Camila Giorgetti – Carta Capital
Quem assiste ao filme Entre os Muros da Escola, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em cartaz no Brasil, espanta-se com as semelhanças entre aquela escola da periferia parisiense e qualquer escola dos bairros pobres de São Paulo. O sentimento de exclusão e as dificuldades de comunicação entre o professor e os jovens que se sentem apartados do sistema educacional são verdade lá e são verdade aqui.
Uma pesquisa realizada simultaneamente pelos dois países indica que a sensação do espectador está, sim, colada à realidade. Os pontos de encontro – e de diferenciação – entre a periferia parisiense e a paulistana foram esmiuçados num rico trabalho de campo realizado nos últimos dois anos.
Na França, o estudo inclui-se no projeto Santé, Inégalités et Ruptures Sociales (Saúde, Desigualdades e Rupturas Sociais) e foi feito em 3 mil domicílios. No Brasil, a pesquisa integrou o projeto Meio Ambiente, Desigualdades e Representações Sociais, desenvolvido no Procam-USP, e abarcou 703 residências nos bairros de Campo Limpo e Capão Redondo.
Os dados, saídos do forno, foram apresentados no final de abril na Estação Pinacoteca, em São Paulo, e no Centro de Altos Estudos da USP. CartaCapital convidou a coordenadora da pesquisa no Brasil, Camila Giorgetti, a entrevistar o pesquisador francês Serge Paugam.
Camila, pesquisadora do Procam, foi orientanda de Paugam no mestrado e no doutorado, sobre moradores de rua. Paugam é professor doutor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, pesquisador do Centro Nacional da Pesquisa Científica e diretor do Eris (Equipe de Pesquisa sobre as Desigualdades sociais).
Na entrevista, os dois nos revelam uma periferia que a mídia não vê e indicam que, aqui como lá, o mal-estar psicológico pode ser mais cruel que a falta de bens materiais.
CartaCapital: O que o levou a estudar a periferia parisiense?
Serge Paugam: Meu interesse pelas desigualdades urbanas não é recente. Em 1988, defendi minha tese de doutorado na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais sobre o processo de desqualificação social, que se baseava nas relações estabelecidas entre os moradores dos conjuntos habitacionais degradados de Saint-Brieuc, cidade de porte médio da Bretanha. Mas o fenômeno da concentração da pobreza nas periferias francesas cresceu desde então, o que explica, ao menos parcialmente, as revoltas urbanas de 2005 na região parisiense e em outras grandes cidades francesas. Pareceu-me necessário compreender as causas desse profundo mal-estar. Nessa época, nasceu o projeto de realização de uma grande pesquisa intitulada Saúde, Desigualdades e Rupturas Sociais, concebida com o intuito de analisar os efeitos próprios do lugar de residência nas diversas dimensões da saúde e da vida social, constituindo-se em um importante meio de explicar as crises em Paris e de sua periferia.
CC: Não é curioso que esta crise aconteça em um país no qual o Estado intervém tradicionalmente com o objetivo de reduzir a pobreza e as desigualdades urbanas?
SP: É, de fato, um paradoxo. Mas vale lembrar que nosso atual presidente, Nicolas Sarkozy, enquanto ministro do Interior, fez algumas declarações provocadoras, dias antes da irrupção das revoltas, sobre os jovens da periferia, chamando-os de “ralé” e enfatizando que era necessário limpar e esguichar a cidade. Por outro lado, a pobreza evoluiu consideravelmente na França, bem como em inúmeros países europeus. No final dos anos 90, comecei a perceber que a explicação da pobreza pela ótica da injustiça, até então predominante na França, havia perdido força. Ao tentar medir esse fenômeno, através da comparação entre inúmeras pesquisas europeias, percebi que a tentação de ressaltar a indolência dos pobres para explicar sua situação havia recrudescido em todos os países europeus. Passou a haver um domínio da ideia de que, se os pobres permanecem pobres, é porque não fazem esforços necessários para saírem da situação na qual se encontram. Eu acreditava profundamente no nosso tradicional apego aos direitos humanos e na obrigatoriedade do Estado em auxiliar os mais desfavorecidos. Mas pode-se ver que, na França, passamos de um ciclo de compaixão em relação aos pobres a um ciclo de responsabilização e de suspeição generalizada.
