09/02/2009 - 12:22h Cabral aposta em aliança com PT no Rio

Marisa Cauduro/Valor

Cabral: “O presidente tem demonstrado enorme respeito pelo partido. Ele dá dignidade ao PMDB. Por isso apoio a Dilma”

 

Heloisa Magalhães e Ana Paula Grabois, do Rio – VALOR

Aliado político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governador do Rio, Sérgio Cabral, (PMDB) pretende se candidatar à reeleição em 2010 e aposta em dobradinha com o PT. “O presidente resumiu essa história num papo informal. Ele disse assim: o Rio vive um momento extraordinário e que não será resolvido em quatro anos. E é o primeiro a me estimular a continuar aqui”, disse o governador, em entrevista ao Valor.

No ano passado, Cabral ganhou evidência no PMDB e seu nome chegou a ser cotado para ser vice na chapa do PT ou até mesmo do PSDB à Presidência da República, mas agora ele defende que o vice da virtual candidata petista à Presidência, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, seja um político do Norte ou do Nordeste do seu partido. “Defendo que o PMDB, que tem cinco ministérios que não são triviais – Saúde, Minas e Energia, Agricultura, Integração e Comunicações – apoie Dilma. O presidente Lula tem mostrado enorme manifestação de respeito ao partido, não é aquela coisa fisiológica, atrasada, é de discutir políticas públicas. O Lula dá dignidade ao partido. A integração com o PT na Câmara foi extraordinária; no Senado, houve um ruído, mas com o Sarney (José Sarney, recém-eleito presidente do Senado), deve voltar.”

O governador do Rio descarta que o PT do Rio lance um nome para o governo do Estado em 2010. Mas um dos nomes mais cotados dentro do partido é o de Lindberg Farias, prefeito reeleito de Nova Iguaçu, município da pobre Baixada Fluminense. AoValor, Lindberg, ex-líder estudantil dos caras-pintadas, disse: “Sou pré-candidato ao governo do Rio. Não existe melhor nome para o vice da Dilma do que o governador Cabral, não há outro nome de peso no PMDB”. Para Cabral, entretanto, Lindberg já teria desistido do projeto e deve tentar uma vaga no Senado. “Não acredito que o PT tenha um candidato para o Rio. Acredito que o PT vá marchar conosco na reeleição”. Cabral avalia que o PT, além de Lindberg, tem outros dois pré-candidatos ao Senado, a secretária de Ação Social do Estado, Benedita da Silva, e o ministro da Igualdade Racial, Edson Santos.

Com pouca capacidade financeira de investimento, Cabral tem recebido generoso apoio federal. As obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no Estado – urbanização de favelas, saneamento na Baixada Fluminense e construção do arco rodoviário metropolitano – somam R$ 3,6 bilhões em investimentos, mas o Estado vai financiar apenas cerca de 20%. O restante vem do governo federal, que também tem apoiado Cabral em iniciativas diversas, como os projetos em favelas do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci).

Cabral deve usar o capital político de Lula na campanha, mas diz que vai explorar ações nas áreas de Educação, Saúde e Segurança, além do que chama de “mudança de atitude” na gestão, após dois governos do casal Anthony Garotinho e Rosinha Matheus, ambos do PMDB.

Mas o governador tem que trabalhar a imagem. Seu candidato, Eduardo Paes, foi o vencedor mas enfrentou disputa acirrada contra Fernando Gabeira (PV), na eleição da capital, em 2008. A diferença foi apenas de 55 mil votos num total de 3,6 milhões eleitores que compareceram às urnas. Entretanto, Cabral frisa que, por princípio, não faz propaganda. Avalia que a população vai aos poucos identificar as ações de seu governo.

“Se o P-SOL ou o PSTU forem na porta de uma escola fazer discurso dizendo que o salário do professor é ruim, as condições das escolas são precárias, vai ter gente aplaudindo. Mas os professores também vão ver na bolsa deles o laptop com acesso à internet (disponibilizado pelo governo do Estado) e lembrar que há 12 anos não tinham reajuste tiveram no ano passado, no retrasado e terão este ano. Quando chegar em casa vão pensar no que ouviram e avaliar”, diz .

