17/11/2009 - 17:05h Exuberância feminina no interior da França

Meu prato: Marie-Pierre é a mulher que faz a diferença na expansão dos domínios Troisgros.

Por Nicholas Lander, Financial Times – VALOR


Divulgação
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A contribuição especial de Marie-Pierre para o império Troisgros emergiu pela primeira vez na abertura do Le Central


Nos últimos 79 anos, o nome Troisgros e a cidade de Roanne (a 100 km de Lyon, no leste da França) são sinônimos da melhor cozinha francesa. Em 1930, Jean-Baptiste Troisgros abriu o restaurante da família do lado aposto da estação ferroviária. Seus filhos, Jean e Piere, o administraram depois dele e agora o filho de Pierre, Michel, está no comando.

O local original, a Maison Troigros, é hoje um restaurante com salas que há muito recebe a classificação máxima de três estrelas do celebrado guia Michelin. A família também é dona do Le Central, o café-delicatessen que fica ao lado, e do La Colline du Colombier, um “auberge” de campo que fica a 30 minutos de automóvel de Roanne.

Mas nos últimos 25 anos a força comercial que vem conduzindo o sucesso dos Troisgros é uma mulher que nunca quis de fato se estabelecer em Roanne. Marie-Pierre Lambert nasceu em Valença no vale do Rhône. Ela se matriculou no hotel-escola de Grenoble em 1973 porque queria uma profissão que lhe permitisse conhecer o mundo. Michel Troisgros era um colega de classe e ela descreve o primeiro encontro dos dois como um “coup de foudre”, ou amor à primeira vista.

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La Colline du Colombier: restaurante de campo e hotel com abrigos de ferramentas transformados em cabanas-iglus


Assim que se formaram, ela fez com ele uma viagem ao redor do mundo, enquanto ele estabelecia sua carreira. Mas não foi fácil. “Michel cozinhou em Bruxelas, no [hotel cinco estrelas] Connaught de Londres e em Nova York. Naqueles dias os hoteleiros relutavam em contratar casais”, explica ela. “Hoje é muito diferente. Fico feliz em dizer isso.”

No começo de 1983, eles retornaram a Roanne para uma estadia de seis meses, com planos de se mudarem para a Austrália e lá abrir seu próprio restaurante. Mas em agosto daquele ano, o tio de Michel, Jean, morreu. Marie-Pierre e Michel decidiram ficar. Naquela altura já casados, Marie-Pierre assumiu seu papel na Maison Troisgros junto com a família do marido.

Marie-Pierre diz que sua falecida sogra era supergentil, mas que a função dela era puramente de “maîtresse” do restaurante, alguém que recebia os clientes, certificava-se de que tudo estava correndo tranquilamente no salão e então se despedia dos comensais.

Marie-Pierre teve dificuldade para encontrar seu próprio nicho, mas agora admite que provavelmente a adaptação foi mais difícil para Michel, que estava trabalhando com duas madames Troisgros.

A contribuição especial de Marie-Pierre para o império Troisgros emergiu pela primeira vez na abertura do Le Central em 1996, a poucas portas de “la grande maison”, como ela se refere ao restaurante principal.

O Le Central é descrito pela família como “café/mercearia”. Suas prateleiras estão cheias de vinagres, pasta e molhos, enquanto suas paredes são cobertas de fotografias em branco e preto de seus fornecedores de ingredientes e vinhos. Para o jantar, tivemos suflê de queijo, risoto com cogumelo marrom, pernas de rã com gengibre e alho, e uma maravilhosa torta Tatin.

Marie-Pierre parece estar ainda mais em seu elemento no La Colline du Colombier, um restaurante de campo e hotel criado em uma ex-fazenda perto de Iguerande.

O La Colline du Colombier recebeu seu nome por causa do pombal que havia no local, que hoje abriga um cozinha circular e um banheiro maravilhoso logo acima dela. Ele é a coroação da busca por um local empreendida por Marie-Pierre durante oito anos, com um conjunto de construções que permitisse à família fazer algo original e instigante no exuberante interior da França.

No começo, tudo que a família viu foram construções deterioradas. “Queríamos algo que expressasse o estilo Troisgros, queríamos algo bem mais tranquilo, em harmonia com o século XXI.”

Com o arquiteto Patrick Bouchain, eles também conseguiram encontrar uma solução bem incomum para o problema de que as casas existentes na fazenda não ofereciam quartos suficientes para tornar a conversão viável.

Inspirando-se nas cabanas locais, ou “cadoles”, usadas pelos produtores de vinho como abrigo de ferramentas. Eles construíram três dormitórios no estilo cadole, que são os quartos mais confortáveis e talvez mais românticos. Eles se parecem com iglus cortados ao meio, em estilo pastoral, com um espaço de estar ultramoderno construídos diante de estacas de aço para permitir uma visão ininterrupta do cenário rural.

O belo celeiro que acomodava o gado é hoje o restaurante Le Grand Couvert. Seu cardápio de outono a € 35 oferece pratos com presuntos variados, bruschetta de escargot com ervilhas; um mousse de fígado de frango com camarão de água doce; salmão com molho de pimenta vermelha; e um delicioso pot-au-feu.

Marie-Pierre fala com grande paixão do Le Colombier e do tempo que já está com os Troisgros – ela diz, modesta, que se vê como “braço direito” de Michel -, mas seu sorriso aumenta quando ela fala de César, o filho mais velho do casal.

César está seguindo os passos da família e atualmente trabalha como chef do restaurante French Laundry, no Napa Valley, na Califórnia. Mas somente o tempo dirá se ele vai sucumbir ao charme de Roanne – como fez sua mãe.

(tradução Mario Zamarian)

10/11/2009 - 20:29h Le sexe au cinéma ? No pasara !

Cela ne s’était pas produit depuis treize ans: la “commission de censure” du CNC a procédé début octobre à la classification X d’une œuvre cinématographique parlant de sexe. Le coupable: Histoires de Sexe(s). Un film “pour adulte” abusivement rangé dans la catégorie porno.

Histoires-de-sexe-1

Histoires de Sexe(s) est une comédie légère traitant de sexualité, inspirée du Déclin de l’empire américain. C’est l’histoire de quatre amies qui se retrouvent à diner pour parler de leurs dernières frasques et de leurs problèmes amoureux. Parallèlement, quatre hommes se donnent rendez-vous pour parler eux aussi de sexe et donner de l’histoire une version parfois différente. Certaines scènes sont hilarantes. D’autres –résolument pédagogiques – abordent le thème de l’orgasme, du sextoy ou de l’éjaculation féminine, avec la volonté affichée de faire passer un “message”… Entre docu-fiction et cours de sexologie, ce petit film ne méritait certainement pas d’être classé X. La commission du CNC n’a pas été du même avis. Le 6 octobre, elle a fait tomber le couperet: interdiction en salles. “Histoires de Sexes avait pour ambition de s’affranchir des règles de l’industrie pour adulte, protestent les deux réalisateurs (Ovidie et Jack Tyler). Nous aspirions à sortir du ghetto, le CNC nous y a renvoyé aussi sec.

Il est généralement reproché aux pornographes de n’écrire aucun scénario, de ne pas travailler la mise en scène, d’être trop éloignés d’une sexualité réaliste, de dégrader la femme. Ce film relevait pourtant ce défi: présenter une sexualité non caricaturale, et mettre en scène la complexité de la relation de couple. 
Habituellement, les scenarii ne servent qu’à introduire les scènes de sexe qui sont la raison d’exister des films pornographiques. Dans Histoires de sexe(s), les courts passages explicites ne sont que des illustrations des propos tenus par les protagonistes. 95% de dialogues, pour 5% de sexe, et non l’inverse. Très clairement, il ne s’agit en rien d’un film masturbatoire. Avec ce film, nous attendions l’émergence d’un genre nouveau: celui du film traitant ouvertement de la sexualité, affranchi des codes de la pornographie et de son quota d’éjaculations faciales. Notre souhait n’était pas d’être exhibé à un public mineur, puisque nous réclamions une interdiction aux moins de 18 ans.

Pourquoi la commission du CNC a-t-elle classé ce film X? Parce qu’il est impensable, pour les puritains qui y siègent en majorité, qu’un film puisse parler de sexe. On peut parler de mort, de meurtre en série, de fin du monde, mais pas de sexe. Le classement X est une forme perverse de censure. Il s’accompagne d’un système de taxe qui dissuade les producteurs d’avancer de l’argent: un film X est difficilement rentable. Il est donc condamné d’office à n’être qu’un film à petit budget, tourné dans des conditions proches de l’amateurisme. Pas de vrais acteurs dans un X, et pour cause. Pas de vrai scénario. Pas de vrai dialogue. Et comme ce cinéma est totalement stigmatisé, aucun réalisateur “normal” ne veut s’y essayer. A l’origine, le classement X, institué sous Giscard d’Estaing en 1975, était synonyme de liberté: il s’agissait d’autoriser les images représentant la sexualité. Mais très vite, le classement X s’est accompagné de mesures fiscales si pénalisantes qu’il a finit par tuer dans l’œuf un genre cinématographique naissant. Faute de moyens, le X est devenu une industrie de la copulation filmée à la chaine, une ennuyeuse et rébarbative accumulation de gros plans génitaux et d’actes sexuels standardisés à outrance.

Les films précurseurs du genre annonçaient pourtant des lendemains glorieux au X: Le Dernier tango à Paris, L’empire des sens, Maîtresse, Max mon amour, Les Valseuses, La maman et la putain, Portier de nuit… Le X aurait pu devenir un cinéma aussi important que le péplum, le polar, le film d’arts martiaux ou la comédie musicale. Hélas. On l’a assassiné, en lui coupant les vivres et en le condamnant à la médiocrité. Les salles qui projetaient du X ont fini par disparaitre, incapables (à cause des surtaxes énormes) de faire face à la concurrence de la TV, des lecteurs DVD et de l’internet. Avec ces salles sont mortes les ambitions de ceux qui voulaient faire de l’art avec le sexe… A quoi bon ? A quoi bon faire du cinéma à 3 millions d’euros (budget minimum), si les gens vont aller voir gratuitement sur internet des gonzo dont le budget se monte à 3000 euros (maximum)? “Le classement X est devenu obsolète très progressivement, explique Christophe Bier, grand spécialiste et militant anti-classement X. Il a eu la peau du porno. Les producteurs de porno, les exploitants, les distributeurs ont périclité, ou bien se sont vite reconvertis dans la vidéo puis le DVD. Les salles ont fermé les unes après les autres… jusqu’à l’extinction totale des “films pornos” en 1996, remplacés par les “vidéos pornos”.

Résultat: le X est devenu “de la merde”, dixit Ovidie. Au lieu de montrer la sexualité comme d’un espace de liberté et de bonheur, le X a fini par ne plus montrer que des performances irréalistes et caricaturales. “La censure économique nous empêche de sortir du ghetto, soutient Ovidie. Si nous avions d’autres moyens de distributions que les sexshops et les sites internet, si nous pouvions retourner en salle, alors nous serions obligés de faire des films qui tiennent la route.” Mais non. Le CNC veille au grain. Depuis 1975, comme si les mœurs n’avaient pas évolué, il continue de classer X tout ce qui dépasse son seuil de tolérance: un orgasme ça va. Deux orgasmes, bonjour les dégâts. Bien qu’il soit totalement obsolète, le classement X continue de sévir. “Le X n’est pas aboli car il reste une menace visant à décourager ceux qui voudraient montrer du sexe dans les salles avec un visa d’exploitation, explique Christophe Bier. L’interdiction totale existe donc toujours comme arme de destruction massive. Tyler et Ovidie viennent d’en faire le test.

Histoires-de-sexe-2

Si le classement X était supprimé, on peut imaginer que le cinéma se mettrait enfin à parler de sexualité comme d’un sujet aussi passionnant (émouvant, perturbant) que la violence ou l’amour. Les réalisateurs pourraient enfin lui accorder la place qu’elle mérite… “En tout cas, ces réalisateurs ne seraient plus dans un ghetto avec des taxes, ajoute Christophe Bier. Ils bénéficieraient des mêmes droits que leurs confrères “classiques” et pourraient obtenir un fonds de soutien automatique ou d’autres mécanismes régissant l’exploitation cinématographique.” Bien sûr, la qualité d’un film ne dépend pas que de son budget. Mais si la sanction économique était levée, il est sûr et certain que des réalisateurs “normaux” feraient du X, avec l’aide d’acteurs “normaux” et cela changerait certainement la donne. Il suffit de voir ce qu’il se passe en Suède, où le gouvernement finance des films X pour lutter contre la misogynie et contre la discrimination sexuelle. Dirty Diaries nous montre le chemin. Oui, il est possible de faire du vrai cinéma avec du sexe.
QUESTIONS A UN MEMBRE DE LA COMMISSION DU CNC

Philippe Rouyer – co-auteur du livre Le cinéma X (éd; la Musardine)- siège à la Commission de classification en tant que représentant du Syndicat Français de la Critique de Cinéma (SFCC). Il faisait partie de la commission qui a classé Histoires de Sexe(s). Il faut rappeler que la Commission de classification n’est que consultative. C’est le Ministre qui donne le visa, même si à plus de 99%, il suit les avis de la Commission. Le vrai responsable du classement X d’Histoires de Sexe(s) est donc Frédéric Mitterand.

1/ Depuis la création du classement X, combien de films “de cul” ont été classés X ?
Ça tourne autour d’un millier de longs métrages. D’après Christophe Bier, l’auteur du livre Censure-moi (L’Esprit frappeur), le dernier film classé X date de 1996. Il s’intitulait “Elle ruisselle sous la caresse”.

2/ Suivant quelle procédure le film d’Ovidie et jack Tyler a-t-il été classé X ?
Suivant la procédure habituelle. A savoir, un passage en sous-commission qui a juste pour mission de servir de filtre. Tous les films qui sortent (même les Disney) sont vus intégralement en sous-commission. Si la sous-commission estime que c’est du tout public, le film sort avec son visa. Si ne serait-ce qu’un membre de la sous-commission estime qu’il pourrait y avoir une restriction, le film est envoyé en Commission plénière qui est alors libre de ce qu’elle préconise. Et dans ce cas, la seule décision qui compte est celle de la plénière. Concernant le film d’Ovidie et Jack Tyler, l’ensemble des membres de la sous-commission a opté pour une interdiction aux moins de 18 ans en le renvoyant en plénière. Après débat et vote, la plénière elle, a voté le X.

3/ Il y a combien de personnes en commission ?
Chaque sous-commission se compose de 4 à 7 membres. La plénière en compte 28.

4/ Pourquoi Histoires de Sexe(s) a-t-il été classé X ?
Je suis tenu au devoir de réserve sur les débats. La seule chose que je peux vous dire c’est ce que j’ai dit moi au cours de ce débat: à savoir que je demandais une interdiction aux moins de 18 ans, mais surtout pas un classement X car c’était clairement une œuvre et non une pellicule à vocation masturbatoire. J’ai développé en parlant du scénario, de la mise en scène et de la durée (très brève) des scènes de sexe. J’ai ajouté qu’il n’y avait dedans aucune violence et  aucune image dégradée de la femme, et que je préférais qu’un jeune de 18 ans voit cela plutôt qu’une production crade trouvée en DVD ou sur le net. Mais le résultat du vote qui a suivi prouve que moi et ceux qui avaient un avis similaire n’avons pas convaincu suffisamment de monde

5/ Il me semble que les commissions de classement de films, dans les pays anglo-saxons, s’en tiennent à des critères très précis pour juger: il parait que le classement d’un film correspond à des normes quasi-mathématiques (nombre de minutes pendant lesquelles on voit un acte sexuel, cataloguage des actes sexuels sur une échelle, nombre de gros plans anatomiques, etc). Pouvez-vous m’éclairer sur ce point ?

