss-Kahn reforçou que a reforma nas cotas é importante, pois é necessário que o Fundo reflita a nova realidade econômica mundial. “Mas China, Brasil e Índia não estão esperando nova mudança nas cotas para serem ouvidos pelo conselho do Fundo e do Banco Mundial.”

O comitê de desenvolvimento determinou que uma nova mudança na estrutura de votos da instituição será concluída até janeiro de 2011. Em abril de 2008, foi concluída uma reforma nas cotas, o Brasil passou de 1,4% dos votos para 1,8%.

A mudança ainda não foi aplicada porque depende de aprovação legislativa de alguns países. Mas o Fundo precisa ser recapitalizado e os países emergentes argumentam que a mudança foi insignificante, então haverá uma segunda reforma nas cotas até janeiro de 2011.

A crise financeira foi classificada como “um desastre humano e de desenvolvimento” no comunicado divulgado ao fim da reunião do comitê de desenvolvimento do Fundo. Strauss Kahn, Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, e Agustín Carstens, presidente do comitê, exortaram os países a liberar rapidamente os recursos prometidos para o Fundo.

Os líderes do G-20 decidiram, em Londres, no dia 2, elevar de US$ 250 bilhões para US$ 750 bilhões o total disponível para empréstimos. Mas, até agora, poucos países deram dinheiro para o Fundo, entre eles o Japão, que liberou US$ 100 bilhões. O Congresso dos EUA está adiando a liberação de US$ 100 bilhões. O Brasil apresentou exigências para dar os recursos prometidos. “Exortamos a todos os doadores que acelerem a liberação dos recursos e aumentem o montante que se dispõem a dar para o Fundo”, disse o comunicado.

26/04/2009 - 11:08h Ação estatal evitou pânico no Brasil

VINICIUS TORRES FREIRE – FOLHA SP

Subsídio ao consumo, crédito de bancos estatais, ajudas do BNDES e dinheiros vários do BC evitaram colapso recessivo

O BRASIL teria mergulhado em parafuso recessivo não fosse a parte mais certeira da intervenção estatal -sim, do governo Lula. Os bancos públicos sustentam 80% do aumento do crédito desde outubro. Sem subsídio ao consumo, por meio de corte de impostos, teria havido colapso maior no emprego industrial. O pânico que se alastrava em dezembro, com o colapso das vendas e do emprego nas montadoras, foi contido. Mesmo com o investimento público a passo de cágado.
Sem os dólares do Banco Central e garantias de empréstimos para bancos menores, haveria crise também na banca nacional (perigo que, “nas internas”, se admite agora, passado o susto). Teria sido maior a asfixia de empresas endividadas no exterior e das metidas em aventuras cambiais.
Mais controverso, via BNDES o governo socorreu alguns grandes grupos empresariais; via salário mínimo e INSS, transfere renda para pobres, mais propensos a consumir.
Mas a ação responsável da banca estatal tem limite; o gasto público está no limite da responsabilidade. Divertido: a crítica da banca à lassidão fiscal baixou bem de tom. Quando falta pão, o governo tem razão?
Dados de março indicaram despiora relativa. O crédito saiu do pântano em que viveu de novembro a fevereiro, mas cresce em ritmo bem inferior ao dos meses de 2008 anteriores à crise, mesmo descontada a parte insustentável dessa balada.
O emprego ainda cai em relação a 2008, mas em ritmo menor (dados do IBGE, vide gráfico). Mas o IBGE cobre apenas seis metrópoles. Não conta agruras do Centro-Oeste e do Sul dos frigoríficos, por exemplo; de Minas, Rio e Pará de minérios e siderurgia; do interior paulista exportador de aviões e da abalada indústria metal-mecânica, de calçados etc. No caso do trabalho formal, dados nacionais, março ficou num modesto azul; mas em março de 2008 foram criados 171 mil empregos a mais.
O desemprego industrial ainda vai contagiar serviços e comércio. O estímulo fiscal à indústria não deve ajudar tanto daqui por diante. Em março, a indústria deve ter crescido de 1,5% a 2% ante fevereiro, mas recuado 8,5% ante março de 2008. Nesse passo, no final de 2009 a indústria terá crescido nada sobre 2008. A queda do valor das exportações industriais está em 30% (até meados de abril; e em 18% para o total das exportações). O comércio mundial deve cair de 9% a 11%.
A primavera dos mercados desponta, alardeia a banca global. Mas o FMI previa em novembro crescimento de 1,7% para o mundo; em abril, vê queda de 1,3% (a “Economist Intelligence Unit”, EIU, prevê baixa de 3%). O crescimento do Brasil foi revisto para baixo: -1,5% (EIU) e -1,3% (FMI). Os brasileiros mais sensatos acreditam em PIB estagnado; no governo, alta de 1% a 2%. São divergências brutais. Mas não há dúvida sobre o seguinte: não é hora de reduzir o ritmo de queda de juros.

