09/09/2008 - 15:42h Conservator Tabajara e estatização

VINICIUS TORRES FREIRE


Para o governo Bush, controle estatal de megaempresas é “conservatorship”. Para Paul Krugman, é “desprivatização”

http://images.publicradio.org/content/2008/04/18/20080418_freddie_mac_and_fannie_mae_logos_18.jpg“CONSERVATORSHIP” é o nome que o governo Bush deu ao controle estatal das duas maiores empresas de financiamento imobiliário do país.
Um “conservator” é um tutor ou interventor. “Conservator” lembra Organizações Tabajara. Os problemas do mercado podem não ter acabado, mas o “Conservator” limpa de graça a lambança que o mercadismo promoveu, em propaganda e atos.
Paul Krugman chamou a coisa de “desprivatização”. O economista de Harvard, da “esquerda” americana, é colunista do “New York Times” (no Brasil, Krugman seria “ortodoxo”, mas passemos). Escreveu em seu blog: “Prefiro que as pessoas não digam que Fannie e Freddie foram “nacionalizadas” [estatizadas]. Quer dizer, está basicamente certo, mas passa uma impressão errada”.
Krugman lembra que a Fannie Mae era uma agência estatal criada em meio à Grande Depressão, em 1938, e privatizada em 1968. Acha que tais empresas não devem ser privadas. Por isso, diz meio sarcasticamente que elas foram “desprivatizadas”. “Não é como o caso do governo britânico, que [no passado] tomou as siderúrgicas. É algo como despedir o pessoal da Blackwater [os mercenários contratados pelo governo dos EUA] e devolver a responsabilidade pela segurança dos diplomatas para os fuzileiros [marines]”.
Bradford DeLong é outro economista reputado, professor de Berkeley. Foi subsecretário-assistente do Tesouro no governo Clinton. Em seu blog, DeLong duvida que o negócio de empacotar dívidas imobiliárias deva ser privado. Chama a “conservatorship” de estatização.
Gregory Mankiw também é de Harvard e autor de um popular livro-texto de introdução à macroeconomia. Foi presidente do Conselho de Assessoria Econômica de George Bush, filho. É ultraliberal, mas não se opôs à inevitável “conservatorship”, que para ele resultou de um “takeover” (tomada de controle ou aquisição). Mas diz no seu blog que fica “entristecido toda vez que uma empresa que visa o lucro é socorrida, seja a Chrysler, o LTCM, o Bear Stearns ou a Fannie Mae e a Freddy Mac”. É o argumento tradicional: socorro para falidos (e para quem tem negócios com eles) é um incentivo ao risco irresponsável.
O governo “conservator” será dono de Fannie Mae e Freddie Mac. Vai emprestar dinheiro às empresas a 10% ano (caro, mas menos que bancos estão pagando na praça). Vai fazer dívida pública a fim de financiar a comprar títulos lastreados em prestações imobiliárias (os ativos dessas empresas) e não vai vender tais papéis no mercado a fim de evitar que percam ainda mais valor, tentando conter assim o aumento do buraco em bancos e fundos.
Difícil imaginar outra saída. Dir-se-á que os donos dos negócios socorridos estão sendo expelidos do controle ou vendo suas ações virarem pó (mas não é o caso do seguro grátis que o Fed dá para os papéis podres dos bancos, que servem de garantia para empréstimos oficiais).
Mas tais negócios já não valiam nada. O dinheiro grosso foi feito durante a festa e ficou com os convidados, que não pagam o seguro implícito, fornecido pelo Estado e que limpa a sujeira. Não é, óbvio, o caso de jogar o mercado fora, mas de dar cabo da gororoba ideológica do mercadismo.

vinit@uol.com.br

09/09/2008 - 12:07h O poder da deflação

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PAUL KRUGMAN - DO “NEW YORK TIMES” - FOLHA SP

SALVAR AS instituições de crédito hipotecário salvará o mundo? Quem dera fosse simples assim.

A tomada de controle das gigantes Fannie Mae e Freddie Mac era decerto a coisa certa a fazer, e a maneira pela qual foi realizada também merece elogios. O plano ajudará a sustentar instituições que desempenham papel crucial na economia, enquanto reduzirá os custos para os contribuintes ao mais ou menos zerar os valores dos ativos dos acionistas.

Mas a medida precisa ser vista em contexto mais amplo, o da tentativa do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) e do Departamento do Tesouro de conter os efeitos adversos da crise financeira. E essa é uma luta que as autoridades parecem estar perdendo.

