09/04/2011 - 15:23h Dani Rodrik: “A globalização foi longe demais”

Para o professor de Harvard, a ditadura dos mercados ameaça a democracia e a soberania das nações

JOSÉ FUCS – época

O economista Dani Rodrik, professor da Universidade Harvard, é um crítico implacável do processo de globalização econômica, centrado na abertura comercial e financeira. Em seu novo livro, The globalization paradox: democracy and the future of the world economy (O paradoxo da globalização: democracia e o futuro da economia mundial), recém-lançado nos Estados Unidos, ele diz que a ditadura dos mercados foi longe demais e representa uma ameaça à democracia e à soberania das nações. Segundo Rodrik, os países que se deram melhor na globalização não foram aqueles que abriram de forma indiscriminada suas fronteiras, mas os que se integraram de forma gradual na economia mundial e adotaram políticas comerciais e industriais para desenvolver e diversificar suas economias.

Jodi Hilton/The New York Times

ENTREVISTA – DANI RODRIK

QUEM É
Economista de 53 anos, nascido na Turquia e radicado nos EUA desde os anos 70. Professor de economia e política internacional na Universidade Harvard

ONDE ESTUDOU
Formou-se em economia na Universidade Harvard. Fez mestrado e doutorado na Universidade Princeton

O QUE PUBLICOU
Escreveu The globalization paradox: democracy and the future of the world economy, recém-lançado nos EUA, e Has Globalization gone too far?, ambos sem tradução no Brasil, entre outros

ÉPOCA – Em seu novo livro, o senhor fala sobre o “paradoxo da globalização”. Que paradoxo é esse?

Dani Rodrik – São dois paradoxos. O primeiro é que a globalização demanda instrumentos muito fortes de governança que dependem de governos nacionais. Ao mesmo tempo, os governos nacionais representam o principal obstáculo para o aprofundamento da globalização. O segundo é que uma globalização saudável é aquela que não ultrapassa os limites dos interesses nacionais. Uma globalização mais equilibrada com os interesses das nações é muito mais saudável para a economia mundial do que o que eu chamo de hiperglobalização, que é o estímulo à abertura indiscriminada do comércio e das finanças.

ÉPOCA – Por que o senhor acredita que a globalização deve ter um limite?

Rodrik – Isso tem ligação com o primeiro paradoxo. A globalização precisa de mecanismos de regulação, estabilização, legitimação, que só os governos nacionais podem fornecer. E esses governos têm um caráter eminentemente nacional. A única forma de implementar a hiperglobalização é pelo enfraquecimento dos mecanismos nacionais de governança. Isso não é bom, porque pode levar a questionamentos sobre a legitimidade do sistema internacional de comércio ou a instabilidades financeiras como a atual crise global.

ÉPOCA – A globalização e o livre-comércio não beneficiam os países e as populações?

Rodrik – É uma questão de equilíbrio. Os países que se deram melhor com a globalização não foram aqueles que abriram suas economias de forma indiscriminada. Os países mais bem-sucedidos foram os asiáticos, como Japão, China, Coreia do Sul e Índia, que se integraram na economia mundial, mas de acordo com suas próprias regras. Eles abriram suas economias de forma gradual e adotaram políticas comerciais e industriais para promover e diversificar suas economias. Conseguiram se beneficiar da globalização, mas adotaram medidas para restringir o comércio e o fluxo de capitais que são conflitantes com a ideia de uma economia aberta.

“No Brasil, muitos setores da economia não teriam crescido sem a proteção que receberam no passado”

ÉPOCA – Se os países não abrirem suas economias, a ineficiência vai aumentar. No final, as empresas e os consumidores pagarão a conta. Isso não é um contrassenso?

Rodrik – Há uma compensação. A imposição de restrições ao comércio e ao capital gera custos adicionais, mas traz benefícios. Um país vulnerável ao hot money e ao fluxo de capitais não será bem-sucedido. Em relação ao comércio, sabemos que os países emergentes não se desenvolvem e se industrializam automaticamente. Isso não é algo que o mercado faz por si mesmo. Então, acaba havendo uma compensação entre a elevação do custo para o consumidor e para as empresas, provocada pela adoção de restrições ao comércio e ao fluxo de capitais, e os benefícios trazidos por uma economia mais forte, na qual se estimulam alguns setores que de outra forma não poderiam se desenvolver.

ÉPOCA – No Brasil, havia uma política de reserva de mercado na área de informática para estimular a indústria local. Só que, além de o setor não ter se desenvolvido, os computadores eram caros, o contrabando se multiplicou e o Brasil perdeu terreno para outros países, que abriram seus mercados na área. Isso não é algo a evitar?

Rodrik – A política brasileira de informática foi claramente um fracasso, pelas razões que você mencionou. Mas em muitos outros setores a política industrial do país foi um sucesso. A indústria aeronáutica, a siderúrgica e outros setores importantes da economia brasileira não teriam se desenvolvido sem o estímulo e a proteção que receberam no passado. Em geral, o resultado das primeiras políticas industriais do país foi muito positivo. O índice brasileiro de produtividade melhorou muito durante a era de “substituição das importações”. Isso revela que é preciso manter um equilíbrio entre a integração na economia global e o estímulo ao desenvolvimento da indústria nacional. Não significa que a implementação dessas políticas será sempre bem-sucedida. Mas acredito que, se os governos não implementarem políticas industriais para estimular o crescimento das empresas locais, estarão cometendo um erro.

ÉPOCA – Por que a globalização é uma ameaça à democracia e à soberania das nações?

Rodrik – Porque, se você quiser ter mercados globais totalmente integrados, um processo que eu chamo de “hiperglobalização”, significa que você precisa ter um conjunto de regras comuns. Isso quer dizer que você precisa ter regras comuns para adequação de capital para os bancos poderem operar internacionalmente, sem custos adicionais. Significa que precisa haver regras comuns para saúde e segurança, para as grandes multinacionais poderem operar sem ter custos diferentes em cada local. Significa, enfim, que é preciso ter regras comuns em quesitos como tributos para as empresas. Se um país quiser ter impostos mais altos, as empresas irão para outro lugar, onde eles são menores. Para ter um mercado global tão integrado quanto os mercados domésticos, é necessário ter políticas comuns em nível internacional. Isso estreitaria, de forma progressiva, o espaço para que os políticos locais respondessem às necessidades de seu eleitorado. Você estaria reduzindo o espaço para a promoção de políticas normalmente identificadas com a democracia.

ÉPOCA – A globalização foi longe demais?

Rodrik – Em relação à globalização financeira e de algumas áreas de comércio, fomos longe demais. Mas há outras áreas em que a globalização andou muito pouco. Uma área sobre a qual falamos pouco é a mobilidade do trabalho. Em termos de mobilidade global de trabalhadores, principalmente os não especializados, estamos basicamente no mesmo lugar que em 1950. Se os políticos do mundo quiserem aumentar a eficiência da economia global, acho que haveria ganhos muito maiores com o relaxamento das restrições à mobilidade de trabalhadores do que nas áreas comercial e financeira.

ÉPOCA – Em sua opinião, o processo de globalização será retomado nos mesmos moldes de antes da crise atual?

Rodrik – Haverá uma grande mudança, a partir do novo papel que a China está assumindo na economia mundial. Não vamos voltar mais ao velho modelo centrado nos EUA e na Europa Ocidental. No novo modelo, a China e alguns outros países, como o Brasil, vão desempenhar papéis cada vez mais importantes na determinação das regras do jogo. A China é um país que põe em evidência a independência e a soberania nacional. A delegação de autoridade para organizações internacionais e multilaterais terá um limite. A nova face da economia mundial já está criando grandes dificuldades para um mundo governado pelos mercados e pela governança global.

28/02/2010 - 15:53h Novo paradigma em marcha?

Amir Khair – O Estado SP

A crise internacional pôs a nu a fragilidade financeira, monetária e fiscal dos países desenvolvidos, que estão sendo obrigados, para estimular o consumo, a operar com taxas de juros reais (excluída a inflação) negativas. A ajuda governamental ao sistema financeiro insolvente criou déficits fiscais e endividamentos públicos sem precedentes.

Os endividamentos elevados vão causar proximamente taxas de juros crescentes, ampliando os já elevados déficits fiscais, que por sua vez ampliarão ainda mais os endividamentos. O elevado nível de desemprego e o endividamento da população reduzem o consumo e os investimentos e isso atinge em cheio a arrecadação pública e amplia a demanda social.

Receitas públicas menores e necessidades de despesas sociais e de juros crescentes agravarão ainda mais os déficits fiscais dos países desenvolvidos e contaminarão as condições de vida de suas populações. Não se exclui, por causa da contração do consumo, a possibilidade de terem de enfrentar a deflação – queda de preços por causa da postergação das compras.

O mais grave é a possibilidade de aparecimento de crises sociais, com desestabilização política. Na Grécia, as crises sociais já começaram.

O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, afirmou que a situação fiscal dos Estados Unidos e do Japão não era muito melhor do que a da Grécia.

Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), os déficits fiscais previstos para este ano em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) da Irlanda de 12,2% e da Inglaterra de 13,3% superam o da Grécia de 9,8%. E, em tamanho da dívida líquida, Itália (100,8%) e Japão (105%) superam o da Grécia (94,6%). Como destacou Celso Ming, em sua coluna de 21 de fevereiro no Estado, com dados da OCDE: “Ficha por ficha, a dos Estados Unidos está pior do que a maioria dos países europeus. Ostenta um déficit fiscal de 10,7% do PIB e uma dívida (líquida) de 65,2% do PIB ante 6,7% e 57,9%, respectivamente, da área do euro.”

Segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da agência Bloomberg, nos últimos dez anos (2000 a 2009), o crescimento da economia em escala global foi de 42%, tendo os países desenvolvidos crescido 17,1% e os países emergentes, 75,1%, ou seja, os emergentes cresceram em média nesse período 4,4 vezes mais do que os desenvolvidos.

Para os próximos anos, a maioria das análises prevê que a diferença entre o desempenho de emergentes e desenvolvidos será reforçada, impulsionada, principalmente, pela Ásia, com grande peso para China. A previsão continua sendo de que a demanda doméstica (consumo e investimento privado) será o carro-chefe desse processo.

Ao que tudo indica, a crise serviu para acelerar um novo arranjo geopolítico em construção nas últimas décadas com o avanço da globalização, que radicalizou o processo de concorrência internacional.

A regulação de preços vai se deslocando gradualmente das políticas monetárias locais para os preços ditados pela concorrência internacional. Assim, a política monetária perde força face ao avanço da globalização comercial, que interconectou os mercados. A tendência dos preços a nível global passou a ser mais ditada pelo preço das commodities.

Dentro desse processo da globalização, a expansão natural do capital foi na direção da minimização de custos de mão de obra, de menor tributação e de localização da expansão geográfica do consumo mundial. Os países desenvolvidos têm custos elevados de mão de obra e mercados estagnados ou em declínio e, por isso foram e continuarão perdendo a atratividade que tiveram frente aos emergentes, notadamente da Ásia e em algum grau da América Latina. A consequência desse processo foi a transferência de oferta de empregos dos desenvolvidos para os emergentes, com uma incorporação sem precedentes de elevado contingente de pessoas no mercado de trabalho e de consumo nos emergentes. Essa expansão de consumo, por sua vez, reforça os movimentos do capital para esses países.

Esse movimento caminhou juntamente com os processos migratórios de mão de obra na busca de melhores oportunidades de emprego ocorrendo com a crise retorno da mão de obra a seus países de origem. A tendência desses dois movimentos é uma diminuição das desigualdades salariais em termos locais e globais. Em outras palavras, os salários mais altos e o emprego dos países desenvolvidos vão continuar cedendo terreno para os emergentes.

Ao lado desse processo, vem se desenvolvendo um enfraquecimento de controle político dos países desenvolvidos nos fóruns internacionais. Os países do G-7 (grupo dos sete mais industrializados) começam a ceder espaço aos países componentes do G-20 e são questionadas as representações dos desenvolvidos nesses fóruns.

Esse novo arranjo geopolítico está em processo e, com a crise internacional, que enfraqueceu os países desenvolvidos e fortaleceu os emergentes, a tendência é para aceleração do novo arranjo.

Outra forma de analisar esse processo de crise econômica, financeira e social dos países desenvolvidos é a do esgotamento do modelo de desenvolvimento experimentado desde o início da revolução industrial. Esse modelo se baseou numa concentração de renda e riqueza, o que levou inevitavelmente a crises de superprodução.

O novo modelo, em fase de implantação, se apoia na ascensão de forte contingente de novos consumidores pela geração de emprego e renda de populações antes marginalizadas da sociedade de consumo. Tudo leva a crer que esse novo modelo apresenta maior dinamismo e estabilidade do que o anterior. Dinamismo pela concorrência internacional sem paralelo e estabilidade por se apoiar numa base de consumo bem maior.

Dentro desse quadro, não é de esperar sustentação para a tentativa de retomada do modelo anterior, onde os países desenvolvidos detinham parcela significativa do crescimento da demanda mundial. A gangorra pende cada vez mais para a liderança dos emergentes no papel antes desempenhado pelos países desenvolvidos.

É possível que o novo paradigma econômico já esteja em fase de formação e, caso isso aconteça, a redistribuição de renda tende a beneficiar as populações dos emergentes.

Será que o capitalismo experimentará uma nova fase na qual sua viabilização se dê apoiada numa melhor distribuição de renda e riqueza?

Especialista em finanças públicas

Amir Khair, mestre em Finanças Públicas pela FGV-SP, é consultor. Foi secretário de Finanças da Prefeitura de São Paulo na gestão da prefeita Luiza Erundina (1989-1992). Atualmente é consultor na área fiscal, orçamentária e tributária.

Coordenou a elaboração do Manual de Orientação para Crescimento da Receita Própria Municipal da FGV-SP, sob o patrocínio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Elaborou o Guia de Orientação para as Prefeituras – Lei de Responsabilidade Fiscal do BNDES – e do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, em 2000.

Dentre os trabalhos que realizou, destacam-se as assessorias em gestão financeira nas prefeituras de Belo Horizonte, Salvador, Goiânia, Guarulhos, Ipatinga, Londrina, Angra dos Reis e Juiz de Fora e a criação de um sistema de acompanhamento de gestão fiscal para a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

19/12/2009 - 10:02h Uma taxa para uma globalização solidária

Marcio Pochmann e Giorgio Romano Schutte* – O Estado SP

A última reunião do G-20, em Pittsburgh, terminou com uma declaração em que se afirma estarmos no meio de uma transição crítica da crise, para “virar a página de uma época de irresponsabilidade” e adaptar um conjunto de políticas, regulações e reformas para atender às necessidades da economia do século 21.

Essa irresponsabilidade, porém, vinha sendo construída e acompanhada de um processo de concentração de renda a partir de lucros gerados na esfera financeira, descolada da economia real. Os famosos bônus geraram riquezas de pessoas físicas superiores ao PIB de muitos dos países do Hemisfério Sul. Essa produção de riquezas financeiras opera também o mais longe possível da esfera de regulação tributária e usa fartamente os paraísos fiscais. De outro lado, constatamos um déficit da comunidade internacional para cumprir com os compromissos assumidos no âmbito dos Objetivos do Milênio, embora as metas de redução da fome e da pobreza, estipuladas para serem atingidas em 2015, sejam bastante modestas.

A discussão sobre a regulação dos mercados financeiros não pode, portanto, limitar-se a restabelecer mecanismos existentes anteriormente, mas deve ser encarada como uma oportunidade para buscar transformações na ordem econômica mundial, sustentável, multilateral e menos assimétrica. Parte desse esforço consiste na construção de mecanismos solidários internacionais para a erradicação da fome e da extrema pobreza. Nada mais justo que, para atingir esse bem público global, se peça uma contribuição dos setores que mais enriqueceram com o avanço da globalização, os setores financeiros, por meio de uma taxação sobre fluxos financeiros internacionais.