vinit@uol.com.br

26/04/2009 - 10:16h Crise global: ‘Economia ficará fraca por 3 anos”


Stephen Roach: presidente da divisão Ásia do Banco Morgan Stanley; conhecido pelo pessimismo e por ter previsto a crise, economista diz que rali recente do mercado se mostrará ‘desapontador’

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Leandro Modé – O Estado SP

 


Em um breve perfil na Wikipédia, a enciclopédia online mais consultada do mundo, o economista americano Stephen Roach é definido como um “urso permanente”. No mercado financeiro, o grande mamífero peludo é o símbolo do pessimismo. Embora rechace a qualificação, dizendo que tenta ser apenas “realista”, Roach é amplamente conhecido pelas previsões catastrofistas. Durante anos – e muito antes de a atual crise estourar -, Roach, que comandava até 2007 o departamento econômico do Banco Morgan Stanley, alertou para os desequilíbrios da economia global. Em síntese, chamava a atenção para o consumismo dos americanos, para a política monetária frouxa do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) e para o excesso de poupança nos países asiáticos, notadamente a China. O tempo mostrou que ele estava certo. Olhando para a frente, Roach diz que só vê alguma recuperação tênue da economia global em 2010. Por isso, avalia que o rali das últimas semanas nas bolsas mundiais se mostrará desapontador. “Minha visão é que, após um boom extraordinário e insustentável, haverá um movimento de volta que deixará a economia fraca por ao menos três anos”, disse ao Estado, por telefone, de Cingapura. Há cerca de dois anos, Roach comanda a divisão da Ásia do Morgan Stanley.

Temos visto alguma recuperação nos mercados financeiros, especialmente em países emergentes. É sustentável?

Ainda é muito cedo para termos um sinal preciso da economia global. É bem possível que o pior em termos de contração tenha ficado para trás, mas ainda veremos uma recessão severa no mundo. O mais importante é que qualquer recuperação, quando vier, será limitada. O mercado financeiro está antecipando uma recuperação mais forte, algo em que não acredito.

Ou seja, é cedo demais?

Sim, esse rali vai se mostrar desapontador, uma vez que veremos alguma recuperação só em 2010.

A principal razão para essa melhora é o relativo otimismo com o plano americano para resgatar os bancos. Como o sr. o avalia?

Não concordo que essa seja a principal razão. Nos últimos três meses, houve leves sinais de melhora da atividade econômica, do mercado imobiliário, do consumo nos EUA e das exportações de países emergentes. Mas, a despeito disso, penso que o conceito do plano do secretário (Timothy) Geithner para os bancos é bom, pois contempla um mecanismo para estabelecer um preço para os ativos tóxicos e sua retirada dos balanços dos bancos. A questão é se os investidores vão participar. Em resumo, é bom na teoria, mas há dúvidas sobre a execução.

É preciso ver se vai funcionar na prática, então.

Exatamente. Há também a questão de privatizar os ganhos e socializar as perdas. Há uma possibilidade séria de que a conta venha a ser paga pelos contribuintes americanos.

É inevitável a estatização do sistema bancário americano?

