31/08/2008 - 09:53h Obama presidente seria um “new deal” com o mundo

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Coisas da Política - Um programa de esquerda

Mauro Santayana - JB

Como sempre fizeram os pretendentes democratas à Casa Branca, Barack Obama prometeu a retomada do sonho americano: o de combinar a liberdade com a igualdade. Dentro do espectro ideológico dos Estados Unidos, tratou-se de um discurso de esquerda, como foram os de Roosevelt e de Kennedy, de Carter e de Clinton. A grande diferença está na origem de classe: Obama tem a legitimidade biográfica para defender tais idéias, o que, no momento do voto lhe pode ser vantagem ou desvantagem. Mais do que a vitória de um mulato, filho de imigrante negro com mãe americana, o resultado eleitoral nos dirá se os Estados Unidos se encontram preparados para participar da comunidade internacional em pé de igualdade, sem a presunção imperial que herdaram da Grã-Bretanha. É disso, no fundo, que se trata: ao aceitar Obama, a sociedade americana aceitará “a new deal” com o mundo. Resta saber se isso realmente ocorrerá. Os conservadores norte-americanos têm a consciência de que não se trata de uma disputa entre o democrata e o republicano, entre o senador pelo Illinois, nascido em Honolulu, no Havaí, e o senador pelo Arizona, nascido na Zona do Canal do Panamá. Trata-se de escolha que toca profundamente as glândulas existenciais do povo americano. A vitória de Obama, se ela se der, corresponderá a uma mudança histórica significativa.

Embora ambos sejam, do ponto de vista jurídico, legítimos cidadãos norte-americanos, não deixa de ser emblemático que tenham nascido fora das fronteiras históricas da grande república. O fato faz lembrar outro império republicano, o de Roma, que teve, entre seus imperadores, alguns cidadãos nascidos fora da Itália, como foi o caso notável de Trajano, de perto de Sevilha, e Sétimo Severo, da África.

As promessas de Obama contrariam os interesses dos donos do poder econômico. A mais importante delas foi a de “fechar” os paraísos fiscais, essa nova e inalcançável entidade soberana do capitalismo, que paira sobre todos os estados nacionais, incluído o norte-americano. Quando Reagan abriu caminho a essas zonas francas do capital financeiro, legitimou a sonegação fiscal, autorizou o saqueio dos resultados do trabalho, incentivou o assalto de empresas tradicionais, e legalizou os expedientes contábeis conhecidos, pelos quais os executivos criaram balanços fictícios a fim de se concederem altas e sólidas gratificações. Esses paraísos fiscais não desviaram dinheiro dos estados nacionais, mediante a sonegação, mas foram responsáveis pelo endividamento, desemprego e redução salarial dos trabalhadores no mundo inteiro. Segundo o candidato democrata, essa prática foi a que mais contribuiu para a exclusão social no mundo.

Outra promessa foi a de reduzir a dependência do petróleo do Oriente Médio dentro de 10 anos – o que é mais difícil de se conseguir, a menos que se reduza consideravelmente o consumo de energia na sociedade norte-americana. Obama foi lacônico – e evasivo – no que concerne à política internacional. Não disse de forma concreta como pretende relacionar-se com os países latino-americanos, nem com o resto do mundo. Sua estratégia foi a de situar os problemas internos como prioritários em seu governo. É provável que deixe a Joe Biden, veterano na administração desses assuntos, a tarefa de expor as idéias democratas sobre o estado do mundo durante a campanha. Ele e seus conselheiros provavelmente optaram por essa postura discreta, a fim de não favorecer ambigüidades em tema dessa gravidade. Apesar disso, ficou claro que Obama assume o nacionalismo norte-americano de forma diferente daquela assumida pelos republicanos. Alguns trechos de seu discurso são claros contra a globalização da economia, quando ele nela identifica a exportação de empresas e empregos, com o resultado do empobrecimento das famílias de trabalhadores.

Não devemos esperar muito de Obama, se ele eleger-se. Mas é provável que ele consiga, como prometeu, retomar o sonho americano de prosperidade comum e de liberdade política, que Bush comprometeu com a irracionalidade de seu governo. Isso não deve reduzir os nossos cuidados. No mundo que se rearticula, com os desafios da nova configuração geopolítica, temos que cuidar prioritariamente de buscar a unidade regional, a fim de assegurar a soberania de cada um de nossos vizinhos da América do Sul, e com ela, a segurança continental.

16/07/2008 - 14:41h Escopeta não é chocalho

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VALOR

“Pode-se perguntar por que um Estado mais forte desejaria atacar um mais fraco, mas certamente esse não é o ponto. O fato decisivo é que, no nível interestatal, a unidade maior pode atacar os grupos mais fracos. Como não há quem possa impedir esses ataques, os grupos humanos mais fracos vivem em contínuo e inevitável estado de insegurança.” - Norbert Elias, em “Envolvimento e Alienação, Editora Bertrand”, Rio de Janeiro, 1990, p: 214

A reativação da IV Frota Naval dos Estados Unidos, na zona do Atlântico Sul, provocará uma mudança radical e permanente nas relações militares dos EUA com a América Latina. Foi por isto que surpreenderam tanto as primeiras explicações americanas a respeito da reativação da sua Frota - criada em 1943 e desmantelada em 1950 -, que teria sido uma simples decisão “administrativa”, tomada com objetivos “pacíficos, humanitários e ecológicos”.