Nos anos 70, o Prêmio Nobel James Tobin, seguindo as ideias precursoras de Keynes, imaginava uma taxa para limitar as especulações e flutuações nos mercados de câmbio. Por conseguinte, o imposto deveria ser suficientemente elevado para garantir esse efeito estabilizador. Em 2004, os presidentes Lula (Brasil), Chirac (França) e Lagos (Chile) lançaram uma nova abordagem sobre a taxação dos fluxos financeiros no âmbito da iniciativa da Ação Global contra a Fome e a Pobreza. Nessa proposta, a taxa serviria unicamente para levantar recursos para o desenvolvimento, sem afetar a liquidez dos mercados. A alíquota da taxação deveria ser muito baixa, de maneira a minimizar os efeitos nos mercados financeiros e os riscos de evasão. Contudo, mesmo alíquotas muito baixas poderiam vir a gerar rendimentos expressivos, por causa da magnitude desses fluxos. Números do Banco de Compensações Internacionais (BIS) mostram, em termos anuais, um fluxo de US$ 777,5 trilhões. Considerando um mínimo de impacto sobre as transações, causado pela introdução da taxa, uma alíquota de 0,005% garantiria cerca de US$ 33 bilhões anuais para ações solidárias de combate à fome e à extrema pobreza.

Um novo impulso para a discussão foi efetuado por um conjunto de 12 países, entre os quais Brasil, França, Chile, Espanha, Alemanha e ainda o Reino Unido, principal praça das transações financeiras cambiais do mundo, que criaram em outubro de 2009 uma força-tarefa e um grupo de peritos para elaborar um relatório que possa alimentar o debate nos fóruns decisórios. Até o FMI, para o qual esse assunto até recentemente foi um tabu, deve apresentar na próxima cúpula do G-20, em junho de 2010, no Canadá, o resultado de um estudo que trata do tema.

Não resta dúvida de que a viabilidade política da proposta esteja também associada às propostas para o uso dos fundos, incluindo a governança, igualmente importante para dar-lhe credibilidade. Por isso o grupo de peritos deverá ainda apresentar ideias a respeito da canalização dos recursos e do controle democrático.

Certamente a taxação sobre fluxos financeiros estará, em 2010, na agenda de várias cúpulas e instituições de governança global e deverá integrar as propostas sobre a nova regulação do sistema financeiro internacional a serem debatidas. Em 2010, a ONU também fará uma avaliação dos Objetivos do Milênio (2015). Dessa forma, faz todo o sentido voltar a discutir uma taxa sobre fluxos de capitais internacionais, como a constituição de um mecanismo de financiamento para o desenvolvimento, e uma aliança solidária pela erradicação da fome e da extrema pobreza.

*Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), é membro do Grupo de Peritos sobre a taxação de fluxos financeiros. Giorgio Romano Schutte é coordenador de estudos de política internacional do Ipea

14/07/2009 - 09:16h Sentimento do mundo

Rubens Barbosa – O Estado SP e O Globo

Nos últimos 50 anos, os Estados Unidos foram vistos como a “nação líder do mundo livre”, por muitos que aceitavam essa liderança, ou como “imperialista” – impondo a sua vontade, escorada no poderio econômico, financeiro ou militar -, segundo os que contestavam a hegemonia de Washington.

O arrogante unilateralismo norte-americano, respaldado pela mais poderosa máquina de guerra jamais construída e pelas vantagens da globalização financeira, econômica e comercial, fez os Estados Unidos perderem a credibilidade e o respeito no concerto das nações, ao longo dos últimos dez anos.

Isolados, os Estados Unidos passaram a concentrar críticas quase universais e tiveram de absorver os custos de uma guerra impopular no Iraque, além do desgaste, sobretudo, em razão das posturas ideológicas de extrema direita adotadas por um dos piores governos da história política norte-americana. Ao mesmo tempo, a situação econômica interna continuou a se deteriorar e os múltiplos déficits na economia, a aumentar. A crise que hoje tanto afeta os mercados no mundo inteiro surgiu nos Estados Unidos, que, abalados econômico-financeira e politicamente, lutam para controlar a recessão e diminuir o desemprego e as perdas da classe média.

O esforço para recuperar a economia pôs em segundo plano as preocupações do país com sua política externa, tornando difícil que os Estados Unidos possam exercer, nos dias de hoje, uma liderança efetiva para a solução de alguns dos principais conflitos globais. Os grandes problemas ou se agravam, como no Paquistão, no Irã e no conflito Israel-Palestina, ou se paralisam, como nas reformas das instituições político-financeiras, herança do pós-guerra, como a das Nações Unidas, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial.

Apesar de tudo, os Estados Unidos continuaram no centro dos acontecimentos globais.

É curioso notar o teste por que passa a teoria, comum nos meios políticos e acadêmicos norte-americanos, segundo a qual o mundo, para se manter estável e avançar economicamente, necessitaria sempre da liderança do país mais importante e poderoso da época, como foi a Inglaterra e, agora, os Estados Unidos. Contestada pela recusa de muitos em aceitar a hegemonia de Washington, a comunidade internacional enfrenta o desafio de demonstrar que a teoria é equivocada e que grandes decisões podem e devem ser tomadas como resultado de um esforço coletivo, e não da vontade da mais poderosa das nações.

A ironia em tudo o que estamos vendo acontecer é que nunca, nos últimos 50 anos, a potência dominante se viu tão vulnerável e enfraquecida, enquanto a maioria dos países tanto dela depende para o fortalecimento da economia e para a busca de soluções negociadas para os principais problemas políticos, econômicos e financeiros globais.

Estamos num período de transição e de paralisia no cenário internacional – um mundo sem liderança -, em que países desenvolvidos e em desenvolvimento ficam à espera da recuperação da economia norte-americana para evitar uma recessão mais forte e da restauração da credibilidade de sua política externa. Temo que esse impasse ainda perdure pelos próximos dois ou três anos.

Nenhum país está equipado para assumir o papel de liderança desempenhado até aqui pelos Estados Unidos. Nem a China, a União Europeia ou os países emergentes.

Apesar de tudo e de todas as restrições políticas aos Estados Unidos, muitos governos estão ajudando o país a buscar soluções para a crise de sua economia. Os recursos – estimados em US$ 2 trilhões – necessários para financiar o déficit orçamentário americano no corrente ano estão sendo fornecidos, entre outros, por países como a China e o Brasil, não exatamente seguidores incondicionais de Washington.

Pode parecer uma afirmação difícil de aceitar por muitos, mas o fato é que, em certo sentido, jamais tivemos um mundo mais unipolar do que agora.

O mundo esperou ansioso pelos primeiros discursos de Barack Obama para entender os rumos da política externa dos Estados Unidos no tocante ao Oriente Médio, às relações com a Europa, com a América Latina, com a África, com a China e com a Coreia do Norte. Como será a atitude em relação aos extremismos (a palavra terrorismo não foi utilizada no pronunciamento do Cairo sobre a relação com o Islã) e à não-proliferação de armas nucleares?

A volta do crescimento econômico, a restauração do crédito internacional, a revitalização do comércio global, a questão do nacionalismo econômico e o protecionismo comercial na área econômica, a reestruturação do processo decisório global, político e econômico, financeiro e comercial, a forma de evitar novos conflitos externos e o equacionamento dos atuais, tudo depende da ação dos Estados Unidos. Seja ela positiva ou negativa.

Os países terão de encarar o papel dos Estados Unidos no mundo a partir de como eles emergirão da crise que está afetando todos e da reação de Washington às novas realidades políticas e econômicas. Como “o resto do mundo” vai reagir quando os Estados Unidos ressurgirem da crise relativamente ainda mais fortes?

Sabendo como os Estados Unidos colocam o interesse nacional acima de tudo, no momento em que a situação econômica se normalizar, a probabilidade é de que o poderio de Washington volte a ser exercido, com estilo e tom diferentes. Os sinais, até aqui, são positivos, como indicam as reações de Washington em relação ao Iraque, ao Irã e, agora, a Honduras. As propostas do USTR para a retomada das negociações de Doha e alguns aspectos da nova política sobre mudança de clima são mais negativos.

Tendo só duas mãos e o sentimento do mundo, esperemos que, diferente de Drummond, ao amanhecer de uma nova era pós-crise, “esse amanhecer não seja mais noite que a noite”.

Rubens Barbosa, consultor de negócios, é presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp

11/06/2009 - 12:09h ”Autoridades brasileiras mostraram liderança”

Strauss-Kahn elogia engajamento do País em reforçar os recursos do FMI

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Patrícia Campos Mello, WASHINGTON – O Estado SP

O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, comemorou ontem a “liderança” do Brasil na decisão de comprar até US$ 10 bilhões em títulos emitidos pelo Fundo, como forma de capitalizar a instituição. “Com esse anúncio, o Brasil se junta a outros países no cumprimento dos compromissos assumidos pelas nações do G-20 na cúpula em Londres, em abril”, disse Strauss-Kahn.

Os países do G-20 (das 20 maiores economias mundiais) haviam se comprometido em injetar até US$ 500 bilhões no Fundo Monetário Internacional para a instituição conseguir ajudar outros países a sair da crise financeira.

O Brasil, com a Rússia e a China, propuseram a ideia de comprar títulos emitidos pelo Fundo como forma de injetar recursos na instituição.

Esses países não queriam colaborar da forma tradicional enquanto não houvesse uma reforma mais profunda na instituição, dando mais poder aos emergentes.

A China prometeu comprar até US$ 50 bilhões em títulos e a Rússia, US$ 10 bilhões. Espera-se que a Índia anuncie em breve sua compra de títulos do Fundo (ler matéria abaixo).

“As autoridades brasileiras mostraram liderança e engajamento no processo de reforma do Fundo Monetário Internacional e expansão dos recursos do Fundo, e eu fico feliz porque o Brasil está mostrando forte apoio ao sistema financeiro e econômico internacional. O Brasil mais uma vez reafirma seu forte papel de liderança entre as economias emergentes”, disse Strauss-Kahn. Segundo o diretor-gerente do Fundo, os títulos devem ser emitidos “o mais rapidamente possível”.

RESERVAS

Os títulos são vistos por alguns países, como China e Rússia, como uma maneira de diversificar suas reservas internacionais, excessivamente concentradas em dólares e títulos do Tesouro americano.

O banco central chinês já demonstrou preocupação em relação a isso e propôs que os Direitos Especiais de Saque do Fundo venham a se tornar a moeda de reserva mundial.

O Banco Central do Brasil vai decidir que ativos de suas reservas irá vender para comprar os títulos do FMI.

Os títulos do Fundo irão ter rendimento semelhante ao dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos e serão denominados na moeda do Fundo, os Direitos Especiais de Saque, que variam de acordo com uma cesta de moedas.

30/05/2009 - 12:59h Uma CPMF global

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Celso Ming, O Estado SP

celso.ming@grupoestado.com.br

O governo da França apresentou quinta-feira, em Paris, durante um evento realizado na sede da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a proposta de taxação das operações financeiras internacionais.

A ideia é instituir uma espécie de CPMF cuja criação foi defendida pela primeira vez em 1972 pelo economista James Tobin, Prêmio Nobel de 1982, que na ocasião se preocupava com o aumento do risco de crise internacional, uma vez que o presidente Nixon havia acabado com o padrão-ouro. Funcionaria como um pedágio que desestimularia operações especulativas.

A proposta ficou conhecida como Taxa Tobin e nunca teve boa acolhida. Em 2001, poucos meses antes de morrer, o próprio Tobin desistiu da sugestão, alegando que fora desvirtuada.

Ela havia sido incorporada pela Internacional Socialista como fonte de recursos para combater a pobreza. Mais interessados na arrecadação do que na sua função regulatória, também os movimentos antiglobalização liderados pela ONG francesa Attac se encarregaram de manter a peteca no ar.

Tal como apresentada agora pela França, essa taxa corresponderia a 0,005% (cinco milésimos) do valor das operações financeiras, o suficiente para proporcionar uma arrecadação anual de US$ 60 bilhões.

Em 1998, o então presidente brasileiro Fernando Henrique pediu, em carta enviada aos chefes de Estado do Grupo dos Sete (G-7), a instituição dessa taxa. Quatro anos mais tarde, o presidente Lula fez a mesma colocação no Fórum Econômico Mundial de Davos, repetida em 2005 pelo então presidente conservador da França, Jacques Chirac.

Os obstáculos políticos para a implantação da taxa são enormes. Os Estados Unidos e a Inglaterra nunca a aceitaram, um pouco por motivos ideológicos e outro pouco por razões práticas. Além disso, um imposto desse tipo exigiria cobranças e controles globais, mais a criação de uma instituição supranacional com poderes para cobrar, transferir recursos e punir sonegadores.

Os obstáculos técnicos também são relevantes. Não há, por exemplo, como distinguir rapidamente uma operação financeira de outra comercial, já que o comércio mundial (de mercadorias e serviços) é largamente financiado. Uma análise sobre a natureza de uma operação dessas levaria dias e, no entanto, as transações são feitas à velocidade da luz, 24 horas por dia.

Numa União Monetária, como a que prevalece na Europa, onde as operações de câmbio entre países foi eliminada, boa parte do fato gerador do imposto desapareceu. Além disso, uma taxa assim criaria mecanismos de compensação que evitariam transferências entre países. Se o Itaú, por exemplo, devesse US$ 1 milhão para o Deutsche Bank e este devesse US$ 1 milhão para o Bradesco, ficaria tudo resolvido se o Itaú passasse US$ 1 milhão para o Bradesco. Não existiria transferência, o imposto estaria sendo driblado e não haveria como impedir esse jogo.

O próprio Partido Socialista Francês uma vez no governo, sob o primeiro-ministro Lionel Jospin, havia desistido da proposta por considerá-la impraticável. Mas, como ocorreu com a ideia do idioma único (o esperanto), sempre aparece alguém que desenterra a Taxa Tobin e proclama que ela tem de ser adotada.

09/05/2009 - 09:02h Crise abre campo para nova moeda, diz Stiglitz

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Para Nobel de Economia, “o sistema baseado no dólar está caindo aos pedaços”

Jair Rattner, ESTORIL – O Estado SP

Para o Nobel de Economia Joseph Stiglitz, o Brasil tem espaço de manobra na política monetária devido à política de juros altos realizada até agora. Falando nas Conferências do Estoril, que têm como tema a globalização, Stiglitz disse que o País está em condições de impulsionar o crescimento econômico com a queda dos juros.

“Uma grande vantagem que o Brasil tem, curiosamente, é que o Banco Central era excessivamente restritivo na política monetária. Uma das vantagens de ter altas taxas de juro é que você pode baixá-las”, disse Stiglitz.

Ao contrário do Brasil, a Europa e os Estados Unidos não têm essa possibilidade: “Quando se chega ao zero, não se tem para onde ir. Portanto, o Brasil tem espaço de manobra na política monetária de uma forma que os Estados Unidos e a Europa não têm.”

Segundo Stiglitz, o Brasil tem uma situação privilegiada em relação aos outros países porque pode utilizar as exportações como impulso para sair da crise. “O Brasil é um dos poucos casos em que a recuperação vai depender em algum grau da retomada das exportações. Mas o Brasil é uma economia de grandes dimensões e as exportações tem um peso relativo.” Ele disse que, ao contrário das crises anteriores, a maior parte dos países não vai poder basear a saída da crise no aumento das exportações porque os mercados não estão comprando.

Stiglitz acredita que a crise vai abrir caminho para o surgimento de uma nova moeda internacional, com um banco central global. A proposta foi formulada pelas autoridades chinesas. “O sistema baseado no dólar está caindo aos pedaços. Sou o presidente da comissão das Nações Unidas para a reforma do sistema financeiro e estamos discutindo os mecanismos através dos quais isso pode acontecer.” Para ele, a reunião do G-20 realizada em abril deveria ter discutido o assunto. “Não foi um dos pontos de discussão do G-20 e isso foi uma grande desilusão da reunião.”

Ele explicou por que a proposta surgiu a partir da China. “Países que conseguiram acumular grandes quantidades de dólares enfrentam agora riscos enormes porque o valor do dólar pode cair. Portanto, há boas razões para a insegurança.” Ele considera que a falta de uma nova moeda e de um sistema financeiro que a sustente pode atrasar a recuperação econômica devido à falta de confiança no dólar, resultado das dívidas dos EUA.

Para Stiglitz, a crise atual é uma derrota do pensamento de direita. Ele disse que a derrocada do mercado subprime e de derivativos foi a prova de que a ideia de que o mercado se regula sozinho provou que estava errada. Segundo Stiglitz, outra ideia conectada com a direita que não funcionou foi a do darwinismo econômico: “Eles acreditavam que havia uma seleção natural, que os mais aptos sobreviviam, não foi o que se viu entre os bancos americanos.”

