12/07/2009 - 10:33h Vida de escritor

Com dois livros recém-lançados na França e um filme a caminho sobre seu trabalho, Gilles Lapouge submete a aventura literária e o jornalismo aos prazeres do bom texto

Laura Greenhalgh -O Estado SP

O olhar curioso de quem passa pela calçada da Rue Fondary, altura do número 25, no XVème arrondissement de Paris, certamente flagrará pelas janelas um jovial senhor de cabelos brancos teclando ao computador, entre pilhas e pilhas de papéis. Jovial senhor porque as maneiras são ágeis, a camisa, esportiva, a cabeleira, revolta, e nota-se ainda um arrojado par de tênis contestando os 85 anos de idade do portador. Ultrapassadas duas portas do edifício, uma no plano da rua e outra interna, chega-se enfim ao bureau do escritor e jornalista francês Gilles Lapouge. “Eis onde passo os meus dias. De 8 às 18 você me encontra neste escritório. Faço uma pausa rápida só para o almoço”, diz o anfitrião, em tom meticuloso.

A aparente desordem é o avesso de um caos criativo. Os livros se espalham por todos os cantos (inclusive pelo chão), lotam estantes e a vasta coleção de caixotes para garrafas de vinho – madeirame raro na era das embalagens de papelão e dos engradados de plástico. E espalham-se também as fotografias, as lembranças de viagens, os cartões-postais, uma miríade de objetos esparsos, os quadros, os mapas, os recortes de jornal, enfim, marcadores do tempo para alguém que considera a vida um percurso. Um itinerário. Uma geografia.

Gilles Lapouge tem sido muito solicitado a falar de si nos últimos tempos. Só neste ano, foram lançados dois livros na França, ambos com feitio biográfico, nos quais ele repassa a travessia intelectual, em geral ligada aos movimentos familiares e profissionais. Em La Maison des Lettres (Éditions Phébus), tem-se em forma de livro a longa entrevista que concedeu ao jornalista francês Christophe Mercier. É conversa de vida inteira, recuperando a infância feliz na Haute Provence, o período de maior isolamento social na Argélia, para onde o pai militar foi transferido, a juventude em Paris, a descoberta do Brasil através de um convite de trabalho do jornal O Estado de S. Paulo, as múltiplas influências literárias e todas as errâncias de um intelectual que se desloca para entender o mundo e a si mesmo. O outro livro, La Légende de la Géographie (Éditions Albin Michel), traz o escritor desvendando ao público sua geografia pessoal em uma bela coleção de ensaios sobre assuntos que sempre o intrigaram: as fronteiras, os mapas, a neve, os planisférios, as estradas de ferro, e por aí vai. Fora isso, Lapouge virou tema de um documentário dirigido pelo cineasta francês Joel Calmette, em fase de produção. “Lapouge adora flanar para então se perder. Por toda a vida cultivou esse gosto pela errância, pela escapada, pela digressão”, diz dele o jornalista e escritor Bernard Pivot, com quem partilhou incontáveis debates culturais na televisão francesa.

Nesta entrevista, concedida numa tarde de primavera em Paris, Gilles Lapouge confessa algumas de suas paixões. Uma delas, pode-se dizer sem margem de erro, vem do prazer da escrita – ali, na Rue Fondary, lapidam-se frases. Outra revela seu amor pela geografia, ciência que o move, o educa e ainda o faz sonhar. Chega a dizer que “todo evento, antes de ser histórico, é geográfico”, enveredando por um labirinto de reminiscências que perpassa uma notável geração de escritores e artistas franceses da qual fazem parte, entre muitos de seus amigos, Maurice Nadeau, lendário editor do jornal Combat, o poeta Claude Mettra e o historiador Jacques Le Goff.

O que parte dos franceses não sabe é que Gilles Lapouge mantém, há quase seis décadas, uma atividade jornalística regular no Estado – inicialmente como articulista econômico e, desde muito tempo, como correspondente e comentarista internacional. “Você acredita que há quem ainda se surpreenda com isso aqui, na Europa?”, indaga com incredulidade. Pergunto, com aquela impertinência só possível entre colegas de trabalho, por que ele sempre se refere ao Estado como “mon journal brésilien”. Lá vem a resposta: “É meu porque jamais o deixei. E porque, não fosse por ele, eu seria um francês normal, sem graça, de uma família francesa desde sempre.” Gilles Lapouge, laureado duas vezes com o Prix Femina e o Grande Prêmio da Língua Francesa, concedido pela própria Academia Francesa, mantém com o Brasil um diálogo intenso, amoroso e, até por isso, difícil. Perturba-o a violência brasileira, “escamoteada por uma cordialidade que nada tem de cordial”.

Os dois livros que saíram este ano na França são distintos na forma, mas nem tanto no conteúdo: o primeiro revela o ensaísta e o segundo traz a longa entrevista que você concedeu a um jornalista francês. Mas você concorda que ambos são, no fundo, biográficos?

Sim, eles atravessam o que fiz e pesquisei nestes anos todos. Em La Légende de la Géographie, eu me detenho sobre temas que me marcaram e sobre os quais tenho pensado. No outro, falo dos meus pais, da família, da infância, da juventude, conto a minha vida numa linguagem bastante direta. Apesar de diferentes na forma, é bem verdade, os dois livros sublinham o meu gosto por escrever. Jamais deixei de cultivar o estilo da escrita, algo que anda em baixa na França, infelizmente.

Por quê?

