02/04/2009 - 17:56h As promessas do G-20

Veja o que Obama disse ao Primeiro Ministro da Austrália, sobre o Lula. Clique aqui

 

 

 

‘Hoje nasce nova ordem financeira mundial’, diz Brown

Regulação do sistema financeiro mundial foi um dos principais pontos do acordo de líderes do G-20 em Londres

 

Da Redação – Agencia Estado

 

SÃO PAULO - A regulação do sistema financeiro mundial foi um dos principais pontos do acordo de líderes do G-20 em Londres. Este era um grande impasse entre Estados Unidos e Europa. Enquanto os americanos não aceitavam uma fiscalização internacional dos bancos, a Europa defendia o controle. Em uma coletiva de imprensa após a reunião de cúpula do grupo em Londres, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, disse que “hoje nasceu uma nova ordem financeira mundial. Este é o dia em que o mundo se uniu para lutar conjuntamente contra a recessão global”.

Primeiro-ministro britânico, Gordon Brown: “Hoje nasceu uma nova ordem financeira mundial”

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, reforçou a idéia de que os países do G-20 concordaram em realizar reformas profundas na forma como o sistema financeiro internacional está organizado, regulando fundos de hedge e registrando as agências de crédito.

O acordo saiu após duras negociações entre os países que, como Alemanha e França, davam prioridade à regulação do sistema financeiro internacional e os que, como os Estados Unidos, pediam estímulos fiscais para estimular a economia.

O premiê britânico assegurou que o G-20 lança uma mensagem clara de que “nesta era global nossa prosperidade é indivisível”, e de que “são necessárias soluções globais aos problemas globais”. Brown disse que o “consenso de Washington está superado” e que chegou um “novo consenso”, em que o comércio mundial deve se converter em um “motor de crescimento”.

02/04/2009 - 09:19h Brasil entra tranquilo e sem pressa na reunião

http://gazetaonline.globo.com/_midias/jpg/103536-49d3f589d39e4.jpg

 

 

Alberto Tamer – O Estado SP

 


O Brasil entra sem medo na reunião do G-20 que se inicia hoje com muita expectativa e pouca esperança. Teme-se que seja mais uma “conferência das promessas não cumpridas”, como todas as anteriores desse grupo que detém 80% do PIB mundial. Um alto funcionário americano alertou ontem para esse risco.

Seria triste, mas não uma tragédia. A economia mundial demorará mais para sair da recessão, os EUA continuarão fazendo sozinho o seu programa de incentivo fiscal e socorro aos bancos, a Europa continuará afundando e um dia, afinal, vai se decidir fazer o inevitável: investir maciçamente no estimulo à demanda interna, uma vez que já se está socorrendo o sistema financeiro.

PODEMOS FICAR SÓ OLHANDO

Nós entramos bem nessa reunião. Já estamos seguindo a estratégia certa. Desde os primeiros sinais da crise, tivemos o cuidado de fiscalizar e oferecer liquidez ao sistema bancário, que está enxuto e sólido.

Estamos executando uma política fiscal fortalecida por reduções de impostos em setores importantes para a geração de empregos e aumento da demanda, como a construção civil e a indústria automobilística. Só a cadeia produtiva dessa indústria representa 23% do PIB do País! Podemos até nos dar ao luxo de apontar o dedo para os países desenvolvidos e dizer, como estamos dizendo, absorvam logo essas subprimes, esses papéis podres que vocês mesmos criaram e que estão intoxicando, envenenando o mercado e as linhas de crédito.

Sabemos que eles vão demorar muito para fazerem isso, mas está cada vez mais claro que não há saídas. Ou os governos dos países ricos assumem os prejuízos ou essa crise vai demorar muito a passar.

E SE NÃO DER CERTO?

É evidente que, se isso acontecer, será ruim para nós. Entraremos em recessão mas poderemos conviver com ela por algum tempo melhor do que os outros.Temos, como a China, um mercado interno potencial inexplorado e não será nenhuma tragédia shakespeariana se por alguns meses tivermos um déficit fiscal de 1% ou 2%. Para nós é importante que essa reunião dê certo, mas a economia não irá cair no fundo do poço se isso não ocorrer.

POR QUE ESPERAR POUCO?

Simplesmente porque, tendo em vista o que aconteceu ontem, em Londres, pode-se dizer que há nitidamente dois blocos bem distintos. Um é formado pelos EUA, Japão e China, do qual o Brasil também faz parte. Eles defendem a aplicação imediata de uma política fiscal agressiva para promover um grande aumento da demanda e retomar o crescimento ainda no fim deste ano. O Brasil já vem há algum tempo aplicando essa estratégia. O fato de o governo ter reduzido impostos para os setores automobilístico e de construção revela pioneirismo. Só a Grã-Bretanha fez algum movimento nesse sentido mas não avançou.

O outro bloco é o da França e Alemanha. Os dois chefes de Estado, Sarkozy e Merkel, se reuniram ontem em Paris e firmaram um ponto de vista comum. Eles vão se opor a qualquer aumento de gastos e defenderão uma reforma imediata do sistema financeiro internacional.

Ainda ontem a chanceler alemã afirmou que a sua economia depende muito das exportações. Mas “é algo que nem mesmo queremos mudar, afirmou ela.” Ou seja, ela quer que o mundo mude, cresça mais para importar mais da Alemanha e sustentá-la! Isso não nos leva um pouco de volta ao passado?

G2 COM PINTA DE G3

A perigosa divisão ficou ainda mais clara nesta quarta-feira. Obama reuniu-se com Hu Jintao, no que já se estava chamando, em Londres, de um “novo G-2″. Não foi uma conversa informal, não.

Ao fim do encontro, eles anunciaram que decidiram trabalhar para reativar a economia por meio de medidas fiscais, reforçar o sistema financeiro e “estabelecer um diálogo bilateral estratégico”. Os EUA já vêm investindo pesadamente na política fiscal e a China destinou mais de US$ 500 bilhões para reativar o consumo interno. Sua vantagem é que os projetos já estão prontos e podem começar a ser executados imediatamente.

Como a Alemanha, seu crescimento espantoso até agora vem dependendo essencialmente das exportações, mas, ao contrário da Alemanha, sabe que precisa reverter essa situação, investindo na demanda interna. Ou isso, ou não crescerá mais de 5% neste ano. Inaceitável para um país com 1,3 bilhão de habitantes, 800 milhões dos quais vivendo pobre ou miseravelmente.

*E- mail: at@attglobal.net

01/04/2009 - 09:27h Maionese, cocoricós e o G20

Manif anti sarko

http://www.ladepeche.fr/content/photo/biz/afp/une/photo_1195578234090-10-0_zoom.jpghttp://www.france24.com/files_fr/story/sommet-berlin_m.jpg

VINICIUS TORRES FREIRE – FOLHA SP


Reunião “histórica” começa sob ameaça de fiasco prático e risco de maior desacordo internacional sobre a crise