FRASES

Joseph Stiglitz
Nobel de Economia

“Eles (a direita econômica) acreditavam que havia uma seleção natural, que os mais aptos sobreviviam, não foi o que se viu entre os bancos americanos”

“O Brasil tem espaço de manobra na política monetária de uma forma que os EUA não têm”

19/04/2009 - 17:06h Antiutopia

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Verissimo – O Estado SP

 


Em inglês eles usam “dystopia” mas em português “distopia” tem outro sentido. Como se chamaria o oposto de Utopia? “Antiutopia” é óbvio, mas serve. A Utopia original, a sociedade perfeita onde tudo dava certo, foi imaginada por Thomas Morus no século 16. Dizem que ele se inspirou nas primeiras notícias do descobrimento do Brasil para inventar seu paraíso racional e situá-lo numa ilha do Atlântico Sul. Um pouco da idealização de Thomas Morus sobrevive no imaginário europeu, como se vê a cada vez que eles fantasiam uma das nossas peculiaridades, seja a alegria de viver, a sensualidade ou o Lula.

Num artigo sobre o pintor Jacques-Louis David reproduzido pela recém-lançada revista serrote, Carlo Ginsburg propõe que a derrubada do Muro de Berlim em 1989 marca o fim do ciclo histórico iniciado com a Revolução Francesa em 1789, exatamente 200 anos antes. A ideia atrai pela simetria simbólica mas a conta não é precisa. A era das revoluções começou antes da queda da Bastilha, com o Iluminismo e com a Revolução Americana (ou, se quiserem uma mais antiga, com a revolução cromwelliana na Inglaterra) e acabou antes da queda do Muro, com o Gorbachev trocando sorrisos com o Reagan. Mas como gostamos de simetria, ainda mais quando ela simplifica a História, nada nos impede de pegar emprestada a data de 1989 para marcar o fim do pensamento utópico e o começo do pensamento antiutópico.

Durante mais de 200 anos de aspiração utópica, a ideia de transformar o ser humano e a sociedade criou maravilhas e horrores quase que em doses iguais: a democracia e o fim das monarquias absolutas (pelo menos no Ocidente), o crescimento dos direitos individuais, o Terror que quase afoga a Revolução Francesa em sangue, a arregimentação social do fascismo, a perversão do socialismo pelo totalitarismo soviético – enfim, tudo anunciado ou mascarado como progresso.

O pensamento antiutópico não começou apenas com a desilusão de utopistas de esquerda com a queda do Muro e o fracasso do sistema soviético. Tem uma raiz apolítica na percepção do que estamos fazendo com o planeta, do que o progresso tem de suicida. Há uma desilusão com o capitalismo também, agravada com a crise atual. A tecnologia não nos salvará, ela é parte do problema. Só ajudará se, como resultado da nossa adaptação à antiutopia que vem por aí, aprendermos a comer telefones celulares e baterias descartadas. Hoje se especula não como aperfeiçoar o ser humano e a sociedade mas como o humano e o social sobreviverão num mundo pós-crise terminal, entregue, literalmente, às feras. Já é grande a literatura antiutopista sobre como será a vida numa sociedade tornada selvagem pela privação e o desespero.

Mas acalmemo-nos. As antiutopias previstas podem ser tão fantasiosas como a Utopia de Thomas Morus. E o Obama não disse que as coisas estão melhorando?

GLORIA

- Bem…

- Mmmm?

- Que barulho é esse?

- É o gerador para a cerca eletrificada, para os holofotes que iluminam o jardim em volta da casa e para o sistema de alarme.

- E esse outro barulho?

- São os cachorros, Gloria.

- E esse?

- É o dos guardas fechando os portões de ferro do condomínio.

- Meu Deus, e esse?

- É o helicóptero que fica sobrevoando a área a noite inteira.

- Com tanto barulho, eu não vou conseguir dormir!

- Eu sei, Gloria. Mas a única maneira de a gente poder dormir descansados é não conseguir dormir.

02/04/2009 - 09:30h A agenda escondida na crise financeira global

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Luiz Awazu Pereira da Silva – VALOR

O fortalecimento do papel regulador do Estado não significa voltar ao passado do intervencionismo

A crise financeira global, a mais grave desde a Grande Depressão, é a oportunidade para debater, sem acirrar oposições, nossas ideias econômicas, saindo das caricaturas “neoliberal” e “desenvolvimentista”. Devemos entrar nas questões de fundo para aprimorar as futuras políticas econômicas.

Em 20 anos, dois sistemas extremos de organização sócio-econômica revelaram suas limitações. O modelo de planejamento centralizado e de alocação administrativa de recursos na economia mostrou-se incapaz de assegurar níveis razoavelmente crescentes de bem-estar social, de legitimidade democrática e de incentivos ao aumento de produtividade. Sem esses incentivos, os benefícios da proteção social universal não eram financiáveis no longo prazo. Agora, o modelo de integração financeira global, confiante na eficiência de mecanismos de mercado na precificação, diversificação e alocação do risco, ou, em último caso, na sua capacidade de autorregulação, será profundamente reavaliado. Tampouco eram sustentáveis os benefícios do crescimento excepcional associados à última fase de expansão financeira global.

Certamente, o papel do Estado como regulador do sistema financeiro doméstico e globalizado receberá atenção especial. Novas regras de funcionamento do sistema financeiro exigirão maior nível de capital próprio, avaliação rigorosa dos riscos de ativos e auditoria independente. A supervisão financeira cobrirá todos os agentes, e debaterá como partilhar tarefas entre as várias instâncias supervisoras sem deixar zonas cinzentas. A informação sobre a qualidade dos ativos será mais transparente e os registros de operações deverão ser exaustivos e internacionalizados. As autoridades terão que ponderar a difícil questão da pró-ciclicalidade de qualquer sistema financeiro e como favorecer a criatividade financeira sem ameaçar a estabilidade, olhando com mais atenção para o risco sistêmico e não apenas para a solvência de cada agente.

O fortalecimento do papel regulador do Estado não significa, no entanto, voltar ao passado do intervencionismo per se. Permanecem válidas as lições sobre os limites da eficiência do Estado na produção direta de bens, assim como a dificuldade de dispensar-se de preços e incentivos de mercado na alocação de recursos. A crise reforça mais ainda a importância da estabilidade macroeconômica para o crescimento sustentável e sua sutil tradução em limites para a dívida pública e o nível de inflação. O sucesso obtido na suavização do ciclo de negócios com seus estabilizadores automáticos, suas políticas sociais, no gerenciamento da demanda agregada, na gestão de expectativas pela credibilidade de políticas econômicas, representa um patrimônio de conhecimento oriundo de crises passadas e resolvidas, que deve ser preservado.

Certamente, também deveremos repensar com bom-senso a viabilidade relativa das estratégias de crescimento por substituição de importações ou por expansão de exportações, as duas grandes experiências de desenvolvimento do Século XX, a latino-americana dos anos 50-60 e a asiática dos anos 80-90. O modelo de crescimento via substituição de importações teve os seus êxitos iniciais comprometidos pelo custo fiscal de subsídios que perderam progressivamente sua eficiência econômica mas continuaram ocupando espaço orçamentário, o que contribuiu para a crise das dívidas públicas e mostrou a necessidade de preocupar-se também com a solvência externa e a promoção de exportações.

O modelo de crescimento via expansão das exportações vê agora os seus inegáveis méritos comprometidos pela recessão global e a impossibilidade de criar repentinamente uma demanda doméstica suficiente para escoar sua enorme capacidade produtiva. Mesmo a acumulação de amplas reservas (China) não elimina a necessidade de preocupar-se também com a demanda interna e a promoção de seus consumidores. Ou seja, posições excessivamente devedoras (a América Latina dos anos 80) ou excessivamente credoras (a Ásia hoje) encontram seus limites.

Finalmente, da crise surgirão novas regras para a economia global nas áreas financeira, comercial e do meio ambiente.

A delicada questão da globalização financeira, que traz benefícios e restrições à política econômica, demandará mais cooperação internacional onde o G-20 financeiro deverá ter papel inovador. Uma nova disciplina deverá aplicar-se principalmente aos países mais ricos, onde o papel dos supervisores multilaterais (Banco de Compensações Internacionais, Fórum de Estabilidade Financeira e FMI) tem sido limitado, quando muito, à sua autoridade técnica e moral. Por exemplo, no sistema atual, excedentes de poupança fluem para ativos de referência e mais líquidos, predominantemente em dólar, e assim financiam os déficits correntes dos Estados Unidos, tolerando de fato seu nível elevado de consumo e sua baixa poupança, mesmo quando suas políticas fiscal e monetária são excessivamente expansionistas.

O inegável benefício global do rápido crescimento americano se dá à custa do acúmulo de desequilíbrios insustentáveis e uma alavancagem financeira extrema, facilitada pela desregulamentação financeira, a criação e internacionalização de ativos securitizados de difícil precificação.

No comércio, é preciso preservar as regras vigentes na OMC enquadrando o protecionismo que está inevitavelmente aparecendo nas áreas de aumentos tarifários, ações antidumping, compras governamentais, e políticas de subsídios e de medidas compensatórias. É importante valorizar o multilateralismo da OMC e aceitar as suas determinações. Uma agenda mínima não exclui, mais adiante, a retomada das ambições de Doha.

A crise tampouco dispensa refletir sobre as mudanças climáticas ligadas ao nosso modelo industrial e de consumo, usando os relatórios técnicos para reforçar os acordos propostos no âmbito das Nações Unidas. Pode ser muito lucrativo amanhã investir mais hoje em novas tecnologias e matrizes energéticas mais limpas.

Em suma, a crise é feita de ameaças gravíssimas e também de uma agenda de trabalho construtivo. Podemos e devemos olhar mais para o que nos une do que para o que nos separa e pensar concretamente no futuro que desejamos para o Brasil e os cidadãos do planeta.

Luiz Awazu Pereira da Silva foi secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda (2004-2006) e chefe da Assessoria Econômica do Ministério do Planejamento (2007-2008). As opiniões são exclusivamente do autor e não representam a dos órgãos citados. Email: Luiz.apereira@yahoo.com.

17/03/2009 - 10:37h Para seu criador, Bric pode ser ampliado

Leo Pinheiro/Valor

Jim O´Neill, diretor de análise econômica global da Goldman Sachs e o responsável pela criação do termo Bric: o consumo interno nos países do Bric está agora contribuindo significativamente mais do que os EUA

Iván Rothkegel, The Wall Street Journal, de Nova York – VALOR

Nos últimos anos, Bric tornou-se uma das palavras da moda do mundo financeiro. A sigla para Brasil, Rússia, Índia e China passou a representar o ápice do reequilíbrio de forças econômicas da globalização. Nos próximos 50 anos, esses países iriam se tornar grandes potências mundiais e a economia global não seria dominada apenas por Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão.

A pior crise que o mundo presenciou desde a Grande Depressão, contudo, está batendo pesado nos Brics e o “Wall Street Journal Americas” considerou que seria o momento oportuno para revisitar o conceito. O Bric ainda é válido ou, assim como a previsão de que o barril de petróleo chegaria a US$ 250, é outro símbolo dos excessos do mundo dos investimentos antes do colapso do Lehman Brothers?

Para obter as respostas, conversamos com Jim O´Neill, diretor de análise econômica global da Goldman Sachs e o homem que cunhou o termo. Sua resposta: o conceito é tão válido como nunca, embora possa ser expandido para incluir países como o México ou Indonésia ou excluir outros, como a Rússia. A seguir, trechos editados da entrevista, feita em 26 de fevereiro:

WSJ:Como o sr. chegou ao conceito?

O´Neill: Até 2001, eu era um dos diretores de pesquisa econômica da Goldman Sachs mundialmente. E minha maior especialidade era como economista-chefe de câmbio. No fim dos anos 90, passei a ficar mais interessado na China e na questão cambial chinesa. Então esse é o primeiro aspecto. Mas muito mais importante nesse contexto (foi que) por volta de 11 de setembro (de 2001) me tornei o único diretor de pesquisa econômica mundial para a Goldman Sachs. Então eu precisava buscar aquilo que seria a minha marca. O cara que dividia o posto comigo antes, Gavin Davis, era um pensador econômico excepcionalmente poderoso e estava no cargo antes de eu chegar. Ele liderou a análise cíclica do G7 nos anos 80 e isso é um dos motivos por que a Goldman se tornou tão bem conhecida. E então eu estava pensando: ‘Como posso fazer algo que tenha o mesmo impacto para nossa firma e nossos clientes?’ Isso era o que estava na minha cabeça. Tudo aconteceu mais ou menos ao mesmo tempo, quando houve o 11 de setembro, e eu acho que a verdadeira lição do 11/9 para mim, além do horror, foi uma mensagem de que a globalização tinha de ser diferente. Se eu combinasse aquilo com meu fascínio já forte pela China, foi isso que me levou a sonhar com a expressão Bric.

WSJ: Por que Bric?

O´Neill: Escrevi um artigo em novembro de 2001 chamado ‘O mundo precisa de melhores Brics (soa como a palavra ‘tijolo’, em inglês) econômicos’. É porque três desses países, menos o Brasil, tinham algo fundamentalmente bem diferente começando a acontecer nos anos 90 e potencialmente no futuro. No caso da Rússia era o fim da União Soviética. No da China era a adoção da economia de mercado. No da Índia era o boom mundial de tecnologia. E então, com grandes populações nesses três lugares-chave, minha visão era que com a globalização esses três países iam ser participantes importantes. A grande coisa que coincidiu com isso foi o aparecimento de Lula na cena (internacionalmente). E se você lembrar em 2000, 2001 as pessoas achavam que depois da desvalorização na Argentina o Brasil ia ser um desastre sob Lula. A coisa que chamou minha atenção no Brasil, e foi completamente subestimada por todo mundo, foi a introdução das metas de inflação (em 1999). Quando vi isso, pensei ‘pera aí, não são apenas esses três países que serão muito diferentes, se o Brasil for tratar a meta de inflação de maneira séria, o Brasil será diferente’. E pensei, sabe, que o Brasil deveria estar lá também. É um país de 160 milhões de pessoas, talvez chegando a 200 milhões. O Brasil, se mantiver a inflação sob controle, vai ser uma das maiores economias do mundo.

WSJ: Por que Bric e não MRIC, com o México em vez do Brasil?

O´Neill: Em retrospecto, a coisa que realmente deu um grande impulso ao Bric foi, dois anos depois, quando fizemos nossa primeira análise de 2050 e mostramos que os quatro países juntos poderiam ser maiores que o G7 em 2036. Então, depois de dois anos em que (o Bric) se tornou algo enorme, e com muitas pessoas perguntando por que não México, por que não Turquia, escrevemos um grande estudo dizendo como os Brics são sólidos e analisamos por que os próximos 11 países em população não estavam lá. Dos 11, para ser honesto, um deles, o México, tem provavelmente justificativas para ser incluído. Por isso muitas vezes brinco com as pessoas que talvez eu devesse ter chamado BRICM, com um M de México.

WSJ: O conceito pode ser expandido?

O´Neill: Conceitualmente, acho que sim. Digo, por volta de 2005, quando escrevemos um estudo sobre como os Brics eram sólidos, sugeri que o que realmente constitui um Bric (…) é o seguinte: um país do mundo emergente que tenha o potencial de ter pelo menos 3% do PIB mundial. Isso significa que, se algum dos atuais quatro Brics não puder realizar seu potencial, talvez ele não devesse (estar lá). Mas também significa que o México tem definitivamente esse potencial e levanta a possibilidade de que países com grandes populações, como a Indonésia, também possam.

WSJ: O sr. acha que, ao longo do tempo, as pessoas começaram a usar o conceito de uma maneira diferente da que o sr. pretendia?

O´Neill: Às vezes. Em 2007 em particular eu estava preocupado que toda a coisa do Bric estava virando uma febre insustentável no mundo do investimento. Muitas pessoas estavam elaborando fundos Bric. Um banco criou um Brict com um T de Turquia no fim etc. etc. E as pessoas estavam colocando dinheiro em fundos Bric em 2007, embora a relação entre preço e estimativa de lucro por ação da China e da Índia fossem mais que o dobro da dos EUA. E isso era claramente, como dissemos na época, insensato.

WSJ: O sr. acha que os Brics, como estão, formam um conceito sustentável?

