05/09/2009 - 13:09h ”País cresceu até 2% no 2º trimestre”

Segundo ministro Mantega, expansão no período reforça a meta do governo de que o PIB avançará 1% em 2009

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Daniela Milanese, LONDRES – O Estado SP

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu entre 1,8% e 2% no segundo trimestre, na comparação com os primeiros três meses do ano, revelou o ministro da Fazenda, Guido Mantega. O número, a ser anunciado oficialmente na próxima sexta-feira, aponta que o País saiu da recessão.

No primeiro trimestre, a economia brasileira encolheu 0,8%, depois de recuar 3,6% de outubro a dezembro do ano passado, quando a turbulência externa atingiu em cheio a atividade nacional. Com a retomada do crescimento, o Brasil deixa o período de retração econômica mais rapidamente do que os países desenvolvidos, onde a recessão se prolongou por um ano.

Segundo Mantega, em julho e agosto, a economia deu fortes sinais de aceleração em razão da retomada da produção industrial, pois as medidas de combate à crise estão surtindo efeito.

Mesmo assim, o ministro é contra a adoção de estratégias de saída neste momento e avalia que as medidas anticíclicas devem ser mantidas no País, ponto defendido também pelos demais Brics, que se reuniram ontem em Londres, antes do encontro de ministros de G-20, marcado para hoje. “Estamos no rumo certo, sem necessidade de correção”, afirmou.

Mantega avalia que ainda não é preciso reverter os estímulos porque o Brasil não teve o mesmo comprometimento fiscal que os outros países – os pacotes no País representaram apenas 1% do PIB. Conforme o ministro, a economia voltará a andar sozinha no futuro, mas esse momento ainda não chegou.

Mantega afirmou que não há novas desonerações à vista no Brasil. No entanto, continuará alerta. Ele mantém a previsão de crescimento de 1% do PIB neste ano e espera aumento de 5% em 2010.

RISCO ‘W’

O ministro acredita que as medidas anticíclicas adotadas para combater a crise mundial precisam ser mantidas. Segundo ele, apesar da recuperação econômica, ainda não é o momento para colocar em prática as estratégias de saída.

“Tenho receio de que, se precipitarmos a saída, poderemos ver um movimento de ‘W’ (duplo mergulho na recessão)”, afirmou. Mantega admitiu que alguns países estão preocupados com o crescimento do déficit público.

“Mas a melhor forma de reduzir o déficit é com crescimento econômico”, disse. O ministro lembrou que o Brasil não precisou gastar tanto como outros países e já voltou a crescer no segundo trimestre – o que torna mais fácil o equilíbrio das contas públicas.

11/06/2009 - 12:09h ”Autoridades brasileiras mostraram liderança”

Strauss-Kahn elogia engajamento do País em reforçar os recursos do FMI

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Patrícia Campos Mello, WASHINGTON – O Estado SP

O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, comemorou ontem a “liderança” do Brasil na decisão de comprar até US$ 10 bilhões em títulos emitidos pelo Fundo, como forma de capitalizar a instituição. “Com esse anúncio, o Brasil se junta a outros países no cumprimento dos compromissos assumidos pelas nações do G-20 na cúpula em Londres, em abril”, disse Strauss-Kahn.

Os países do G-20 (das 20 maiores economias mundiais) haviam se comprometido em injetar até US$ 500 bilhões no Fundo Monetário Internacional para a instituição conseguir ajudar outros países a sair da crise financeira.

O Brasil, com a Rússia e a China, propuseram a ideia de comprar títulos emitidos pelo Fundo como forma de injetar recursos na instituição.

Esses países não queriam colaborar da forma tradicional enquanto não houvesse uma reforma mais profunda na instituição, dando mais poder aos emergentes.

A China prometeu comprar até US$ 50 bilhões em títulos e a Rússia, US$ 10 bilhões. Espera-se que a Índia anuncie em breve sua compra de títulos do Fundo (ler matéria abaixo).

“As autoridades brasileiras mostraram liderança e engajamento no processo de reforma do Fundo Monetário Internacional e expansão dos recursos do Fundo, e eu fico feliz porque o Brasil está mostrando forte apoio ao sistema financeiro e econômico internacional. O Brasil mais uma vez reafirma seu forte papel de liderança entre as economias emergentes”, disse Strauss-Kahn. Segundo o diretor-gerente do Fundo, os títulos devem ser emitidos “o mais rapidamente possível”.

RESERVAS

Os títulos são vistos por alguns países, como China e Rússia, como uma maneira de diversificar suas reservas internacionais, excessivamente concentradas em dólares e títulos do Tesouro americano.

O banco central chinês já demonstrou preocupação em relação a isso e propôs que os Direitos Especiais de Saque do Fundo venham a se tornar a moeda de reserva mundial.

O Banco Central do Brasil vai decidir que ativos de suas reservas irá vender para comprar os títulos do FMI.

Os títulos do Fundo irão ter rendimento semelhante ao dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos e serão denominados na moeda do Fundo, os Direitos Especiais de Saque, que variam de acordo com uma cesta de moedas.

04/05/2009 - 12:37h O ponto G no futuro do presidente Lula Sergio Leo

Sergio Leo – VALOR

Quase dois anos depois de ter anunciado que procurava chegar ao “ponto G” das negociações comerciais, com o então presidente dos EUA, George Bush, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pensou que aproveitaria, por algum tempo, o momento G-20, de consenso entre as vinte principais economias do mundo sobre as medidas contra a crise internacional. O anúncio, na quinta-feira, da concordata da gigante automotiva Chrysler, nos Estados Unidos, mostra, porém, que o mundo ainda não superou o ponto GM – de General Motors, uma das empresas, que se sucedem de maneira preocupante no noticiário sobre a resistência da crise no setor produtivo.

O mergulho das vendas nas montadoras de automóveis americanas já anunciava problemas no setor meses antes do colapso financeiro internacional, no ano passado. Executivos das companhias automotivas nos EUA já levavam ao governo pedidos de socorro para saírem dos problemas criados por anos de decisões equivocadas na produção de carros de alto consumo e índices anacrônicos de emissão de gases poluentes. Mas a concretização da concordata da Chrysler serve para lembrar os avisos sombrios do FMI em abril, quando seus dirigentes previram perdas de US$ 4,1 trilhões no setor financeiro dos EUA, Europa e Japão, com a queda no valor dos ativos nessas economias.

Não há confiança que resista a uma maré de más notícias, e o mercado internacional parece guardar várias, para soltá-las pouco a pouco. Após a quebra da Chrysler, as ações de outras companhias automobilísticas subiram no mercado, mas só porque os investidores perceberam que, mais uma vez, a mão generosa do Estado está pronta para socorrer o setor privado de seus próprios erros. Compraram barato para vender depois da ajuda estatal.

O prêmio Nobel, Paul Krugman, defendeu o direito do governo Barack Obama de interferir na remuneração dos executivos financeiros porque eles se tornaram uma espécie de empregado estatal; agora pode dizer o mesmo dos funcionários de uma das maiores montadoras americanas, a primeira, como lembrou o New York Times, a pedir concordata desde a Studebaker, em 1933. O desejado intervencionismo obamista tranquiliza, ao evitar o pior, mas não tem o poder de extinguir o temor de novas fontes de turbulência.

Afinal, ainda está na mesa do presidente Obama o pedido da GM para que o governo americano se torne o sócio majoritário da companhia, evitando que ela também entre em concordata em julho. Não é nenhum alívio para a cadeia de fornecedores das 11 fábricas cujo fechamento já foi anunciado pela companhia. O FMI e outros analistas afirmam que ainda é delicada a situação dos bancos nos países desenvolvidos. Quem precisa de crédito, por esses dias, sabe do que eles estão falando.

Há garantias de que a crise das montadoras nos EUA não chegará às subsidiárias em outros pontos do mundo, como o Brasil. É difícil imaginar novas ondas de investimento no setor, porém. No ponto GM, onde se encontra o setor, os tempos ainda são de redução de estoques no Brasil.

Recente sondagem industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontava um índice de utilização da capacidade instalada na indústria automotiva de 64%, um dos mais baixos da história recente e inferior aos 68% da média na indústria. Quando consultados se os estoques estariam de acordo com o planejado, a grande maioria dos empresários do setor também indicou estoques superiores ao desejado, num grau de insatisfação também maior que o da média da indústria de transformação.

A mesma sondagem mostrou que as grandes empresas, as mais antenadas, já apostam em aumento de demanda nos próximos meses, no Brasil. Esse otimismo (a CNI prefere falar em “menor pessimismo”) se reflete em indicadores como o Índice de Confiança da Indústria, medido pela FGV, que também mostrou, pela quarta vez seguida, uma recuperação em março, superando o nível a que havia despencado em novembro. Esse indice mostra que os empresários já falam em aumentar a produção. Não encoraja, porém, previsões de aumento do investimento.