Na conversa com o Valor informou que nos próximos três meses 12 mil salas da rede estadual terão ar-condicionado e 16 mil computadores portáteis, de um total de 60 mil, começam a ser entregues na próxima semana. As salas de aula terão sistema de autofalante para os professores. Na saúde, cita a implantação das Unidades de Pronto-Atendimento (Upas), espalhadas pelo Estado, que funcionam 24 horas. Foram ponto alto da campanha do prefeito Eduardo Paes.

Na política de Segurança, a mais controversa do seu governo, Cabral defende a manutenção do enfrentamento em comunidades dominadas pelo tráfico de drogas e pela milícia. Ao mesmo tempo, vai adotar o policiamento comunitário e ações de integração propostas pelo Pronasci. “A minha tese sempre foi que há dois tipos de violência nessas comunidades. A do traficante e do miliciano dominando, ditando as regras. A outra é a ausência do Estado em saúde, educação, tratamento sanitário, cultura e lazer. Nós estamos agindo nas duas frentes”, disse.

Na avaliação da equipe de Cabral, o Rio irá sofrer menos com a crise econômica internacional. Joaquim Levy, secretário de Fazenda admite cortes no Orçamento, de R$ 46 bilhões, que haverá queda na arrecadação do ICMS e redução das transferências dos royalties do petróleo de R$ 1,5 bilhão. Mas argumenta que o Rio sofrerá menos porque a participação na economia fluminense, da indústria de transformação, segmento atualmente mais afetado pela crise, é menor do que em outros Estados como São Paulo e Minas.

Julio Bueno, secretário de Desenvolvimento, destaca os efeitos positivos da exploração do petróleo na camada do pré-sal. Reconhece que o processo de perfuração é de longo prazo mas diz que antes disso começarão os investimentos de fornecedores de equipamentos e serviços. Bueno garante que os investimentos privados previstos no Estado estão mantidos mas não descarta que a crise pode adiar novos projetos.

17/10/2008 - 18:44h Portal Terra 2002: Serra condena gays em troca de apoio evangélico

“Serra, amigo íntimo da primeira-dama Ruth Cardoso, ferrenha defensora da união civil entre pessoas do mesmo sexo, não vê nenhum problema em legalizar o casamento gay. “(Correio Braziliense 15/08/2002)

Sexta-feira, 11 de outubro de 2002

Serra condena gays em troca de apoio evangélico – 08:31

O candidato à Presidência da República pelo PSDB, José Serra, fez uma barganha inusitada para ganhar o apoio dos evangélicos no segundo turno das eleições. O candidato se comprometeu a condenar a união civil entre homossexuais e a legalização do aborto, em troca do apoio da Assembléia de Deus.

A barganha ficou decidia em reunião entre Serra e os líderes da Assembléia de Deus, capitaneada pelo bispo Manoel Ferreira, candidato derrotado do PPB ao Senado pelo Rio e presidente vitalício das Assembléias de Deus no Brasil. Pelo acordo, Serra se comprometeu a não promulgar o projeto de lei de parceria civil entre pessoas do mesmo sexo, de autoria da ex-deputada e atual prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, do PT, caso a lei seja aprovada pelo Congresso.

Serra prometeu, ainda, rever a posição do governo Fernando Henrique Cardoso, a favor da cobrança de taxas sobre os templos evangélicos. O tributo consta de uma emenda constitucional de autoria do ex-deputado Eduardo Jorge (PT-SP). Hoje, os milhões faturados pelos evangélicos não pagam nenhum imposto.

No primeiro turno, a orientação para os fiéis da Assembléia de Deus era apoiar Anthony Garotinho, do PSB. Agora, a congregação preferiu apoiar a candidatura tucana por unanimidade, alegando maior compatibilidade com suas propostas, já que o PT sempre foi mais liberal em relação aos direitos dos homossexuais.

Ao final da reunião, Serra recitou o Pai Nosso evangélico, com final diferente da oração católica , de mãos dadas com os bispos Manoel e Samuel Ferreira (foto).

O bispo Manoel Ferreira arrematou: “Insistimos e Serra concordou em não apoiar o casamento civil entre homossexuais. Queremos acabar, ainda, com as restrições à instalação de novos templos nos centros urbanos”.