CC: Qual é a relação entre a crise na periferia e a imigração?
SP: A França é um país de passado colonialista. As periferias francesas reúnem, em razão dessa história, um grande contingente de imigrantes, sobretudo do Magreb ou da África Subsaariana. Muitos jovens originários desses países, mas nascidos na França, esperavam, assim como seus pais, uma promoção social através da escola republicana francesa. Mas muitos deles, mesmo os mais diplomados, se deparam ainda hoje com inúmeras dificuldades de inserção profissional. As pesquisas demonstram que eles são frequentemente vítimas de discriminação no momento das contratações e que enfrentam dificuldades em ser reconhecidos unicamente por seus valores. Inúmeros jovens das periferias estão desempregados e vivem em lares nos quais a pobreza é alarmante. A concentração de miséria nesses bairros reforça o descrédito que repousa sobre os seus moradores. Trata-se de um processo de desqualificação social e espacial. O desemprego, sozinho, não explica esse mal-estar. É necessário considerar também os ressentimentos e frustrações diante de um modelo de integração social que não cumpriu suas promessas.
CC: É por essa razão que o senhor se debruçou sobre o mal-estar psicológico?
SP: Estudar os fatores sociais que engendram o mal-estar psicológico constitui uma preocupação permanente entre a maioria dos sociólogos, desde o famoso estudo de Durkheim, em 1897, sobre o suicídio. Acredito que a crise nas periferias francesas reforça a necessidade de realizar esse tipo de pesquisa. A questão está em definir rigorosamente o que se entende por essa expressão. Na pesquisa, tentamos definir os sintomas depressivos das pessoas que vivem nos bairros socialmente desqualificados, formulando perguntas como: No decorrer das duas últimas semanas: 1. Você se sentiu triste, deprimido, na maior parte do dia, e isso se repetiu durante a semana? 2. Você tinha quase todo o tempo o sentimento de não gostar mais de nada, de ter perdido o interesse por coisas que o agradam? 3. Você se sentiu durante quase todo o tempo cansado e sem energia?
CC: Esse mal-estar se estende a todos os bairros ou é possível observar diferenças entre eles?
SP: O mal-estar psicológico está desigualmente distribuído entre a cidade e a periferia. Como é possível imaginar, ele se concentra nos bairros populares. Nota-se, porém, que há uma grande diferença entre os bairros populares no que diz respeito ao mal-estar. Existem determinados fatores estruturais relacionados às configurações espaciais do bairro. A primeira causa é o desemprego: quando afeta coletivamente um grupo social, gera uma comunidade cansada e deprimida. Mas o resultado mais surpreendente é o efeito da similitude social sobre o mal-estar psicológico. Quando os moradores afirmam maciçamente que se parecem uns com os outros, reconhecem indiretamente que pertencem a uma comunidade à qual foram destinados. Esse grau de similitude age como proteção individual e se constitui como uma forma de defesa natural dos mais pobres, desenvolvida frequentemente nas regiões onde estão concentrados. Isto é, quando “os pobres” formam um grupo social extenso, dificilmente são estigmatizados e aceitam o apoio uns dos outros.
CC: A pesquisa que realizamos conjuntamente visando a comparação entre São Paulo e Paris e suas visitas anteriores ao Brasil contribuíram, certamente, para o senhor formular uma opinião sobre a periferia de São Paulo. O que mais chamou a sua atenção?