A educação das pessoas mudou muito e a internet tem tido uma influência tremenda na maneira como andam escrevendo. Fora isso, existe uma nova ideia de cultura, expressa inclusive em novas manifestações artísticas. A minha ideia baseia-se na cultura escrita. Só que hoje tudo é cultura. Uma geleia, um filé, um filme, uma canção, tudo é encarado como cultura, o que leva a uma tremenda dispersão de interesses. Nesse contexto, sou um arcaico que ainda escreve com zelo e carinho.

Como você começou a escrever?

Comecei pela poesia, na juventude. Cheguei rapaz a Paris decidido a ser poeta, como tantos outros companheiros da minha geração. Talvez até pelos militares que tinha na família e pelo que passamos na guerra, cheguei a dedicar poemas “a todos os soldados do mundo”. Mais tarde, ao me aventurar pelo texto narrativo, incorporei um tanto de poesia na escrita. Ainda sou muito ligado na musicalidade do texto, na cadência da frase. O problema é que escritores como eu tendem a ser vistos como “preciosistas” hoje em dia. Meu prazer, e meu esforço, é alcançar um texto de fatura simples e ao mesmo tempo sofisticado. Trata-se de harmonizar contrários. É fazer o refinado dialogar com o popular, até mesmo com o vulgar, se preciso.

Por que nos dois livros você exalta a geografia?

Porque amo geografia sem nunca ter sido bom nela (ri). Sou nulo nesse campo.

Mas você passou por um curso superior de geografia na mocidade.

Sim, numa faculdade em Aix-en-Provence. Estudei a geografia formal. A verdade é que criei uma geografia pessoal: sou alguém que decididamente viaja para se perder. Se penso no norte, é porque estou no sul, se olho para o leste, sinal de que vejo o oeste, e assim por diante. Entrou para o folclore familiar uma viagem que fiz com meus filhos e minha mulher pela Áustria, há muitos anos. Quando chegamos a uma certa cidade, encasquetei que era Innsbruck, me senti em Innsbruck, reconheci Innsbruck. Meus filhos diziam que não havia relação entre o que víamos e o que estava no guia turístico que eles consultavam a todo momento. Eu disse que era culpa do guia, velho, malfeito. Enfim, só fui me convencer de que não estávamos em Innsbruck no dia seguinte, pela minha filha, uma menina de 12 anos! (ri) Os primeiros geógrafos eram pessoas como eu, gente que se perdia. Saíam de suas grutas, de suas pequenas moradias, e se perdiam. Daí passaram a rabiscar croquis para entender a situação. Assim a ciência começou. Imagine se os homens primitivos tivessem GPS? Eles não se perderiam jamais, o que seria catastrófico. Sem que nos percamos, não somos capazes de ver a paisagem.

Paraíso terrestre não existe. Nem mesmo no Brasil

Lapouge revê o mito do país cordial, pacífico, mas que é capaz de camuflar relações ferozes e brutais

Gilles Lapouge, numa tarde de conversa em seu escritório parisiense, lembra do dia em que o pai quase foi fuzilado, critica as utopias e os militantes do “mundo sem fronteiras”, e ainda fala de projetos literários que vem desenvolvendo. Entre eles, o Dicionário Amoroso do Brasil, organizado segundo um olhar particularíssimo sobre “o país que o livrou da matriz francesa”. Autor de duas dezenas de livros, foram editados no País A Missão das Fronteiras (ed. Globo), Os Piratas (ed. Antígona) e Equinocial – Viagem pelos Confins do Brasil (ed. Pontes). Lapouge deverá vir a São Paulo em setembro, para participar de um ciclo de conferências na USP sobre as relações Brasil-França. Será acompanhado pela equipe de cinema que produz o documentário sobre sua obra e trajetória. Várias tomadas já foram feitas, entre elas, a habitual participação do autor de La Légende de la Géographie no Festival de Saint-Malo, dedicado à literatura de viagem.

Você faz uma interessante comparação entre os “marcadores de fronteiras” e os profetas, porque desenham o futuro, ao se referir a seu avô, um general francês que saía em missões demarcatórias. Hoje, há fronteiras instáveis pelo mundo e o próprio sentido de globalização parece atenuar o conceito de demarcação. Como você vê esse fenômeno?

Meu avô demarcou fronteiras, é verdade. Eu não o conheci, mas sua trajetória sempre me fascinou. A começar pela figura dele: era um homem muito pequeno e se deslocava num imenso cavalo. Acho que nunca houve um general tão baixinho no exército francês! E ele detinha esse poder de dizer “aqui é França, aqui não é”. Falar de fronteiras, hoje, é outro capítulo. Tudo anda tão mexido no mundo, mas não podemos perder de vista o jogo dialético que existe entre a fronteira e o fim dela. Sentimos uma espécie de pressão para juntar as coisas, seja pelo comércio, pelos deslocamentos humanos, pelas tecnologias. Mas já vimos que é insuportável a ideia de “mundo sem fronteiras”, como pregam os ativistas do altermundialismo. É um troço horrível e explica em parte o recrudescimento dos nacionalismos. Temos necessidade de demarcações, porque o ser humano não vive sem fronteiras. Por outro lado, depois dos atentados em Nova York, em setembro de 2001, veio a doutrina Bush passando por cima de fronteiras. Ali se perdeu a noção do limite, provocando um traumatismo mundial do qual ainda estamos nos recuperando. Mas, não se engane: mundo sem fronteiras é mundo sem forma.

E a proliferação dos muros separando mexicanos de americanos, israelenses de palestinos, isolando os saauris…?