09/09/2008 - 10:23h Além dos números

Merval Pereira – O Globo

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/foto/0,,12005448,00.jpgNOVA YORK. Um trabalho da equipe do cientista político da PUC do Rio de Janeiro Cesar Romero Jacob, que reúne pesquisadores brasileiros e franceses, publicado na edição de setembro da revista Alceu, dá boas indicações para se entender o que está acontecendo com os votos nas duas principais capitais do país, Rio e São Paulo, e que conseqüências podem ter as eleições municipais para a eleição presidencial de 2010. O artigo, com 50 mapas por zonas eleitorais do TRE, e por Áreas de Ponderação da Amostra, do IBGE, para os dados socioeconômicos, mostra a correlação entre a votação das eleições municipais de 2002 e a eleição presidencial de 2006, assim como já haviam feito com as eleições municipais de 1996 e 2000 e as presidenciais de 1998 e 2002.

Um primeiro ponto a destacar: diferentemente de eleições anteriores — quando se verificou um descompasso entre as votações dos candidatos a presidente pelo PSDB, Fernando Henrique Cardoso, em 1998, e José Serra, em 2002, e o desempenho dos candidatos desse partido a prefeito, José Serra, em 1996, e Geraldo Alckmin, em 2000, com os candidatos do PSDB a presidente tendo ótimas votações na capital paulista e os seus postulantes a prefeito não tendo desempenho semelhante — houve uma convergência dos resultados obtidos por Serra, para prefeito em 2004, e por Alckmin, para presidente em 2006, “o que se constitui num fato novo na política paulistana”.

Esta mudança, segundo o estudo, deve-se ao enfraquecimento do malufismo, atingido por uma sucessão de denúncias de corrupção envolvendo os ex-prefeitos Paulo Maluf e Celso Pitta.

Já no Rio, o descompasso entre as votações dos candidatos do PT, nesses dois níveis de eleição, se acentua. É grande a discrepância entre o bom desempenho de Lula, em 2006, e a reduzida votação de Jorge Bittar, em 2004, o que se deve, em parte, segundo o estudo da PUC do Rio, à divisão das forças de esquerda no pleito municipal.

Além disso, com o enfraquecimento do brizolismo, acentuado com a morte de Leonel Brizola, em 2004, e com a perda de expressão eleitoral do grupo de Anthony Garotinho, um “vácuo político” propiciou o bom desempenho de um candidato fora dos quadros partidários tradicionais, como o bispo licenciado Marcelo Crivella.

Na verdade, ressalta o estudo coordenado pelo cientista político Cesar Romero Jacob, este fato se constitui num elemento novo na política carioca, tradicionalmente dividida entre os diversos grupos da família brizolista: o próprio Brizola (PDT), Cesar Maia (PFL), Marcello Alencar (PSDB) e Garotinho (PMDB).

Com a vitória em 2004, Cesar Maia se afirmou como o principal herdeiro da família brizolista na cidade, ao vencer a quarta eleição consecutiva, como candidato (em 1992, 2000 e 2004) ou elegendo o seu sucessor (Luiz Paulo Conde, em 1996).

A candidatura de Crivella acabou provocando uma divisão de caráter religioso na cidade: os católicos fazendo voto útil em Cesar Maia e os evangélicos votando no irmão Marcelo Crivella.

Desse modo, “enquanto no Rio observou-se uma cidade dividida pela religião, em São Paulo verificou-se uma cidade polarizada pela política, numa acirrada disputa entre os dois maiores partidos brasileiros do momento, o PT e o PSDB”, destaca o estudo.

O trabalho dos pesquisadores da PUC do Rio de Janeiro não vai além dos dados das últimas eleições, mas com base neles é possível fazer-se algumas ilações. A forte votação de Marta Suplicy confirma uma situação recorrente, com os candidatos do PT a prefeito e a presidente tendo seus maiores percentuais de votos nos bairros populares. Vencendo, Marta Suplicy torna-se uma forte candidata à Presidência pelo PT, com uma base de votos importante na capital paulista.

Se confirmada a “cristianização” do candidato tucano Geraldo Alckmin em benefício da reeleição do prefeito Gilberto Kassab, com apoio de Serra, é possível prever-se uma boa votação do candidato tucano à Presidência da República em 2010, principalmente se ele for Serra. Indo Alckmin para o segundo turno, mesmo que derrote Marta, o PSDB estará irremediavelmente dividido. Terá sido uma vitória pessoal dele, e não do partido.
No Rio, dos 7 pleitos realizados desde 1982 para o governo estadual, 5 foram ganhos por políticos pedetistas ou que atuaram, em algum momento de sua vida política, nesse partido: Brizola (1982 e 1990), Marcello Alencar (1994), Garotinho (1998) e Rosinha Garotinho (2002)
.
Portanto, com exceção de Moreira Franco (1986) e Sérgio Cabral (2006), ambos do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), os demais poderiam ser considerados integrantes da “família brizolista”.