É um consenso entre os especialistas que o Brasil pode sair da crise em melhores condições do que entrou, mas também é evidente que isso dependerá de investimento, de aumento da capacidade de produção e da eficiência nesse parque produtivo nacional. O Ipea alertou, na semana passada, em seu comunicado da presidência, para a necessidade de incluir, ao lado do Programa de Aceleração de Crescimento, com suas obras de infraestrutura, um plano de melhoria da logística, para permitir um uso mais competitivo das obras, quando ficarem prontas.

É a perspectiva de superação da crise e de melhor competitividade da economia brasileira que transmutará em investimentos o ligeiro aumento de confiança da indústria. Os dados disponíveis até agora mostram redução no ritmo de ampliação da capacidade produtiva. Com base nos indicadores, principalmente o de produção física do IBGE, e informações como a utilização da capacidade instalada, a CNI prevê uma queda forte, de 4,4%, em vez do aumento esperado pelo governo na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, indicador do volume de compras de máquinas e equipamentos e de construção de instalações físicas da indústria).

Essa queda nos investimentos para aumentar a capacidade de produção deve contribuir com menos 0,8% para o comportamento do Produto Interno Bruto, equivalente à contribuição de mais 0,8% proporcionada pelo consumo do governo, na previsão da CNI, de estagnação (0%) do PIB em 2009.

Para evitar a concretização dessa previsão pessimista, a economia terá de multiplicar fatos positivos, como o aparente consenso em torno do combate à crise, alcançado precariamente na reunião do G-20. E casos como o incerto destino da GM terão de dar lugar a notícias que aumentem a confiança na capacidade de recuperação da economia americana. Oscilando entre esses dois pontos G, a economia brasileira tem apenas o apoio do ainda resistente mercado interno, de quem o governo terá de cuidar com atenção redobrada.

Sergio Leo é repórter especial em Brasília

E-mail sergio.leo@valor.com.br

27/04/2009 - 10:51h Traduzir as palavras em atos: aumentar o poder de voto do Brasil e dos Brics no FMI é adequar a instituição a nova realidade

”Influência do Brasil é maior que seu poder de voto”

 

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Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do FMI

Patrícia Campos Mello, WASHIGNTON – O Estado SP

 


O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, afirmou ontem que a influência do Brasil no Fundo já aumentou muito, independentemente da reforma da estrutura de votos na instituição. “Na última reforma de cotas, os votos do Brasil passaram de 1,4% para 1,8%, o que não muda muita coisa”, disse. “Mas o Brasil está se tornando um dos países mais importantes da economia mundial. A importância do que o Brasil diz na cena internacional e o papel desempenhado pelo presidente Lula são mais relevantes do que os votos que o País tem no Fundo”, afirmou ele em entrevista de encerramento da reunião.

Strauss-Kahn reforçou que a reforma nas cotas é importante, pois é necessário que o Fundo reflita a nova realidade econômica mundial. “Mas China, Brasil e Índia não estão esperando nova mudança nas cotas para serem ouvidos pelo conselho do Fundo e do Banco Mundial.”

O comitê de desenvolvimento determinou que uma nova mudança na estrutura de votos da instituição será concluída até janeiro de 2011. Em abril de 2008, foi concluída uma reforma nas cotas, o Brasil passou de 1,4% dos votos para 1,8%.

A mudança ainda não foi aplicada porque depende de aprovação legislativa de alguns países. Mas o Fundo precisa ser recapitalizado e os países emergentes argumentam que a mudança foi insignificante, então haverá uma segunda reforma nas cotas até janeiro de 2011.

A crise financeira foi classificada como “um desastre humano e de desenvolvimento” no comunicado divulgado ao fim da reunião do comitê de desenvolvimento do Fundo. Strauss Kahn, Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, e Agustín Carstens, presidente do comitê, exortaram os países a liberar rapidamente os recursos prometidos para o Fundo.

Os líderes do G-20 decidiram, em Londres, no dia 2, elevar de US$ 250 bilhões para US$ 750 bilhões o total disponível para empréstimos. Mas, até agora, poucos países deram dinheiro para o Fundo, entre eles o Japão, que liberou US$ 100 bilhões. O Congresso dos EUA está adiando a liberação de US$ 100 bilhões. O Brasil apresentou exigências para dar os recursos prometidos. “Exortamos a todos os doadores que acelerem a liberação dos recursos e aumentem o montante que se dispõem a dar para o Fundo”, disse o comunicado.

22/04/2009 - 09:42h ”Moeda global reflete a ascensão do resto do mundo”

Joseph Stiglitz: economista; para Stiglitz, a proposta de criação de uma nova moeda é sinal do declínio do dólar, que começou durante o governo Bush

 

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Nathan Gardels, GLOBAL VIEWPOINT NETWORK – O Estado SP

 


O economista Joseph Stiglitz , Prêmio Nobel de Economia em 2001, vê no movimento para substituir o dólar por uma nova moeda global uma transferência de poder para a “ascensão do resto” do mundo. A seguir, os principais trechos da entrevista de Stiglitz :

O ex-secretário do Tesouro Henry Paulson argumentou que uma das principais dinâmicas da bolha do crédito foi a maciça disponibilidade de liquidez chinesa para os EUA mediante o investimento de suas reservas em dólares em títulos do governo americano. Isso manteve baixas as taxas de juros de longo prazo, tornando o crédito fácil e também impelindo os investidores a buscar rendimento em instrumentos mais exóticos. O sr. concorda?

Sim e não. É verdade que a poupança chinesa estava fluindo em massa para os EUA e, obviamente, as taxas de juros nos EUA foram afetadas, mas de maneira nenhuma determinadas por isso. O alto nível geral de liquidez poderia ter sido desfeito pelo Fed (o banco central dos EUA), que tem autoridade sobre as taxas de juros. Ele poderia ter elevado as taxas para desacelerar a bolha causada pela expansão do crédito fácil. Em geral, acumulação de poupança é uma bênção, não um problema. Ter dinheiro barato é base para um forte crescimento econômico. O problema é que o sistema financeiro americano não fez o que supostamente devia fazer, que é gerenciar o risco e alocar capital para fins produtivos. Nós desperdiçamos essa bênção e agora estamos pagando o preço. Mas é um absurdo culpar os chineses.

Entre os muitos desafios do presidente Barack Obama, o mais abrangente não será corrigir esse desequilíbrio em poupança e consumo entre os EUA e a China?

Numa economia globalmente integrada, o maior desafio é garantir que haja uma demanda agregada global adequada, alcançada mediante gastos, quando países como China sentem que precisam acumular níveis altos de reservas em dólar para se proteger contra a volatilidade internacional da moeda. Afinal, o acúmulo de reservas da China é uma consequência dos equívocos do Fundo Monetário Internacional (FMI) na condução da crise financeira asiática há cerca de uma década. Se os países sabem que não podem confiar no FMI para ajudá-los, sua melhor defesa é criar uma almofada de reservas própria. Em período de avanço da recessão global, uma ênfase excessiva na poupança em países superavitários, como a China, pode frustrar as perspectivas de crescimento global.

Preocupados com o valor de suas bilionárias posses em dólares no momento em que os déficits americanos aumentam e desponta a ameaça de uma inflação mais adiante, os chineses propuseram uma nova moeda de reserva global baseada numa cesta de moedas. Uma nova moeda como essa seria um bom mecanismo para desfazer o desequilíbrio com um pouso suave em vez de um crash do dólar, o que prejudicaria tanto os chineses como os americanos?

A proposta de uma nova moeda de reserva global – ou Direitos Especiais de Saque (SDR, na sigla em inglês) – é uma boa ideia por muitas razões. Sim, para os chineses ela por si amorteceria alguma queda no valor do dólar porque faria parte de uma cesta de outras moedas, incluindo o iene e o euro. Mas uma nova cesta de moedas de reserva estimularia a demanda agregada global reduzindo enormemente o medo da volatilidade cambial que, como eu disse, foi o que levou países como a China a colocarem de lado tanto dinheiro em reservas em vez de gastá-lo. Há outros benefícios. Em matéria de uma economia sólida, o bem-estar do mundo não deveria depender da gestão de uma única moeda. O risco cambial seria diversificado mediante uma unidade de reserva de cesta, criando estabilidade e confiança por toda parte.

O que significaria para os EUA se o dólar fosse substituído por uma nova moeda global?

Isso seria de grande interesse dos EUA no longo prazo porque ajudaria a “desfinancializar” a economia americana.

Em sua cúpula em Londres recentemente, os líderes do G-20 decidiram criar US$ 250 bilhões em novos SDR. Esse é um passo importante para criar uma nova moeda de reserva global?

Acho que sim. A questão é a rapidez com que isso acontece. Em minha opinião, porém, o FMI não é o melhor lugar de onde lançar essa moeda a menos que ele se torne uma instituição mais justa e equilibrada que represente a economia mundial real e não as potências pós-Segunda Guerra Mundial, dominadas pelos Estados Unidos. Os países do Leste Asiático, o Brasil e outros precisam ter uma influência muito maior. Por exemplo, dos US$ 250 bilhões em SDRs consignados, somente US$ 19 bilhões foram alocados para países em desenvolvimento. Assim, a ideia de SDR maior é boa. A instituição é falha.