Passou muito tempo desde que Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, declarou que uma bolha nacional no setor de habitação era “altamente improvável”. Tivemos a tal bolha e, desde que ela estourou, dois anos atrás, os preços dos imóveis residenciais vêm caindo mais rápido do que o fizeram durante a Grande Depressão.

A queda nos preços das casas, por sua vez, conduziu ao muito temido fenômeno da “deflação de dívidas”. Sim, deflação: os preços estão subindo no varejo, mas o valor dos ativos, aqueles que importam nos balanços, está em rápida queda.

Como observou o economista Irving Fisher em 1933, quando indivíduos e empresas altamente endividados encontram dificuldades, em geral vendem ativos e usam os proventos para saldar suas dívidas. O que Fisher apontou, no entanto, foi que vendas como essas terminam por se tornar contraproducentes nos momentos em que todos agem do mesmo jeito: a queda resultante nos preços de mercado solapa as posições financeiras dos devedores mais rápido do que é possível liquidar as dívidas. Assim, a deflação nos preços dos ativos pode se tornar um círculo vicioso.

E uma das conseqüências do que ele chamou de “estouro de liquidação” é uma severa desaceleração econômica. É isso que está acontecendo agora, e a deflação de dívidas passa por problemas especialmente espinhosos porque os principais protagonistas do mercado estão altamente alavancados -ou seja, seus ativos foram em larga medida adquiridos com dinheiro que tomaram de empréstimo.

Como definiu Paul McCulley, do fundo de investimento Pimco, em ensaio recente intitulado “O Paradoxo da Desalavancagem”, nos últimos meses mais ou menos todas as instituições financeiras estavam tentando reduzir sua alavancagem, mas a queda nos valores dos ativos ainda assim fez com que suas dívidas crescessem, como proporção de seus ativos totais.

E os números continuam a piorar. Em julho de 2007, Ben Bernanke, atual presidente do Fed, sugeriu que os prejuízos com o mercado de títulos hipotecários de risco (”subprime”) seriam de menos de US$ 100 bilhões. No mês passado, o total ultrapassou os US$ 500 bilhões e seguem crescendo.

O que nos conduz a Fannie e Freddie -as duas únicas instituições de grande porte que não haviam entrado na corrida da desalavancagem, e é por isso que respondem no momento por 70% dos novos empréstimos hipotecários. Mas suas fundações financeiras foram solapadas pela deflação de dívidas, mesmo que seus empréstimos demonstrem mais responsabilidade que a média.

Assim, era preciso resgatar as duas instituições, ou a deflação de dívidas teria se tornado ainda pior. Mas será o suficiente?
Duvido. A crise financeira nos EUA se parece muito com a do Japão no final dos anos 1980, que levou a uma desaceleração de uma década e preocupou muito economistas americanos e o Fed. Imaginávamos se a mesma coisa poderia acontecer aqui, e economistas do Fed desenvolveram estratégias que supostamente deveriam impedir esse desfecho. Acima de tudo, a resposta a uma crise financeira ao estilo japonês deveria envolver uma combinação muito agressiva de cortes nos juros e medidas de estímulo fiscal, para impedir que uma crise virasse forte desaceleração na economia real.

Quando surgiu a crise atual, Bernanke de fato agiu de forma muito agressiva no corte dos juros e fornecimento de fundos ao setor privado. Mas o crédito se tornou mais, não menos, escasso. E o estímulo fiscal foi tanto pequeno demais quanto mal direcionado.

Como resultado, o esforço de conter a crise parece estar fracassando. Os preços dos ativos continuam a cair, os prejuízos ainda crescem, e o índice de desemprego acaba de atingir sua marca mais alta em cinco anos.

A cada mês que passa, os EUA parecem mais japoneses.

Portanto, sim, resgatar Freddie Mac e Fannie Mae foi uma boa idéia. Mas isso acontece no contexto de uma luta econômica mais ampla. E parece que estamos perdendo.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

08/09/2008 - 16:25h Como no Japão, talvez pior

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Martin Wolf, talvez o colunista financeiro mais influente no mundo, acaba de surgir em vídeo para comentar a estatização de Fannie e Freddie (clique aqui).

Começa dizendo que “os passivos (liabilities) dessas empresas chegam a 40% do PIB dos EUA”. No balanço do país, “subitamente os Estados Unidos vão se parecer com a Itália”.