Effectivement c’est le cas dans des pays comme le Royaume Uni. Je trouve ça atroce. Ça a conduit par exemple dans ces pays à interdire aux moins de 15 ans “Ridicule” de Patrice Leconte parce qu’on y voit un homme qui urine sur un autre ou “Amélie Poulain” car il y a une série d’orgasmes dans une scène. 2 films qui sont chez nous ‘tous publics”. En France, nous n’avons pas de critères. Nous débattons en tenant compte du contexte de l’œuvre. Des morts dans un western ou un film de guerre n’ont pas le même charge émotionnelle que dans un drame au Quartier Latin. Il faut aussi tenir compte de la mise en scène. Comment c’est filmé.

6/ Si la classification X était supprimée sur les “films pour adulte”, qu’est-ce que cela changerait?

Certains réalisateurs disent que si la classification X était supprimée ils auraient plus de moyens pour faire du bon cinéma. Ils pensent que l’état leur donnerait des subsides ou quoi?
Non, ils n’auraient pas d’avance sur recettes. Mais un certain nombre d’aides automatiques pourraient jouer. De même, il serait de nouveau possible d’acheter des films étrangers (surtaxés par le classement X) et donc d’en vendre en retour. Et puis l’exploitation en salles pourrait apporter de nouveaux revenus. Ou pas, bien sûr.

7/ D’autres réalisateurs (HPG par exemple) disent que même s’ils avaient plus de moyens, ils continueraient à faire des films nuls, parce que le milieu du X est un milieu de “nuls”. Après tout, il y a des réalisateurs de cinéma “normal” (David Lynch avec Eraserhead, Tsukamoto avec Tetsuo, mais je n’ai pas les chiffres précis de leur budget…) qui ont fait des chefs d’œuvre à très petit budget non? Qu’en pensez-vous?
Il y a eu des chefs-d’œuvre du X, ou du moins d’excellents films X, à petit budget. Mais le budget de Eraserhead ou de Tetsuo leur sera toujours supérieur. Ils s’inscrivent dans une autre économie.

8/ Le classement X a-t-il encore une raison d’être de nos jours ?
A mon avis non. L’interdiction au mineurs est suffisante pour protéger la jeunesse et respecter le Code Pénal.

Fonte Les 400 culs, de Agnès Giard


LE FILM (BANDE ANNONCE)

09/11/2009 - 15:42h Bicicletas são alvo de vândalos em Paris

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Por STEVEN ERLANGER e MAÏA DE LA BAUME

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PARIS – Assim como, anos atrás, as torres cruciformes brancas criadas por Le Corbusier instigaram visões de uma Paris da era industrial do futuro, o sistema de aluguel de bicicletas parisiense, conhecido como Vélib’, inspirou um novo etos urbano para a era das mudanças climáticas.
Os moradores de Paris podem alugar uma bicicleta em centenas de postos públicos. É uma alternativa barata, saudável e de baixa emissão de carbono aos carros e ônibus. Mas essa utopia francesa mais recente se choca com uma realidade prosaica: muitas das bicicletas, especialmente desenhadas para o projeto por US$ 1.050 cada, andam aparecendo nos mercados negros do Leste Europeu e norte da África. Outras são levadas para passeios urbanos não pagos e então largadas nas ruas, com suas rodas torcidas e sem seus pneus, que são roubados.
Cerca de 80% das 20, 6 mil bicicletas iniciais do projeto foram roubadas ou danificadas, obrigando os organizadores do programa a contratar centenas de pessoas para consertá-las. Além do prejuízo para o orçamento do projeto, subsidiado pela prefeitura, é a psique parisiense que sofreu um golpe.
“O símbolo de uma cidade ecológica e bem resolvida virou nova fonte de criminalidade”, lamentou o “Le Monde” em editorial. “O Vélib’ visava civilizar os transportes urbanos. Mas acabou provocando um aumento da incivilidade.”
As bicicletas pesadas do Vélib’, com sua cor bronze arenosa, são vistas como acessório típico dos “bobos”, ou “burgueses boêmios” -a classe média descolada-, e suscitam ressentimentos e cobiça.
O sociólogo Bruno Marzloff, especializado em transportes, disse que “é preciso relacionar isso a outras incivilidades, especialmente a queima de carros” – referência às gangues de jovens imigrantes que atearam fogo a veículos durante tumultos em 2005.
“Há um elemento de negligência”, disse Marzloff, “que significa ‘não temos o direito à mobilidade como outras pessoas. Chegar até Paris é uma dificuldade, não temos carros e, quando temos, é longe demais e custa muito caro’”.
Algumas bicicletas do programa Vélib’ já foram encontradas com os pneus furados, jogadas no rio Sena, sendo usadas nas ruas de Bucareste ou dentro de contêineres de navios, a caminho do norte da África. Outras são simplesmente roubadas e repintadas.
Usado principalmente para deslocamentos no centro urbano de Paris, o programa Vélib’ é um sucesso segundo muitos parâmetros. Mas a construção sólida das bicicletas, fabricadas na Hungria, e seus pontos de estacionamento eletrônicos significam que elas são caras, e nem todo o mundo compartilha o espírito de respeito pela propriedade pública comum promovido pelo prefeito socialista de Paris, Bertrand Delanoë.
“Erramos em nossas estimativas de danos e roubos”, disse Albert Asséraf, diretor de marketing da JCDecaux, principal organizadora e financiadora do projeto. “Mas não temos referências em nenhum outro lugar do mundo de iniciativas desse tipo.”
“Fizemos a bicicleta mais forte, lançamos campanhas publicitárias contra o vandalismo e tentamos informar as pessoas na internet”, disse. “Mas a verdadeira solução está no respeito individual.”

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08/11/2009 - 15:23h Resistência francesa


Criados há meio século por René Goscinny e Albert Uderzo, os quadrinhos de Asterix e Obelix ganham exposição no Museu Cluny e se consolidam como um símbolo do vigor da França

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Andrei Netto, CORRESPONDENTE, PARIS – O Estado SP

Pense por um instante no símbolo da França. Você deve ter tido em mente cidades como Paris, monumentos como a torre Eiffel, palácios como o Louvre, intelectuais como Rousseau, Descartes, Durkheim, escritores, pintores, heróis nacionais como De Gaulle e Vercingentorix. Pois acrescente outro gaulês em sua seleção: Asterix. Sim, Asterix, o gaulês das ficções em HQ, tornou-se um patrimônio nacional. A prova é que, ao completar 50 anos de idade, o anti-herói baixinho e bigodudo que teme a queda dos céus sobre sua cabeça é centro de atenções da mídia e da opinião pública, merecedor de exibições recordistas de audiência na TV, de um novo livro e de uma exposição inédita no Museu Nacional da Idade Média, no sítio histórico de Cluny, no coração do país.

A febre em torno de Asterix e Obelix, que se irradia também pela Europa, é, na realidade, uma homenagem aos personagens criados por René Goscinny e Albert Uderzo há meio século. Em outubro de 1959, vinha a público a revista Pilote, que trouxe a primeira história da dupla, dois anos antes de Asterix, o Gaulês, livro que inaugurou a série.

Desde então, as aventuras dos dois gauleses ao lado de mais de 400 antagonistas já renderam desenhos animados, filmes, discos, jogos de videogame e um parque temático, além de 34 livros, traduzidos em 107 línguas – inclusive o latim. O último é L”Aniversaire d”Astérix et Obélix – Le Livre d”Or, que chega às livrarias brasileiras na próxima quarta-feira (O Aniversário de Asterix e Obelix – O Livro de Ouro; Record; tradução de Cláudio Varga; 56 páginas; R$ 25,90). Compêndio de histórias curtas, lançado originalmente em 15 países, com tiragem recorde de 3 milhões de exemplares, dos quais 1,1 milhão só na França, o álbum é fruto de um tributo planejado por Uderzo, 82 anos. “Queria fazer com que todos os personagens que apareceram nos livros pudessem ter voz no aniversário”, afirmou, em uma das raras entrevistas que concedeu nos últimos anos.

Além de livros de sucesso, Asterix e Obelix rendem também filas de uma hora de espera, que denunciam o local onde está sendo realizada a mostra Asterix no Museu Cluny. A exposição, confluência inesperada de ficção e realidade, é uma reverência a Asterix, um pavilhão da cultura nacional que invadiu um patrimônio da humanidade.

Protagonista de histórias em quadrinhos, o gaulês ganhou espaço digno da importância que conquistou no imaginário dos franceses: está entre as paredes de pedras milenares do recém-restaurado frigidarium de Cluny, um monumento da história galo-romana situado no marco zero da cidade de Lutétia, como Paris era chamada pelos césares. Nada mais apropriado, já que seus autores sempre buscaram inspiração em relíquias históricas para alimentar suas narrativas. A mostra reúne 30 pranchas originais desenhadas por Uderzo, scripts de Goscinny, além de objetos – como uma Keystone Royal, a máquina usada pelo escritor – que ajudam a esclarecer o processo de criação de dois mestres das histórias em quadrinhos.

A homenagem vem acompanhada de outra exposição, esta realizada nas grades que cercam o sítio de Cluny, nas quais desenhos de Uderzo são comparados a obras-primas da pintura ocidental. Assim, postas lado a lado, estão poses de Asterix, Obelix & companhia, e reproduções de telas como Olympia, de Manet, A Liberdade Guiando o Povo, de Delacroix, A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, e de esculturas como O Pensador, de Rodin, de forma a escancarar a influência da arte erudita na obra do desenhista – ainda que perdure a dúvida sobre a natureza da inspiração, que pode ser tanto compreendida como uma reverência à arte ou uma paródia escrachada dos dois humoristas.

O certo é que a efervescência pública em torno dos 50 anos do personagem e a reflexão intelectual feita em torno da obra de Goscinny e Uderzo abriu os olhos da imprensa, do meio acadêmico e até do político para um fenômeno: na avaliação dos franceses, Asterix é muito mais do que uma HQ que deu certo e vendeu milhões de cópias; é também fruto e origem de fragmentos da história da França _ uma constatação que reforça os laços entre os personagens fictícios e seu público fiel.

“Decidimos reunir Asterix e o Museu de Cluny porque são dois monumentos nacionais”, disse ao Estado Emmanuelle Héran, curadora e encarregada da política científica da Reunião de Museus Nacionais (RMN), o órgão que controla os maiores acervos de arte da França. A decisão, afirma, foi tomada pelo reconhecimento de que Asterix se confunde em parte com a história do país.

Até os anos 1950 e 1960, aprendia-se nas escolas da França que Vercingentorix, filho de Celtillos, o líder gaulês, povo celta, na luta contra o invasor romano Júlio César, na Guerra das Gálias, entre 58 e 51 a.C., era o herói fundador da nação francesa. Esse mito, criado no século 19 por autores como Amédée Thierry e por Henri Martin, adotado por Napoleão III e instrumentalizado a partir de então pelo Estado Republicano, é um dos elementos do patriotismo francês. Ele ajuda a explicar, por exemplo, o desejo de revanche após a derrota para a Alemanha unificada na Guerra Franco-Prussiana (1870) – e também a beligerância entre os dois países líderes da Europa Continental, que se confrontariam nas guerras mundiais.

Asterix, por sua vez, é a paródia de Vercingentorix, mas ainda com matizes nacionalistas. “Desde sua primeira página, Asterix traz referências à ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial”, explica Emmanuelle Héran, lembrando da Resistence Française. “Em uma época na qual não se falava no colaboracionismo francês, Asterix reforçava a ideia de um povo que luta, que resiste, que é idealista e decente”. E esse povo é branco, loiro, tem olhos azuis, é forte e peleador. Asterix reforça o estereótipo que a França tinha – ou tem? – de si mesma: a de um país cujo arquétipo é puro, sem miscigenações. “Nos anos 50 e 60, aprendia-se que os franceses eram os descendentes diretos dos gauleses”, lembra a curadora. “Essa visão não era completa e não favorecia a inclusão das ondas de imigrantes que já transformavam os franceses em um povo mestiço.”

Reprimendas históricas à parte, o fato é que Asterix conta com a empatia dos franceses e com a simpatia dos estrangeiros. Em todo o mundo, as histórias de Goscinny e Uderzo são sucesso. Dentre os cerca de 400 milhões de exemplares já vendidos, 125 milhões foram parar nas mãos de fãs alemães – os alvos iniciais da ironia dos dois humoristas. As razões do sucesso são diversas, e passam pelo detalhismo de Uderzo, pelas manias perfeccionistas de Goscinny e por um enredo clássico, como a luta entre Davi e Golias, marcado por valores universais (como a oposição entre cosmopolitas, os romanos, e autóctones, os gauleses). Não bastasse, suas histórias fazem alusões à vida corrente, grande parte delas tipicamente francesas: Asterix e sua turma mantêm vivas suas tradições, brigam entre si permanentemente, mas se unem e lutam por seus ideais, reagem aos estrangeiros que ousam desafiá-los, prezam a solidariedade. E, claro, amam um banquete regado a vinho no fim da história.

Charme é antídoto contra Era Brucewillix

Para um de seus criadores, o espírito anárquico de Asterix tornou-se universal

Jotabê Medeiros – O Estado SP

É um operário ordinário, esse Asterix. Não é particularmente esperto (Obelix é bem obtuso, por sinal) e não aspira a nada além de tranquilidade e de um bom jantar. Não tem ambições de acumulação de capital, nem de conquistar territórios, nem de grandes butins e nem sequer de sequestrar uma Helena sinuosa.

Criado por René Goscinny e Albert Uderzo em 1959, o personagem Asterix dispensa apresentações: contra sua própria personalidade, é definido como um inquebrável guerreiro gaulês que, num mundo totalmente dominado pelos romanos, no ano 50 a.C., resiste bravamente numa pequena e anárquica aldeia encravada no calcanhar do imperialismo. Foi publicado em 105 línguas e dialetos nos últimos 50 anos.

Em 2005, quando foi publicada, após grande hiato, uma “nova” história do personagem, a França mostrou como era fanática por ele: imprimiu uma edição de colecionador, 3.178.000 álbuns numerados, únicos. No resto do mundo, foram colocados à venda 8 milhões de gibis em 27 países. Para se ter uma ideia da popularidade desse baixinho, já são cerca de 400 milhões de exemplares vendidos em 50 anos.

Asterix, segundo a descrição padrão dos gibis de Uderzo e Goscinny, é o “pequeno guerreiro de espírito sagaz e inteligência viva” que aceita sem vacilar as missões perigosas que lhe são confiadas. Obelix é o amigo inseparável de Asterix, um entregador de menires que adora javalis e boas brigas. Anda acompanhado do cachorro Ideiafix.

Há dois anos, por ocasião do aniversário de um dos criadores dos personagens, Albert Uderzo, 34 autores de quadrinhos de culturas diferentes receberam a proposta de desenharem histórias curtas que simbolizassem sua visão daqueles heróis – François Boucq, Loustal, Zep e Milo Manara, entre outros. O resultado foi publicado pelas edições Albert René com o título Asterix e Ses Amis (Asterix e Seus Amigos).

François Boucq criou um interessante conto em Cours D”Anatomix (algo como Cursix de Anatomiovix), no qual promove o encontro entre Leonardo da Vinci e Asterix, no qual o mestre italiano mostra como se desenha com rigor e ele e o personagem acabam tomando uma taça de vinho num boteco. Nem Da Vinci buscava a perfeição nem Asterix buscava ser levado a sério. Já o genial italiano Milo Manara mostra como uma de suas pin-ups se vinga dos gauleses por eles estarem sempre colocando a nocaute seus namorados italianos.