SP: Eu não surpreenderia você afirmando que fiquei espantado com o tamanho gigantesco das inúmeras favelas de São Paulo. Na França, havia favelas nos anos do pós-guerra, mas a política urbana praticada a partir dos anos 1950 permitiu a construção de grandes conjuntos habitacionais e a diminuição progressiva de moradias insalubres. A França se depara hoje com a obsolescência desses grandes conjuntos habitacionais construídos naquela época, e com a desqualificação social de seus moradores. A história urbana de Paris é muito diferente da de São Paulo: enquanto o Brasil deve solucionar suas favelas, a França deve reconstruir a maior parte do parque habitacional popular localizado nos bairros pobres e constituído por habitações que seriam consideradas luxuosas por muitos moradores das favelas do Brasil.
CC: Os resultados da pesquisa comparativa revelam que o índice de mal-estar em São Paulo está muito próximo do atingido em Paris e na sua periferia. Acredito que isso se deve a uma aceleração do nível de consumo das classes sociais de baixa renda. O senhor concorda com essa hipótese?
SP: Sim. O forte crescimento econômico nesses últimos anos gerou esperança com relação ao progresso nos meios mais desfavorecidos e levou inúmeros moradores das favelas a se endividarem consideravelmente. Alguns moradores que trabalham cotidianamente em outros bairros, percorrendo longas distâncias, se diferenciam fortemente dos que permanecem no bairro sem trabalho, por aderirem a uma prática de consumo que provoca frustrações. A pesquisa revelou que alguns adotam determinadas atitudes visando se distinguir socialmente do seu entorno, reduzindo assim o nível de solidariedade nesses bairros. Os dados coletados parecem indicar que o mal-estar na periferia de São Paulo se explica pela degradação das relações sociais entre os habitantes e pela sua pressa em ver que sua situação econômica e social melhorou.
CC: Como o senhor pôde constatar, a família assume um significado diferente na sociedade brasileira, que contrasta com o significado atribuído na França e em outros países europeus. Acredita que os vínculos familiares mais fortes podem amortecer os efeitos da crise no Brasil?
SP: É comum, quando as pessoas se referem ao Brasil, mencionar a força da solidariedade familiar entre os pobres. Os dados coletados em São Paulo mostram que o porcentual de pessoas que moram na periferia, cujos parentes habitam o mesmo bairro, é mais elevado em São Paulo do que em Paris. Isso nos leva a acreditar que, em caso de fortes desigualdades, eles podem se beneficiar de um apoio familiar e resistir melhor às crises. Os moradores desses bairros chegam a dizer que os vizinhos fazem parte da sua família. Mas duas coisas surpreendem: o elevado porcentual de pessoas que se sentem só e o fato de ser mais alto em São Paulo do que em Paris. Tudo leva a crer que, nas favelas, há uma tendência à individualização e à procura de autonomia. Esse movimento tem como consequência o aumento da depressão entre pessoas isoladas que se encontram socialmente vulneráveis.
CC: O senhor poderia contar o que a pesquisa revelou sobre as redes de sociabilidade? Elas constituem realmente um apoio para o enfrentamento dos problemas econômicos?
SP: Em princípio, sim. Nos países pobres, as pessoas se unem umas às outras quando têm o sentimento de compartilhar o mesmo destino. A solidariedade representa uma importante forma de sobrevivência. Mas esses vínculos sociais são enfraquecidos na medida em que não garantem nada além da sobrevivência, não fazem com que as pessoas deixem de ser pobres e ascendam socialmente.
CC: Os resultados da pesquisa em São Paulo sobre o desejo de transformação social são surpreendentes porque mostram que a periferia “não está morta”…
SP: Dizem que os franceses são contestadores, sempre prontos para manifestar seu descontentamento com relação à ordem estabelecida. Mas, ao comparar os resultados das duas pesquisas, chama a atenção que a proporção de pessoas que desejam uma transformação radical da sociedade é mais elevada em São Paulo. Incontestavelmente, existe na periferia dessa cidade uma situação prestes a explodir, que poderia se traduzir por uma forma de radicalismo pouco politizada. Entretanto, a conscientização política é necessária para a democracia e o desenvolvimento da cidadania. Em São Paulo, bem como em Paris, há muito o que fazer nesses bairros populares, a fim de permitir que essas populações tenham uma melhor integração social na cidade.