Ele compreende a intervenção, diz que sem ela haveria “o derretimento do dólar”, mas alerta que “os riscos morais são muito, muito grandes”, com Washington sinalizando que o risco no crédito é do Estado, não mais da iniciativa privada. Citando a frase de que “é o provisório que perdura”, afirma que se surpreenderá muito “se eles conseguirem sair com facilidade” da intervenção.

Wolf prevê “até dez anos” para o mercado imobiliário americano se recuperar, como aconteceu no Japão. E com a diferença de que o Japão era credor mundial e “solvente”, enquanto os EUA são hoje devedores e dependem do resto do mundo para o crédito interno.

Escrito por Nelson de Sá

08/09/2008 - 15:57h FMI e analistas elogiam intervenção em Fannie Mae e Freddie Mac

http://eldib.files.wordpress.com/2007/10/bank_dees.jpg

Medidas devem ajudar a tranqüilizar o mercado financeiro mundial

José Meirelles Passos*, Nadja Sampaio e Ramona Ordoñez - O Globo

WASHINGTON e RIO. O pacote de ajuda anunciado ontem pelo governo americano às gigantes do setor hipotecário foi bem recebido por analistas. Eles avaliam que a intervenção na Fannie Mae e na Freddie Mac era inevitável e poderá ajudar a tranqüilizar os mercados. O socorro também foi apoiado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em nota, o diretor-gerente do Fundo, Dominique Strauss-Kahn, afirmou que o organismo ainda estava estudando os detalhes do pacote, mas elogiou a atitude, definindo-a como “uma ação decisiva”, que ajudará a apoiar os mercados “e a perspectiva econômica e financeira”.
Num sinal de que os mercados financeiros devem receber bem as medidas, as ações da Bolsa de Nova York subiam quase 2% no pregão eletrônico de futuros ontem à noite.

Para especialistas brasileiros, ao ajudar a tranqüilizar o mercado americano, o pacote do governo dos EUA será, por tabela, positivo para o Brasil.

— Este socorro foi importante porque acalma a economia americana e sinaliza para o mundo que a crise está sob controle — afirma Aloísio Araújo, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Analistas prevêem alta de 0,75 ponto percentual na Selic

Araújo explica que o mercado americano tem, por tradição, organismos reguladores fortes. Mas que, neste caso, demoraram a agir.

— O erro começou antes. As empresas eram privadas, mas tinham garantia implícita do governo americano, que deixou de agir quando deveria.
Agora, era inevitável.

O economista-chefe do WestLB no Brasil, Roberto Padovani, acha que a intervenção é boa para os EUA e, se afetar o Brasil, será apenas a curto prazo, com a valorização do dólar pressionando o real. Padovani não acredita que as medidas influenciarão o Banco Central (BC) brasileiro na sua decisão sobre a taxa de juros. O BC se reúne esta semana para fixar a nova Taxa Selic e, para Padovani, deverá repetir a alta de 0,75 ponto percentual, como na última reunião.

Mas, para Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do BC, as medidas nos EUA poderão afetar negativamente o Brasil. Ele avalia que a crise americana está longe de terminar. E também prevê alta de 0,75 ponto percentual nos juros brasileiros.

— A economia mundial está reduzindo seu ritmo, e isso já se reflete no Brasil. Essa situação, aliada a uma alta exagerada dos juros, poderá desaquecer demais nossa economia.

Nos EUA, os candidatos à presidência apoiaram com ressalvas o socorro do governo. O democrata Barack Obama afirmou que se tratava de uma “medida necessária”, mas destacou que era preciso preservar os contribuintes. O republicano John McCain avaliou a medida como um “passo na direção correta”, mas disse que, no futuro, Fannie e Freddie deveriam ser privatizadas, segundo declarações de seu conselheiro econômico Douglas Holtz-Eakin. O presidente George W. Bush afirmou que o socorro era necessário para evitar que Fannie ou Freddie fossem à falência, o que seria um “risco inaceitável”.

(*) Correspondente

08/09/2008 - 15:48h Bush expropria duas gigantes do crédito imobiliário. Mercado aplaude.

Suffering a seizure

Sep 8th 2008 | NEW YORK
From Economist.com

America’s government takes control of Freddie Mac and Fannie Mae

AFP

FOR many Americans, Sunday is for church, family lunches or catching a ball game. For the country’s financial authorities, it has become the day of the dramatic announcement: the takeover of Bear Stearns; the Treasury’s promise in July to stand behind Fannie Mae and Freddie Mac; and, most momentous of all, on Sunday September 7th, what had recently come to be seen the inevitable culmination of that pledge: the government’s seizure of the two giant mortgage agencies.