Muros, gostemos ou não, têm uma razão de existir, assim como as fronteiras. Qual foi o primeiro grande muro da era moderna? Foi o da URSS em relação ao resto do mundo. Lenin e Trotski pensaram a universalização dos direitos, daí vem o stalinismo transformando concepções ideais num separatismo feroz e autoritário. Pense nos muros decorrentes das guerras coloniais. Pense nos independentistas tunisianos e argelinos, a França ergueu um muro abominável, empilhou milhares de cadáveres, cercou aquela população com muros eletrificados, uma barbaridade. Hoje vemos este muro horrendo separando israelenses de palestinos. Mas, por que ele está lá? Porque é impensável juntar israelenses e palestinos, essa é a verdade. Não vão se entender jamais. Em tese, os muros são abomináveis, mas acabam existindo para delimitar espaços.

São tão necessários quanto as fronteiras?

Conforme a situação, sim. Há um fenômeno interessante: fronteiras, mesmo quando são retiradas, apagadas ou transformadas, não desaparecem. Veja o caso da Iugoslávia: ao se dividir, ela o faz justamente onde havia fronteiras anteriores a 1914, nas linhas divisórias entre o império austríaco, o turco-otomano e o império russo. Por isso digo que qualquer evento histórico é, antes de sê-lo, um evento geográfico. Napoleão foi sobretudo um grande geógrafo. Antes de mandar tropas para a Rússia, o que marcaria o começo da sua derrocada, ele pediu a seu embaixador em São Petersburgo para roubar a cartografia que o czar havia mandado fazer. Pois o embaixador de Napoleão teve que se virar para consumar o roubo dos mapas e despachá-los a Paris. Já no exílio em Santa Helena, nos últimos anos de sua vida, Napoleão se dedica a pensar questões da geografia. Naquele momento, ele se interessa particularmente pelo estudo dos ventos.

Quanto há de geografia no seu trabalho jornalístico?

Muito. O tempo todo. Claro, não posso ficar chateando meus leitores com uma infinidade de detalhes nem com meu interesse pelos palimpsestos. Mas também não posso escrever sobre o conflito entre israelenses e palestinos sem ter a cabeça voltada para as coordenadas da região. Os jornalistas dizem com muita facilidade que, em algum lugar, atacaram uma mesquita, sem se perguntar quando aquele lugar foi construído, sob que condições… Fernand Braudel, ao escrever sua belíssima história mediterrânea, reservou um volume da obra para tratar só de geografia. Euclides da Cunha, autor formidável, dedica as primeiras 150 páginas de Os Sertões à geografia, porque é impossível compreender Canudos sem refletir sobre o solo, o curso dos rios, o clima, etc.

Por falar em Braudel, ele foi encarregado de promover o seu encontro com o Brasil nos anos 50, não foi?

Sim, já se ouvia falar dele por aqui. Era um historiador conhecido. Em 1935, partira para o Brasil com um grupo de franceses para fundar a Universidade de São Paulo. Eu o reencontrei em 1948, quando retornou à França. Naquela época, Julio de Mesquita Filho, diretor do Estado, havia lhe dito: “Encontre um jovem jornalista francês para vir trabalhar no meu jornal.” Soube então que Braudel procurava essa pessoa por intermédio do serviço cultural do Quai d?Orsay. Eu me apresentei, pedi a ajuda de um amigo para montar alguns textos e levá-los a Braudel, afinal, eu não era jornalista, e acabei sendo escolhido. O Brasil tem uma importância capital na minha obra, até porque 3/4 da minha vida estão ligados ao País. Graças ao Brasil eu me interessei pelo mundo e comecei a viajar. Não fosse por isso eu seria um francês normal, sem graça, de uma família francesa desde sempre.

Quando você chegou?

Em 1950, ainda na presidência Dutra. Não tinha ideia do que era o Brasil. A França saía da guerra, portanto, eu estava impregnado de um país cinza, sombrio. Ainda sentíamos os efeitos da administração Pétain, da perseguição aos judeus, etc. Deixei tudo isso para trás, porque no Brasil as cores mudaram. Foi uma revelação extraordinária do ponto de vista da beleza, da sensualidade, da capacidade de estar aberto ao outro, enfim, da joie de vivre. Com a vantagem de que não cheguei na condição de turista, mas para trabalhar.

Sua família sofreu bastante após o final da Segunda Guerra, como você conta no La Maison des Lettres.

Deixei para trás um mundo marcado pela delação e mesquinharia. Meu pai, que lutou na Primeira Guerra, serviu na Argélia, comandou batalhões pela França, acabou denunciado como colaboracionista, sendo que jamais foi um homem de Pétain. Havia muito disso naquele tempo: numa cidadezinha, as pessoas aproveitavam-se da caça aos colaboracionistas para fazer um ajuste de contas em torno de um problema qualquer. Brigas de vizinhos eram “resolvidas” com delações terríveis. Meu pai havia sido um oficial destacado, mas alguém resolveu dizer às autoridades que ele ajudara os nazistas. Como? Ele já estava fora da vida militar quando os nazistas ocuparam a França. Eu me lembro de ver, numa noite muito triste, minha mãe preparando a farda de meu pai porque ele iria para o pelotão de fuzilamento no dia seguinte. Eu tinha 15 anos, aquilo foi horrível. Felizmente, alguém da Resistência passou em nossa casa para checar as providências e viu que meu pai não poderia ser condenado, daí pediu que seu nome fosse retirado da lista de fuzilamentos.

Afinal, como é que seu pai ficou depois de quase ter sido fuzilado?