Já está em curso uma nova “corrida imperialista”, entre as grandes potências, que lutam por sua segurança energética e alimentar

A mentira não é um pecado grave no campo das relações internacionais. Pelo contrário, mentir ou dizer meias verdades com competência foi sempre uma arte e uma virtude essencial da diplomacia entre as nações. Portanto, não foi isto que chamou atenção na declaração das autoridades americanas, mas sim o seu desrespeito pela inteligência dos interlocutores e o seu deboche com relação à impotência dos governos afetados pela sua decisão. Mesmo quando se falasse também da necessidade de “combater a pirataria, o tráfico de drogas, de pessoas e de armas”, sem explicar, ao mesmo tempo, porque que a IV Frota não foi reativada durante a Guerra Fria, ou mesmo depois da Revolução Cubana e da Crise dos Foguetes, de 1962, quando o “fluxo ilegal de armas e pessoas” e o “tráfico de drogas” era igual ou maior do que hoje. Por isto, tiveram grande repercussão as declarações “corretivas”, das autoridades navais dos EUA, feitas na Base Naval Mayport, na Flórida, no dia 11 de julho de 2008. Em particular, o discurso inaugural do almirante Gary Roughead, chefe de Operações Navais da Marinha Americana, quem redefiniu o objetivo principal da nova frota, destinada a “proteger os mares da região daqueles que ameaçam o fluxo livre do comércio internacional”, ao mesmo tempo em que advertia, aos desavisados, que “ninguém deve se enganar: porque esta frota estará pronta para qualquer operação, a qualquer hora e em qualquer lugar, num máximo de 24 a 48 horas”.

Com respeito à proteção do comércio marítimo, todos os especialistas sabem que só tem capacidade de proteger o “livre fluxo do comércio mundial” quem também tem a capacidade de interrompê-lo. Ou seja, quem tem poder para proteger, também tem o poder de excluir concorrentes, se for o caso, quando se acirra a competição entre os Estados e os capitais privados, como está acontecendo neste início do Século XXI. Depois de quase uma década de crescimento contínuo e acelerado, a economia mundial enfrenta, neste momento, uma disparada dos preços, da especulação e da escassez de algumas commodities fundamentais, como é o caso do petróleo, dos alimentos e dos minerais estratégicos. E neste momento, já está em curso uma nova “corrida imperialista” entre as grandes potências, que lutam por sua segurança energética e alimentar, exatamente como aconteceu no final do Século XIX e início do Século XX. Uma competição que já chegou à África e deverá atingir a América Latina de forma ainda mais intensa, graças aos seus recursos energéticos, às suas grandes reservas minerais e hídricos e à sua imensa capacidade de produção alimentar, muito superior à da África. Em particular o Brasil, que deverá ser - em breve - o maior exportador mundial de alimentos e um dos grandes exportadores de petróleo, além de ser o principal “proprietário” das águas e da biodiversidade amazônica. Existindo um agravante, no caso brasileiro, do ponto de vista das autoridades norte-americanas: o fato de ser o país que está liderando os processos de criação da Unasul e do Conselho Sul-Americano de Defesa, organizações que excluem os Estados Unidos e esvaziam o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca e a Junta Interamericana de Defesa, que são controlados pelos norte-americanos.

Esta história, entretanto, traz uma lição importante para o futuro da América Latina, e do Brasil em particular. Faz um século, mais ou menos, o almirante e geopolítico Alfred Mahan se notabilizou pela sua defesa militante da idéia que os EUA jamais seriam uma “grande potência”, apoiando-se apenas no seu desenvolvimento econômico. Para ter estatuto internacional, precisariam de uma esquadra naval capaz de projetar o poder americano ao redor do mundo, como havia feito a Inglaterra no Século XIX . O almirante Mahan exerceu grande influência pessoal sobre o presidente Theodore Roosevelt logo no início do Século XX e depois se transformou no maior símbolo do poder naval americano de todos os tempos. Com razão, porque menos de meio século depois da sua morte os EUA já eram o maior poder naval da história da humanidade, controlando todos os mares e oceanos do mundo com suas sete frotas navais.

Neste momento, os EUA acabam de reativar a sua IV Frota, mas poderão criar muitas outras, se quiserem, sem ferir o Direito Internacional, sem precisar utilizar as águas soberanas de outros Estados e sem precisar dar explicações a ninguém. Obedecendo apenas aos seus cálculos estratégicos e ao seu poder de construir e distribuir navios militares ao redor do mundo, como havia proposto Alfred Mahan. Segundo o sociólogo alemão Norbert Elias, a dura verdade é que, “se algum Estado for mais forte ou se acreditar mais forte que seus vizinhos, sempre haverá a possibilidade de que tente obter vantagens, o que pode ocorrer de diversas formas, hostilizando-os, fazendo exigências ou invadindo-os e anexando-os [..] e só existe uma possibilidade de um Estado com maior potencial de violência ser impedido de explorar ao máximo sua porção de poder relativo: ele só pode ser reprimido por outro Estado equivalentemente forte ou por um grupo de Estados que consigam controlar as rivalidades entre si em grau suficiente para favorecer seu potencial combinado de poder”.

José Luís Fiori é professor titular do Instituto de Economia da UFRJ e autor do livro “O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações” (Editora Boitempo, 2007). Escreve mensalmente às quartas-feiras.