Hank Paulson, the Treasury secretary, had hoped that the July announcement would calm nerves sufficiently that he would not have to take out his “bazooka”. The opposite happened. The firms’ shares collapsed amid fears that investors would be wiped out in a government rescue. This severely curtailed their ability to issue much-needed capital, also infecting their mortgage-backed securities and the $1.6 trillion of debt they had issued to buy mortgages for themselves. It was only a matter of time before the government was forced to launch its largest-ever financial rescue. The action was greeted warmly on the world’s stockmarkets, which rallied on the news.

Though some had wanted to see the agencies fully nationalised, obstacles stood in the way—not least that this would have required an act of Congress. So the Treasury had to get creative. The plan has four planks. First, Fannie and Freddie will be taken into “conservatorship”, a watered-down form of receivership, by their revamped regulator, the Federal Housing Finance Agency, until they are once again “sound and solvent”. Second, they will have access to a loan facility, secured against their assets, until the end of 2009. Intriguingly, this will also be available to the 12 Federal Home Loan Banks. James Lockhart, the FHFA’s head, stressed that these bank-owned co-operatives, also designed to grease housing markets, are mostly in good shape. But they have a lot of short-term debt and the quality of their borrowers’ collateral is falling. Allowing them to tap the credit line may be a shrewd precautionary measure.

The third plank highlights Mr Paulson’s wish to protect the taxpayer and avoid “moral hazard”. The Treasury will buy preferred shares as needed, whenever the agencies’ net worth dips below zero, and this paper will be repaid ahead of their existing preferred and common stock (whose dividends are being eliminated). Lowly shareholders could yet lose everything.

Indeed, the deal could have been a lot worse for the taxpayer. In exchange for vowing to keep the firms above water, the government will receive $1 billion “fee” in preferred stock at no cost, along with warrants giving it the right to 80% of the firms’ common stock at a nominal price. The two chief executives will leave. Fannie and Freddie, whose unparalleled political connections helped them to keep regulation toothless and expand on threadbare capital cushions, will no longer be allowed to lobby lawmakers.

The final piece of the plan may unnerve some taxpayers. To keep mortgage markets chugging along, the Treasury will become a buyer of last resort for bonds packaged by the agencies, purchasing them in the open market if demand slackens. Could it end up burdened with piles of toxic paper? Mr Paulson was upbeat, pointing out that since the Treasury would hold the securities to maturity it might one day reap net gains.

But the eventual cost to the public purse is unknown and potentially huge. The Treasury says it could buy as much as $100 billion of preferred stock in each of the two firms, though it deems that highly unlikely. Ultimately, the size of the bill will depend on their ability to recover, and that is far from clear. Under American accounting standards they have adequate capital, despite the rapid deterioration of their portfolios. But on a fair-value basis, marking their assets to the current market price, Freddie is insolvent and Fannie not far off. Moreover, with house prices still sliding and foreclosures rising sharply, worse may be ahead.

The taxpayer is on the hook elsewhere, too. Bank failures, almost unheard of in recent years, are ticking up. The Federal Deposit Insurance Corporation, which steps in and covers deposits up to $100,000 when lenders go belly-up, is nervously watching its fund shrink. It, too, may soon need to tap the Treasury for funds, especially if a big bank fails. On Monday one of the most vulnerable large lenders, Washington Mutual, forced out its boss in a bid to shore up confidence. More and more pundits are predicting the return in new guise of the Resolution Trust Corporation, which was tasked with taking over and offloading duff assets in the savings and loan crisis of the early 1990s. The tab this time is likely to far exceed that institution’s total losses, $124 billion by the end of 1999.

While the short-term goal is to stabilise Fannie and Freddie, thereby bringing down mortgage rates, the longer-term aim should be to avoid an expensive repeat. Mr Paulson stressed that the seizure of the agencies is merely a “time out”; it will be for the next administration and Congress to determine their future form. He is clearly in favour of scrapping their hybrid business model, which delivers profits to shareholders but leaves the public to shoulder life-threatening losses. Both presidential candidates have joined the criticism, with Barack Obama calling the agencies “a weird blend”.