Qual é a razão da popularidade desse anão raquítico e mal-humorado que combate os romanos com a ajuda de um carregador desinteligente e desajeitado? “É como tentar explicar o segredo da poção mágica”, brinca Albert Uderzo. Muitas tentativas de explicação vêm aparecendo desde a criação da dupla num modesto apartamento na periferia de Paris pelos então estudantes Uderzo e Goscinny. A primeira, mais política, é que Asterix reafirma o orgulho nacionalista dos franceses mundo afora, como poucos ícones o fazem. Encarna o espírito da resistência cultural. Mas a explicação mais simples é que Asterix tem um senso de humor debochado, ranzinza e calcado em ideias até obsoletas de tão românticas.

Há alguns dias, o Jornal des Plages propôs a Albert Uderzo a seguinte questão: “Finalmente, 50 anos depois, quem é Asterix ?” A resposta: “É você, sou eu e é o mundo todo. Nós acreditamos em um instante que ele era o pequeno francês, mas ultrapassou largamente os limites da França. Porque, se você observa os alemães, verá que Asterix é alemão. Esse é o fenômeno, que Asterix tenha se tornado universal mesmo que isso não tenha sido previsto para ele”, ponderou o autor.

Autêntico herói desajustado e anarquista, Asterix desarma espíritos seja em bancos de espera de ferroviárias ou nos grandes gabinetes decisórios. Uderzo confirmou recentemente uma lenda que corria sobre o herói, que o ligava ao famoso general Charles de Gaulle. “Fomos convidados, eu e René, para uma estreia no Olympia de Paris. François Missoffe, um ministro do general De Gaulle, descia as escadas para se juntar no foyer aos colegas. Ele viu René, o abordou e disse a ele: “Escute, aconteceu algo extraordinário no último encontro do Conselho de Ministros. De Gaulle começou a nos chamar um por um pelo nome dos personagens da sua vila gaulesa. E todo mundo se reconhecia! Abraracourcix ? Presente ! Assurancetourix ? Presente…”"

Asterix e Obelix celebram uma era de opulência do trivial e de despreocupação com a autoridade constituída. São guerreiros da desobediência civil. Afinal, gauleses bárbaros que são, vivem num paraíso original, numa revolucionária (porque “primitiva”) existência comunitária. Brigam muito, mas tudo sempre termina em banquete, javalis e vinho em quantidade dinossáurica – o banquete de aldeões é centrado num prato ritual, o javali assado.

Comer é o objetivo final de toda a pequena odisseia particular desses heróis, embora sua saga consista em resistir ao inimigo expansionista – daí Asterix ser uma metáfora da resistência da produção artesanal europeia contra a invasão massiva americana. É no seu charme de desajustados que consiste sua força. Para combater a pancadaria da era “brucewillix” e “osamabinladix”, só mesmo uma dose cavalar daquela velha poção na qual Obelix caiu, mesmo que forjada em laboratórios da Light & Magic.


Novidadix

O 34.º álbum de Asterix chega às livrarias brasileiras nesta quarta-feira, lançamento da Editora Record. É O Aniversário de Asterix e Obelix – O Livro de Ouro, primeira aventura dos heróis em quatro anos. A obra parte de um texto inédito de René Goscinny, coautor de Asterix, morto em 1977, e resgata cenas de volumes antigos, como O Escudo de Averno e Uma Volta pela Gália com Asterix, além de fazer citações de obras de Delacroix, Munch e Rodin, inserindo a dupla gaulesa no contexto dos trabalhos. O Aniversário de Asterix e Obelix foi lançado originalmente em 15 países. Até hoje, os álbuns de aventuras da dupla de gauleses já venderam no Brasil cerca de 3 milhões de exemplares. No dia 15, Albert Uderzo recebeu um doutorado de honra da Universidade Paris-8 à Bobigny (Seine-Saint-Denis). No dia 22, estreou no Théâtre des Champs-Elysées um musical, Le Tour de Gaule Musical d”Astérix, dirigido por Frédéric Chaslin.

18/10/2009 - 18:35h Romanée-Conti amplia área de produção

Paladar

por Olívia Fraga , O Estado SP

Por Jacques Trefois, especial para o Estado

Dar notícia sobre a mística Domaine Romanée-Conti, a produtora de vinhos mais famosa do mundo, é sempre fascinante. Ela acaba de fazer um contrato “en fermage” com os Príncipes de Merode, um importante produtor da região de Corton. Essa região é famosa pelo vinho branco Corton Charlemagne.

Trata-se de uma locação das vinhas por prazo longo, geralmente dezoito anos. Cerca de 30% da produção anual fica com o dono das vinhas.
A Romanée-Conti vai trabalhar as vinhas e vinificar os grand crus
-1,19 hectare de Corton-Bressandes, com vinhas de 50 anos
-0,57 hectare de Corton Clos-du-Roi: 35 anos
-0,50 hectare de Corton-Renardes, com vinhas de 53 anos

Porque mencionar a idade das vinhas? A explicação é fácil. Quando perguntei a um grande amigo meu, antigo e fantástico vinificador, como se faz um grande vinho, ele simplesmente respondeu: ”Plantando vinhas velhas”. É que elas sofrem mais com as intempéries, produzem menos uvas, mas de sabor mais concentrado, das quais se extrai um suco com mais matéria, mais açúcar.

As vendas da produção combinada devem começar em 2012. Não duvido que Aubert de Villaine e Henri-Frederic Roch vinificarão vinhos maravilhosos.


[O vinhedo murado de Romanée-Conti]

Sem dúvida a Domaine de Romanée-Conti é a mais importante da Borgonha (quiçá do mundo), e detém hoje 6 grandes regiões produtoras. Vale recapitular:
-a menor (e melhor) área: 1,81 hectare de Romanée-Conti, (Monópole), com vinhas de 49 anos
-6,06 hectares de La Tache (Monopole), de vinhas de 44 anos
-3,51 hectares de Richebourg, com vinhas de 44 anos
-4,67 hectares de Echezeaux, com vinhas de aproximadamente 36 anos
-3,52 hectares de Grands Echezeaux; vinhas de 35 anos
-5,28 hectares de Romanée Saint-Vivant; vinhas 35 anos

São todos “grand cru” produzindo vinhos tintos.
Dependendo da safra, e usando suas vinhas mais novas de até 10-12 anos, ela também produz um Vosne Romanée 1er cru.
E ainda há os brancos…
-0,67 hectare de Montrachet. Vinhedo de 52 anos produzindo vinho branco
-0,17 hectare de Batart-Montrachet. São as vinhas mais antigas, com média de 75 anos, produzindo vinho branco nunca comercializado. Esse vinho fica na Domaine, e às vezes uma garrafa é aberta para ser degustada e bebida por visitantes.


[Aubert de Villaine, em São Paulo, 2006]


Tive a oportunidade e a honra quando a visitei, de poder experimentar um par de vezes o Batard Montrachet. É um vinho realmente sublime, completo em todos os sentidos, perfumado, elegante, profundo e longo. Pareceu-me até mais complexo que seu irmão mais importante, o Montrachet. Será que por que são vinhas ainda mais velhas?

30/09/2009 - 19:32h O tempo das cerejas


Jean Lumière – Le temps des cerises


Le temps des cerises – desenho Porco Rosso

Esta canção de Jean-Baptiste Clément e Antoine Renard, anterior a Comuna de Paris (1866-1868), não é uma canção revolucionaria, mas uma canção de amor. Mas, após o massacre da Comuna, a canção virou o símbolo das esperanças que a Comuna levantou no povo de Paris. Até hoje a canção é uma das mais conhecidas na França.

Quand nous en serons au temps des cerises
Et gai rossignol et merle moqueur
Seront tous en fête
Les belles auront la folie en tête
Et les amoureux du soleil au cœur.
Quand nous en serons au temps des cerises
Sifflera bien mieux le merle moqueur.

Mais il est bien court le temps des cerises
Où l’on s’en va deux cueillir en rêvant
Des pendants d’oreilles
Cerises d’amour aux robes pareilles
Tombant sous la feuille en gouttes de sang.
Mais il est bien court le temps des cerises
Pendants de corail qu’on cueille en rêvant.

Quand vous en serez au temps des cerises
Si vous avez peur des chagrins d’amour
Evitez les belles
Moi qui ne crains pas les peines cruelles
Je ne vivrai pas sans souffrir un jour.
Quand vous en serez au temps des cerises
Vous aurez aussi des chagrins d’amour.

J’aimerai toujours le temps des cerises
C’est de ce temps là que je garde au cœur
Une plaie ouverte
Et dame Fortune en m’étant offerte
Ne saura jamais calmer ma douleur.
J’aimerai toujours le temps des cerises
Et le souvenir que je garde au coeur


Versão moderna do grupo Noir Désir me fotos da Comuna


versão de Charles Trenet

08/09/2009 - 16:20h O complexo de Sarkozy

Para os que não acreditaram no que escrevi no post anterior

Filme sobre complexo de altura de Sarkozy faz sucesso na internet

da Ansa, em Paris – Folha Online

Um dos vídeos mais comentados atualmente na França deixa evidente o complexo que o presidente Nicolas Sarkozy tem com sua altura, especulada em 1,65 m. Na gravação, feita pelo canal francês RTBF na Bélgica, uma mulher diz que a assessoria do francês seleciona apenas pessoas de baixa estatura para permanecerem ao lado dele em ocasiões públicas.

A mulher foi uma das escolhidas para ficar atrás do presidente durante a visita que Sarkozy fez na quinta-feira passada (3) à fábrica de autopeças Faurecia, na Normandia. Conforme a RTBF, antes do presidente chegar, as funcionárias foram selecionadas conforme as alturas para permanecerem perto dele.

No vídeo, o repórter Jean-Philippe Schaller fala com uma das mulheres que ficou sabendo que ela tinha sido escolhida por causa do quesito. “Sim, ninguém pode ser mais alto que o presidente. É assim que funciona”, responde a mulher.

O jornalista também diz que, na reportagem, tentou demonstrar o esforço que os assessores de Sarkozy fazem para melhorar a imagem do presidente na Normandia, já que, em fevereiro passado, o mandatário recebeu comentários hostis em um ato público na região.

O possível complexo de altura de Sarkozy é muito especulado pela imprensa internacional, principalmente porque sua mulher, a ex-modelo Carla Bruni, tem quase 1,80 m.

15/08/2009 - 11:59h A Europa volta a rugir

http://img.rtp.pt/noticias/images/articles/367611/merkel+sarkozy_epa.jpg

Carter Dougherty* – O Estado SP

A economia europeia apresentou no segundo trimestre uma recuperação mais forte do que a esperada, sustentando esperanças de que a recessão mundial esteja próxima do fim.

A grande melhoria em relação ao primeiro trimestre sublinhou o quanto a Europa e a própria economia mundial se recuperaram desde a queda livre do fim de 2008. O bom resultado foi puxado por França e Alemanha, economias que apresentaram pequeno crescimento no segundo trimestre.

Apesar de muito dependente dos gastos governamentais, a Ásia apresentou recentemente grandes melhorias. Alguns dos principais analistas esperam para este ano um crescimento de até 9% na China, e de mais de 10% no ano que vem. Enquanto isso, a brutal contração no início do ano nos Estados Unidos amainou, e há sinais indicando pequeno crescimento para o segundo semestre.

A economia da União Europeia, formada por 27 países, encolheu 0,3% no trimestre encerrado em 30 de junho, chegando a uma taxa anual de aproximadamente 1,2%. Os 16 países que usam o euro como moeda tiveram declínio de 0,1% no segundo trimestre, equivalente a uma taxa anual de 0,4%.

Apesar de negativos, os dados europeus transmitiram uma impressão muito melhor do que os do primeiro trimestre deste ano, quando se registrou, tanto na União Europeia quanto na zona do euro, uma contração de 2,5% em relação aos três últimos meses de 2008.

O significativo abrandamento da recessão colocou a Europa em um nível semelhante ao dos Estados Unidos, onde a economia se contraiu num ritmo anual de 1% no segundo trimestre. Economistas disseram que a Europa recebeu alguma ajuda dos programas governamentais, como as bonificações pagas na troca de carros antigos por veículos novos, além da maior demanda por exportações observada na China.

Mas, acima de tudo, o desempenho representou uma virada para o choque financeiro que foi sentido nas economias do mundo todo após o colapso do Lehman Brothers, em setembro, e o subsequente caos nos mercados financeiros.

A Europa ainda enfrenta a possibilidade de ver sua recuperação desacelerar ou mesmo estagnar no início de 2010 por causa das iniciativas insuficientes para a restauração do sistema bancário e do rápido aumento do desemprego. Ainda assim, as perspectivas mais animadoras, em especial na Alemanha e na França, parecem ter dado à região um impulso rumo a uma recuperação mais precoce do que a esperada.

Por causa da sua receita bastante diversa para combater a recessão, a Europa deve apresentar em 2010 um crescimento menos veloz do que o americano, segundo economistas.

No ano que vem, a maior parte de um programa de gastos no valor de US$ 800 bilhões nos EUA começará a surtir efeito, o que fará as medidas europeias parecerem quase insignificantes, apesar de suas dimensões corresponderem ao medo dos governos europeus de se verem atolados em dívidas. Uma isenção fiscal total de aproximadamente US$ 100 bilhões deu aos EUA, nos últimos meses, um impulso rumo à recuperação.

“A verdadeira diferença nas recuperações será sentida no ano que vem”, disse Thomas Mayer, economista-chefe do Deutsche Bank para a Europa. “Isso acontecerá quando os EUA se restabelecerem mais rápido do que a Europa.” Os números animadores são sustentados pelo desempenho sólido de França e Alemanha. Mesmo assim, a economia alemã, a maior da região, ainda deve registrar contração anual de 6%, dizem os economistas.

Dentro da zona do euro, França e Alemanha estão ajudando a equilibrar os desempenhos sofríveis da Itália, eterna retardatária, e da Espanha, onde o colapso do mercado imobiliário causou aguda recessão.

Os países do Leste Europeu, em especial a Hungria e os países bálticos, continuam sofrendo grandes dificuldades. A antes poderosa economia britânica ainda enfrenta rápida alta no desemprego, apesar da possibilidade de o país também apresentar um modesto crescimento no terceiro trimestre.

Os novos números da economia alemã surpreendem após quatro trimestres consecutivos de contração na produção, sugerindo que a recessão do país – a pior desde a Segunda Guerra – tenha chegado ao fim.

A surpresa do crescimento alemão – a maioria dos economistas esperava número igual a zero ou até negativo – reflete o ganho dos exportadores com o crescimento na Ásia e com o que parece ser o fim do declínio nos EUA. A produção industrial também recebeu o incentivo de programas que conferem um bônus de 2.500 aos compradores que decidirem trocar seus carros velhos por modelos novos e menos poluentes.

“O estímulo está funcionando um pouco, mas existe também uma recuperação associada ao comércio global”, disse Erik Nielsen, economista-chefe do Goldman Sachs de Londres para a Europa.

Mas outros fatores estão influenciando as perspectivas para a Europa, criando incertezas em relação à situação econômica em 2010. Na semana passada, a notícia de que as exportações alemãs tinham dado em junho um salto de 7% em relação ao mês anterior antecipou que deve haver um crescimento no Produto Interno Bruto.

