01/10/2007 - 12:53h Lula critica falta de apoio ao futebol feminino

Segundo o presidente, as mulheres não são valorizadas por entidades esportivas.
Lula voltou a prometer que vai ‘zerar’ déficit de bibliotecas no país.

Do G1, em São Paulo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou o seu programa semanal “Café com o presidente” desta segunda-feira (1º) com críticas às entidades esportivas que controlam o esporte feminino no Brasil, especialmente o futebol. Segundo Lula, a derrota das meninas da seleção brasileira feminina de futebol para a Alemanha, na final da Copa do Mundo, disputada na China, demonstra que o país ainda está começando um processo de transformação na área.

“Assisti ao jogo pela televisão. Acho que essa seleção enaltece o nome do Brasil e o esporte nacional. Mas as meninas não estão sendo valorizadas como deveriam ser pelas entidades que cuidam do esporte feminino no país”, disse Lula, sem apontar as entidades responsáveis pelo tema. Oficialmente, controla a equipe liderada pela atacante Marta, eleita a melhor jogadora do mundo, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

O presidente, porém, valorizou o segundo lugar no Mundial. “Elas precisam levantar a cabeça, pois o estamos começando um processo grande no país”.

Bibliotecas

A exemplo do que já havia ocorrido durante visita do presidente à Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, na sexta-feira (28), Lula voltou a prometer “zerar” até 2008 o número de municípios brasileiros sem biblioteca.

“O brasileiro lê pouco. Estamos ampliando o programa nacional de bibliotecas escolares para beneficiar 30 milhões de alunos e 85 mil escolas públicas. Pretendemos levar biblioteca, ao menos uma, para todos os municípios brasileiros”, disse o presidente.

Educação

Como também ocorreu em programas anteriores, Lula discursou sobre o tema educação. “Tenho a responsabilidade de resolver, se não toda, parte do problema da educação no Brasil. Estamos fazendo investimentos nessa área. Já aumentamos de oito para nove anos o tempo de permanência de uma criança na escola. Investimos em escolas técnicas e estamos resolvendo os problemas do ensino universitário. Trabalhamos para recuperar o tempo perdido. Meu compromisso é terminar o mandato com mais dez universidades federais novas, 48 extensões universitárias e 214 escolas técnicas profissionais”, prometeu.

30/09/2007 - 11:53h Radar contra o preconceito

Time pioneiro brilhava na época em que o futebol feminino era proibido por lei

Gian Amato

Golaço do Brasil! Marta dá um drible espetacular, invade a área e marca, aos 31 do 2º

Os sinais de que o futebol feminino poderia ser um sucesso foram captados pelo Radar na década de 80. Antes de Marta & Cia. conquistarem a medalha de ouro no Pan sob os olhares do Maracanã lotado, o time tinha sido tetracampeão carioca em 1986 diante de mais de cem mil pessoas no estádio.
Criado nas areias de Copacabana, o Esporte Clube Radar era sucesso absoluto durante uma fase de amadorismo total.
Proibidas por lei de praticarem o futebol, as jogadoras viviam quase na clandestinidade de um esporte que penou para chegar até a disputa da final de hoje, contra a Alemanha.

Apesar de a primeira partida internacional oficial ter sido disputada no século 19, entre Inglaterra e Escócia, no Brasil havia um decreto-lei, de 1941, que proibia “práticas de desportos não compatíveis à natureza feminina”, como futebol e até futebol de mesa.

Em 1978, a Holanda organizou um campeonato nacional com 26 clubes e tinha uma seleção. No Brasil, o esporte ainda era coisa de homem. Mas, quando o Radar surgiu, em 1981, o país descobriu que as mulheres também batiam um bolão. O advogado da CBF na época, Athos Pimentel, reconheceu a prática, mas ressaltou ser “atividade espúria, sujeita a medidas disciplinares do Código Desportivo”.

O Conselho Nacional de Desportos (CND), que regulamentou o decreto-lei, vetava a realização de jogos em estádios oficiais e só desistiu da norma em 1983, quando o Radar já tinha feito uma excursão pela Espanha, em 1982, durante a Copa do Mundo masculina.

O radar do CND detectou os novos tempos muito tarde. O Radar da praia captava os sinais das mudanças e revelou para o Rio a primeira craque: Pelezinha. Nascida no Lins, Marilsa Martins da Silva era uma jovem negra que media 1,60m, mas jogava futebol de gente grande. Recebia dez cartas por dia — a maioria de meninas.

Na sexta-feira, a CBF anunciou a criação da Copa do Brasil para mulheres.

Mas, em 1983, o Radar conquistava a primeira Taça Brasil. O time ficou com o título ao vencer o Goiás por 5 a 0 no campo do Olaria, na Rua Bariri, no primeiro campeonato oficial. A seis minutos do fim, o juiz Jorge Emiliano, o Margarida, foi agredido por Andréia, jogadora do Goiás. Com os gestos espalhafatosos que pontuaram sua carreira, ele expulsou todo o time e a partida acabou em pancadaria. O árbitro negou que tivesse dado um soco em uma jogadora, mas foi surpreendido ao saber que a imagem fora registrada pela TV.

— A tecnologia moderna me mata — disse ele na época.

Até a metade dos anos 80, o Radar disputou 135 jogos e sofreu uma derrota. Era o favorito no Mundialito de Cabo Frio.

Goleou a Argentina por 9 a 0, porém ficou com o vice ao empatar com a Alemanha em 1 a 1, no Estádio Alair Correa, o Correão, construído especialmente para o campeonato e que hoje é a sede da Cabofriense.