Winding them down is not yet an option. With private mortgage finance barely registering a pulse, Fannie and Freddie have become crucial cogs in the market. Acknowledging this, the Treasury’s plan envisages allowing them to increase the size of their portfolios modestly by the end of next year. But from 2010 they will be forced to shrink by 10% a year until they reach an undefined “less risky size”. Once markets recover, pressure to dismantle the firms—and nurture alternatives, such as covered bonds—will grow. Until then, conservatorship will have to do

15/07/2008 - 10:18h Na crise, liberalismo se refugia no Estado

 

Ajuda oficial não acalma Wall Street


Ações da Fannie Mae caíram 5,1% e da Freddie Mac, 8,3%, após plano de resgate anunciado pela Casa Branca

Patrícia Campos Mello - O Estado de São Paulo

Um dia após o Tesouro americano garantir que vai resgatar as gigantes de hipotecas Fannie Mae e Freddie Mac se for necessário, as empresas passaram por um grande teste de confiança dos investidores. A Freddie Mac conseguiu vender ontem US$ 3 bilhões em títulos de curto prazo, com forte demanda dos investidores.

Mas o plano de resgate anunciado pelo governo americano ainda não tranqüilizou Wall Street. As ações da Fannie encerraram o dia em queda de 5,1% e as da Freddie, em baixa de 8,3%. Os investidores acham que um possível resgate das instituições não salvará o sistema financeiro em geral da grande desaceleração em curso.

As empresas viram suas ações cair mais de 50% na semana passada, por temores do mercado de que elas não tinham capital para honrar compromissos. As duas são garantidoras ou donas de US$ 5,2 trilhões em títulos de hipoteca - metade do mercado hipotecário americano (só para comparar, o orçamento dos EUA para 2008 é de US$ 2,9 trilhões).

A Fannie e a Freddie garantem a liquidez do mercado de crédito imobiliário - e investidores do mundo inteiro compram seus papéis. Bancos centrais estrangeiros, principalmente na Ásia, têm US$ 979 bilhões em títulos vendidos pelas empresas.

“Fannie Mae e a Freddie Mac são grandes demais para quebrar - os riscos para economia em geral superam o risco moral”, diz Juan Licari, economista-sênior da Moody?s Economy.com. Risco moral, no caso, é estimular investidores a assumir riscos exagerados, na esperança de ajuda do governo.

Segundo Arturo Porzecanski, professor de Finanças Internacionais na American University, trata-se de empresas peculiares - têm garantias do governo, mas não são exatamente estatais, porque têm acionistas. “O governo deixou claro que assumirá a responsabilidade pela saúde das empresas.”

No domingo, o Tesouro anunciou que iria ampliar as linhas de crédito para Fannie e Freddie e poderia até comprar ações das duas. O Fed, por sua vez, abriria a janela de redesconto, antes reservada a bancos. Se efetivado, o resgate será o segundo em quatro meses por causa da crise. Em março, o Fed arquitetou a compra do Bear Stearns pelo J.P. Morgan para evitar a quebra do banco - e assumiu grande parte dos ativos arriscados.

Na sexta-feira, o banco IndyMac, à beira da insolvência por causa da inadimplência de hipotecas, sofreu intervenção. E os boatos sobre a saúde financeira do Lehman Brothers, outro banco com grande exposição ao subprime, cresceram ontem, com recuo de 12,2% nas ações. “Esse incidente (com a Fannie e Freddie) não será o último”, disse à Reuters o megainvestidor George Soros. “A atual crise financeira é a mais séria de nossa geração.”

15/07/2008 - 10:02h Fannie, Freddie e você

 

Paul Krugman* - O Estado de São Paulo

E chegamos à etapa seguinte da nossa aparentemente interminável crise financeira. Desta vez são Fannie Mae e Freddie Mac que ocupam as manchetes, com alertas funestos de um colapso iminente.

Até que ponto devemos ficar preocupados? Bem, eu assumo a posição contrária: o clima criado em torno dessas instituições de créditos particulares é exagerado. Fannie e Freddie precisam de um socorro governamental. Mas como já está claro que esse socorro virá, seus problemas não vão arrasar a economia.

Além disso, embora Fannie e Freddie sejam instituições problemáticas, elas não são as responsáveis pelos apuros que estamos passando.

Vamos aos antecedentes: Fannie Mae - Federal National Mortgage Association (Associação Hipotecária Federal) - foi criada na década de 30 para facilitar o acesso à casa própria, comprando hipotecas de bancos, liberando dinheiro que poderia ser utilizado para fazer novos empréstimos. Fannie Mae e Freddie Mac, que operam quase da mesma maneira, hoje financiam a maior parte dos empréstimos feitos nos Estados Unidos para aquisição de imóvel residencial.