O crescimento da candidatura de Eduardo Paes, apoiado pelo PMDB do governador Sérgio Cabral, pode significar que uma nova era na política do Rio está se abrindo, com a máquina peemedebista sendo ajudada pelo fato de Paes ser oriundo da máquina da prefeitura, onde ele iniciou sua vida política com o prefeito Cesar Maia.

Assim como em 2004 o voto útil foi para Cesar Maia contra Crivella ainda no primeiro turno, agora estaria indo para Eduardo Paes, mesmo que seja previsível um segundo turno.

Os estudos da equipe da PUC do Rio revelam a existência em São Paulo de territórios eleitorais fiéis ao PT e ao PSDB, “num confronto político do tipo direita-esquerda mais clássico”. São Paulo continua sendo uma cidade polarizada pela política e não pela religião, como aconteceu na última eleição municipal do Rio de Janeiro, e continua acontecendo hoje.

Segundo o estudo, “a boa implantação dos dois maiores partidos brasileiros na capital paulista tem impedido que, pelo menos nas eleições para prefeito, questões de natureza religiosa se sobreponham a escolhas políticopartidárias”. No Rio, ao contrário, PT e PSDB são fracos politicamente.

E-mail para esta coluna: merval@oglobo.com.br

17/07/2008 - 20:20h The Economist entusiasta com o governador de Rio de Janeiro

Mending an icon

How Rio’s first good governor in decades is starting to renew Brazil’s most famous city

From The Economist print edition

AP

IT IS not hard to discover what is wrong with Rio de Janeiro. Walk along the main shopping street of the Complexo de Alemão, a large shanty town that has been surrounded by police gunmen for months, and after about 20 metres the stalls selling fruit, vegetables and pirated DVDs give way to one selling wraps of cocaine and marijuana. It is run by boys with machineguns slung over their shoulders. Other shoppers try hard to pretend that this is normal, but they avoid looking the gunmen and their hangers-on in the eye, just in case. From time to time more machineguns pass by on motorbikes, their riders off to collect drugs, kill a rival or enforce their own version of the law.

When Sérgio Cabral was elected governor of Rio state at the end of 2006, hopes were high that he might curb corruption among politicians and the police, and pull the city of Rio (for which he is also responsible) out of a 25-year slump. He hired a team of reformers, broke a local taboo by appealing to the federal government for help, and seemed almost too eager to try new things. Inspired by the work of Steven Levitt, an American economist, he at one point suggested legalising abortion as a way of reducing the future supply of potential criminals.

A year and a half into his term, how is Mr Cabral doing? According to his finance minister, Joaquim Levy, the new government’s plan was first to get the state’s finances in order and then to fund improvements in health care and public security. An unspoken assumption was that Mr Cabral’s administration would also practise a cleaner brand of politics.

The first part has gone well. Despite the oil money that Rio gets from the wells off its coastline, the state has often been in the red. That has changed under the new administration. Tax receipts are up: the courts that rule on tax disputes, which can go on for many years—some cases from the early 1990s are still not settled—are being streamlined with the aim of cutting the time spent wrangling to no more than two years. And spending is more controlled. As a result, the state’s finances have gone from a deficit of 100m reais ($63m) to a surplus last year of 790m reais.

Mr Cabral has also been busily soliciting foreign investment to add to the deal that his predecessor signed with ThyssenKrupp, a German industrial group, to build a steel mill that is due to be the biggest foreign investment in Latin America. The time taken to register a business is falling. The state’s pension fund has been under something like normal financial management and is now accumulating cash for the first time in ten years.

However, government in Rio is mainly judged by the level of violence, and here its record is less good. After a promising start, Mr Cabral’s administration fell out with reformers in the police. Brazil’s murder rate has been falling, but in the city of Rio killings by the police have risen sharply—up from 300 in 1998 to 900 last year. Earlier this month two policemen opened fire on a car they thought belonged to a drug dealer, killing a three-year-old boy. The army, where it has been deployed against crime, has proved equally slapdash. Last month soldiers handed three young men from one shanty town to a gang in a neighbouring area. All were promptly murdered.

