16/08/2009 - 11:23h Após pressão, Lula e Agnelli selam acordo

Insatisfeito com ação da Vale na crise, presidente ameaçou pressionar Previ e BNDESPar a mudar comando da empresa

Governo mandou recado ao Bradesco, que indicou Agnelli; nome de Sérgio Rosa, da Previ, chegou a ser aventado para presidir Vale

KENNEDY ALENCAR E JULIANNA SOFIA – FOLHA SP

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Nos bastidores, o governo Lula ameaçou interferir no comando administrativo da Vale a fim de levar a empresa a fazer investimentos considerados estratégicos pelo Planalto -sobretudo na área de siderurgia.
Segundo a Folha apurou, Lula mandou um recado ao Bradesco, que indicou o presidente da empresa, Roger Agnelli, a partir de acordo de acionistas que envolve o grupo privado japonês Mitsui, um consórcio de fundos de pensão e o BNDES.
Insatisfeito com a ação da Vale durante a fase mais aguda da crise global -grande exportadora, foi uma das empresas mais atingidas-, o presidente ameaçou pressionar a Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, e a BNDESPar, braço do BNDES para ser sócio de empresas, a usar suas ações com direito a voto para mudar o comando da mineradora. O ápice da pressão foi em julho, segundo um auxiliar direto de Lula.
Reservadamente, circulou no governo a ideia de indicar alguém com o perfil do presidente da Previ, Sérgio Rosa, para o posto de Agnelli. Mas, por ora, isso perdeu força.
Nas palavras de um ministro, Lula e Agnelli “são amigos e acertaram os ponteiros” em conversa recente.
Na crise, Lula se queixou reservada e publicamente da Vale. O presidente reclamou do corte de US$ 3 bilhões em investimentos e de demissões de mais de mil funcionários sem aviso ao governo.
Para ele, a Vale passou um sinal ruim, uma expectativa negativa, numa hora em que o governo se esforçava para evitar um colapso econômico.
A Vale é controlada pela Valepar, que tem 53% do capital votante da companhia. Na Vale, o consórcio de fundos de pensão, cujo mais forte é a Previ, detém 49% das ações. A BNDESPar tem 11,5%. O Bradesco, 21%. E o Mitsui, 18%.
A pressão do Planalto sobre a Previ e o BNDES poderia dinamitar a gestão de Agnelli. Mas o governo não quer comprar briga com um dos maiores bancos do país na véspera de ano eleitoral. O gesto de Lula foi como um tiro de advertência.
O nome de Sérgio Rosa foi aventado por seu perfil discreto. Ele venceu a queda de braço com Daniel Dantas pelo controle acionário da antiga Brasil Telecom. É da confiança da cúpula do PT e preside o Conselho de Administração da Vale.
Como seu mandato terminará em maio de 2010, sem direito a nova recondução, Rosa é forte candidato a ser indicado pelo governo para atuar em uma diretoria ou na presidência de uma grande companhia -uma estatal ou empresa de capital privado com participação da Previ.
Além da Vale, o fundo de pensão do BB tem participação relevante em outras companhias privadas, como a telefônica Oi (fusão Telemar-Brasil Telecom) e a Brasil Foods (fusão Sadia-Perdigão).
Reservadamente, a direção da Vale argumenta que a empresa realiza em 2009 o maior plano de investimentos de sua história e que está desenvolvendo quatro projetos em siderurgia, apesar de dificuldades.
No Pará, falta a liberação total do terreno. O governo do Estado está pagando desapropriações e ainda não tem todo o controle da área.
“Recebi a diretoria da Vale, que se comprometeu que vai ter siderúrgica no Pará. Há obras que foram incluídas no PAC justamente para viabilizar esse projeto”, disse a governadora Ana Julia Carepa (PT). “Foi uma luta. Houve muita pressão, mas deu certo.”
No Espírito Santo, houve desistência de um sócio privado. No Ceará, a Vale mudou o projeto de siderurgia. No Rio, faz o maior investimento do setor no país, depois de ter ampliado sua participação numa parceria com outra empresa.