O governo está fazendo tudo o que pode para evitar uma nacionalização formal. Não está claro se no fim da linha ainda veremos uma nacionalização mais profunda, ainda que o governo tenha assumido boa parte de várias instituições.

O sr. falou em alguns números melhores na economia global nos últimos meses, mas espera uma recuperação apenas em 2010. Não soa contraditório?

Há uma expressão que define bem isso: ainda são números ruins, mas não tão ruins como antes. Refletem apenas o fato de que tivemos um raro declínio na atividade econômica nos últimos seis ou sete meses. A maior parte dele decorre do congelamento dos mercados de crédito e de capitais após a quebra do Lehman Brothers. Não é normal esperar que esse ritmo de queda se mantenha. Então, algum freio nessa deterioração poderia provocar certo otimismo. Algo com o que não concordo.

O sr. afirmaria que em alguns países a situação parou de piorar?

Não. Isso é explicado por um conceito técnico, segundo o qual há uma grande diferença entre melhora e desaceleração das taxas de queda.

O FMI informou esta semana que espera a primeira recessão global desde a 2ª Guerra. Qual o seu cenário?

Nos meus 30 anos de projeções econômicas, raramente concordo com o FMI. Mas acho que, dessa vez, a expectativa deles para 2009 é bem próxima da minha, que é de um recuo de 1,5% no PIB mundial. A recessão alcançou o mundo todo. Acredito que, mesmo para 2010, qualquer recuperação será fraca. O PIB mundial talvez cresça entre 1,5% e 2%.

Qual a expectativa para a China?

Acho que os números da China também serão fracos. O crescimento neste ano deve ficar entre 6% e 6,5%, levando-se em conta os dados já divulgados do primeiro trimestre. Não acho que a economia chinesa crescerá tão rapidamente quanto a projeção oficial do governo, de 8%. A queda em relação ao desempenho anterior é significativa, e se explica pela fraqueza na demanda externa e porque a China é muito dependente dessa demanda.

Quais as consequências desse enfraquecimento da China para países que exportam bastante para lá, como o Brasil?

Essa é uma das razões pelas quais o Brasil terá uma contração neste ano. A principal compradora de matérias-primas do mundo é a China. Em 2007, a expansão chinesa foi de 13%. Em 2009, ficará perto da metade disso. Ou seja, não teremos mais o superboom de commodities dos últimos anos. Com isso, grandes fornecedores de matérias-primas como Brasil, Nova Zelândia e Austrália sentirão impacto relevante.

Sei que o sr. não é responsável pelas projeções do Brasil, mas a previsão do Morgan Stanley para o PIB brasileiro em 2009 – retração de 4,5% – causou surpresa por aqui. O sr. realmente acredita que esse é um número crível?

Espero que sim. Já fui responsável pela equipe econômica e acho que eles têm boas razões para a projeção.

Olhando a partir de hoje, como o sr. vê a ideia de “descolamento” dos emergentes?

É uma piada. Como esperar que economias em desenvolvimento, em que grande parte do crescimento dependia da demanda externa, iam descolar? O rápido crescimento das economias emergentes era uma história maravilhosa, mas resultava de dois movimentos: explosão do comércio global e aumento da parcela das exportações no PIB, sobretudo na Ásia. Com a desaceleração do comércio, a maioria das economias emergentes falhou em estimular a demanda doméstica. Todas as economias desenvolvidas estão em recessão. Basicamente, a ideia de descolamento foi uma piada, uma piada de mau gosto.

Durante anos, o sr. alertou para os desequilíbrios globais. Como avalia as medidas que os governos estão adotando para estimular suas economias?

Os governos estão fazendo o que podem para limitar a queda. Mas há o risco de que estejam focando demais o reestímulo do consumo nos EUA, o que é uma estratégia pobre. Essa foi uma das razões chave para que os EUA entrassem nessa confusão. Os consumidores compraram além de suas possibilidades, o que criou as duas bolhas que estouraram: no crédito e no mercado imobiliário. Tentar recriar outro período de excesso de consumo e encorajar os americanos a consumir, em vez de poupar, é um grande erro. Realmente me preocupo que essas políticas de estímulo resultem em desequilíbrios semelhantes nos EUA. Para cada dólar de excesso de consumo nos EUA, há um dólar de poupança em algum lugar do mundo.