01/06/2008 - 10:35h A luta pela qualidade da informação

O sociólogo espanhol Ignacio Ramonet defende a pressão pacífica pela verdade

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Ubiratan Brasil - O Estado de São Paulo

Jornalista e sociólogo espanhol, Ignacio Ramonet tornou-se uma das vozes mais vibrantes contra a globalização no formato atual. Diretor desde 1991 da publicação francesa Le Monde Diplomatique e fundador das organizações Media Watch Global e ATTAC, ele escreveu vários livros sobre geopolítica e crítica da comunicação mundial, nos quais relaciona os meios de comunicação com o projeto estratégico da globalização.

Sua defesa da esquerda e, em especial, do governo cubano de Fidel Castro, provocou diversas críticas pelo mundo, especialmente contra seu livro Biografia a Duas Vozes (Boitempo, 624 págs., R$ 66, tradução de Emir Sader), considerado dócil e servil ao ex-ditador cubano. ‘Ramonet tem a companhia de Noam Chomsky, caso flagrante de esquizofrenia intelectual, que é inspirado e até genial quando limita-se à lingüística transformacional e um ‘idiota’ irredimível quando desata a falar de política’, observou Vargas Llosa, em artigo publicado no Estado no ano passado.

Controverso, Ramonet esteve em São Paulo na semana passada, quando participou de um debate, no Instituto Cervantes, ao lado do sociólogo Emir Sader. Juntos, discutiram sobre o poder dos meios de comunicação frente aos sistemas econômicos. Antes, Ramonet respondeu as seguintes perguntas.

Como enfrentar os perigos dos conglomerados de mídias, que podem ameaçar a informação de qualidade?

Os conglomerados de mídia dominam hoje a informação. Sua preocupação básica não é a qualidade da informação. Nem sequer sua veracidade. O que mais lhe interessa é a rentabilidade da empresa. Essa é sua obsessão principal. Por isso, dão absoluta prioridade à informação-espetáculo, à informação-entretenimento. Concebem a notícia como uma variedade da cultura de massas e não como item da formação e educação do cidadão. O que importa é um maior número de pessoas consumindo essa informação-lixo. Porque, hoje em dia, o negócio noticioso não consiste em vender novidades aos cidadãos, mas vender cidadãos aos anunciantes. Essa é a nova equação, que constitui uma regressão copernicana. A população precisa tomar consciência dessa mudança radical. E defender seu direito a ser bem informada, porque a qualidade da informação depende da qualidade da democracia.

O crescimento da internet está diretamente ligado à formação desses conglomerados?

A internet foi apresentada, em princípio, como uma possibilidade para os cidadãos se livrarem da dominação dos conglomerados de mídia. Mas hoje, na prática, a internet foi integrada ao império desses conglomerados. Ainda assim, todos podemos abrir um blog, que nos permite falar com todo o planeta. Na realidade, se consideramos o ranking dos sites de informação mais freqüentados em qualquer país, vemos que os primeiros lugares são ocupados por empresas de mídia que dominam a informação nesse país. Por isso, a internet só veio a reforçar o poderio dos conglomerados.

Na França, dois grupos de imprensa, Dassault e Lagardère, têm ligação com atividades militares. Qual o perigo disso quando se travam guerras como a do Iraque?

Sim, na França, os grupos Lagardère e Dassault, cujas atividades industriais principais são militares, estão entre os que dominam o setor de mídia. O perigo é que a informação difundida por esses grupos (como acontece nos Estados Unidos com os meios dominados pela General Electric) seja, em caso de conflitos, favorável, independente do pretexto, a uma intervenção francesa com a única intenção de que, dessa forma, as empresas proprietárias conquistem maiores benefícios. Até o momento, isso não aconteceu, tampouco em 2003 quando se comentava sobre a possibilidade de a França integrar a coalizão que invadiu o Iraque no dia 20 de março daquele ano.

Como os cidadãos devem atuar contra este desvio da liberdade de imprensa?

Os cidadãos devem se organizar como fizeram os consumidores, durante os anos 1960, contra os abusos dos construtores de automóveis ou contra o uso de produtos cancerígenos nos alimentos. Consumimos a informação com nossa mente e, se ela é de má qualidade, acaba por envenenar nosso espírito e nossa personalidade. Devemos criar observatórios dos meios - no Brasil, já existem e são muito sérios e profissionais - para denunciar mentiras, manipulações ou o silêncio dos meios de comunicação. Essa denúncia não tem caráter ideológico (meios de qualquer ideologia podem errar), mas unicamente a busca da perfeição da qualidade da informação. Os cidadãos devem mobilizar-se e fazer pressão pacífica e democrática para os meios melhorarem a informação.

O senhor conversou muito com Fidel Castro e até escreveu um livro sobre esse relacionamento. O senhor acredita que o destino de Cuba, agora sem Fidel, depende diretamente de quem será o próximo presidente dos Estados Unidos?

Sim. Fala-se muito, nos meios de comunicação, sobre a ‘necessidade de Cuba mudar’. Mas inúmeros jornalistas se esquecem da enorme responsabilidade que têm os Estados Unidos em algumas das dificuldades, particularmente econômicas, sofridas por Cuba. A manutenção do cruel bloqueio durante quase 50 anos é um grande crime. Por isso, os Estados Unidos devem iniciar uma mudança em relação a Cuba, no sentido de reconhecer os direitos daquele país de descobrir seu próprio destino. Mudar no sentido de respeitar Cuba e considerá-lo um Estado soberano. Se o republicano John McCain vencer a eleição presidencial de novembro, a atitude de Washington pode endurecer ainda mais - mesmo que essa atitude beligerante não tenha frutificado em meio século. Por outro lado, a eleição de um candidato como o democrata Barack Obama abre certas perspectivas positivas. O temor de muitos observadores é o de que, especificamente sobre essa opinião a respeito de Cuba, Obama seja simplesmente assassinado antes de novembro pela máfia anticubana de Miami.