“LA MAYONNAISE va prendre” é uma expressão francesa tanto para dizer “a coisa vai engrenar” como, em contexto de maior exaltação, “o caldo vai engrossar”. Nicolas Sarkozy, marido de Carla Bruni, aliás presidente da França, ameaça bater a maionese na reunião do G20, que começa amanhã, em Londres. Não é o mais importante dos tiros no concerto do G20, mas é sintomático.
Sarkozy vazou para imprensa que “deixará uma cadeira vazia” no G20 caso os EUA não aceitem uma reforma que endureça os controles sobre a finança mundial. “Cadeira vazia” é um clássico gaullista, de quando Charles de Gaulle deixou seus pares da Comunidade Econômica Europeia falando sozinhos, em 1965.
A maionese caseira de Sarkozy desanda. Há o risco de a crise levar franceses em massa às ruas, o que não tem tido consequências maiores desde os anos 1960, embora tenha levado à breca um governo liberal, nas grandes greves de 1995. Enfim, nunca se sabe o que pode dar quando há franceses irados na rua. Sarkozy canta, pois, um cocoricó para a galera, tirando casquinha dos EUA. Além do mais, se sair do G20, faz o quê? O que importa? O PIB francês equivale a 6% das 19 economias do G20 (19 países mais um representante da União Europeia). Os EUA têm 30% do PIB do G20.
A chanceler alemã, Angela Merkel, deve reafirmar sua oposição ao apelo de Barack Obama, que pede mais gasto público no mundo a fim de conter o colapso global. Os alemães são conservadores em juros e dívida, mas temem mesmo é ter de bancar a conta do colapso da Europa, que não tem governo unificado para fazer pacote fiscal. A Alemanha é 8% do G20 e, na previsão da OCDE, seu PIB deve encolher uns 5% em 2009.
O premiê japonês, Taro Aso, apoia os americanos e critica Merkel. Aso vai a Londres com aprovação de apenas 25% dos japoneses e sob o risco de governar a pior recessão no mundo rico (queda de 6,6% do PIB, diz a OCDE). O Japão, 10% do PIB do G20, tem, porém, a experiência de quase 15 anos de estagnação, fruto do estouro de uma bolha imobiliária, de uma outra na Bolsa e da reação oficial tardia à crise. Aso apoia a ideia americana de triplicar os fundos do FMI, está soltando um pacote fiscal de US$ 100 bilhões a US$ 200 bilhões, uns 2% a 4% do PIB, e anunciou ajuda para a Ásia.
O anfitrião Reino Unido é sempre pró-EUA, mas não que ver o caldo entornar em casa e está meio sobre o muro. Os chineses, que têm 8% do PIB do G20, vão aproveitar para tirar um cascão dos EUA, como o têm feito, acusando-os de irresponsáveis e sugerindo, por ora retoricamente, dar cabo do dólar como moeda mundial. Os russos estão falidos, mas são mais um problema político.
O resto é mais ou menos o resto.
Aliás, do que vai tratar mesmo o G20? De estímulo à demanda mundial, de reforma financeira, de evitar protecionismo. Numa reunião de um dia, cheia de ruídos, na qual o “Ocidente” tentará tanto lançar mão do “ouro de Pequim” como evitar que a China atraia mais emergentes para seu lado. Em que os líderes terão de falar “urbi et orbi”, por algum acordo internacional, para as ruas que querem protecionismo, para Wall Street que não quer saber de restrições etc. Vai dar certo, isso?

vinit@uol.com.br

01/04/2009 - 08:56h Por que o G20 fracassará

http://www.vermelho.org.br/ctt/img_upload/manifranca3.jpghttp://1.bp.blogspot.com/_V6YsQcWSNso/SbWAh9eyC7I/AAAAAAAAAKM/m2y-jQHe5Bk/s320/G20logo.jpg

MARTIN WOLF “DO FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

A CONFERÊNCIA de cúpula do G20 parece destinada a realizar progressos. Mas suas realizações precisam ser medidas não apenas diante do desempenho do passado, mas com relação à “feroz urgência do agora”. E, infelizmente, não serão suficientes.

A OCDE prevê agora contração de 4,3% nas economias dos países avançados neste ano, seguida por estagnação em 2010. Nos países avançados que a integram, o desemprego pode subir em 25 milhões de pessoas até 2010. Enquanto isso, o FMI prevê que a economia mundial se contrairá neste ano entre 0,5% e 1%. Isso representaria uma elevação de cerca de 4% na “diferença de produção”, a diferença entre o potencial produtivo e a produção efetiva.

Será que o G20 se provará capaz de enfrentar esses excepcionais desafios? A resposta é não. O que é necessário é uma grande ampliação na demanda e uma virada em sua distribuição, dos países cronicamente deficitários para os superavitários. Em ambos os pontos, o progresso será muito limitado.

A OCDE argumenta que as medidas de estímulo adotadas pelos governos em resposta à crise elevarão o PIB desses países em média por só 0,5%, em 2009 e 2010. Além disso, a demanda adicional está surgindo pelo menos em igual medida nos países deficitários e superavitários. Isso não é receita para uma solução dos desequilíbrios mundiais, mas sim para seu prolongamento indefinido.

Infelizmente, não há consenso sobre as causas subjacentes da crise ou as melhores maneiras de escapar dela. EUA e Reino Unido concordam que os excessos financeiros tiveram origem não na desregulamentação e sim no imenso excedente de oferta dos países superavitários, principalmente China, Alemanha e Japão. Mas a China e europeus liderados pela Alemanha argumentam que a culpa cabe integralmente aos perdulários países deficitários. No entanto, a China também espera que o mundo em breve possa voltar a absorver seu excesso de oferta.

Na entrevista do “Financial Times” com Angela Merkel, a chanceler alemã disse que “a economia alemã depende muito de exportações, e isso não é algo que se possa mudar em dois anos”. Acrescentou ainda que “não é algo que desejemos mudar”. Parafraseando: “O resto do mundo precisa encontrar uma maneira de absorver a nossa oferta excedente, mas de maneira sustentável, por favor”. Mas o que acontece se isso não ocorrer? Em 2007, os China, Alemanha e Japão registraram um superávit agregado de US$ 835 bilhões em conta corrente. Logicamente, os países deficitários que lhes servem como contraparte precisam gastar mais do que ganham por igual montante. Mas os países deficitários já não podem captar recursos junto a credores voluntários com bom crédito.

Essa mudança é o aspecto central da crise. Os países superavitários, que dependiam do setor privado dos países deficitários para que realizasse por eles sua captação irresponsável, demonstram padrão muito diferente: o balanço em seu setor privado mudará pouco e, em todos os casos, continuará a exibir um grande superávit o tempo todo: grandes superávits em conta corrente quase sempre significam poupança excedente no setor privado. Mas, na medida em que seus superávits externos caiam, os déficits fiscais crescerão, em parte por decisão política deliberada mas também devido às consequências automáticas das recessões.

Assim, as posições fiscais estão se deteriorando, e os superávits e déficits em conta corrente estão minguando em toda parte, à medida que o setor privado dos países deficitários reduz dramaticamente os seus gastos. Mas a deterioração fiscal esperada é maior nos países deficitários do que nos superavitários. Com a exceção do Japão, os déficits fiscais também serão maiores nos países deficitários. O que essa análise nos revela é bastante simples: não está acontecendo quase nenhum ajuste nos desequilíbrios estruturais subjacentes. Não estamos no caminho para uma saída duradoura da crise.

Assim, o que resta a fazer? Esse deve ser o tema central do G20. A economia mundial não pode ser conduzida a um equilíbrio seguro por meio de medidas que encorajem número relativamente pequeno de países a gastar até falir. A resposta depende, em parte, de mudanças nas políticas dos países superavitários. Mas também em igual medida de repensar o sistema monetário internacional. Enquanto isso, a cúpula do G20 tratará em larga medida dos sintomas imediatos da doença. Encontrar uma cura de longo prazo para o excesso crônico de oferta mundial é tarefa que ficará para o futuro.

31/03/2009 - 11:49h A reputação manchada dos EUA

http://images.fanpop.com/images/image_uploads/Barack-Obama-barack-obama-738861_1600_1200.jpg

Paul Krugman, The New York Times *

Há dez anos, a capa da revista Time estampava Robert Rubin, então secretário do Tesouro, Alan Greenspan, então presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), e Lawrence Summers, então vice-secretário do Tesouro. A revista chamou a trinca de “comitê para salvar o mundo”, creditando-lhe a condução do sistema financeiro global numa crise que parecia aterrorizante na época, embora pareça um pequeno solavanco comparada ao que estamos enfrentando hoje.

Os três homens naquela capa eram americanos, mas ninguém estranhou isso. Afinal, em 1999, os Estados Unidos eram o líder inconteste da resposta global à crise. Esse papel de liderança só em parte se baseava na riqueza americana; num grau importante, ele refletia também a estatura da América como um modelo exemplar. Todos achavam que os EUA eram o país que sabia lidar bem com as finanças.

Como os tempos mudaram.

Pouco importa o fato de que dois membros do comitê desde então sucumbiram à maldição da capa da revista, o colapso de reputação que amiúde acompanha a notoriedade na mídia. (Summers, que ocupa hoje a chefia do Conselho Econômico Nacional, continua prestigiado.) Bem mais importante é a extensão em que nossas pretensões à solidez financeira – pretensões com frequência invocadas quando fazemos preleções a outros países sobre a necessidade de mudarem suas atitudes – se mostraram vazias.

Aliás, os EUA de hoje se parecem com o Bernie Madoff das economias: durante muitos anos, eles foram respeitados, admirados até, mas acabaram se revelando ter sido uma fraude o tempo todo.

É penoso ler hoje uma palestra feita por Summers no início de 2000, quando a intensidade da crise econômica dos anos 1990 estava diminuindo. Discutindo as causas daquela crise, Summers apontou coisas que faltavam aos países em crise – e que, por implicação, os EUA possuíam. Essas coisas incluíam “bancos bem capitalizados e supervisionados”, e “contabilidade corporativa transparente e confiável”. Bem, bem.