O que fazer para evitar isso?

Esse é um problema global, portanto, deveríamos ter políticas que lidassem com a questão da poupança mundial – concentrada principalmente na Ásia – e com os déficits (em conta corrente e fiscal) nos EUA. Os chineses têm de consumir mais e os americanos, poupar mais. Não estou convencido de que as políticas atuais atingirão esse objetivo.

O G-20 poderia agir para isso?

Fiquei muito desapontado com o comunicado da última reunião do G-20. Creio que o grupo falhou ao encaminhar esse problema dos desequilíbrios globais. O texto mencionou a questão de relance e não trouxe uma proposta de ações concretas para lidar com o tema. Os esforços do G-20 que devem ser celebrados estão basicamente relacionados ao fortalecimento do FMI.

Olhando dois ou três anos à frente, a inflação é um risco no mundo?

Não. O buraco entre oferta e demanda na economia mundial é de tal ordem que inflação não será problema no período de três a cinco anos. Há muita fraqueza no mercado de trabalho e no consumo.

O sr. é conhecido como um pessimista. Mas, no início do ano, no Fórum Econômico Mundial, foi chamado de otimista pelo colunista do ‘Financial Times’ Martin Wolf. Como se define neste momento?

Martin fazia uma brincadeira. Na sessão de abertura do Fórum, eu disse que via uma recessão muito séria e um período de fraqueza na economia mundial durante os próximos três anos. É o meu pronunciamento habitualmente “bearish” (pessimista). Mas Martin disse que eu não estava “bearish” o bastante. Alguns jornalistas escreveram que eu havia mudado meu ponto de vista. Não quero ser conhecido como pessimista nem como otimista, mas como realista. Minha visão é que, após um boom extraordinário e insustentável, haverá um movimento de volta que deixará a economia fraca por ao menos três anos. Não creio que seja otimismo.

O sr. poderia resumir as causas dessa crise, em poucas palavras?

Foi um problema sistêmico causado por instituições financeiras, governos, legisladores, consumidores – especialmente nos EUA – e um problema particular: uma política monetária pobre do Fed de Alan Greenspan. Essa política gerou a bolha de ativos, não prestou atenção à estabilidade financeira e ignorou a responsabilidade regulatória.

Como vê a proposta da China de criar uma moeda de reserva do FMI para substituir o dólar?

É uma proposta que deve ser seriamente considerada. Com exceção dos últimos meses, o dólar vinha se desvalorizando havia seis anos. Daqui para a frente, essa é a tendência. Muitos gestores no mundo vão preferir aplicar recursos em uma cesta de moedas e, assim, reduzir o peso do dólar.

22/04/2009 - 09:42h ”Moeda global reflete a ascensão do resto do mundo”

Joseph Stiglitz: economista; para Stiglitz, a proposta de criação de uma nova moeda é sinal do declínio do dólar, que começou durante o governo Bush

 

http://www.worldfinancialblog.com/wp-content/uploads/2008/06/1dollarbill.jpg

Nathan Gardels, GLOBAL VIEWPOINT NETWORK – O Estado SP

 


O economista Joseph Stiglitz , Prêmio Nobel de Economia em 2001, vê no movimento para substituir o dólar por uma nova moeda global uma transferência de poder para a “ascensão do resto” do mundo. A seguir, os principais trechos da entrevista de Stiglitz :

O ex-secretário do Tesouro Henry Paulson argumentou que uma das principais dinâmicas da bolha do crédito foi a maciça disponibilidade de liquidez chinesa para os EUA mediante o investimento de suas reservas em dólares em títulos do governo americano. Isso manteve baixas as taxas de juros de longo prazo, tornando o crédito fácil e também impelindo os investidores a buscar rendimento em instrumentos mais exóticos. O sr. concorda?