Mas isso mascarou um colapso generalizado nas encomendas do exterior; as exportações alemãs apresentaram em junho queda de 22% em relação a igual período de 2008.

E ainda é esperada para este ano uma grande alta no desemprego, conforme programas governamentais que mantinham as pessoas em folhas de pagamento particulares começarem a expirar.

O desemprego na zona do euro já está em 9,4%, o nível mais alto em 10 anos, e o crescimento anêmico dos próximos trimestres não será suficiente para frear ou compensar este aumento. Isso, por sua vez, poderia derrubar a confiança do consumidor e até provocar turbulências políticas na Europa, segundo os economistas.

O sistema financeiro é outro problema no horizonte, apesar de a sua recuperação ser mais rápida do que a esperada. O Fundo Monetário Internacional (FMI) criticou a Europa por não ter agido com suficiente agilidade para recapitalizar os bancos e limpar de ativos podres dos balanços. Mas a previsão do Banco Central Europeu (BCE) para as perdas é menor do que a do FMI e, além disso, publicou dados sugerindo que há maior fluidez nos fluxos de crédito.

“Não precisamos nos preocupar com o aperto no crédito tanto quanto pensamos que seria necessário no início do ano”, disse Julian Callow, economista-chefe do Barclays Capital.

*Carter Dougherty é jornalista

14/08/2009 - 08:58h Desemprego e fim dos pacotes de estímulo ameaçam retomada

http://www.groupedesbellesfeuilles.eu/files/crise.jpg

Gerrit Wiesmann, Financial Times, de Frankfurt – VALOR

A zona do euro poderá voltar a crescer neste trimestre, mas com que rapidez e sustentabilidade?

A mensagem trazida por dados divulgados ontem parece ser: o crescimento puxado por exportações parece estar voltando, mas será contido, por algum tempo, pelo desemprego em alta, pelos bancos ainda reticentes em emprestar e pelo fim dos pacotes de estímulo fiscal, enquanto governos buscam conter déficits orçamentários.

O crescimento na Alemanha e na França – que, reunidas, são responsáveis por quase 48% do Produto Interno Bruto (PIB) da zona do euro – por pouco não levaram a região como um todo para o território positivo. A recuperação deixou os economistas mais confiantes do que nunca em que a forte recessão na zona do euro esteja chegando ao fim quase exatamente dois anos depois de o aperto de crédito ter deflagrado a crise financeira mundial.

Mas, apesar da quase eufórica reação às inesperadas boas notícias, a maioria dos economistas mantém uma perspectiva cautelosa. O consenso é de que o crescimento na eurozona poderá se aproximar de taxas média históricas no fim do ano que vem.

Aurelia Maccario, economista do Unicredit em Milão, disse que o forte desempenho da zona do euro sugere um retorno a taxas de crescimento positivas no terceiro trimestre, com “provavelmente uma leve aceleração no fim do ano”. O crescimento poderá atingir uma taxa anualizada de 1% no segundo semestre de 2009 devido ao efeito combinado do ressurgimento da demanda mundial e de crescimento dos gastos públicos e privados, como resultado de diversos esquemas de estímulo.

Economistas disseram que as medidas de curto prazo provavelmente desempenharam um grande papel na evidente guinada rumo ao crescimento.

“Com base no que sabemos hoje, revisamos para cima nossas previsões para o terceiro trimestre – de situação praticamente inalterada para 0,5% positivo”, disse Erik Nielsen do Goldman Sachs em Londres. Para ele, outros fatores, além do estímulo, poderão começar a mostrar seu efeito.

A melhoria nas expectativas levou diversos bancos a revisarem para melhor suas previsões anuais para o PIB na zona do euro, embora a região tem um longo caminho a percorrer até retornar a níveis anteriores à crise.

O alemão Commerzbank disse que o PIB da zona do euro deverá encolher “apenas” 3,5% neste ano, em comparação com uma previsão anterior de queda de 3,8%. O Unicredit agora prevê que a economia encolherá 4%, em vez dos 4,6% projetados anteriormente.

Segundo a Eurostat, birô estatístico da União Europeia (UE), a taxa à qual a economia da zona do euro encolheu baixou para 0,1% no segundo trimestre, de calamitosos – 2,5% no primeiro.

Nielsen falou de “grande interrogações” pairando sobre o sistema bancário europeu.

Temores de que os bancos europeus sejam forçados a depreciar ativos relacionados com inadimplência devida à crise econômica e, em consequência, reduzir novas concessões de empréstimos têm preocupado políticos e o Banco Central Europeu (BCE) nas últimas semanas.

Jean-Claude Trichet, o presidente do BCE, implorou aos banco, na semana passada, que repassem as “medidas extraordinárias” que o BCE tomou para incrementar sua liquidez.

Outra razão para tratar os dados divulgados ontem com alguma cautela é o desemprego, para o qual a expectativa generalizada é de um salto de crescimento – que deprimiria o consumo – enquanto as companhias continuam a apertar os cintos.

Trichet advertiu na semana passada que “mesmo quando a economia reaquecer, o desemprego poderá continuar crescendo”. Ele ressaltou esse risco como “um dos pontos importantes que nos impõem sermos prudentes e cautelosos” durante algum tempo.

O perigo de que as verbas de estímulo – que parecem estar dando sustentação aos gastos públicos e privados – acabem antes que a zona do euro tenha superado os prenúncios de apertos de crédito e no mercado de trabalho é a razão pela qual os economistas continuam preocupados com o crescimento.

“O problema, para a zona do euro”, disse Nielsen, “é que os fatores positivos são, no momento, em larga medida de curto prazo, ao passo que os fatores negativos poderão se constituir em problemas de mais longo prazo”.

14/08/2009 - 08:34h Alemanha e França voltam a crescer e puxam economia da zona do euro

http://europeorient.files.wordpress.com/2009/06/merkel_sarkozy.jpg

Bloomberg – VALOR

Alemanha e França surpreenderam, voltando a crescer no trimestre passado. O resultado dos dois quase fez com que a economia da zona do euro não sofresse contração e sugere que a recessão da região, a pior desde a Segunda Guerra Mundial, pode estar chegando ao fim.

O Produto Interno Bruto da zona do euro encolheu 0,1% em relação ao primeiro trimestre, período em que contraiu 2,5% – o qual foi o maior declínio desde que os dados relativos ao bloco começaram a ser compilados, em 1995, informou o departamento de estatística da União Europeia (UE). Economistas haviam estimado que o PIB teria encolhido 0,5% nos três meses até junho, segundo mostra a mediana de 32 projeções colhidas em pesquisa da agência Bloomberg.

Na Alemanha, a maior economia da Europa, o PIB cresceu 0,3% (dado sazonalmente corrigido) em relação ao primeiro trimestre, quando caiu 3,5%. A economia da França também cresceu 0,3% no trimestre passado.

A Itália e a Holanda foram os países que puxaram a economia da zona do euro para baixo. A economia italiana contraiu 0,5%, e a holandesa teve queda de 0,9% no segundo trimestre.

O PIB da zona do euro recuou por cinco trimestres consecutivos, a mais longa contração desde o início da série histórica, que começou há 14 anos.

A demanda pelas exportações da zona do euro está melhorando no mesmo momento em que os pacotes de resgate dos governos e os juros baixos sustentam os gastos do consumidor interno. Os dados divulgados sugerem que o Banco Central Europeu (BCE) não precisará aumentar as medidas de incentivo, mas o crescente desemprego em toda região deverá ainda conter o consumo.

“Existe uma chance mais do que razoável de que a atividade econômica da zona do euro tenha agora chegado ao ponto mais baixo e que voltará a crescer no terceiro trimestre, com muitas das outras economias seguindo o exemplo da Alemanha e da França e saindo da recessão”, disse Martin van Vliet, economista-sênior do ING Bank de Amsterdã. “Tememos, porém, que a recuperação seja relativamente lenta e demorada.”

A melhora econômica da Alemanha acontece quando a premiê conservadora Angela Merkel está em campanha pela reeleição na votação marcada para 27 de setembro. “Merkel está numa boa posição para explorar a volta precoce ao crescimento econômico, mas eu me surpreenderei se ela fizer isso com muita ênfase”, disse Laurent Bilke, economista-sênior da Nomura de Londres. “Ainda se justifica uma certa cautela enquanto o mercado de trabalho continuar a se enfraquecer.”

A economia do Reino Unido, que pertence à UE, mas não à zona do euro, contraiu 0,8% no segundo trimestre, mais do que o dobro do previsto por economistas.

Em relação ao segundo trimestre de 2008, a economia da zona do euro encolheu 4,6 entre abril e junho, depois de uma contração de 4,9% nos três primeiros meses do ano, segundo o relatório.

06/08/2009 - 15:01h A velha guarda de Paris

Blog de Noblat

cartas de paris

A velha guarda de Paris

Da primeira vez que reparei nela fiquei bem no meio do caminho entre o choque e a compaixão. Com passos lentos de octagenária, a senhora caminhava pela calçada perto da minha casa: cabeça branca, olhar firme, um leve batom rosa nos lábios – e nas narinas, tubos como esses que a gente vê nas UTIs, ligados a um aparelho médico portátil que ela carregava a tiracolo, como se carregaria uma bolsa comum.

Voltaria a encontrá-la do mesmo jeitinho em outras manhãs, e depois a outros velhinhos e velhinhas desfilando pela cidade igualmente munidos de seus respiradores artificiais. O que era um choque se tornou o início de um percurso de observação sobre como vivem os idosos em Paris.

Basta um passeio em qualquer feira livre, biblioteca ou parque para se encontrar com dezenas deles, surpreendentemente independentes. Mesmo que alguns já estejam mais lentos, com movimentos debilitados, são eles mesmos que fazem suas compras: escolhem, pagam e depois levam tudo para casa com seus carrinhos de compras ultra-modernos (rodas triplas para facilitar nas escadas).

Nos parques, não é raro encontrar uma cabeça branca pilotando uma bicicleta. Na cidade, preferem os ônibus ao metrô – natural, haja vista a profusão de degraus que se tem de encarar em cada estação. Tenho a impressão de que todos os velhinhos de Paris pegam a linha 62, que corta a rive gauche ao meio. Foi onde eu vi grande parte das cenas que me impressionaram.

Além dos respiradores, eu os vi com suas bengalas e sacolas. Com o chapeuzinho de abas curtas e a vista mais ainda, pedindo para o motorista tirar ele mesmo a quantia da passagem de dentro da carteira. Casaizinhos cúmplices se apoiando mutuamente, despertando a inevitável pergunta de quem será que toma conta de quem.

Todos os parques e jardins da cidade são pontos de encontro da velha guarda. Muitos chegam pontualmente às quatro da tarde, como quem tem hora marcada para um compromisso importante. Sentam-se no banco, abrem seus livros. Ou engatam um papo com o companheiro do banco do lado – às vezes, já chegam em duplas ou trios.

Uns ficam olhando as crianças brincarem, distribuindo aleatoriamente seus valiosos conselhos para jovens mamães pouco experientes. Outros ficam ali quietinhos, absortos naquele mundo de lembranças de quem tem muita história para contar.

Claro, nem todos estão em plena forma. Se a velhinha do respirador costuma passear sozinha, há muitos que precisam da ajuda de outras pessoas. É comum ver ao lado deles ajudantes que os apóiam nas escadas, facilitam as portas – e com quem conversam o tempo todo, amáveis ou ranzinzas.

Foi aí, quando reparei nesses ajudantes, que me dei conta da enorme diferença cultural. Poucos são os velhos franceses que vivem com seus filhos ou alguém da família. Enquanto podem, eles ficam mesmo sozinhos, em suas casas. Quando não é o caso, as maisons de retrait (algo como casas de aposentados) são o destino praticamente certo. O brasileiríssimo sistema da vovó-agregada não funciona por aqui.

Tem um lado ótimo: tendo que se virar sozinhos, eles permanecem ativos, vigorosos. Tem o lado triste: muitos são tão solitários que a prefeitura tem de manter um cadastro de idosos para contactá-los nesta época do ano, quando faz muito calor e eles ficam expostos aos riscos de desidratação.

De todo jeito, os velhinhos de Paris hoje não me dão pena, nem me assustam mais. Olho para eles com admiração – e com a esperança de manter a vitalidade deles quando chegar minha vez.

Carolina Nogueira é jornalista e mora há dois anos em Paris, de onde mantém o blog Le Croissant (www.le-croissant.blogspot.com)

17/07/2009 - 16:06h Um Sarkozy nem de direita, nem de esquerda… o engodo que funciona

Le Sarkozy « nouveau », une supercherie qui marche

http://www.gala.fr/var/gal/storage/images/media/images/actu/photos_on_ne_parle_que_de_ca/sarkozy2/carla_et_nicolas_sarkozy_bisous/772471-1-fre-FR/carla_et_nicolas_sarkozy_bisous_reference.jpg

Le message a été largement diffusé depuis trois semaines. Le président de la République n’a rien ménagé pour nous convaincre qu’il entrait -et nous avec lui- dans une nouvelle phase de son quinquennat.Un Nicolas Sarkozy métamorphosé occuperait maintenant l’Elysée. Il a « rompu avec la rupture », nous dit-on. Il a réhabilité le « modèle français ». S’éloignant lui-même de Neuilly-Auteuil-Passy et du « triangle d’or » des Champs-Elysées (il a informé officiellement les lecteurs du « Nouvel Observateur » qu’il regrettait la faute de goût du Fouquet’s), le chef de l’Etat se laisserait entraîner par son épouse jusqu’à la rive gauche de la Seine.

« C’est pas la gauche, la France, c’est pas la droite, la France ! »

Plus sérieusement, dans son discours du 22 juin devant le Congrès et dans nombre de ses propos depuis, le président a assuré vouloir ignorer désormais la frontière entre majorité et opposition, renoncer aux antagonismes (tout en maintenant les « divergences » sur la responsabilité individuelles et l’égalité), travailler avec tout le monde.

La mémoire historique propose un lointain modèle à ce mouvement. Candidat à la première élection présidentielle de la Ve République, en 1965, Charles de Gaulle, douloureusement surpris d’avoir été mis en ballottage au premier tour, avait refusé la suggestion de son premier ministre, Georges Pompidou, qui lui recommandait de se présenter, au second tour, comme le chef des « nationaux » contre « tous les autres ». Il avait au contraire chanté les mérites de la France unie, à la fois ordre et mouvement, droite et gauche, étant entendu que « c’est pas la gauche, la France, c’est pas la droite, la France ! ». (Voir la vidéo)

Nicolas Sarkozy, dont la formation politique initiale est le gaullisme, n’a pas oublié cette leçon de base. Il s’en inspire dans un contexte bien différent, mais la recette est facile à reconnaître.

A vrai dire, le mélange de libéralisme économique et de dirigisme plus ou moins social, caractéristique du gaullisme, était déjà présent dans la campagne électorale de 2006-2007. Le tisserand de cette étoffe chamarrée était Henri Guaino, ancien collaborateur de Philippe Séguin, de Charles Pasqua, puis de la campagne de Jacques Chirac en 1995, aujourd’hui conseiller spécial du président.

Où est la nouveauté, alors ? Le président parle plus souvent de la France et des Français. Il a même affirmé que la crise du capitalisme financier était la revanche des « valeurs françaises ». Il prend la défense du Tour de France qui « fait partie des bonheurs des Français ». Comme dit le philosophe Marcel Gauchet, il s’est « franchouillardisé ».

Mais, pour le reste, rien de changé. Le vote par l’Assemblée nationale d’une énième version de la proposition de loi sur le travail du dimanche atteste que le président n’a modifié en rien son programme. De même, la réduction des effectifs de fonctionnaires continue, et la loi sur l’hôpital n’attend que le feu vert du Conseil constitutionnel pour entrer en application. Le report de l’âge légal de la retraite est annoncé pour l’an prochain.