Qual a melhor herança deixada por Fidel? E a pior?

Fidel Castro é o maior latino-americano da história, ao lado de Simon Bolívar. Ainda que sua contribuição continue muito valiosa, sua herança é imensa. Não apenas material (educação, saúde, cultura, ciência, emprego pleno) mas também espiritual: latinoamericanidade, ética, independência real, resistência. Graças a ele e à revolução, Cuba foi depositária, durante o período negro da repressão e das ditaduras (1964-1979), dos grandes valores latinos de independência, soberania e republicanismo. Valores que hoje estão no auge em todo o continente, democraticamente aprovados pela maioria dos cidadãos.

13/03/2008 - 15:06h Quando mais Leo, melhor (trocadilho besta para uma boa entrevista)

Entrevista: Sergio Leo no blog Exu caveira cover

sergio_leo2.jpg“Sergio Leo formou-se em jornalismo pela Escola da Comunicação da UFRJ na oitava década do século passado, e, neste milênio, especializou-se na UnB em Relações Internacionais. Já deu aulas de jornalismo em um curso de extensão da UnB e no Ceub, Centro de Ensino Unificado de Brasília. Trabalhava no Segundo Caderno dO Globo quando foi convidado por Ricardo Noblat para a sucursal do JB em Brasília, no começo do governo Sarney; passou, desde então, pelas sucursais da Folha, Estadão, O Globo, Rede Globo, isto É e Isto É Dinheiro, até se aquietar no Valor, onde está desde 2001. Como repórter especial do Valor, cobre todos os assuntos de Economia e Política, mas prefere mesmo acompanhar a política externa, especialmente na América do Sul, as negociações comerciais e as discussões sobre política industrial. Em 2004 inaugurou o blogue Sítio do Sergio Leo que, desde 2007, desdobrou em outro, o Ralações Internacionais.”entrevistador convidado: andré deak.

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10/03/2008 - 09:38h A crise das Farc: making of de um artigo, por Luiz Felipe de Alencastro*

Crianças colombianas mobilizadas na ‘Guerra de los mil dias” (1899-1902)

O Estadão me convidou no começo da semana para escrever, para o caderno dominical Aliás, um artigo sobre as Farc e as tensões regionais geradas pelo ataque colombiano em solo equatoriano. Como a crise evoluía muito rapidamente, passei a semana coletando material. Mas só comecei a redigir o texto na sexta-feira de manhã (o deadline do jornal era às 18 horas, horário brasileiro): esperava não ser surpreendido por nenhuma novidade que desmontasse os argumentos desenvolvidos no texto.

Zapeando no meio da semana, vi na TV a cena em que Chávez decretava a mobilização de suas tropas. De camisa vermelha, falando no meio da multidão para um ministro da guerra parecido com aquele gordinho de óculos do programa Chaves, da SBT, Chávez, o outro, ordenava com voz tonitruante:“que se mande diez regimientos, que se despliegue la aviación militar!”. Entre um pistache e outro, pensei: «ou o cara ficou doido ou está brincando». Doido, Chávez não é: nunca interrompeu as exportações de petróleo venezuelano para os Estados Unidos. Por isso, comecei a redigir o artigo num enfoque de longo prazo que excluía a iminência de um conflito armado envolvendo a Colômbia, a Venezuela e o Equador. O fato de que Chávez, Uribe e Correa não tivessem desmarcado sua presença na reunião do Grupo do Rio em Santo Domingo, confirmava esta impressão. Mas o tom de muitos sítios de informação era:«There will be blood!». No final do dia, sexta-feira à noite, veio a notícia e as imagens: Chavez, Uribe e Correa estavam se abraçando em Santo Domingo. Tant mieux! Mas a imprensa brasileira traz hoje artigos que começaram a ser impressos antes do final da crise, imaginando que a guerra iria rebentar de uma hora para outra. Veja-se a capa da Veja.

A certa altura escrevi que a guerra com as Farc é o conflito mais antigo do mundo. O raciocínio teria ficado mais completo se tivesse inserido a frase que agora vai em itálico (incluo também a referência do estudo em que me baseio):

«Estudos especializados registraram um total de 229 conflitos armados em 148 países entre 1946 e 2003. No meio tempo, a grande maioria destas guerras cessou. Assim, excluídos os conflitos inter-étnicos oriundos de partições territoriais estabelecidas após 1945 (Palestina, Território Karen na Mianmar-Birmânia, Cachemira na Índia), a guerra do governo colombiano com as Farc, cujos combates começaram em 1966, configura o mais antigo dos conflitos mundiais[1].Considerando-se que tal fato ocorre num país independente desde 1819, a guerra civil colombiana apresenta-se como um caso único na história do mundo contemporâneo ».

[1]. Mikael Eriksson e Peter Wallensteen, « Armed Conflict 1989-2003 », Journal of Peace Research, v. 41 (5), 2004, pp. 625-636.

O artigo completo está aqui.

