21/03/2009 - 12:52h ”Lula é meu exemplo”, diz Funes
Salvadorenho prefere estilo de brasileiro ao de Chávez
João Paulo Charleaux – O Estado SP
O presidente eleito de El Salvador, Mauricio Funes, disse ontem, em São Paulo, que fará um governo de esquerda mais próximo ao do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, do que ao do venezuelano, Hugo Chávez. A declaração foi feita após um encontro com Lula, na primeira viagem de Funes depois das eleições salvadorenhas, realizadas no domingo.
“Eu disse durante a campanha e reitero agora que me sinto mais próximo do governo brasileiro”, disse Funes quando questionado pelo Estado sobre que modelo de esquerda seu governo seguiria.
Funes venceu as eleições como candidato do ex-grupo guerrilheiro Frente Farabundo Martí de Liberação Nacional (FMLN) e disse que veio ao Brasil “agradecer a Lula pelo acompanhamento do processo eleitoral salvadorenho”. Ele viajou para o Brasil na companhia da mulher e futura primeira-dama, a brasileira Vanda Pignato. A campanha da FMLN foi chefiada pelo publicitário João Santana, que fez a campanha de reeleição de Lula, em 2006.
“Lula mostrou que é possível fazer um governo de esquerda sem que isso signifique um salto no vazio”, disse Funes. “O Brasil mostrou que é possível um governo de esquerda trazer estabilidade macroeconômica e governabilidade democrática.”
A posse de Funes ocorrerá em 1º de junho, mas ele já trabalha para levar a El Salvador programas sociais brasileiros como o Bolsa-Família. Outra área de interesse é a produção de etanol. O Brasil detém a tecnologia de produção e El Salvador, plantações de cana-de-açúcar geograficamente próximas do mercado americano.
Salvadorenho diz que Obama prometeu “guinada”
Eleito presidente no domingo, Mauricio Funes, casado com paulistana, compara-se a Lula após encontro com brasileiro em São Paulo
FLÁVIA MARREIRO – FOLHA SP
DA REPORTAGEM LOCAL
O presidente eleito de El Salvador, Mauricio Funes, disse ontem ter recebido de Barack Obama a promessa de que seu governo nos EUA significará uma “guinada” na relação de Washington com a América Latina e com a América Central em particular. Luiz Inácio Lula da Silva foi a ponte na conversa com o americano, segundo contou o salvadorenho momentos depois de se reunir com o presidente brasileiro em São Paulo.
“Primeiro ele [Obama] me disse que tinha conversado com Lula sobre minha liderança e sobre o que poderia representar a minha vitória para El Salvador e para América Central. Isso de alguma maneira abre possibilidades de construir relações mais estreitas com o governo dos EUA”, afirmou Funes, da FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional), de esquerda.
“Ele disse que sua Presidência poderia representar uma guinada na visão que os EUA têm da América Latina.”
Funes, casado com a militante petista Vanda Pignato, 46, disse que sua visita ao Brasil -a primeira ao exterior desde a vitória- combinou motivos pessoais com a intenção de agradecer a Lula pelo “acompanhamento” feito pelo brasileiro da eleição salvadorenha.
O casal levou ao encontro com o presidente brasileiro em São Paulo o filho, Gabriel, de 17 meses, que passou o último mês de campanha no Brasil. A reunião, da qual participou o assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia, durou cerca de uma hora.
Como na campanha, dirigida pelo marqueteiro João Santana, ligado ao PT, Funes comparou-se a Lula e afirmou que seu programa se inspirou no do brasileiro. Disse que tanto ele quanto Lula sofreram com a “campanha de medo” da direita e, como o brasileiro, ele representa a “esquerda responsável”, que não afugenta investidores. Negou que a ajuda do PT tenha sido financeira.
“Vou fazer um governo de esquerda responsável: reduzir a pobreza e fazer a crescer a economia”, prometeu.
O salvadorenho representa a aposta moderada da FMLN, ex-guerrilha convertida em partido no acordo de paz de 1992, que encerrou 12 anos de guerra civil (1980-1992), que deixou 75 mil mortos. Há analistas que sustentam, porém, que a visão considerada pragmática não é um consenso na legenda e que isso pode trazer problemas para o futuro governo, que ainda terá de negociar com centristas para ter maioria no Legislativo.
Aos jornalistas, Funes fez questão de desautorizar um deputado da FMLN -não citou o nome- que dissera que o futuro governo buscará renegociar a dívida externa do país. “Pagaremos as dívidas com o juros conforme foram negociados.”
Primeira-dama petista
Funes assumirá em 1º de junho um país de economia dolarizada, dependente da economia dos EUA. Segundo ele, seria um “suicídio” não buscar boas relações com Washington tendo 2 milhões de salvadorenhos vivendo lá. Comemorou ter recebido ontem um telefonema da secretária de Estado, Hillary Clinton, para conversar sobre cooperação.
A futura primeira-dama, a advogada paulistana Vanda Pignato, afirmou que assumirá a Secretaria de Bem-Estar Social no novo governo, que, sob Funes, virará ministério. Ela e o marido disseram que o principal projeto, de inclusão para mulheres, foi inspirado em um semelhante no Brasil.
Vanda voltou a dizer que renunciará aos cargos que acumulava: o de diretora de um centro ligado à embaixada brasileira e o de representante do PT na América Central. “Mas seguirei petista.”







