07/04/2009 - 13:02h O Ártico derrete

aquecimento_global1.jpg

Gelo fino cobre 90% do Ártico, afirma estudo

DA ASSOCIATED PRESS – Folha SP

A chegada da primavera no Ártico não é um bom presságio para o gelo marinho. Um estudo divulgado ontem nos EUA mostra que mais de 90% da região está coberta por uma camada de gelo jovem e, portanto, fina e frágil.
Ao contrário de anos anteriores, quando a taxa estava ao redor de 30%, apenas 10% do gelo da região tem hoje mais que dois anos de vida, disseram cientistas da Nasa (agência espacial americana) e do NSIDC (Centro Nacional de Informações sobre Gelo e Neve), no Colorado.
A pouca idade significa também pouca espessura. Jovem e frágil, o gelo do Ártico poderá derreter com muito mais facilidade quando o verão chegar.
Sem o gelo marinho, o oceano passa a absorver mais energia vinda do Sol. Mais radiação solar no planeta, especulam os climatologistas, pode causar um aquecimento global descontrolado.
Em março, havia no mar do Ártico 15,2 milhões de quilômetros quadrados de gelo, mostra a pesquisa americana. Essa cifra está 730 mil quilômetros quadrados acima do mínimo histórico registrado em março (2006), mas 590 mil quilômetros quadrados abaixo da média registrada entre 1979 e 2000.

Outra plataforma quebra na Antártida

Ponte de gelo que impedia o colapso da barreira de Wilkins se rompe no sábado, em novo sinal do aquecimento global

Evento foi flagrado por um satélite europeu no fim de semana e não tem impacto imediato sobre nível do mar; região perdeu 6 plataformas

4.abr.2009/British Antarctic Survey

Icebergs formados pela quebra da plataforma Wilkins, no ano passado

 

DA REDAÇÃO – FOLHA SP

Foi a crônica de uma morte anunciada. Um satélite europeu flagrou no fim de semana o rompimento da ponte de gelo que prendia uma plataforma de gelo no oeste da Antártida. Agora é uma questão de tempo até que essa estrutura, a plataforma Wilkins, oito vezes maior que a cidade de São Paulo, termine de se esfacelar. Cortesia do aquecimento global.
O colapso vinha sendo monitorado em tempo real pelo satélite Envisat, da Agência Espacial Europeia, nas últimas semanas. A ponte de gelo, de 40 km de extensão por até 2,5 km de largura, se esfacelou entre sábado e domingo. “Do dia para a noite a região explodiu com icebergs”, disse o glaciologista David Vaughan, do Serviço Antártico britânico, à rede BBC.
Vaughan e seus colegas acreditavam que esse língua de gelo, que ligava a plataforma à ilha Charcot, fosse a única coisa impedindo a Wilkins de colapsar. No ano passado, os britânicos descobriram que a plataforma já havia perdido cerca de 15% de seus 16.000 km2 de extensão original. No final dos anos 1990, Vaughan estimara que a estrutura glacial fosse levar 30 anos para desaparecer.
A plataforma vinha se mantendo estável pelo menos desde os anos 1930 e, possivelmente, ao longo dos últimos 1.500 anos. Sua quebra é apenas o drama mais recente provocado pela elevação das temperaturas da península Antártica, região que tem vivido um aquecimento sem precedentes nos últimos 50 anos -de até 3C, contra 0,7C da média global em todo o século 20.
A Wilkins se junta agora às outras cinco plataformas de gelo extintas na península nesse período. A mais famosa delas, a Larsen-B, foi também a primeira a ter seu esfacelamento acompanhado por satélites, em tempo real, em 2002.
“A próxima a ir é a Larsen-C, daqui a alguns anos”, disse à Folha o glaciologista Jefferson Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
O colapso dessas plataformas -bancos de gelo flutuantes presos ao continente- não tem impacto imediato sobre o nível do mar. No entanto, essas estruturas servem de “barragem” ao escoamento de geleiras continentais, cujo escorregão pode, este sim, elevar o oceano.
A tragédia com a Wilkins aconteceu exatamente na véspera da conferência que marca os 50 anos do Tratado da Antártida. Abrindo o evento ontem, em Washington, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, afirmou que o colapso é um lembrete “de que o aquecimento global já teve efeitos enormes no nosso planeta e que não temos tempo a perder para atacar essa crise”.
Mas em Bonn, Alemanha, onde um encontro das Nações Unidas deveria começar a resolver essa crise, a diplomacia americana agiu no sentido oposto, com cautela em vez de pressa.