Os argumentos contra Fannie e Freddie começam com relação ao seu estatuto peculiar: embora sejam companhias privadas, com acionistas e lucros, elas são “empresas subvencionadas pelo governo”, estabelecidas por lei federal, o que significa que têm privilégios especiais.

O mais importante desses privilégios está implícito: é a crença dos investidores de que, se as duas empresas estiverem ameaçadas de falência, o governo federal partirá em seu socorro.

Essa garantia implícita significa que os lucros são privatizados, mas os prejuízos são socializados. Se Fannie e Freddie prosperam, seus acionistas colhem os benefícios. Porém, se as coisas andam mal, Washington paga a conta. Cara, eles ganham, coroa, nós perdemos.

Esse tipo de aposta que vai num único sentido pode encorajar a assunção de um mau risco porque o inconveniente disso vai ser problema de algum outro. Exemplo clássico de como isso pode acontecer foi a crise das instituições de poupança e empréstimo, nos anos 80. Essas instituições ofereciam altas taxas de juro para atrair grande volume de depósitos garantidos pelo governo federal, e depois especulavam com esse dinheiro. Quando muitas das suas operações deram errado, os fundos federais acabaram pagando o pato. O custo final da arrumação da casa aos contribuintes foi de mais de US$ 100 bilhões.

Mas essa é a questão. Fannie e Freddie não tiveram nada a ver com a explosão dos empréstimos de alto risco iniciada há alguns anos, uma explosão que fez parecer insignificante o fiasco das instituições de poupança e empréstimo dos anos 80. Na verdade, Fannie e Freddie, depois de um veloz crescimento na década de 90, praticamente sumiram de cena durante o pico da bolha imobiliária.

Em parte porque os órgãos reguladores, reagindo aos escândalos contábeis nas empresas, impuseram algumas limitações temporárias para as duas instituições que restringiram suas operações de empréstimos, exatamente quando os preços das habitações estavam realmente decolando.

Além disso, elas não operaram com empréstimos considerados de alto risco porque não podem: um empréstimo de alto risco, ou suprime, pode ser definido precisamente como o empréstimo que não atende aos requisitos, impostos por lei, e Fannie e Freddie só compram hipotecas emitidas para tomadores de empréstimo que dão uma entrada substancial e cuja renda é cuidadosamente documentada.

Assim, quaisquer incentivos negativos criados por essa garantia federal implícita são contrabalançados pelo fato de que Fannie e Freddie foram e são fortemente regulamentadas no tocante aos riscos que podem assumir. Você pode dizer que a experiência de Fannie e Freddie mostra que a regulamentação funciona.

Nesse caso, porém, como elas acabaram em dificuldade? Parte da resposta está na magnitude da bolha imobiliária e no porte das quedas de preço que vêm ocorrendo hoje com o estouro dessa bolha.

Em Los Angeles, Miami e outros lugares, qualquer pessoa que fez um empréstimo para adquirir uma casa quando o mercado estava no pico provavelmente está hoje com patrimônio negativo, mesmo que tenha dado originalmente 20% de entrada. O resultado é uma taxa crescente de inadimplência, mesmo no caso de empréstimos que atenderam às diretrizes de Fannie e Freddie.

Além disso, Fannie e Freddie, embora fortemente regulamentadas quanto à concessão de empréstimos, não precisam constituir capital suficiente - ou seja, dinheiro captado pela venda de ações em vez de levantar empréstimos. Isso significa que mesmo um pequeno declínio no valor dos seus ativos pode fazê-las submergir, devendo mais do que têm.

E claro, existe um real escândalo político nesse caso: reiteradamente vinha sendo alertado que a capitalização insuficiente das duas instituições apresentava riscos para os contribuintes, porém a administração das empresas subornou o processo político, contratando sistematicamente figuras influentes de ambos os partidos. Mas, embora alarmantes, as maquinações políticas de Fannie e Freddie não tiveram um papel significativo nas causas dos nossos problemas atuais.

Contudo, não é vergonhoso que os contribuintes acabem tendo de socorrer essas instituições? Na verdade, não. Estamos atravessando uma grande crise financeira e essas crises quase sempre acabam com algum tipo de ajuda do contribuinte socorrendo o sistema financeiro.

E vamos ser claros: não se deve permitir que Fannie e Freddie vão à falência. Com o colapso dos empréstimos subprime, essas empresas hoje são mais do que nunca fundamentais para o mercado imobiliário e a economia como um todo.

