

Brasil está em posição mais sólida para enfrentar choques externos, diz FMI
da Folha Online
A posição do Brasil para enfrentar choques na conjuntura externa está mais sólida que no passado, informou nesta sexta-feira o FMI (Fundo Monetário Internacional).
Segundo o Fundo, o Brasil registrou nos últimos anos “crescimento vigoroso com baixa inflação”, devido às políticas macroeconômicas adotadas no período e um cenário favorável na economia internacional. A solidez a posição brasileira também foi “reconhecida recentemente com a reclassificação do risco soberano do país como grau de investimento”, diz o comunicado do Fundo.
“[O FMI] exaltou o retrospecto altamente positivo do governo brasileiro na condução da política econômica, um fator que, aliado às condições externas extremamente favoráveis nos últimos anos, deu grande impulso ao desempenho econômico do Brasil e aumentou a resistência do país a choques externos adversos”, diz o comunicado do Fundo. “O Brasil encontra-se hoje numa posição muito mais sólida do que no passado para enfrentar a deterioração da conjuntura externa.”
O Brasil recebeu no fim de abril deste ano da agência de classificação de risco Standard & Poor’s a nota “BBB-”, que já garante ao país o grau de investimento. Antes, a nota do Brasil era “BB+”. Já no fim de maio, a agência Fitch Ratings elevou a nota do Brasil de “BB+” para “BBB-”, também colocando o país no grau de investimento. O rating é uma avaliação, feita por empresas especializadas, sobre a capacidade de um país ou uma empresa saldar seus compromissos financeiros.
O FMI destacou o crescimento “próximo dos 6%” nos últimos trimestres, impulsionado pela “intensa” demanda interna. “A pobreza e a desigualdade também diminuíram, resultado das sólidas políticas sociais”, avaliou o Fundo. “Além disso, um dos pilares da política macroeconômica do governo tem sido a ênfase das autoridades no crescimento mais elevado e sustentável, com o respaldo do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento].”
Inflação
Apesar da avaliação positiva, o Fundo citou a situação da inflação no país: nos 12 meses até junho de 2008 os preços no país subiram 6,1% –reflexo da alta dos preços dos alimentos e também à expansão da demanda interna. “O impacto inicial da alta dos alimentos já começa a se espalhar para outros bens e serviços; o núcleo da inflação subiu de 3,4% há um ano para 5,4% em junho”, destacou o fundo.
Hoje o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) informou que o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) desacelerou para 0,53% em julho, com a pressão menor dos alimentos. Em junho, o índice teve alta de 0,74%. O índice divulgado hoje foi o menor desde novembro de 2007 (0,38%).
Nos últimos 12 meses, o IPCA acumula alta de 6,37%, acima dos 6,06% identificados nos 12 meses imediatamente anteriores, aproximando-se ainda mais do teto superior à meta, de 6,50% estipulado pelo Banco Central. O IPCA é o índice de preços utilizado pelo governo para o regime de metas de inflação. A meta para este ano e o próximo é 4,5%, com tolerância de dois pontos percentuais.
No mês passado, o Copom (Comitê de Política Monetária) do BC elevou em 0,75 ponto percentual sua taxa básica de juros –a Selic, que passou de 12,25% para 13% ao ano.
O Fundo também apontou a deterioração na situação das contas externas, que apresentaram “saldo negativo pela primeira vez desde 2002″. “O volume de importações continuou a crescer acima de 10% enquanto as exportações cresceram de forma mais lenta e as remessas para o exterior subiram, em parte como conseqüência do aumento do investimento estrangeiro direto nos últimos anos”, informou o FMI.
“A entrada líquida de capital totalizou quase 7% do PIB em 2007, com um nível recorde US$ 35 bilhões (cerca de 3% do PIB) em investimento estrangeiro direto. A valorização do real em termos efetivos reais foi de 16,5% em 2007, sobretudo como reflexo do desempenho macroeconômico vigoroso do país no contexto das relações de troca favoráveis. As reservas internacionais cresceram US$ 95 bilhões em 2007, totalizando US$ 201 bilhões no fim do primeiro semestre.”
Contenção
O Fundo avaliou que o Brasil deve conter o crescimento da demanda interna, “pois as pressões inflacionárias vão além do que seria apenas efeito dos choques mundiais nos preços das commodities, e o saldo das contas externas apresentou uma rápida reversão de superávit para déficit”.
Para o FMI, “um aperto das finanças públicas contribuiria para o ajuste e ajudaria a aliviar a pressão sobre a política monetária”. “Por este motivo, consideraram acertada a decisão das autoridades de adotar uma meta de superávit primário mais elevada em 2008, considerando que a contenção do crescimento dos gastos públicos –desde que se proteja o gasto em áreas prioritárias– seria essencial para reequilibrar as políticas macroeconômicas.”
Superávit primário do setor público consolidado é o quanto de receita o governo federal, os Estados, os municípios e as empresas estatais conseguem economizar, após o pagamento de suas despesas, sem considerar os gastos com os juros da dívida. Hoje, a meta de superávit primário para o ano é de 3,8% do PIB, mais uma economia de R$ 14,2 bilhões (0,5% do PIB) para fazer uma poupança para momentos de crise. Nos últimos 12 meses, o governo fez um superávit de R$ 116 bilhões (4,27% do PIB).
Fundo soberano
O FMI avaliou que é preciso estudar com cuidado o formato e a finalidade do fundo soberano do Brasil e não utilizar os recursos desse fundo de tal forma a não aumentar direta ou indiretamente as pressões sobre a demanda interna.
“Também considerou-se que a transparência das operações do fundo é essencial para manter a confiança na política macroeconômica, inclusive na área de operações cambiais, que deveria ser coordenada cuidadosamente com o Banco Central”, diz o comunicado. “Os recursos disponíveis seriam melhor empregados na redução do ainda elevado nível de endividamento público do país.”