11/03/2009 - 17:39h Nível dos oceanos pode subir o dobro do previsto

Previsão mais otimista é de alta de pelo menos meio metro até o final deste século; IPCC não teria levado em consideração variáveis cruciais

 

Efe, COPENHAGUE – O Estado SP

 


Estudos recentes indicam que o nível do mar poderá subir um metro até 2100 – o dobro do estimado no último informe mundial da Organização das Nações Unidas. A advertência foi feita por pesquisadores de várias universidades durante o Congresso Científico Internacional sobre Mudança Climática de Copenhague, Dinamarca.

O motivo da formulação desse cenário mais pessimista é a observação de que geleiras, assim como as massas de gelo da Groenlândia e da Antártida, estão derretendo a um ritmo mais forte do que o esperado, ao lado da crescente temperatura dos oceanos, o que resulta em sua expansão, afirmou o professor John Church, do Centro Australiano para a Pesquisa do Clima e do Tempo. “As observações por satélite e terrestres mais recentes mostram que o nível do mar segue subindo 3 milímetros ao ano, uma cifra bem acima da média do século 20″, disse o pesquisador, que presidiu uma mesa redonda com outros especialistas.

A previsão mais otimista feita no congresso é a de que o nível do mar subirá pelo menos 50 centímetros até 2100. Os cientistas afirmam que se as emissões de gases causadores do efeito estufa não forem reduzidas rápida e substancialmente, o aumento do nível do mar afetará, ainda no melhor dos casos, 10% da população mundial.

O último informe do Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática (IPCC) da ONU, divulgado em 2007, estimou que os oceanos aumentariam entre 18 e 50 centímetros – mas esse estudo não havia incluído todos os fatores nos cálculos, como a reação das massas de gelo da Groenlândia e da Antártida às alterações climáticas.

VARIAÇÕES REGIONAIS

Konrad Steffen, diretor do Instituto Cooperativo para a Pesquisa em Ciências Ambientais da Universidade do Colorado (Estados Unidos), ressaltou que haverá grandes diferenças regionais causadas pelo aumento do nível do mar, dependendo da localização e da origem do derretimento das geleiras.

O congresso de Copenhague, resultado de uma colaboração entre a Universidade de Copenhague e outras nove instituições, reúne até amanhã mais de 2 mil participantes, com 1.600 trabalhos científicos de pesquisadores de 70 países. As conclusões preliminares do congresso farão parte de um documento que será publicado em junho deste ano e entregue a todos os participantes da reunião climática mundial que ocorrerá em Copenhague em dezembro.

É nesse evento que, espera-se, pode surgir um consenso sobre um novo acordo climático que substitua o Protocolo de Kyoto quando ele expirar, em 2012.

11/03/2009 - 17:19h Calor absorvido quadruplica no Ártico

http://www.greenpeace.org/raw/image_full/espana/photosvideos/photos/morsa-en-el-artico.jpg

Fenômeno alimenta o ciclo vicioso em que o aquecimento global faz mais gelo derreter durante o verão, e vice-versa

Medições via satélite feitas pela Nasa no Alasca indicam que retração da superfície congelada é 26% maior que a normal em meses quentes

GUSTAVO FALEIROS
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA EM COPENHAGUE