Sim e não. É verdade que a poupança chinesa estava fluindo em massa para os EUA e, obviamente, as taxas de juros nos EUA foram afetadas, mas de maneira nenhuma determinadas por isso. O alto nível geral de liquidez poderia ter sido desfeito pelo Fed (o banco central dos EUA), que tem autoridade sobre as taxas de juros. Ele poderia ter elevado as taxas para desacelerar a bolha causada pela expansão do crédito fácil. Em geral, acumulação de poupança é uma bênção, não um problema. Ter dinheiro barato é base para um forte crescimento econômico. O problema é que o sistema financeiro americano não fez o que supostamente devia fazer, que é gerenciar o risco e alocar capital para fins produtivos. Nós desperdiçamos essa bênção e agora estamos pagando o preço. Mas é um absurdo culpar os chineses.

Entre os muitos desafios do presidente Barack Obama, o mais abrangente não será corrigir esse desequilíbrio em poupança e consumo entre os EUA e a China?

Numa economia globalmente integrada, o maior desafio é garantir que haja uma demanda agregada global adequada, alcançada mediante gastos, quando países como China sentem que precisam acumular níveis altos de reservas em dólar para se proteger contra a volatilidade internacional da moeda. Afinal, o acúmulo de reservas da China é uma consequência dos equívocos do Fundo Monetário Internacional (FMI) na condução da crise financeira asiática há cerca de uma década. Se os países sabem que não podem confiar no FMI para ajudá-los, sua melhor defesa é criar uma almofada de reservas própria. Em período de avanço da recessão global, uma ênfase excessiva na poupança em países superavitários, como a China, pode frustrar as perspectivas de crescimento global.

Preocupados com o valor de suas bilionárias posses em dólares no momento em que os déficits americanos aumentam e desponta a ameaça de uma inflação mais adiante, os chineses propuseram uma nova moeda de reserva global baseada numa cesta de moedas. Uma nova moeda como essa seria um bom mecanismo para desfazer o desequilíbrio com um pouso suave em vez de um crash do dólar, o que prejudicaria tanto os chineses como os americanos?

A proposta de uma nova moeda de reserva global – ou Direitos Especiais de Saque (SDR, na sigla em inglês) – é uma boa ideia por muitas razões. Sim, para os chineses ela por si amorteceria alguma queda no valor do dólar porque faria parte de uma cesta de outras moedas, incluindo o iene e o euro. Mas uma nova cesta de moedas de reserva estimularia a demanda agregada global reduzindo enormemente o medo da volatilidade cambial que, como eu disse, foi o que levou países como a China a colocarem de lado tanto dinheiro em reservas em vez de gastá-lo. Há outros benefícios. Em matéria de uma economia sólida, o bem-estar do mundo não deveria depender da gestão de uma única moeda. O risco cambial seria diversificado mediante uma unidade de reserva de cesta, criando estabilidade e confiança por toda parte.

O que significaria para os EUA se o dólar fosse substituído por uma nova moeda global?

Isso seria de grande interesse dos EUA no longo prazo porque ajudaria a “desfinancializar” a economia americana.

Em sua cúpula em Londres recentemente, os líderes do G-20 decidiram criar US$ 250 bilhões em novos SDR. Esse é um passo importante para criar uma nova moeda de reserva global?

Acho que sim. A questão é a rapidez com que isso acontece. Em minha opinião, porém, o FMI não é o melhor lugar de onde lançar essa moeda a menos que ele se torne uma instituição mais justa e equilibrada que represente a economia mundial real e não as potências pós-Segunda Guerra Mundial, dominadas pelos Estados Unidos. Os países do Leste Asiático, o Brasil e outros precisam ter uma influência muito maior. Por exemplo, dos US$ 250 bilhões em SDRs consignados, somente US$ 19 bilhões foram alocados para países em desenvolvimento. Assim, a ideia de SDR maior é boa. A instituição é falha.