Esse episódio o quebrou para sempre. Ser acusado de alta traição à pátria foi demais para ele. Decaiu física e intelectualmente, por sorte pudemos contar com minha mãe, que era uma mulher forte. A França carregou o estigma de ser um vasto cemitério. Devo dizer que tive uma infância feliz em Aix-en-Provence, cercado de pessoas interessantes, afetivas. Não éramos nem pobres, nem ricos, éramos uma pequena burguesia que vivia bem. Mas quando saíamos de nossa casa no campo para ir a alguma cidade próxima, deparávamos com monumentos que haviam sido feitos em memória aos mortos da Primeira Guerra. Eu me detinha a contar os nomes de uma mesma família que tombaram em conflito. Famílias inteiras dizimadas.

Mas depois a belle époque veio para resgatar a alegria, a esperança.

Sim, mas havia o odor de morte por trás das canções, das festas, daqueles anos loucos. E, já em 1934, formava-se a noção de que uma nova guerra seria feita. Foi uma alegria efêmera, algo muito traumático à minha geração.

Quando você começou a viajar pelo Brasil?

Passei três anos na redação, período em que pude trabalhar perto de Julio de Mesquita Filho, que não era tão somente o dono e diretor do jornal, mas era tudo: redator-chefe, revisor, impressor, conselheiro, editorialista, tudo! Ele foi decisivo para mim àquela altura da vida, ou seja, aos 20 e tantos anos. Depois voltei à França porque meu pai estava doente, abri a sucursal do Estado em Paris e por aqui fiquei, liderando um pequeno grupo de jornalistas. Em 1975, quando do centenário do jornal, voltei ao Brasil para comemorações, daí consegui prolongar minha estada por seis meses, para viajar. Fui aos sertões, ao Nordeste, cheguei à Amazônia. O diferencial dessa viagem: passei cinco meses rodando o País de ônibus.

De ônibus?

De ônibus comum. Eu poderia ter arrumado um carro, até mesmo um motorista, o jornal me ajudaria. Mas queria seguir de ônibus, para sentir a gente, os lugares. Havia aprendido português a ponto de entender o que as pessoas falavam no ônibus. E elas não imaginavam que eu fosse jornalista, supunham-me um gringo qualquer, portanto se abriam comigo. Foi uma viagem extenuante. Muitas vezes tinha que pegar o ônibus de uma cidade para a outra às 5 horas da manhã, fazia um calor terrível, as estradas eram péssimas, eu me alimentava mal e dormia onde era possível. Em resumo, do ponto de vista físico, foi uma maratona. Do ponto de vista cultural, uma maravilha.

Que autores brasileiros você leu antes de partir?

Nenhum. Nem Guimarães Rosa. Só havia lido alguma coisa do Jorge Amado. Aliás, foi nessa viagem que o conheci em Salvador, junto com o etnólogo Pierre Verger. Meu grande encontro se deu, de fato, com o Verger. Foi ele quem me falou intensamente do Brasil, quem me abriu os olhos para o candomblé, para a herança cultural dos negros. Amado era um homem muito engajado, dizia besteiras, não o entendi bem. Um amigo comum dizia que ele era mesmo um tanto raso, mas havia um anjo que escrevia por ele (ri). Amado deixou uma obra imensa, tornou-se adorado na França, como sabemos, e, já no final da vida, comprou um apartamento no pior quartier de Paris. Perguntei qual a razão da escolha, afinal ele tinha em Salvador uma casa magnífica no Rio Vermelho, por que enfiar-se num pedaço tão feio de Paris? E ele me disse: para ser anônimo e escrever. Continuei sem entendê-lo. Mas guardo na memória as festas que o casal Amado dava na casa do Rio Vermelho: havia artistas, escritores, putas, embaixadores, uma quantidade incrível de empregados domésticos…

Você conta que na viagem até a Amazônia leu obras de Rainer Maria Rilke. Que relação a sua aventura poderia ter com a obra deste escritor?

Nenhuma. Quando viajo levo comigo leituras que nada tenham a ver com o lugar visitado. Foi uma experiência magnífica ler A Canção de Amor e Morte do Alferes Christoph Rilke numa estação de trem nos confins do Brasil. Quando você deslocaliza um texto, daí ele ganha mais força.

Você se enquadra na modalidade “écrivain-voyageur”?

Não. Sou escritor. E jornalista. O escritor-viajante é um tipo que não me agrada. Por ser alguém que só pensa em andar, em chegar ao fim do mundo, ou seja, seu objetivo é o movimento. Ele não para para olhar, para sentir as coisas. É o oposto do que busco: quando estou em São Luís do Maranhão, uma cidade da qual gosto imensamente, consigo me transformar para aquela França equinocial. Para mim as viagens interessam desde que possam ser metamorfoseadas pela literatura.

Seu livro Utopie et Civilization deu o que falar, afinal, nele você propõe uma nova interpretação para as utopias. O resultado é que foi criticado tanto por intelectuais de esquerda quanto de direita…

E não foi culpa minha! Em geral, meus livros são encomendados e escrevo para pagar as contas (ri). Encomendado o livro, comecei a estudar o tema, juntando elementos que configuravam a seguinte ideia: utopia é o contrário do que se diz dela. Não se trata de um mundo onírico, livre, onde todos partilham tudo. Trata-se de um mundo feroz. Ao pretender que sejamos iguais, o que é impossível, os utopistas suprimem a história. E, ao fazerem isso, suprimem o humano. Eu me preparei muito para escrever este livro. Tive uma tuberculose, passei um ano internado num sanatório e, ao longo desse tempo, mergulhei na obra de Platão, Thomas More, Campanella, Fourier. Você poderia pensar: os acontecimentos de maio de 1968, em Paris, faziam parte de uma grande utopia? Digo que não. O movimento da juventude era voltado para a liberdade, o amor, o romantismo. E os utopistas foram mentes que prefiguraram autoritarismos, como o nazismo e o stalinismo.