O fim da década trouxe a decadência. Sem estrutura, o Radar foi desfazendo o time aos poucos. Em 1991, a Fifa organizou o primeiro Mundial, iniciando a era do profissionalismo. Os anos 90 foram marcados pelas embaixadinhas de Milene Domingues, no Corinthians, e pela beleza de Susana Werner, do Fluminense. Em 1996, o Vasco foi campeão estadual com cinco jogadoras da seleção das Olimpíadas de Atlanta: Pretinha, Marta, Fanta, Suzi e Meg. O São Paulo foi o primeiro campeão brasileiro (torneio que existiu de 1998 a 2001), com Kátia Cilene, Sissi e Formiga. Na mesma época, Pretinha despontava no Vasco, hexacampeão carioca (1995 a 2000).

Antes da ressurreição no novo milênio, o futebol feminino enfrentou preconceitos e promessas desfeitas. Foi preciso chegar à final de um Mundial para renovar as esperanças de apoio e investimento. Vencendo hoje ou não, tudo que as meninas desejam é continuar aparecendo no radar do esporte brasileiro.

27/07/2007 - 00:16h As mulheres do Brasil

Blog de Alon

Não incomoda que o nível técnico das competições dos Jogos Pan-Americanos esteja abaixo do desejável. Se os Estados Unidos, por exemplo, não mandaram os seus melhores atletas, problema deles. Não dá para você ficar na festa se lamentando por quem não veio. O Pan não tem sido um evento para a quebra de recordes mundiais. É um evento para o congraçamento esportivo das Américas. Nesse aspecto o Pan é um sucesso. E o Brasil mostra que pode sediar qualquer competição internacional. Um problema grave são as vaias. Vaiar atletas porque são estrangeiros é demonstração de boçalidade e subdesenvolvimento. Outro problema são os estádios meio vazios. Mas os últimos anos têm mostrado que o brasileiro e a brasileira passaram a praticar todo tipo de esporte. Assim, o surgimento de atletas de ponta e portanto de ídolos é uma questão de tempo. Mais ídolos e mais dinheiro no bolso dos torcedores significarão estádios e ginásios mais cheios. Hoje, por exemplo, o futebol feminino encheu o Maracanã para ganhar a medalha de ouro. O adversário foi o time sub-20 dos Estados Unidos? E daí? Nas estatísticas, ficará que as mulheres do Brasil ganharam a medalha de ouro no Pan de 2007 no Rio de Janeiro. Aliás, eu tenho um pedido aos colegas do jornalismo esportivo. Vamos parar de chamar as mulheres esportistas do Brasil de “meninas do Brasil”. Quando a seleção brasileira de futebol masculino entra em campo ninguém usa a expressão “meninos do Brasil”. Quando a supercoroada seleção de vôlei do técnico Bernardinho está em quadra ninguém se refere aos jogadores como “os meninos”. Então por que será que as mulheres do Brasil são chamadas de “meninas”? De duas uma: ou os homens que representam o Brasil nos eventos esportivos começam a ser chamados de meninos, ou que se passe a chamar as mulheres de mulheres. É razoável. Eu penso que o suposto carinho embutido na expressão “meninas” expressa machismo e sentimento de superioridade. Vamos acabar com essa bobagem. Vamos chamar as mulheres de mulheres. Vamos torcer por elas como torcemos para os homens. E vamos cobrar delas os resultados e a performance que cobramos dos homens.

26/07/2007 - 20:36h Marta chora com ouro e pede estrutura e fim do preconceito no futebol feminino


CLARICE SPITZ
da Folha Online, no Rio

A meia-atacante Marta, principal destaque da seleção brasileira feminina de futebol, que nesta quinta-feira conquistou a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos com uma goleada por 5 a 0 sobre o time sub-20 dos EUA, se emocionou ao falar da vitória.

Chorando, ela se lembrou das dificuldades pelas quais o esporte passa no Brasil, como a falta de estrutura e o preconceito.

“Hoje foi um dia muito especial, um dia em que o futebol feminino mostrou para o país que a gente tem condições de estar no pódio, no lugar mais alto”, afirmou.

Marta, que joga no Umea, da Suécia, e foi eleita em 2006 a melhor jogadora do mundo pela Fifa, pediu apoio para disseminar o esporte nas categorias juvenis.

“A nossa esperança é que isso não pare por aí. Tem muita menina querendo jogar, muitas Martas, Formigas, Danielas. E a gente está aí junto na luta para que isso possa acontecer.”

Ela reconheceu que o esporte ainda sofre muito com o preconceito. “É uma das coisas que atrapalham o desenvolvimento da gente aqui no Brasil, não só no futebol feminino, mas em todos os esportes. Mas nós mulheres estamos procurando o nosso espaço, mostrando o nosso potencial e, aos poucos, só temos a crescer.”

A jogadora foi homenageada como a primeira mulher a deixar as marcas dos pés na Calçada da Fama, no Maracanã. Marta vai ter como “vizinhos” Zinho e Júnior, e seus pés ficarão próximos dos de Zico.

O técnico Jorge Barcellos, após o jogo, também se queixou do preconceito que o futebol feminino enfrenta no país. “Tivemos um Mundial no ano passado e só passava na TV fechada. Sabemos a realidade do povo brasileiro, nem todos têm condições de uma TV fechada”, disse para depois acrescentar: “Como [ o futebol feminino] não é uma coisa lucrativa e o estádio hoje estava lotado?”

Campanha perfeita

A time brasileiro conquistou a medalha de ouro de forma invicta e sem sofrer gols. Foram 33 gols marcados e nenhum sofrido.

Os gols desta quinta foram marcados por Marta (em dois pênaltis), Cristiane (2) e Daniela Alves. A vitória serviu como espécie de revanche da derrota brasileira na final dos Jogos Olímpicos de Atenas.