Um dos analistas que Summers citou na palestra, alias, foi o economista Simon Johnson. Num artigo do número corrente da revista The Atlantic, Johnson, que foi economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) e hoje leciona no Massachusetts Institute of Technology (MIT), declara que as dificuldades atuais dos EUA são uma “recordação chocante” de crises em lugares como Rússia e Argentina – incluindo o papel-chave desempenhado pelo capitalista de compadrio.

Nos EUA, como no terceiro mundo, ele escreve , os “interesses econômicos de elite – financistas, no caso dos EUA – jogaram um papel central na criação da crise, fazendo especulações cada vez maiores com o respaldo implícito do governo, até o colapso inevitável”. Mais alarmante, eles agora estão usando sua influência para impedir precisamente os tipos de reformas que são necessários e urgentes para tirar a economia da queda livre.

Não espanta, pois, que um artigo no New York Times de domingo sobre a resposta que o presidente Barack Obama receberá na Europa tenha sido intitulado “Capitalismo de Fala Inglesa em Julgamento”.

Agora, a bem da verdade, é preciso dizer que os EUA não foram o único país onde os bancos extrapolaram. Muitos líderes europeus ainda se recusam a admitir os problemas econômicos e financeiros do continente que são, provavelmente, tão profundos como os nossos – embora as redes de segurança social muito mais sólidas de suas nações signifiquem que nós provavelmente experimentaremos um sofrimento humano maior. Seja como for, é um fato que a crise custou aos EUA muito de sua credibilidade, e, com ela, muito de sua capacidade de liderar.

E isso é uma coisa muito ruim.

Como muitos outros economistas, venho reavaliando a Grande Depressão à procura de lições que possam nos ajudar a evitar uma repetição. E uma coisa que se destaca da história do início dos anos 1930 é a extensão em que a resposta mundial à crise foi debilitada pela incapacidade de cooperar das principais economias do mundo.

Os detalhes de nossa crise atual são muito diferentes, mas a necessidade de cooperação não é menor. Obama captou isso com extrema correção na semana passada, quando declarou: “Nós todos vamos ter de dar passos para levantar a economia. Não queremos uma situação em que alguns países façam esforços extraordinários e outros países não”. Essa é, contudo, a precisa situação em que nos achamos. Eu acredito que mesmo os esforços econômicos dos EUA não são adequados, mas eles têm sido bem maiores que a maioria dos outros países ricos têm se mostrado disposta a fazer. E a cúpula do G-20 desta semana seguramente será uma ocasião para Obama repreender e espicaçar os líderes europeus, em particular, para que estes joguem seu peso na solução da crise.

Mas os líderes estrangeiros não se mostram hoje muito dispostos a ser censurados por autoridades americanas, mesmo quando – como neste caso – os americanos estão certos.

A crise tem causado muitos prejuízos. E um deles são os danos à reputação dos EUA, um ativo que perdemos no exato momento em que nós, e o mundo, mais precisamos dele.

*Paul Krugman é articulista

20/11/2008 - 19:22h Sarkozy plan for another economic conference annoys some diplomats

President Nicolas Sarkozy of France on Wednesday in Paris. (Pool photo by Eric Feferberg)

By Mark Landler – Herald Tribune

Published: November 20, 2008

French officials said the gathering Jan. 8 and 9, for which the former British prime minister, Tony Blair, was to be co-host, would be merely a conference, designed to bring together political leaders and prominent thinkers to discuss issues like globalization and the values of capitalism.

The surfeit of high-level meetings reflects what has become a tense trans-Atlantic contest over the global economy. Much of this is posturing by ambitious leaders, but it also reflects a genuine philosophical debate about how best to fix the fractured global markets.

On one side is Sarkozy, the supercharged French leader, determined to keep the initiative on what many in Europe regard as a long-overdue discussion of the excesses of American-style capitalism.

On the other is Bush, playing out his final weeks in office but unwilling to allow Europeans, especially the French, to dominate the debate on how to overhaul international financial regulations.

Certainly, the two leaders had sharply different interpretations of what happened in Washington. Sarkozy portrayed it as a shift in power, saying, “Europe for the first time expressed its clear determination.” Americans had “never, ever” been willing to negotiate these kinds of regulatory changes, he said.

Bush agreed that the meeting had been productive. But he noted that the leaders had reaffirmed the value of free markets, free trade and the primacy of national regulation – all hallmarks of American capitalism.

The timing of Sarkozy’s January meeting has ruffled feathers, even more than its agenda has, because the Group of 20 industrialized and emerging nations set out a detailed process for tackling regulatory reform. It assigned working groups to develop proposals on 47 issues, to be taken up later by the leaders, possibly in London.

At that meeting, the U.S. president-elect, Barack Obama will have a seat at the table. Obama will not, however, be in office during the Paris meeting, ensuring that the participants discuss the future of capitalism when the world’s leading practitioner of it is still in a transition.

Though the Élysée Palace, Sarkozy’s office, announced the meeting as an international summit meeting, his aides emphasized that it would be an informal gathering not connected to the G-20.

Among those planning to attend are two Nobel Prize-winning economists, Joseph Stiglitz and Amartya Sen. Blair is making contact with world leaders, aides said, adding that it was too soon to say which ones would attend.

“It’s a joint idea of Tony Blair and Nicolas Sarkozy; they have had it on their minds for a while,” said a French official, who, like other officials, spoke on condition of anonymity because he was not authorized to speak publicly.
WASHINGTON: President Nicolas Sarkozy of France left the summit meeting on the financial crisis here last weekend in a triumphal mood, declaring that it had tamed the animal spirits of American capitalism.

Then he went home and announced that he would hold his own summit meeting in a few weeks in Paris – on the same topic.

That has raised hackles in diplomatic circles, not just because the meeting appears to compete with a planned gathering of 20 world leaders next April. Sarkozy’s aggressive statements have put U.S. officials on edge, with some saying that he seems determined to turn the global crisis into a referendum on the ills of untrammeled capitalism.

“Sarkozy claimed he put a bell on the American cat,” said Simon Johnson, a former chief economist of the International Monetary Fund. “He said the U.S. had agreed to a whole range of negotiations on regulations. But he didn’t actually come in and negotiate any of these things.”

Making matters worse, Sarkozy said nothing about his plans to convene a meeting to President George W. Bush or the 18 other leaders while he was in Washington. A senior European diplomat said he found the French proposal “amazing,” while an American official said that would be a charitable description of it.

Sarkozy has had many ideas. He proposed the meeting last weekend, though Bush rejected his idea of holding the talks in New York. American officials said it was Bush’s idea to expand the guest list to 20 countries, rather than the usual gathering of seven or eight.

The common ground between Europe and the United States is greater than these public statements suggest. The United States has shown a willingness to accept regulation of a wide range of institutions and markets, including credit default swaps – a form of bond insurance – and possibly private equity firms and hedge funds, that are not now regulated.

“People may have been surprised by the U.S. willingness to cooperate on issues,” said David McCormick, undersecretary of the Treasury for international affairs.

Although the French favor a strong state role in the economy and are partial to regulatory agencies with cross-border authority, they did not propose such measures at the talks in Washington. That was mainly because Britain and Germany had earlier resisted a supranational regulator.

Katrin Bennhold contributing reporting from Paris.

17/11/2008 - 12:05h G20, Brasil, Obama e a mídia

TODA MÍDIA – Nelson de Sá – Folha SP

MAIS PRÓXIMOS
Na manchete on-line do “China Daily”, “Líderes mundiais concordam em agir” de forma “mais próxima e coordenada” na crise, mas:
- Eles adiaram planos detalhados sobre a revisão do sistema financeiro e até um próximo encontro, na administração Obama.

OBAMA DIANTE DO G20

change.gov
 

Quanto a Obama, deu poucos sinais sobre a cúpula. Sábado pela manhã, no site de transição (acima), postou seu primeiro “Pronunciamento Semanal do Presidente Eleito” sobre o G20. Elogiou Bush por “iniciar o processo” e já passou para a cobrança do plano de estímulo que os democratas querem aprovar. Falando ao “60 Minutes” sexta, antes do G20, insistiu no pacote, que Bush rejeita.
As manchetes de Huffington Post e Politico, ontem, seguiram o “NYT” e destacaram que a marcação da nova cúpula para abril já pressiona Obama à ação.

ft.com
 

“FT” se mostrou simpático ao G20, mas ironizou o tamanho do grupo, comparado ao “Spruce Goose” de Howard Hughes

A MORTE DO G8
No dominical “Observer”, Larry Elliott escreveu que “Esta cúpula sinaliza o fim do clube exclusivo das nações ricas”. Sem Obama, foi como como “”Hamlet” sem o príncipe”, mas teve cinco “realizações”, sendo a maior delas que, “finalmente, soou o sino de morte para o G8″.