Mesmo assim, o fato de os chineses proporem uma nova moeda SDR global e o G-20 ter dado o passo para sua criação, seguramente, marcará uma mudança de poder no mundo?

Sem dúvida, é um reconhecimento da realidade de um mundo multipolar que requer o avanço para um sistema de governança multilateral. A transferência de poder começou há vários anos, na época da administração Bush, quando o dólar ficou muito volátil e começou a declinar. É aí que a China mudou de acumular quase 100% de suas reservas em dólares para 75%. Alguns países saíram completamente do dólar. O dólar, apesar de todas as intenções e propósitos, perdeu seu status especial de reserva e as pessoas estão começando a falar de uma abordagem de portfólio, ou cesta, como um estoque de riqueza em vez do dólar. O impulso existente hoje por trás da ideia de uma nova moeda de reserva global reflete, de fato, a ascensão do resto (do mundo) na política e na economia mundiais, liderado pela China.

15/04/2009 - 13:01h Encolher o capital financeiro é a questão

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Por Martin Wolf – VALOR

Os EUA estão presos entre o medo das elites ante a possibilidade de falências e o repúdio popular aos resgates

Os Estados Unidos são a Rússia? A pergunta parece provocativa, se não ultrajante. O autor da pergunta, no entanto, é Simon Johnson, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) e professor da Sloan School of Management, no Massachusetts Institute of Technology. Em artigo na edição de maio do “Atlantic Monthly”, o professor Johnson compara o controle da “oligarquia financeira” sobre as políticas dos EUA com o das elites empresariais em países emergentes. Tais comparações fazem sentido? A resposta é “sim”, mas apenas até certo ponto.

“Em sua profundidade e subitaneidade”, argumenta o professor Johnson, “a crise econômica e financeira dos EUA é surpreendentemente rememorativa de momentos que vimos recentemente nos mercados emergentes”. A similaridade é evidente: grandes influxos de capital estrangeiro; crescimento tórrido do crédito; alavancagem excessiva; bolhas nos preços dos ativos, particularmente nas propriedades; e, por fim, a catástrofe financeira e desabamento do preço dos ativos.

“Mas”, acrescenta o professor Johnson, “há uma similaridade mais profunda e perturbadora: os interesses da elite empresarial – financistas, no caso dos EUA – desempenharam papel central na criação da crise, até o colapso inevitável”. Além disso, “a grande riqueza que o setor financeiro criou e concentrou deu aos banqueiros enorme peso político”.

Agora, argumenta o professor Johnson, o peso do setor financeiro está evitando a resolução da crise. Os bancos “não querem admitir a extensão total de suas perdas, porque isso provavelmente os exporia como insolventes [...] Este comportamento é corrosivo: bancos doentes ou não emprestam (para acumular dinheiro e reforçar as reservas), ou fazem apostas desesperadas em créditos e investimentos de alto risco que podem trazer grandes recompensas, mas provavelmente não compensam no fim das contas. Seja qual for o caso, a economia sofre ainda mais e, enquanto sofre, os próprios ativos dos bancos continuam a deteriorar-se – criando um ciclo altamente destrutivo”.

Tal análise faz sentido? Esta é uma questão sobre a qual pensei durante minha recente estada de três meses em Nova York, com visitas a Washington DC, agora a capital das finanças mundiais. É por isso que a análise do professor Johnson é tão importante.

Inquestionavelmente, testemunhamos um aumento maciço na importância do setor financeiro. Em 2002, o setor gerou impressionantes 41% dos lucros de empresas domésticas nos EUA. O endividamento privado nos EUA aumentou de 112%, em 1976, para o recorde de 295% do PIB em 2008, sendo que as dívidas do setor financeiro chegaram a 121% do PIB. A remuneração média no setor, que foi próxima à dos demais entre 1948 e 1982, em 2007 era de 181%.