O´Neill: Decididamente. Muita gente tola colocou dinheiro em fundos Bric em 2007 e 2008 e perdeu dinheiro. As pessoas não deveriam se esquecer que, desde que introduzimos a sigla, o índice Bric MSCI ainda está em alta de algo como 120%, enquanto o S&P 500 está em baixa de uns 20%. Ou seja, são apenas as pessoas que compraram essas coisas quando elas estavam extremamente caras que perderam dinheiro. Nunca presumimos que nos próximos 30 anos, mais ou menos, esses países sustentariam taxas de crescimento próximas das que vinham crescendo, com a exceção do Brasil. Nossa premissa para o crescimento chinês é de 5,8%. Nos primeiros sete anos da sigla Bric, a China cresceu quase ao dobro do que presumimos. Por isso, a grande desaceleração da China não ameaça nem um pouco sua parte no sonho do Bric.

WSJ:E suponho que ao fim do período o sr. leva em conta um crescimento muito mais lento para a China.

O´Neill: Entre 2011 e 2050, ou seja, descartando esta década, temos o seguinte: 4,3% para o Brasil, 5,2% para a China, 6,3% para a Índia e 2,8% para a Rússia. A China vai crescer mais que isso este ano! Quando você olha para o pensamento da moda atual, as pessoas acham que o descasamento não aconteceu. Se você olha para o consumo interno, há evidências bem claras de que, embora tenha desacelerado um pouco, o consumo interno nos países do Bric está agora contribuindo significativamente mais do que os EUA, e o tem feito há três anos, para o crescimento global. Por isso, não acho que, até agora, esta crise tenha ameaçado nem um pouco o conceito do Bric. Deixe-me acrescentar um ponto controverso. Acho que o fato de os Brics serem sólidos vai ajudar a tirar os EUA desta bagunça porque vai permitir que as exportações americanas se recuperem e sejam uma parte importante do futuro da economia americana.

WSJ: O fenômeno Bric foi associado com um boom em commodities liderado pela China e pela Índia. Agora, quando a poeira assentar, o que vai acontecer com esse boom de commodities? Como os Brics vão lidar com isso?

O´Neill: De certa maneira, a Índia tem lidado com ela particularmente bem porque a alta dos preços das commodities não era boa para o país. Você está certo, especialmente no caso do Brasil, claro, que as pessoas associam o Bric com commodities. Rússia e Brasil são ambos grandes produtores de commodities e China e Índia são ambos grandes importadores de commodities. A grande alta dos preços de commodities, que se pode argumentar ter sido causada pela China crescendo 12% durante uns três anos, foi realmente boa para Rússia e Brasil, mas na verdade bastante ruim para a Índia, e eu diria que uma possível surpresa este ano, caso consigamos parar a deterioração da crise de crédito, é que a Índia pode se sair muito melhor mais cedo do que as pessoas pensam. O declínio nos preços das commodities é um grande fator positivo para a Índia.

WSJ: Mas é um grande fator negativo para Rússia e Brasil.

O´Neill: Argumentei durante três anos que não seria possível realmente dizer se Rússia e Brasil justificariam seu status de Bric até que passassem por um períodos de preços de commodities fracos.

WSJ: Então este é um teste maior para Brasil e Rússia do que para Índia e China?

O´Neill: Este não é nenhum teste para China e Índia. É decididamente um teste para Rússia e Brasil. E é um bom teste.

WSJ: Eles passarão?

O´Neill: Acho que a evidência no Brasil já é sim. A estrutura macroeconômica de melhores práticas que Lula adotou sete anos atrás está (…) demonstrando que o Brasil pode lidar com essa crise. O Brasil dos anos 70 aos 90 estaria tão ruim quanto a Rússia. Não estou certo de que a Rússia possa enfrentá-la e temo que não possa. Até agora, esta crise está demonstrando que a Rússia é dependente demais de commodities.

WSJ: Quando o sr. fala sobre o Brasil conseguindo enfrentar, o que quer dizer?

O´Neill: A moeda enfraqueceu, o mercado acionário enfraqueceu, mas diferentemente de crises brasileiras passadas eles não tiveram de aumentar as taxas de juros para conter a saída de capital, o que é um sinal muito poderoso.

WSJ: Já vimos a China tirar proveito de algumas oportunidades de compra para conseguir acesso a alguns recursos nacionais. O sr. acha que as empresas brasileiras podem ir ao ataque também?

O´Neill: Em minha experiência nos mercados financeiros, e esta é provavelmente a sexta crise que enfrento, o que define a longevidade e o sucesso das pessoas e empresas é como elas transformam uma crise numa oportunidade. É uma coisa muito difícil de fazer. Não dá para ignorar ou minimizar os problemas desta crise, mas ao mesmo tempo o melhor momento para expandir é perto do fim de uma crise.

WSJ: O sr. acha que estamos perto do fim da crise?

O´Neill: Desenvolvemos um indicador da crise em outubro, depois que o Lehman quebrou, que consiste numa série de diferentes variáveis do mercado monetário. Este indicador está agora (26 de fevereiro) de volta ao nível de quando o Bear Stearns quebrou. Isso me sugere que, embora estejamos obviamente numa recessão mundial muito severa, a crise financeira está mais perto do fim que do começo.

WSJ:No Brasil, por exemplo, há números contraditórios. Algumas pessoas estão assustadas com os números da produção industrial, mas houve listas de espera para a compra de alguns carros depois que o governo ofereceu alguns incentivos.

O´Neill: A psicologia dos mercados financeiros será sempre a mesma. De algumas maneiras a comunidade de investimento financeiro é realmente estúpida. As pessoas estão sempre assustadas quando não deviam e estão sempre empolgadas quando deviam estar assustadas. Por que as pessoas estavam comprando fundos de ações do Bric no começo de 2008, quando a valoração das empresas chinesas era o dobro das americanas? Em segundo lugar, a produção industrial estava realmente fraca no Brasil? É a mesma coisa em qualquer país do mundo. Mas todos esses dados não deveriam surpreender as pessoas, porque refletem o fato de que o sistema financeiro mundial parou em outubro. Por isso o que você tem de olhar realmente é para o consumidor. Se as pessoas estão começando a gastar um pouco mais em lugares como o Brasil, e ouvi a mesma coisa na China, isso é realmente importante.

WSJ: Mas as coisas ainda parecem bem feias. A produção está caindo em todas as partes, os EUA não fecharam ainda um plano coerente para lidar com os bancos…

O´Neill: Não digo que a crise econômica tenha acabado, o que estou dizendo é que a intensidade da crise financeira está mais próxima do fim.

WSJ: E o mercado financeiro antecipa a economia real.

O´Neill: Sim. Isso sugere para mim que em seis meses os números de produção industrial serão melhores. Não no mês que vem, em seis meses. A chave para isso tudo é a China. Se a China for melhor no segundo semestre deste ano, o que eu fortemente acho que acontecerá, então todo o caso do Bric vai voltar a ficar muito popular bem rapidamente.

16/03/2009 - 17:39h Uma mulher na presidência

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Rose Marie Muraro (Escritora) – Correio Braziliense

Um estudo publicado pelo Banco Mundial (Engendering Development, Oxford University Press) mostra que, nos países em que a mulher alcança perto de 50% do poder, a corrupção tende a cair drasticamente. Entre eles, o estudo analisa mais detalhadamente cinco casos: Suécia, Noruega, Dinamarca, Islândia e Finlândia.

Se consultarmos as listas das Nações Unidas sobre os índices de Desenvolvimento Humano (IDH) e de Desenvolvimento de Gênero (IDG), além dos índices da Transparência Internacional, veremos que todos se encontram entre os primeiros lugares, mostrando assim que transparência, empoderamento das mulheres e desenvolvimento humano estão intimamente ligados.

Esses países — e mais alguns outros — apresentam menor desigualdade de renda, maior grau de instrução da juventude, suporte governamental a mães e pais para cuidar das crianças pequenas sem a perda dos respectivos empregos, treinamento dos homens para as suas funções parentais antes e depois do nascimento da criança, cuidado com os mais velhos bancado pelo governo, vigiados pela sociedade civil, e assim por diante. Além disso, eles possuem economias mais integradas, pouca ou nenhuma dívida governamental, inclusive com o FMI etc.

Por outro lado, os países mais ricos do mundo — EUA, Japão e Alemanha — estão em posições bem inferiores nesses índices citados.

Por exemplo, quando, em 1977, dei um curso na Universidade de Massachusetts, EUA, as mulheres me disseram que, caso engravidassem, perderiam imediatamente os empregos, fato baseado no princípio de que as empresas têm direito de não prejudicar a sua produção. Foi somente em 1978 que as americanas conseguiram uma lei que lhes permitiu ficar três meses em casa e, depois, retornar aos empregos, mas sem receberem salário durante esse período de licença. E isso até hoje, sendo que a riqueza americana mais que duplicou.

Observe-se que mais de 80% das mulheres daquele país pertencem à categoria de empregadas mal remuneradas, que tiveram pouco ou nenhum ganho com as benesses da globalização. Assinale-se também que em nenhum desses países mais ricos do mundo as mulheres atingiram 20% da participação nos vários níveis de poder.

Comparemos esses exemplos com o resultado de outro estudo importantíssimo, do Unicef, o Relatório da Integração da Infância e da Adolescência Brasileiras (2004), que mostra que as crianças filhas de mãe com baixa ou nenhuma escolaridade têm sete vezes mais possibilidades de serem pobres, 11 vezes mais possibilidades de não frequentarem a escola (de 7 a 11 anos) e, principalmente, 23 vezes mais possibilidades de serem analfabetas, se a mãe for analfabeta.

E quais são as inferências que esses três tipos de países poderiam nos suscitar? No meu primeiro livro, A mulher na construção do mundo futuro (ed. Vozes, 1966), afirmava não ser possível um país se desenvolver se não se desenvolvesse a sua metade feminina. Isso porque, quando se educavam os homens, estes tendiam a aplicar os seus conhecimentos construindo pontes e cidades, sistemas políticos e econômicos, enquanto as mulheres passavam os seus conhecimentos para os filhos, modificando, assim, a estrutura humana da cadeia de gerações. Educar um homem era educar um indivíduo, ao passo que educar a mulher era educar a sociedade.

Hoje penso de modo um pouco diferente. Não são as sociedades que mudam; é a própria espécie que evolui quando, além de se educarem, as mulheres partilham o poder com os homens. Por exemplo: em países mais ricos em que a mulher tem pouca influência nas estruturas, a competição desenfreada do livre mercado desequilibra as economias. Segundo Paul Krugman, os 20% mais pobres aumentaram os seus rendimentos apenas em 58% durante a década de 1990; o 1% mais rico aumentou-a em 282%; e, para 0,01% do topo da pirâmide, os ganhos cresceram 599%. Excluindo os ganhos de capital, isso torna os EUA não mais uma sociedade de classes, e sim uma sociedade de castas! (The Nation, 5/1/2004.)

Se no Brasil o governo e a sociedade se empenharem numa educação para homens e mulheres, enfocando a importância da educação das meninas, com ênfase em gênero, e se os poderes decisórios abrirem mais oportunidades para as mulheres nos primeiros escalões, certamente o processo de desenvolvimento humano (logo também o econômico) se agilizará e, consequentemente, expurgará décadas de estagnação — tudo isso praticamente sem custo. É por isso que apoiamos uma mulher para a presidência: Dilma.

11/03/2009 - 12:08h ”Brasil é vítima inocente da crise”


Joseph Stiglitz: Nobel de economia; para economista, a situação brasileira pode piorar ainda mais, com os efeitos da recessão “exportada pelos EUA”

http://www.bloomberg.com/apps/data?pid=avimage&iid=iRkKk96Fd3Ds

Jamil Chade, GENEBRA – O Estado SP

O Brasil já é uma das “vítimas inocentes” da crise mundial e pode sofrer ainda mais, disse o prêmio Nobel de economia, Joseph Stiglitz, sem esconder a surpresa com a queda do PIB brasileiro. “O caso do Brasil mostra que os Estados Unidos conseguiram exportar sua recessão.” Em entrevista ao Estado, o economista que lidera uma comissão da ONU para avaliar a situação internacional ainda ataca o pacote de Barack Obama. “Não é grande suficiente.” Ontem, ele lançou o filme O mundo segundo Stiglitz, em que ele explica as injustiças da globalização.

O Brasil registrou uma queda do PIB no quarto trimestre. Como sr. avalia o impacto da crise nos países emergentes?

Os números são surpreendentes. Eu fui ao Brasil há poucos meses e me diziam que a crise não o afetaria. Parece que esse não é mais o caso. Muitos países emergentes estão se tornando as vítimas inocentes dessa crise. A ironia é que, enquanto o governo americano estava dando lições sobre regulações e instituições nos países emergentes, suas políticas eram um fracasso total. O problema é que, por causa disso, hoje a crise é severa em todo o mundo e países como o Brasil vão mesmo sofrer.

Por que a tese da descolagem entre emergentes e ricos não prevaleceu?

Isso era um mito. Agora, mesmo os países que fizeram a lição de casa, tiveram boas políticas e boa situação macroeconômica, vão ser afetados. Esse é o caso do Brasil. Há apenas uma consolação em relação ao Brasil: sem o que o País fez nos últimos anos, a crise seria muito pior. O problema é que, agora, a situação pode piorar ainda mais.

O pacote de Obama é suficiente para tirar o mundo da crise?

Não. Mas precisamos pôr as coisas em perspectiva. Bush estava paralisado e as coisas pioraram a cada dia sem ele fazer nada. Hoje, temos um pacote bem melhor do que a resposta em 2008. Mas não é suficiente e a crise vai ficar pior.

Qual deve ser a solução para países emergentes que podem ficar sem recursos para relançar suas economias?

Hoje, a preocupação é de que muitos emergentes vão precisar de ajuda para superar a crise. O dinheiro, se vier do FMI, terá de vir sem condicionalidades, como existiam no passado. Nos anos 90, as exigências do FMI incluíam ordens para elevar juros e cortar gastos. Isso levou à recessão. O pior é que tudo o que o FMI disse naquela época está sendo recusado pela Europa e pelos EUA hoje. Essa é a hipocrisia.

Uma das preocupações dos países emergentes ainda é o ressurgimento do protecionismo. Como o sr. vai lidar com isso. Está na hora de concluir a Rodada Doha?

Há um acordo global de não recorrer ao protecionismo. Mas muitos pacotes têm medidas protecionistas em sua base e quem mais sofrerá serão os países em desenvolvimento. Esse é o caso do “buy American”. Mas a realidade é que a Organização Mundial do Comércio é uma decepção. Hoje, vemos que mesmo a conclusão da Rodada não traria ganhos substanciais para os países emergentes.

Então, o que o sr. sugere no setor comercial?

O que deve ocorrer agora, diante da crise, é que os países ricos devem abrir unilateralmente seus mercados para os mais pobres do mundo. Os países mais miseráveis serão tocados pela crise, mas não têm dinheiro para relançar a atividade econômica.

Alguns falam em risco de uma desglobalização diante da queda do comércio e investimentos. Isso de fato pode ocorrer?

O processo é muito mais complexo. No filme que fizemos, decidimos ir à China, Botsuana, Equador e outros países. Queríamos mostrar benefícios que de fato a globalização trouxe. Mas mostrar que perdedores também existem. O que não se pode esquecer é que esses perdedores também existem nos Estados Unidos. Siderúrgicas quebraram e os empregos foram mantidos nos Estados Unidos graças a investimentos indianos. A globalização é muito mais complexa do que o fluxo de comércio. Agora, temos prefeitos americanos tentando convencer chineses a abrir fábricas nos Estados Unidos. Enquanto os Estados Unidos gastaram US$ 3 trilhões para ir à guerra no Iraque, em alguns lugares não se tem dinheiro para escola e saúde. A globalização moderna está criando coisas que nunca pensávamos que veríamos.

O sr. acreditava que a crise seria desse tamanho?

Eu previa que teríamos uma queda. Mas não sabia quando nem que seria desse tamanho. Há gente que pensa que, nos anos 30, as pessoas eram primitivas e que agora o mundo não deixará que a depressão ocorra. Muitas vezes escuto: não há perigo de depressão. Mas já tínhamos o conhecimento sobre a crise há dez anos e o FMI fez 40% da população da Indonésia perder o emprego. Conhecimento não é suficiente. Tem de usar politicamente agora.