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25/11/2007 - 16:20h Brasil toma las riendas en Latinoamérica

Lula da Silva y Hugo Chávez

AmpliarLula da Silva y Hugo Chávez- REUTERS

Nuevas reservas de gas y crudo reafirman su papel de potencia regional y le permiten desmarcarse de Chávez y Morales

J.M. - EL PAÍS

Ni el petróleo de Venezuela ni el gas de Bolivia. Con dos anuncios casi simultáneos el Gobierno de Luiz Inácio Lula da Silva ha colocado a Brasil como la principal potencia energética de Latinoamérica a medio plazo tanto en la mirada de sus vecinos como de la inversión internacional. Brasilia ha revelado el descubrimiento de una reserva gigante de gas y petróleo frente a la costa del Estado de São Paulo y al tiempo ha decidido descolgarse del proyecto del venezolano Hugo Chávez de construir un gasoducto desde el Caribe hasta el Río de la Plata, el pilar sobre el que descansaba el proyecto energético -y político- del presidente de Venezuela para la región.

Brasil nunca ha ocultado que considera a Suramérica su área de influencia estratégica, y los acontecimientos sucedidos en los dos últimos años en torno a los proyectos populistas en países de la zona como Venezuela y Bolivia habían despertado las alarmas en el Ejecutivo y la diplomacia brasileños. Y no tanto por el carácter político de los Gobiernos de Caracas y La Paz, que ha sido bien manejado por Lula, como por la dependencia energética en la que se estaba sumergiendo el gigante suramericano, que importa el 50% del gas que a diario consume su industria de Bolivia y se había comprometido en el supergasoducto propuesto por Chávez que de construir colocaría a Venezuela en una posición de preeminencia en la política energética del subcontinente.

“Dios es brasileño”

Por eso no es de extrañar que esta semana Lula declarara eufórico “está comprobado que Dios es brasileño” al comentar el hallazgo de unas reservas de crudo ante la costa brasileña que no sólo consagran la ya lograda en 2006 autosuficiencia petrolífera del país carioca sino que lo convierten en un exportador potencial. Itamaraty, el nombre de la sede de la potente diplomacia brasileña, evalúa incluso pedir una solicitud de ingreso en la Organización de Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

El descubrimiento del yacimiento de Tupí, situado frente a la ciudad costera de Santos, supone que Brasil ha encontrado en una sola zona el 50% de todo el crudo que ha tenido disponible en los últimos 50 años. Las prospecciones señalan que en Tupí hay entre 5.000 y 8.000 millones de barriles de petróleo. A día de hoy Brasil extrae 1.800.000 barriles diarios, con unas reservas calculadas -y en las que no entra el nuevo yacimiento- de 12.500 millones. “Ahora me llaman magnate del petróleo”, bromeaba Lula con la presidenta electa argentina Cristina Kirchner, durante la visita que ésta hizo a Brasilia esta semana.

El fin de la dependencia energética ha sido una política de Estado brasileña y una prioridad llevaba con un bajo perfil político por la Administración de Lula. No hay que perder de vista que Brasil se halla a la cabeza de la producción y explotación de biocombustibles. En el país no se vende ni un litro de gasolina que al menos no lleve biocombustible en un porcentaje en torno al 20%, y el mismo mandatario brasileño trata de exportar este modelo al resto del continente. Un proyecto en el que tiene por socio a EE UU. Desde hace décadas se está multiplicando la superficie destinada al cultivo de caña de azúcar, de la que se obtiene el etanol, y sólo en los próximos tres años Brasilia invertirá 15.791 millones de euros en ciencia y tecnología, donde la producción energética tiene un papel clave.

El Gobierno no ha relativizado en lo más mínimo lo que supone el hallazgo del petróleo para su política nacional, y el ministro de Defensa, Nelson Jobim, ya ha pedido que la capacidad militar de Brasil sea incrementada. “En el momento en el que se tiene una gran riqueza nacional en el área del Atlántico, tenemos que estar en condiciones de defenderla”. Jobim anuncia que el país tendrá submarinos de propulsión nuclear. La defensa de la riqueza natural es la misma línea de argumentación empleada para justificar la construcción de bases militares en la frontera amazónica, decisión que despierta recelos en Bolivia.

En paralelo, y tratando de no dar trascendencia al anuncio, la petrolera estatal Petrobras se ha descolgado del proyecto de construir un complejo gasístico denominado Mariscal Sucre, pieza indispensable en el megaoleoducto que apadrina Chávez. “No es atractivo para nosotros”, reconoció su presidente, Sergio Gabrielli.

A nadie se le escapa que, como el mismo Lula ha declarado, “Petrobras es Brasil y Brasil es Petrobas”, y que su Gobierno ha hallado una manera no traumática de descolgarse de un proyecto faraónico con un presupuesto de 23.000 millones de dólares, un desembolso inicial de 8.000 millones, grandes complicaciones técnicas, y una ventaja relativa para el país que debía albergar la mayor parte de los 7.000 kilómetros de tubería.

Brasilia pretende que la desactivación práctica del proyecto de Chávez le produzca los mínimos roces con Caracas, y así el martes el ministro de Exteriores, Celso Amorim, salió en defensa de la integración de Venezuela en el Mercosur ante las críticas de la oposición brasileña. Hace dos meses el presidente venezolano protagonizó uno de sus habituales duelos de declaraciones, esta vez con el Senado brasileño, a quien acusó de “repetir como un loro” las críticas de Washington hacia su régimen.