Pas de « parenthèse »

Qu’on s’en réjouisse ou qu’on s’en lamente, la réforme sarkozyenne n’est pas abandonnée. La crise n’a absolument pas provoqué, à droite, une transformation comparable à celle qu’avait dû accomplir François Mitterrand quand il s’était converti à la rigueur, en 1983, le PS entrant alors dans ce que Lionel Jospin avait appelé une « parenthèse » -dont il n’est jamais ressorti.

A l’inverse, je ne vois vraiment pas la moindre décision ou le moindre texte législatif que l’on puisse citer comme preuve tangible d’un cours nouveau et d’un ralliement du président d’aujourd’hui et de son parti au « modèle social français » qu’ils présentaient, il y a deux ans, comme périmé. Au reste, Nicolas Sarkozy a livré lui-même la clé de sa politique aux parlementaires de l’UMP : « mobiliser les électeurs tout en démobilisant les adversaires ». Le point 2 est une réussite totale, avec la coopération active des intéressés.

14/07/2009 - 14:39h Violentos enfrentamentos de jovens e policia em Montreuil (França)

Montreuil : nouveaux heurts entre manifestants et policiers

Par Zineb Dryef | Rue89

Après les incidents qui ont suivi l’évacuation du squat de Montreuil mercredi, 700 personnes ont manifesté ce lundi soir.

Ce lundi soir, environ 700 personnes se sont réunies à Montreuil pour protester contre les violences policières de la semaine dernière. Joachim Gatti, réalisateur, a perdu un oeil après avoir été touché par un tir de flashball lors d’un rassemblement de soutien aux membres du collectif d’extrême-gauche La Clinique.

A 19 heures, une lettre de Joachim Gatti a été lue devant une assemblée hétérogène : jeunes cagoulés, membres de la Clinique, voisins solidaires, familles…

Dans ce texte, le réalisateur de 34 ans rappelle les raisons de son combat auprès du collectif :

« Nous essayons d’être présents au monde, à la ville, au quartier où nous vivons, à ceux qui nous entourent, à nous même. Présence quand partout on voudrait notre absence. Absence à la politique, au social, aux soins, à la culture, bref, à la société.

Présence quand il devient toujours plus difficile de se loger, de se nourrir, de se soigner, de se déplacer. Présence quand une partie d’entre nous est traquée au quotidien. Dans le métro, à la sortie du boulot, dans leur maison (…)

Ce soir là, c’est bien nos gueules qu’ils visaient, c’est bien nos gueules qu’ils voulaient casser. Cinq d’entre nous ont été blessés et moi j’ai perdu mon oeil. Mais il m’en reste un. Et avec lui, une haine sourde et méchante. Et avec lui, une détermination à continuer. »

Plusieurs manifestants étaient casqués et masqués pour l’occasion. Une façon pour eux de se « protéger » contre la police. Une façon aussi de rappeler que ce soir, la rue leur appartient et que pour y rester, ils n’hésiteront pas à « résister » aux forces de l’ordre.

« Œil pour œil » avec la « milice du capital »

Car l’heure n’est pas à la manifestation festive. Le slogan peint sur la banderole à l’avant du cortège est sans équivoque : « Les condés, hors de nos quartiers ». Les clameurs dénoncent une police « milice du capital » et un état « assassin ». Un des participants, cagoulé, est aperçu avec deux pieds-de-biche. Certains parlent d’une soirée « œil pour œil ».

Lorsque les manifestants arrivent aux abords de l’ex squatt, les rangs se sont déjà considérablement vidés ; le dispositif policier, important, en a dissuadé quelques-uns.

Aux pétards envoyés sur les forces de l’ordre répondent très rapidement des gaz lacrymogènes et une charge massive. Après un court affrontement (deux chaises de café volent) le cortège se disperse et quelques vingt personnes sont immobilisées.

Parmi ces personnes interpellées, un journaliste stagiaire au Monde. Il raconte :

« J’ai été interpellé vers 21 h 15. La manifestation était en train de se disperser, j’ai soudain été plaqué au sol et j’ai entendu un policier dire : “Toi aussi, tu viens avec nous”. Ils m’ont attaché les mains dans le dos.

J’ai répété à plusieurs reprises que j’étais journaliste, mais ils n’écoutaient pas. Dans le fourgon, il y avait trois policiers qui traitaient les deux manifestants interpellés avec moi de « sales gauchos ». »

Les riverains prennent la police à partie :

« Vous n’avez pas honte ? Pourquoi vous frappez des gamines ? Pourquoi vous les arrêtez comme ça ? Je serais à votre place, je ne dormirais pas de la nuit. »

Pour disperser la foule qui les interpelle, la police a utilisé à plusieurs reprises des gaz lacrymogènes. Les cafetiers et voisins proches ont eux ouvert leurs portes pour permettre au plus grand nombre de se protéger.

A 22 heures, les stations de métro menant au centre-ville de Montreuil étaient bouclées et les rues vidées. La police, après une vingtaine d’interpellations, patrouillait encore et les derniers manifestants taguaient sur les murs des « Police = porcs et assassins ».

Dominique Voynet, maire Verts de la ville, a réclamé sur France Info une« enquête indépendante » pour « permettre de dire exactement s’il y eu des violences, quelles étaient ces violences ».

Elle a également dénoncé les abus policiers :

« Je ne pense pas pour ma part qu’elles (les violences) venaient des manifestants, elles venaient surtout des policiers ».

N.B : Plusieurs images ont été volontairement supprimées de la vidéo. De nombreux participants à la manifestation nous ont formellement demandé de ne pas diffuser leur image. Les organisateurs n’aiment pas les médias, c’est de bonne guerre. En revanche, vouloir contrôler les médias (« restez à l’avant », « éteignez-votre caméra ») est pour le moins curieux lors d’une manifestation publique.

Mise à jour le 14/07/09 à 11h34 : Dominique Voynet a dénoncé les violences policières sur France Info.

Mise à jour le 14/07/09 à 11h41 : Un journaliste stagiaire du Monde raconte sa garde à vue.

14/07/2009 - 09:49h Trabalhadores ameaçam explodir fábrica francesa

New Fabris entrou em recuperação judicial e não indenizou empregados

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AGÊNCIAS INTERNACIONAIS – O Estado SP

Trabalhadores da fabricante de autopeças New Fabris, que recebeu em abril ordem de liquidação judicial, ameaçaram explodir a fábrica localizada do município de Châtellerault, na região central da França, caso os principais clientes da empresa, Renault e PSA Peugeot Citröen, não indenizem cada um dos 366 funcionários com 30 mil. A fábrica foi ocupada pelos operários que atearam fogo a destroços no pátio da empresa.

O sindicalista da Confederação Geral do Trabalho Guy Eyermann disse ontem à emissora France Info que foram colocados botijões de gás na fábrica capazes de levar tudo pelos ares. Ele afirmou que cumprirá a ameaça caso até o dia 31 os trabalhadores não cheguem a um acordo com as montadoras. “Os botijões de gás estão na fábrica. Tudo está preparado para que exploda.” À noite, oficiais franceses informaram que os botijões estavam vazios.

O valor das peças produzidas e armazenadas na fábrica é estimado em 2 milhões. E uma máquina nova da Renault, que está lá dentro, é avaliada em outros 2 milhões.

As montadoras declararam que não são responsáveis pelo pagamento de eventuais indenizações aos funcionários da New Fabris e que cabe aos acionistas da empresa e ao poder judicial decidir sobre isso.

O montante da indenização, segundo os sindicatos, foi calculado com base no valor recebido por 200 trabalhadores demitidos do grupo Rencast – de fundição e alumínio. Mas o diretor da fábrica, Pierre Réau, disse que os funcionários com mais de 20 anos de trabalho devem receber entre 10 mil e 15 mil. Aqueles com menos, 3 mil.

A empresa pediu recuperação judicial em 16 de junho, depois de cerca de seis meses em mãos do grupo italiano Zen.

Os trabalhadores programaram um encontro dia 20 com o ministro da Indústria, Christian Estrosi.

07/06/2009 - 16:42h França: recorde de abstenção no escrutino europeu. O partido de Sarkozy obtêm um bom resultado e o PS um forte recuo

AU QG d'Europe Ecologie, on célèbre la troisième place au scrutin européen, dimanche 7 juin.
REUTERS/PHILIPPE WOJAZER – AU QG d’Europe Ecologie, on célèbre la troisième place au scrutin européen, dimanche 7 juin.

Européennes : l’UMP en tête, le PS en fort recul

Première confirmation : la France se dirige vers un nouveau record d’abstention aux élections européennes. Selon les premières estimations, environ 60 % des Français auraient boudé le scrutin.

Les listes UMP arrivent en tête au plan national (28,3 % des voix), devançant largement celles du Parti socialiste, qui ne franchit pas la barre symbolique des 20 % des voix (17,5 %), les listes d’Europe Ecologie (14,8 %) complétant ce trio de tête, selon une estimation TNS Sofres-Logica réalisée pour Le Monde, Le Point, France 2, France 3 et France Inter.

L’UMP réussit son pari. Les leaders de la majorité s’étaient fixé un double objectif : rester le premier parti de France et atteindre la barre des 25 % de suffrages. Avec ses 28,3 %, l’UMP est même au-dessus des estimations les plus favorables. Rachida Dati, élue en Ile-de-France, évoque “un succès pour le président de la République”. Dans la région Sud-Est, l’UMP totalise 29,7 % des voix.

Le PS est deuxième. Mais sans la manière. Martine Aubry espérait un score supérieur à 20 %. Au niveau national, on serait donc à 17,5 %. Le PS n’avait pas vraiment réussi dans la dernière ligne droite de la campagne à faire entendre sa différence avec d’autres listes à gauche qui se définissaient comme les dépositaires d’un “vote sanction”. Comme un symbole de l’effondrement socialiste, dans le Sud-Est, la liste PS, conduite par Vincent Peillon, totalise seulement 15,5 % des voix. Elle est devancée par la liste Europe Ecologie.

Pour François Bayrou, l’échec est encore plus cuisant. Le MoDem serait en dessous de 9 %, loin des 18,57 % obtenus par son leader au premier tour de la présidentielle de 2007. Surtout, la formation centriste ne parvient pas à s’imposer comme le troisième parti de France, une place abandonnée aux écologistes.

Les listes Europe Ecologie emmenées par Daniel Cohn-Bendit, Eva Joly et José Bové réaliseraient près de 15 %. La performance des écologistes en Ile-de-France sera scrutée avec attention : vu le bon score obtenu dans l’Hexagone, il n’est pas impossible que les écologistes franciliens dépassent les socialistes.

Les listes du Front de gauche totalisent 6,3 % des voix. L’association avec le Parti de gauche de Jean-Luc Mélenchon a redonné des couleurs au Parti communiste. Il y a deux ans, Marie-George Buffet totalisait 1,93 % des voix à l’élection présidentielle. Derrière arrivent les listes du Nouveau parti anticapitaliste (NPA) d’Olivier Besancenot, qui, avec 5 %, atteint l’objectif qu’il s’était fixé. Les listes de Lutte ouvrière ferment la marche avec 1,3 %.

A l’extrême droite, le Front national recueille 6,5 % des voix, alors que Libertas (le MPF de Philippe de Villiers et les chasseurs du CPNT) totalise 5 % des voix. Dans la région Sud-Est, Jean-Marie Le Pen, qui conduisait la liste FN, recueille 8,5 % des voix.
Le Monde.fr

16/05/2009 - 18:09h Retratos da exclusão

 

Camila Giorgetti – Carta Capital

http://www.cartacapital.com.br/uploads/destaques/1242424459769.jpgQuem assiste ao filme Entre os Muros da Escola, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em cartaz no Brasil, espanta-se com as semelhanças entre aquela escola da periferia parisiense e qualquer escola dos bairros pobres de São Paulo. O sentimento de exclusão e as dificuldades de comunicação entre o professor e os jovens que se sentem apartados do sistema educacional são verdade lá e são verdade aqui.

Uma pesquisa realizada simultaneamente pelos dois países indica que a sensação do espectador está, sim, colada à realidade. Os pontos de encontro – e de diferenciação – entre a periferia parisiense e a paulistana foram esmiuçados num rico trabalho de campo realizado nos últimos dois anos.

Na França, o estudo inclui-se no projeto Santé, Inégalités et Ruptures Sociales (Saúde, Desigualdades e Rupturas Sociais) e foi feito em 3 mil domicílios. No Brasil, a pesquisa integrou o projeto Meio Ambiente, Desigualdades e Representações Sociais, desenvolvido no Procam-USP, e abarcou 703 residências nos bairros de Campo Limpo e Capão Redondo.

Os dados, saídos do forno, foram apresentados no final de abril na Estação Pinacoteca, em São Paulo, e no Centro de Altos Estudos da USP. CartaCapital convidou a coordenadora da pesquisa no Brasil, Camila Giorgetti, a entrevistar o pesquisador francês Serge Paugam.

Camila, pesquisadora do Procam, foi orientanda de Paugam no mestrado e no doutorado, sobre moradores de rua. Paugam é professor doutor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, pesquisador do Centro Nacional da Pesquisa Científica e diretor do Eris (Equipe de Pesquisa sobre as Desigualdades sociais).
Na entrevista, os dois nos revelam uma periferia que a mídia não vê e indicam que, aqui como lá, o mal-estar psicológico pode ser mais cruel que a falta de bens materiais.

CartaCapital: O que o levou a estudar a periferia parisiense?

Serge Paugam: Meu interesse pelas desigualdades urbanas não é recente. Em 1988, defendi minha tese de doutorado na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais sobre o processo de desqualificação social, que se baseava nas relações estabelecidas entre os moradores dos conjuntos habitacionais degradados de Saint-Brieuc, cidade de porte médio da Bretanha. Mas o fenômeno da concentração da pobreza nas periferias francesas cresceu desde então, o que explica, ao menos parcialmente, as revoltas urbanas de 2005 na região parisiense e em outras grandes cidades francesas. Pareceu-me necessário compreender as causas desse profundo mal-estar. Nessa época, nasceu o projeto de realização de uma grande pesquisa intitulada Saúde, Desigualdades e Rupturas Sociais, concebida com o intuito de analisar os efeitos próprios do lugar de residência nas diversas dimensões da saúde e da vida social, constituindo-se em um importante meio de explicar as crises em Paris e de sua periferia.

CC: Não é curioso que esta crise aconteça em um país no qual o Estado intervém tradicionalmente com o objetivo de reduzir a pobreza e as desigualdades urbanas?

SP: É, de fato, um paradoxo. Mas vale lembrar que nosso atual presidente, Nicolas Sarkozy, enquanto ministro do Interior, fez algumas declarações provocadoras, dias antes da irrupção das revoltas, sobre os jovens da periferia, chamando-os de “ralé” e enfatizando que era necessário limpar e esguichar a cidade. Por outro lado, a pobreza evoluiu consideravelmente na França, bem como em inúmeros países europeus. No final dos anos 90, comecei a perceber que a explicação da pobreza pela ótica da injustiça, até então predominante na França, havia perdido força. Ao tentar medir esse fenômeno, através da comparação entre inúmeras pesquisas europeias, percebi que a tentação de ressaltar a indolência dos pobres para explicar sua situação havia recrudescido em todos os países europeus. Passou a haver um domínio da ideia de que, se os pobres permanecem pobres, é porque não fazem esforços necessários para saírem da situação na qual se encontram. Eu acreditava profundamente no nosso tradicional apego aos direitos humanos e na obrigatoriedade do Estado em auxiliar os mais desfavorecidos. Mas pode-se ver que, na França, passamos de um ciclo de compaixão em relação aos pobres a um ciclo de responsabilização e de suspeição generalizada.