A quantidade de calor do Sol absorvido pelo Ártico quadruplicou nos últimos 30 anos, o que aumenta o risco de o sistema climático do planeta cruzar uma fronteira sem volta. O número, apresentado ontem encontro de especialistas do clima que ocorre até quinta em Copenhague (Dinamarca), saiu de levantamento feito pela Nasa com imagens de satélite.
A maior absorção de calor decorre da perda de superfície branca de gelo (veja quadro à esq.). Ela gera um ciclo vicioso no qual a própria perda da superfície congelada acelera o processo de derretimento.
Os números da Nasa saíram de observações entre 1973 e 2007 em regiões próximas ao Alasca que perderam muito gelo. Ao contrário das placas congeladas, que refletem quase toda a luz, o mar absorve o calor e passa a contribuir diretamente para derreter a calota polar.
De acordo com Son Nghiem, pesquisador do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa que apresentou os dados na conferência, o processo pode explicar as grandes perdas de áreas congeladas nos anos recentes.
Entre 1998 e 2008, a redução da superfície de gelo no Ártico durante o verão foi 26% superior ao normal. A média nas duas décadas anteriores, embora já indicasse uma diminuição anormal, havia sido de 4%.
O processo observado no Ártico revela que, devido ao aquecimento global, a região pode estar próxima ao chamado “ponto de virada” -momento em que o processo não pode mais ser revertido. A partir dessa marca o sistema climático seguiria em “resposta positiva”, com sua deterioração se retroalimentando, acelerando um eventual colapso.
No polo Norte, o colapso significaria a perda total de gelo durante o verão. A redução total da camada de gelo na região nos meses mais quentes, medida desde os anos 70, já é de 40%. “Ainda não podemos dizer com certeza se o gelo no oceano Ártico deixará de existir no verão. Mas dizemos que os impactos deste fenômeno seriam grandes”, diz Nghiem.
Pesquisas recentes da Universidade de Colorado indicam que as calotas da região poderiam deixar de existir em duas décadas. Mas, para Nghiem, o leve aumento da extensão da área congelada no último verão indica que o sistema tem maior capacidade de se recuperar.
A discussão sobre os polos do planeta está ganhando corpo no encontro científico em Copenhague. Alguns cientistas voltaram a alertar que permitir que uma elevação na temperatura de 3C poderia causar o derretimento completo da cobertura de gelo da Groelândia.
Outros cientistas, porém, são um pouco menos pessimistas. “Adotando as atuais medidas de estabilização do clima -como a redução de 80% das emissões em 2050 proposta pelo G8- há uma chance de 55% de a Groelândia não atingir o “ponto virada” “, diz Jason Lowe, do Centro Hadley, da Inglaterra.

26/02/2009 - 10:30h Ano Polar confirma degelo no Ártico e na Antártida


Cientistas dizem que aquecimento afeta região antártica de maneira “insuspeitada”

Oceano austral aqueceu mais que a média dos mares do mundo; América do Sul sentirá efeitos de mudança no continente austral

Efe

Navio na região da plataforma Wilkins, afetada por aquecimento

DA REDAÇÃO FOLHA SP

Agora é oficial: o Ártico e a Antártida estão esquentando mais rápido do que se imaginava e seus mantos de gelo, especialmente o da Groenlândia, estão derretendo sob influência do aquecimento global. As conclusões são do maior esforço de pesquisa já feito sobre as regiões polares, que envolveu mais de 10 mil cientistas de 60 países, incluindo o Brasil.
Um relatório preliminar divulgado ontem em Genebra, que encerrou esse esforço de pesquisa, o 4º Ano Polar Internacional, afirma que “parece certo agora que tanto o manto de gelo da Groenlândia quanto o da Antártida estão perdendo massa e portanto aumentando o nível do mar, e que a taxa de perda de gelo na Groenlândia está crescendo”.
O degelo acelerado dos polos é uma das maiores incertezas nos modelos do aquecimento global. Se derretidos, o oeste da Antártida e a Groenlândia elevariam o nível do mar em vários metros, o que seria desastroso para a humanidade.
No entanto, como o comportamento das geleiras antárticas e árticas é muito complexo, até agora tem sido impossível estimar a contribuição total do degelo polar para o nível do mar no futuro (no leste da Antártida, por exemplo, o gelo parece estar aumentando).
Essa questão ficou sem resposta no último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática), o comitê de climatologistas da ONU, que previu uma elevação de “modestos” 59 cm no nível global dos oceanos até o fim deste século.
Responder se os polos estão ou não perdendo gelo era um dos principais objetivos do Ano Polar Internacional, que começou em 2007 e termina em março. Num esforço de cooperação internacional sem precedentes e com US$ 1,5 bilhão de financiamento, cientistas usaram técnicas como medições por satélite de mudanças na elevação e nos campos gravitacionais dos mantos de gelo.
O resultado não é a última palavra sobre o assunto, mas as pesquisas feitas durante o Ano Polar indicam um balanço de massa negativo, ou seja, mais gelo é perdido do que o que se acumula por precipitação de neve. “Acho que os especialistas discordariam de um cenário de derretimento repentino, instantâneo ou catastrófico”, disse à Folha David Carlson, coordenador científico do Ano Polar Internacional.
“Mas acredito que eles dirão que observam uma aceleração do degelo, de forma que poderíamos observar efeitos substantivos no nível do mar em várias décadas ou um século, em vez de vários séculos.”
Dados obtidos por navios oceanográficos na Antártida, boias equipadas com termômetros e até mesmo elefantes-marinhos com instrumentos amarrados na cabeça mostram que o oceano Austral está esquentando mais depressa que o restante dos oceanos do planeta. Segundo o relatório divulgado ontem, há sinais de que o aquecimento global está afetando a Antártida de maneiras “insuspeitada”. Ian Allison, um dos coordenadores do Ano Polar Internacional, disse que a primeira região a sentir o efeito das mudanças na Antártida será a América do Sul.