Mesmo assim, o fato de os chineses proporem uma nova moeda SDR global e o G-20 ter dado o passo para sua criação, seguramente, marcará uma mudança de poder no mundo?

Sem dúvida, é um reconhecimento da realidade de um mundo multipolar que requer o avanço para um sistema de governança multilateral. A transferência de poder começou há vários anos, na época da administração Bush, quando o dólar ficou muito volátil e começou a declinar. É aí que a China mudou de acumular quase 100% de suas reservas em dólares para 75%. Alguns países saíram completamente do dólar. O dólar, apesar de todas as intenções e propósitos, perdeu seu status especial de reserva e as pessoas estão começando a falar de uma abordagem de portfólio, ou cesta, como um estoque de riqueza em vez do dólar. O impulso existente hoje por trás da ideia de uma nova moeda de reserva global reflete, de fato, a ascensão do resto (do mundo) na política e na economia mundiais, liderado pela China.

12/04/2009 - 11:59h Pareceu um sucesso

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Celso Ming, O Estado SP

celso.ming@grupoestado.com.br

Em política, o que parece é – dizia o ditador português António de Oliveira Salazar. Os resultados econômicos da última reunião de cúpula de chefes de Estado do Grupo dos Vinte (G-20) podem ter sido frouxos, mas, politicamente, disseram muita coisa.

O primeiro grande resultado político, já lembrado por esta coluna no dia 3, foi o fato de ter produzido globalmente a percepção de que os grandes estão controlando a situação e que a crise está refluindo, embora isso possa parecer um desfecho mais psicológico do que real.

O segundo grande resultado político é a demonstração de que parte do poder hegemônico vai escapando dos Estados Unidos e que novos players se impõem na condução da governança mundial. O Grupo dos Sete (G-7) foi um arranjo informal sugerido em 1975 pelo então presidente francês, Valéry Giscard d?Estaing, para facilitar a tomada de decisões pelos grandes. Em 1997, a Rússia foi admitida no que passou a ser chamado de Grupo dos Oito (G-8) e, a partir de 1999, surgiu o G-20, que incluiu países emergentes, notadamente China, Brasil e Índia.

É um novo agrupamento de alta densidade econômica e demográfica. Corresponde a 90% do PIB, a 80% do comércio e a 66% da população do planeta. A partir dos anos 80, muita coisa importante aconteceu. Em 1989 caiu o Muro de Berlim e a distinção entre economias capitalistas e socialistas já não fez mais sentido. E, a partir dos anos 90, com a disseminação do computador, da internet e do que se convencionou chamar de Tecnologia da Informação, ocorreu uma impressionante revolução tecnológica que impulsionou o setor produtivo global e, mais particularmente, o mercado financeiro. O impacto sobre a geopolítica mundial ficou inevitável e decisivo, embora não se saiba aonde vá desembocar.

Do ponto de vista econômico, o fator mais relevante é a necessidade do ajuste do principal desequilíbrio, que é o rombo orçamentário e comercial dos Estados Unidos, de um lado, e o superávit comercial da China, de outro. Os Estados Unidos não podem expandir sua dívida pública e seu consumo indefinidamente. E a China não pode seguir indefinidamente financiando o consumo dos americanos por meio da compra de títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Em outras palavras, a simbiose entre os dois países é insustentável a longo prazo.

Isso significa que os Estados Unidos terão de voltar a poupar e a China terá de incrementar seu consumo, ajuste que também terá consequências econômicas e políticas. Uma das consequências econômicas pode ser o que a China já pleiteia publicamente, que é a criação de uma nova moeda de reserva que assuma parte do espaço ocupado pelo dólar.

Do ponto de vista político, as consequências são mais difíceis de discernir. Mas vai ficando clara a necessidade de mecanismos mais ágeis para coordenar políticas globais. Pouca gente aposta em que isso possa ocorrer no âmbito das Nações Unidas, um paquiderme que só tem relevância no círculo do seu Conselho de Segurança. Os Estados Unidos vêm vetando a criação de organismos supranacionais que exijam delegação de soberania, mas sabe-se lá até quando continuarão em condições de vetar. Outra ideia é institucionalizar fóruns como esse G-20. O problema é como cobrar globalmente o que for decidido apenas no restrito comitê.

Confira

Contra-ataque - A proposta da China para a criação de nova moeda de reserva parece um bom revide contra a repetida exigência do governo americano de que a China revalorize o yuan, a moeda do país.

No fundo, a China parece dizer que a única maneira de garantir condições sustentáveis para a valorização do yuan seria a de que parasse de comprar dólares e títulos do Tesouro dos Estados Unidos para formar suas reservas. Ora, isso só poderia ser feito se houvesse nova moeda de reserva que não fosse o dólar.

O dólar despencaria se a China parasse de comprá-lo.

10/04/2009 - 09:05h O ”Cara” do mundo e a cara do Brasil

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Dionísio Dias Carneiro* – O Estado SP

A reunião do G-20 superou expectativas. Boas notícias fecharam o primeiro trimestre do complicado 2009. Os investidores precisam disso para que o pessimismo não agrave a depressão mundial. Assim, é bem-vinda a confirmação de que os governos estão dispostos a agir em conjunto e não medirão esforços para estimular as respectivas economias, via políticas monetárias e fiscais, e esconjurar defesas protecionistas. Em boa hora foram reforçados o poder financeiro e o papel institucional do FMI como instrumento para evitar que defesas diante das necessidades de financiamento externo dos países emergentes atingidos pela crise venham a agravá-la. Um bônus que não deve ser desprezado: o nosso presidente, na linguagem de Obama, é “o cara”, e, na linguagem dos mercados, nossa “cara” saiu muito bem na foto.

A recuperação dos preços de ativos financeiros arriscados na economia global tem sido interpretada como sinal de que os mercados antecipam o fim do túnel para mais breve do que os economistas, perdidos que estamos no dimensionamento e na duração desta catástrofe econômica. O risco Brasil caiu 10,5% até anteontem e o Ibovespa subiu 18% neste ano.

Até que ponto os países emergentes podem sofrer menos do que economias maduras, onde de fato a crise eclodiu, instalou-se e se desdobra em fatos cuja progressão negativa não parece haver se esgotado? A ação pronta dos líderes do G-20 foi motivada pelos riscos de que a crise mexicana e a exposição dos países da zona do euro à fragilidade dos balanços de pagamentos da Europa do Leste e do Sudeste se transformem em fatores de agravamento da crise global. Conseguirão?

Em comparação com as economias emergentes, como ficará o Brasil? Do ponto de vista do quadro macroeconômico de curto prazo, Brasil e China estão comparativamente mais fortes se considerarmos a inflação, o grau de alavancagem e de liquidez das empresas, a trajetória de endividamento interno e o balanço de pagamentos. A China não pode salvar o mundo, mas pode agravar a crise. O Brasil tem vantagens estruturais importantes para uma economia menos capaz de ameaçar o mundo, como estrutura legal mais consolidada, diversificação das exportações e estabilidade das relações comerciais em geral, flexibilidade cambial, credibilidade do Banco Central (BC), os instrumentos de defesa do nível de renda dos mais pobres e projetos de investimento em infraestrutura, modernização urbana e construção habitacional que fazem sentido.

Não foi só por causa dos dons inequívocos de grande comunicador, capaz de conciliar a espontaneidade com a disciplina humilde e de encorajar a sensação de intimidade, que o presidente Lula foi a estrela emergente do encontro do G-20. Qualificou-se como interlocutor responsável entre os americanos e os antiamericanos porque cuidou de não se apresentar nem como simples porta-voz dos terceiro-mundistas – como gostariam alguns de seus conselheiros e companheiros do continente – nem como pregador de políticas macroeconômicas que os vizinhos fracassados, aliados petistas e até adversários, dentre os potenciais candidatos, não se cansam de desqualificar como “neoliberais”. Mas também porque o desempenho da economia brasileira inspira confiança, comparado ao dos concorrentes.

Até agora, sofremos menos com a crise em produção industrial, inflação e mesmo em deterioração do balanço de pagamentos e variáveis fiscais nos 12 meses até fevereiro. Há razões para esperar que soframos menos, segundo projeções para 2009. Temos instrumentos para defesa da produção e da renda dos mais pobres, seja pela sustentação do crédito e da queda dos juros, seja por cortes de impostos e aumento dos investimentos e defesa do consumo, sem abusar dos venenos que rondam o mundo desenvolvido: maior alavancagem financeira, dívida pública explosiva e menor transparência dos balanços dos bancos, que provocam o receio de que os remédios agravem os problemas estruturais nas economias maduras e fomentem irresponsabilidade nas economias emergentes.