CC: Qual é a relação entre a crise na periferia e a imigração?

SP: A França é um país de passado colonialista. As periferias francesas reúnem, em razão dessa história, um grande contingente de imigrantes, sobretudo do Magreb ou da África Subsaariana. Muitos jovens originários desses países, mas nascidos na França, esperavam, assim como seus pais, uma promoção social através da escola republicana francesa. Mas muitos deles, mesmo os mais diplomados, se deparam ainda hoje com inúmeras dificuldades de inserção profissional. As pesquisas demonstram que eles são frequentemente vítimas de discriminação no momento das contratações e que enfrentam dificuldades em ser reconhecidos unicamente por seus valores. Inúmeros jovens das periferias estão desempregados e vivem em lares nos quais a pobreza é alarmante. A concentração de miséria nesses bairros reforça o descrédito que repousa sobre os seus moradores. Trata-se de um processo de desqualificação social e espacial. O desemprego, sozinho, não explica esse mal-estar. É necessário considerar também os ressentimentos e frustrações diante de um modelo de integração social que não cumpriu suas promessas.

CC: É por essa razão que o senhor se debruçou sobre o mal-estar psicológico?

SP: Estudar os fatores sociais que engendram o mal-estar psicológico constitui uma preocupação permanente entre a maioria dos sociólogos, desde o famoso estudo de Durkheim, em 1897, sobre o suicídio. Acredito que a crise nas periferias francesas reforça a necessidade de realizar esse tipo de pesquisa. A questão está em definir rigorosamente o que se entende por essa expressão. Na pesquisa, tentamos definir os sintomas depressivos das pessoas que vivem nos bairros socialmente desqualificados, formulando perguntas como: No decorrer das duas últimas semanas: 1. Você se sentiu triste, deprimido, na maior parte do dia, e isso se repetiu durante a semana? 2. Você tinha quase todo o tempo o sentimento de não gostar mais de nada, de ter perdido o interesse por coisas que o agradam? 3. Você se sentiu durante quase todo o tempo cansado e sem energia?

CC: Esse mal-estar se estende a todos os bairros ou é possível observar diferenças entre eles?

SP: O mal-estar psicológico está desigualmente distribuído entre a cidade e a periferia. Como é possível imaginar, ele se concentra nos bairros populares. Nota-se, porém, que há uma grande diferença entre os bairros populares no que diz respeito ao mal-estar. Existem determinados fatores estruturais relacionados às configurações espaciais do bairro. A primeira causa é o desemprego: quando afeta coletivamente um grupo social, gera uma comunidade cansada e deprimida. Mas o resultado mais surpreendente é o efeito da similitude social sobre o mal-estar psicológico. Quando os moradores afirmam maciçamente que se parecem uns com os outros, reconhecem indiretamente que pertencem a uma comunidade à qual foram destinados. Esse grau de similitude age como proteção individual e se constitui como uma forma de defesa natural dos mais pobres, desenvolvida frequentemente nas regiões onde estão concentrados. Isto é, quando “os pobres” formam um grupo social extenso, dificilmente são estigmatizados e aceitam o apoio uns dos outros.

CC: A pesquisa que realizamos conjuntamente visando a comparação entre São Paulo e Paris e suas visitas anteriores ao Brasil contribuíram, certamente, para o senhor formular uma opinião sobre a periferia de São Paulo. O que mais chamou a sua atenção?

SP: Eu não surpreenderia você afirmando que fiquei espantado com o tamanho gigantesco das inúmeras favelas de São Paulo. Na França, havia favelas nos anos do pós-guerra, mas a política urbana praticada a partir dos anos 1950 permitiu a construção de grandes conjuntos habitacionais e a diminuição progressiva de moradias insalubres. A França se depara hoje com a obsolescência desses grandes conjuntos habitacionais construídos naquela época, e com a desqualificação social de seus moradores. A história urbana de Paris é muito diferente da de São Paulo: enquanto o Brasil deve solucionar suas favelas, a França deve reconstruir a maior parte do parque habitacional popular localizado nos bairros pobres e constituído por habitações que seriam consideradas luxuosas por muitos moradores das favelas do Brasil.

CC: Os resultados da pesquisa comparativa revelam que o índice de mal-estar em São Paulo está muito próximo do atingido em Paris e na sua periferia. Acredito que isso se deve a uma aceleração do nível de consumo das classes sociais de baixa renda. O senhor concorda com essa hipótese?

SP: Sim. O forte crescimento econômico nesses últimos anos gerou esperança com relação ao progresso nos meios mais desfavorecidos e levou inúmeros moradores das favelas a se endividarem consideravelmente. Alguns moradores que trabalham cotidianamente em outros bairros, percorrendo longas distâncias, se diferenciam fortemente dos que permanecem no bairro sem trabalho, por aderirem a uma prática de consumo que provoca frustrações. A pesquisa revelou que alguns adotam determinadas atitudes visando se distinguir socialmente do seu entorno, reduzindo assim o nível de solidariedade nesses bairros. Os dados coletados parecem indicar que o mal-estar na periferia de São Paulo se explica pela degradação das relações sociais entre os habitantes e pela sua pressa em ver que sua situação econômica e social melhorou.

CC: Como o senhor pôde constatar, a família assume um significado diferente na sociedade brasileira, que contrasta com o significado atribuído na França e em outros países europeus. Acredita que os vínculos familiares mais fortes podem amortecer os efeitos da crise no Brasil?

SP: É comum, quando as pessoas se referem ao Brasil, mencionar a força da solidariedade familiar entre os pobres. Os dados coletados em São Paulo mostram que o porcentual de pessoas que moram na periferia, cujos parentes habitam o mesmo bairro, é mais elevado em São Paulo do que em Paris. Isso nos leva a acreditar que, em caso de fortes desigualdades, eles podem se beneficiar de um apoio familiar e resistir melhor às crises. Os moradores desses bairros chegam a dizer que os vizinhos fazem parte da sua família. Mas duas coisas surpreendem: o elevado porcentual de pessoas que se sentem só e o fato de ser mais alto em São Paulo do que em Paris. Tudo leva a crer que, nas favelas, há uma tendência à individualização e à procura de autonomia. Esse movimento tem como consequência o aumento da depressão entre pessoas isoladas que se encontram socialmente vulneráveis.

CC: O senhor poderia contar o que a pesquisa revelou sobre as redes de sociabilidade? Elas constituem realmente um apoio para o enfrentamento dos problemas econômicos?

SP: Em princípio, sim. Nos países pobres, as pessoas se unem umas às outras quando têm o sentimento de compartilhar o mesmo destino. A solidariedade representa uma importante forma de sobrevivência. Mas esses vínculos sociais são enfraquecidos na medida em que não garantem nada além da sobrevivência, não fazem com que as pessoas deixem de ser pobres e ascendam socialmente.

CC: Os resultados da pesquisa em São Paulo sobre o desejo de transformação social são surpreendentes porque mostram que a periferia “não está morta”…

SP: Dizem que os franceses são contestadores, sempre prontos para manifestar seu descontentamento com relação à ordem estabelecida. Mas, ao comparar os resultados das duas pesquisas, chama a atenção que a proporção de pessoas que desejam uma transformação radical da sociedade é mais elevada em São Paulo. Incontestavelmente, existe na periferia dessa cidade uma situação prestes a explodir, que poderia se traduzir por uma forma de radicalismo pouco politizada. Entretanto, a conscientização política é necessária para a democracia e o desenvolvimento da cidadania. Em São Paulo, bem como em Paris, há muito o que fazer nesses bairros populares, a fim de permitir que essas populações tenham uma melhor integração social na cidade.

16/05/2009 - 13:27h PIBs de França e Alemanha caem e afundam Europa

http://www.galizacig.com/avantar/files/images/20080625_european-union.jpg

Economia alemã recua 3,8% no 1.º trimestre; França cai 1,2% e entra em recessão; zona do euro cai 2,5%

Jamil Chade – O Estado SP

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando a Europa estava arrasada, nunca o continente esteve em uma situação tão dramática como hoje, em termos econômicos. Ontem, autoridades anunciaram a maior queda do Produto Interno Bruto (PIB) da Alemanha em quase 40 anos e a entrada oficialmente da França em recessão. As notícias abalam as esperanças de que a crise está perdendo força. Mas governos acreditam que o primeiro trimestre foi o fundo do poço e que perdas dessa magnitude não serão vistas nos próximos meses.

A queda das duas maiores economias da Europa levaram o continente a um cenário negativo. A contração do PIB na zona do euro já atravessa quatro trimestres consecutivos e atinge uma taxa recorde de 2,5%. Os dados ainda mostram que a recessão é mais profunda na Europa que nos Estados Unidos, a origem da crise.

A economia alemã – a maior da Europa – teve um recuo histórico de 3,8% de janeiro a março – a maior em um trimestre desde 1970, quando o cálculo começou a ser feito. Maior economia exportadora do mundo, a Alemanha sofre com a queda da demanda mundial. No último trimestre de 2008, o PIB alemão já havia encolhido 2,2%.

A BMW, maior fabricante de carros de luxo da Europa, sabe o que essa crise significa. Teve de cortar postos de trabalho e produção. Em abril, a queda das vendas foi de 23%. Norbert Reithofer, presidente da empresa, está cético sobre uma reação no curto prazo. “Não prevemos uma recuperação antes de 2010.” A queda na demanda mundial por carros e máquinas também foi um dos motivos que levaram o PIB alemão ao tombo. Para o ano, o governo prevê que o PIB cairá 6%.

Os alemães tentam dar um sinal de que o pior já passou. “Essa queda brusca não deve mais ocorrer”, afirmou o porta-voz do governo, Thomas Steg. “Temos claras indicações de que o primeiro trimestre foi o mais difícil.” Pesquisas de opinião indicam que a confiança de empresários começa a se recuperar.

Na França, a contração do PIB foi de 1,2% no mesmo período. Por ser o segundo trimestre consecutivo de queda, o país entrou tecnicamente em recessão. O recuo foi menor do que a redução de 1,5% do trimestre anterior. A queda das vendas externas, de 7,2%, e do setor automotivo, de 12,8%, puxou a retração.

Para Christine Lagarde, ministra de Finanças da França, a previsão é de queda do PIB de 3% no ano, o dobro do que vinha sendo previsto. A recuperação viria apenas em 2010 e, mesmo assim, “gradualmente”. Em 2008, o crescimento foi de apenas 0,3%.

Críticos dizem que os governos europeus passaram meses negando que a crise chegaria e muitos ainda hesitam em gastar dinheiro para programas de recuperação.

O PIB da zona do euro caiu 2,5% no primeiro trimestre e 4,6% em um ano. A taxa é a pior em 13 anos, quando os cálculos começaram a ser apurados. Nem mesmo a redução da taxa de juros pelo Banco Central Europeu para os níveis mais baixos já vistos – de 1% – parece ter sido suficiente.

Ao contrário do que se esperava, a queda do PIB da zona do euro foi mais intensa nos três primeiros meses do ano que no fim de 2009, quando foi de 1,6%. Dos 16 países que usam o euro, apenas um não está em recessão. Nos onze países que não usam o euro, a queda foi de 2,5%.

Na comparação com o primeiro trimestre de 2008, o recuo médio dos 27 países da Europa foi de 4,4%. Na Letônia e Eslováquia, a queda foi de 11,2%. Hungria e Romênia caíram 6,4%.

A Itália registrou a maior perda desde 1980. A queda foi de 2,2%, contra uma contração de 2,1% no quarto trimestre de 2008. No ano, o PIB encolheu 5,9%, o pior resultado em 29 anos.

A Espanha registrou queda de 1,8% no trimestre e 2,9% em termos anuais – a pior marca desde 1970. No Reino Unido, a queda foi de 1,9% no trimestre, contra recuo de 1,6% no trimestre anterior.

Até o setor do luxo começa a sentir. A Bulgari registrou seu primeiro prejuízo em uma década. A L?Oreal, maior empresa de cosméticos do mundo, classificou o trimestre de “duro”. O setor de cosméticos é tido como o mais resistente às crises.

Na Europa, o que todos querem saber é se esse foi ou não o fundo do poço. A Comissão Europeia admite que a queda foi maior do que a esperada. Mas aposta em melhoria e recuperação em 2010. “Existem alguns sinais, mas a volta do crescimento ainda está longe”, diz o comissário de Assuntos Econômicos da Europa, Joaquin Almunia.

O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, apontou ontem sinais positivos de recuperação. “Prevemos uma retomada da conjuntura mundial para o primeiro semestre de 2010. A virada da situação deve ocorrer em outubro, novembro ou dezembro de 2009″, disse. Para o governador do Banco da Inglaterra, Mervyn King, a recuperação será “lenta”.

06/05/2009 - 19:41h Quem será o primeiro a sair da crise?

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Gilles Lapouge* – O Estado SP

A crise econômica vai evaporar como uma bolha de sabão, uma gripe suína? Ninguém acredita nisso e, no entanto, já está se começando a delinear um cenário de “saída da crise”. Na Europa, quem vai se recuperar primeiro? Como sempre, os prognósticos são dominados pela rivalidade entre os grandes países europeus.

Entre França, Itália, Inglaterra ou Alemanha, qual país será o mais dinâmico? Qual sairá mais estropiado, caolho, surdo ou capenga? Dois países se fiscalizam: França e Alemanha, os “amigos íntimos” que, na realidade, não param de se vigiar, às vezes até tentando colocar um pouco de veneno na sopa do outro. Até agora é a França que ganha as apostas. Ela deixaria a zona de risco daqui a um ano. Os outros estariam aos empurrões para ocupar o segundo lugar.

Foi Nicolas Sarkozy que pintou esse cenário, que considera justo, pois a França tem a chance de ter um presidente mais inteligente do que os outros presidentes europeus. Portanto, é normal que saia do pesadelo mais rápido do que os outros. E, como é uma boa menina, “ainda ajudaria os vizinhos a sair do buraco”.

O problema é que os especialistas da União Europeia não parecem ter compreendido muito bem esse raciocínio brilhante de Sarkozy. Seus prognósticos são diferentes. Para eles, será a Alemanha que vai sair primeiro da crise. No início de 2010, a França ainda estará em recessão (contração de 0,2% no Produto Interno Bruto), enquanto Alemanha, Inglaterra e Itália já estariam mostrando algum crescimento (de 0,1% a 0,3%).

Que humilhação: até a Itália deverá ter um desempenho melhor do que o da França! Que desgraça! A superioridade da Alemanha é explicada: o país dispõe de uma estrutura industrial mais forte e formada por muitas pequenas e médias empresas muito competentes. Mas, o pior de tudo, é que a França está tragicamente endividada.

E, depois de Sarkozy, a dívida explodiu. Antes mesmo da crise, ela já era profunda. E hoje se subvenciona a toda força. Os bancos são socorridos, como também as montadoras, com bilhões de euros. Entre 2008 e 2009, o déficit público francês dobrou, chegando a 100 bilhões.

No fim de 2008, a dívida pública francesa se elevou para 68% do Produto Interno Bruto, representando uma dívida de 52 mil para cada francês. O serviço da dívida absorve quase a soma total do imposto de renda. O governo, sem dúvida, será obrigado a aumentar a receita, o que significará aumentar impostos e, sobretudo, o valor das contribuições sociais. Não existe meio melhor para frear ou mesmo impedir o crescimento.