Por el contrario, el Gobierno de Lula es amistoso en las formas con su homólogo venezolano, pero a nadie se le escapa que ambos persiguen el objetivo de convertirse en referente energético regional y están en un rumbo de colisión que tarde o temprano se producirá. Lula y Chávez tienen previsto reunirse en diciembre, en una cumbre trimestral ordinaria, para tratar sobre energética. Lula acudirá al encuentro en una posición muy diferente y de mucha más fuerza que en el pasado.

Redes tendidas en la vecina Argentina

Apenas horas después del anuncio de la gran reserva de petróleo en la costa atlántica, Brasil ya ha comenzado a cortejar a algunos de sus vecinos para atraerles a la esfera de influencia de su proyecto energético. Así Marco Aurelio García, el influyente consejero en política internacional del presidente Lula da Silva, ha revelado que los técnicos brasileños estiman que en aguas argentinas también hay unas reservas semejantes a las encontradas y ha pedido la colaboración en el proyecto de la brasileña Petrobras con la empresa argentina pública Enarsa. En otro detalle no menor que indica el interés brasileño en la alianza con Argentina, fue Lula en persona quien adelantó personalmente la noticia del hallazgo del yacimiento brasileño al presidente Néstor Kirchner durante la pasada Cumbre Iberoamericana de Santiago de Chile.

Como parte de la misma política, Petrobras va a anunciar esta semana importantes inversiones en una central térmica cercana a Buenos Aires que aumentará para 2010 en más de un 30% su capacidad de producción. Esta inversión supone un fuerte gesto hacia la Administración argentina -y en particular hacia Cristina Kirchner, quien se ha reunido con Lula antes de jurar como presidenta, el próximo 10 de diciembre-, enfrentada a una crisis energética casi crónica debido al fuerte aumento de la demanda y a la deficiencia de las infraestructuras.

El próximo paso de la alianza energética entre Brasilia y Buenos Aires se dará previsiblemente en la cooperación nuclear, una tecnología que ambos países se han declarado dispuestos a desarrollar y un campo en el que Argentina tiene ya experiencia de exportación de reactores nucleares, como el inaugurado este mismo año en Australia. El Gobierno de Kirchner reactivó el Plan Nuclear Argentino en agosto de 2006. Venezuela se ha mostrado interesada en adquirir un reactor argentino, sin que se haya producido respuesta concreta por parte de Buenos Aires.

24/11/2007 - 09:38h Não vi na mídia brasileira: PETRODOLARES, INVERSIONES Y UNA FUERZA DE TAREAS

Las diferencias de peso, más Chávez, en el eje entre Argentina y Brasil

Por: Alcadio Oña
Clarín

ALIANZA. LULA Y CRISTINA FERNANDEZ, EL LUNES, EN BRASILIA.

Dentre varias interpretaciones más, una es ver al eje Brasil-Argentina, que parecen haber alumbrado Cristina Kirchner y Lula da Silva, como la intención de articular una estrategia común en América del Sur. Otra, para nada contradictoria, que sea una fórmula para acotar las ambiciones de Hugo Chávez en la región, tal cual también se deduce de arranque.

Hay un detalle nada insustancial, que le pone marco a cualquier especulación apresurada. El lunes, simultáneamente con la cumbre entre Cristina y Lula en Brasilia, la Argentina cerraba con Venezuela la colocación de un bono por 500 millones de dólares. La plata entró al Tesoro Nacional el martes, en efectivo, y ayudará a dejarle aliviadas las cuentas externas a la Presidenta electa, durante el primer semestre de 2008.

Fue una movida calculada al milímetro, hecha en secreto, para evitar cualquier interferencia de los bonistas -sus abogados, en realidad- que en Nueva York pleitean contra el país. Más que seguro, Cristina estuvo al tanto de toda la movida.

Con el mercado internacional cerrado, Venezuela se ha convertido en una fuente de financiamiento crucial para la Argentina: incluida la operación de esta semana, Chávez ya ha contribuido con más de 5.000 millones de dólares. Gesto fuerte, igual que el gasoil y el fuel oil que bombea hacia acá para amortiguar los sofocones del sistema energético. Eso sí, todo a precios de mercado.

Una cosa es, entonces, acotar las ambiciones de Chávez y otra enfrentarse a Chávez. Está claro que cualquier estrategia regional, la que fuese, pierde sentido con Venezuela afuera: aun con fricciones recurrentes -antes, ahora y más adelante-, es algo que bien saben Lula y el Gobierno argentino.

Está fuera de discusión, acá, la utilidad que puede acarrear un eje con Brasil. Pero también resulta inevitable computar unas cuantas y notorias diferencias de estatura, en la relación bilateral. Entre ellas, las macroeconómicas:

  • El PBI brasileño es cuatro veces mayor al argentino.
  • Las reservas del Banco Central de Brasil ascienden a 176.000 millones de dólares, contra 43.400 millones del BCRA local.
  • Entre enero y octubre, las exportaciones brasileñas totales montaron a US$ 156.000 millones y el superávit comercial, a 42.700 millones. Para nueve meses, las estadísticas del INDEC le dan a la Argentina: US$ 39.400 millones y US$ 7.190 millones, respectivamente.Si se quiere más micro, un trabajo de la consultora Abeceb revela otras asimetrías estructurales igualmente significativas. La industria brasileña es cuatro veces más grande que la nuestra. El sector alimenticio, cinco veces. En textiles, indumentaria y calzado, la brecha es de casi seis. Siete veces, en equipo de transporte. Y arriba de doce, en maquinaria y aparatos eléctricos.