Em pesquisa recente, Thomas Philippon, da Stern School of Business, da New York University, e Ariell Reshef, da University of Virginia, concluíram que o setor financeiro se caracterizou por altos salários e alta capacitação da mão de obra entre 1909 e 1933. Depois, entrou em relativo declino, até 1980, a partir de quando voltou a exibir alta capacitação e altos salários. O principal motivo, segundo concluíram, foi a desregulamentação, que “libera a criatividade e inovação e aumenta a demanda por funcionários qualificados”.

A desregulamentação também trouxe a expansão do crédito, a matéria-prima que o setor cria e da qual se alimenta. A transmutação do crédito em renda é o motivo pelo qual a rentabilidade do sistema financeiro pode ser ilusória. Da mesma forma, a expansão do setor financeiro se inverterá, pelo menos dentro dos EUA: o crescimento do crédito e a alavancagem mascararam a baixa ou até inexistente rentabilidade de muitas atividades, que desaparecerão, e, além disso, parte das dívidas também terá de ser liquidada. A era dourada de Wall Street acabou: a volta da regulamentação é causa e consequência desta mudança.

O professor Johnson, contudo, apresenta um ponto ainda mais forte que este. Argumenta que a recusa de instituições poderosas em admitir perdas – ajudadas por um governo cúmplice, sob domínio dos “cambistas” – pode tornar impossível escapar desta crise. Além disso, como os EUA gozam do privilégio de captar dinheiro em sua própria moeda, o país tem muito mais facilidade do que meras economias emergentes para ocultar as falhas, o que tornaria a crise em um problema econômico de longo prazo. Portanto, temos testemunhado uma série de improvisações ou “acordos” cujo objetivo subjacente é resgatar o máximo possível do sistema financeiro da forma mais generosa que as autoridades achem que possam levar adiante sem se prejudicar.

Concordo com as críticas às políticas adotadas até agora. No debate no fórum de economistas no Financial Times sobre as “parceria de investimentos público-privados”, os críticos estavam certos: se funcionar, é porque é uma forma pouco transparente de transferir recursos dos contribuintes para os bancos. É improvável, porém, que preencha o buraco de capital que os mercados atualmente estão ignorando, como argumenta Michael Pomerleano. Também não estou convencido de que os “testes de estresse” do capital bancário sendo realizados levarão a ações para preencher esse buraco de capital.

Ainda assim, será que essas debilidades fazem dos EUA uma Rússia? Não. Em muitos países emergentes, a corrupção é grave e aberta. Nos EUA, (embora esta não esteja ausente), a influência vem tanto de um sistema de princípios como dos grupos lobistas. O que era bom para Wall Street, era considerado bom para o mundo. O resultado foi um programa bipartidário de desregulamentação mal elaborado para os EUA e, dada sua influência, para o mundo.

A crença atual de que Wall Street precisa ser em grande parte preservada é principalmente consequência do medo. A visão de que instituições financeiras abrangentes e complexas são grandes demais para falir pode estar equivocada. Mas é fácil entender por que autoridades inteligentes evitam comprovar isso. Ao mesmo tempo, os políticos também temem uma reação pública contra grandes injeções de capital público. Logo, assim como o Japão, os EUA estão presos entre o medo das elites ante a possibilidade de falências e o repúdio popular aos resgates. Este é um fenômeno mais complexo do que o “golpe silencioso” descrito pelo professor Johnson.

Ainda assim, uma reestruturação decisiva é de fato necessária. Não porque recolocar a economia no caminho dos últimos anos, de crescimento alimentado por dívidas, seja viável ou desejável. Duas coisas precisam ser alcançadas: primeiro, as principais instituições financeiras precisam tornar-se solventes e que haja credibilidade quanto a isso; e, segundo, nenhuma instituição privada com fins lucrativos pode continuar sendo grande demais para falir. Isso não é capitalismo, mas socialismo. Este é um dos pontos nos quais a esquerda e a direita concordam. Eles estão certos. Falências – e, portanto, perdas para os credores sem garantia – precisam fazer parte de qualquer solução durável. Sem essa mudança, a solução desta crise pode apenas ser o prenúncio da próxima.

Martin Wolf é colunista do “Financial Times”.