A MORTE DO G7
No “FT”, Clive Crook foi mais cético. Escreveu que, “para muitos, o encontro não importou pela simples razão de que o presidente eleito não estava lá”. Mas avaliou que “a coisa mais importante foi geopolítica” e que “seria bom se provasse ser a certidão de morte do velho G7″.

A ORDEM DAS CADEIRAS

washingtonpost.com
 

No “WP” (acima), destaque para os EUA, ladeados por Brasil e Japão, na cúpula de sábado. No “China Daily”, a foto on-line ressaltou o presidente Hu Jintao ao lado de George W. Bush, no jantar de sexta. Na home do espanhol “El País”, a foto posada de sábado, com o primeiro-ministro José Luis Zapatero logo atrás de Bush e Lula.
O “NYT”, ontem sobre o jantar, ironizou que “a verdadeira história foi a distribuição dos lugares à mesa”. Bush cercado por Lula e Hu “foi uma ilustração de como a crise refez a ordem econômica mundial”.

“BRAZILIANS, GO HOME”
Na “Newsweek”, “Conforme Brasil se torna ator mais poderoso, seus vizinhos se mostram vez mais agressivos”. Diz que a reação vem sobretudo de Bolívia, Paraguai etc. -e que, “ironicamente, Lula segue popular” nos mesmos. Mas sua “tolerância” está próxima do limite.

Leia a integra da coluna de Nelson de Sá na Folha de São Paulo

17/11/2008 - 10:09h ”FMI deveria ter US$ 3 trilhões”

Michael Spence: economista e ganhador do prêmio Nobel em 2001; Spence é favorável ao apoio do Fundo para os países emergentes, que foram abatidos pelo corte abrupto do crédito

Fernando Dantas, RIO – O Estado SP

 

Prêmio Nobel de Economia de 2001, junto com o crítico da globalização Joseph Stiglitz e George Arkelof, o americano Michael Spence participou de um grupo de 20 economistas que elaborou um documento de sugestões aos líderes do G-20, numa tentativa de influenciar as decisões que acabam de ser tomadas ao fim do encontro de Cúpula dos chefes de Estado neste fim de semana em Washington.

Em entrevista ao Estado por telefone, antes da conclusão da cúpula, Spence defendeu uma vigorosa ajuda financeira aos países emergentes, que, para ele, estão sofrendo com o corte súbito do crédito causado por razões que nada têm a ver com o fundamento de suas economias. Ele está relativamente otimista quanto ao Brasil e sugeriu um aumento da munição do Fundo Monetário Internacional (FMI) para até US$ 3 trilhões, que poderiam ser alcançados com o uso das reservas de China, Japão e países do Golfo.

Coordenador do relatório final da Comissão do Crescimento, um documento sobre desenvolvimento elaborado durante dois anos por diversos especialistas e divulgado em maio de 2008, Spence acha que a atual crise mostra que uma ênfase maior deve ser dada à manutenção da estabilidade econômica e financeira. Mas ele é cético quanto a uma reforma da arquitetura financeira internacional a curto prazo, pois as causas da atual crise ainda não foram entendidas. Spence virá ao Rio nesta semana para o encontro da Associação Latino-americana e Caribenha de Economia e da sessão brasileira da Sociedade Econométrica Internacional (Lacea-Lames). A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual deve ser a prioridade das autoridades econômicas mundiais neste momento?

O mais importante, agora, é focar na crise financeira e econômica. O fato básico e simples é que os capitais estão saindo dos países em desenvolvimento, por causa dos balanços danificados nos Estados Unidos e na Europa. Não tem nada a ver com a situação econômica nos emergentes. Esses fluxos de capital têm de ser revertidos. Se o FMI tivesse ativos suficientes para apoiar aqueles países, poderia fazer. Mas não tem. Então, é preciso esquemas como o de swap (troca) de dólares do Fed (Federal Reserve, banco central americano).

O sr. acredita num novo papel para o FMI, na esteira desta crise?

Quando as pessoas falam de um novo papel do FMI, elas querem dizer uma entidade que tenha as funções atuais do FMI. Se o FMI pode ser reformado para representar esse novo papel, é uma outra questão. Mas o ponto sobre o qual todos concordam é a necessidade de uma entidade que tenha ativos substanciais ou uma capacidade substancial de acessar ativos, com autoridade e legitimidade para agir no contexto de uma crise. Esses ativos têm de ser muito maiores do que os US$ 250 bilhões do FMI. Um total de US$ 2 trilhões a US$ 3 trilhões parece adequado.

De onde poderiam vir os recursos deste FMI ampliado?

Os grandes detentores de reservas internacionais hoje são a China, o Japão e os países do Golfo. É preciso encontrar uma forma de os detentores destes grandes acúmulos de reservas as utilizem para estabilizar o sistema como um todo.

O sr. tem parecido cético em relação a uma reforma a curto prazo da arquitetura financeira internacional.

Pense bem: as mais sofisticadas instituições financeiras do mundo, repletas de algumas das pessoas mais inteligentes do mundo, conseguiram criar uma situação na qual havia tanto risco sistêmico que, quando a coisa estourou, cada uma daquelas instituições, praticamente sem exceção, estava danificada ao ponto de não poder atuar nem mesmo como intermediária no sistema de crédito e de pagamentos. Enquanto não sentarmos e pensarmos arduamente sobre isso, não podemos nem ao menos obter uma explicação coerente sobre o que aconteceu. Deveríamos admitir que não temos um conhecimento perfeito e colocar em marcha um processo planejado para tornar o sistema mais estável e seguro para todo mundo ao longo do tempo. Isso pode requerer mudanças freqüentes, à medida que descubramos coisas novas.

Como o sr. vê a situação do Brasil nesta crise?

As grandes economias em desenvolvimento bem administradas, como o Brasil, se sairão desta crise razoavelmente bem. Quer dizer, ninguém vai escapar, e é preciso ficar muito alerta para reagir adequadamente, e evitar danos maiores do que o inevitável. Mas acho que o Brasil está numa boa situação para fazer isso.

16/11/2008 - 12:11h G-20 abre ciclo de negociações

http://img.rian.ru/images/11796/93/117969347.jpghttp://www.reuters.com/resources/r/?m=02&d=20081115&t=2&i=6826787&w=450&r=2008-11-15T195516Z_01_BTRE4AE1D5T00_RTROPTP_0_FINANCIAL-SUMMIT

Paulo Sotero * – O Estado SP

O mais difícil começa agora. Nos próximos quatro meses, as burocracias terão a árdua tarefa de trocar em miúdos os princípios acordados na primeira reunião de chefes de governo do G-20, realizada ontem em Washington. O encontro não produziu resultados conclusivos, mas foi uma boa notícia pelo simples fato de ter acontecido. Em meio ao tsunami financeiro causado pela falta de regulação adequada do sistema financeiro global, principalmente nos países ricos que até agora ditavam as regras, os líderes, que representam 90% do PIB mundial, mostraram-se unidos e tomaram a decisão histórica de elevar politicamente um foro para incluir os países emergentes como participantes iguais na elaboração e implementação de um novo conjunto de normas e procedimentos globais capaz de impedir ou conter crises sistêmicas como a que o mundo vive hoje.

A reunião de Washington abriu um ciclo de negociações que testará tanto os países avançados quanto os novos atores, como o Brasil. Os governos das nações industralizadas, congregadas até agora no obsoleto G-7, terão que resistir a seu velho hábito de se reunir com os emergentes para fazer-lhes preleções. Como lembrou o ex-presidente do Banco Mundial James Wolfensohn na última sexta-feira, os ricos não têm mais credibilidade para agir dessa forma. Em lugar disso, eles devem “ouvir os conselhos e as preocupações dos líderes dos países em desenvolvimento e tratá- los como parceiros plenos e iguais, não como afortunados por serem convidados”, disse Wolfensohn.

O outro lado da moeda é que os emergentes serão chamados a comportar-se como iguais. Isso significa ter claro que sua capacidade de influência no novo foro dependerá menos do talento de seus líderes de fazer discursos do que do cacife econômico, do capital intelectual e da disposição política de seus respectivos governos para formular propostas bem fundamentadas e contribuir efetivamente para a construção da nova arquitetura do sistema financeiro.

