15/05/2008 - 17:58h Folha: uma triste semana para a imparcialidade jornalística

capa_ponte_folha.jpgDomingo 11 de maio a edição da Folha desmanchava-se em elogios da ponte estaiada que Marta Suplicy, com tenacidade, começou a construir como parte da operação urbana financiadas pelos Cepac’s e concebida para desafogar o trânsito nas marginais em direção ao sul, abrindo caminho para, no outro lado, permitir a junção com a Imigrantes, desafogando Av. Bandeirantes. Projeto que incluía a construção de 8.500 moradias populares, erradicando as favelas do entorno da Av. Roberto Marinho. O entusiasmo foi tanto que a Folha deixou de informar que licitada ao custo de R$147 milhões na gestão anterior, ela acabou custando o dobro na gestão Serra-Kassab. Foi passado sob silêncio os ataques proferidos por Serra e Kassab contra o projeto, hoje saudado pela Folha e os tucanos como novo cartão postal de São Paulo. Nada foi dito sobre a obra paralisada inicialmente pelos demo-tucanos e a multa que o município teve que pagar pela suspensão injustificada. Nem uma palavra, em fim, sobre o fato da atual Ministra e ex-prefeita não ser convidada a inauguração do que ela ajudou a fazer pelo bem da cidade e Last but not least, nenhuma foto de Serra e Kassab em companhia do ex-prefeito Paulo Maluf, ele sim convidado a festa.

Coube a este blog mostrar incluso, que esta reportagem ditirâmbica contrastava violentamente com editorial da própria Folha de três anos atrás, atacando o projeto, sua necessidade e seu financiamento.

Dois dias depois, na terça-feira passada, Gilberto Kassab ganhou destaque na Folha de São Paulo atacando Marta Suplicy. A jornalista da Folha detectou no ataque de Kassab, um jogo eleitoreiro para isolar Alckmin e polarizar com a provável candidata do PT. Deixou, porém, de questionar Kassab sobre o conteúdo desses ataques, que ganharam amplo destaque na edição do jornal.

“Que prioridade é essa que deixava existir na cidade de São Paulo salas de lata, escolas de lata? Que prioridade é essa que dava aumento ao professor em forma de gratificação, e não transferia para o aposentado?”, perguntou Kassab, referindo-se a antecessores. “É muito importante que todos relembrem como estava a CET no início da nossa gestão.” acrescentou o prefeito. (folha 13/5/2008).

A Folha não questionou as afirmações de Kassab e nem fez um quadro para informar os dados sobre os quais o prefeito falara.

Coincidentemente, no mesmo dia, a Folha, em outra matéria sobre a CET, forneceria um dado: o número de “marronzinhos” da CET diminuiu durante a gestão Kassab, enquanto o número de carros cresceu em 1 milhão. (ver aqui no blog A maior obra demo-tucana: 266 Km de congestionamento sexta-feira). Ou seja o questionamento aos propósitos de Kassab não exigiam muita pesquisa, estavam na própria Folha.

No dia 13 de maio, dia em que as páginas da Folha reproduziam generosamente os ataques de Kassab, a ex-Secretária de Educação da administração Marta Suplicy, Cida Perez, enviou uma carta respondendo cada um dos pontos levantados por Kassab. Até hoje a carta não foi publicada.

Nela, Cida Perez, destacava que as escolas de latas tinham sido construídas na gestão Pitta com a participação do próprio Kassab como Secretário de Planejamento. Que essas escolas começaram a ser removidas e eliminadas na gestão Marta Suplicy. A carta, não publicada até hoje, mostrava também as inverdades proferidas em relação aos salários dos professores e aposentados. Nem a carta foi publicada, nem esses dados foram informados aos leitores da Folha.

Na sua edição de hoje, precisamente na questão da educação, as palavras de Kassab “que prioridade é essa?“, encontram uma resposta nos resultados do Idesp reproduzidos com claridade na manchete do jornal O Estado de São Paulo:

De 0 a 10, ensino médio de SP tira 1,4

Só 2 colégios públicos do Estado têm índice 5 no Idesp, indicador que considera nota e adequação do aluno à série

A Folha, cumprindo com a tendência já constatada no passado pelo ombudsman da época, Mário Magalhães, e confirmada neste sucinto balanço da semana, prefiriou a manchete:

Escolas de SP terão meta de desempenho individual

Objetivo é que as instituições paulistas atinjam até 2030 um padrão semelhante ao encontrado hoje nos países desenvolvidos

Relegando para uma obscura referência no corpo do artigo o resultado do Idesp, que constitui, a bem da verdade, a nota que a gestão tucana ganhou no quesito educação ao cabo de 13 anos de gestão: 1. (ver aqui no blog Folha de SP: uma vergonha!)