03/02/2009 - 11:56h Investimento externo para infraestrutura cresce 30% em 2008 e chega a R$ 3,8 bi

Daniel Rittner, de Brasília – VALOR

Os seis principais setores de infraestrutura receberam US$ 3,8 bilhões em investimentos estrangeiros no ano passado. Esse montante equivale a 8,6% dos recursos diretos que entraram no país. Petróleo e gás foram as áreas em que houve o maior ingresso de dinheiro do exterior. A tendência no médio prazo é que os investimentos alcancem até US$ 10 bilhões por ano, segundo especialistas, mas a capacidade de a economia brasileira aumentar a atração de recursos estrangeiros em 2009 depende dos desdobramentos da crise internacional e do restabelecimento do crédito externo.

Em 2008, a indústria de petróleo e gás registrou a entrada de US$ 1,339 bilhão, segundo levantamento da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). Os dados, em todos os segmentos, podem até estar subestimados. Quando uma empresa estrangeira abre uma holding ou faz parte de uma sociedade de propósito específico no Brasil, o investimento é contabilizado no setor de serviços. Mesmo assim, os recursos aplicados em infraestrutura aumentaram 30% em relação ao ano anterior.

Como proporção do total de investimentos diretos estrangeiros, os seis setores – petróleo e gás, energia elétrica, saneamento, construção, transporte e telecomunicações – praticamente mantiveram o número de 8,5% registrado em 2007. O presidente da Abdib, Paulo Godoy, acredita que haverá dificuldades neste ano para financiar grandes projetos de infraestrutura com capital externo. Para ele, o aporte extra de R$ 100 bilhões ao BNDES, anunciado recentemente pelo governo, considera esse cenário de incerteza. “O investidor estrangeiro deve continuar cauteloso e seletivo, principalmente no primeiro semestre, com tendência de melhoria nos últimos seis meses do ano”, prevê Godoy.

Em uma estimativa preliminar, o economista Antônio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), diz que o fluxo de investimento estrangeiro total no Brasil deverá cair de US$ 44,4 bilhões em 2008 para cerca de US$ 25 bilhões em 2009. Mas não vê grandes mudanças no volume de recursos destinados à infraestrutura. O setor de petróleo e gás, às vésperas do início das atividades de exploração na camada pré-sal, deve continuar na frente. Ele lembra a necessidade de aplicar US$ 600 bilhões nos novos campos, nos próximos 20 anos. “Quanto mais claros ficarem o marco regulatório e a tendência dos preços do petróleo, mais esse setor ganha atratividade”, acredita Lacerda.

O economista ressalta que “há grandes oportunidades para investimentos e interesse do governo em licitar novos projetos”. Para ele, o país não deve ter problemas em atingir, no médio prazo, um fluxo anual de US$ 10 bilhões para a infraestrutura. No dilema sobre as novas concessões de energia elétrica, rodovias e ferrovias – licitá-las agora em condições adversas ou deixá-las para mais adiante, aumentando as chances de bons deságios -, Lacerda defende que o governo mantenha o cronograma dos leilões. “O ganho que se poderia ter adiando (os leilões) não compensa o custo sistêmico de manter a infraestrutura atual”, diz o economista, lembrando a necessidade de investimento de quase R$ 100 bilhões ao ano no setor.

23/01/2009 - 09:28h De como a especulação sem limites quebrou até os especuladores

Reuters

Pânico atinge países emergentes, como a Argentina: para Krugman, será preciso realizar uma recapitalização maior e mais ampla dos bancos e afirmar com mais firmeza o controle do governo, algo que estará mais próximo da plena estatização temporária de uma parcela significativa do sistema financeiro

 

José Roberto Campos, de São Paulo – VALOR

Os poderosos bancos americanos foram dizimados pela farra com os empréstimos “subprime” e o mundo agora caminha rumo à recessão. Como foi possível que créditos irresponsáveis concedidos na periferia do sistema imobiliário americano – clientes que não obteriam crédito em situações normais – se tornassem tão destrutivos a ponto de ameaçarem a economia global? Já vimos isso antes, lembra o economista Paul Krugman, Nobel de 2008, em seu novo livro “A Crise de 2008 e a Economia da Depressão” (Editora Campus/Elsevier). Houve circunstâncias parecidas e alguns dos mesmos atores na crise mexicana de 1995, no vendaval que se abateu sobre Coréia do Sul, Malásia, Tailândia e Indonésia em 1997, na crise russa de 2008, nos fins traumáticos dos sistemas cambiais de Brasil e Argentina e no pânico com a quebra do fundo de hedge americano LTCM, em 1998.

Heterodoxo e pragmático, Krugman reescreveu partes de seu livro de 1999, em que aborda essas crises, e atualizou-o até o mergulho na insolvência dos grandes bancos americanos. Ao longo do tempo, há uma continuidade em todos os desastres econômicos recentes, e alguns padrões de comportamento repetidos em países muitos distintos entre si. “Parcela considerável do aumento da globalização financeira decorre de investimentos de instituições financeiras altamente alavancadas, que faziam vários tipos de apostas transfronteiriças arriscadas”, escreve Krugman. “Quando as coisas davam errado nos Estados Unidos, esses investimentos transfronteiriços atuavam como ‘mecanismos de transmissão’, pelo qual uma crise que eclodiu no mercado habitacional dos Estados Unidos desencadeou sucessivas outras no exterior.”

Um número grande de instituições financeiras, como bancos de investimentos e fundos de hedge, não era regulado por ninguém e reuniu tamanho poder e apetite por risco que se tornou um fator global de desestabilização das economias. Depois que elas semearam o pânico em países emergentes, implodiram junto com apostas excessivas na bolha de imóveis. É ilustrativa a descrição do poder de fogo atual dessas instituições traçado por Timothy Gethner, ex-presidente do Federal Reserve de Nova York e indicado para secretário do Tesouro do presidente Barack Obama, citado por Krugman. No início de 2007, conta, havia US$ 2,2 trilhões em coisas exóticas como “asset-backed commercial papers conduits”, “structured investment vehicles”, “auction-rate preferred securities”, “tender options bonds” e “variable rate demand notes”. Os ativos dos fundos de hedge eram de US$ 1,8 trilhão e os dos cinco maiores bancos de investimento, US$ 4 trilhões. Já os cinco maiores bancos comerciais detinham US$ 6 trilhões.

“A crise, em boa parte, não envolveu problemas com instituições desregulamentadas, que assumiram novos riscos. Ao contrário, girou em torno de riscos assumidos por instituições que, para começar, nunca foram regulamentadas.” Elas tinham tanto cacife financeiro quanto os bancões comerciais sob a vigilância do Federal Reserve, e uma ousadia que chegava quase que fatalmente à imprudência.

A história da atual recessão começa então com o estouro da bolha habitacional, que, para Krugman, deverá destruir US$ 8 trilhões em riquezas – US$ 7 trilhões de perdas para os donos dos imóveis e US$ 1 trilhão para os investidores. Esse trilhão de dólares é o rabo que acabou balançando o cachorro. Espalhados em títulos tóxicos pelo resto do mundo, forçaram uma espiral de vendas para cobrir posições e prejuízos que derrubou os preços de praticamente todos os ativos, em todos os mercados, em todo o mundo – e, casualmente, quebraram até a Islândia.

Uma retrospectiva das crises anteriores e das idéias na moda mostram como isso se tornou possível. A crença nos poderes mágicos do mercado levou os economistas a quase decretar o fim dos ciclos econômicos. O presidente do Fed, o todo-poderoso Alan Greenspan, que reinou de 1987 a 2006, e que “conseguira substituir a bolha de ações pela bolha habitacional”, disse em 2004 que o sistema bancário estava mais “resiliente”, uma afirmação só menos temerária que a do secretário do Tesouro de George Bush, Henry Paulson, que afirmou a mesma coisa em 2007, quando os bancos estavam caindo no abismo.

A mesma crença impulsionou a desregulamentação, que escancarou os mercados a investidores audazes e aventureiros, especialmente aos fundos de hedge, que, como qualifica bem Krugman, não buscam hedge e sim seu oposto, “extrair o máximo das flutuações de mercado”. O irmão gêmeo da desregulamentação foi o “risco moral”, a percepção, que se tornou verdadeira, de que qualquer estripulia financeira que desse errado seria consertada com dinheiro público, desde que fosse suficientemente grande para isso.

O crescente poder de fogo de instituições financeiras alavancadas patrocinou o “pânico auto-realizável”, que vitimou, por exemplo, os países asiáticos em 1997. Essas economias eram vulneráveis, diz Krugman, mas “não em razão do capitalismo de compadres, nem de políticas públicas que, sem dúvida, eram consideradas inadequadas”. Essa fragilidade aumentou com a abertura de seus mercados financeiros, pelo fato de, “na verdade, se tornarem melhores economias de mercado, não piores”, avalia.

Krugman considera que os US$ 700 bilhões do programa de alívio de ativos problemáticos são pouco para levantar os bancos, que poderão não estar dispostos a emprestar o dinheiro que recebem como ajuda. A recapitalização deverá ser maior e mais ampla, com maior controle do governo, “algo mais próximo da plena estatização temporária de parcela significativa do sistema financeiro”.

Ele acha que os gastos públicos são a melhor forma de estímulo econômico, superior às isenções fiscais. As vantagens: o dinheiro é realmente gasto, e não poupado, e, depois, com obras públicas “algo de valor seria construído”. A receita de um pragmático como ele é fazer tudo o que for preciso para reverter a crise, sem amarras ideológicas. Depois de afastado o perigo, deve-se consertar a bagunça. Sua posição sobre a reforma do sistema financeiro é igualmente simples. “Qualquer coisa que necessite de socorro durante a crise financeira, por desempenhar papel essencial no sistema financeiro, deve ser submetida à regulamentação, quando a crise tiver sido superada, para que não envolva riscos excessivos”, explica.

Conceitualmente, a economia da depressão parece um termo amplo demais, que abarca fenômenos distintos. Krugman a define a partir de falhas no lado da demanda da economia como “fator limitativo inequívoco à prosperidade econômica em boa parte do mundo”. Mas, pelo menos em alguns aspectos essenciais, as crises descritas surgiram durante um dos períodos de maior prosperidade da economia mundial, quando a demanda brotava em todos os lados, regada a crédito farto. A história de Tailândia, Malásia, Indonésia e Coréia é a de países bem-sucedidos, pelo menos pelo padrão das taxas de crescimento econômico.

Krugman chega a oscilar em seu diagnóstico, em geral muito preciso. A vulnerabilidade das economias da Ásia, do México e Brasil ao “pânico auto-realizável” torna-se quase inexplicável. Em um momento, acumular dívidas em moeda estrangeira é um dos principais suspeitos da catástrofe. Em outros, como no caso da Ásia, a repentina, e quase imotivada, é perda de confiança nos mercados que dá o sinal para o colapso. E chega a ser obscura a ligação entre a crise argentina e mexicana e a hecatombe atual dos bancos internacionais. “Sinto-me tentado a afirmar que essa crise não se assemelha a nada que tenhamos visto antes”, confessa. “Porém, eu seria mais exato se afirmasse que ela se parece com qualquer outra que já presenciamos em diferentes épocas, só que agora é como se todas estivessem acontecendo de uma vez, ao mesmo tempo.” A primeira hipótese, também bastante sugestiva, bem que poderia resultar em um outro ótimo livro de Paul Krugman.

11/01/2009 - 10:38h É hora de reconhecer os emergentes

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Obama deve olhar além da guerra na Faixa de Gaza para reformar o sistema multilateral global

James Traub* – O Estado SP

Antes mesmo de Israel lançar os ataques a Gaza há duas semanas, a equipe de segurança nacional de Barack Obama compreendeu que as crises poderiam facilmente eclipsar a agenda de transformação que o presidente eleito adiantou durante a campanha.

Guerras no Iraque e no Afeganistão, instabilidade no Paquistão e ameaça de proliferação nuclear no Irã seriam mais do que suficientes para desalojar qualquer ideia de planejamento de longo prazo. Agora, o Oriente Médio está em chamas de novo. No entanto, um amplo leque de especialistas em política externa insiste para o futuro presidente olhar além da fumaça e do derramamento de sangue para reformar as estruturas governantes mundiais.

Essas estruturas – como a ONU – datam do fim da 2ª Guerra, quando os vitoriosos tinham o monopólio do poder econômico e político, e o sistema de Estados parecia sólido. Não vivemos mais nesse mundo. Uma prova disso veio em novembro, quando George W. Bush reuniu o G-20 para tratar da crise financeira.

Até então, a diretoria executiva do planeta era conhecida desde que se reuniu pela primeira vez, em 1975, como G-7 (ou G-8 quando a Rússia participava). Robert Hormats, ex-funcionário do Departamento de Estado, presente naquela primeira reunião, observa que, por muito tempo, as potências ocidentais “podiam gerir a economia global sozinhas”. Agora, diz ele, “isso é inconcebível”.

A reforma está no ar. Em janeiro de 2008, o premiê britânico, Gordon Brown, fez um pronunciamento em Nova Délhi no qual observou que a globalização havia trazido novas potências para o primeiro plano. Ele pediu um novo momento de “criação” que incluiria mudanças na composição das instruções do pós-guerra e novos mecanismos para lidar com mudança do clima, pobreza, energia e não-proliferação nuclear.

Bem mais provocativo para o mundo em desenvolvimento é a composição do Conselho de Segurança da ONU, cujo rol de membros permanentes com direito de veto não mudou desde a sua criação. Obama, diferentemente de seu antecessor, vê a ONU como um instrumento fundamental para a política externa americana, mas poderá ter algumas iniciativas bloqueadas pela antipatia do Terceiro Mundo à influência desproporcional do Ocidente. Especialistas dizem que ele angariaria uma enorme boa vontade se apoiasse abertamente assentos no conselho para os atuais aspirantes: Índia, Brasil, Alemanha, Japão e África do Sul.

Será que um Conselho de Segurança ampliado ajudaria Obama a cortar o nó górdio no Oriente Médio? Infelizmente, não. A ONU desempenha hoje um papel apenas secundário de mediação entre Israel e palestinos, para os quais a Casa Branca e potências selecionadas do Oriente Médio continuarão sendo os interlocutores preferidos. Um novo Conselho de Segurança não poderia resolver tampouco as tensões criadas por um de seus membros permanentes, como uma Rússia, cada vez mais impaciente e belicosa.

No entanto, da última vez que a ONU fez uma iniciativa séria para ampliar o conselho, em 2005, cada candidato tinha seu próprio inimigo jurado – geralmente, um vizinho. Alguns defensores sugeriram que Washington se concentrasse primeiro na limitação do uso do veto e, só depois, no acesso de novos membros.

EFICIÊNCIA

Ademais, tornar uma organização mais representativa não a torna necessariamente mais eficaz. A crise financeira demonstrou a necessidade de novos mecanismos regulatórios globais. Esses serão agora reunidos segundo instruções de ministros da economia do mundo em desenvolvimento e do Ocidente.

Isso as tornará mais sólidas? Considerando a resistência de muitos membros do G-20 a padrões mais rígidos de contabilidade, a resposta é: “Não necessariamente.” Então, qual será a alternativa? O Ocidente quer que China, Rússia e as economias emergentes se vejam como atores globais responsáveis. Isso significa dar-lhes participação no sistema e esperar que essa participação os torne partes interessadas melhores.

Os defensores da reinvenção parecem ter os méritos do seu lado. Qual a importância de criar e reformar essas novas estruturas em comparação com a administração da crise? Essas perguntas foram feitas a elementos da equipe de transição de Obama, que não quiseram comentar.

É evidente que a ONU pode esperar, ao passo que a paz no Oriente Médio, não. Mas existe outra maneira de olhar para a questão: um governo que queira trabalhar via instituições, e não por meio de coalizões, terá de escolher entre reformar essas instituições ou vê-las cair na irrelevância.

Em outras palavras, a mudança virá, de um jeito ou de outro. Segundo David Rothkopf, especialista em segurança nacional, a questão é: “Permitiremos que ela avance no seu próprio ritmo, descoordenada, aos poucos, ou veremos isso como uma oportunidade e produziremos uma nova visão de um sistema que promova interesses americanos assim como a visão do pós-guerra fez por 60 anos?”