Moral da história: o importante não é ser mais inteligente do que todo o mundo (ou dizer isso), é preciso também ser responsável.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

22/04/2009 - 18:26h Imagem contemporânea francesa abre calendário de artes visuais 2009 do Santander Cultural

Imagem contemporânea francesa abre calendário de artes visuais 2009 do Santander Cultural

■ ‘Reflexio: Imagem contemporânea na França ’ faz parte das iniciativas oficiais do Ano da França no Brasil e reúne nomes expressivos da fotografia francesa atual, numa mostra inédita.

■ Seminário Malraux ocorre na mesma semana de abertura da mostra, com três especialistas franceses e brasileiros que discutirão política cultural, indústria cultural e patrimônio.

Porto Alegre, abril de 2009 – A mostra Reflexio: Imagem contemporânea na França, em exposição a partir de 24 de abril, é o projeto do Santander Cultural para a agenda de intercâmbio internacional, inserida no calendário oficial do Ano na França no Brasil. A iniciativa, que tem o apoio da Embaixada da França no Brasil, com a chancela dos Comissariados Francês e Brasileiro e a parceria do Ministério da Cultura, reúne artistas com carreiras consagradas no circuito internacional e extremamente respeitados pela crítica especializada.

A curadora Ligia Canongia, crítica de arte e curadora independente brasileira, que residiu em Paris por nove meses, declara que um dos objetivos da mostra é “apresentar um panorama da nova fotografia francesa no âmbito das artes visuais contemporâneas”.

Reflexio é a origem etimológica latina de dois termos de nossa língua: reflexo e reflexão. A partir desses dois significados, contidos na palavra Reflexio, a exposição dirige-se tanto à idéia de “reflexo”, que faz parte da própria operação fotográfica enquanto mecanismo, quanto à “reflexão”, ou seja, a fotografia vista como forma de pensamento.

Patrick Tosani, Catherine Rebois, Suzanne Lafont, Eric Rondepierre, Jean-Luc Moulène e Valérie Jouve apresentam linguagens distintas e edições de montagem particulares, apresentando ao público algumas formas de a fotografia se articular, hoje, como expressão da arte.

A exposição investiga o papel da imagem na contemporaneidade, e propõe discutir a inserção da fotografia no circuito de arte internacional, uma pesquisa já iniciada desde os anos 80, quando esse suporte despontou como uma das mídias mais exploradas na produção contemporânea.

Da temática das cenas urbanas – que pode se referir a questões políticas, aos guetos sociais ou à arquitetura – até a temática do “corpo” ou da própria história da arte, a fotografia atual trafega por imagens que dialogam tanto com o gênero documental, quanto com cenas criadas a partir do puro imaginário.

Sobre o trabalho dos artistas

Patrick Tosani e Catherine Rebois discutem a questão do ‘corpo’ no universo da imagem – como tratar a corporeidade num meio de virtualidade por excelência, ou como inventar um corpo desmaterializado, que seja tão somente forma imaginária.

Suzanne Lafont e Eric Rondepierre discutem a possibilidade da fotografia intervir sobre outros meios da cultura, e re-construir suas linguagens originais em outros termos. Ambos se alimentam do cinema como fonte. Rondepierre recorta, monta, estabiliza e modifica o fluxo do movimento do cinema. Suzanne constrói cenas dramáticas sem cliques fotográficos estáveis, mas com uma edição cinemática, ou seja, que se reporta à montagem tradicional do filmes.

Jean-Luc Moulène e Valérie Jouve – investigam a realidade banal da vida cotidiana, quer pela análise da vida nas grandes metrópoles – nos seus refugos ou nos seus luxos, quer nos produtos da publicidade, ou ainda no comportamento e expressões humanas do dia-a-dia anônimo e errático.

Compreender o contexto contemporâneo ligado a fotografia tem sido um dos focos de iniciativas do Santander Cultural. A instituição vem realizando importantes mostras com linguagens fotográficas, todas inseridas numa proposta de refletir as possibilidades de interpretação a partir da imagem como; Olho Vivo – Cartier Bresson e os 50 anos da arte fotográfica brasileira (2004/2005), Hiper relações eletrodigitais (2004), e O Grão da Imagem – panorama da obra de Vera Chaves Barcellos (2007) e FILE POA/Rio (2008). Para Liliana Magalhães, superintendente do Santander Cultural, participar do Ano da França realizando iniciativas reafirma o papel da instituição de agente de desenvolvimento ligado na integração de expertises, “Estamos bem satisfeitos em participar dessa agenda posicionando Porto Alegre como protagonista de uma mostra de fôlego, apresentando as novas tendências na França e que traz no seu cerne a reflexão sobre a imagem”.

Na programação de abertura do Ano da França o Santander Cultural alia outro destaque que é o Seminário Malraux, que acontece no mesmo período da abertura da mostra – 23, 24 e 25 de abril -, com três especialistas franceses e a interlocução com brasileiros para discutir política cultural, indústria cultural e patrimônio.

Desde a sua criação pelo governo Francês em 1961, os seminários Malraux (que fazem uma homenagem à André Malraux escritor, crítico e ativista político, três vezes ministro de Estado da informação e da cultura do governo Challes de Gaulle) visam a efetuar, juntamente com outros países, uma reflexão conjunta sobre temas como o papel da política pública da cultura, o financiamento da cultura, a descentralização cultural, a proteção do patrimônio e a capacitação na área de gerenciamento da cultura. Os primeiros encontros do Seminário Malraux foram em 1994, idealizados pelo governo francês como resposta aos interesses de outros países para conhecer a experiência cultural francesa. No Brasil, o Santander Cultural será o palco nacional para as palestras do Seminário Malraux de 2009.

Reflexio: Imagem contemporânea na França

Local: Santander Cultural, Rua Sete de Setembro, 1028

Data: a partir de 24 de abril de 2009

*23 de abril coquetel de abertura para convidados

Horário: Terças às sextas-feiras das 10h00 às 19h00
Sábados, domingos e feriados das 11h00 às 19h00

Entrada franca

22/04/2009 - 17:23h França e Brasil cruzam olhares

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Foto de Alécio de Andrade

Com força na fotografia, algumas cidades abrigam mostras que celebram a atração (e o flerte) entre os dois países

Camila Molina – O Estado SP

É a fotografia a grande estrela das exposições que serão inauguradas esta semana como parte do Ano da França no Brasil. A partir de agora, as atividades vão se intensificar mais e mais, em todo o País. Em Curitiba, por exemplo, Robert Doisneau é o contemplado, com a reunião das imagens poéticas que fez quando contratado por uma grande empresa de carros da França. Em Ouro Preto, as obras da coleção do casal franco-brasileiro Jacques e Maria Helena Boulieu foram reunidas em mostra, como primeiro passo para a criação de um museu com obras de arte religiosa.

E por falar em casais de colecionadores, em São Paulo, o MAM inaugura hoje uma das mostras de grande destaque do calendário: Olhar e Fingir: Fotografias da Coleção Michel e Michèle Auer, com quase 300 imagens de um dos mais importantes acervos particulares da França. Na Grande Sala do MAM, é possível passar por toda a história do gênero fotográfico por meio de um recorte que privilegia a experimentação e a transgressão. Imagens e daguerreótipos coloridos raros fazem parte da ampla exposição.

Em torno ainda da fotografia, o Instituto Moreira Salles inaugura amanhã para convidados e na sexta para o público a mostra O Louvre e Seus Visitantes, com seleção de retratos feitos durante 39 anos pelo brasileiro Alécio de Andrade em passagens pelo maior museu do mundo. Mais Paris: no Instituto Carrefour, Walter Firmo exibe 15 fotos com flagrantes da capital francesa. E a Pinacoteca, que já abriga Fernand Léger: Amizades e Relações Brasileiras, abre no sábado À Procura de Um Olhar, com quase 200 imagens realizadas entre 1937 e 2008 tanto por fotógrafos de origem francesa quanto por brasileiros. Há também espaço para a videoarte: no MIS e no Paço das Artes, Entre-Temps traz vídeos do acervo do Museu de Arte Moderna da cidade de Paris.

22/04/2009 - 16:51h Até 15 de novembro, a ”França inteira no Brasil inteiro”

300 eventos de Norte a Sul vão celebrar o ano do país europeu, aberto oficialmente ontem

 

Roberta Pennafort, RIO – O Estado SP

 


Apesar da chuva, o Ano da França no Brasil foi aberto ontem com um show pirotécnico na Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul. O espetáculo teve início pouco depois das 20 horas. Mais de sete toneladas de fogos, colocadas em sete barcos, explodiram durante meia hora, num espetáculo que começou a ser preparado há dois anos. O tempo ruim que marcou o feriado e piorou no início da noite prejudicou a festa, promovida pelo Groupe F, o mesmo responsável pelo espetáculo visto pelos parisienses na Torre Eiffel na virada do milênio. O público esperado, inicialmente de 1 milhão de pessoas, não passou de 100 mil, segundo os organizadores.

O Ano da França no Brasil vai até o dia 15 de novembro, com a realização de cerca de 300 eventos do Amapá ao Rio Grande do Sul. O ministro da Cultura, Juca Ferreira, e a ministra da Cultura e Comunicação da França, Christine Albanel, disseram ontem que a programação tem como objetivo “o aprofundamento do diálogo entre os dois países”. “Esperamos a reaproximação da França com o Brasil. Nas últimas décadas, houve um certo esmaecimento da presença francesa. Quando eu era menino, nos anos 50, Edith Piaf e Charles Aznavour tocavam no rádio”, disse Ferreira.

A comemoração ocorre como retribuição ao Ano do Brasil na França, em 2005. Na ocasião, mais de 15 milhões compareceram à mostra. Inicialmente estavam planejados 600 eventos para este ano, mas o número foi reduzido por causa da crise mundial. A ideia é mostrar “a França inteira no Brasil inteiro”. Os europeus investiram 15 milhões, entre recursos públicos e privados. Grandes empresas como a Renault, a Air France e a PSA Peugeot Citröen participam. O Brasil entra com R$ 8 milhões. Entre os patrocinadores locais estão Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Petrobrás e Correios.

VIAJANTES BARRADOS

A ministra francesa lembrou os valores comuns entre os dois países, como “o apreço aos direitos humanos e uma visão multipolar das relações internacionais”. Ela ressaltou que seu país está “aberto”, ao comentar o aumento no número de brasileiros repatriados – entre janeiro e março, a quantidade de viajantes barrados no setor de imigração triplicou, chegando, no último mês, a 206. “Ouvi falar, mas não li nada específico. Isso é estritamente uma aplicação das regras do tratado de Schengen (convenção entre países europeus sobre uma política de livre circulação na Europa). Temos mais de 4 mil estudantes brasileiros e gostaríamos de ter muito mais.”

Pela manhã, a pré-abertura do Ano da França ocorreu na cidade histórica de Ouro Preto, a 95 km de Belo Horizonte, num evento marcado por uma grande produção artística, mas ao mesmo tempo por críticas de moradores e turistas que reclamaram das dificuldades de acesso à Praça Tiradentes. A tradicional celebração de 21 de Abril deste ano teve como o lema “Liberdade, ainda que tardia”, em referência aos 220 anos da Revolução Francesa e da Inconfidência Mineira.

A data especial fez as autoridades francesas serem contempladas com as principais honrarias da solenidade, criada em 1952 pelo governador Juscelino Kubitschek. Antoine Pouillieute, embaixador da França no Brasil, foi o orador oficial. Mas os dois principais homenageados franceses, o ex-presidente Valéry Giscard d?Estaing e a ministra Christine Albanel, não compareceram. Ao todo, foram agraciadas 236 pessoas, entre representantes da diplomacia francesa, ministros brasileiros, juristas, empresários, intelectuais, artistas e esportistas. “Essa relação França-Brasil não é uma relação nova, é uma relação de sempre”, disse o chef francês Olivier Anquier, um dos agraciados. “Isso consolida mais esse laço.”

COLABOROU EDUARDO KATTAH

21/04/2009 - 10:17h Governo francês torna regras de entrada cada vez mais rígidas; só em março, 206 brasileiros foram repatriados

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Triplica o nº de barrados

Andrei Netto – O Estado SP

O governo francês está repatriando brasileiros em massa no Aeroporto Internacional Roissy-Charles de Gaulle. Entre janeiro e março, o número de viajantes – a maioria de turistas – barrados no setor de imigração triplicou. Apenas em dois voos nos últimos dias, mais de 30 pessoas foram detidas e devolvidas, muitas das quais sem explicações.

O bloqueio de estrangeiros nos principais aeroportos da França não é dirigido contra brasileiros, mas eles são vítimas cada vez mais frequentes do rigor no controle da imigração ordenado pelo governo do presidente Nicolas Sarkozy. A atitude é paradoxal porque vem no momento em que começa (exatamente hoje) o Ano da França no Brasil, destinado a divulgar uma “França moderna e ávida de diálogo”.

De acordo com a TAM, só em março 206 passageiros que viajavam pela companhia foram impedidos de entrar na França. O número é três vezes maior do que os 67 bloqueados em janeiro e quase o dobro dos 116 retidos em fevereiro.

A indignação com as restrições vem crescendo nas duas últimas semanas, graças a um protesto em torno do repatriamento da professora universitária Solange França, de 39 anos. Docente da Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus, na Bahia, a engenheira agrônoma foi barrada no voo TAM 8068, que chegou ao Aeroporto Charles de Gaulle às 14 horas da quinta-feira, dia 10. Nas sete horas que se sucederam, Solange foi detida para conferência de documentação e encaminhada para uma sala da Direção de Polícia de Fronteiras (Dpaf). Lá, tentou se explicar, antes de ser obrigada a embarcar em um voo de retorno ao País.

SEM DOIS DOCUMENTOS

Mesmo com passaporte regular, dinheiro – 1,8 mil – e cartões de crédito, Solange acabou tendo o acesso à França negado pela falta de dois documentos: um seguro-saúde e um atestado oficial, emitido pelas prefeituras distritais na França, reconhecendo o abrigo temporário em um endereço preciso – como hotel ou a casa de amigos. “Solicitei esclarecimentos ao policial da recepção, mas ele mandou que eu me sentasse, em um tom de voz ameaçador e agressivo. Neste momento, percebi que estava sendo expulsa da França”, relatou. Junto dela, outros 15 brasileiros também foram obrigados a assinar um termo de “recusa de entrada”.

A ira seguinte acaba repassada ao Consulado do Brasil em Paris, por causa da suposta indiferença com que estaria tratando as vítimas. A própria Solange é uma das que denunciaram a suposta negligência. Enquanto era detida, tentou auxílio na embaixada, por telefone, mas um número havia sido modificado e outro não atendia. Um terceiro telefonema foi atendido por um vigia, que lhe forneceu um telefone celular do plantão de emergências, que estava desligado.

O retorno dos apelos só aconteceu horas mais tarde. “Eu me senti desprotegida. Quando consegui o auxílio, já era tarde. Talvez antes ainda fosse possível pagar um seguro-saúde, ou reservar um hotel, mas nada disso pôde ser tentado”, lamenta a professora. “O que me espanta é que um número elevado de brasileiros está retornando todos os dias e o consulado não parece preparado.”

VISTO PARA CÔNSUL

Procurada pelo Estado, a embaixadora Maria Celina Rodrigues, cônsul em Paris, afirmou que Solange não havia atentado para algumas exigências do governo francês, mas não isentou o Ministério da Imigração de críticas. “Não temos como fazer mais pelos brasileiros que são retidos porque a verificação é feita na porta do avião, onde não temos acesso.”