Por último, chama atenção também, o silêncio dos articulistas da Folha no trato do conjunto destes fatos. Nem respostas indignadas a Kassab, nem ironias sobre a educação tucana, nem grandes proclamações éticas ou filosóficas. Nem o niilismo tradicional.
Nada.
Silêncio nas fileiras.

Luis Favre

PS – A cobertura da campanha eleitoral pelo jornal Folha de São Paulo se anuncia mal. Muita parcialidade a serviço de um lado e isto não corresponde ao compromisso com o leitor, nem a ética jornalística e configura-se numa ruptura com a história da própria Folha de São Paulo.

Os demo-tucanos podem ganhar algo com isto, mas perde a democracia e o direito a uma informação equilibrada. Perde também a Folha de São Paulo.

11/05/2008 - 18:20h Ponte da Marta: recordar é viver

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José Serra e Gilberto Kassab batizaram a ponte estaiada com o nome do dono e falecido fundador da Folha de São Paulo, Octavio Frias. Uma bela e justa homenagem a um jornalista respeitado. Como lembrou sua filha “Uma ponte é sempre a promessa de um encontro, de uma reunião, de uma convergência. Nesse sentido, o batismo dessa obra é uma homenagem apropriada para quem conheceu Octavio Frias de Oliveira. Meu pai era um homem de diálogo, que gostava de aproximar as pessoas umas das outras, que gostava de promover a reunião de pontos de vista diferentes. Ele próprio foi a ponte do que muitas pessoas eram para o que viriam a ser”.

Na festa da inauguração, onde foi convidado o ex-prefeito Paulo Maluf e não foi convidada a Ministra de Turismo Marta Suplicy, os discursos destacaram a importância da ponte para aliviar o trânsito, a sua beleza arquitetônica e a elegeram em coro o novo cartão postal da cidade.

Para José Serra “ela é um novo marco” para São Paulo. A Folha deu ampla cobertura ao evento destacando que “é a única no mundo em que duas plataformas estaiadas se sobrepõem”.

Ela é capa da Folha de hoje com uma linda foto legendada

Carros antigos desfilam na inauguração da ponte estaiada Octavio Frias de Oliveira; maior obra da gestão do prefeito Gilberto Kassab

Carros antigos desfilam na inauguração da ponte estaiada Octavio Frias de Oliveira; maior obra da gestão do prefeito Gilberto Kassab

Em um dos artigos sobre a ponte, a Folha explica:

“é a maior obra do governo do democrata Gilberto Kassab.

Ela foi concebida para desafogar o tráfego na marginal, fazer a ligação com a rodovia dos Imigrantes e se tornar um cartão-postal da cidade, com custo final de R$ 260 milhões. O arquiteto responsável é João Valente Filho.

A ponte pode se tornar um dos cartões-postais da cidade de São Paulo não só por suas luzes mutantes, mas por quatro aspectos de engenharia que a fazem única.

Segundo o engenheiro responsável pela obra, Catão Francisco Ribeiro, o ângulo de 60º, que faz com que a travessia ocorra em curva, é o maior entre as estaiadas do mundo, que costumam ter de 10º a 15º. Outro aspecto inédito é o formato do mastro, o “x” central que sustenta os estais.

A obra faz parte do complexo viário Real Parque e, segundo a Emurb (Empresa Municipal de Urbanização), vai reduzir em até 45 minutos o tempo de viagem do motorista que usa a marginal para chegar a bairros da zona sul da cidade.”

Com tamanho entusiasmo, a Folha acabou esquecendo que a obra foi projetada como parte da operação urbana Água Espraiada pela administração Marta Suplicy (que estranhamente é citada quando a Folha fala do valor pago por Kassab pela obra). A Folha também esqueceu que em relação ao conjunto do projeto, que além da ponte incluía a construção de 8.500 moradias populares para as favelas do entorno, assim como a junção com a Imigrantes, desafogando a Av Bandeirante, só a ponte foi concluída após 4 anos da atual gestão. E a justiça teve que intervir para que os moradores da favela Real Parque não fossem despejados sem qualquer moradia, pela administração Kassab.

