06/05/2009 - 10:00h “Nós não somos mais uma república de bananas”

Análise: Vigor na recuperação do mercado local comprova situação melhor do país ante outros emergentes.

Com fundamentos sólidos, Brasil resiste bem à crise externa

Gustavo Lourenção / Valor

Stuhlberger, da CSHG: “Estabilidade de preços tornou-se bem público no país”

 

Por Alessandra Bellotto, de São Paulo – VALOR

“Nós não somos mais uma república de bananas.” Foi assim que Luis Stuhlberger, um dos principais gestores de fundos hedge do país e sócio da Credit Suisse Hedging-Griffo (CSHG), começou sua apresentação sobre o Brasil a uma plateia de investidores locais e estrangeiros, em evento sobre investimentos alternativos ontem, em São Paulo. E isso para dizer que a economia brasileira é muito menos dependente de commodities do que possa parecer, o que caracteriza uma enorme vantagem competitiva do país em relação a outros mercados emergentes, especialmente na América Latina.

“O Brasil é muito mais do que um player de commodities”, destacou. Não é à toa que, no processo de recuperação dos mercados, o país mostra vigor maior, disse Stuhlberger. Do dia 27 de outubro de 2008, quando a bolsa marcou sua pior pontuação desde o estouro da crise, até 30 de abril, o índice Bovespa subiu 71,24% em moeda local. Na China, a alta foi de 43,76%, na Rússia, a bolsa avançou 51,59% (em dólar), na Índia, 34,01%, no México, 29,82%.

No contexto de crise global, a participação relativamente baixa das exportações brasileiras no Produto Interno Bruto (PIB) é favorável para o país. Ainda que o Ibovespa seja concentrado em empresas de commodities (com 50% a 60% de participação no índice), a proporção das exportações brasileiras no PIB é de cerca de 12%. No Chile, ela chega a 34,8%, na Venezuela, a 26,5%, e no Peru, a 18,6%. Já o consumo doméstico, acrescentou o gestor, representa 65% do PIB brasileiro.

Outro ponto a favor da economia local é a diversificação dos destinos das exportações. No Brasil, as vendas para os Estados Unidos, o epicentro da crise, representam cerca de 14%, ante média dos países da América Latina de 45%. China e Argentina também são importantes parceiros comerciais do país, assim como outros mercados na União Europeia. “Essa diversificação é uma das razões que explicam a resiliência da nossa balança comercial”, disse.

O recente boom de commodities, no entanto, favoreceu o Brasil, que conseguiu emplacar reformas econômicas até o ano de 2006, na visão de Stuhlberger. Segundo ele, a adoção do câmbio flexível, regime de metas de inflação e superávit primário, mais algumas reformas microeconômicas, como a aprovação do crédito consignado e a nova Lei de Falências, foram fundamentais no ciclo virtuoso vivido pelo país nos últimos anos.

O Brasil, destacou o gestor, também foi destaque na acumulação e administração de reservas internacionais. Segundo Stuhlberger, entre dezembro de 2006 e agosto do ano passado, as reservas do país mais do que dobraram, chegando a superar os US$ 200 bilhões. E desde então, disse, só caíram 8%. Na Rússia, comparou, as reservas internacionais foram reduzidas em cerca de 35%. “O Banco Central resistiu, acertadamente, à pressão de queimar as reservas no início da crise.”

A política monetária conservadora, para evitar inflação e expansão do crédito, também é uma vitória do país, na opinião de Stuhlberger. “A estabilidade de preços tornou-se um bem público no país.” Contudo, o Brasil, pela primeira vez na história, não foi tão afetado por essa crise. “Esta desaceleração econômica é cíclica, não estrutural.” Ele destacou ainda a solidez do sistema financeiro do país como uma das vantagens competitivas do mercado local. Do lado negativo, o gestor citou como o maior desafio do país a melhora na administração dos gastos públicos, que hoje são “altos e crescentes”.

Fundamentos econômicos sólidos, aliados a uma ambiente de juros ainda relativamente altos ante o resto do mundo, fazem do Brasil um dos destinos mais atraentes para o investidor externo que busca diversificação, segundo o diretor de asset management do Credit Suisse no Brasil, Mauro Bergstein. “Tenho uma visão construtiva para o Brasil, que vem respondendo bem aos desafios colocados pela crise”, disse. Para ele, há muitas oportunidades de investimento nos mercados de ações e de crédito privado. Ele destacou ainda a liquidez, profundidade e transparência do mercado financeiro local.

24/10/2008 - 08:53h Roubini: ‘Atingimos uma situação de puro pânico’

http://cache.daylife.com/imageserve/0gEg39odby8JE/340x.jpgEconomista vê caos para emergentes

Da Bloomberg News – O Globo

LONDRES. Centenas de fundos hedge vão falir, e as autoridades monetárias terão de fechar os mercados financeiros por uma semana ou mais, à medida que a crise obrigar os investidores a se desfazerem de ativos.

Essa é a visão — decididamente pessimista — do professor da Universidade de Nova York Nouriel Roubini.