Por exemplo, Thomas More era um autoritário?

Ele foi bastante criticado por suas ideias, mas depois seria reabilitado pela Igreja. More concebia que, numa certa cidade, as mulheres deveriam ter quatro filhos. Aquelas que tivessem seis filhos deveriam entregar duas crianças excedentes para mulheres que não tinham filhos. Como catalogar as pessoas dessa forma? Os utopistas pregaram a igualdade ao preço do desaparecimento da individualidade.

Nos seus textos, inclusive os literários, você lida com divisões político-ideológicas como “esquerda”, “direita” e “extrema direita”. Estas categorias ainda funcionam?

No Brasil, está tudo muito misturado, mas creio que na França elas ainda estão funcionando. Sarkozy também mistura um pouco as coisas, é verdade. Quando ele era ministro do Interior, praticou políticas autoritárias do ponto de vista de segurança pública. Agora, nas eleições europeias, retomou o padrão antigo colocando policiais por toda parte. Deu um golpe de esperteza política: ao mostrar-se como um líder duro, atraiu a extrema direita que hoje anda sem voz de comando, pois Le Pen está velho e doente. Quer dizer, na França, a extrema direita vem se fundindo à direita.

E a “gauche” francesa? O que acontece com a esquerda?

Abre espaço para a “ultra gauche”. A esquerda clássica anda tão nula, tão vazia, que acaba cedendo aos ultraesquerdistas. O partido de Sarkozy saiu vitorioso nas últimas eleições, mas perceba que, no cômputo geral, ele perde para a soma de todos os partidos de esquerda, impulsionados por setores extremistas.

Como você vê o Brasil hoje?

O Brasil parece consolidar sua importância regional. É o país mais relevante da América Latina. Não há outro, nem México, nem Argentina. É um país de dimensões continentais, com uma população imensa e uma inteligência política considerável, construída após o fim da era dos generais. Embora haja gente que não goste dele, Lula é o vencedor dessa reconstrução democrática. Não sei o quão inteligente ele é, mas tem uma intuição política formidável. Tem até lances geniais, como o de não renunciar à sua infância triste, miserável, ou seja, sabe que não deve esconder o passado. Tem também demonstrado discernimento ao não cair nas ciladas de Hugo Chávez. Mas o Brasil precisa resolver um problema sério a meu ver: transformou-se num lugar muito violento. Volto ao livro de Stefan Zweig, Brasil, País do Futuro, e me dou conta de que o tipo de interpretação que ele fez se tornou completamente idiota. O Brasil é um país inteligente, tolerante e até mesmo educado, mas camufla seu potencial de violência e egoísmo. Existe uma cultura brasileira que se interessa pelos outros apenas no plano das superficialidades.

Como assim?

Diz-se que o Brasil é um lugar sem racismo, no entanto, há comportamentos racistas por toda a parte. Essa camuflagem é perniciosa, perversa, porque a tal cordialidade brasileira disfarça relações brutais. Veja o caso americano, e não estou falando especificamente de Barack Obama: aquela sociedade enfrentou o racismo a ponto de hoje vermos cidadãos negros em altas posições, nos mais diferentes setores. No Brasil, raros são os negros que ascendem a posições de destaque. Recentemente, retomei um texto do Cláudio Abramo, Meu País Trágico, e encontrei uma ótima reflexão: esse Brasil gentil, feliz, despojado, guarda uma tragédia no seu interior, porque permite que se morra de fome, de abandono, etc. Mesmo a burguesia brasileira, afável no trato, cria obstáculos a que a verdade social possa emergir. Quando me dizem aqui na França que o Brasil é um paraíso na Terra, contesto. Além do que, francamente, paraísos terrestres não existem.

Quais são seus próximos projetos literários?

Normalmente, eu trabalho em mais de um projeto ao mesmo tempo. Hoje estou me divertindo ao escrever um livro sobre dois animais, a abelha e o asno, relacionando-os. São bichos que acompanham desde sempre a história humana, trabalhando sem cessar. Outro projeto que me mobiliza é o Dicionário Amoroso do Brasil. Faz parte de uma bela coleção, com dicionários amorosos sobre tudo: o vinho, a mitologia, a amizade, etc. Tem a forma de um dicionário mesmo, cujos verbetes são organizados e selecionados por mim. Por exemplo, um dos tópicos chama-se “caravela”. Porque ela teve um papel fundamental na descoberta do Brasil. Pela primeira vez os navegadores utilizavam uma embarcação que também se deslocava contra os ventos, e não só a favor deles. Lugares terão entradas específicas no dicionário. Por exemplo, falo muito de São Paulo, pouco do Rio, que não conheço bem, e particularmente São Luís do Maranhão, que adoro. Ao longo desse dicionário completamente particular, vou alinhavando minhas recordações.

Conte uma, por favor.

Naquela viagem que fiz de ônibus, chego de madrugada à cidade de João Pessoa, na Paraíba, com pouco dinheiro no bolso, um cansaço enorme, e não havia hotel ou pensão abertos para me receber àquela hora. Decido dormir na praia, era o jeito. Jogo minha mochila na areia, me acomodo precariamente, mas, ainda assim, logo pego no sono. Acordo, horas depois, com uma meninota de origem bem humilde ao meu lado, segurando um guarda-sol para me proteger. Disse que estava preocupada comigo, afinal, eu poderia ter uma insolação. Jamais esqueci aquele despertar, o gesto da menina, sem me pedir nada…

Que verbete dará para essa história?