Esqueceram também de lembrar que orçada em R$147 milhões ela acabou custando o dobro e por ficar parada durante quase três anos, a prefeitura teve que pagar multa.

Em grande parte custeada pela venda do CEPAC, criado pela administração Marta Suplicy para arrecadar dinheiro sem utilizar o orçamento da cidade, a ponte é hoje sem dúvida um orgulho para todos.

Vale a pena ler os artigos a seguir, disponíveis na Folha online e apreciar as fotos da belezura entregue à cidade.

Aproveitem também para reler o editorial da Folha de São Paulo do 13 de maio de 2005, exatamente três anos antes da Ponte ser inaugurada. Ele figura no final desta nota.

Marta Suplicy mostrou-se visionária e determinada para vencer mais este desafio. Hoje estão extasiados e são unânimes em aplaudir. Quando leiam o editorial em questão verão que é só uma forma do “esqueçam o que eu escrevi”.

Luis Favre

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Ponte Estaiada Octavio Frias de Oliveira

da Folha de S.Paulo

Pontes são uma seara vasta e dinâmica para o mundo dos recordes, em que a ponte Octavio Frias de Oliveira, inaugurada neste sábado (10), também passa a figurar. Ela é a única do mundo em que duas plataformas estaiadas se sobrepõem, fazendo com que os cabos se entrelacem, e conta com o maior ângulo entre estaiadas, de 60º.

Por conta disso, a equipe responsável pela obra tem apresentado o projeto em alguns dos maiores congressos internacionais sobre pontes.

da Folha de S.Paulo

A ponte Octavio Frias de Oliveira pode se tornar um dos cartões-postais da cidade de São Paulo não só por suas luzes mutantes, mas por quatro aspectos de engenharia que a fazem única. Segundo o engenheiro responsável pela obra, Catão Francisco Ribeiro, o ângulo de 60º, que faz com que a travessia ocorra em curva, é o maior entre as estaiadas do mundo, que costumam ter de 10º a 15º.

Outro aspecto inédito é o formato do mastro, o ‘x’ central que sustenta os estais –estai é um termo náutico que denomina o cabo que segura a vela de um barco. Nascido de uma necessidade de engenharia, a forma foi aproveitada pelo arquiteto João Valente para marcar o visual da ponte.

A sobreposição de duas plataformas estaiadas também nunca havia sido feita. “Essa [ponte] foi complicadíssima do ponto de vista geométrico, porque os cabos não poderiam cruzar uns com os outros”, diz um dos maiores especialistas brasileiros no assunto, Augusto Carlos de Vasconcelos, da Divisão de Estrutura do Instituto de Engenharia e autor de “Pontes brasileiras: Viadutos e Passarelas Notáveis” (ed. Pini).

De acordo com Ribeiro, a execução foi como um bordado. As pontes sobrepostas tinham de ser construídas simultaneamente, para que uma contrabalanceasse a outra.

Por conta disso, o processo de construção também foi único: não era possível usar o rio nem as marginais para fazer o escoramento. Assim, a evolução das duas pontes ocorreu ao mesmo tempo.

Segundo Vasconcelos, as pontes estaiadas são uma evolução das pontes pênseis (ou suspensas), e a possibilidade de serem construídas parte por parte permite que a obra seja mais rápida e econômica.

“É muito mais difícil de ser calculada, mas, por outro lado, muito mais fácil de ser concluída”,
afirmou ele.

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São Paulo, sexta-feira, 13 de maio de 2005 EDITORIAL FOLHA DE SÃO PAULO