O Brasil demonstrou ter esse tipo de capacidade no outro G-20, que ajudou a criar em setembro de 2003, juntamente com a Índia e o apoio de outras nações emergentes no contexto das negociações da Rodada de Doha na Organização Mundial de Comércio. A iniciativa foi uma importante vitória tática e resultou na mudança do formato da mesa de negociações de acordos de liberalização do comércio global, que antes só tinha lugar para os ricos. Não vem ao caso se o País deveria ou não ter apostado todas as fichas na conclusão da rodada. Ela permanece no limbo, travada pela resistência dos EUA de reduzir seus subsídios à agricultura e, em menor proporção, pelo choque de interesses que surgiu entre os emergentes – de um lado o Brasil, uma potência agrícola que defende mercados abertos, de outro a Índia e a China, que têm milhões de camponeses na agricultura familiar de subsistência e, compreensivelmente, resistem a abrir seus mercados.

No G-20 financeiro, o cacife brasileiro é menor do que no G-20 comercial. Mas não é desprezível. O País seguiu a receita da racionalidade econômica pregada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e conquistou a estabilidade. Graças a isso, ganhou credibilidade. Mais: é hoje um dos emergentes que crescem num mundo em que as economias ricas estão em contração. Ainda que em escala menor do que a China, o Brasil dá uma contribuição positiva e aparece como parte da solução e não da crise profunda que aflige a economia mundial. Isso dá peso ao País no novo G-20, cuja criação Brasília apoiou, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Trata-se de saber, agora, como o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva usará a cadeira permanente que tem no G-20 para influir no processo de construção de uma governança global do sistema financeiro que atenda os interesses nacionais.

Uma das propostas adotadas pelos chefes de governo foi o fortalecimento do FMI. Em 1990, quando o estoque de investimentos globais em bolsas somava U$ 170 bilhões, o FMI tinha U$ 36 bilhões para emprestar a países em crise. Hoje tem US$ 200 bilhões, ou seis vezes mais. Ocorre que o estoque de investimentos aumentou 18 vezes em 18 anos e está agora em U$ 3 trilhões. Esse cálculo, feito por Sebastião Malaby, do Washington Post, torna evidente a necessidade de aumento do capital do Fundo.

O antagonismo ao FMI é, porém, parte da própria identidade ideológica do partido do presidente da República e de seus aliados da base governista. Sabe-se, também, que a ojeriza ao Fundo é compartilhada por vários integrantes da equipe econômica do governo, que vêem na crise atual a legitimação de suas posições e previsões sobre o inexorável colapso do capitalismo. Ocorre que integrantes do G-20, entre eles a China, um país nominalmente comunista com U$2 trilhões em reservas cambiais no cofre, decidiram em Washington que é do interesse de seus povos salvar o sistema, ou, como disse o presidente francês Nicholas Sarkozy, “refundar o capitalismo”. Turbinar o FMI é parte da refundação. No que diz respeito ao Brasil, trata-se de saber agora que propostas o governo Lula desenvolverá e levará à próxima reunião, marcada em princípio para fins de março. Está o Brasil disposto a respaldar a retórica oficial de redistribuição do poder do FMI em favor dos emergentes e aumentar sua contribuição ao capital da instituição? Como atuará o País no novo “colégio” global de agência reguladora do sistema financeiro que pode emergir das discussões à frente?

Somem-se à complexidade das negociações que começam agora as dificuldades imediatas que a transição política nos EUA apresenta para a decolagem do G-20. Antes mesmo do encontro, o presidente George W. Bush e seu sucessor eleito, o oposicionista Barack Hussein Obama, sinalizaram de maneiras diferentes que nenhum deles assumiria compromissos em relação a propostas de reforma demasiadamente ambiciosas.

Prestes a receber de Bush uma pesada herança – esta sim, maldita – Obama ficou longe da reunião e mandou como representantes a ex-secretária de Estado, Madeleine Albright, e o ex-deputado republicano Jim Leach – ambos políticos aposentados que não pertencem à equipe econômica do presidente eleito e não ocuparão postos de primeira grandeza em sua administração.

Entusiasta do processo de criação do G-20, o diretor do Munk Center for International Relations, da Universidade de Toronto, John Kirton, minimizou a ausência de emissários mais substantivos do futuro presidente, como o ex-secretário do Tesouro, Larry Summers, que é forte candidato a retornar ao cargo.

“A proposta de campanha de Obama para lidar com o aquecimento global segue o padrão de inclusão do G-20, pois envolve a participação de 16 países revelantes e torna claro que ele retomará o caminho do multilateralismo na busca da solução para os grandes problemas globais”, disse Kirton. “Não tenho dúvidas de que, um vez empossado, Obama e sua equipe econômica, que certamente será mais internacionalista e qualificada do que a do atual governo, injetará dinamismo no G-20.” É possível e até provável. Antes, porém, de mapear o curso que seguirá no que seu conselheiro econômico Paul Volcker (ex-presidente do Fed) chamou de “reconstrução do sistema financeiro a partir do alicerce”, o sucessor de Bush precisa saber o tamanho e a profundidade do buraco do qual terá que tirar a economia dos EUA. E isso ainda não está claro.

*Jornalista, é diretor do Brazil Institute do Woodrow Wilson International Center for Scholars

16/11/2008 - 11:41h Lula: ‘Já sabemos que o G-8 não tem mais razão de ser’

http://oglobo.globo.com/fotos/2008/11/15/15_CHA_LULa_Summit.jpg

Presidente afirma que, depois da crise financeira, países ricos tomaram ‘chá de humildade’

Marilia Martins – O GLOBO

Enviada especial

WASHINGTON. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva considera que o fortalecimento do G-20 como fórum internacional privilegiado, ocupando o lugar do G-8, já é um primeiro resultado da reunião de cúpula. Lula sentouse ao lado do presidente George Bush, elogiou a iniciativa do anfitrião em convocar o encontro, mas foi o primeiro a criticá-lo, acusando-o de vacilar na tomada de medidas ousadas.

Lula participou da cúpula acompanhado do ministro da Fazenda, Guido Mantega, enquanto o chanceler Celso Amorim mantinha encontro reservado com a representante de Comércio dos EUA, Susan Schwab, para tentar avançar nas negociações da Rodada de Doha. Amorim reuniuse ainda com Madeleine Allbright, exministra do Exterior do governo Bill Clinton, designada por Barack Obama como observadora no encontro.

— Já sabemos que o G-8 não tem mais razão de ser. Ninguém pode ignorar economias emergentes no mundo globalizado de hoje — afirmou Lula, declarando-se contente com a confirmação do G-20 como um fórum global. — Agora eu vejo que depois dessa crise todo mundo tomou um chá de humildade.

O presidente brasileiro disse que o G-8 vai continuar apenas “como um clube de amigos” e que o mundo assistiu a um momento histórico “porque há seis meses ninguém poderia imaginar que chegaríamos a um consenso para cuidar coletivamente da economia mundial”.

Ele também criticou os elevados ganhos dos executivos de fundos de investimento com a especulação: — Eu disse ao Bush que, quando eu era metalúrgico, tinha de trabalhar 40 ou 60 horas extras por mês para comprar uma TV. Eu tinha de me matar de trabalhar e não é justo que alguém fique bilionário sem produzir um único papel, um único emprego, um só salário.

Lula reafirmou que serão tomadas todas as medidas para garantir a expansão da economia brasileira em 2009, ressaltando que o governo vai “criar as condições para irrigar o nosso sistema financeiro”, e prometeu manter todos os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Mas admitiu estar preocupado com um possível aprofundamento da crise e alertou que a desaceleração econômica estava transformando-se perigosamente em recessão.

Mantega saiu do encontro otimista: — Conseguimos estabelecer o G-20 como fórum privilegiado da crise. Vamos retomar a Rodada de Doha e chegar a um acordo comercial até o fim do ano. Esta é uma oportunidade histórica que permite uma resposta diferente da dos anos 30, e todos concordaram que é a única forma de impedir o alastramento da crise — disse o ministro.

14/11/2008 - 10:42h Seqüência do Bretton Woods fracassará

http://www.g20.org/G20/webapp/lib/img/logo_print.jpg

Gideon Rachman – Financial Times – VALOR

Atribuo toda a culpa a Dean Acheson. O estadista americano, há muito falecido, foi uma grande figura na conferência original de Bretton Woods, em 1944, e posteriormente ajudou a inventar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Acheson deu a suas memórias o modesto título de “Present at the Creation” (presente à criação, em inglês) e, ao fazê-lo, inadvertidamente alimentou as fantasias de grandiosidade dos líderes do grupo dos 20 (G-20) países com maior economia, que se reúnem em Washington no fim de semana. Por que eles não poderiam também chegar ao status de quase deuses, reordenando as instituições do mundo?