Ternura, certamente.

07/06/2009 - 14:47h O fim da classe média

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Gilles Lapouge*

De tempos em tempos, anunciam a morte da classe média. Ramon Muñoz o fez recentemente num belo artigo do jornal espanhol El País. Muitos outros “avisos de falecimento” o haviam precedido. Alguns anos atrás, o francês Louis Chauvel falava das “classes médias à deriva”, e o sociólogo Jean Lopkine anunciava que as classes médias haviam desaparecido, que elas continuavam a funcionar como “mito”.

O ponto comum entre todos esses veredictos é o pessimismo, o medo e a inquietação. Eles parecem elogios fúnebres. Consideram que o declínio da classe média provocará grandes desordens sociais e políticas. E têm razão. Então, a classe média não constitui a coluna vertebral da economia de mercado, um penhor de estabilidade e o motor das mudanças? Se ela desaparecer, a sociedade entrará em parafuso. Aristóteles, este velho grego que viveu cinco séculos antes de nossa era, nos havia prevenido: “A classe média é a fonte da estabilidade democrática”.

No entanto, embora todo o mundo esteja de acordo sobre essa agonia silenciosa da classe média, um ponto continua obscuro: ninguém sabe exatamente o que é a classe média. Mesmo a sua data de nascimento é desconhecida. Alguns a situam após 1945, durante os 30 anos de grande enriquecimento dos países avançados. Outros a remontam ao século 19, o século da máquina a vapor da burguesia. E Aristóteles já a conhecia!

Há incerteza até no que concerne a seus contornos. Ela tem uma geometria variável. Ela não é a mesma, não tem nem a mesma periferia, nem o mesmo conteúdo na primeira revolução industrial, ou em 1960, no tempo dos colarinhos brancos, ou em 2000, após a revolução informática.

Essa classe média muda também segundo o olhar dos observadores. Para uns, ela é formada pelos que ganham 1 mil (R$ 2.755) por mês. Para outros, engloba também os que têm uma receita mensal de 3 mil. É por isso, aliás, que durante muito tempo se falou não “da” classe média, mas “das” classes médias, a superior e a inferior.

Trata-se, portanto, de um objeto delicado, tão escorregadio como um sabonete molhado.

Vamos ao mais simples, portanto: esse conceito designa simplesmente a classe intermediária que se estende entre a classe rica e a classe pobre. Essa classe, outrora abastada, honrada, respeitada, tornou-se quase indigente. Ela sobrevive com 1 mil mensais, talvez.

De 1950 a 1975, essa classe intermediária cresceu bastante, pois era alimentada pelo fluxo dos antigos operários, empregados, camponeses que asce ndiam graças ao milagre econômico do pós-guerra.

Em compensação, de 1975 a 2000, assistiu-se ao movimento inverso: a classe média se esvaziou. O número de ricos e de muito ricos aumentou incrivelmente, enquanto uma grande parcela da classe média foi puxada para baixo e para a precariedade.

A classe média sofreu então duas mudanças: de uma parte, sua quantidade diminuiu, e de outra, sua renda baixou. Em 2008, 48% das pessoas pertencentes à classe média francesa não puderam tirar férias.

FENÔMENO ESTRUTURAL

E hoje? O declínio prossegue e se acentua. A pauperização também.

Hoje, os que ontem pertenciam à classe média estão, com frequência, pobres, pessoas que recebem por mês, na Europa, apenas o suficiente para sobreviver: 700 por mês na Grécia, 1 mil na Espanha e 1.400 na Alemanha ou na França (aqueles a quem chamam de “mileuristas”, palavra forjada na Espanha há alguns anos para designar os escombros dessa antiga classe média, em geral jovens ou estudantes que não dispõem de mais de 1 mil por mês).

Será o caso esperar que essa regressão seja um fenômeno temporário, uma síncope em vez de uma morte? Podemos supor que esse desastre esteja ligado à crise econômica e financeira que, partindo dos Estados Unidos, devasta o globo há um ano, essa espécie de morte cuja grande foice ceifa as fábricas, os bancos e as vidas? Infelizmente, não temos nenhuma razão para acreditar nisso.

Trata-se de um fenômeno profundo, lento e pesado. Ele opera no longo prazo, como um movimento de placa tectônica. Foi acelerado pela crise, mas não nasceu com ela. Já estava em ação antes dela. Ele começou bem antes da atual recessão. Isso significa que ele não é conjuntural, mas estrutural, não é aleatório, é fatal.

A prova? Ele é observado na totalidade dos países desenvolvidos, tanto na Polônia como na França, tanto na Alemanha como em Portugal, ou nos Estados Unidos. Acrescente-se a isso que ele progride mais ou menos com a mesma velocidade, seja qual for a ideologia, o talento ou a prática dos governos que estejam no comando. Direita, esquerda, centro, os governos podem mudar, mas o encolhimento da classe média persiste. O processo se desenvolve segundo seus ritmos e regras próprias. Ele prossegue seu curso imperturbável sejam quais forem as armas que os poderes utilizam para sustá-lo ou desacelerá-lo.

Eu me pergunto se esse declínio das classes médias, longe de ser uma consequência da crise financeira do ano passado, não seria, ao contrário, sua causa. O que se passou? A classe média americana, reduzida e necrosada há anos, havia conseguido maquiar sua própria agonia, mascará-la, apelando de maneira irrefletida e delirante ao crédito, que os bancos aliás forneciam de bom grado. A verdade é que “o rei estava nu”, mas os bancos lhe emprestavam roupas para camuflar sua nudez.