Por maior que seja a irritação dos adversários diante do sucesso de Lula, seu conservadorismo prevaleceu quando resistiu à manipulação cambial, às pressões para desmoralizar o BC, explodir os gastos e desmontar tudo o “que aí estava” quando tomou posse. Por isso merece o crédito pelo respeito conquistado hoje. Para sofrer menos com a devastação econômica mundial, o presidente não precisa, pois, seguir os conselhos dos que tanto erraram no passado e continuam a empurrá-lo para a irresponsabilidade.

*Dionísio Dias Carneiro, economista, é diretor da Galanto Consultoria e do IEPE/CdG

09/04/2009 - 08:58h Sem balelas do G-20, Brasil luta sozinho

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Alberto Tamer*, O Estado SP

*E-mail: at@attglobal.net

Vamos começar dizendo tudo: aquele US$ 1,1 trilhão prometido pelo G-20 não existe. Quando existir, será tarde e o Brasil pode começar a se esquecer de tudo o que foi dito em Londres. Só nos resta cuidar de nós mesmos para evitar uma recessão maior. É isso. Tudo o mais são boas intenções vazias.

Temos de nos livrar de ilusões externas. E isso porque, se tudo o que o G-20 prometeu se transformar em realidade, será pouco, quase nada. Visa a atender aos países menos desenvolvidos e não aos EUA, à Europa, ao Japão.

ELES TÊM DE CRESCER!!!

E daí, não chega? Daí que é justo pensar nas economias menores, mas isso só não as sustenta. Os países desenvolvidos representam quase 50% do PIB e do comércio mundiais e são os principais mercados dos países em desenvolvimento ou emergentes, nós. Eles precisavam ter assumido compromissos sérios para incentivar suas economias e voltar a crescer. Devem isso ao mundo! E não assumiram nada. Limitaram-se a prometer socorro a países em que o melhor socorro seria que eles tivessem não prometido, mas adotado medidas efetivas para voltar a crescer. Nada disso foi decidido. Ou eles saem da recessão ou nós afundamos nela. Ponto final.

NÓS VIMOS TUDO

Felizmente, a equipe econômica do governo se conscientizou disso e está agindo por conta própria diante de tanta insensatez dos países ricos, os mesmos que alimentam esta crise.

Parece que Lula não se deixou iludir pelas promessas do G-20 e pelos elogios a ele e ao Brasil. Assim que chegou de Londres, mandou reduzir mais impostos de setores industriais em forte desaceleração, como o de linha branca. Em contrapartida, aumentará o IPI das bebidas alcoólicas, como já havia feito com os cigarros. Quem quiser alimentar seu vício, fatal, no caso do fumo, que pague mais. Sei que isso pode afetar essas indústrias, mas seguramente sua perda de empregos será amplamente compensada pelas que foram beneficiadas e têm maior valor agregado.

VAI DAR CERTO?

Não, já está dando. Os resultados da redução de impostos na construção e na indústria automobilística estão aí para confirmar. Os preços dos carros caíram entre 5% e 7% e, em alguns casos, pode chegar 12%. As vendas aumentaram 36% em março, em relação a fevereiro, despertando o interesse de indústrias do exterior pelo Brasil.

Assim, enquanto a indústria automobilística nos EUA se aproxima do caos – a GM pode entrar em concordata – no Brasil está em franca recuperação. Em vez de dar ajuda financeira,como fazem os EUA e a Europa, o governo reduziu impostos, que aumentou as vendas. Tomem nota, em fevereiro, anualizado, o financiamento de carros no Brasil chegou a R$ 144,7 bilhões, uma alta de 23,5%. Lá fora, eles afundam; aqui, a indústria automobilística cresce.

IMÓVEIS TAMBÉM

Outro exemplo. Em decorrência, principalmente, da redução de impostos e outras medidas de financiamento, a construção civil dá indícios de começar a voltar à normalidade, após meses de forte retração. O preço dos materiais de construção caíram mais de 30%, beneficiando, principalmente, as moradias para as famílias de baixa renda. Aqui, o movimento de vendas é intenso e as grandes construtoras voltam-se para atendê-las.

É uma reação mais lenta, pois implica valor e prazo de endividamento maiores, mas o simples fato de as prestações agora caírem, em vez de aumentar, é um grande incentivo para os que buscam realizar o sonho até agora impossível da casa própria. É economia associada ao que poderíamos chamar de justiça social.

USADOS, UMA FESTA

A de venda de Imóveis usados, então, foi uma loucura: mais 140,2% em fevereiro, comparado com janeiro! Não é imóvel novo, eu sei, mas, geralmente, quando alguém vende um usado, tende a comprar um novo, dando fôlego ao mercado. E, mesmo que não compre, são recursos que entram na economia, pois quase toda a compra de imóvel está sendo financiadas pelos bancos e pela Caixa, muito agressiva no mercado. É dinheiro que circula.

NÃO É TUDO, MAS…

É o caminho certo. Manter a liquidez no sistema financeiro, irrigar a economia, incentivar a demanda, reduzir impostos e juros, aumentá-los em setores menos importantes, facilitar o credito, ampliar os prazos e adotar medidas agressivas para aumentar a renda. Tudo isso sem medo da inflação e do ajuste fiscal, que deixaram de ser questões prioritárias neste momento, diante da ameaça da recessão que se avulta.

Mas falta muito ainda para evitar uma recessão mais profunda. Não devemos esperar nada do que prometeu o G-20, mas não podemos deixar de ser atingidos pela retração do comércio e pela crise de financiamento externo.

É continuar seguindo com muita firmeza no caminho, sem contar muito com o prometido auxílio dos países ricos, que nos jogaram nesta crise e se recusaram, até agora, a aplicar um plano comum para se livrar dela. Ou agimos sozinhos ou eles nos levam juntos montanha abaixo.

08/04/2009 - 08:44h O Brasil e o G-20

Cristiano Romero – VALOR

A principal vitória do Brasil e dos outros países emergentes na reunião de cúpula do G-20 foi a consolidação do grupo como o foro central de deliberação sobre temas econômicos e financeiros internacionais. O G-20, ao contrário do que ocorreu no passado, tomou decisões concretas, demarcando sua importância para o mundo num momento de crise aguda. Trata-se de um foro muito diferente daquele criado há dez anos, sob a inspiração e a liderança do então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton.

O G-20 original foi criado na esteira das crises asiática, russa e brasileira, com o propósito de dar lições aos países emergentes para que eles não entrassem novamente em enrascadas financeiras. Realizadas no nível dos ministros das Finanças, as reuniões eram sonolentas e improdutivas. Os países ricos fingiam que ensinavam alguma coisa e os emergentes fingiam que aprendiam. O resultado prático era algo próximo de zero.

Nos anos seguintes ao de criação do G-20, nações emergentes adotaram suas próprias estratégias para enfrentar possíveis crises. Puseram em prática políticas de austeridade fiscal, controlaram a inflação, estimularam exportações e acumularam reservas cambiais. Na prática, procuraram se ver livres das vulnerabilidades que fizeram suas economias irem a pique nos anos 90. No ano passado, com a falência do banco americano Lehman Brothers, o jogo mudou radicalmente. Dessa vez, não foram os países emergentes que se enroscaram numa crise financeira, mas as economias centrais do capitalismo.

Antes mesmo do início da fase mais aguda da crise atual, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, percebeu que o foro foi posto em situação marginal no processo decisório internacional. O ministro, e esse mérito deve ser creditado a ele, iniciou um esforço pessoal para mudar a natureza do G-20. Sua primeira tentativa fracassou – Mantega propôs a seus colegas, em meados do ano passado, que o G-20 realizasse uma reunião extraordinária para debater a crise dos preços dos alimentos e de energia.

O mundo precisou sentir o abalo do setembro negro de 2008 para que os líderes dos países mais ricos se sensibilizassem. Eles perceberam que, sem coordenação com os países emergentes, seria muito mais difícil sair desta crise. Em outubro, Mantega presidiu a reunião à qual o então presidente dos Estados Unidos George W. Bush decidiu comparecer, em Washington, mostrando à opinião pública internacional que, dali em diante, o G-20 passaria a ser um foro relevante.

Naquele encontro, Mantega criticou a falta de flexibilidade da organização, propôs a realização de mais encontros ministeriais e, o mais importante, defendeu que o foro passasse a ter reuniões de cúpula para, assim, exercer plenamente seu papel. A proposição foi aceita e, no mês seguinte, realizou-se, novamente em Washington, o primeiro foro de líderes do G-20, que, por sua vez, agendou o encontro de Londres, ocorrido semana passada. O esforço do ministro deu certo – só se consolida um grupo dessa natureza se ele se estabelece como parte do calendário das lideranças mundiais.

Na cúpula de Londres, a delegação brasileira trabalhou para que a próxima reunião de líderes constasse do comunicado, o que efetivamente aconteceu, embora sem a fixação de uma data – acertou-se apenas que ocorrerá antes do fim do ano. A questão agora é decidir o local. Como a primeira cúpula se deu nas Américas e a segunda na Europa, há um clamor para que a próxima seja realizada na Ásia (possivelmente, no Japão) ou na Oceania (Austrália).