25/02/2009 - 10:38h Geleiras dos Pirineus podem desaparecer

Estudo do governo espanhol mostra que derretimento já chegou a quase 90% e está em ritmo acelerado

http://blogs.elcorreodigital.com/blogfiles/basabide/monte_perdido2.jpg

DA ASSOCIATED PRESS – FOLHA SP

Os Pirineus tiveram quase 90% de degelo em suas montanhas no século passado e o aquecimento global pode fazer o que restou das geleiras desaparecer nas próximas décadas, de acordo com um estudo do governo espanhol.
A pesquisa, feita pelo Ministério do Meio Ambiente, verificou que dos cerca de 3.300 hectares de gelo que cobriam a cadeia de montanhas entre a Espanha e a França no começo do século 20, restam somente 390 hectares hoje.
Segundo o estudo, o derretimento de geleiras no sul da Europa tem agilizado nos últimos anos. Entre 2002 e 2008, por exemplo, os Pirineus espanhóis perderam cerca de um quarto do gelo das geleiras.
Os cientistas espanhóis começaram a perceber a gravidade da situação depois que um programa foi lançado, em 1978, para estudar a quantidade de neve nas montanhas e avaliar anualmente o derretimento. Ao longo dos anos, eles começaram a ver as geleiras diminuírem a um ritmo alarmante.
Miguel Frances, coordenador do estudo divulgado na semana passada, disse que mesmo invernos com fortes quedas de neve não parecem ser capazes de parar o processo.
“No ano passado caiu um monte de neve. Isso estabilizou as geleiras, mas elas não cresceram”, afirmou ele ao jornal espanhol “El País”.
O estudo do ministério afirma que o derretimento das geleiras nos Pirineus e em outras cadeias de montanhas ao redor do mundo é uma consequência direta do aquecimento global e das mudanças nos padrões de precipitação.

Abastecimento

De acordo com a Unep (programa das Nações Unidas para o ambiente), as geleiras em todo o mundo estão ameaçadas, o que compromete o abastecimento de água para centenas de milhões -ou até bilhões- de pessoas.
A Unep diz que sua página na internet que é importante os governos chegarem a acordo sobre metas de redução das emissões de gases de efeito estufa na Convenção do Clima da ONU em Copenhague (Dinamarca), no final deste ano. Caso contrário, “é possível que as geleiras desapareçam completamente de muitas cadeias de montanhas no século 21″.

24/02/2009 - 14:16h Questão climática pode provocar “longa guerra mundial”

Lobby do clima leva ministros à Antártida

Comitiva integrada pelo brasileiro Carlos Minc visita estação norueguesa para ver como degelo antártico afetaria o globo

Grupo tem representantes de mais de 10 países, como China e EUA; objetivo é tentar salvar conferência de Copenhague, em dezembro

Charles Hanley/Associated Press

Ken Pedersen, líder de expedição norueguesa que cruzou a Antártida, dá “aula’ de ciência polar aos ministros na estação Troll

 

