22/11/2007 - 07:52h França: Estado não lucrará com reforma

Caen : Des centaines de personnes manifestent, le 2 février 2006 dans les rues de Caen, à l'appel de l'ensemble des fédérations syndicales de fonctionnaires pour la défense du pouvoir d'achat. |AFP/MYCHELE DANIAU

AFP/MYCHELE DANIAU


Economista diz que razões de Sarkozy são políticas, não econômicas

O GLOBO ENTREVISTA Jean-Marie Pernot

PARIS. O Estado francês não vai ganhar um centavo com a reforma dos regimes especiais de aposentadoria, diz Jean-Marie Pernot, economista do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais (IRES), em Paris.

É esta reforma que mobiliza milhares de trabalhadores do setor de transportes na greve que afeta a França há uma semana. Para o especialista, Nicolas Sarkozy vai fundo na reforma por um único motivo: tentar fazer em cinco meses o que seu antecessor não fez em 12 anos.

O GLOBO: A greve nos transportes dura uma semana. O governo diz que não recua na reforma. Qual o risco para Sarkozy se a greve se prolongar?
JEAN-MARIE PERNOT: É provável que a greve não termine amanhã (hoje). Dois ou três dias a mais não pesarão. Se a negociação for mal, e os sindicatos relançam o movimento, há risco de crise.

É preciso esperar até a semana que vem para saber?
PERNOT: Um elemento é certo: o sindicato SUD Rail se recusa a entrar numa lógica de troca. Mas os outros sindicatos aceitam, inclusive a CGT. Para haver o acordo com a CGT será preciso colocar elementos (na mesa).

PERNOT: O que busca Sarkozy? Ele quer mostrar que acabou com os regimes especiais de aposentadoria. O grande risco é que os funcionários partam com uma pequena aposentadoria. Se a base do cálculo das aposentadorias se faz sobre salários mais altos, isso permite amortizar o choque.

Aumento de salário resolve?
PERNOT: Sim. Hoje, a SNCF estabeleceu o seguinte contrato com seus funcionários: você não é bem pago, está disponível 24 horas todos os dias do ano, mas se aposenta mais cedo. A aposentadoria não é alta. Se eles agora não vão se aposentar mais cedo, essa equação precisa ser modificada. Será preciso renegociar o tempo de trabalho nos fins de semana, à noite, nos feriados. Terão que ser remunerados em tempo (de repouso) ou dinheiro.

A greve não é popular. Sarkozy está em posição de força?
PERNOT: A opinião pública não entende aposentadoria depois de 37,5 anos de contribuição (a maioria se aposenta após 40 anos). Mas ao mesmo tempo, não pede para reprimir os grevistas. Se Sarkozy quiser tentar diminuir o peso dos sindicatos, terá a opinião pública contra ele.

Mas se não fizer a reforma, estará em posição delicada, não?
PERNOT: Claro, e é por isso que ele vai até o fim. Ele quer dizer: eu fiz em cinco meses o que Jacques Chirac (ex-presidente) não fez em 12 anos. Ele não se importa com o resto, quanto isso custará à SNCF.

Se ele não se importa com quanto vai custar a reforma, então…
PERNOT: Não há um centavo a ganhar com esta reforma. Há 160 mil funcionários na SNCF, mas há 300 mil aposentados, porque há 20 anos a empresa reduz pessoal. Este desequilíbrio demográfico é compensado pelo Estado, que vai continuar fazendo isso depois da reforma.

É uma reforma política, então?
PERNOT: Sim.

A perda do poder de compra da qual se queixam os funcionários públicos é grande? PERNOT: Sim. Há 20 anos, o salário mínimo do funcionalismo público era 20 vezes maior do que o salário mínimo hoje. Hoje ele vale menos.

Eles têm razão para se queixar?
PERNOT: Há cinco milhões de funcionários públicos na França, entre 22 milhões de assalariados. Todo mundo tem um funcionário público na família. Portanto, o pessoal do setor privado também acha que melhorar o salário de funcionário público o beneficia.

O governo pode dar aumento?
PERNOT: Há um desequilíbrio orçamentário na França. O governo vai alegar que não há dinheiro. Mas os funcionários dizem: Sarkozy achou dinheiro para aumentar seu salário, para dar incentivos fiscais para os mais ricos e para pescadores. Há risco de um diálogo de surdos. A situação orçamentária da França não comporta um aumento de salário dos funcionários públicos. (Deborah Berlinck)

20/11/2007 - 06:41h Servidores protestam e segue greve dos transportes na França

 


Ferroviários decidem manter paralisação e aumentam o caos previsto para hoje, que terá passeatas de funcionários públicos e de estudantes

AP E REUTERS

Paris – A França deve enfrentar hoje mais um dia de intensos protestos após os ferroviários terem decidido manter a greve, que completa uma semana. As manifestações de hoje dos maquinistas irão coincidir com as passeatas dos funcionários do setor público e dos estudantes.