Esta não é, definitivamente, uma luta vencida. Há no G-8, o grupo dos sete mais ricos acrescido da Rússia, países que se sentem mais confortáveis com o formato mais restrito. Daí, o interesse do Brasil em institucionalizar o G-20 no curto prazo. Reuniões bem-sucedidas como a de Londres cumprem esse papel, mas há desafios.

Houve avanços nos quatro principais temas da reunião do G-20 em Londres – incentivos econômicos para enfrentar a crise; fluxos financeiros para países emergentes e em desenvolvimento; regulação e supervisão do sistema financeiro; e reforma da governança mundial. Foi no quarto tema, no entanto, onde o ceticismo deu lugar a decisões concretas.

Consolidou-se, por exemplo, a data de abril de 2010 para a conclusão da reforma de voz e representação dos países no Banco Mundial, um objetivo pelo qual o Brasil sempre se bateu. Definiu-se janeiro de 2011 como o prazo limite para a conclusão da revisão de cotas, capital e voz no Fundo Monetário Internacional (FMI), outro objetivo perseguido desde sempre pelos brasileiros. Ampliou-se o “Financial Stability Forum”, agora rebatizado para “board” (diretoria), com a inclusão de todos os integrantes do G-20, além da Espanha. O FSB, sua nova sigla, vai monitorar a economia mundial e recomendar medidas para enfrentar desequilíbrios.

Foram ampliados também o Comitê de Basiléia de Supervisão Bancária, do qual o Brasil passou a fazer parte, e o Comitê Técnico da Iosco, entidade que reúne os reguladores dos mercados de ações e títulos. Isto, sem falar no fortalecimento financeiro do FMI, uma medida importantíssima neste momento de crise de liquidez em vários países e mercados. Todas essas mudanças ocorreram tendo como referência temporal a reunião de cúpula do G-20, que, com isso, tende a se institucionalizar.

O dia em que o Brasil disse não ao FMI

Na véspera da decisão do governo mexicano de recorrer ao FMI, o governo brasileiro foi procurado por autoridades americanas, do Fundo e do México. Elas tentaram persuadir o presidente Lula a também recorrer à nova linha de financiamento do FMI, mais flexível e sem as inúmeras condicionalidades do passado. A ideia era mostrar que o país que buscasse a nova modalidade de crédito não seria ser malvisto pelo mercado. Lula rejeitou a “oferta”. No passado, quem se fez de rogado à sedução (para usar a CCL, linha de crédito contingente) foi o México…

Cristiano Romero é repórter especial em Brasília e escreve às quartas-feiras

06/04/2009 - 09:27h A morte do consenso

Sergio Leo – VALOR

Foram discretas, até agora, as comemorações, no governo, pela declaração do chanceler britânico, Gordon Brown, sobre a morte do chamado Consenso de Washington, regras aceitas como indispensáveis ao bom funcionamento do sistema capitalista, compiladas em 1989 pelo economista John Williamson. Reservadamente, não foram poucos os que comemoraram, entre os conselheiros do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas Brown, que expediu o atestado de óbito durante a reunião do G-20, na semana passada, pode ter se precipitado.

A crise não matou, por exemplo, a crença da abertura de mercados como instrumento de desenvolvimento. Mantém-se, nesse campo, a atitude cínica ou esquizofrênica anterior ao colapso das finanças mundiais: os governos anunciam comprometimento com o fim das barreiras comerciais, avançam gradualmente na queda de tarifas de importação, mas asseguram os interesses de setores “sensíveis” com os instrumentos que têm à mão, sejam eles mecanismos de controle não-tarifário de importações, subsídios aos produtores, ou incentivos perversos a exportadores ineficientes.

Antes de o mundo descobrir que era ameaçado por “ativos tóxicos” criados pela mente fértil de operadores do mercado financeiro, já fracassava a rodada de liberalização da Organização Mundial de Comércio (OMC), a chamada Rodada Doha. Um dos resultados da cúpula do G-20, na semana passada foi um apelo por mais, e não menos, abertura de mercados, com a retomada da rodada na OMC. Os líderes podiam marcar uma data para isso, mas não o fizeram. Sabem que o apelo, por enquanto, é mera declaração de intenções. Isso não impede que a abertura de mercados seja eleita como prioridade defendida enfaticamente pelo próprio presidente Lula – líder classificado como “o cara” pelo presidente Barack Obama.

Um dos principais motivos para o atolamento da rodada da OMC é o fato de que o consenso pela abertura de mercados não era tão consensual assim nos próprios centros do capitalismo mundial. O Congresso americano resistia, como ainda resiste, a eliminar as altíssimas tarifas remanescentes sobre produtos industriais em que não é competitivo, como o etanol. Os EUA e outros países de gente loura de olhos azuis também relutam, sempre, em reduzir significativamente subsídios agrícolas que dão competitividade desleal aos produtores locais e distorcem o comércio mundial.

Ambiguidades na lista de John Williamson já levaram analistas como Moisés Naim, editor da especializada “Foreign Policy”, a falar em “Confusão de Washington”, ao mostrar que a quantidade de exceções, adaptações e contradições nas políticas baseadas no Consenso de Washington tornavam esse receituário bastante flexível. E que, como notou o economista Joseph Stiglitz quando ocupava o posto de economista-chefe do Banco Mundial, “instituições são importantes”: nenhum modelo de política econômica pode ter êxito sem o controle de instituições fortes e bem equipadas para atender ao interesse público.

A morte decretada por Gordon Brown não foi a do Consenso de Washington, mas a da crença fundamentalista em apenas um de seus dez itens, a desregulamentação como ferramenta para promover a melhor alocação dos recursos e o desenvolvimento. O novo consenso global estabelece que o mundo pós-crise terá instituições mais fortes e ativas no controle dos agentes de mercado.

Como todo consenso econômico internacional, o novo consenso não é levado integralmente em conta pelos países mais poderosos, no momento de formulação de suas políticas. Entre as medidas recém-editadas por Obama, está a permissão aos bancos para fixar, sem fidelidade às regras rígidas de contabilidade, o valor dos “ativos tóxicos”, os papéis que serão vendidos com generosa ajuda do governo americano para socorrer as instituições financeiras. Analistas como o próprio Stiglitz já alertam para o “capitalismo artificial” de Obama, que mantém o jogo de ficção do mercado, em transações pouco transparentes.

Há quem fale na derrubada de outro princípio do Consenso de Washington, o que entroniza a disciplina fiscal como regra de ouro nas economias sérias. Os EUA nunca respeitaram essa regra, nem pretendem fazê-lo agora. Os europeus, apesar das manifestações em favor de estímulo fiscal, continuam firmes na crença de que muita generosidade agora pode acabar em descontrole inflacionário mais à frente. Os programas de socorro do FMI, agora turbinado com mais US$ 750 bilhões, não eliminaram a exigência de sustentabilidade fiscal.

Heresias ao Consenso de Washington defendidas agora nos países ricos, como a possível estatização de bancos americanos, ou generosidades fiscais, são apontadas como soluções de emergência, a serem descartadas assim que passar o pior da crise. Nem Gordon Brown defende o contrário, o que leva a crer que, se crê na morte do Consenso de Washington, ele não descarta a ideia de reencarnação.

Autoridades brasileiras lembram, como signo da mudança, a criação do novo mecanismo financeiro no FMI para empréstimos, sem condicionalidades ou monitoramento, para países com políticas sólidas. Não lembram que os países considerados aptos a lançar mão desse socorro são só aqueles que mostram um histórico de respeito ao… Consenso de Washington. Boa parte do êxito de Lula no G-20 é exatamente o respeito devotado pelo governo brasileiro a boa parte dos princípios sacramentados pelo Consenso.

Ao lado do respeito às políticas ortodoxas, herdado do governo anterior, a contribuição nada desprezível de Lula foi a obstinação em realizar uma política ativa de transferência e distribuição de renda, com programas sociais e o forte aumento do salário mínimo. Conseguiu fazer isso sem romper o consenso washingtoniano de fazer as despesas caberem nas despesas. Intuitivo, ele deve saber que será sua credibilidade quem estará morta, se acreditar, mesmo, que se encerrou a era da disciplina fiscal para os países de gente morena.