*James Traub é direto de políticas para o Global Center for the Responsibility to Protect

14/12/2008 - 09:49h Um prognostico pessimista com argumentos

”Crescimento zero será bom resultado para o Brasil em 2009”

Professor de Harvard diz que País está mais bem preparado para enfrentar a crise, mas não tem como escapar de seus efeitos

Leandro Modé – O Estado SP

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/9/92/Kenneth_Rogoff.jpg/225px-Kenneth_Rogoff.jpg

O americano Kenneth Rogoff, de 55 anos, é um dos mais respeitados economistas do mundo hoje, o que não significa que seja unanimidade. Suas posições ortodoxas, muitas vezes expressas de uma forma contundente, nem sempre agradam ao interlocutor. Em 2002, quando era economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), envolveu-se em uma polêmica pública com o ex-economista-chefe do Banco Mundial e ganhador do Prêmio Nobel, Joseph Stiglitz. O tema da contenda era globalização. Talvez pelo cargo que tenha ocupado, Rogoff procura manter-se atualizado sobre a economia de vários países. Esse conhecimento dá a ele a certeza de que o mundo está em meio à pior recessão desde a Segunda Guerra Mundial. Por isso, avisa: o Brasil deve dar-se por satisfeito se não enfrentar recessão em 2009. Rogoff, que hoje leciona na Universidade Harvard, conversou com o Estado, por telefone, durante uma viagem de trem de Boston para Nova York.

Leia a íntegra da entrevista

Em artigo publicado há duas semanas, o sr. disse que o maior problema dos países ricos é a recessão. Por isso, devem deixar os juros em segundo plano. O que dizer de países emergentes, como o Brasil?

Os países emergentes têm muito menos espaço para políticas contracíclicas do que os Estados Unidos e os efeitos da inflação são mais danosos. Nos EUA, a inflação reduz o valor real das dívidas e pode ser parte da solução dos atuais problemas. O Brasil não tem esse problema. Além disso, como a inflação no Brasil já é elevada, o Banco Central está entre a cruz e a espada.

Como assim?

A economia global está apenas entrando na pior recessão desde a Segunda Guerra Mundial. As commodities estão despencando e o mercado de crédito secou. Ou seja, é uma situação extremamente difícil e perigosa. O crescimento no Brasil certamente vai desacelerar. Mas, ao mesmo tempo, a inflação permanece elevada. Isso deixa ao Banco Central um espaço menor para responder como gostaria (à desaceleração). Além disso, o real depreciou-se fortemente. Reduzir a taxa de juros desvaloriza o real à frente. Mas, como os juros estão caindo rapidamente mundo afora, o BC brasileiro acabará reduzindo a taxa.

Quando?

Em breve (risos). Ainda que o Brasil esteja às voltas com preocupações inflacionárias, a economia global enfrenta o risco de deflação. Isso ocorre nos EUA, na China e na Europa. Os preços das commodities estão despencando e a produção industrial está caindo. O Brasil sentirá tudo isso logo. Quaisquer que sejam as pressões inflacionárias, serão revertidas em breve.

O sr. vê risco de recessão no País?

Há grande chance de o Brasil experimentar uma recessão suave. É quase impossível escapar disso, uma vez que se espera uma profunda recessão no mundo. O Brasil vai sofrer como todos os outros, mas não acho que sofrerá mais do que os outros. Todas as mudanças que o Brasil implementou nos últimos anos vão permitir que a reação seja muito melhor do que há 10 anos. É uma situação desastrosa, mas, em termos relativos, o Brasil está melhor do que muitos outros países.

Qual sua projeção para o crescimento do Brasil em 2009?

Crescimento zero será um bom resultado, levando-se em conta o ambiente global.

Mas as pessoas aqui falam algo entre 2% e 3%.

Elas são otimistas. A economia global está afundando muito rapidamente.

Qual o seu cenário principal para a economia mundial em 2009?

Como já disse, será a pior recessão desde a Segunda Guerra, mas nada que se assemelhe à Depressão dos anos 30.

O que o sr. espera especificamente para os EUA?

Uma recessão que dure 2009 inteiro. Em 2010 e 2011, o crescimento ainda permanecerá lento, abaixo de 2%. Os preços das residências continuarão a cair e o desemprego, a subir. Os emergentes também terão uma queda em 2009, mas se recuperarão mais fortemente em 2010 e 2011.

E o PIB (Produto Interno Bruto) americano em 2009?

Crescimento negativo entre 3% e 4%.

Com essa retração nos EUA, como fica o PIB mundial?

Pode ficar negativo, especialmente se a China desacelerar mais do que se espera. Isso ocorrerá certamente em um ou dois trimestres. Para o ano todo, espero um crescimento na faixa de 1%.

E a China?

A China também está sofrendo. Já esperava que a China poderia crescer no máximo 6% no ano que vem. Agora, não ficaria surpreso se o país crescesse menos ainda do que isso. Temos de cruzar os dedos para que a China não tenha uma ruptura econômico-social, porque isso poderia aprofundar ainda mais a recessão global.

Alguns países estão sofrendo mais que os outros, como, por exemplo, a Hungria e a Rússia. Por quê?

A Hungria teria uma crise financeira de qualquer maneira. Eles tinham um endividamento instável, uma situação fiscal ruim. A Rússia é outro assunto. É basicamente uma economia de commodity (petróleo). O sistema russo não estava preparado para um petróleo a US$ 40. Eles nunca permitiram que a economia se diversificasse. O Brasil, por exemplo, tem uma economia muito mais diversificada.

Qual sua expectativa em relação à administração Barack Obama?

Ele montou uma grande equipe, incluindo (Timothy) Geithner (que será secretário do Tesouro), (Larry) Summers (que será diretor do Conselho Econômico da Casa Branca) e (Paul) Volcker (ex-presidente do BC americano, Fed, indicado para dirigir um conselho destinado a propor soluções para a crise). Por si só, isso já inspira confiança. Obama fará um serviço muito melhor do que (George W.) Bush no que se refere às pessoas se sentirem assistidas, e isso vai melhorar o humor da população. A administração atual já está em férias. Mas não deve haver dúvidas: mesmo os melhores e mais brilhantes não serão capazes de resolver o problema da noite para o dia.

12/12/2008 - 11:58h Deixem os emergentes dominar

Dani Rodrik – VALOR

http://www.cnh.coop.br/2008/images/foto_cooperativa.jpgExiste um raio de esperança para os países em desenvolvimento na crise atual, pois eles emergirão com uma voz muito mais ativa nas instituições que regem a globalização econômica. Assim que a poeira assentar, China, Índia, Brasil, Coréia do Sul e um punhado de outros países “emergentes” conseguirão exercer maior influência sobre a forma como as instituições econômicas multilaterais são administradas, e estarão em melhor posição para pressionar por reformas que reflitam os seus interesses.

Existem dois motivos relacionados para tanto. Primeiro, a crise financeira debilitou os EUA e a Europa. Eles relutarão ou não terão condições de oferecer o tipo de liderança que manteve o multilateralismo nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Os países em desenvolvimento precisarão progredir para preencher a lacuna.

Segundo, o peso e importância relativos dos países em desenvolvimento na economia global terão aumentado ainda mais. Um grande número das mais importantes instituições financeiras da Europa – as que não foram nacionalizadas -, assim como algumas importantes empresas industriais, continuará à mercê de capital proveniente da China ou dos países do Golfo. No comércio exterior, a rodada atual de negociações demonstrou que, se os países ricos quiserem que os países em desenvolvimento cooperem, precisarão deixar que estes últimos estabeleçam as regras do jogo.

Para obter o melhor resultado, países em desenvolvimento precisarão ter um bom sentido dos seus interesses e prioridades. Assim sendo, o que eles deverão almejar?

Primeiro, eles devem pressionar por novas regras que façam as crises financeiras ser menos prováveis e suas conseqüências, menos graves. Quando deixados para fazer o que querem, os mercados financeiros globais estendem crédito demais e barato demais nos bons tempos, e crédito escasso demais nos maus tempos. A única resposta eficaz é administração anticíclica da conta de capital do balanço de pagamentos: desestimular tomadas de empréstimo no exterior durante períodos de crescimento econômicos e evitar a fuga de capital durante retrações econômicas.

Portanto, em vez de desaprovar os controles de capital e pressionar por abertura financeira, o Fundo Monetário Internacional deveria se empenhar ativamente em ajudar os países a implantar essas políticas. A instituição também deveria aumentar as suas linhas de crédito emergenciais para atuar mais como um emprestador de última instância para os países atingidos pela vergastada financeira.

A crise é uma oportunidade para obter maior transparência em todas as frentes, inclusive nas práticas bancárias nos países ricos, que facilitam a evasão fiscal nos países em desenvolvimento. Cidadãos abastados nos países em desenvolvimento desviam mais de US$ 100 bilhões em impostos dos seus países de origem a cada ano, graças a contas bancárias em Zurique, Miami, Londres e demais lugares. Os governos dos países em desenvolvimento deveriam solicitar e receber informação sobre as contas dos seus cidadãos.

Os países em desenvolvimento também deveriam pressionar pela adoção de um imposto Tobin – um imposto sobre transações globais em moeda estrangeira. Estabelecido a um nível suficientemente baixo – de, digamos, 0,25% -, este imposto teria pouco efeito adverso sobre a economia global e, ao mesmo tempo, arrecadaria uma receita considerável. Na pior das hipóteses, os custos de eficiência seriam pequenos; na melhor das hipóteses, o imposto desestimularia a excessiva especulação de curto prazo.

As receitas arrecadadas – folgadamente de centenas e bilhões de dólares anualmente – poderiam ser gastas em bens públicos globais, como ajuda ao desenvolvimento, vacinas para doenças tropicais e a adaptação das tecnologias em uso nos países em desenvolvimento às normas de proteção ambiental. As dificuldades administrativas para implantar um imposto Tobin não são insuperáveis, contanto que todos os principais países desenvolvidos acompanhem. Dessa forma, seria possível obrigar os centros financeiros dos paraísos fiscais a cooperar, ameaçando isolá-los.

Os países em desenvolvimento também precisam consagrar a noção de um “espaço de política” na Organização Mundial do Comércio (OMC). O objetivo deve ser o de assegurar que os países em desenvolvimento possam empregar o tipo de políticas industriais e de comércio exterior necessárias para reestruturar e diversificar as suas economias e preparar o cenário para crescimento econômico. Todos os países que se globalizaram com êxito usaram estas políticas, dentre as quais muitas (por exemplo, subsídios, regras de conteúdo nacional, engenharia reversa de produtos patenteados) não são mais permitidas pelas normas da OMC.

O espaço político também é necessário para assegurar que importantes objetivos políticos e sociais – como segurança alimentar – sejam compatíveis com as normas de comércio internacionais. Os países em desenvolvimento deveriam argumentar que o reconhecimento destas realidades políticas e econômicas não torna o regime de comércio global mais frágil e mais suscetível ao protecionismo, mas mais vigoroso e mais sustentável.

O aumento de poder, porém, também acarreta aumento de responsabilidade. Os países em desenvolvimento precisarão ser mais compreensivos e mais sensíveis às legítimas preocupações nos países ricos, e se dispor a pagar mais por alguns bens públicos globais. Países em desenvolvimento exportadores de capital também devem estar dispostos a aceitar maior transparência na operação dos fundos soberanos e se comprometer a não usá-los para fins políticos. Os maiores países em desenvolvimento – China, Índia e Rússia – precisarão arcar com parte da responsabilidade de reduzir o efeito estufa.

Igualmente, os países em desenvolvimento precisam entender que o espaço político é uma via de duas mãos. Em países como os EUA, onde a classe média colheu uma pequena parte dos benefícios da globalização nos 25 anos passados, a política comercial ficará sob forte pressão para oferecer algum alívio. O presidente eleito Barack Obama transformou os apuros da classe média numa plataforma central da sua bem-sucedida campanha. Seu principal assessor econômico, Larry Summers, também se tornou ultimamente um crítico eloqüente do impacto adverso da globalização sobre os trabalhadores.

Não será muito proveitoso para os países em desenvolvimento levantar o espectro do protecionismo a cada vez que essas preocupações forem manifestadas. A realidade política e econômica requer uma abordagem mais sutil e cooperativa. Os países em desenvolvimento devem dizer não ao óbvio protecionismo comercial, mas precisam estar dispostos a negociar para evitar corridas regulatórias até o fundo do poço, em áreas como normas trabalhistas ou tributação de empresas. Isso está no seu próprio interesse. Sem o apoio das classes médias dos países ricos será difícil manter um regime de comércio global tão aberto como o que tivemos nos anos recentes.

Dani Rodrik, professor de Economia Política na Escola de Governo John F. Kennedy da Universidade Harvard, é o primeiro ganhador do Prêmio Albert O. Hirschman, do Social Science Research Council.© Project Syndicate/Europe´s World, 2008. www.project-syndicate.org

10/12/2008 - 11:25h Tudo que é sólido desmancha no ar

David Kupfer – VALOR

http://www.galizacig.com/avantar/files/images/20080429_economics.jpgEntre as muitas perplexidades enfrentadas por todos que tentam compreender os desdobramentos relacionados à evolução da crise financeira mundial, talvez a maior esteja na rapidez com que vem se dando o seu contágio para o mundo da produção. Tantos quantos têm acesso às informações sobre o desempenho das empresas mostram-se surpresos com o pequeno intervalo de tempo que separou o momento da quebra da corretora Lehman Brothers em 15 de setembro último, considerado o marco inicial da fase aguda da crise, e a enxurrada de notícias dando conta da suspensão de projetos de investimento em novas fábricas, ou da interrupção da produção por meio de férias coletivas, ou ainda da edição de extensos programas de demissões. Será isso um sintoma de que as atividades produtivas estão enfrentando algo além da reversão das expectativas sobre os seus níveis de demanda?

Quem imaginava que o estouro da super-bolha de ativos financeiros acumulada nas últimas décadas iria cobrar seu preço apenas dos rentistas e especuladores, vê agora que a financeirização do capitalismo contemporâneo nos países centrais está comprometendo também aquilo que parecia ser a maior virtude do modelo fabril construído nos anos recentes: o primado de um sistema de produção genuinamente “em massa”, efetivamente desintegrado no plano tecnológico e verdadeiramente organizado em escala planetária. Como facilmente evidenciado pela análise do elenco de agentes e regiões envolvidos na produção de um simples calçado vendido no mercado americano, ao contrário do que se supunha nos idos da década de 80, quando começaram a se materializar os dogmas da abertura e da desregulamentação dos mercados nos países centrais, o mundo não se tornou uma feira livre global. Muito distante do que seria o mundo walrasiano dos preços totalmente flexíveis, no qual todos os vendedores e compradores barganhariam preços ao sabor dos resultados ora superavitários, ora deficitários, dos balanços entre demanda e oferta, a globalização criou o contrário: cadeias de suprimentos em escala mundial, muito longas no espaço e, freqüentemente, também longas no tempo, nas quais as encomendas são feitas com grande antecedência, em sistemas produtivos enxutos, com insumos e produtos entregues just-in-time, sem estoques e sem desperdícios. Portanto, esquemas produtivos fortemente apoiados em planejamento da produção, sobre os quais dificilmente se pode esperar ajustamentos muito bruscos, sem grandes prejuízos da coordenação geral do próprio sistema.

Sem dúvida que a viabilização desses sistemas de produção tem como um de seus pilares a alta capacitação da engenharia, que planeja tempos e movimentos, define logísticas, sincroniza as entradas e as saídas de mercadorias, enfim, permite às empresas a absorção das fortes economias dinâmicas de escala e escopo requeridas como resposta aos imperativos de qualidade, eficiência e estabilidade impostos pelo acirramento da concorrência ao nível global. Mas também é decisivo para o eficaz funcionamento desse modelo fabril a existência de um sistema financeiro que possibilite postergar o pagamento dos custos de insumos e antecipar o recebimento das receitas pois, do contrário, as pressões sobre o fluxo de caixa poderiam comprometer a economicidade final do próprio modelo. Em suma, nesses novos sistemas produtivos, banco e indústria alcançaram um grau inédito de interpenetração, com as empresas industriais tornando-se extremamente dependentes de operações financeiras também para as suas atividades correntes. Por isso, é possível que aquilo que parecia tão sólido, o grande autômato da produção em massa, tenha se desmanchado em conseqüência da falta do lubrificante financeiro, trazida pelo sumiço da liquidez pós-crise. Embora seja muito cedo para que se disponha de elementos capazes de comprovar ou não essa tese, é possível que a grande novidade na atual crise seja o fato de que a humanidade esteja observando, pela primeira vez em sua história, quão devastadores podem ser os efeitos de uma mudança abrupta da velocidade de funcionamento de um sistema de produção em massa com as características descritas. Essa poderia ser a explicação adicional para a rapidez do contágio.