Fundos de pensão
Apesar do discurso da Vale, há insatisfação entre os fundos de pensão. Segundo fundo com maior participação na cadeia acionária da Vale, a Funcef -ligada à Caixa Econômica Federal- avalia que a importância estratégica da companhia e seu passado de empresa estatal obrigam a mineradora a ampliar seus investimentos na infraestrutura do país.
“A Vale não pode agir como uma empresa de frango, de linguiça. É uma empresa estruturante, que atua por concessões. É bem administrada, mas não podemos fechar os olhos e não nos dar conta das decisões tomadas por seu presidente”, disse à Folha o presidente da Funcef, Guilherme Lacerda.
A Funcef detém 2% do capital total da Vale. Para Lacerda, a mineradora deve entrar em investimentos que abram caminho para o desenvolvimento do país nem que isso não garanta boas taxas de retorno. “Às vezes, é preciso levar em conta outros elementos que não a maximização do lucro.”
O presidente da entidade pondera que a Funcef não tem participação no Conselho de Administração da Vale, por isso, formalmente, não é chamada a participar das discussões sobre os investimentos.
Procurada, a Previ informou via assessoria que não poderia receber a Folha nesta semana para tratar de assuntos referentes à Vale. Nos bastidores, a Previ demonstra insatisfação parecida com a da Funcef.
Lacerda questiona os princípios de governança adotados pela Vale e os considera insatisfatórios para uma empresa de padrão mundial. “A governança corporativa precisa melhorar. Hoje, o investidor fica fora do circuito.”
Os outros fundos que têm participação na Vale são Petros (Petrobras) e Funcesp (Cesp).

ROGER AGNELLI

Uma nova Pangeia


Na África estão as grandes oportunidades de negócios; estar lá é ter uma enorme vantagem competitiva

A INTEGRAÇÃO das Américas à África foi um dos temas da conversa, no último dia 5, entre empresários brasileiros e o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jim Jones, um homem inteligente e conhecedor de questões estratégicas e de logística.
O encontro, do qual participei, demonstrou a disposição do presidente Barack Obama em reaproximar os Estados Unidos de países da América do Sul e do continente africano, bem como em abrir janelas estratégicas de parcerias entre eles. Isso é muito positivo. As Américas e a África, que há 200 milhões de anos formavam uma única massa continental, a Pangeia, são absolutamente complementares.
Os EUA precisam muito da América do Sul, por conta de nossos mercados e de nossa capacidade de fornecer energia e alimentos. Esse fato poderá assegurar o crescimento das economias do Sul e do Norte. A interação também fortalecerá os americanos no relacionamento com blocos econômicos, como a Europa, os asiáticos e a China -gigantesco bloco de consumo e competição.
Já a aproximação com a África traz a possibilidade de acesso a fontes ainda intactas de recursos naturais, que vêm atraindo a atenção de países asiáticos. Lá estão grandes oportunidades de negócios para empresas brasileiras e americanas. A África, que necessita de infraestrutura, possui enorme potencial de petróleo e de geração de energia hidráulica, a gás e a carvão, sem falar nas jazidas de urânio, em suas terras férteis e na posição geográfica única -no meio do caminho entre o Ocidente e o Oriente. Estar na África é ter vantagem competitiva enorme.
O general Jones ouviu com atenção os relatos que nós, empresários brasileiros, fizemos sobre nossas relações com os países africanos. Ficou claro ser possível começar a aproximação pela política e, ao mesmo tempo, levar oportunidades de desenvolvimento econômico, o que os ajudaria a fortalecer a democracia. Conversamos sobre a possibilidade de os Estados Unidos e o Brasil ajudarem a canalizar recursos do Banco Mundial e de bancos de fomento, como Eximbank e BNDES.
Da união estratégica das Américas do Norte e do Sul com a África surgiria um gigante, com potencial para ser o maior produtor de alimentos, energia, biocombustíveis e siderurgia do planeta, sem falar no grande mercado consumidor. O esforço para a integração, contudo, não cabe apenas aos governos; é preciso que a iniciativa privada entenda sua importância. Como nenhum outro estadista brasileiro, o presidente Lula vem dando grande relevância às negociações com governantes da América do Sul e do continente africano, o que ainda renderá muitos frutos ao nosso país.
A integração sul-americana é uma questão imediata. Contudo, é necessário que se agilize a compatibilização dos interesses geopolíticos e que se acelerem os interesses empresariais, com destaque para acordos de bitributação que facilitem o comércio entre os países.
A união com a África é um projeto para a próxima década, mas para ser iniciado já. Cabe agora à iniciativa privada descobrir o mercado africano, começar a desbravar negócios por lá. Assim, ajudará na construção de uma nova Pangeia.


ROGER AGNELLI , 50, economista e diretor-presidente da Vale, escreve neste espaço a cada quatro semanas.