Maria Celina confirmou os atritos no Aeroporto Charles de Gaulle. “Há uma série de problemas que estão acontecendo e infelizmente escapam ao nosso controle. Perdemos a capacidade de agir”, diz, referindo-se às cotas de expulsão de estrangeiros do governo francês. “A situação é preocupante. Uma alternativa seria cancelar os acordos de ingresso automático e ambos os países passarem a exigir vistos. Só não sugiro esta alternativa ao Itamaraty porque seria necessário denunciar o acordo em vigor e, além disso, não teríamos pessoal para atender à demanda.”

A embaixadora revelou ainda que já foi vítima do rigor francês. Ao assumir o cargo, mesmo em função diplomática, teve de requisitar visto de trabalho à Embaixada da França no Brasil, uma atitude incomum. “Então, sugeri ao Itamaraty que adotasse o princípio da reciprocidade, o que acabou acontecendo”, conta. Maria Celina explicou ainda que tenta obter uma audiência no Ministério da Imigração para esclarecer o problema, mas ainda não foi atendida.


Rigidez nas normas envergonha até franceses

“Nós não temos mais o direito de receber nossos amigos sem pedir autorização?”, indagam

ANDREI NETTO – O Estado SP

Casos como o da professora Solange França, repatriada ao Brasil, causam inconformidade não apenas entre imigrantes, mas também entre cidadãos franceses. Yves Bellenand, francês que hospedaria Sônia e a aguardava no saguão do aeroporto no dia do repatriamento, é um dos que se mostram indignados contra o rigor imposto pelo Palácio do Eliseu contra os estrangeiros. “Vergonha e revolta são os dois sentimentos que me movem. Vergonha de ser francês e revolta contra um poder que tem como linha de conduta a repressão pura.”

Segundo Bellenand, o atestado oficial de acolhimento (recepção de visita estrangeira, por exemplo) exige, além do preenchimento de formulário, comprovantes de pagamento de eletricidade e de aluguel, atestado de salubridade do imóvel, cópia de carteira de identidade e 45 de taxa. E, mesmo assim, o acolhimento pode ser negado. “Não temos mais o direito de receber nossos amigos estrangeiros sem pedir autorização?”, questiona Bellenand, casado com uma brasileira.

Por trás do aumento dos casos de repatriamento está uma política de Estado, ordenada pelo governo e posta em prática pelos Ministérios da Imigração e do Interior, que estipulou metas de expulsões. Em janeiro, o ministro da Imigração, Brice Hortefeux, apresentou, com orgulho, os números de sua gestão. Só em 2008, 29,7 mil estrangeiros em situação “irregular” foram “reconduzidos à fronteira”, ante 23,2 mil em 2007. O número foi além do imaginado, uma vez que o objetivo – admitido por Hortefeux -, era de 26 mil expulsões.

Procurado pelo Estado, o Ministério da Imigração informou que não se pronunciaria e o do Interior não respondeu.

07/04/2009 - 20:05h Os limites do bonapartismo

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David Rieff – VALOR

Sarkozy pode se dar ao luxo de dar as costas a seu partido, em vista do colapso total da oposição socialista

Após quatro décadas, a França retornou ao comando militar unificado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). De uma tacada, o presidente Nicolas Sarkozy derrubou um dos pilares da política francesa – e do legado de Charles de Gaulle, fundador do próprio partido político de Sarkozy.

A decisão é coerente com a maneira como Sarkozy governou desde sua eleição em 2007. Quer se trate de buscar uma reforma para o sistema judiciário francês, redesenhar seu mapa administrativo, propor uma nova aliança de países mediterrâneos, ou aparentemente por fim à ambígua política externa francesa – de alinhamento e não alinhamento com os Estados Unidos -, Sarkozy é pura ambição.

O problema é que um número excessivo de decisões de Sarkozy revelaram-se puramente simbólicas, como a malfadada União Mediterrânea; mal concebida, tal como a reforma judiciária, à qual se opõe virtualmente toda a magistratura; ou abertamente motivada por autointeresse, como a reforma administrativa, que de alguma maneira conseguiu abolir apenas os departamentos e administrações regionais controlados pela oposição socialista.

Muita gente no UMP, partido governante de Sarkozy têm se manifestado cada vez mais publicamente, ao expressar sua insatisfação com seu método de tomada de decisões. Na realidade, em vez de conceder séria margem para tomada de decisões a seu primeiro-ministro, François Fillon, ou ao gabinete de Fillon, Sarkozy trouxe praticamente todas as alavancas de poder para si e seus assessores dentro do palácio do Eliseu.

Com efeito, poucas observadores informados duvidam de que Jean-David Levitte, principal assessor de política externa de Sarkozy, tenha influência muito maior do que o ministro de Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner. Analogamente, em questões de política interna, a ministra do Interior, Michele Alliot-Marie, nada tem que se aproxime da agenda poderosa de Claude Guéant, assessor histórico de Sarkozy e diretor-geral do gabinete presidencial.

A despeito dos hábitos autoritários de de Gaulle ou de François Mitterrand, a personalização da presidência por Sarkozy é inédita na história da Quinta República. Sarkozy faz pouco segredo de seu desdém por membros de seu próprio partido, atraindo para seu gabinete socialistas como Kouchner e Rama Yade, vice-ministro para Relações Exteriores, e nomeando socialistas aposentados da cena política, como o ex-primeiro-ministro Michel Rocard, para comandar comissões nacionais e representar a França em negociações de tratados internacionais. Sarkozy pode se dar ao luxo de dar as costas a seu partido, em vista do colapso total da oposição socialista, que quase certamente perderá a eleição em 2012.

Se Sarkozy governasse com eficácia, esses desvios políticos e institucionais poderiam parecer uma lufada de ar fresco em uma sociedade cujas instituições parecem cada vez mais inadequadas diante dos problemas de uma sociedade multiétnica e pós-industrial (ainda que a dirigista França tenha conservado sua base industrial melhor do que muitos outros países ricos).

Foi assim que muitos dos que apoiavam o pleito presidencial de Sarkozy o viam. Apesar das diferenças de políticas, Sarkozy seria para a França o que Margaret Thatcher fora para o Reino Unido: um líder que tiraria o país de seu impasse, conservando os melhores aspectos de dirigismo, mas finalmente dando aos empreendedores espaço para crescer, reprimindo a criminalidade e reformando o ensino.

Mas Sarkozy não governou com eficácia, como deixam abundantemente claro o desencanto de seu partido consigo e dados de pesquisas. O caráter frenético de sua presidência – iniciativa transbordando em iniciativa, cada uma delas sendo a solução transformativa para o problema imediato e toda oposição sendo denunciada como eivada de mentira, ma fé e covardia – desgastou-se.

Em relação a diversas questões, especialmente salários, impera a liberalização do emprego, e a reforma do judiciário e da educação secundária, programas anunciados com tremendo alarde tiveram de ser adiados ou cancelados. Quase invariavelmente, Sarkozy atribuiu a culpa ao ministro em questão, e então avançou para o tema seguinte que atraiu seu interesse. Enquanto isso, sua obsessão com o domínio do ciclo diário de notícias, não importa quão volátil o pretexto, continua inclemente. Ele já chegou a aparecer em cenas de crime – não provocados por distúrbios urbanos, mas de crimes passionais privados, onde nenhuma razão de Estado poderia justificar a presença do presidente da República.

Em vista do estado patético da oposição socialista, é difícil ver que preço, se algum, Sarkozy pagará por seu histórico na presidência. Mas esse estilo de governo – essencialmente uma campanha eleitoral, e não um governo – praticamente assegura que quase nada de real importância poderá ser realizado.

Em recente entrevista coletiva à imprensa, o presidente americano Barack Obama comentou abominar fazer comentários precipitados sobre questões de grande relevância pública antes de ter absoluta certeza de conhecer o assunto em questão – e antes que tivesse segurança de sua opinião sobre o tema. Muitos franceses desejariam que tal autodisciplina pudesse contaminar Nicolas Sarkozy. Dado seu temperamento, porém, isso dificilmente parece provável de acontecer. Em consequência, um governo no qual muitos tinham colocado grandes esperanças está descambando em demagogia e ineficácia.

David Rieff é autor de “At the Point of a Gun: Democratic Dreams and Armed Intervention” (A queima roupa: sonhos democráticos e intervenções armadas). Seu livro mais recente, “Swimming in a Sea of Death: A Son´s Memoir” (Nadando num mar de morte: memória de um filho), trata de sua mãe, a romancista e crítica Susan Sontag. © Project Syndicate/Europe´s World, 2009. www.project-syndicate.org

06/04/2009 - 14:09h Brazuca em Paris

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Severino Francisco – Correio Braziliense

Severinofrancisco.df@diariosassociados.com.br

“Vou voltar, vamos comigo?”, perguntou a namorada francesa, de passagem pelo Brasil. E, sem pensar muito, meio na louca, o brasiliense Daniel Carrielo se mandou para Paris com Charlote, a namorada francesa. Certo dia, encontrou numa banca uma revista sobre cultura brasileira, intitulada Brazuca. Na edição seguinte, ele já era o cronista de Brazuca. E, três meses depois, tornou-se o editor. Sem desmerecer o Itamaraty, a revista faz um pouco o papel de embaixadora do Brasil na França.

Brazuca tem uma tiragem de 20 mil exemplares e é feita, principalmente, para belgas e franceses apaixonados pela cultura brasileira. Não é uma revista de comunidade, dirigida apenas aos brasileiros. O que a revista pretende passar é uma visão diferente do Brasil, longe dos estereótipos. Por isso, ela entrevistou o compositor Tom Zé, o jogador Nilton Santos, a atriz Brigitte Bardot e o diretor de cinema Fernando Meirelles. No ano passado, logo após um show do Gilberto Gil na França, Daniel levou a revista para que ele a conhecesse: “Ah, é a Brazuca? Já conheço, gosto dela”, comentou Gil.

No ano passado, Brazuca foi além do papel e lançou virtualmente duas coletâneas de música brasileira. A primeira foi do rock independente, em parceria com o site Senhor F. E a segunda foi com a produtora, selo e festa Criolina, com as novidades do groove brasileiro. Ambas tiveram um alto índice de downloads.

O Nélson Rodrigues escreveu uma crônica hilária sobre a passagem do filósofo francês Jean-Paul Sartre pelo Brasil. Segundo a ótica delirante do Nelson, Sartre olhava para todos os brasileiros com um franco desprezo, como se dissesse: “Vocês são todos uns cretinos”. Aí alguém trouxe um balde de jaboticabas e o Sartre passou a mirar as frutas com o mesmo asco: “Vocês também são umas cretinas”.

Embora achando graça na história, Daniel discorda inteiramente do Nelson, pois os franceses são fascinados pelo Brasil e pela cultura brasileira. O brasileiro tem uma ginga que o francês não tem, argumenta Daniel. Essa ginga pode ser representada por manifestações culturais como o samba, a capoeira, o funk. Pelo drible no futebol. Ou pela capacidade que o brasileiro tem de se adaptar rapidamente às situações imprevistas, o famoso jogo de cintura. Os franceses gostam de samba, de Cartola, de Beth Carvalho, de Bossa nova, de Cinema Novo, de Glauber Rocha. Mas, atualmente, o brasileiro que reina na França é o pernambucano Lenine.

Morar na França fez com que Daniel olhasse Brasília com novos olhos. No mês passado, ele estava dirigindo e, de repente, deu de cara com a Catedral. Foi um choque estético, pois precisou estar longe do Brasil para perceber o quanto a Catedral é bonita. Mas, por outro lado, ele também se deu conta do enorme equívoco de se conceder tanto espaço para os carros em Brasília. Em Paris, o transporte público é excelente, com 14 linhas de metrô e 20 mil bicicletas públicas. Alargar avenidas não resolve o problema. A solução é investir no transporte público como uma prioridade, sentencia o brazuca e brasiliense desgarrado em Paris.

01/04/2009 - 09:27h Maionese, cocoricós e o G20

Manif anti sarko

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VINICIUS TORRES FREIRE – FOLHA SP


Reunião “histórica” começa sob ameaça de fiasco prático e risco de maior desacordo internacional sobre a crise


“LA MAYONNAISE va prendre” é uma expressão francesa tanto para dizer “a coisa vai engrenar” como, em contexto de maior exaltação, “o caldo vai engrossar”. Nicolas Sarkozy, marido de Carla Bruni, aliás presidente da França, ameaça bater a maionese na reunião do G20, que começa amanhã, em Londres. Não é o mais importante dos tiros no concerto do G20, mas é sintomático.
Sarkozy vazou para imprensa que “deixará uma cadeira vazia” no G20 caso os EUA não aceitem uma reforma que endureça os controles sobre a finança mundial. “Cadeira vazia” é um clássico gaullista, de quando Charles de Gaulle deixou seus pares da Comunidade Econômica Europeia falando sozinhos, em 1965.
A maionese caseira de Sarkozy desanda. Há o risco de a crise levar franceses em massa às ruas, o que não tem tido consequências maiores desde os anos 1960, embora tenha levado à breca um governo liberal, nas grandes greves de 1995. Enfim, nunca se sabe o que pode dar quando há franceses irados na rua. Sarkozy canta, pois, um cocoricó para a galera, tirando casquinha dos EUA. Além do mais, se sair do G20, faz o quê? O que importa? O PIB francês equivale a 6% das 19 economias do G20 (19 países mais um representante da União Europeia). Os EUA têm 30% do PIB do G20.
A chanceler alemã, Angela Merkel, deve reafirmar sua oposição ao apelo de Barack Obama, que pede mais gasto público no mundo a fim de conter o colapso global. Os alemães são conservadores em juros e dívida, mas temem mesmo é ter de bancar a conta do colapso da Europa, que não tem governo unificado para fazer pacote fiscal. A Alemanha é 8% do G20 e, na previsão da OCDE, seu PIB deve encolher uns 5% em 2009.
O premiê japonês, Taro Aso, apoia os americanos e critica Merkel. Aso vai a Londres com aprovação de apenas 25% dos japoneses e sob o risco de governar a pior recessão no mundo rico (queda de 6,6% do PIB, diz a OCDE). O Japão, 10% do PIB do G20, tem, porém, a experiência de quase 15 anos de estagnação, fruto do estouro de uma bolha imobiliária, de uma outra na Bolsa e da reação oficial tardia à crise. Aso apoia a ideia americana de triplicar os fundos do FMI, está soltando um pacote fiscal de US$ 100 bilhões a US$ 200 bilhões, uns 2% a 4% do PIB, e anunciou ajuda para a Ásia.
O anfitrião Reino Unido é sempre pró-EUA, mas não que ver o caldo entornar em casa e está meio sobre o muro. Os chineses, que têm 8% do PIB do G20, vão aproveitar para tirar um cascão dos EUA, como o têm feito, acusando-os de irresponsáveis e sugerindo, por ora retoricamente, dar cabo do dólar como moeda mundial. Os russos estão falidos, mas são mais um problema político.
O resto é mais ou menos o resto.
Aliás, do que vai tratar mesmo o G20? De estímulo à demanda mundial, de reforma financeira, de evitar protecionismo. Numa reunião de um dia, cheia de ruídos, na qual o “Ocidente” tentará tanto lançar mão do “ouro de Pequim” como evitar que a China atraia mais emergentes para seu lado. Em que os líderes terão de falar “urbi et orbi”, por algum acordo internacional, para as ruas que querem protecionismo, para Wall Street que não quer saber de restrições etc. Vai dar certo, isso?

vinit@uol.com.br