Um dia, porém, o sistema bancário, solicitado insensatamente por essa classe média ávida por luxo e distinção, mas em via de pauperização, explodiu. Desde então, a classe média se encontrou tal como ela era de fato havia já muitos anos: nua, pobre e tiritando.

Se essa análise está certa, isso significaria que o fim eventual da crise (em 2010, 2011?) não teria por efeito ressuscitar, como por um golpe de vara de condão, essa classe média naufragada? Não. Uma vez extinta a crise, as sociedades retornarão à situação que prevalecia pouco antes dela, com, de um lado, uma enorme classe indigente, de outro, uma classe de pessoas cada vez mais ricas, mais indecentes, e entre as duas, os resíduos da antiga classe média.

Essa extinção progressiva das classes médias terá efeitos devastadores sobre o equilíbrio das sociedades. Uma coisa é importante: os novos pobres, cujo número aumenta de maneira exponencial, são antigos homens e mulheres da classe média. E eles conservam dela a lembrança, a nostalgia e os hábitos.

Pior ainda: esses novos pobres, provenientes das antigas classes médias, são educados. Entre os “mileuristas”, encontram-se jovens formados em matemática, em ciências jurídicas, em letras, em belas artes. Espíritos brilhantes, formados e refinados. Ora, após concluir seus estudos, eles ganham, supondo que consigam emprego, 1 mil ou 2 mil. Portanto, amargura, desejo de revanche, desestabilização social, revolta ou revolução. Quem fez a Revolução Francesa de 1789? Os servos, os camponeses, os mendigos? Absolutamente. Esses estavam acostumados demais ao sofrimento para se revoltar. Os verdadeiros revolucionários foram os advogados sem causa, os intelectuais sem emprego, os curas desdenhados pelo alto clero.

Esse desequilíbrio entre os diplomas e os empregos (ou as rendas) longe de se reduzir só pode crescer. Hoje, em toda a Europa, os jovens aos quais não se oferece alguma ocupação não têm outra escolha senão continuar seus estudos. Temos, portanto, estudantes eternos, como nos romances de Dostoievski na véspera de uma outra revolução igualmente radical. Um estudante de 30 anos de idade é coisa corrente. E a cada ano chegam ao mercado novas multidões desvairadas, carregadas dos mais sólidos diplomas, aos quais a sociedade oferece situações grotescas, sombras de ofícios.

Ora, também aí, uma espécie de véu de ilusão é jogado sobre suas misérias. A sociedade técnica é de fato capaz de oferecer a esses jovens de alto nível intelectual, mas privados de todos os meios financeiros, ilusões, engodos. Por exemplo, todo o mundo dispõe de serviços gratuitos de internet, um verdadeiro luxo. E seria possível citar também outros engodos, outras ilusões, como as viagens a baixo custo que permitem ir até o fim do mundo quando as pessoas mal conseguem se alimentar. Não é raro um rapaz que vai e vem entre dois continentes ser constrangido, quando volta a seu país, a se alojar em pardieiros ou locais improvisados, com amigos, com outros decaídos da classe média.

Muitas vezes é a família que permite a esses jovens/velhos estudantes sobreviver e manter uma aparência de dignidade. É usual em cidades como Paris, Londres ou Praga, que um rapaz fique na casa de seus pais até os 30 anos de idade ou mais. Mas o sistema não é eterno. Aliás, os próprios pais estão sendo pouco a pouco vitimados pela pauperização. As aposentadorias diminuem, de sorte que os pais não podem mais ajudar seus filhos a sobreviver decentemente.

Contudo, embora os pais sejam também vítimas do declínio da classe média, eles continuam a desfrutar de uma vida mais digna e confortável que seus filhos. O desaparecimento, ou ao menos o esgotamento da classe média, produziu essa consequência perversa: hoje, os filhos sabem que não atingirão na sociedade um bem-estar igual ao de seus pais.

Até recentemente, o esquema era inverso: o filho vivia com a perspectiva, a promessa, de viver uma vida mais brilhante, mais bela, mais expansiva que seus pais. Essa perspectiva era um dos incentivos que impeliam os jovens a trabalhar para superar seus pais. Hoje, em lugar dessa esperança, ocorre um desestímulo, uma resignação, que estende sua sombra sobre qualquer um, como a asa da morte.

Uma regressão real e durável da classe média provocaria outros desequilíbrios na sociedade e, talvez, na civilização. Aristóteles falou corretamente quando viu nessa classe média uma ferramenta de estabilidade democrática. Se essa ferramenta se quebra, a sociedade corre o risco de ceder a todas as aventuras, a todos os perigos, a todos os suicídios. Isso já se evidencia num país como a França: a ampliação contínua do desemprego provoca reações epidérmicas muito perigosas. As greves viram enfrentamentos. Podem-se temer uma conflagração e revoltas selvagens.

Os sindicatos, essas “velhas raposas políticas”, conseguiram até aqui evitar a passagem à violência cega. Mas eles são a cada dia ultrapassados pelas tropas que atingem tamanho grau de cólera que são tentadas pelo pior, brutalidades, agressões, depredações, etc.

Será possível evitar convulsões? Nada o garante. No passado, os mineiros, os operários metalúrgicos, os trabalhadores braçais menosprezados por seus chefes, travaram lutas sangrentas. O perigo hoje é ainda mais grave, contudo. As futuras revoltas poderão efetivamente nascer não dos que nunca tiveram acesso à “mesa do banquete” (como foi o caso dos grandes movimentos populares do século 19), mas dos jovens cujos pais tinham uma vida confortável, jovens que trabalharam para atingir os altos escalões da sociedade e que vegetam no submundo.