Folha SP

Um grupo de ministros do Ambiente, entre os quais o brasileiro Carlos Minc, e negociadores internacionais de clima chegou ontem à Antártida após ouvir do economista britânico Nicholas Stern que a falha em lidar com a questão climática agora provocará uma “longa guerra mundial”.
Stern falou aos ministros no sábado na Cidade do Cabo, ponto de partida para a viagem de 9 horas até a estação norueguesa Troll. Segundo ele, nas mãos do grupo de negociadores estava o potencial de evitar migrações causadas por desastres climáticos, que poderiam causar conflitos em massa.
“De algum jeito nós temos de explicar às pessoas o quão preocupante isso é”, afirmou Stern, ex-economista-chefe do Reino Unido e autor do relatório que leva o seu nome, divulgado em 2006, sobre os custos da mudança climática.
A viagem foi organizada pelo ministro do Ambiente da Noruega, Eric Solheim, com o objetivo de mostrar aos seus colegas a dimensão do continente austral e como o seu eventual degelo poderia afetar o nível do mar de forma dramática.
Ela faz parte de um esforço diplomático explícito para tentar salvar do colapso a cúpula do clima de Copenhague, marcada para dezembro. O encontro precisa produzir um acordo internacional de combate aos gases de efeito estufa que amplie e substitua o Protocolo de Kyoto -cuja primeira fase de compromisso expira em 2012.
Se Copenhague falhar em produzir um acordo sólido que ponha o mundo no caminho de uma redução de pelo menos 50% das emissões até 2050, alertam os cientistas, o aquecimento global pode sair do controle. Se o acordo for adiado, o mundo pode ficar a partir de 2012 com um “buraco” legal na proteção do clima.
A comitiva tem representantes de mais de uma dezena de nações, incluindo Argélia, Suécia, Congo, Finlândia, Reino Unido e Rússia. Os dois principais poluidores do planeta -e potenciais obstáculos a um acordo nem Copenhague- , China e EUA, também estão representados, pelo negociador de clima Xie Zenhua e o subsecretário de Estado Dan Reifsnyder, respectivamente.
Na Antártida, Minc e seus colegas se encontraram com cientista noruegueses e americanos que acabam de voltar de uma expedição de 2.300 km do polo Sul até a estação Troll. Também aprenderão sobre as grandes incertezas que ainda existem na pesquisa climática no continente austral: o quanto a Antártida está esquentando? Qual é a quantidade de gelo que está efetivamente derretendo e aumentando o nível do mar? E o quanto isso pode contribuir para a elevação dos oceanos nas próximas décadas?
A contribuição do manto de gelo antártico (que concentra 90% do gelo do planeta) para a elevação do nível do mar no globo não pôde ser calculada pelos modelos climáticos do IPCC, o painel de climatologistas das Nações Unidas.
A dinâmica do gelo é muito complexa e, embora algumas regiões estejam perdendo gelo aceleradamente, como a península Antártica, no manto de gelo da Antártida Oriental (onde fica a estação norueguesa) os sinais são misturados. “Nós não sabemos o que está acontecendo lá”, disse David Carlson, coordenador científico do Ano Polar Internacional, o maior esforço de pesquisa já feito para entender os polos e o clima, que se encerra neste mês.
Um derretimento descontrolado na Antártida Ocidental -a região do continente que mais aqueceu nas últimas décadas-, no entanto, bastaria para elevar o nível do mar em vários metros. “Poderia ser o ponto de virada mais perigoso deste século”, disse James Hansen, climatologista da Nasa.
No mês que vem, Hansen e outros pesquisadores realizarão sua própria cúpula de emergência em Copenhague para discutir maneiras de forçar os governos a agir.


Com agências internacionais

22/02/2009 - 10:36h Mar subirá 1,80 m até 2100, diz estudo

Cálculo de cientista alemão feito com dados mais robustos revê previsão oficial do painel do clima da ONU em 200%

Medições feitas por francesa comprovam que velocidade do fenômeno -alimentado pelo aquecimento global-aumentou para o dobro

Foto

As neves do Kilimanjaro em 1993 e em 2000 (Foto: Nasa)

EDUARDO GERAQUE FOLHA SP

ENVIADO ESPECIAL A CHICAGO

A velocidade com que o nível do mar está subindo agora é quase o dobro daquela verificada no século 20. Já se sabia que o fenômeno -alimentado pelo aquecimento global- era grave, mas os dados mais recentes, coletados desde 1993, mostram que a elevação da linha d’água até 2100 será de 1,80 metro, mais do que o dobro da prevista pelo painel do clima da ONU.