Part of Rio’s problem is that voters have long shown a preference for charm over administrative skills when it comes to choosing their politicians. Anthony Garotinho, a football commentator turned tele-evangelist, and his wife Rosinha, who between them governed the state with a startling incompetence from 1999 until 2006, are the most recent examples. According to André Urani, author of a forthcoming book on the city, the explanation lies in an abdication by Rio’s elite which, he argues, has regarded local politics as insufficiently important to merit its attention.

Yet even as Mr Cabral’s administration seems to be breaking this pattern, there are signs of it resurfacing elsewhere. The front-runner in the mayoral race in Rio, to be held in October, is Marcelo Crivella. He is the nephew of Edir Macedo, who runs the Universal Church of the Kingdom of God, a large network of Pentecostal churches. His uncle also co-owns the Rede Record group, which includes one of Brazil’s biggest news channels. Mr Crivella is a bishop in the church (he also has a career as a singer). Though this ought not to count against him in his bid to be mayor, his willingness to over-promise should. He recently got in trouble for suggesting in campaign leaflets that he could single-handedly remodel one of Rio’s largest shanty towns to resemble a picturesque hillside village in Italy.

Set against this tradition, Mr Cabral’s government, which is clean, competent and takes institutions seriously, is a huge improvement. Yet it is too early to declare Rio’s renaissance to be under way. As the machineguns in the shopping streets attest, there is still a huge amount to do.

28/03/2008 - 05:48h Lapidario

Coisas municipais

cesar_maia_dengue.jpg

Luiz Garcia – O Globo

Para quem não é do ramo, as idas e vindas da política municipal deveriam ser relativamente mais fáceis de entender do que acordos e desacordos federais.

Tem de fazer alguma diferença o fato de que tudo se passa mais perto da gente. Com certeza sentimos com rapidez, na carne e no bolso, as conseqüências de êxitos e acertos, trampas e tramóias dos nossos políticos.

E sempre é importante esmiuçar fatos novos inesperados.

Como a mudança desta semana no quadro de candidatos a prefeito do Rio, com a detonação da candidatura de Eduardo Paes pelo governador Sérgio Cabral, seu padrinho político até outro dia.

Paes tem estrada. Começou como cria do prefeito Cesar Maia, andou pelo Partido Verde, foi vereador e deputado federal pelo PFL, passou para o PTB, voltou ao PFL, andou pelo PSDB e no ano passado aterrissou no PMDB. Em recompensa pelo apoio à eleição de Sérgio Cabral Filho foi nomeado secretário de Turismo e apontado como candidato do partido a prefeito do Rio.

Mas acabou caindo mais depressa do que subira: o governador fez outro dia um acordo com o PT, cujo candidato a prefeito apoiará, em troca da escolha de um peemedebista para candidato a viceprefeito.

O pobre do Paes nem entrou na disputa pela candidatura a vice.

O petista é o deputado Alessandro Molon, cuja biografia inclui pesada oposição ao governo de Rosinha Garotinho. Palmas para ele. O pessoal diz que é reduzida a possibilidade de problemas no PMDB, onde Garotinho e esposa ainda estão acampados. Parece que Sérgio Cabral tem competência política de sobra para neutralizar a dupla, que está em queda livre há muito tempo. Principalmente, depois da comicamente falsa greve de fome do cabeça do casal.

A troca de candidatos no PMDB coincide com o crepúsculo do grupo de Cesar Maia, berço político do detonado Eduardo Paes. E parece ser coincidência mesmo: o prefeito, por decisão inteiramente pessoal e sem nada a ver com a sucessão, há algum tempo desistiu de administrar a cidade, pelo menos de corpo presente. Os munícipes perderam o direito de ver o seu prefeito em ação: podem apenas tomar conhecimento de seus palpites — sobre tudo e qualquer coisa — no blog que ocupa quase todo o seu tempo.

Esta semana, Cesar mostrou que o distanciamento da realidade pode ter preço alto. Ele saiu em campo para negar, com peremptória indignação, que haja surto de dengue no Rio. Simplesmente ignorou as 31 mortes confirmadas no município, onde o total de doentes já passa de 28 mil.