Em que medida tudo isso afeta a indústria brasileira? Nosso sistema industrial, por diversas razões, ainda estava e permanecerá muito distante desse modelo desintegrado e deslocalizado que caracteriza as cadeias virtuais de suprimento mundo afora. Dados publicados pelo jornal “Folha de São Paulo” há poucos dias dão conta de que, em 2007, metade do valor total dos investimentos das empresas industriais brasileiras foram financiados por meio da retenção de lucros das operações prévias, isto é, pela via do autofinanciamento. Dos demais 50%, metade teve origem no BNDES, restando ao mercado de capitais, à captação externa e a todas as demais formas de acumulação externa a parcela restante. Para as operações correntes, os dados não são disponíveis mas sabe-se que não devem diferir muito desses padrões. A pouca profundidade do sistema financeiro nacional, o racionamento de crédito que sempre existiu no país, os elevados juros efetivamente pagos pelos tomadores de dinheiro explicam o fato conhecido de que a penetração dos instrumentos creditícios e a alavancagem das empresas brasileiras tenham se mantido em níveis muito baixos quando comparados aos países desenvolvidos e até mesmo a muitos dos países emergentes. Dessa perspectiva, parece legítimo esperar que a indústria brasileira provavelmente não sinta os efeitos da dessincronização dos sistemas produtivos globais de forma tão intensa quanto as indústrias líderes. Nossos problemas permanecem basicamente os mesmos, justificando todos os esforços visando preservar ao máximo a demanda interna, os planos de investimentos em andamento ou prestes a serem deslanchados e a melhoria recente alcançada no nosso mercado de trabalho. Feliz ano velho para todos nós.

David Kupfer é professor do Instituto de Economia da UFRJ e coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade (GIC-IE/UFRJ. Escreve mensalmente às quartas-feiras. www.ie.ufrj.br/gic E-mail: gic@ie.ufrj.br)

08/12/2008 - 09:30h Ataque e defesa

http://www.lepoint.fr/content/system/media/2/20080320/2008-03-20T120136Z_01_NOOTR_RTRIDSP_2_OFRBS-BANQUE-CRISE-ANALYSTE-20080320.jpg

Carlos Alberto Sardenberg* – O Estado de São Paulo

Reparem no noticiário destes dias. Podemos resumi-lo em duas colunas. Na primeira, seguidas informações sobre o enfraquecimento da atividade econômica no mundo todo. Na segunda, ações dos bancos centrais e pacotes dos governos para reanimar a economia.

O impacto maior, no primeiro momento, é sempre das notícias sobre o agravamento da recessão, especialmente nos países desenvolvidos: demissões, férias coletivas, interrupção de produção, fechamento de fábricas e empresas que entram em concordata.

Na sexta-feira, por exemplo, saiu a notícia que deve ter sido a pior sobre a crise até aqui, no que se refere à economia real: em novembro a economia americana eliminou nada menos que 533 mil empregos, número muito acima da expectativa média (perda de 350 mil postos) e colado na previsão mais pessimista.

Todos se assustam com o tamanho e a rapidez com que a crise se espalha. Resulta daí a desconfiança de que esta crise será mais longa do que se esperava (ou se desejava). A expectativa mais favorável conta com o início da recuperação para o segundo semestre de 2009. A mais negativa diz que a recuperação só virá, e lentamente, a partir de 2010 – e isso se os governos tomarem as providências corretas a tempo. O que nos leva para a segunda coluna do noticiário: a reação à crise.

Tem sido notável o esforço de bancos centrais e autoridades econômicas e políticas. Só na semana passada, tivemos:

Redução “agressiva” de juros pelos Bancos Centrais da Inglaterra e da Europa;

Parlamento alemão aprova plano de US$ 30 bilhões para aumentar gastos públicos, conceder crédito e cortar impostos;

o Fed, banco central dos EUA, cria uma linha de US$ 600 bilhões para comprar títulos das agências hipotecárias públicas (com o objetivo de forçar a redução de juros de hipotecas) e outra de US$ 200 bilhões para comprar carteiras de crédito de instituições de cartão de crédito, de crédito ao consumidor e das que concedem empréstimos a estudantes que entram no ensino superior;

os governos dos EUA e da China abrem linha de crédito de US$ 20 bilhões para financiar o comércio externo de países emergentes.

Temos aí medidas já em andamento e planos. Estes costumam ser recebidos com reserva, pois podem não funcionar. Ainda que essa crise tenha exigido maior intervenção dos governos, isso não torna esses mesmos governos automaticamente eficientes.

Por outro lado, há amplo consenso sobre as políticas a adotar. Economistas de diversas orientações estão falando coisas muito parecidas: que é preciso um forte aumento do gasto público, mas em investimentos, não em custeio, redução de juros e compra, pelos bancos centrais e agências governamentais, de títulos de crédito do sistema financeiro. Além da capitalização de bancos.

Havendo esse consenso, fica mais fácil implantar tais programas, que têm grande apoio entre as lideranças políticas. Portanto, é uma questão de tempo: uma hora isso tudo tem de funcionar.

E continuam todos à espera do plano de Barack Obama. Líderes democratas dizem que vem coisa grande, um programa de gasto público entre US$ 500 bilhões e US$ 700 bilhões. É artilharia pesada. Os US$ 700 bilhões seriam equivalentes a 5% do PIB, o que faria do programa americano o mais forte entre todos já apresentados.

A crise é nossa – Aqui, as 1.300 demissões na Vale deram um sinal estridente para mostrar que a crise está, sim, entre nós.

Tinha de estar. São os caminhos da globalização. O mundo todo cresceu, o Brasil pegou a onda, exportou para todo lado.

Agora o mundo está ou em recessão (os ricos) ou em desaceleração (os emergentes). Sobra uma conta.

Mas desta vez a crise apanha o Brasil em condições bem mais seguras. Considerem este exemplo, a notícia que esteve na primeira página na semana passada: em novembro, a maior fuga de dólares do Brasil em dez anos.

Olhando para os números absolutos, a notícia faz sentido e assusta. Em novembro o mercado de câmbio registrou déficit de US$ 7,1 bilhões, a maior saída de dólares desde o déficit de US$ 8,5 bilhões de janeiro de 1999, quando mudou o regime de câmbio no Brasil, de controlado para livre, com uma maxidesvalorização. Aliás, também houve uma máxi agora. Lembrem-se: ainda em 1º de agosto (faz tão pouco, não é mesmo?) o dólar valia R$ 1,60.

Mas olhando o conjunto das contas externas se vê que a situação atual é muito mais tranqüila.

Comparem: em 1999, o comércio externo brasileiro total era de US$ 100 bilhões/ano, com US$ 50 bilhões de exportações e US$ 50 bilhões de importações. Neste ano, o comércio externo deve atingir US$ 379 bilhões, com superávit de US$ 23 bilhões. Ou seja, a capacidade do País de obter dólares bons com a venda de mercadorias é quatro vezes maior. As reservas do Banco Central em dezembro de 1998 eram de US$ 44 bilhões; hoje, algo como US$ 205 bilhões.

Resumo da ópera: uma saída de US$ 8 bilhões em 1999 era crise no balanço de pagamentos, hoje não chega nem perto disso.

Esta foi uma das grandes mudanças no Brasil: as contas externas passaram de “impagáveis” para superavitárias em dólares. Acrescentem o fim da inflação e o controle das contas públicas – a estabilidade macro – e se entenderá por que desta vez o Brasil não vai quebrar.

História repetida – O presidente Bush, ao comentar o desemprego de novembro, admitiu pela primeira vez que os EUA estão em recessão. E assim se igualou a seu pai, George H. Bush, que também deixou uma recessão para seu sucessor, Bill Clinton, democrata como Obama.

Temos, portanto, dois democratas assumindo recessões deixadas por republicanos. Aliás, Clinton assumiu em janeiro de 1993 em meio a desconfianças de que, inexperiente, pudesse dar conta da crise. E ele simplesmente entregou uma era de prosperidade e expansão.

Quem sabe Obama…?

*Carlos Alberto Sardenberg é jornalista
Site: www.sardenberg.com.br

17/11/2008 - 11:42h EUA e Brasil: vencendo o medo

lula_positivo.jpghttp://readwritenow.files.wordpress.com/2008/03/obama_sc_04_01_2007-731285.jpg

 *Kellie Meiman – VALOR

http://www.mdic.gov.br/arquivos/not1209160803.jpgAo longo dos anos, o relacionamento entre Estados Unidos e Brasil passou por várias fases. Caracterizou-se em grande parte, durante a segunda metade do século XX, por uma tensão natural entre os poderes continentais do hemisfério, apesar do afável relacionamento pessoal na década de 90 entre os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Bill Clinton. Um Brasil relativamente insular driblou os EUA quando possível, enquanto a superpotência americana freqüentemente tentou isolar o Brasil no contexto de políticas regionais.

Já no governo do presidente George W. Bush, um sério esforço para o aprofundamento das relações bilaterais foi um destaque dentro de uma agenda de política externa desafiadora em outras áreas. O Brasil, de sua parte, entrou no século XXI realizando concretamente suas ambições como o “país do futuro”, ocupando seu próprio lugar no cenário global. Não apenas o governo brasileiro, mas também o setor privado contribuíram para essa nova realidade, com multinacionais brasileiras de vários setores investindo pesadamente em mercados tão distintos como os dos EUA, China, Índia e de países da África.

Hoje, temos a oportunidade de elevar a relação EUA-Brasil a um patamar diferente em questões críticas de ambos os lados, incluindo a segurança regional, global, energética, ambiental e econômica. Em um mundo fracionado e multipolar, despedaçado pela crise financeira e dominado por uma tecnologia que em sua essência difunde o poder, o Brasil pragmático e os EUA multilateralistas podem, juntos, alcançar muito mais. A construção de um relacionamento estratégico mais amplo entre as duas nações beneficiará ambos os países na medida em que entrarmos nos próximos quatro anos sob uma revigorada liderança nos EUA.

Por motivos óbvios, os conflitos no Oriente Médio e a economia global serão prioridades do presidente eleito Barack Obama. Ao mesmo tempo, os EUA precisam enviar um sinal claro ao mundo de que a era do unilateralismo acabou. Um modo de realizar isso é recuperar a credibilidade de importantes instituições multilaterais, como as Nações Unidas, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), assim como o G-7 e o G-20, todos desesperadamente carentes de reformas. O Brasil tem muito a contribuir para esse esforço, considerando sua perspectiva única sobre o melhor modo de integrar poderes emergentes no contexto internacional. A crise financeira atual tem mostrado a um público amplo que há a necessidade de modernizar as instituições internacionais de forma que elas venham a se igualar às novas realidades políticas e econômicas. Ao fazer isso, devemos ter a certeza de que qualquer reforma manterá espaço para discussões pragmáticas e produtivas nos fóruns multilaterais.

O fracasso até o momento da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), onde os interesses americanos e brasileiros estão claramente alinhados, justifica o foco do Brasil e dos EUA em perseguir a abertura de mercados e evitar uma resposta protecionista aos desafios econômicos globais, como tem sabiamente destacado o chanceler Celso Amorim. Não será fácil levar nossos parceiros de comércio ao progresso de Doha, porém, o benefício dessa negociação para nossas economias, mais ainda para o mundo em desenvolvimento, vale o sacrifício.

Vamos deixar o medo de lado. A imprensa brasileira tem expressado preocupação quanto a um governo democrata, temendo que ele seja “protecionista” e, portanto, contra aos interesses do Brasil. Muito pelo contrário.

Na difícil economia de hoje, um líder americano de centro-esquerda pode ser o mais bem-sucedido na reconstrução do consenso bilateral para apoiar o livre comércio que imperou nos EUA durante o governo Clinton. Antes da posse do ex-presidente, em 1993, muitos americanos e brasileiros expressaram preocupações sobre o que representaria a política econômica da gestão Clinton. Esses medos e preocupações, como se comprovou depois, se mostraram desnecessários.

O Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) possivelmente não teria ocorrido sem a persistência do presidente Clinton, um líder democrata como Barack Obama. Lembremos que foi Clinton também quem aprovou a Rodada Uruguai nos EUA. Esses e outros feitos foram conquistados através da ampliação do apoio doméstico à abertura do mercado. Apesar das dificuldades envolvidas, precisamos cautelosamente nos esforçar para readquirir um apoio de base ampla para a liberalização comercial dos EUA, de modo a permitir que nosso país lidere novamente o mundo nestas importantes questões.

Ninguém entende melhor do que o presidente Lula a importância de uma liderança de esquerda baseada em uma política econômica forte e sustentável. Os benefícios sociais e econômicos para o Brasil decorrentes dessa liderança para a estabilização e o crescimento da economia são óbvios. Como acontece no Brasil, toda a política comercial dos EUA está repleta de desafios políticos, porém, ninguém esquece o legado da Lei Smoot-Hawley, que introduziu o protecionismo na política econômica dos EUA no pior momento possível – no calor da depressão de 1929.

Os conselheiros econômicos do presidente eleito Barack Obama estão entre os mais sábios executivos e economistas dos EUA, muitos dos quais contribuíram significativamente para a administração Clinton. Seria difícil imaginar que os ex-secretários do Tesouro Robert Rubin e Larry Summers, o presidente do Federal Reserve de Nova York, Timothy Geithner, e o megainvestidor Warren Buffet ignorem as realidades da globalização, mesmo durante tempos difíceis. Todos eles são francamente favoráveis à expansão do comércio mundial.

É chegada a hora. Se o Brasil conseguir se firmar como um ator verdadeiramente pragmático na economia global e nas instituições internacionais, ao mesmo tempo em que os EUA ressurgirem como um paladino do multilateralismo, há muito mais a ser alcançado por nossos países de maneira conjunta. Nem sempre estaremos de acordo, mas, acima de tudo, o presidente Lula e o presidente eleito Obama compartilham de um slogan de campanha cuja premissa é: “a esperança vence o medo”. Esta mesma noção descreve bem como nossas nações devem abordar as relações políticas e econômicas no início desta nova era. Devemos e podemos elevar esse relacionamento a um novo patamar de sofisticação e, assim, cumprir a promessa e as possibilidades desta relação tão importante.

Kellie Meiman é diretora executiva da McLarty Associates e foi diplomata e negociadora de comércio internacional durante o governo Clinton.

17/11/2008 - 10:09h ”FMI deveria ter US$ 3 trilhões”

Michael Spence: economista e ganhador do prêmio Nobel em 2001; Spence é favorável ao apoio do Fundo para os países emergentes, que foram abatidos pelo corte abrupto do crédito

Fernando Dantas, RIO – O Estado SP

 

Prêmio Nobel de Economia de 2001, junto com o crítico da globalização Joseph Stiglitz e George Arkelof, o americano Michael Spence participou de um grupo de 20 economistas que elaborou um documento de sugestões aos líderes do G-20, numa tentativa de influenciar as decisões que acabam de ser tomadas ao fim do encontro de Cúpula dos chefes de Estado neste fim de semana em Washington.

Em entrevista ao Estado por telefone, antes da conclusão da cúpula, Spence defendeu uma vigorosa ajuda financeira aos países emergentes, que, para ele, estão sofrendo com o corte súbito do crédito causado por razões que nada têm a ver com o fundamento de suas economias. Ele está relativamente otimista quanto ao Brasil e sugeriu um aumento da munição do Fundo Monetário Internacional (FMI) para até US$ 3 trilhões, que poderiam ser alcançados com o uso das reservas de China, Japão e países do Golfo.

Coordenador do relatório final da Comissão do Crescimento, um documento sobre desenvolvimento elaborado durante dois anos por diversos especialistas e divulgado em maio de 2008, Spence acha que a atual crise mostra que uma ênfase maior deve ser dada à manutenção da estabilidade econômica e financeira. Mas ele é cético quanto a uma reforma da arquitetura financeira internacional a curto prazo, pois as causas da atual crise ainda não foram entendidas. Spence virá ao Rio nesta semana para o encontro da Associação Latino-americana e Caribenha de Economia e da sessão brasileira da Sociedade Econométrica Internacional (Lacea-Lames). A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual deve ser a prioridade das autoridades econômicas mundiais neste momento?

O mais importante, agora, é focar na crise financeira e econômica. O fato básico e simples é que os capitais estão saindo dos países em desenvolvimento, por causa dos balanços danificados nos Estados Unidos e na Europa. Não tem nada a ver com a situação econômica nos emergentes. Esses fluxos de capital têm de ser revertidos. Se o FMI tivesse ativos suficientes para apoiar aqueles países, poderia fazer. Mas não tem. Então, é preciso esquemas como o de swap (troca) de dólares do Fed (Federal Reserve, banco central americano).