“Entre 1993 e 2008, a taxa média global registrada foi de 3,4 mm por ano”, disse à Folha a pesquisadora francesa Anny Cazenave, do Centro Nacional de Estudos Espaciais de Toulouse (França). Esse número, obtido por medições de satélite que geraram uma série histórica inédita, ganha um ar de gravidade quando comparado a outro: entre 1950 e 2000, a elevação média do mar era de 1,8 mm por ano, diz a cientista.

“Mas a maior surpresa não é essa”, diz Cazenave, que apresentou suas recentes medições -processadas até dezembro- na reunião da AAAS (Sociedade Americana para o Avanço da Ciência), encerrada na semana passada em Chicago.

“As causas dessa aceleração do nível do mar também mudaram”, diz. Entre 2003 e 2008, o derretimento das geleiras e dos mantos de gelo (Groelândia e Antártida) contribuiu com 80% da elevação. A expansão térmica -o aumento de volume da água pelo aquecimento- ajudou com cerca de 20%.

Na virada do século, porém, o cenário ainda era diferente. Entre 1993 e 2003, o aquecimento da água do mar explicava 50% do fenômeno, enquanto as massas de gelo respondiam por 40%. (Ainda não existem dados para explicar os 10% que fechariam a conta.)

Para os cientistas, não há dúvida: as atenções devem ser voltadas agora para regiões como o Ártico, a Antártida e as demais geleiras continentais. Entre essas áreas, o norte da Terra é o mais rico em gelo.

http://www.metsul.com/__editor/imagemanager/images/junho2006/groelndia_2.jpg

Uma simulação computadorizada realizada pela NASA mostra como a diminuição na altura do gelo afeta a Groenlândia

Um metro a mais

“Hoje, tanto os mantos de gelo quanto as geleiras continentais [na Antártida, na Groelândia, nos Andes ou no Himalaia] têm igual relevância, mas tudo indica que os primeiros serão cada vez mais importantes daqui para a frente”, disse Stefan Rahmstorf, pesquisador da Universidade de Potsdam (Alemanha), que apresentou suas pesquisas no evento da AAAS, às margens do rio Chicago.

As contas do pesquisador alemão sobre o futuro do nível médio do mar indicam que os modelos apresentados até hoje estão otimistas demais. “Em 2100, posso dizer agora, o nível dos oceanos deverá estar aproximadamente um metro acima do que estava previsto pelo modelo [mais pessimista] do IPCC”, o painel do clima das Nações Unidas que contou com a participação de Rahmstorf.

Acreditava-se que nível do mar não deveria subir mais do que 60 cm até 2100 (comparado com 1980-1999). Agora, porém, estima-se a marca de 1,80 metro. “E o nível do mar não vai parar de subir em 2100. Ele poderá chegar até 3,5 metros em 2200 e bater os 5 metros em 2300″, disse Rahmstorf. No passado, mostrou o pesquisador, o nível do mar atingiu o pico há 40 milhões de anos. As águas estavam mais de 70 metros acima do que estão hoje.

Apesar de um nível do mar elevado não ser novidade para o planeta, a espécie humana, que surgiu há apenas 200 mil anos, nunca viu algo assim.
De acordo com Cazenave, as medições já feitas nestes últimos 16 anos mostram três regiões onde a subida do nível do mar já é realidade. “As áreas mais afetadas são o oeste do oceano Pacífico, o litoral da Austrália e também a Groelândia”, diz a cientista.

Como as previsões não são uniformes, e levam em conta valores médios, uma pergunta de interesse pessoal foi feita por um espectador da palestra em Chicago. “Sou da Flórida. Quero saber o que vai ocorrer lá”, disse. “Vocês [cientistas] é que têm de dizer onde o mar subirá nos próximos anos.”

Mas os cientistas silenciaram, e a questão também continua aberta para quem vive na Califórnia, no Taiti ou no Recife. Diante da dúvida, o melhor que cidades costeiras têm a fazer é se prepararem para o pior.