Um administrador público dar as costas à realidade é problema grave. Por esse motivo, entre vários outros, há claros e tristes indícios de que o novo prefeito receberá uma casa bastante desarrumada para administrar.

O que aumenta bastante a nossa responsabilidade na hora do voto. E a dos partidos, na escolha dos candidatos.

12/09/2007 - 00:47h blefe? Sérgio Cabral afirma que pode ser candidato a prefeito do Rio de Janeiro

Aloysio Balbi – O Globo

Foto: arquivo

CAMPOS – O governador Sérgio Cabral disse na tarde desta terça-feira, durante a inauguração da ponte sobre o Rio Paraíba do Sul, em Campos, que pode renunciar ao mandato e sair candidato à Prefeitura do Rio nas eleições do ano que vem. Segundo Cabral, o Rio não pode interromper a continuidade de parceria com o governo federal, risco que corre caso seja eleito um candidato da aliança do ex-governador Garotinho com o prefeito Cesar Maia, ambos ferrenhos adversários do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

- Vou para o sacrifício se necessário. Não estou blefando. Deixo o Governo e disputo para ganhar a Prefeitura do Rio – afirmou.

O vice-governador do Rio, Pezão, que acompanhava Sérgio Cabral, disse que o assunto começou a ser discutido há dois dias:

- Se as eleições fossem amanhã, a estratégia seria essa. Eu estou pronto para governador o Rio.

11/09/2007 - 10:05h PMDB e DEM fecham aliança no Rio para 2008

Ana Paula Grabois para Valor

O PMDB e o DEM fecharam ontem uma aliança para as eleições municipais de 2008 no Estado do Rio. O pacto uniu antigos desafetos – o ex-governador do Estado e atual presidente regional do PMDB, Anthony Garotinho, e o prefeito do Rio, Cesar Maia (DEM). “Fomos da mesma escola política do PDT, do Brizola”, disse Garotinho. “Ele tem as críticas dele, eu tenho as minhas. Temos estilos diferentes, temos opiniões diferentes sobre muitas coisas, mas se nós fôssemos iguais estaríamos no mesmo partido”, afirmou o ex-governador.

Ainda inelegível por decisão do TRE, Garotinho argumenta que o acordo com o DEM tem o objetivo de enfraquecer o PT, que segundo ele, não tem estrutura partidária no Estado para sustentar a aliança que o PMDB tinha necessidade de fazer. No PMDB, foram 63 votos a favor, 8 contra e uma abstenção pelo pacto, já aprovado pelo DEM regional na semana passada. De acordo com Cesar Maia, o acordo prevê que a cabeça de chapa seja do DEM em 2008 e do PMDB em 2010, na eleição para governador. “Isso foi falado entre o governador Sérgio Cabral e eu”, disse o prefeito do Rio. Além disso, Maia contaria com o apoio do PMDB para a candidatura que planeja ao Senado. Os possíveis nomes do DEM para a prefeitura da capital, entretanto, ainda não foram definidos.

A união entre os dois partidos incomodou o PT local, que tinha a esperança de fechar alianças com o PMDB em pelo menos 35 municípios. O PT apostava na boa relação mantida entre o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Achávamos que o caminho do PMDB no Rio era formar uma aliança conosco. Eles optaram em se aliar com uma ala política em decadência no Estado, mas vamos conversar com Cabral”, disse o presidente do PT do Rio, Alberto Cantalice.

Cabral, que divide forças com Garotinho no PMDB regional, somente apoiaria um nome que não fizesse oposição a Lula, embora mantenha conversas com Cesar Maia. O prefeito diz que a aliança é fruto de uma relação que se tornou forte em 2007 entre ele e Cabral. Um dos que mais trabalharam pelo acordo com o DEM, o presidente da Assembléia Legislativa, Jorge Picciani (PMDB), diz não saber qual posição Cabral tomará diante de um eventual mal-estar com o governo federal, do qual recebe apoio desde a posse. “Sou do seu grupo político, mas acho que o governador avaliará que foi uma decisão majoritária que não é contra o Lula ou o PT. É para definir uma política de alianças do partido”, disse Picciani. Ele lembrou que a união ocorreu em 1986, quando o então PFL se aliou ao PMDB para apoiar a candidatura de Moreira Franco a governador. Cabral não se pronunciou sobre o tema.