Sergio Leo é repórter especial em Brasília e escreve às segundas-feiras

E-mail: sergio.leo@valor.com.br

05/04/2009 - 14:36h Lado a lado

verissimo.jpgEncosto ou não encosto? Só o joelho. O que pode acontecer? Ela dizer “Mr. Lula, please!” Ai eu recolho o joelho, peço desculpas, “aimsórri, aimsórri” e pronto. Se eu soubesse falar inglês, explicaria. Sabe o que é, Elizabeth? Eu estava aqui pensando: quando é que, lá em Pernambuco, eu ia imaginar que um dia estaria sentado ao lado da rainha da Inglaterra? Não sei quem é que me botou aqui para tirar esta fotografia dos G-20. Não acho que tenha sido um pedido seu, “Quero o bonitinho de barba à minha esquerda”. Claro que não. Mas o fato é que estou aqui e o Barack está aí atrás em algum lugar, de pé e se perguntado o que eu tenho que ele não tem. O Sarkozy não deve nem estar aparecendo. Ficou atrás da Merkel e não vai sair na foto. E eu aqui ao seu lado, na primeira fila.

Isto significa muito, viu Elizabeth? Lá na minha terra vai ter gente se mordendo de raiva. Onde já se viu, aquele retirante nordestino que nem fala direito sentado à esquerda da Rainha da Inglaterra? Quando eu me elegi muita gente ficou horrorizada: como é que vai ser quando ele, um torneiro mecânico, tiver que nos representar num jantar oferecido, por exemplo, pela coroa inglesa? Vai ser servido na cozinha, para não dar vexame na escolha dos talheres. E aqui estou eu, sentado ao lado – com todo o respeito – da coroa inglesa em pessoa.

Se foi o protocolo que me botou aqui, ele acertou, viu Beth? Você, queira ou não, não é só a rainha dos ingleses, é, simbolicamente, a rainha de todos os loiros de olhos azuis do mundo, incluindo o Barack. De todos os bandidos que causaram esta crise e hoje nos infernizam a vida. E, de certo modo, eu sou o seu oposto. Sou uma espécie de rei republicano dos não-loiros do mundo – ou pelo menos deve ter sido essa a idéia do protocolo aos nos botar lado a lado. Todos os outros chefes de estado desta fotografia seriam dispensáveis. A foto poderia ser só de nós dois e estariam todos representados.

E isto significa outra coisa também, viu Beth? Eu não me contentei em ter nascido na miséria, no Nordeste, e quis mais. Não me contentei em ser um torneiro mecânico em São Paulo e quis mais. Não me contentei em ser um líder sindical e quis mais. Não me contentei em perder eleição atrás de eleição, insisti e acabei presidente. Agora estou aqui, lado a lado com a Rainha da Inglaterra, num dos pontos mais altos da minha carreira, e também quero mais. Por isso minha perna se moveu e meu joelho encostou no seu. De certa forma, o movimento da minha perna foi o passo final da caminhada que começou em Pernambuco, tantos anos atrás. Já que, ao contrário de você, Beth, não posso ficar no poder para sempre.

05/04/2009 - 10:01h G-20 resolve pouco, mas Brasil se saiu bem

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Alberto Tamer – O Estado SP

O Brasil se saiu bem na reunião do G-20. O presidente teve um desempenho à altura de um país adulto. Disse que o Brasil tinha lições a dar pelo que já fez desde o inicio da crise e ainda vem fazendo, com estímulos fiscais e redução de impostos. Isso enquanto os outros ainda discutiam e discordavam sobre os caminhos a tomar. Mostrou que o nosso sistema bancário tem liquidez e está sólido, enquanto os grandes bancos dos países ricos estremecem suas bases.

No fundo, o seu recado, que foi muito ouvido, dava a entender que não precisamos muito deles; eles é que precisam de nós e dos países emergentes ou em desenvolvimento, que tentam ajudar a evitar que o mundo afunde ainda mais na recessão. Foi duro ao atacar os bancos americanos e europeus (”Eles precisam criar juízo”), mas delicado ao pedir, agora, a união de todos para, enfim, enfrentar a inflação de forma eficaz para obter resultados imediatos, que, mesmo após a reunião, ainda estão distantes.

PRECISAMOS MENOS

Para nós, foi uma boa reunião mesmo porque, no fundo, não precisávamos tanto do que não veio: uma verdadeira reforma do sistema financeiro internacional baseada em mais responsabilidade e transparência. Um projeto comum, efetivo, real, urgentíssimo de estímulo fiscal para reanimar o comércio, a demanda e o crescimento; uma decisão, não apenas promessa, de conter o protecionismo e liberalizar o mercado. O que veio foi a mesma promessa ridícula e irritante de retomar as negociações de Doha, mas sem datas, prazos e sem mais nada. Blá-blá-blá. Ninguém vai abrir comércio nenhum quando está em recessão.

O PACOTE DE US$ 1,1 TRILHÃO

O que animou foi o comprometimento dos países ricos, a formação de um pacote de US$1,1 trilhão aumentando os fundos do FMI para US$ 750 bilhões. Os outros US$ 250 bilhões serão destinados ao financiamento do comércio exterior. Nós não vamos precisar do dinheiro do fundo, aliás, Lula e Mantega disseram que até podem dar uns US$ 5 bilhões desde que continuem constando das reservas cambiais. Mas poderemos nos beneficiar, sim, aproveitar o crédito ao comércio exterior para retomar as exportações que devem recuar 20% neste ano.

NÃO É PARA JÁ

Falta agora efetivar o programa. O Japão já emprestou US$ 100 bilhões, a China garante US$ 40 bilhões e a União Europeia promete US$ 100 bilhões. Nesse caso, porém, vai depender de aprovação dos 27 países. E os EUA, que entrariam com o resto, dependem do Congresso. Não vai ser fácil. Como se pode ver, nada deverá vir pelo menos nos próximos meses. Talvez lá para outubro, mesmo porque o FMI vai estar preocupado primeiro em socorrer os países pobres. As decisões do G-20 não irão tirar o mundo da recessão. Seus resultados, além de modestos, tardarão muito.

CONCORDAR EM

NÃO DISCORDAR

Os chefes de Estado concordaram em não discordar em público para passar um clima de união que não existiu e restabelecer a confiança mundial abalada por tanta discórdia e insensatez no combate à crise. EUA, Brasil e China entraram e saíram defendendo uma política fiscal mais agressiva. França e Alemanha a rejeitaram.

EUA DISSERAM NÃO

Outra discórdia não resolvida: EUA defendem uma reforma financeira em cada país e não global. Os franceses e alemães se opuseram até o fim. Querem uma reforma do sistema financeiro internacional. “Isso é inegociável”, proclamou Angela Merkel. Para não haver discordância pública, decidiram dar ao FMI a função de promovê-la no correr do tempo. Sem prazos nem metas específicas. Vai levar anos… Então deu certo? Não, não deu.Um dia após a reunião, Timothy Geithner, rejeitou a solução globalizada. Foi mesmo rude. “Isso não vai acontecer. Não houve espaço de apoio para isso no encontro.” Os EUA querem eles mesmos limpar o seu sistema. Acham que se cada um fizer o mesmo, tudo será resolvido de forma mais fácil e eficiente. Mas o que ficou aprovado em Londres?

E OS US$ 5TRILHÕES?

Mas o G-20 aprovou tudo isso para aplicar numa política fiscal de incentivo à demanda. Está lá, no comunicado final. Isso, sim é para “inglês ver”. Alguns países querem que todos gastem mais? Pois vamos gastar mais, concordaram. Quanto? Que tal US$ 5 trilhões em incentivos fiscais só para efeito de relações públicas? Só não ficou esclarecido, é lógico, quem vai gastar quanto, quando e como. Não estaríamos sendo um pouco cínicos? Pois quem vai fiscalizar o cumprimento da promessa? Quem vai “obrigar” a madame Merkel a abrir os cofres ou reduzir impostos? E a França, a Inglaterra, outros signatários?

Os EUA, China, Japão, saíram dizendo que iam gastar até mais. Lula deve ter dado risada ao dizer que já estamos fazendo há meses o que ainda estão discutindo, revirando os mais modernos tratados de economia. O que sabemos é que, se ficarmos esperando, vai acontecer o que Keynes dizia: “A longo prazo, todos estaremos mortos”.

*E-mail: at@attglobal.net

03/04/2009 - 13:24h O grande dilema do Lula

ReutersEl gran dilema de Lula

¿Qué hacer consigo mismo?, se pregunta ahora el presidente de Brasil

JUAN ARIAS – Río de Janeiro – 02/04/2009 – El País

El G-20 ha consagrado a Lula, el carismático y taumaturgo presidente de la República de Brasil, como el líder de los países emergentes que piden justicia al mundo por el descalabro financiero mundial, creado, según él, por el primer mundo de “gente blanca de ojos azules”. Ha pedido que desaparezcan los paraísos fiscales; ha pedido más Estado y menos capital privado, mayor control de los mercados, menos proteccionismo y más dinero para los países pobres, víctimas de la crisis.

La Reina de Inglaterra quiso a Lula a su lado en la foto oficial. El presidente estadounidense, Barack Obama, dijo a los otros líderes del G-20: “A mí me encanta este hombre”, y Sarkozy se lo llevó del brazo alegando que Francia hacía suyas las reivindicaciones del líder brasileño. Hablaron juntos a la prensa mundial.