Os protestos em conjunto contra as reformas do governo serão um dos maiores testes do presidente Nicolas Sarkozy e colocarão em xeque suas propostas para aprimorar a economia francesa. Os ferroviários são contra os planos do governo de cortar as aposentadorias especiais da categoria, que garante a 500 mil funcionários públicos 2,5 anos a menos de trabalho que o restante da população.

O primeiro-ministro François Fillon disse que as reformas irão continuar, apesar dos protestos. No entanto, há temores de que Sarkozy recue nos seus planos. Foi o que ocorreu em 1995, quando uma greve de três semanas dos transportes, também motivada pelas aposentadorias especiais, acabou obrigando o governo a retirar o projeto de lei. Uma nova rodada de negociações entre líderes sindicais e representantes do governo deve ocorrer amanhã.

A marcha conjunta contra o governo irá reunir trabalhadores dos correios e de empresas distribuidores de jornais e revistas, professores e estudantes. Apesar de a manifestação ser conjunta, cada categoria protesta por um motivo diferente. Os funcionários dos correios criticam os planos do governo de reduzir o setor público, os distribuidores não entregarão o jornal para protestar contra as reformas no setor e os estudantes e professores querem mais autonomia nas universidades. Os empregados do setor energético e os controladores aéreos do Aeroporto de Orly, em Paris, programaram uma greve de 24 horas para apoiar o movimento.

“O povo francês está começando a perder a paciência”, disse o ministro do Orçamento, Eric Woerth, em referência ao caos que a greve dos trens está causando, especialmente em Paris. A ministra da Economia, Christine Lagarde, afirmou que as paralisações estão custando à França cerca de 350 milhões (R$ 900 milhões) por dia.

15/11/2007 - 07:34h Sindicatos cumprem promessa e paralisam França


Governo faz apelo a grevistas. Somente 30% dos ônibus circulam e Paris e arredores registram 360km de engarrafamento
Deborah Berlinck – O Globo

PARIS. Brusse, de 85 anos, com bengalas por causa do fêmur operado, tomou coragem e resolveu se aventurar nas ruas de Paris a pé. Não havia ônibus. De bom humor, ela encarou o caos no transporte com bons olhos.

— Não sei por que estão protestando…

mas eles certamente têm razão! Já fiz muitas greves na minha vida — disse.

A greve geral dos transportes na França, deflagrada anteontem à noite em protesto contra a reforma do sistema especial de aposentadorias, vai continuar hoje, por mais 24 horas. Os sindicatos assim decidiram ontem, depois de paralisarem o sistema de transportes do país. Os franceses tiveram que fazer malabarismos para ir ao trabalho. No fim do dia, o porta-voz do presidente Nicolas Sarkozy, David Martinon, fez um apelo para que a greve acabe “o mais rapidamente possível, em nome dos passageiros”: — O presidente sempre considerou que há mais ganho para todas as partes na negociação do que no conflito.

Patins, patinetes e leito de hospital para poder trabalhar Sindicatos e o governo, portanto, deram a largada na quedade-braço, sem previsão para um fim. Os dois jogam tudo nesta crise, que é uma prova de fogo para Sarkozy, apenas seis meses depois de assumir o comando da França. Sindicatos aceitaram negociar com as empresas.

Mas dizem que não cedem na greve. Nos próximos dias, se a paralisação se prolongar, a determinação do presidente de reformar radicalmente o país, como prometeu na campanha, vai ser posta à prova.

Com uma greve tão anunciada, a França se preparou. Em Paris, muitos optaram por patins, patinetes, bicicletas proliferaram, rivalizando com os adeptos da caminhada. Os menos em forma encararam mais de meia hora à espera do metrô.

Em alguns hospitais, funcionários dormiram nos leitos vazios e teve gente que pernoitou na casa de amigos para estar mais perto do trabalho.