22/07/2008 - 09:44h ABC e D: mais segura, Diadema atrai grandes redes

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De Diadema – VALOR

Em abril do próximo ano, Diadema vai ganhar seu primeiro shopping center. A obra ocupa um quarteirão no centro, a 250 metros do comércio popular da cidade, em uma área onde existiam um prédio da prefeitura, algumas casas e uma chácara. Serão cerca de 150 lojas.

O shopping Praça da Moça é um dos empreendimentos que promete mudar a cara do município do ABC paulista que até pouco tempo era conhecido pela violência e pelo abandono. Diadema vive um boom imobiliário, com outdoors espalhados pelas ruas anunciando prédios de apartamentos e lojas.

Várias redes de varejo decidiram se estabelecer no município. A Dicico, que vende material de construção, abriu uma loja em 2007 em um movimentado cruzamento da região central. O Tenda Atacado inaugura uma unidade em meados de agosto. O Wal-Mart também pretende abrir sua loja até o fim deste ano.

“Chegou a nossa vez”, diz Celso Ruiz, presidente da Associação Comercial e Empresarial de Diadema. Ele acredita que é o início de um círculo virtuoso, porque as novas lojas vão ajudar a “segurar” o consumidor em Diadema. A cidade é exportadora líquida de renda, porque faltam opções de comércio e lazer.

Existem 1.866 empresas em Diadema nos setores de autopeças, plástico, químico e borracha. Além disso, operários das montadoras instaladas no ABC paulista moram na cidade. Segundo a prefeitura, 25% a 30% do Produto Interno Bruto (PIB) está relacionado à indústria automotiva, que está batendo recordes de vendas e contratando mais operários.

Em 2007, o emprego cresceu 6,4% em Diadema, acima da média nacional de 5,85%. Na indústria, que concentra a maior parte das vagas, aumentou 5,4%. Na construção civil, a alta chegou a impressionantes 27,5%. No primeiro semestre deste ano, o emprego em Diadema cresceu 3,8% – ritmo similar a média do Brasil.

Com a atividade econômica mais forte, a arrecadação fiscal também melhorou, possibilitando investimento em segurança e saúde. Entre 2003 e 2007, o repasse do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do governo estadual para Diadema cresceu, em média, 13,6% ao ano. No mesmo período, a arrecadação de Imposto sobre Serviços (ISS) também avançou 25,2% na média anual.

“O crescimento econômico foi a cereja do bolo”, disse Roberto Martins, diretor da Empreendi e coordenador do projeto do novo shopping. Graças à expansão da atividade local, 75% das lojas já foram alugadas. Segundo o executivo, algumas redes confirmadas são C&A, Riachuelo, Renner, Marisa e Magazine Luiza. O shopping será destinado à classe C, que responde por metade da população de Diadema.

Martins explica que a redução da criminalidade também foi fundamental para convencer os investidores. Para viabilizar o empreendimento, o executivo conseguiu R$ 150 milhões com fundos de investimentos, pessoas jurídicas e físicas. A Funcef adquiriu recentemente 40% do empreendimento.

O Wal-Mart está investindo R$ 21 milhões na nova loja em Diadema. Segundo Leonardo Taufer, diretor comercial da divisão Maxxi do grupo, o objetivo é atender pequenos estabelecimentos comerciais e famílias das classes C e D. “Escolhemos Diadema por conta do crescimento econômico e do aumento de consumo e renda”, explicou.

O Tenda Atacado vai trabalhar com itens de alimentos, higiene pessoal, perfumaria e limpeza para varejistas independentes e também para o consumidor final. Segundo Eduardo Severini, diretor do Tenda, a loja faz parte de um plano mais amplo de expansão do grupo e Diadema foi escolhida porque possui um grande potencial de consumo.

Conforme Dimitrius Markakis, presidente da Dicico, as vendas na loja de Diadema superam a expectativa. A média diária de visitantes da rede é de 800 pessoas por loja nos dias úteis. Em Diadema, são mil visitantes/ dia. A loja abriu há oito meses e a Dicico é o único grande varejista de construção civil na cidade. Por enquanto. (RL)

23/05/2008 - 09:05h Funcef vai investir em rede de hotéis econômicos

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Roberta Campassi, de São Paulo – VALOR

Depois de experimentar altos e baixos com investimentos em hotéis cinco estrelas, o fundo de pensão dos funcionários da Caixa Econômica Federal (Funcef) fará suas primeiras incursões na hotelaria econômica, o segmento que mais cresce no país. Até o fim de 2009, a Funcef planeja investir na construção de 20 a 30 unidades da categoria mais simples e barata do setor.