Esses jovens, massacrados pelo fim da classe média, veem a pequena camada dos ricos, dos riquíssimos, engordar às suas custas, habitar mansões das “mil e uma noites”, levar uma vida de um luxo exagerado, exibicionista e vulgar em meio a uma profusão de ouro e caviar. Seu rancor aumenta em proporção à sua decadência. E algum dia, quem sabe, eles poderão optar pela revolta.

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris

13/01/2008 - 13:50h A reinvenção da mulher


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Simon de Beauvoir no Cafe Les deux magots – foto Robert Doisneau

No centenário de nascimento, a filósofa francesa Simone de Beauvoir, autora de O Segundo Sexo, é lembrada como pioneira do feminismo moderno

Gilles Lapouge

O Estado de São Paulo

Simone de Beauvoir, morta em 1986, teria completado 100 anos em 9 de janeiro de 2008. Ilustre, companheira de Jean-Paul Sartre, filósofa e escritora, mais célebre na América que na França, ela continua sendo a autora que dividiu em duas a história das mulheres, em 1949, quando disse ao planeta estupefato: “Não se nasce mulher. Torna-se.” Está em seu livro O Segundo Sexo, que será relançado pela Nova Fronteira em março, seguido de Os Mandarins, abrindo a série de reedições da obra da autora, com novas traduções. “A verdadeira mulher é um produto artificial que a civilização fabrica como outrora se fabricavam os castrati. Seus pretensos instintos de coqueteria, de docilidade, lhe são insuflados como ao homem é insuflado o orgulho fálico.” Na Paris efervescente, exaltada e embriagada do pós-guerra, desaba subitamente essa obra filosoficamente poderosa (Beauvoir ficou em segundo lugar no concurso para professora-adjunta de filosofia, atrás apenas de Jean-Paul Sartre, em 1929). O livro foi recebido com vociferações de ódio ou de devoção.
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19/10/2007 - 10:35h França: Estado de graça chega ao fim

O artigo de Gilles Lapouge mostra com muita acuidade o grau de descompasso criado pelo novo presidente da França, o direitista Nicolas Sarkozy, com o estado da opinião pública do pais.

Lamentavelmente, Gilles Lapouge “compra” as justificativas liberais para atacar o sistema de aposentadoria dos funcionários, ignorando que foi a própria direita que aumentou o tempo de serviço para a aposentadoria privada.

Ou seja depois de ter aumentado de 37 para 40 anos de tempo de serviço a aposentadoria do setor privado, a direita começou a atacar o “privilegio” dos servidores.

Como Gilles Lapouge “compra” o argumento liberal ele procura em outro lugar o motivo do êxito da greve. O que ele explica é verdadeiro e participa do conjunto da situação política que está levando a um desgaste muito acelerado de Sarkozy, o aspirante bonapartista.


O Estado de São Paulo

Estado de graça chega ao fim

Gilles Lapouge*

Há dias em que tudo dá errado. E para o presidente Nicolas Sarkozy ontem foi um dia sombrio. De um lado, o projeto de reforma da previdência levou às ruas uma multidão de furiosos. De outro, o Palácio do Eliseu anunciou que Sarkozy e Cécilia estão se divorciando. A greve foi dura: os engarrafamentos tomaram conta das cidades. As ruas formigavam de carros e pedestres.

A participação foi muito alta. O que surpreende porque o motivo não é digno de consideração. A greve é contra a reforma proposta por Sarkozy para abolir os “regimes especiais” de aposentadoria, que beneficiam os empregados de algumas empresas nacionalizadas desde o fim da 2ª Guerra, permitindo que se aposentem com salário integral depois de 37 anos e meio de contribuição, enquanto para os demais o prazo é de 40 anos.

Os “regimes especiais” são um anacronismo e uma injustiça. Apesar disso, nenhum governo conseguiu acabar com eles. Há 12 anos, o primeiro-ministro Alain Juppé tentou e acabou derrubado por uma greve que durou dois meses.

Sarkozy teve coragem de atacá-los. Até os socialistas concordam que é imoral perpetuar essa injustiça. Além disso, a população é hostil aos regimes especiais e desaprova essa greve.

Os líderes sindicais sabiam disso. Apesar disso, mantiveram a convocação da greve. E, mais estranho ainda, ela teve êxito.

É preciso buscar a razão em outra parte. Essa greve traduz a letargia dos franceses. Os primeiros meses de Sarkozy foram agradáveis, mas cansativos: a cada dia uma nova idéia. Contradições. Recuos. Meias-verdades. E não se vê melhora. O crescimento é mais lento. O comércio exterior desfalece. O desemprego aumenta. A inflação começa a dar sinais. E a dívida do Estado, já imensa no governo Chirac, ficou astronômica.

As camadas menos favorecidas estão fartas. Sarkozy beneficiou-se de um “estado de graça”, que acabou. A mídia, que ficou “às suas ordens”, começa a grunhir. E o bizarro governo de Sarkozy, com ministros de direita e socialistas, atira para todo lado. Os ministros brigam entre si. A crise do casal Sarkozy também exaspera.

Por isso, embora malconcebida e defendendo uma causa indigna, a greve é um sucesso. O que os manifestantes querem mostrar não é só a defesa dos “regimes especiais”. É um basta geral a um governo que fala demais, promete a lua e não consegue muitas estrelas. É nesse sentido que o dia foi memorável. Ele marca o fim do estado de graça e o início da primeira prova de força do poder absoluto de Sarkozy.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris