16/11/2009 - 12:17h EUA e China adiam para 2010 a possibilidade de acordo climático

CoP-15: Posição assumida por Obama e Hu Jintao deve levar a prolongamento de negociações

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Edward Luce, Kevin Brown, Fiona Harvey e Joshua Chaffin, Financial Times – VALOR

O presidente dos EUA, Barack Obama, admitiu ontem que a cúpula de Copenhague, no mês que vem, não vai produzir um tratado com força de lei para combater o aquecimento global, mas manteve a porta aberta para uma negociação substantiva de um novo quadro sobre mudanças climáticas.

Ao dizer que “não devemos transformar o ‘perfeito’ em inimigo do ‘bom’ “, o presidente americano selou o crescente consenso internacional de que o melhor a ser esperado do encontro no mês que vem é um forte comprometimento político.

A posição de Obama, assumida durante o encontro do Fórum de Cooperação Econômica Ásia Pacífico (Apec, na sigla em inglês), foi apoiada por todos os 21 países presentes, inclusive a China.

Analistas dizem que isso reflete um entendimento entre americanos e chineses de que não há a possibilidade ainda de os dois maiores poluidores do planeta de entrar num acordo mais amplo sobre mudanças climáticas.

Autoridades americanas disseram que os membros da Apec, responsáveis por dois terços das emissões mundiais, chegaram a um consenso sobre a fórmula de “um acordo, dois passo”, elaborada pelo premiê dinamarquês, Lars Rasmussen. Por essa abordagem, Copenhague produziria um acordo em questões substantivas, incluindo cortes significativos nas emissões dos países desenvolvidos até 2020, além de medidas dos países em desenvolvimento para segurarem os crescimentos de emissões.

Os países podem assinar um acordo sem força de lei, mas de “comprometimento político”.

Advogados poderiam então produzir um tratado articulado pronto para ser assinado na conferência da ONU em Bonn, em junho, ou no próximo encontro sobre mudanças climáticas, no México, em dezembro de 2010.

Michael Froman, conselheiro-sênior de Obama, disse: “Essa abordagem de dois passos significa que houve uma avaliação dos líderes de que não seria realístico esperar um acordo internacional com força de lei a ser negociado entre agora e o início da cúpula de Copenhague, em 22 dias”.

Autoridades europeias disseram não terem ficado surpresas com os comentários de Obama, mas pediram aos governos que tentassem fazer progressos reais no mês que vem.

Entretanto mesmo chegar a acordos políticos será difícil.

Obama ainda encontra muita dificuldade em adotar dois dos principais objetivos de Copenhague: chegar a um comprometimento dos EUA de cortar suas emissões até 2020 e definir o financiamento por parte dos EUA e dos outros países ricos para ajudar os países pobres a cortar suas emissões. E os EUA não podem adotar esses compromissos até que a legislação de clima e energia que está sendo analisada no Senado seja votada.

16/11/2009 - 10:27h Desenvolvimento sustentável e o Brasil

*HILARY BENN – O Globo

http://i.telegraph.co.uk/telegraph/multimedia/archive/01205/hilary-benn_1205601c.jpgMais de seis bilhões de pessoas compartilham os frágeis sistemas de apoio à vida na Terra.

Com mais pessoas vivendo nas cidades, podemos nos sentir distantes da natureza, mas somos completamente dependentes daquilo que ela nos oferece. É fácil esquecermos que a natureza nos fornece o alimento e a água que nos sustentam; e um clima estável.

À medida que a população mundial cresce, os recursos naturais acabarão por tornarem-se incapazes de responder às nossas demandas. A paz e a estabilidade globais dependem de nossa habilidade de encontrar novas maneiras de crescer e gerir nossos recursos para que todos se beneficiem deles, hoje e no futuro.

E é isso o que significa desenvolvimento sustentável.

Se quisermos alcançar um mundo mais sustentável, precisamos enfrentar nossa responsabilidade por mudanças climáticas. Se falharmos em cortar as emissões de gases de efeito estufa, estaremos sujeitos a secas, inundações e perdas de colheitas.

A mudança do clima representa uma ameaça à prosperidade global. É por isso que o Reino Unido se comprometeu a cortar suas emissões em 34% até 2020 e 80% até 2050, e propôs um fundo de 100 bilhões de dólares anuais para ajudar as nações em desenvolvimento a lutar contra estas mudanças.

A transição para uma economia mais sustentável não significa sacrificar o crescimento ou cercear as aspirações dos países ricos ou pobres.

O Relatório Stern possui uma mensagem simples: enfrentar a mudança do clima não custará nada ao planeta, mas a Terra pagará o preço se não fizermos nada.

É do interesse de todos enfrentarmos essa ameaça juntos. O comprometimento do Brasil em reduzir o crescimento de duas emissões em 38-42 % até 2020, incluindo a redução do desmatamento em 80%, é realmente ambicioso.

O Brasil emerge como uma das potências econômicas e políticas.

Sua economia é estável, sua população vem prosperando e algumas de suas empresas são reconhecidas mundialmente. Mas o Brasil sempre foi mais do que uma potência convencional. É o lar de aproximadamente um quinto de todas as espécies conhecidas. Suas florestas fornecem à América do Sul a chuva para regar as plantações, e ao resto do mundo, um clima estável. Além disso, o país tem sido líder no desenvolvimento de biocombustíveis e no monitoramento via satélite.

É exatamente desse tipo de liderança que o mundo precisa agora. O Brasil tem a oportunidade de consolidar sua reputação de potência ambiental. É possível fazê-lo expandindo sua matriz energética sustentável e seu monitoramento da Amazônia para outros biomas, explorando novas formas de cultivo e pecuária e compartilhando suas tecnologias agrícolas e de monitoramento de outras regiões mega diversas na África e na Ásia.

Em cerca de 20 dias, o mundo se reunirá em Copenhague com o objetivo de acordar uma estrutura política para combater o aquecimento global. Será o primeiro passo no caminho rumo a um mundo mais sustentável. Devemos dar esse passo juntos. O Reino Unido está pronto para embarcar nessa jornada e contamos com o Brasil.

*HILARY BENN é ministro de Meio Ambiente, Alimentação e Questões Rurais do Reino Unido.

05/06/2009 - 12:00h Falta uma estratégia para fontes renováveis

Ecoeficiência: Brasil figura timidamente na implementação de energias limpas em relação a outros países

Jander Ramon, para o Valor, de São Paulo

Leo Pinheiro/Valor

Adriano Pires: cada continente deverá buscar alternativas próprias e que considerem suas vantagens competitivas

Ampliar a oferta de energia, reduzir a emissão de gases de efeito estufa e, ao mesmo tempo, garantir que a geração e o consumo do bem sejam feitos com eficiência, constituem desafios importantes a serem enfrentados pelo setor energético em todo planeta nos próximos anos. A agenda para desenvolvimento do setor, afirmam os especialistas, está pautada sobre dois fatores: preservação ambiental e segurança energética.

“O fato é que o mundo continuará crescendo, vamos precisar cada vez mais de energia, e será preciso produzir essa energia com mais eficiência e de forma mais limpa, pois o petróleo não terá o mesmo papel que desempenhou no século 20″, resume o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Adriano Pires.

Fontes renováveis e, preferencialmente, limpas, para geração de energia, como a eólica, solar, de biocombustíveis e pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), ganham cada vez mais relevância nas decisões de investimentos públicos e privados em todo o mundo. Com enorme potencial de exploração nesse campo, o Brasil figura timidamente na implementação de estratégias para energias renováveis em relação a outros países, indica um estudo global que acaba de ser concluído pela Ernst & Young.

Entre 25 países, o levantamento posiciona o Brasil em 21º lugar no ranking das melhores estratégias. Há, porém, uma ressalva favorável ao país, admite o estudo: contemplar apenas políticas aplicadas para as fontes eólica, solar, biomassa e geotérmica, desconsiderando a hidreletricidade, principal fonte geradora no Brasil.