PROJETO EXTRAVAGANTE

É acertada a decisão do prefeito José Serra (PSDB) de retomar as obras que ligam as avenidas Jornalista Roberto Marinho (antiga Água Espraiada) e a marginal Pinheiros, deixando de lado a construção de duas pontes sobre o rio Pinheiros, na zona sul da cidade, previstas no projeto original aprovado pela administração da ex-prefeita Marta Suplicy. A justificativa apresentada por José Serra é que a construção dessas pontes estaiadas (suspensas por cabos de aço) encareceria desnecessariamente a obra.
A cautela e a mudança do projeto original são procedentes. Com as pontes endossadas por Marta, toda a empreitada custaria nada menos que R$ 147 milhões. Sem elas, o custo total -que inclui outras alterações na malha viária, além da construção das alças- cai para R$ 85 milhões.
É duvidoso, ademais, que a venda em leilões dos Cepacs (Certificados de Potencial Adicional de Construção), títulos que dão direito de construir além dos limites estabelecidos em certas áreas da cidade, possa gerar recursos suficientes para arcar com as despesas previstas inicialmente no projeto. No ano passado, os leilões desses papéis, realizados para angariar fundos para a construção das pontes, não conseguiram amealhar mais do que R$ 35 milhões, soma muito aquém da estimada para a conclusão das obras.
Além de cara, a construção dessas pontes suspensas está longe de ser uma prioridade para aquela área da cidade. A ligação da avenida Roberto Marinho com a marginal Pinheiros pode continuar a ser feita, sem maiores transtornos, através de duas outras pontes já existentes a apenas 800 metros do local. Essa circunstância, aliás, torna ainda mais extravagante -e suspeito- o projeto deixado pela gestão petista, para o qual, até aqui, não foram apresentadas justificativas convincentes.

06/04/2008 - 08:50h Despedida

A Folha condicionou minha permanência ao fim da circulação das críticas diárias na internet; não concordei; diante do impasse, deixo o posto


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NO ANO QUE passou, quando as noites de domingo se insinuavam, e tantas famílias saíam para o último passeio do fim de semana, a minha sabia que ficaríamos em casa -ou pelo menos não iríamos todos. Era hora de eu começar a longa e solitária jornada madrugada adentro para terminar de esquadrinhar jornais e revistas.De manhã, com as olheiras a denunciar o sono roubado, leria as edições do dia e escreveria a mais encorpada crítica semanal, a da segunda-feira. Hoje à noite, se alguém me chamar, terá companhia.Esta é a 51ª e derradeira coluna dominical que escrevo como ombudsman da Folha. Assumi em 5 de abril de 2007, e o meu mandato se encerrou anteontem. Embora o estatuto autorize a renovação por mais dois períodos, não houve acordo com a direção do jornal para a continuidade.

A Folha condicionou minha permanência ao fim da circulação na internet das críticas diárias do ombudsman. A reivindicação me foi apresentada há meses. Não concordei. Diante do impasse, deixo o posto. Oitavo jornalista a ocupar a função, torno-me o segundo a não prosseguir por mais um ano. Todos foram convidados a ficar. Sou o primeiro a ter como exigência, para renovar, o retrocesso na transparência do seu trabalho.

A crítica da quinta foi a última que circulou na Folha Online, com acesso a não-assinantes da Folha e do UOL.

A partir de agora, os comentários produzidos pelo ombudsman durante a semana só poderão ser conhecidos por audiência restrita, de funcionários do jornal e da empresa, que os recebe por correio eletrônico. Os leitores perdem o direito. Era assim nos primórdios do cargo, criado em 1989. A internet engatinhava.

Como se constata no site www.folha.com.br/ombudsman, desde 2000 as críticas vão ao ar. Por oito anos, os leitores puderam monitorar a atividade cotidiana de quem tem a atribuição de representá-los.
Não poderão mais.

Regras
O comando da Folha esgrimiu um argumento para a decisão: no ambiente de concorrência exacerbada do mercado jornalístico, idéias e sugestões do ombudsman são implementadas por outros diários.
De fato, isso ocorre.

E continuará a ocorrer.

Quase 20 anos atrás, as críticas ainda denominadas internas eram distribuídas em papel à Redação.

Acabavam nas bancadas de outros jornais. Um deles veiculou publicidade alardeando elogio do ombudsman.

Com a difusão por e-mail, será ainda mais difícil conter a distribuição irregular das anotações do ouvidor. Eventuais interessados, se bem articulados, terão como lê-las. Que segredo sobrevive a centenas de destinatários?

Já os leitores ditos comuns, os que fazem a fortuna de toda empreitada jornalística de sucesso, serão barrados. A medida não resolve o problema a cuja solução se propõe, mas prejudica quem é alheio a ele.
A não-renovação do mandato é legítima, respeita a Constituição do jornal. Sua direção tem a prerrogativa de convidar ou não o ombudsman a permanecer. E de estabelecer as normas. Não há quebra de contrato, e sim respeito.