Alguns dos líderes que se dirigem a Washington são surpreendentemente francos sobre o prazer que estão tendo. Nicolas Sarkozy, o dinâmico presidente da França, congratulou-se por sua “sorte” em ter a chance de refazer o sistema financeiro mundial. Gordon Brown, primeiro-ministro britânico, visivelmente deleita-se com a idéia de ser um líder intelectual mundial.

Como a maioria das seqüências, no entanto, o Bretton Woods II não chegará nem perto do original. A primeira conferência criou o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Seu substituto será mais maçante e gerará menos conseqüências significativas.

O primeiro motivo é que a crise financeira mundial – mesmo tão grave como é – está longe de ser a Segunda Guerra Mundial. A guerra destruiu a ordem estabelecida e, portanto, os estadistas que desenharam as instituições do pós-guerra tinham um papel em branco para rabiscar.

O segundo é que não há tempo suficiente. A conferência original de Bretton Woods teve os benefícios de dois anos de preparação, não duas semanas.

O terceiro – especialmente importante – é que os países que se reunirão em Washington neste fim de semana divergem. Os europeus, que adoram todas as formas de governança internacional, pressionam por novos reguladores mundiais para o sistema de finanças internacionais. Os americanos e chineses – mais zelosos de sua soberania nacional – estão mais cautelosos.

Por fim, ao contrário do ocorrido no Bretton Woods original, os Estados Unidos não têm o poder nem a inclinação para impor um novo conjunto de planos para o resto do mundo.

Este último ponto é algo que os europeus, em particular, mostram dificuldade em compreender. Sua visão geral é a de que há duas formas opostas de arrumar o mundo. A primeira – associada com o temido presidente George W. Bush – era baseada no poder e “unilateralismo”. A segunda – que esperam ser adotada pelo santificado Barack Obama – é baseada em um EUA repreendido, que trabalha com os outros para construir uma nova ordem multilateral. Parte da excitação européia em relação ao Bretton Woods II é baseada na idéia de que a era da primazia dos EUA acabou – e que amanhece uma nova era multilateral.

Em 1944-45, entretanto, instituições multilaterais como o FMI, Banco Mundial e Organização das Nações Unidas (ONU) nasceram da força dos EUA e não de sua fraqueza. Um dos motivos para o Bretton Woods ter funcionado é que os EUA eram claramente o país mais poderoso na mesa de negociação e, portanto, no fim das contas tinha capacidade para impor sua vontade aos outros, incluindo uma Grã-Bretanha freqüentemente consternada. Na ocasião, uma alta autoridade do Banco da Inglaterra descreveu o acordo alcançado como “o maior golpe desferido contra a Grã-Bretanha depois da guerra”, em grande parte porque ressaltava a forma como o poder financeiro havia passado do Reino Unido para os EUA.

O encontro do próximo fim de semana também reconhece mudanças no poder global. Os entusiastas do G-20 gostam que o grupo não seja o cansado e velho G-8, que vêem como sendo composto principalmente de países europeus exauridos destinados a entrar no matadouro da história. O G-20 inclui novas potências emergentes, como China, Índia, Brasil e África do Sul.

Isso é importante. Um sistema internacional que não acomode a China, Índia e outros novos emergentes claramente não pode funcionar no longo prazo. Contudo, trazê-los ao sistema não é garantia de sucesso. Quanto mais vozes ao redor da mesa do Bretton Woods II – e mais igualdade houver entre eles -, mais difícil será chegar a um acordo.

De fato, o mundo emergente multilateral e multipolar – há muito defendido por aqueles desconfortáveis com o poder americano – mostra todos os sinais de ser altamente inepto.

A ONU está cada vez mais paralisada – assolada por uma liderança fraca e um conselho de segurança bloqueado. Nos últimos 12 meses, a Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) fracassou. E se as negociações da OMC não conseguiram produzir resultados, que chance haverá de sucesso em uma tarefa muito mais difícil, como a de negociar um acordo mundial de mudanças climáticas no próximo ano?

As rodadas comerciais anteriores foram concluídas com êxito, em parte, porque foram costuradas por Europa, América e Japão. Porém, na rodada mais recente, os países em desenvolvimento – em particular a Índia – ficaram poderosos demais para serem ignorados. Este é certamente um avanço para a justiça e equidade mundiais, mas torna muito mais difícil atingir um acordo. O mesmo problema provavelmente afligirá as negociações sobre mudanças climáticas no próximo ano, nas quais a China desempenhará papel central.

Ter montes de países na mesa de negociação não é por si só um fator destruidor de consensos. Havia 44 países no Bretton Woods original. Porém, o que se precisa é de liderança. Em 2008, como em 1944, o líder mais plausível é os EUA. Isso torna duplamente infeliz o fato de que o presidente americano anfitrião em Washington será Bush e não Obama.

Sob o comando do presidente Bush, os EUA descobriram que não podem liderar o mundo por meio do exercício da força bruta. A tarefa do presidente eleito Obama será ver se os EUA agora podem liderar por meio da persuasão. Infelizmente, ele não estará presente à recriação neste fim de semana.

12/11/2008 - 18:00h Brown aboga por estímulos fiscales coordinados para afrontar la recesión

Gordon Brown
Gordon Brown- AP

El primer ministro británico esgrime como ejemplos a China y España

WALTER OPPENHEIMER – Londres – El País

El primer ministro británico, Gordon Brown, defenderá en la cumbre global del próximo fin de semana en Washington que las grandes economías del planeta pongan en marcha “estímulos fiscales” de manera coordinada para afrontar la recesión. Brown citó como ejemplo a seguir los paquetes de ayudas fiscales aprobados en países como China y España, pero no explicó cuáles son sus planes específicos para el Reino Unido.

Los estímulos fiscales se han convertido en la panacea para los tres grandes partidos políticos británicos. Los liberales-demócratas hace ya semanas que defienden recortes de impuestos y ayer se sumaron también los conservadores. Su líder, David Cameron, presentó un plan de recorte de impuestos a las empresas de 2.500 libras (algo más de 3.000 euros) por cada trabajador que contraten que lleve más de tres meses desempleado. De esta manera, aseguró, se podrían crear 350.000 nuevos empleos sin coste para el Estado porque las ayudas fiscales se compensarían mediante ahorros en el pago del subsidio de paro.

Los “estímulos fiscales” defendidos por el primer ministro se conocerán cuando la semana que viene, o quizá la siguiente, el ministro del Tesoro y canciller del Exchequer, Alistair Darling, presente en el Parlamento el tradicional minipresupuesto de otoño. Entre las medidas que se barajan están el incremento de las ayudas para gasóleo de calefacción, un nuevo aplazamiento de las nuevas tasas que gravan el gasóleo y una extensión de las vacaciones fiscales de determinadas tasas.

Pero esas medidas parecen insuficientes para tener un impacto serio en la actual situación, y el Gobierno podría estar preparando un anuncio más impactante. Algunos analistas especulan con la posibilidad de un recorte del IVA, dado el alarmante parón del consumo. Ayer se supo que las ventas al detalle han sufrido en octubre su caída más pronunciada en cuatro años y que el gasto de las familias está a niveles históricamente bajos debido al miedo al desempleo.

El primer ministro ha esbozado las ideas que piensa presentar en la cumbre de Washington. “Mi mensaje es que tenemos que ser internacionalistas, no proteccionistas; intervencionistas, no neutrales; progresistas y no reactivos; tener visión de futuro, no quedarnos congelados por los acontecimientos”.

Allí desbrozará los cinco puntos que, en su opinión, hay que tener en cuenta a la hora de reformar las estructuras financieras internacionales: la recapitalización de los bancos y la reactivación del crédito a negocios y familias; mejor coordinación internacional de la política fiscal y monetaria; un nuevo fondo de rescate para el FMI; un nuevo acuerdo comercial y mayor transparencia.

El secretario de Estado español para la UE, Diego López Garrido, dijo ayer en Londres que España coincide con las propuestas que llevará Brown a la cumbre de Washington en cuanto a la regulación de los mercados

Gordon Brown irá a Washington con un ojo puesto en la crisis financiera y otro en los réditos políticos domésticos que puede sacar de ella. Una encuesta de Populus publicada ayer por el diario The Times confirmaba su resurrección política: los laboristas, que hace un mes estaban a 15 puntos de los conservadores, están ya a sólo seis (41% a 35% ahora, 45% a 30% hace cuatro semanas).