Para fazer investimentos imobiliários, a Funcef tem orçamento de R$ 400 milhões anuais, sendo que entre R$ 120 milhões e R$ 150 milhões do total podem ser alocados para a hotelaria, conforme explica Jorge Arraes, diretor da área. “O volume de recursos ainda não está totalmente definido, mas é flexível”, afirma. Segundo o executivo, já estão definidos dois projetos cujas construções serão iniciadas neste ano, um em Vitória e o outro em Petrolina (PE).

A meta da Funcef deve representar uma aceleração significativa na construção de hotéis econômicos. Para que se tenha uma base de comparação, a maior administradora hoteleira do país, a Accor, possui ao todo 56 unidades da categoria dentro do Brasil com as marcas Íbis e Formule 1. A InterContinental tem cinco unidades econômicas com a bandeira Holiday Inn Express e a Atlantica tem um hotel em construção que vai operar com a marca Go Inn.

Com preços mais baratos em troca de quartos pequenos e sem luxo, diárias que não incluem café da manhã e oferta de serviços enxuta, a categoria econômica é a que vem recebendo mais investimentos. Uma projeção do Fórum dos Operadores Hoteleiros do Brasil (Fohb) mostra que o Brasil terá cerca de 200 novos hotéis entre 2007 e 2010, sendo que metade deles será da categoria econômica – o restante ficará dividido entre a faixa intermediária e a luxuosa. “Hotéis econômicos atendem a base da pirâmide da população, ou seja, pessoas que tem orçamento limitado mas querem qualidade”, afirma Frank Pruvost, diretor de operações da Accor para as marcas econômicas. Segundo ele, há dois tipos principais de público para essa categoria: profissionais liberais ou funcionários de empresas em cargos mais baixos, nos dias da semana, e casais em viagem de lazer, no sábado e domingo.

O objetivo da Funcef, conta Arraes, é formar uma espécie de rede entre todos os hotéis que permita mais ganhos de escala e sinergias de vendas. “Nossa experiência nos mostra que precisamos conhecer um pouco do negócio e ter envolvimento no lado estratégico também”, afirma Arraes. Os empreendimentos novos, contudo, deverão ser administrados por empresas hoteleiras diferentes. Já existe um acordo prévio com a Accor para a administração do hotel em Petrolina. No passado, a Funcef chegou a elaborar planos para hotéis econômicos com a própria Accor e com a bandeira Sleep Inn, que é administrada pela Atlantica.

O entusiasmo em relação à hotelaria econômica, no entanto, não é unanimidade no setor. Diogo Canteras, sócio da consultoria hoteleira HVS no Brasil, afirma que o melhor momento para investir nesse segmento será em dois ou três anos. Por enquanto, a rentabilidade da categoria ainda é pequena. “Os hotéis costumam estar sempre cheios e os custos são mais baixos, mas as diárias ainda estão muito defasadas em relação ao que deveriam custar”, afirma.

Essa falta de rentabilidade, segundo ele, fica evidente na seguinte comparação: construir um quarto de hotel econômico numa cidade como, por exemplo, São José dos Campos, custa R$ 90 mil, enquanto comprar um que já existe custa R$ 60 mil. “O melhor investimento hoje, em hotelaria, é no segmento de altíssimo luxo em grandes centros”, afirma Canteras.

Os planos da Funcef nos segmentos mais caros, por ora, estão estagnados. “Temos que rentabilizar, primeiro, os hotéis que já existem”, afirma Arraes. O fundo de pensão é dono do Eco Resort de Cabo de Santo Agostinho (PE), do Eco Resort de Angra dos Reis (RJ), do hotel Brasília Alvorada, na capital brasileira, e do Renaissance, em São Paulo. Com exceção deste último, todos os outros foram construídos durante a sociedade da Funcef com a operadora Blue Tree. Quando a parceria terminou, em 2006, em meio a uma disputa judicial, o fundo de pensão ficou com os empreendimentos que agora são administrados sem bandeiras, mas por uma empresa contratada.

Segundo Arraes, o Renaissance é o mais lucrativo, mas os hotéis de Brasília e Angra dos Reis também devem alcançar a meta de lucratividade estabelecida para este ano. Já o resort Cabo de Santo Agostinho ainda “não terá resultados expressivos, mas começou a equilibrar o balanço”, afirma – o hotel passou também pelas mãos do grupo Posadas em 2007, mas a operadora deixou a gestão do empreendimento devido aos resultados financeiros ruins. Nos nove primeiros meses do ano passado, o empreendimento registrou prejuízo de R$ 8 milhões e taxas de ocupação tão baixas quanto 15%.