Dentro de casa, los últimos sondeos revelan que el 51% de los brasileños votarían en 2010 para sustituirlo en la Presidencia, al candidato o candidata que él presente. Si él fuera de nuevo candidato la mayoría a su favor sería aplastante. Todo indica que Lula prefiere no forzar la Constitución para representarse. Prefiere esperar para volver. Ha dicho, sin embargo, que no abandonará la política, ni pasará su tiempo dando conferencias en las Universidades estadounidenses.

Su dilema, sin embargo, no es fácil: ¿Qué hacer consigo mismo? ¿Qué hacer con esa popularidad que sólo porque no lo permite la Constitución no sería reelegido por tercera vez? Ese es su dilema. De fuertes convicciones personales, se ha hecho famosa su frase “nunca antes en este país”, por él mil veces usada. Es consciente de que muchas cosas ya no serán iguales en el país despues de su pasaje por el poder. Ha dejado huella. No tanto en las obras o realizaciones, que han sido muy pocas visiblemente, sino en su forma de hacer política. Los brasileños buscan en él a un salvador: “nunca los pobres estuvieron tan presentes y protagonistas como con Lula”, dicen unos; “nunca Brasil tuvo mayor visibilidad en el mundo”, dicen otros.

Los medios de comunicación acuñaron el término de lulismo, para calificar su política, totalmente personal, diferente y a veces hasta en contraste visible con la del partido por él fundado, el Partido de los Trabajadores (PT), que lo llevó al poder. Hoy, Lula no es ya petista, es simplemente Lula, y sus seguidores son lulistas. ¿Creará un nuevo partido? Alguno de sus asesores lo dejó entender en voz baja a este diario. Lo cierto es que Lula es ya un líder sin partido, precisamente porque los ha tenido a casi todos a su lado en estos siete años de gobierno, aunque a veces a costas de ofrecerles suculentas tajadas de poder para sus líderes. La misma oposición ha estado más a su favor que en su contra. ¿De quién es entonces Lula? Sin duda, sabe que contará siempre con el PT, aunque en él, los más de izquierdas refunfuñen a veces de sus ideas neoliberales y de su predilección por los banqueros. Y el PT necesitará siempre de Lula para no perder su faro, ya que él ha eclipsado a todas las figuras importantes del partido, algunas de ellas quemadas en el escándalo de corrupción del 2005 que puso en peligro su misma permanencia en la Presidencia.

Lula sabe que, dado su carisma y sus altos índices de aprobación, inéditos en la historia de la democracia de este país, nadie quiere, en el mundo político, aparecer contra él. ¿Cual sería el peso de su seguimiento si decidiese crear un nuevo partido? ¿Y qué características tendría dicho partido? En buena parte, mucho va a depender de si acaba de salir la famosa y siempre aplazada reforma política. La modernidad de Brasil en muchos aspectos hace ya obsoleta la existencia de más de 30 partidos, prácticamente todos ellos sin idelogía propia, más bien lobbys de intereses muy concretos, sin fidelidad partidaria alguna. ¿Podrían, en un futuro inmediato, desaparecer la mayoría de esos partidos y dar luz verde para la creación de nuevas formaciones políticas en una línea más europea, con claros perfiles ideológicos o por lo menos programáticos?. En este caso, ¿se arriesgaría Lula a formar una nueva familia política que recogiera la herencia del lulismo, a pesar de que nadie es hoy capaz de definirlo?

El problema de fondo es que la democracia de este país de alguna forma está consolidada, pero es también aún frágil. La corrupción la mina por dentro; el desprestigio de las instituciones políticas ante la opinión pública es sensible. No existen peligros de antíguos golpes militares, pero sí tentaciones de fáciles redenciones, casi mágicas o religiosas. Lula está en una encrucijada histórica: poner toda la fuerza casi religiosa de su carisma al servicio de la creación de una democracia más consolidada, sin tentaciones populistas o milagreras, o dejarse arrastrar por la fácil tentación de que sin él o sin alguien como él, Brasil no sería Brasil.

Su decisión de no querer cambiar la Constitución para poder reelegirse afirmando que lo mejor para la democracia es la alternacia en el poder -si mantiene su promesa hasta el final del mandato- es un signo positivo, en la dirección de ayudar a la maduración de la democracia sin adjetivos y sin bendiciones religiosas o taumatúrgicas, algo que se merece este país que cada vez estará más presente e influyente en los grandes organismos internacionales como uno de los países emergentes que, además, va a pasar más indemne que otros, por las horcas caudinas de la crisis mundial.

03/04/2009 - 12:02h O esforço de Sarkozy para se aproximar de Obama

http://news.sky.com/sky-news/content/StaticFile/jpg/2009/Apr/Week1/15253825.jpg

Gilles Lapouge * – O Estado SP

O G-20 permitiu ver que o novo “casal” Sarkozy/Angela Merkel vem se dando muito bem. Em vez de brigarem como cão e gato, o que ocorria há seis meses, o francês e a alemã formaram uma frente para impor ao G-20 um plano de moralização do sistema financeiro mundial.

No entanto, Angela Merkel saiu um pouco à frente de Sarkozy na “corte” que todos os chefes de Estado fizeram ontem ao maravilhoso Obama. No jantar em Downing Street, quem estava ao lado de Obama? Angela Merkel, felizarda! Mas Sarkozy não poupa esforços. Há três meses vem tentando estreitar relações com o americano, mas as coisas não avançam muito rápido. Tentou tudo.

No dia da vitória de Obama, bateu todos os rivais. Enviou felicitações ao novo presidente uma hora antes de Gordon Brown e duas antes de Merkel (ele esqueceu do “c” de Barack, mas não foi nada grave).

Decidido a encontrar o americano antes dos outros, Sarkozy mandou preparar o avião para voar a Chicago em novembro. Mas Obama estava com a cabeça em outro lugar. O britânico Brown foi mais esperto. Foi recebido na Casa Branca. É verdade que americanos e ingleses têm uma relação especial.

Após longas e dolorosas semanas de espera, um consolo. Há dez dias o jornal Figaro mostrou na capa uma enorme fotografia com Sarkozy e Obama, conversando. Muito estranho! Mais tarde ficou-se sabendo que era uma montagem para dar a conhecer ao povo francês que os dois chefes tinham conversado por telefone. De fato, houve o diálogo. Bela proeza!

Sarkozy achava que a viagem de Obama à Europa permitiria que os dois tivessem um encontro a sós. Mas, no âmbito do G-20, seria difícil. Falta de tempo. Além disso, 19 outros chefes de Estado estariam disputando o americano, e uma reunião à parte não seria possível.

Sarkozy imaginou outro cenário. Convidou Obama para uma viagem às praias da Normandia, local de desembarque dos americanos em 1944. Uma peregrinação que os presidentes americanos gostam de fazer.Mas Obama não vai ter tempo. Bom, fica para uma outra vez.

Mas por que Obama não tem tempo? Tem ao seu alcance outros grandes chefes de Estado, no G-20: o indiano, o brasileiro, o russo, o chinês. Aliás, ontem mesmo disse que o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, é “o cara”.

Portanto, até que poderia ir à Normandia com Sarkozy. Mas não. Obama tem outra coisa de urgente para fazer. Pretende ir a Praga. Praga? Sim, a capital da República Checa, um país sem governo, e, além do mais, um país “eurocético”.

E não é tudo. No fim do seu périplo, Obama reservou dois dias para a Turquia, país que tem um quinto do seu território dentro da Europa, os outros 4/5 na Ásia. E um país governado por “islâmicos moderados”.

Esse americano é desconcertante. Claro que, refletindo mais, a Turquia pode ser uma preciosa intermediária entre os diferentes Estados que, há 50 anos, lutam até a morte no Oriente Médio.

Diante de tudo isso, o que se diz é que Sarkozy não conseguiu forçar a porta nem o coração de Obama. Isso não porque Obama não goste do presidente francês ou das suas bravatas. Talvez seja, simplesmente, porque, no momento, a Europa não é o problema número 1 do mundo. Nos seus discursos, Obama não pronunciou a palavra “Europa”. E, da mesma maneira que não vai à Normandia, também não terá tempo de ir a Berlim.

Devemos concluir que ele não aprecia muito a Europa, que prefere Medvedev ou Hu Jintao a Sarkozy ou Merkel? Absolutamente. É possível que todas essas hipóteses sejam só invenção ou fantasmas de jornalistas sem inspiração.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

03/04/2009 - 10:45h G-20 proclama o fim da desregulação

Folha SP

g20_repercussao.jpg

03/04/2009 - 10:30h É o fim da “era do segredo bancário”, diz G20

CÚPULA GLOBAL

http://images.huffingtonpost.com/gen/72381/original.jpg

Comunicado após a cúpula menciona ações contra paraísos fiscais e fortalecimento de controles sobre o setor financeiro

Regulação será estendida às agências de avaliação de risco; texto também destaca o início da transição rumo a uma economia mais verde

DO ENVIADO ESPECIAL A LONDRES – FOLHA SP

Em meio a um comunicado essencialmente técnico de 29 parágrafos, os líderes do G20 encontraram uma brecha para uma proclamação política forte: “A era do segredo bancário acabou”.
É uma alusão às prometidas ações contra os paraísos fiscais, parte do capítulo talvez mais suculento do documento, que trata do fortalecimento da regulação/supervisão financeiras, cujo fracasso é consensualmente apontado como responsável pela crise.