10/11/2008 - 09:38h Nações do G-20 querem profunda reforma no FMI e no Banco Mundial


Grupo pede maior participação de emergentes nos dois organismos

Ronaldo D’Ercole, Patrícia Duarte e Lino Rodrigues – O GLOBO

SÃO PAULO. Em documento divulgado ontem, no fim da reunião do G-20, os países membros do grupo defenderam amplas reformas em órgãos multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (Bird), de modo a garantir uma maior representatividade, que reflita o papel que grandes países emergentes desempenham hoje na economia mundial. Em entrevista, a ministra de Economia da França, Christine Lagarde, por exemplo, chegou a afirmar que é hora de o FMI mudar “sua abordagem imperialista”.

“Concordamos que as instituições de Bretton Woods (referência à reunião em que foram criados o FMI e o Bird) devem ser amplamente reformuladas para que elas possam, adequadamente, refletir os diferentes pesos das economias no mundo e ser mais responsáveis nos desafios futuros.

Economias emergentes e em desenvolvimento devem ter mais voz e representatividade nestas instituições”, disse o documento.

Em seu discurso no encerramento do encontro, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, sugeriu que o G-20 teria uma representatividade mais adequada para liderar e coordenar eventuais ações contra a crise.

— O G-20 representa melhor o quadro de países mais envolvidos com a economia internacional e pode enfrentar melhor o atual cenário — disse.

Indagado sobre a afirmação de Mantega, o diretor-gerente do FMI, Dominique StraussKahn, admitiu a relevância do G20. Mas afirmou que a representatividade do grupo é restrita.

— O G-20 é muito importante, reúne uma grande parte do PIB mundial. Porém, são apenas 20 países. E o FMI representa 185. E há muitos outros com importância econômica no mundo que não estão representados no G-20. Então, eu penso que os dois organismos são importantes — disse ele, que, no entanto, defendeu mais voz aos emergentes. — O Guido (Mantega) está certo em cobrar mais voz, pois, quando você olha para as perspectivas do próximo ano, vê que todo o crescimento virá dos países emergentes.

Sobre as críticas feitas à forma de o Fundo atuar e às reclamações dos emergentes que não se sentem representados na instituição, StraussKahn disse tratar-se de uma “visão tradicional”: — Cada um (dos membros do Fundo) pode ter esse tipo de reação, mas a realidade é que não há outro lugar com a universalidade de nossos membros, com todo mundo ao redor da mesa podendo ter voz.

Debate sobre nova ordem financeira foi adiado A ministra francesa, no entanto, defendeu mudanças profundas na instituição.

— Acredito que a velha escola do FMI deixou algumas cicatrizes — disse ela. — Alguns Estados, um ou dois que vi ontem (sábado, na reunião do G20, em São Paulo) em reuniões bilaterais, lembram que o FMI pode usar essa bastante ortodoxa e imperialista abordagem da análise econômica e de ocasionais exigências sobre os países.

Para o subsecretário para Assuntos Internacionais do Tesouro dos EUA, David McCormick, não há necessidade de se criar novas instituições para regular e fiscalizar o mercado financeiro mundial. Segundo ele, os organismos existentes dão conta do trabalho, embora precisem ser fortalecidos.

McCormick disse ainda que seu país é aliado do G-20 e está aberto a negociar as reformas necessárias.

— Isso não significa um novo Bretton Woods, mas é preciso fortalecer as instituições já existentes, como o FMI e o Banco Mundial — disse ele.

A discussão sobre uma nova regulamentação para o sistema financeiro internacional, aliás, que gerou grande expectativa antes do encontro, acabou ficando em segundo plano. Alguns países, como a Austrália apresentaram propostas. Mas pouco se avançou e a questão será discutida na reunião dos chefes de estado do G-20, no próximo fim de semana, em Washington.

— Não chegamos a definir medidas que devem ser tomadas no âmbito da regulação e da fiscalização dos mercados financeiros — disse Mantega, admitindo que, pela complexidade das mudanças em discussão, nada de concreto deve sair da reunião nos Estados Unidos.

10/11/2008 - 09:19h G20: o que ficou acertado no encontro

Imagem da reunião do G20 em São Paulo
Sebastião Moreira, EPA

O GLOBO

1) Principais trechos do comunicado conjunto dos países do G-20

A atual crise financeira é resultado do risco excessivo assumido e pela falta de práticas de gerenciamento nos mercados financeiros, políticas macroeconômicas inconsistentes, que trouxeram desequilíbros domésticos e externos, bem como uma regulação e supervisão financeiras deficientes em alguns países desenvolvidos;

As medidas (que precisam ser tomadas) devem ser criadas não apenas para restaurar o crescimento e a estabilidade financeira, mas também para minimizar o impacto negativo social em países emergentes;

As políticas fiscais têm servido como um importante instrumento para enfrentar a atual crise financeira, inclusive através da ajuda dos governos para o setor financeiro e têm trazido uma importante estabilização e mitigando os efeitos negativos nos mercados e na atividade econômica;

Economias emergentes e em desenvolvimento devem ter maior voz e representação no Fundo Monetário Internacional e no Banco Mundial.

2) Principais pontos da proposta do Brasil para o G-20

Prevenção

As políticas nacionais e as instituições financeiras internacionais devem incorporar normas de prevenção de crises em suas políticas, além de mecanismos de supervisão e acompanhamento dos mercados

G-7

O grupo dos sete países mais ricos do mundo não tem mais condições de liderar os principais temas mundiais, como os de ordem econômica. Por isso, é preciso aproveitar o momento para a definição de um novo foro de diálogo político de alto nível, sobretudo em matéria econômica e financeira

FMI

O Brasil defende a continuidade das reformas do Fundo e antecipação do prazo de criação de novas cotas e votos na instituição, prevista para 2013. O país defende ainda que os dirigentes do FMI e do Banco Mundial sejam escolhidos por meio de processos transparentes, e sem restrição a nacionalidade de candidaturas (atualmente americanos e europeus se revezam no comando dos organismos)

Banco Mundial

O país defende um aumento significativo do poder de voto das economias emergentes e em desenvolvimento, através da duplicação dos votos básicos e o uso de cotas para compensar a perda de poder de votos desses países

G-20

Elevação do G-20 ao nível de foro de Chefes de Estado e de governo, dando prioridade às deliberações com resultados práticos em termos de políticas públicas

08/11/2008 - 17:06h “Veio abaixo a fé dogmática no princípio da não intervenção do Estado na economia”, disse Lula na abertura do G20

Participam do G20 ministros da Economia e presidentes de bancos centrais de 19 países: os oito países do G8 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Reino Unido, Itália, Japão e Rússia) mais África do Sul, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, China, Coréia do Sul, Índia, Indonésia, México e Turquia. A União Européia também integra o grupo, representada pela presidência rotativa do Conselho Europeu e pelo Banco Central Europeu. O grupo foi criado em 1999 e é atualmente presidido pelo Brasil. A reunião do G20 acontece agora aqui em São Paulo

Foto: Ricardo Stuckert/PR
Presidente Lula participa de reunião plenária dos Ministros da Fazenda do G-20 Financeiro, em São Paulo _ (São Paulo, SP, 08/11/2008) _ Foto: Ricardo Stuckert/PR

Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante reunião plenária dos Ministros da Fazenda do G-20 Financeiro

Senhoras e senhores ministros das Finanças e presidentes de Bancos Centrais,

Senhoras e senhores membros das delegações,

Quero dar as boas-vindas a todos que comparecem a esta importante reunião que temos a honra de presidir.

A economia mundial atravessa seu momento mais grave em décadas. Medidas tomadas por governos impediram o pior, mas ainda há muito o que fazer. Persistem riscos e incertezas sobre o comportamento da economia, sobre o impacto da crise nos países em desenvolvimento, no comércio e nas finanças internacionais.

Uma coisa é, no entanto, evidente: a desordem que se instaurou nas finanças mundiais nos últimos anos ameaça o funcionamento da economia real. O preço a pagar por essa irresponsabilidade se pode medir de várias formas.

Para nós, o que importa é a ameaça de uma recessão generalizada e, na sua esteira, a perda de milhões e milhões de empregos, o aumento da pobreza e da exclusão. Não podemos permitir que o pânico que se instalou em muitos lugares atinja os setores produtivos. Cabe aos líderes mundiais, com serenidade e responsabilidade não nos deixarmos contaminar pelo medo.

Mas esta é uma crise global, e ela exige soluções globais. Este é o momento de formular propostas para uma mudança substantiva na arquitetura financeira mundial.

A crise nasceu nas economias avançadas. Ela é conseqüência da crença cega na capacidade de auto-regulação dos mercados e, em grande medida, na falta de controle sobre as atividades de agentes financeiros.

Por muitos anos especuladores tiveram lucros excessivos, investindo o dinheiro que não tinham em negócios mirabolantes. Todos estamos pagando por essa aventura. Esse sistema ruiu como um castelo de cartas e com ele veio abaixo a fé dogmática no princípio da não intervenção do Estado na economia.