Em jogo está um regime especial de aposentadoria para algumas categorias cujo trabalho foi julgado penoso: trabalhadores da EDF (eletricidade), SNCF (trens) e RATP (metrô, ônibus e bonde). Hoje, esses funcionários podem se aposentar aos 55 anos e, em alguns casos, aos 50 anos, depois de contribuírem para a Previdência durante 37,5 anos, menos do que os 40 anos para os demais. O governo quer colocar todos no mesmo nível — 40 anos de contribuições, em nome da igualdade. E argumenta que a expectativa de vida aumentou: francês vive mais, precisa trabalhar mais. Muita gente, como o policial militar Jerôme Patox, de 37 anos, que partiu para o trabalho de bicicleta, concorda: — Os homens franceses estão vivendo até os 80 anos. Se se aposentam aos 50, vão viver 30 anos às custas de pensões? É uma questão de matemática.

O tráfego foi menos afetado do que na greve de 18 de outubro, a primeira do governo Sarkozy.

Mas ainda assim, causou problemas consideráveis. Em Paris, apenas um metrô a cada seis funcionou e somente 30% dos ônibus circularam. Registrouse 360 quilômetros de congestionamento na cidade e arredores, contra 250 quilômetros em dia normal. A companhia de trens SNCF anunciou que o tráfego continuará “muito afetado” hoje, com 150 trens de alta velocidade funcionando, no lugar dos habituais 700.

Estudantes vão às ruas contra lei de autonomia Milhares de pessoas protestaram em Paris. Estudantes saíram em manifestação contra uma nova lei que dá mais autonomia na gestão financeira das universidades. Em Lille, entre 1.600 pessoas, segundo a polícia, e 3.200, segundo sindicatos, também protestaram. Enquanto isso, no Ministério do Trabalho, sindicalistas desfilavam na sala do ministro Xavier Bertrand, discutindo um compromisso.

ERIC DESBAN, 44 ANOS, MOTORISTA DE ÔNIBUS EM PARIS

“ ‘Trabalhamos expostos a tudo’ O público não consegue compreender.

Mas veja isso: dia 24 de dezembro à noite, nós estamos trabalhando enquanto todo mundo se diverte. O mesmo no dia 31 de dezembro, e vários feriados. A gente acorda às 3h da manhã para garantir os ônibus para a população a partir das 4h30m.

Não tenho horário fixo de trabalho: numa semana estou no turno da noite, na outra, do dia, da tarde. E trabalhamos expostos a tudo: ao público, à violência, ao trânsito.

Depois de 25 anos de trabalho, muitos caem doentes, ou abandonam o trabalho. E agora querem não apenas que trabalhemos mais, como diminuir os benefícios da aposentadoria.

Se eu me aposentasse hoje, teria 62% de um salário de C 2.500. Com a reforma, me aposento com apenas 51% do meu salário.

ERIC DESBAN: 51% do salário Deborah Berlinck

NICOLAS MERIGOT, 21 ANOS, UNIVERSITÁRIO DA PERIFERIA

“ ‘Financiamento público precário’ Defendo o serviço público. O governo Sarkozy aprovou uma lei que vai dar às universidades muito poder de decisão nelas próprias. Se não lutarmos para manter o financiamento público das universidades, o que vai acontecer é que vamos ter uma educação em duas velocidades: uma que beneficia ricos, e outra para o resto.

Empresas certamente vão financiar universidades conhecidas, como a Sorbonne.

E a Universidade de Evry, onde estudo, se o Estado sair, você acha que o setor privado vai querer financiar? O governo alega que as universidades estão perdendo em competitividade em relação a outras no mundo. Ora, a França é a penúltima na Europa em matéria de financiamento das universidades. Isso explica muita coisa.” NICOLAS MERIGOT: 2 ensinos

Deborah Berlinck

BERNARD PARQUET, 69 ANOS, APOSENTADO DO SETOR ELÉTRICO

‘Não sou nenhum privilegiado’ Sou beneficiário do regime especial de aposentadoria e me aposentei depois de 37,5 anos de trabalho, em vez de 40 anos, mas não sou nenhum privilegiado. Trabalhava externamente, consertando fios de eletricidade. Exigir este tipo de trabalho depois dos 55 anos?! O regime especial nos permite a aposentadoria mais cedo. É uma conquista.

No lugar de suprimilo, o governo deveria estendêlo a todos os trabalhadores.

A produtividade no trabalho não pára de aumentar, as empresas ganham bilhões em lucros. Por que uma parte destes lucros não é utilizada para financiar o sistema? Sarkozy fala hoje em aposentadoria depois de 40 anos de trabalho, mas se deixarmos, vai ser 42, 44, 46 anos… Meus dois filhos vão acabar se aposentando aos 70 anos!” BERNARD PARQUET: revolta Deborah Berlinck “