No meu caso, haveria mudança de regra no meio da gestão, composta de um a três mandatos. Regras, como a Folha recomenda, devem ser estabelecidas antes do jogo.

Autópsia
Não é praxe dos jornais impressos do mundo inteiro compartilhar na rede o que muitos deles chamam de memorando interno do ouvidor.

Assim como, na conferência da Organização dos Ombudsmans de Notícias, com participantes de 13 países, não encontrei quem digitasse todo santo dia, como fazemos aqui, uma crítica ou memorando.
A Folha deu um passo ousado na imprensa brasileira ao nomear um ombudsman. Radicalizou e tornou públicas as críticas antes limitadas à Redação. Mais do que as colunas dominicais, essa espécie de parecer se destina a uma autópsia das edições. Em minúcias, identifica suas fraquezas, sem desprezar as virtudes. Expõe as vísceras do jornal.

O desafio do ombudsman é ser a melhor síntese possível dos interesses dos leitores. A eles interessa que o jornal seja bom. Nas críticas, o ombudsman busca contribuir para que o jornal do dia seguinte seja melhor que o da véspera.

Essa confluência faz do ombudsman um benefício potencial ao leitor e ao jornal.

Mesmo com as críticas vetadas aos leitores, a Folha não perderá a primazia em transparência no jornalismo nacional. As colunas de domingo persistirão, e a publicação de um artigo como este expressa tolerância com o pensamento divergente. Quantos jornais o imprimiriam, se o objeto de análise fossem eles?

Regressão

A despeito desse cenário, a restrição imposta configura regressão na transparência. O projeto editorial da Folha diagnostica “um jornalismo cada vez mais crítico e mais criticado”. Reconhece que “o leitor fiscaliza a pauta de compromissos” do jornal.

O ombudsman deve ser um instrumento dos leitores. Se 80% dos pronunciamentos semanais ficam inacessíveis (as críticas de segunda a quinta; não escrevo às sextas), reduz-se a fiscalização dos leitores sobre aquele cuja atribuição é batalhar em nome deles.

Essa peleja não implica, em um exemplo, advogar o alinhamento do jornal com partidários ou opositores das pesquisas com células-tronco embrionárias, mas incentivar o equilíbrio no noticiário e nos espaços de controvérsia.

O ombudsman incapaz de zelar pela manutenção da transparência do seu ofício carece de autoridade para combater pela transparência do jornal. Como cobrar o que se topou diminuir?
A tendência mundial é de expansão da transparência das organizações jornalísticas. A novidade da Folha aparece na contramão.

Agradecimentos

A crítica diária é valiosa como instrumento de diálogo entre os leitores e o ombudsman. O que ele pensa disso e daquilo? Por vezes, a resposta se encontra nos apontamentos do dia. Na semana passada, foi possível conferir se eu perguntei à Folha quem lhe forneceu o dossiê do momento. A resposta significaria romper o compromisso de sigilo com a fonte. Um ministro disse que eu perguntei. Não é verdade.
Se fosse responder aos leitores sem a chance de lhes remeter à crítica on-line, não sei se daria conta do atendimento. Em 1991, primeiro ano do qual sobreviveu estatística, houve 3.748 contatos com o ombudsman. Em 2007, o recorde de 13.374.

Em janeiro, fevereiro e março de 2008, registraram-se marcas inéditas. O salto de 24% na comparação com idêntico trimestre do ano anterior projeta resultado anual superior a 16.500, sem considerar o impacto de eventos como eleição e Olimpíada.

O vigor do Departamento de Ombudsman é manifestação da mudança de comportamento de cidadãos e consumidores de notícias: a fé nos relatos jornalísticos dá lugar ao ceticismo; troca-se a submissão a versões pela leitura crítica; a passividade, por cobrança. Essa é a principal característica do jornalismo do século 21. Merece ser saudada pela sociedade e pelos jornalistas.

Na chegada, eu pensava ter muito a dizer. Ao partir, sei que tenho muito a ouvir.

Gostaria de ter falado de outros assuntos, dos anúncios de prostituição aos interesses cruzados do jornal. Fica para outra vez.

Pelo ano em que fui feliz, agradeço à confiança que a direção da Folha depositou em mim. Tive liberdade para escrever o que quis. Uma executiva me disse que o jornal precisava de um “ombudsman crítico”. Tentei desempenhar escrupulosamente a missão.