Muitos dos que antes abominavam um maior papel do Estado na economia passaram a pedir desesperadamente sua ajuda.

Em meu discurso na abertura da Assembléia Geral da ONU, afirmei que era chegada a hora da política. Me associo, agora, aos que pensam ter chegada a hora da mudança.

Temos de trazer para a esfera pública decisões antes tomadas por supostos “especialistas”, mas que só serviam interesses privados. É amplamente reconhecido que o G-7 sozinho não tem mais condições de conduzir os assuntos econômicos do mundo. A contribuição dos países emergentes é também essencial.

Precisamos de uma nova governança, mais aberta e participativa. O Brasil está pronto a assumir sua responsabilidade. Esta não é a hora de nacionalismos estreitos, de soluções individuais. É hora de um pacto entre governos para a criação de uma nova arquitetura financeira mundial, capaz de promover segurança e desenvolvimento em bases eqüitativas para todos.

Essas reformas devem ser norteadas pelos seguintes princípios:

Representatividade e legitimidade: As instituições financeiras globais devem se adequar à nova realidade econômica. Devem abrir-se à maior participação dos países emergentes e em desenvolvimento;

Ação coletiva: Situações de risco e custos compartilhados exigem respostas coletivas, tanto para a elaboração de soluções, quanto para a implementação de políticas nacionais coordenadas.

Boa governança nos mercados domésticos: A importância do crédito, os crescentes riscos e complexidade dos mercados financeiros, impõem o aperfeiçoamento dos mecanismos de regulação, supervisão, governança corporativa e de avaliação de riscos. Nestas atividades, o Estado deve buscar o equilíbrio entre a eficiência dos mercados financeiros, a estabilidade de todos os mercados e a promoção do desenvolvimento econômico.
Responsabilidade: As políticas de cada país não podem transferir riscos e custos a outros países. Cada país deve assumir suas responsabilidades. Nacionalmente, setores cujas políticas expõem a sociedade a riscos desproporcionais devem contribuir, inclusive financeiramente, para a solução das crises e para o retorno à estabilidade.

Transparência: Os agentes financeiros privados devem observar regras internas de governança corporativa e de transparência de informações relevantes ao mercado e à sociedade, em especial aquelas relacionadas a riscos e ativos.

Prevenção: As políticas nacionais e as instituições financeiras internacionais devem incorporar o sentido de prevenção de crises financeiras em suas políticas e mecanismos de supervisão e acompanhamento dos mercados. Nesse contexto, o G-20 tem muito a contribuir. É um foro de diálogo representativo que congrega países ricos e emergentes. A superação da atual crise passará pela cooperação desses dois grupos de nações, ouvindo o conjunto da comunidade mundial.

Afinal, se a riqueza ainda se concentra nos chamados países desenvolvidos, o crescimento econômico está sendo mais robusto nas economias emergentes e em desenvolvimento. O próprio Fundo Monetário Internacional estima que, nos últimos anos, os países emergentes responderam por 75% do crescimento da economia mundial. Essa tendência se manterá em 2009.

Senhoras e senhores,
Nenhum país está a salvo da crise financeira. Todos estão sendo contagiados pelos problemas originados em países avançados. O colapso da confiança nos mercados financeiros dos países desenvolvidos gerou escassez de crédito para o resto do mundo. A crise fez os bancos dos Estados Unidos e da Europa pararem de emprestar.

Para os menos capitalizados, a falta de financiamento externo poderá levar a problemas de balanço de pagamentos. Mesmo para os países mais preparados, como o Brasil, os empréstimos ficaram mais caros. Fundos de investimento estrangeiros estão sacando suas aplicações no mercado acionário dos países emergentes para cobrir os prejuízos que tiveram nos mercados avançados. Essa perda de recursos afeta balanços de pagamentos e dificulta o financiamento das empresas.

Os países desenvolvidos e instituições como o Fundo Monetário Internacional devem adotar medidas para restaurar a liquidez nos mercados internacionais.

Um dos efeitos mais preocupantes da crise ocorre no comércio. Com a já anunciada recessão, os países ricos vão reduzir suas importações, o que afetará a balança comercial dos países pobres. Essa redução na corrente de comércio mundial não interessa a ninguém.

O Brasil acredita que os países devem evitar a tentação de utilizar o protecionismo financeiro e comercial como artifício para superar a crise.
As lições da crise de 1929 devem servir de alerta para todos. Naquela ocasião, medidas unilaterais apenas prolongaram a depressão econômica e alimentaram a desconfiança. Ao contrário, é hora de uma ação coordenada. Mas o exemplo deve partir dos países ricos. É deles que se espera a adoção das principais medidas nesse sentido.

No dia 27 de outubro, reunimos no Brasil Chanceleres, Ministros da Fazenda e Presidentes de Bancos Centrais do Mercosul e dos países associados – na prática, toda a América do Sul. Chegamos à conclusão de que é preciso mais integração, mais comércio, menos distorções e menos protecionismo.

Entendemos que este é o momento para o impulso final das negociações da Rodada Doha. A maior abertura do comércio mundial é um excelente antídoto contra a crise. Uma das melhores medidas contra-cíclicas que poderemos tomar. A conclusão da Rodada deixou de ser uma oportunidade e passou a ser uma necessidade. Já há um bom conjunto de propostas sobre a mesa.

Temos de resolver uns poucos problemas. Temos de enfrentá-los com grandeza. Os países desenvolvidos não devem, neste momento, aumentar as exigências sobre os países em desenvolvimento.

Senhoras e senhores,
Esta crise não colhe o Brasil desprevenido. Nossos fundamentos econômicos são consistentes. Meu governo e a sociedade fizemos sacrifícios e agora começamos a colher os resultados de nosso trabalho.

Em 2007, nosso PIB cresceu 5,4% e esperamos que cresça 5% este ano. Esse crescimento está sendo feito com justiça social. Nos últimos anos, tiramos 9 milhões da miséria e outras 20 milhões se incorporaram aos contingentes da classe média no Brasil. Ampliou-se nosso mercado interno, o que nos protege em muito contra a turbulência internacional. Diversificamos nossos mercados de exportação.

O aprofundamento da integração regional e o aumento do comércio com outros países em desenvolvimento tiveram, e continuarão a ter, papel fundamental. A inflação permanece em níveis baixos. As contas públicas estão em ordem. O Brasil vem mantendo superávit primário em torno de 4% desde 2004 e nossa dívida pública hoje está na casa dos 37% do PIB, e continua a cair.

Desde 2007, o Brasil passou de devedor a credor nominal no mercado internacional. Nossas reservas internacionais somam mais de US$ 200 bilhões, um aumento de US$ 143 bilhões desde março de 2006.

Este cenário positivo nos permite navegar pela crise com responsabilidade e confiança. Mas estamos atentos. Não estamos paralisados. O governo não permitirá que nosso crescimento seja comprometido. Manteremos todas as obras de infra-estrutura de nosso Plano de Aceleração do Crescimento.

O Ministério da Fazenda e o Banco Central do Brasil estão tomando as medidas necessárias para aumentar o financiamento interno e facilitar o crédito ao comércio exterior. Estamos assegurando que nosso sistema bancário continue a apresentar níveis adequados de liquidez.

Senhoras e senhores,
Esta reunião tem como tarefa iniciar o desenho de uma nova arquitetura financeira mundial. Ela prepara o encontro de Washington, no próximo sábado, no qual procuraremos avançar mais no diagnóstico e na formulação de alternativas globais e de outras reuniões que se seguirão. Para logramos verdadeira soluções precisamos realizar um esforço concertado, vencendo a tentação de tomar medidas unilaterais.

Enfatizo o que disse antes. Precisamos aumentar a participação dos países em desenvolvimento nos mecanismos decisórios da economia mundial. Devemos revisar o papel dos organismos existentes ou criar novos, de forma a fortalecer a supervisão e a regulação dos mercados financeiros.
É imperioso aumentar a transparência com novos mecanismos universais de revisão de políticas domésticas para os mercados financeiros. Afinal, é a vida de seres humanos que está em jogo!

As crises são também momentos em que a história abre grandes oportunidades para as verdadeiras mudanças. Nelas se evidenciam não só os erros do passado, mas as promessas do futuro.

Bilhões de seres humanos – sobretudo os mais vulneráveis – esperam que estejamos à altura dos desafios que a realidade nos colocou por diante. Não podemos, não devemos e não temos o direito de falhar.

Muito obrigado e bom trabalho para todos vocês.