“O conceito de energia limpa precisa ser mais debatido. Já vimos plataformas de produção de petróleo extremamente limpas, que parecem hospitais, e usinas de açúcar e álcool fazendo um estrago monstruoso ao seu redor, sem respeito ambiental e social”, pondera Joel Bastos, diretor de sustentabilidade da Ernst & Young.

É na falta de um controle mais rígido sobre o método de produção dos biocombustíveis – uma das principais apostas de energia alternativa – que o país perdeu força no relatório da consultoria internacional. “Temos vantagens excepcionais para a produção dos biocombustíveis, mas existe uma chance de as vendas esbarrarem em nossas falhas. Por isso, precisamos mostrar ao mundo que podemos produzir direito, com normas sociais, ambientais e provar que esse combustível é limpo de verdade”, alerta Bastos. Enquanto isso não acontece, os biocombustíveis acabam sendo relegados a segundo plano, prevalecendo a percepção positiva sobre as energias eólica e solar, essa última muito mais cara do que as demais.

O estudo da Ernst & Young destaca políticas anunciadas por governos para o avanço das energias renováveis, sobretudo eólica e solar. Os EUA lideram o ranking, diretamente impulsionados pelo plano de recuperação econômica apresentado pela Casa Branca, da ordem de US$ 800 bilhões, sendo que uma fatia significativa de investimentos, estimada em 10% do volume global, será destinada às energias alternativas, ganhos de eficiência energética e novas tecnologias.

Para Adriano Pires, cada continente deverá buscar, nos próximos anos, alternativas próprias e que considerem vantagens competitivas locais para a evolução de suas matrizes energéticas. “Dependendo da região do planeta, prevalecerá uma fonte primária. O que ninguém quer mais é ficar dependendo exclusivamente do petróleo dos árabes, embora seja claro que o mundo continuará consumindo petróleo”, avalia. “É uma falácia dizer que os combustíveis fósseis vão acabar. O que se buscará é o uso de tecnologias mais limpas e a exploração das melhores fontes disponíveis em cada lugar”, adiciona.

Nesse cenário, o diretor do CBIE acredita que o Brasil poderá desempenhar um ótimo papel, por reunir de forma ímpar as condições de diversificação de sua matriz energética. “Temos ventos, sol, terras férteis, reservas hídricas, petrolíferas e de urânio. Não podemos abrir mão de nenhuma oportunidade”, sustenta.

Nos últimos anos, ficou constatado, porém, o avanço de fontes poluidoras no parque energético brasileiro, sobretudo com a maior participação de queima de óleo e gás nas usinas térmicas. “Esse é um acidente de percurso, que aconteceu porque, infelizmente, é mais fácil obter um licenciamento ambiental de uma usina movida a óleo do que para uma hidrelétrica; e porque nos leilões de compra de energia nova, há alguns anos, predominou a energia térmica”, observa Pires. “Mas esses acidentes deverão ser corrigidos para o futuro.”

O diretor-executivo da Associação Brasileira dos Pequenos e Médios Produtores de Energia Elétrica (APMPE), Fábio Sales Dias, entende que, mais do que um equívoco pontual, a dificuldade de avanço das energias alternativas no país esbarra sobretudo na ausência de uma política definitiva para o setor. “É um mito achar que eólica, biomassa e PCHs são menos competitivas do que energia térmica. Aparentemente, essa maior presença não avança porque o governo parece temer pela modicidade tarifária”, comenta, ao alertar, entretanto, que basta o país enfrentar escassez de chuvas para que uma maior quantidade de termelétricas serem acionadas e os preços da energia dispararem.

Além da busca pela geração de energia mais limpa, o Brasil e o resto do mundo têm muito a avançar no uso mais eficiente de energia. Atualmente, alguns países desenvolvidos tem feito investimentos pesados nas chamadas “redes inteligentes”, em que há maior controle de perdas e combate ao desperdício. Nesses sistemas, o consumidor pode, por exemplo, definir a fonte de energia pela qual deseja ser abastecido (eólica, nuclear, solar, por exemplo) e controlar até cada ponto de consumo.