Sou muito grato à minha supersecretária, Rosângela Pimentel, e ao meu assistente, o futuro jornalista Carlos Murga. Na Secretaria de Redação, devo a Suzana Singer e Alba Bruna Campanerut.
Na editoria de Arte, a Fábio Marra e Julia Monteiro. Ao colocar a coluna no papel e me salvar de vexames maiores, Vanessa Alves coordenou um time talentoso e generoso.

Minha gratidão maior é para quem me deu lições inestimáveis -hoje à noite, em casa ou na rua, não esquecerei o brinde aos leitores da Folha.

Mário Magalhães é o ombudsman da Folha desde 5 de abril de 2007. O ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Não pode ser demitido durante o exercício da função e tem estabilidade por seis meses após deixá-la. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclamações, e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.

24/12/2007 - 13:24h A Folha iluminada

Deve ser o espírito de Natal ou como disse GUILHERME WISNIK, na própria Folha, “É a Nova Jerusalém, descrita como uma cidade quadrada, com doze portas, e cuja praça é “de ouro puro, como vidro transparente”. Uma cidade que, no dizer do evangelista, não necessitava mais de Sol nem de Lua, “porque a glória de Deus a tem iluminado, e o Cordeiro (Jesus) é a sua lâmpada”.

Wisnik não fala da cidade de São Paulo, mas a ela poderia se aplicar essas palavras se levarmos a serio um artigo publicado hoje no caderno Cotidiano.

Em todo caso foi assim e com o mesmo entusiasmo que me precipitei na leitura desse artigo, no caderno Cotidiano de hoje, que leva como título (e programa):

No primeiro Natal após a Lei Cidade Limpa, São Paulo fica mais iluminada

Minha nossa, exclamei, olha que presentão. As rezas de milhares de famílias paulistanas finalmente foram ouvidas. Mas não, rapidamente percebi que o press-release de Kassab reproduzido pela Folha não correspondia com o milagre por mim esperado e desejado.
(mais…)

25/09/2007 - 18:02h O de sempre na coluna do ombudsman da Folha

Ombudsman Folha

Sem (muitas) notícias

da Folha Online

Como andam as investigações policiais, jornalísticas e do Ministério Público sobre o valerioduto mineiro, falcatrua que deve gerar denúncia da Procuradoria da República nos próximos dias?

A Folha publica declarações do governador José Serra sobre seus companheiros de PSDB Aécio Neves e Eduardo Azeredo. E uma nota sobre pedido de documentos do MP de MG ao STF.

O valerioduto original aparece em “Caso Walfrido ameaça ação pela CPMF” (pág. A6), mas não é o centro da reportagem.

A propósito, chamar o valerioduto mineiro (ou valerioduto tucano) de “Caso Walfrido” configura desequilíbrio editorial.

13/08/2007 - 11:18h Batalha paulistana

OPINIÃO

FERNANDO DE BARROS E SILVA

SÃO PAULO
– À primeira vista, tudo parece azul para Geraldo Alckmin. Lidera todos os cenários na corrida eleitoral para a prefeitura paulistana em 2008, venceria tanto Marta Suplicy como Gilberto Kassab em eventual segundo turno e, além disso, tem entre os possíveis candidatos a menor taxa de rejeição. O tucano, mostra o Datafolha, larga nas nuvens, embalado pelo recall da campanha presidencial.

A pesquisa, porém, traz outras novidades -pelo menos duas que complicam e relativizam o favoritismo inicial de Alckmin.

Primeira: Marta Suplicy, desafiando tantos apressados, está no páreo, fortíssima. Mais do que isso, desponta como única alternativa competitiva do PT, uma vez que Mercadante parece não ter se recuperado do trauma dos aloprados.

Sim, a rejeição a Marta é alta, só inferior à do campeão Maluf. Mas não difere quase nada daquela que o mesmo Datafolha registrava na campanha municipal de 2004. Contra as evidências, não é possível dizer, portanto, que o “relaxa e goza” tenha inviabilizado ou mesmo enfraquecido a eventual candidatura em São Paulo da atual ministra.

Segunda novidade: Gilberto Kassab entrou na briga pela sua sucessão, ou, pelo menos, ficou forte demais para que possa simplesmente abrir mão dela em favor de Alckmin. Ambos disputam o mesmo eleitor. Quando Alckmin é retirado da pesquisa, Kassab pula de 10% para 20%; quando o prefeito sai de cena, o tucano vai de 30% para 37%.