— Atingimos uma situação de puro pânico — disse Roubini, que previu a crise financeira há dois anos, em conferência Hedge 2008 ontem em Londres. — Haverá uma maciça liquidação de posições em ativos e centenas de fundos hedge vão quebrar.

As autoridades monetárias do G-7, o grupo dos sete países mais industrializados do mundo, quase suspenderam os pregões dos mercados, depois de realizar uma redução coordenada de suas taxas básicas de juros. Essa proposta foi defendida pelo primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, no último dia 10.

— O risco sistêmico ficou cada vez maior — disse Roubini. — Estamos assistindo ao início de uma corrida sobre uma grande fatia de fundos hedge. Não se surpreendam se as autoridades monetárias precisarem fechar as bolsas por uma ou duas semanas daqui a alguns dias.

Roubini, ex-conselheiro do Tesouro americano, não mostrou otimismo com as economias emergentes: — As coisas estão ficando muito feias também nos mercados emergentes. Dizia-se que, quando os Estados Unidos espirram, o resto do mundo pega um resfriado.

Bom, os Estados Unidos estão atualmente com uma crônica e persistente pneumonia.

As coisas estão caminhando para o caos nos mercados emergentes.

O custo da tomada de empréstimos pelos países emergentes saltou para seu patamar mais alto dos últimos seis anos. A Argentina corre o risco de deixar de honrar suas dívidas pela segunda vez nesta década.

— Há cerca de uma dezena de mercados emergentes que enfrentam atualmente graves problemas financeiros.

Mesmo um país pequeno pode ter um efeito sistêmico sobre a economia mundial. Não haverá dinheiro suficiente do FMI para respaldar (esses países).

24/10/2008 - 00:20h ‘Economist’: indústria dos fundos ‘hedge’ vai encolher

Para revista britânica, setor terá de resolver suas falhas estruturais para manter ganhos

O GLOBO

http://www.economist.com/images/covers/currentcoverrow.jpgLONDRES. Na edição que chegou às bancas britânicas ontem, a revista “Economist” analisa o desempenho dos fundos hedge, que há um ano “eram a vanguarda onipotente do capitalismo financeiro”. Mas, este ano, a indústria ficou humilde: perdeu cerca de um quinto de suas aplicações. “A carnificina é indiscriminada.

Na Ásia, em Londres e nos EUA, os fundos hedge estão fechando parte ou todas as suas operações”, diz a revista. Citando dados da consultoria Hedge Fund Research (HFR), a revista ressalta que só os fundos de “arbitragem conversível” (que exploram anomalias de preço entre papéis corporativos) perderam 46% este ano.

Desde que a HFR começou a registrar os dados, em 1990, 2008 é o pior ano para os fundos hedge.

“Nos próximos trimestres, a queda deve ser brutal”, afirma a “Economist”. De 1990 até 2007, a indústria cresceu em quase 50 vezes, para cerca de US$ 2 trilhões. Agora executivos do setor prevêem que os ativos podem cair entre 30% e 40% este ano, com os clientes em disparada. E o número total de fundos, que atingiu sete mil, deve cair à metade.

O curioso é que a maior parte dos fundos hedge se orgulha de garantir aos clientes retornos positivos em qualquer clima financeiro. Mas, explica a “Economist”, a proibição da venda de ações a descoberto inviabilizou muitas estratégias. Também pesou a má administração dos fundos hedge, que investiram pesado em ativos de pouca liquidez. “Mas também parece que a venda forçada de ativos por fundos hedge derrubou os preços, afetando seu desempenho — caso típico de contágio”.

A revista analisa os motivos dessa venda. Um seria a carência de crédito, que obrigou os fundos a se desfazerem de ativos. “Os céticos sempre argumentaram que, apesar de toda a habilidade que dizem ter, os fundos hedge apenas usam dinheiro barato para ampliar ganhos medíocres. Por essa análise eles seriam somente outra parte de um vasto ecossistema dependente de dívida, que agora está sendo privado de oxigênio”. Para a “Economist”, porém, há outro fator além da elevada alavancagem: os próprios clientes dos fundos.

À base de clientes da original, “formada por pessoas muito ricas e (supostamente) leais”, somaram-se empresas e até “fundos-de-fundos-hedge”, que atuam como intermediários e respondem hoje por 40% dos ativos da indústria. Teme-se que esses “fundos-de-fundos” sejam os mais afetados em tempos de crise, por isso as retiradas são mais velozes. Em setembro a retirada atingiu o montante recorde de US$ 40 bilhões, segundo dados da consultoria TrimTabs. Os mais afetados pela debandada dos clientes serão os fundos pequenos, que representam cerca de três quartos dos sete mil fundos hedge, apesar de administrarem menos de um décimo dos ativos da indústria. E muitos podem não sobreviver.

A “Economist” afirma que os sobreviventes, para manter seus lucros, terão de “resolver as falhas estruturais tão cruelmente expostas pela crise”. “Mais importante, terão de desacostumar seus clientes da noção de que eles podem desfrutar de ganhos excessivos e retirar seu dinheiro a qualquer hora”.