    Diferencia potente es, también, el financiamiento de las inversiones. El Banco de Desarrollo de Brasil (BNDES) tiene una cartera de créditos, a tasas de interés bajas, equivalente a US$ 83.000 millones. Su similar aquí, el BICE, prestó el año pasado por apenas 277 millones.

    Vuelta al cuadro regional y a los pesos relativos de los actores. Así América del Sur resulte un mercado fuerte y nada despreciable para sus exportaciones manufactureras, hace tiempo que Brasil ha trasvasado el enfoque puramente comercial. Pesan, crecientemente, las inversiones y la expansión de sus grupos empresarios en toda la zona. Es lo que se nota, acá, en sectores tan diversos como el frigorífico, la siderurgia y el cemento. Estrategia acompañada desde el Estado, mucho más que operaciones de oportunidad.

    Parte de esa misma dinámica, es el empeño que Brasil pone en garantizarse el abastecimiento de energía y en montar una infraestructura regional que apoye su proyección. Y, a la vez, en atender otros flancos también sensibles: la seguridad, la defensa, el narcotráfico y el impacto del cambio climático.

    Con cierto enfoque crítico hacia la burocracia propia, esta radiografía aparece en un muy reciente trabajo de un equipo de académicos, consultores, analistas de empresas y periodistas brasileños. Fue constituido bajo un nombre que acá trae malos recuerdos: Fuerza de Tareas de Brasil en América del Sur.

    La conclusión del documento es que a su país se le abren dos caminos, diferenciados, aunque en varios puntos confluyentes. Uno, que Brasil apueste con todo a sus intereses en la región, la potencie, la juegue en los foros internacionales y haga mayores concesiones a los vecinos menores. Otro, darle prioridad a la integración en la economía mundial y que esto “demarque” su política regional.

    En fin, complejidades de las políticas de Estado. Si se prefiere, articulaciones internas, amplias e ineludibles, cualquiera fuese el eje que se proyecte.

  • 20/11/2007 - 07:33h ‘NYT’: Tupi pode mudar política na AL


    Jornal vê Brasil capaz de fazer contraponto à Venezuela

    Com o barril do petróleo quase em US$ 100, a descoberta do campo de Tupi tem o potencial de transformar o Brasil em uma força global de energia e redefinir as políticas em um continente faminto por energia, afirmou o “New York Times” em reportagem publicada ontem. A reserva, estimada entre cinco bilhões e oito bilhões de barris, é a maior descoberta desde uma no Cazaquistão, em 2000.

    “Nos próximos cinco anos, pode-se imaginar as reservas totais do Brasil ultrapassando México e Canadá, perdendo apenas, nas Américas, para Venezuela e Estados Unidos”, afirmou o jornal. Para Peter Hakim, presidente do centro de estudos Inter-American Dialogue, especializado em América Latina, o Brasil está se tornando uma potência energética.

    O “Times” fez um contraponto entre o Brasil e seus vizinhos Bolívia e Venezuela. Nesta, “para desgosto dos Estados Unidos”, Hugo Chávez tem usado os recursos do petróleo para implantar uma agenda de esquerda, em seu país e em outros. “O campo de Tupi tem agora potencial para dar mais peso à abordagem de esquerda do Brasil, que é mais moderada”, afirmou o “Times”. O jornal observou que isso já provocou reações, com Chávez chamando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “magnata do petróleo”.

    Segundo o “Times”, a descoberta também é uma boa notícia para Argentina e Chile, que enfrentaram problemas de energia no inverno nos dois últimos anos.

    O jornal citou até duas charges de Chico Caruso em O GLOBO: uma no dia seguinte ao anúncio da descoberta, com Lula tomando banho de sol em cima de um jorro de petróleo, e depois jogando óleo no presidente boliviano, Evo Morales, com a legenda: “Lula lá, cheio de gás: cuidado Morales!”.

    Mas, ressalta o “Times”, o campo de Tupi, por estar em águas profundas, representa um desafio tecnológico. “Esse petróleo é para o futuro”, disse ao jornal Larry Goldstein, diretor da Fundação de Pesquisa de Política Energética, em Washington. “Se eu fosse Chávez, não perderia o sono — não agora.”

    13/11/2007 - 07:21h Para ‘FT’, descoberta pode mudar o papel do Brasil


    Em jogo, metas como assento na ONU e ingresso no G-8

    Fernando Duarte - O Globo

    LONDRES e NOVA YORK. O jornal britânico “Financial Times” publicou ontem uma reportagem em que classifica a descoberta da área de Tupi, na Bacia de Santos, como um potencial instrumento de transformação do papel do Brasil em termos geopolíticos. Embora a reportagem classifique de excesso de euforia a afirmação da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, de que o país poderá chegar ao nível de gigantes produtores, como Arábia Saudita e Venezuela, o “FT” vê no óleo de Tupi uma injeção de ânimo para objetivos do Brasil, como o assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e mesmo a entrada no G-8, o grupo das nações mais desenvolvidas.
    Na reportagem, o jornal relata as projeções de que Tupi teria reservas de cinco a oito bilhões de barris de petróleo e as compara às da Noruega, que em 2006 estavam na casa de 8,5 bilhões de barris. o “FT” não deixou de mencionar as dificuldades operacionais no campo, localizado sob uma imensa camada de pré-sal.
    No sábado, ao mencionar a descoberta do campo, outro jornal britânico, o “Guardian”, adotou um tom mais pessimista, ao dizer que o petróleo de Tupi não terá efeitos imediatos na crise energética provocada pela nacionalização das reservas de gás bolivianas. O jornal também lembrou que não haverá alívio imediato para o mercado internacional diante da previsão de que a extração em Tupi só deverá atingir escala máxima em cinco anos.