Mas quem, nessas condições, vai desistir? Alckmin, o líder, é tucano, mas só oficialmente será apoiado por José Serra. O candidato da predileção do governador é Kassab, o ex-vice, guardião fiel do seu legado, aquele que irá defendê-lo, inclusive, se preciso, do próprio Alckmin.

A tese de que Alckmin e Marta se guardariam para 2010 perde gás após a pesquisa. A idéia de que Kassab seria figurante também ficou para trás. A batalha ainda está muito distante, mas o Datafolha trouxe um recado claro: estão todos sendo convocados para a guerra.

Folha de São Paulo (para assinantes)

28/06/2007 - 13:14h Resposta de Clóvis Rossi a Luis Favre e réplica

Resposta do jornalista Clóvis Rossi - “O companheiro de Marta Suplicy tenta confundir o público. Reconhecer um erro de informação é uma coisa. Opinião é outra completamente diferente. Eu dei a minha. Mantenho-a.”

Está foi a resposta de Clóvis Rossi a minha carta (ver embaixo).

A resposta é uma tentativa burda de fugir do ponto.

A opinião de Clóvis é formulada a partir do que?

Não de uma informação, ou de uma opinião da Marta. Não!

Clóvis se apega a uma frase infeliz que a própria Marta publicamente renegou para tentar colar Marta Suplicy a Maluf e ambos ao pai de um dos facínoras do Rio que agrediu uma pessoa brutalmente.

No exemplo que formulei na minha correspondência procurei mostrar que se um jornal, no caso a Folha, pode errar e acusar, o que é gravíssimo, uma figura pública de superfaturamento e reconhecendo depois o erro, devemos aceitar suas desculpas; por que uma frase espontânea imediatamente corrigida, com desculpas públicas, não recebe o mesmo tratamento?

Por que a autocrítica vale para Folha e não para Marta?

Clóvis Rossi se esconde por trás do direito de ter opinião. Mas as opiniões de Clóvis Rossi também estão sujeitas à decência, à mesura e equilibro que se aguarda de um jornalista ou de qualquer pessoa que procura debater idéias e não veicular preconceitos, insultos e inacreditáveis exageros. Ou é “guerra suja” e vale tudo?

Luis Favre

Quarta-feira, 27 de Junho de 2007

Carta enviada a Folha de São Paulo em resposta a Clovis Rossi

Um dos grandes fatos da história da Folha aconteceu durante a administração Marta Suplicy em São Paulo.

O jornal publicou em sua primeira página que Marta tinha superfaturado a compra de palmeiras para a revitalização da Av. Faria Lima e, dois dias depois, no mesmo espaço e com igual destaque, reconheceu e se desculpou por ter errado.

O erro, grave, que atingiu eticamente a figura da então prefeita da cidade, havia escapado dos diferentes controles que o jornal possui. Tanto o autor, como seu editor, assim como o responsável do jornal, não tinham visto nada.

Mas a Folha teve a coragem e a honestidade de pedir desculpas pela falha, saindo engrandecida deste triste episódio.

Clovis Rossi era, na época, e ainda é hoje, membro do Conselho Editorial da Folha. Ele sabe, portanto, que esse tipo de erro pode destruir a reputação de um jornal, mas sabe também que ao reconhecê-lo a publicação ganha enorme credibilidade. Ele sabe, igualmente, que, na vida de um jornal, falhas desse tipo são inevitáveis.

Ninguém, em seu juízo perfeito, admitiria que a Folha, por esse erro, pudesse ser comparada ao Ministro de Hitler, Göering, para quem uma mentira repetida varias vezes se transformava em verdade; ainda mais depois de a Folha ter reconhecido o erro publicamente. Ninguém igualmente aceitaria que se acusasse a Folha de nefasta e estupradora da verdade.

Clovis Rossi tem um passado respeitado como jornalista, e este passado evidentemente admite erros; porem não me consta que ele seja de cometer canalhices. Seu artigo de hoje contra a Ministra Marta é um insulto à sua própria historia.

Será que ele, assim como a Folha no episódio das palmeiras da Faria Lima ou como Marta em sua frase infeliz, saberá pedir desculpas?

Luis Favre