Os principais pontos do texto são os seguintes:

INJEÇÃO DE RECURSOS
O US$ 1,1 trilhão anunciado ontem divide-se em US$ 500 bilhões para elevar os recursos disponíveis do FMI a US$ 750 bilhões; nova alocação de Direitos Especiais de Saque, a moeda contábil do FMI, no valor de US$ 250 bilhões, uma forma de disponibilizar recursos relativamente baratos a países em dificuldades; US$ 100 bilhões de empréstimos adicionais dos bancos multilaterais de desenvolvimento (Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Banco da Ásia etc.); US$ 250 bilhões para financiamento ao comércio internacional, por meio das agências de crédito à exportação dos países-membros e também dos bancos regionais.

PACOTES FISCAIS
O texto calcula que os pacotes oficiais de gastos para estimular a economia chegarão até o fim de 2010 a US$ 5 trilhões [mais de três Brasis], com o que a produção aumentará 4%.

JUROS
“Nossos bancos centrais se comprometeram a manter políticas expansionistas pelo período que for necessário e a usar toda a gama de instrumentos de política monetária.”
Tradução: uma era possivelmente longa de juros bastante baixos. O Banco Central Europeu, aliás, reduziu ontem mesmo os seus para o nível mais baixo da história.

CRESCIMENTO
O texto lembra que o FMI previu, no mês passado, que o crescimento da economia mundial seria retomado e subiria a mais de 2% até o fim de 2010. O novo pacote “acelerará o retorno à tendência de crescimento”, diz o documento.

DÉFICITS
O G20 compromete-se a manter “a sustentabilidade fiscal no longo prazo e a estabilidade de preços”, para o que “colocará em prática estratégicas críveis de saída das medidas que precisam ser tomadas”.
Traduzindo: os líderes sabem que elevam perigosamente os déficits fiscais, o que pode ser combustível para a inflação, pelo que se comprometem a retornar à normalidade assim que possível. Como, não dizem.

DESVALORIZAÇÕES
O documento se compromete a evitar “desvalorizações competitivas de nossas moedas” para facilitar exportações.

REGULAÇÃO
“Cada um de nós concorda em assegurar que nossos sistemas regulatórios domésticos sejam fortes. Mas também concordamos em estabelecer uma consistência muito maior e uma cooperação sistemática entre países, e uma moldura de elevados padrões, internacionalmente acordados, que um sistema financeiro global requer”. O texto parece indicar que prevalecerá a ideia de que a regulação/supervisão seguirá padrões internacionais, mas a aplicação será nacional.
- O Fórum de Estabilização Financeira, composto pelos bancos centrais, passa a ser Diretoria de Estabilidade Financeira. Antes da cúpula, já estava decidido que passa a ser integrada por todos os países do G20 mais a Espanha e a Comissão Europeia. Antes, apenas os países ricos faziam parte.
A nova Diretoria (FSB, na sigla em inglês) “colaborará com o FMI para prover aviso antecipado de riscos financeiros e macroeconômicos e as ações necessárias para enfrentá-los”.
- A regulação/supervisão será estendida a todas as instituições financeiras “sistemicamente importantes”, a todos os instrumentos [financeiros] e a todos os mercados. “Inclui, pela primeira vez, “hedge funds” sistemicamente importantes.”
- Implementar “novos e duros princípios de pagamento e compensação” [para executivos de instituições financeiras].
- Adequar a disponibilidade de capital nos bancos aos seus empréstimos, mas apenas “depois que a recuperação [da economia] estiver assegurada”. O texto diz, ainda, que, “no futuro, a regulação deve evitar excessiva alavancagem”.

PARAÍSOS FISCAIS
O G20 promete adotar ações contra o que chama de “jurisdições não-cooperativas, inclusive paraísos fiscais”.
Afirma estar pronto para adotar sanções “para proteger nossas finanças públicas e sistemas financeiros”.
O texto lembra que ontem mesmo a OCDE divulgou uma lista de países investigados por seu Fórum Global que não cumprem padrões internacionais de troca de informações.

AGÊNCIAS DE RATING
O G20 estenderá a supervisão às agências de avaliação de risco, muito criticadas por terem dado atestado de boa saúde a ativos tóxicos.

FMI
Além de aumentar os recursos à disposição do Fundo, o texto reafirma que “economias emergentes e em desenvolvimento, incluindo as mais pobres, devem ter mais voz e representação” na instituição. Reafirma igualmente que até janeiro de 2011 deve estar completada a reforma das cotas que darão voz a países emergentes.

PROTECIONISMO
O texto repete promessas anteriores de não adotar novas barreiras ao comércio de bens e serviços ou aos investimentos.
Promete também não cair em “protecionismo financeiro”, neologismo para designar o fato de que os bancos com sede nos países ricos retiraram capital dos países em desenvolvimento para cobrir buracos.

AJUDA AOS POBRES
O G20 promete US$ 50 bilhões para apoio à proteção social, estimular o comércio e proteger o desenvolvimento nos países de baixa renda.
Adicionalmente US$ 6 bilhões provenientes do FMI serão usados, nos próximos dois a três anos para países pobres.

AMBIENTE
O documento promete “uma transição para tecnologias e infraestrutura limpas, inovadoras e eficientes no uso de recursos naturais”.
Reafirma também o compromisso de enfrentar a mudança climática, com base no princípio de “responsabilidades comuns e diferenciadas”, ou seja, os países ricos pagarão mais que os outros. Recoloca ainda a decisão de alcançar um acordo na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, a realizar-se em dezembro em Copenhague.
(CLÓVIS ROSSI)

15/11/2008 - 10:28h A França e a reunião do G-20

http://www.m6info.fr/cms/upload/docs/image/jpeg/081107_sarkozy_bush_mount_vernon48.jpg

Gilles Lapouge* – O Estado SP

Sarkozy seguiu para Washington. A tarefa que tem pela frente é árdua: tirar o mundo da crise. De passagem, aproveitará a ocasião para “reformular o capitalismo”.

Os membros do G-20 que participarão dessa reunião, imposta por Sarkozy a Bush em 18 de outubro, têm interesse em iniciar logo o trabalho. Em julho de 1944, em Bretton Woods, os vencedores da guerra tiveram 15 dias para reformar o sistema monetário. Este ano, Sarkozy terá apenas algumas horas para reorganizar o planeta.

Talvez por isso o presidente Lula “não espere muita coisa desse G-20″, mesmo que seja “algo promissor”. O ministro francês das Relações Exteriores, Bernard Kouchner, já mostrou seu desânimo: “Essa reunião não vai levar a nada”.

A falta de tempo para realizar essa façanha não é a única desvantagem do G-20. Há outra. Que idéia conceber tal projeto quando o novo presidente Obama ainda não assumiu! Será com um Bush decadente que Sarkozy pretende construir sua catedral. Além do que, é o cúmulo tentar refazer o capitalismo com um presidente Bush que não conhece nada de mais belo do que o capitalismo.

Obama não seria mais cooperativo? Nada permite pensar que o presidente eleito se converteu à moda “anticapitalista” que a crise fez irromper na Europa e Sarkozy, o bardo do liberalismo desenfreado de um ano atrás, agora pretende regulamentar e cortar as asas.

A equipe que chegará ao poder com Obama não é considerada “intervencionista” nem “estatista”: os principais conselheiros (Summers e Volcker), ex-assessores de Clinton, são “velhas raposas de Wall Street”. Jamais sonharam com um “capitalismo ao molho europeu”.

É por isso que Sarkozy não hesitou em deixar Paris para explicar ao seu amigo Bush que, em 1944, só podia existir uma única moeda de reserva, o dólar, o que hoje não é mais o caso.

Sarkozy tem razão: o reinado absoluto do dólar acabou. É preciso planejar uma nova paisagem. Além disso, o tempo em que o Estado era considerado uma calamidade na economia chegou ao fim com o incêndio dos bancos. O novo papel do Estado, seus deveres e poderes, devem ser examinados.

Outro ponto de interesse desse encontro: só o fato de reunir esse grupo já é prova de que todos reconhecem que a solução só pode ser global. Podemos até supor que a reunião terá como resultado a preparação do fim do G-8, símbolo de um mundo esclerosado e injusto. Ninguém vai chorar a morte do G-8.

Podemos esperar algo melhor? Claro que seria loucura imaginar que, em algumas horas, os 20 conseguirão redigir uma nova estrutura financeira planetária. Ficaremos felizes se eles conseguirem adotar algumas medidas de urgência.

*Gilles Lapouge é jornalista