    Na sexta-feira, a BBC enveredou para o lado da hegemonia continental ao mencionar a possibilidade de o aumento nas reservas transformar o Brasil numa alternativa mais agradável para os americanos que a Venezuela — Hugo Chávez é um crítico voraz de Washington.
    No mesmo dia, o americano “Wall Street Journal” destacou o fato, afirmando que “indica o potencial das descobertas em águas profundas em um período de preocupações sobre o abastecimento”.
    A reportagem também destaca o papel dos governos na questão energética, ao citar a exclusão de 41 blocos da próxima licitação da Agência Nacional do Petróleo (ANP), por causa da descoberta.
    Jornais argentinos também publicaram a notícia. Segundo o “La Nación”, apesar do entusiasmo, os especialistas reconhecem a dificuldade econômica e tecnológica na extração do petróleo. Já para o “Clarín”, as reservas produzirão uma “importante mudança para toda a região”. De acordo com a reportagem, a descoberta “mudou o conteúdo dos sonhos brasileiros”.

    09/11/2007 - 06:00h Nova fronteira do petróleo


    Celso Ming - O Estado de São Paulo

    celso.ming@grupoestado.com.br

    A descoberta de um campo gigante de petróleo e gás na Bacia de Santos é um acontecimento cuja importância transcende as dimensões econômica e energética. O impacto político e estratégico está por ser avaliado.

    Este foi apenas o primeiro campo encontrado abaixo da camada de sal, formação geológica de 300 a 500 metros de espessura e cerca de 200 quilômetros de largura, que se estende por 3 mil quilômetros ao longo da costa, de Santa Catarina ao sul da Bahia. Está situada na plataforma continental, entre 6,5 mil e 7 mil metros abaixo do nível do mar.

    Até agora, a maior parte do petróleo encontrado no Brasil é pesada (17 graus API). A principal teoria dos geólogos da Petrobrás é a de que esse óleo migrou de depósitos situados abaixo da camada de sal para acima dela, por fissuras causadas por pressões geológicas. No caminho, incorporou detritos, razão por que é de qualidade inferior. A hipótese dos geólogos é a de que as jazidas mais abundantes e de melhor qualidade estão abaixo do sal porque não conseguiram escapar de lá.

    Há dois anos, a Petrobrás começou a perfurar essas estruturas. Na Bacia de Santos (Campo de Tupi) e na do Espírito Santo (Campo de Golfinho), as duas áreas em que iniciou os trabalhos, deu bingo: petróleo e gás de ótima qualidade. Mas só agora a Petrobrás pôde concluir a cubagem da jazida encontrada na Bacia de Santos, que aumenta em cerca de 40% as reservas brasileiras, ultrapassando as do México.

    A descoberta anunciada parece ser apenas o começo. Ficou comprovado o potencial abaixo da camada de sal. E isso abre nova fronteira para exploração.

    Em razão da enorme profundidade, altas temperaturas e fortes pressões, a exploração desses poços exige tecnologia de ponta. As condições da geometria de perfuração requerem diâmetro inicial maior do que a de um poço convencional; brocas especiais dotadas de turbina que giram só na extremidade e não ao longo do eixo de 6 mil a 7 mil metros; e lubrificantes de altíssimo desempenho.

    Como o diretor de Produção da Petrobrás, Guilherme Estrella, já explicou, seu custo de perfuração é cerca de três vezes mais alto do que o de um poço comum. Mas, diante do petróleo a US$ 100 por barril e diante das proporções da descoberta, esse aumento de custo pode ser considerado insignificante.

    A nota oficial da Petrobrás emitida ontem afirma que o Campo de Tupi, somado aos já conhecidos, “coloca o Brasil entre os países com grandes reservas de petróleo e gás no mundo” (veja tabela).

    Para dizer o mínimo, do ponto de vista econômico, a novidade vai atrair ainda mais interesse por petróleo e gás no Brasil. Mas o impacto maior pode ocorrer no campo estratégico e político. À medida que o Brasil for reconhecido como potência energética num quadro de escassez de petróleo, seu peso geopolítico deve crescer. E mudam, também, as condições de negociação com Venezuela, Argentina e Bolívia, os grandes produtores vizinhos de petróleo e gás.

    Será inevitável que o presidente Lula tente tirar o máximo proveito interno das novas perspectivas. A conferir.

    Confira

    Visão estreita - Ontem, o presidente do Fed, Ben Bernanke, criticou os analistas de Wall Street, incapazes de prever a crise das hipotecas podres: “É surpreendente e desapontador que investidores sofisticados (…) olharam para o rating do crédito e foi só o que fizeram.”

    Outra estreiteza - Há outra crítica a fazer aos analistas financeiros, especialmente do Brasil. Há dois anos, atenta às recomendações dos geólogos, a Petrobrás perfura a camada de sal. Mas esses analistas não enxergam além dos fluxos de caixa, Ebitdas e outras rubricas contábeis. Não previram a nova aposta a fazer na Petrobrás.