Sem o PMDB, o PT do Rio agora procura o bloco formado pelo PSB, PDT, PRB e PCdo B, e que tem como pré-candidatos para a capital o senador e bispo da Igreja Universal do Reino de Deus Marcelo Crivella (PRB) e a ex-deputada Jandira Feghali (PC do B). O PT tem quatro pré-candidatos declarados para a capital do Rio, mas pode apoiar uma chapa encabeçada por outra legenda. “É difícil, mas não impossível. Vamos discutir “, disse o presidente regional do PT. Na sexta-feira, petistas se reúnem para tratar da nova estratégia de alianças a ser adotada no Estado.

A principal exceção no acordo DEM-PMDB diz respeito às eleições para a prefeitura de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. O prefeito Lindbergh Farias (PT) tentará se reeleger em uma chapa cujo vice é o deputado federal Rogério Lisboa, presidente do DEM regional. Segundo Lisboa, o PMDB e o DEM ainda disputarão a prefeitura de outros municípios do Estado.

07/09/2007 - 13:09h Monstros na cama

LUIZ GARCIA

O Globo (para assinantes)

Primeiro, cultura para o povo: a expressão “estranhos companheiros de cama” não tem, na origem ou no uso corrente, qualquer conotação de safadagem. Graças à erudição instantânea que nos oferece o Google, podemos informar que ela tem berço shakespeariano.

A mais antiga referência conhecida aparece em “A tempestade”, a propósito de um náufrago que desperta em terra firme e se vê na companhia de um monstro, um “strange bedfellow”.

Em português, a expressão mais parecida é união dos contrários. Não tem a mesma graça.

A partilha de travesseiros hoje ensaiada pelo prefeito Cesar Maia, dos Democratas — “dems” na intimidade — e o ex-governador Anthony Garotinho, do PMDB, tem o objetivo imediato de garantir que prefeituras importantes na Baixada Fluminense não caiam ou não continuem nas mãos do PT a partir de 2008.

Num mundo que sabemos não existir, a manobra seria repelida pelo eleitorado em qualquer etapa eleitoral. Afinal, Cesar e Garotinho, sempre cobertos de razão, já disseram um do outro coisas que o Papa não fala de Satanás.

Do prefeito sobre o ex-governador, por exemplo: “Nunca se viu, dentro de um governo, uma concentração de corrupção tão grande” (2004). Ou: “Só otário acredita em Garotinho nesta altura do campeonato” (2006).

E de Garotinho sobre Cesar: “A natureza dele é de confronto, beligerante… a coisa mais desagregadora da História.” Ou: “Ele não consegue explicar como é que mora num apartamento de R$ 1 milhão com salário de prefeito.” O petista Edson Santos, possível candidato a prefeito, definiu a aproximação entre prefeito e exgovernador como “abraço de coveiro”. Boa imagem.

Provavelmente custará a Edson um caixão de votos na região do Caju.

Exemplos de estranhas companhias em palanque não são raros na política brasileira. Com certeza, é algo que tem tudo a ver com a natureza do sistema partidário, tão fragmentado que o sucesso eleitoral exige acordos para todos os lados. Não se tem notícia de que uma aliança em qualquer nível — do municipal ao nacional — tenha fracassado porque o eleitor, com raiva e nojo, rejeitou o artificialismo das alianças. Pena.

No caso fluminense, a aproximação entre Cesar e Garotinho tem complicador curioso. A meta principal da união desejada é evitar o crescimento do PT no estado. Acontece que, pelo menos até agora, o governador Sérgio Cabral — do PMDB como Garotinho — está de namoro ostensivo com o presidente Lula, do mesmo PT.

Bastante confuso. Mas, em política, amanhã e depois de amanhã não falam a mesma língua. A aproximação com o DEM (que nome, que nome) pode ser conveniente para Sérgio mais adiante.

Desde, é claro, que não encha demais a bola de Garotinho, indesejável companheiro de palanque.

Podemos ficar por aqui um tempão, enumerando entretantos. Mas isso é ofício de analistas políticos.

Num exercício modesto de cidadania, limitemonos a mostrar um metro de estranheza e dois quilos de nojo ante a facilidade com que nossos homens públicos insistem em confirmar suas folhas corridas pulando, com tanta naturalidade e desfaçatez, uns nas camas de outros.

Merecem, todos, acordar na companhia de monstros shakespearianos.