*Paul Krugman escreve para o “The New York Times”

15/07/2008 - 09:51h Fannie & Freddie: medidas equivalem à estatização, diz analista

 

O Estado de São Paulo

William Poole, ex-presidente do Federal Reserve Bank de St. Louis, disse ontem que as medidas anunciadas pelo governo dos EUA para socorrer as agências Fannie Mae e Freddie Mac equivalem a estatizá-las. Poole afirmou, em entrevista à Dow Jones, que as medidas anunciadas no fim de semana eram “absolutamente necessárias”, tendo em vista que o colapso das duas agências seria catastrófico para o sistema financeiro. Para ele, elas estão “efetivamente em concordata”.

Poole lembrou que outra conseqüência das medidas é o fato de a dívida emitida por Fannie Mae e Freddie Mac agora terem o mesmo status dos títulos do Tesouro americano. “Na prática, as obrigações de Fannie Mae e Freddie Mac agora são obrigações de crédito plenas do governo dos EUA, porque não será permitido que elas entrem em falência.”

Para todos efeitos práticos, as agências “estão sendo nacionalizadas”, disse Poole, que hoje é pesquisador do Cato Institute.

O ex-dirigente do Fed disse ainda que a intervenção federal na Fannie Mae e na Freddie Mac, após os esforços do Fed para socorrer o banco de investimentos Bear Stearns, compromete a capacidade de avaliação de riscos de Wall Street. “O país está agora em situação muito ruim em termos de risco moral. Os credores sabem que serão protegidos em caso de circunstâncias adversas.”

Segundo Poole, agora ficou claro que algumas empresas são julgadas grandes demais para falir, embora exista pouca clareza sobre qual é o tamanho-limite para uma intervenção do governo.

14/07/2008 - 11:31h EUA socorrem empresas de hipotecas

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Plano anunciado ontem prevê ajuda financeira a Fannie Mae e Freddie Mac e que o governo possa comprar suas ações

Empresas, que possuem ou garantem metade das hipotecas do país, poderão tomar emprestado dinheiro do Fed a juros mais baixos

STEPHEN LABATON
DO “NEW YORK TIMES’

FOLHA DE SÃO PAULO

Alarmado com o acentuado desgaste de confiança nas duas maiores empresas de crédito hipotecário dos EUA, o governo Bush pediu ontem ao Congresso para aprovar um pacote de socorro que lhe autorizará a comprar bilhões de dólares em ações da Fannie Mae e da Freddie Mac e também emprestar às companhias para suprir suas necessidades de financiamento em curto prazo.
Segundo o plano, anunciado ontem pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson, após um fim de semana de discussões com outras autoridades sobre a crise, as duas empresas poderão tomar dinheiro emprestado com taxa de juros mais baixas do Fed (o BC dos EUA).
Mais amplo que o esperado por analistas, o anúncio ocorreu antes da abertura dos mercados asiáticos, em tentativa de reduzir perdas das empresas e do mercado em razão das preocupações com os resultados das empresas hipotecárias e, conseqüentemente, com a estabilidade da economia em geral.
O plano pede que o Congresso dê ao governo autorização nos próximos dois anos para comprar uma quantidade não-especificada de ações das duas companhias. No período, o plano permitiria que as duas companhias tenham maior acesso a recursos do Tesouro, expandindo suas linhas de crédito.
Cada companhia tem hoje uma linha de crédito de US$ 2,25 bilhões, definida quase 40 anos atrás pelo Congresso. Na época, a Fannie tinha cerca de US$ 15 bilhões em dívidas a pagar. Hoje tem uma dívida total de aproximadamente US$ 800 bilhões, enquanto a Freddie deve cerca de US$ 740 bilhões.
Hoje as duas companhias também detêm ou garantem hipotecas avaliadas em mais de US$ 5 trilhões no país.
Como parte do plano, o governo também pedirá que o Congresso aumente o limite da dívida nacional. E que o Congresso dê ao Fed participação na definição de regras sobre o tamanho das reservas de capital que cada empresa deve ter.

Recado ao mercado
Dar ao Fed um papel de consultor na supervisão das companhias é visto como mais uma maneira de tranqüilizar os mercados nervosos.
O governo Bush espera que o Congresso aprove rapidamente o novo plano, como parte da medida para ajudar o mercado habitacional e reformular as normas de Fannie Mae e Freddie Mac. Na sexta, o Senado aprovou a medida, e a Câmara espera discuti-la nesta semana.
O anúncio do plano no início da noite de ontem teve a intenção de enviar um forte sinal aos mercados de que o governo apóia as duas empresas.
Durante o fim de semana, autoridades graduadas do Tesouro e do Federal Reserve monitoraram de perto os preparativos para que a Freddie Mac levantasse dinheiro para ajudar suas necessidades de fundos em curto prazo. Autoridades passaram o sábado e o domingo sendo informadas sobre o apetite de Wall Street por uma oferta de dívida de US$ 3 bilhões pela Freddie Mac que estava marcada para hoje.
As autoridades disseram estar observando para avaliar se as fortes quedas das ações das duas empresas na semana passada poderiam contagiar o mercado de dívida e minar a confiança dos credores.
A Fannie Mae e a Freddie Mac tornaram-se centrais para os mercados de habitação do país. Elas compram hipotecas de bancos e outros credores, seguram algumas delas e vendem outras na forma de títulos lastreados por hipotecas. Juntas, elas possuem ou garantem cerca da metade das hipotecas dos Estados Unidos.
Nos últimos meses, as ações das duas companhias despencaram quando uma onda de execuções de hipotecas erodiu a confiança nas mesmas.


Tradução de LUIZ ROBERTO MENDES GONÇALVESCom o “Financial Times”

14/07/2008 - 11:09h EUA tentam salvar financiadoras de hipotecas

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Fed e Tesouro anunciam pacote para resgatar Fannie Mae e Freddie Mac e evitar colapso do mercado financeiro

O GLOBO

WASHINGTON e LOS ANGELES. O Tesouro dos EUA e o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) anunciaram ontem um pacote de ajuda para salvar da insolvência Fannie Mae e Freddie Mac, duas gigantes do setor de financiamento de hipotecas para casa própria. A medida visa a restituir a confiança nas duas firmas e evitar um potencial desastre no mercado financeiro global. Numa decisão que pode representar uma escalada na exposição dos contribuintes americanos, o Fed disse que as duas firmas poderão recorrer a recursos emergenciais da instituição a taxas baixas.

Paralelamente, o Tesouro anunciou que vai aumentar temporariamente a linha de crédito para as empresas e até mesmo, se necessário, comprar participação nos dois grupos.

O anúncio do Fed evocou sua atuação para salvar o banco de investimento Bear Stearns em março, quando permitiu o acesso de bancos de investimentos a seus recursos emergenciais pela primeira vez desde a Grande Depressão.

“A contínua vitalidade (das duas empresas) é importante para manter a confiança e estabilidade do nosso sistema e mercados financeiros. Assim, precisamos agir para responder à presente situação, enquanto nos preparamos para uma estrutura regulatória mais forte”, disse o secretário do Tesouro, Henry Paulson, em um comunicado lido ontem por ele nas escadarias da sede do Tesouro.

Uma alta fonte da instituição disse que as medidas anunciadas por Paulson ainda precisam ser aprovadas pelo Congresso, mas expressou confiança de que terão sinal verde dos parlamentares ainda esta semana. Charles Schumer, senador democrata por Nova York, elogiou o pacote e disse que deverá reavivar a confiança do investidor em Fannie Mae e Freddie Mac.

As duas firmas são privadas, com um grupo de acionistas, mas recebem subsídios do governo.

Com a crise financeira, as ações das duas gigantes se desvalorizaram fortemente.

IndyMac sofre intervenção após declarar insolvência O diretor-executivo da Fannie Mae, Daniel Mudd, disse em uma nota que a firma tem reservas suficientes para atravessar a crise, além de acesso a financiamento do mercado. Mesmo assim, ele disse que poder acessar os recursos emergenciais postos à disposição pelo Fed e o Tesouro ajudará a reconstruir a confiança do mercado.

As duas empresas compram hipotecas de mutuários e as revendem em pacotes garantidos pelo Tesouro, gerando novos fundos que tornam os mercados de hipotecas mais líquidos. Fannie Mae e Freddie Mac têm papel fundamental no mercado de habitação dos EUA e muitos temem que uma insolvência teria conseqüências nefastas no mercado financeiro.

O clima de tensão no setor cresceu no sábado, após o anúncio de que o banco IndyMac fora declarado insolvente e sofrera intervenção de autoridades federais. O IndyMac é a segunda instituição financeira a quebrar na esteira da crise no setor de hipotecas.

O Escritório Supervisor de Caixas de Poupança (OTS, da sigla em inglês) anunciou ter transferido as operações do IndyMac à Corporação Federal Garantidora de Depósitos (FDIC, da sigla em inglês), depois de considerar que o banco não tinha como fazer frente à demanda de saque dos clientes, que se viram limitados a retirar pequenas quantidades.