O sr. acredita num novo papel para o FMI, na esteira desta crise?

Quando as pessoas falam de um novo papel do FMI, elas querem dizer uma entidade que tenha as funções atuais do FMI. Se o FMI pode ser reformado para representar esse novo papel, é uma outra questão. Mas o ponto sobre o qual todos concordam é a necessidade de uma entidade que tenha ativos substanciais ou uma capacidade substancial de acessar ativos, com autoridade e legitimidade para agir no contexto de uma crise. Esses ativos têm de ser muito maiores do que os US$ 250 bilhões do FMI. Um total de US$ 2 trilhões a US$ 3 trilhões parece adequado.

De onde poderiam vir os recursos deste FMI ampliado?

Os grandes detentores de reservas internacionais hoje são a China, o Japão e os países do Golfo. É preciso encontrar uma forma de os detentores destes grandes acúmulos de reservas as utilizem para estabilizar o sistema como um todo.

O sr. tem parecido cético em relação a uma reforma a curto prazo da arquitetura financeira internacional.

Pense bem: as mais sofisticadas instituições financeiras do mundo, repletas de algumas das pessoas mais inteligentes do mundo, conseguiram criar uma situação na qual havia tanto risco sistêmico que, quando a coisa estourou, cada uma daquelas instituições, praticamente sem exceção, estava danificada ao ponto de não poder atuar nem mesmo como intermediária no sistema de crédito e de pagamentos. Enquanto não sentarmos e pensarmos arduamente sobre isso, não podemos nem ao menos obter uma explicação coerente sobre o que aconteceu. Deveríamos admitir que não temos um conhecimento perfeito e colocar em marcha um processo planejado para tornar o sistema mais estável e seguro para todo mundo ao longo do tempo. Isso pode requerer mudanças freqüentes, à medida que descubramos coisas novas.

Como o sr. vê a situação do Brasil nesta crise?

As grandes economias em desenvolvimento bem administradas, como o Brasil, se sairão desta crise razoavelmente bem. Quer dizer, ninguém vai escapar, e é preciso ficar muito alerta para reagir adequadamente, e evitar danos maiores do que o inevitável. Mas acho que o Brasil está numa boa situação para fazer isso.

11/11/2008 - 13:22h Considerações sobre Bretton Woods II

Luiz Gonzaga Belluzzo – VALOR

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Desde o século XVIII os teóricos e praticantes da moderna economia política debatem os conflitos e contradições entre a moeda universal (e seu caráter mercantil) e o exercício da soberania monetária pelos Estados nacionais.

No final do século XIX, a metástase da Revolução Industrial para os Estados Unidos e para a Europa Continental foi acompanhada pela constituição de um sistema monetário global, amparado na hegemonia da Inglaterra. Essa construção política e econômica do capitalismo suscitou, no imaginário social e na prática dos negócios, a “ilusão necessária” acerca da naturalidade e impessoalidade do padrão-ouro e de suas virtudes na promoção do ajustamento suave e automático dos balanços de pagamentos.

Ao promover a ampliação do comércio internacional, o padrão-ouro impôs a reiteração e a habitualidade da mensuração da riqueza e da produção de mercadorias por uma unidade de conta abstrata. Assim, para escândalo de muitos, a confiança na moeda universal em sua roupagem dourada promoveu a expansão da moeda bancária, suscitando a progressiva absorção das determinações funcionais do dinheiro – unidade de conta, meio de pagamento e reserva de valor – por uma representação, um signo desmaterializado garantido pelas finanças do Estado.

Nos anos 20 do século passado, o declínio da Inglaterra coabitou com incapacidade política do poderio econômico americano em afirmar sua hegemonia. Isso tornou problemática, após o hiato de moedas inconversíveis da Primeira Guerra, a restauração do padrão-ouro, mesmo sob a forma atenuada do Gold Exchange Standard que permitia a acumulação de reservas em dólares e libras. Em sua ressurreição, o padrão-ouro foi incapaz de reanimar as convenções e de reproduzir os processos de ajustamento e as formas de coordenação responsáveis pelo sucesso anterior. Os déficits e os superávits tendiam a se tornarem crônicos. Os países superavitários – sobretudo França e EUA – se empenharam em “esterilizar” o aumento das reservas em ouro para impedir os efeitos indesejáveis sobre os preços domésticos.

Nos trabalhos elaborados para as reuniões que precederam as reformas de Bretton Woods, Keynes formulou uma proposta mais avançada e internacionalista de gestão da moeda fiduciária. Ela previa a “administração” centralizada, pública e supranacional do sistema mundial de pagamentos e de provimento de liquidez. O Plano Keynes visava, sobretudo, eliminar o papel perturbador exercido pelo ouro – ou por qualquer moeda-chave – enquanto último ativo de reserva do sistema. Tratava-se não só de contornar o inconveniente de submeter o dinheiro universal às políticas econômicas do país emissor, mas também de evitar que assumisse a função de um perigoso agente da “fuga para a liquidez”.

Na verdade, os países trocariam mercadoria por mercadoria e o dinheiro internacional, o Bancor, seria reduzido à função de moeda de conta. Os déficits e superávits seriam registrados em uma espécie de conta corrente que os países manteriam junto à Clearing Union, a câmara de compensação encarregada de vigiar o sistema de taxas fixas, mas ajustáveis e de promover os ajustamentos entre deficitários e superavitários. No novo arranjo institucional não haveria lugar para a livre movimentação de capitais em busca de arbitragem ou de ganhos especulativos.

Em 1944, nos salões do hotel Mount Washington, na acanhada Bretton Woods, a utopia monetária de Keynes capitulou diante da afirmação da hegemonia americana que impôs o dólar – ancorado no ouro – como moeda universal. Talvez por isso, o segundo pós-guerra conte a história conflituosa da reafirmação do dólar como moeda-reserva e narre as desditas da reprodução dos desequilíbrios globais e da sucessão de ajustamentos traumáticos dos balanços de pagamentos na periferia.

Essas características do arranjo monetário realmente adotado em Bretton Woods sobreviveram ao gesto de 1971 – a desvinculação do dólar ao ouro – e à posterior flutuação das moedas em 1973. Na esteira da desvalorização continuada dos anos 70, a elevação brutal do juro básico americano em 1979 derrubou os devedores do Terceiro Mundo, lançou os europeus na “desinflação competitiva” e culminou na crise japonesa dos anos 90. Na posteridade dos episódios críticos, o dólar se fortaleceu, agora obedecendo ao papel dos Estados Unidos como “demandante e devedor de última instância”.

A crise dos empréstimos hipotecários e seus derivativos, que hoje nos aflige, nasceu e se desenvolveu nos mercados financeiros dos Estados Unidos. Na contramão do senso comum, os investidores globais empreendem uma fuga desesperada para os títulos do governo americano. Assim como nas crises cambiais dos anos 90, protagonizadas pela periferia (México, Ásia, Rússia, Brasil e Argentina), os papéis do governo dos Estados Unidos oferecem repouso para os capitais cansados das aventuras em praças exóticas e reservam os tormentos da volatilidade cambial para os incautos que acreditaram nas promessas de recompensa pelo bom comportamento.

Bretton Woods II, ou coisa assemelhada, não vai enfrentar conturbações geradas pela decadência americana. Vai sim acertar contas com os desafios engendrados pelo dinamismo da globalização impulsionada pela grande empresa e ancorada na generosidade da finança privada dos Estados Unidos. O processo de integração produtiva e financeira das últimas duas décadas deixou como legado o endividamento sem precedentes das famílias “consumistas” americanas, causa e efeito da migração da indústria manufatureira para a Ásia “produtivista” e da acumulação de mais de US$ 5 trilhões de reservas nos cofres dos emergentes.

Na posteridade da crise asiática, os governos e o Fundo Monetário Internacional ensaiaram a convocação de reuniões destinadas a imaginar remédios para “as assimetrias e riscos implícitos” no atual regime monetário internacional e nas práticas da finança globalizada. Clamavam por uma reforma da arquitetura financeira internacional. A reação do governo Clinton – aconselhado pelos conselheiros de Barack Obama, Robert Rubin e Lawrence Summers – foi negativa. Os reformistas enfiaram a viola no saco. Mesmo depois da queda do subprime, não vai ser fácil convencer os americanos a partilhar os benefícios implícitos na gestão da moeda reserva.

Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, e professor titular do Instituto de Economia da Unicamp, escreve mensalmente às terças-feiras. BelluzzoP@aol.com

11/11/2008 - 12:31h Para Nobel, BCs esgotaram ações e tempestade está apenas começando

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Segundo Stiglitz, objetivo é conter desastre, mas freio global pode durar 18 meses

Lino Rodrigues – O Globo

SÃO PAULO. O economista Joseph Stiglitz, prêmio Nobel em 2001, disse ontem que os bancos centrais do mundo já esgotaram a capacidade de restaurar as economias e conter a crise financeira internacional. Segundo ele, as ações recentes de política monetária dificilmente conseguirão fazer com que os volumes de empréstimos retornem aos mesmos níveis que existiam antes da crise nos mercados financeiros.

— O que a política monetária está tentando fazer é evitar o desastre e não uma ressurreição dos níveis de empréstimos — disse Stiglitz, ontem, logo depois de participar em São Paulo da abertura da oitava edição da ExpoManagement, evento que reúne executivos da América Latina.

Professor de economia da Columbia University, em Nova York, Stiglitz mostrou-se cético em relação ao futuro da economia americana e mundial. Segundo ele, os números mostram que os empregos perdidos nos Estados Unidos já somam um milhão de postos, e as vendas no varejo estão em queda acentuada. Mesmo que todas as medidas para debelar a crise sejam adotadas corretamente, ele estima que a desaceleração da economia global vai durar de 12 a 18 meses.

— O futuro é sombrio. Não estou otimista de que tudo será feito corretamente. Até aqui tem sido um desastre e a tempestade está apenas começando — disse ele.

‘EUA têm vivido além de seus meios há muito tempo’ Apesar dos estragos na economia, Stiglitz disse que considera a crise oportuna para que os países emergentes apareçam, ocupem os espaços e mostrem as suas idéias e proposições, e assim tenham mais voz e sejam mais ouvidos pelos “governos globais”.

Ele lembrou, no entanto, que não será tarefa fácil para o Brasil e para os outros países em desenvolvimento obter o reconhecimento dos governos desenvolvidos.

Ex-economista-chefe do Banco Mundial e autor de vários livros sobre globalização e política monetária, Stiglitz fez duras críticas ao governo de Bush que “nunca se preocupou com as pessoas” e ao ex-presidente do Fed (o banco central americano), Alan Greenspan, o “grande responsável” pela crise financeira global.

— Os Estados Unidos têm vivido além de seus meios há muito tempo. Agora, diante do pessimismo, o crédito será arrochado.

As famílias começarão a poupar mais e consumir menos, o que pode ter conseqüências dramáticas — prevê.

Questionado sobre o efeito da eleição de Barack Obama sobre a crise, Stiglitz disse que, mesmo que ele faça tudo que é preciso, a retomada da economia americana não será rápida. Até porque, segundo ele, a probabilidade de que Obama adote as medidas corretas é pequena.

Stiglitz disse ainda que vê com simpatia a criação de um novo órgão regulador do sistema financeiro internacional, e que apóia a maior participação dos países emergentes nos órgãos multilaterais como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.

— Estamos vendo mudanças no FMI, e o Brasil tem um papel importante nesse processo.

A desaceleração global vai estimular o debate econômico em âmbito mundial, o que é um bom sinal.

06/11/2008 - 17:52h Para enfrentar o medo

Dominique Strauss-Kahn – VALOR

strauss_khann2.jpgApesar de o aperto nos empréstimos interbancários ter começado a ser afrouxado pelo socorro aos sistemas financeiros em todos os países avançados, as quedas registradas pelos indicadores econômicos fizeram os mercados acionários despencar. As pressões sobre países de mercados emergentes, antes considerados por muitos observadores como “desacoplados” do resto do mundo, ficaram mais intensas, devido ao repatriamento de recursos externos e da venda de ativos.

Em vista do medo que se apodera de consumidores, empresas e países em todo o mundo, agora deixou-se de falar em recessão moderada em países avançados e passou-se a falar em grande depressão mundial. Instalou-se uma sensação de desânimo devido à percepção de que nada pode ser feito para evitar a depressão.

O que está acontecendo? As medidas tomadas três semanas atrás para dar sustentação ao sistema financeiro estavam simplesmente erradas? Absolutamente, não. O aprovisionamento de liqüidez, a recapitalização de bancos, seguros mais uniformes sobre depósitos em todos os países avançados – todas essas medidas foram corretas e necessárias. Mas elas foram apenas uma primeira parte do todo que precisa ser realizado.

Nos países avançados, a queda dos valores dos ativos e, de modo mais geral, o medo do futuro abalou a confiança de consumidores e empresas. O consumo está caindo e as empresas estão cortando investimentos. A crise financeira criou uma acentuada queda na demanda – algo que os economistas denominam “recessão keynesiana”.

Para ajudar a revitalizar a confiança, não há alternativa a empregar ferramentas macroeconômicas para impulsionar a demanda e sustentar a produção. A política monetária pode ser usada em países onde os juros continuam elevados, mas sua eficácia em meio a um aperto de crédito provavelmente será limitada. A política fiscal precisa, portanto, desempenhar um papel central. Expansão fiscal é sempre arriscada, pois amplia o endividamento e aumenta os riscos futuros. Mas, tendo em vista a situação em que estamos, as vantagens extrapolam os custos em países onde há uma endividamento sustentável.

Países com mercados emergentes defrontam-se com um problema adicional. Não apenas precisam enfrentar as perspectivas de quedas nas exportações e na confiança, como também são as mais recentes vítimas de uma crise financeira que começou nos EUA, viajou para a Europa e agora cruzou suas fronteiras.

Bancos estrangeiros estão cortando crédito. Investidores estrangeiros estão repatriando seus recursos financeiros em escala inédita. Ironicamente, as medidas que estão sendo tomadas para solucionar a crise em países avançados estão tornando mais atraente trazer dinheiro de volta para casa, dificultando a vida dos países de mercados emergentes.

Para dar sustentação a seus sistemas financeiros e aquecer a demanda geral, os países de mercados emergentes precisam estar dispostos a tomar medidas similares às implementadas pelos países avançados. Mas a recente prosperidade de muitos desses países resultou de acesso ao capital mundial. Uma brusca interrupção nesse fluxos representa um severo impacto e cria problemas especiais que não podem ser solucionados por esses países sozinhos.

Por isso, os países avançados precisam mostrar-se dispostos a proporcionar o financiamento necessário, e a fazê-lo numa escala inédita. A alternativa é a perspectiva de inadimplência generalizada em face de suas dívidas externas, controles sobre o sistema bancário e protecionismo – uma conseqüência que constituiria um retrocesso nesses países e para a economia mundial como um todo por muitos anos à frente.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) dispõe de recursos financeiros para alocar até US$ 250 bilhões. Pusemos em ação os procedimentos internos e as linhas de socorro que nos permitirão proporcionar os recursos rapidamente, com condições limitadas à reação essencial para enfrentar a crise em curso. Além disso, o Fundo está desenvolvendo uma nova linha de liqüidez para disponibilizar recursos imediatamente a mercados emergentes de vigoroso desempenho que estejam praticando políticas sensatas e tenham bons fundamentos.

Isso deverá dar confiança aos investidores. Mas em vista da escala dos fluxos de capital, também estou exortando governos e bancos centrais de países avançados a proporcionar financiamento paralelamente ao disponibilizado pelos programas do FMI de reação à crise. Também estou convicto da necessidade de encontrar maneiras de colocar em ação os recursos de países que dispõem de grandes reservas. O Fundo desempenhará sua parte, mas todas essas ações são necessárias para reforçar a credibilidade da reação mundial coordenada à crise.

Precisamos também pensar à frente – especialmente em relação aos países de baixa renda na África. Devido a sua limitada participação nos mercados financeiros internacionais, esses países permaneceram até agora relativamente abrigados da turbulência. Mas é uma calma incerta que provavelmente não perdurará.

Muitos países de baixa renda sofrerão o impacto da queda dos preços das commodities. Outros, entre eles os que estavam tornando-se novos mercados emergentes, poderão ver secar seu acesso a capital estrangeiro. Também eles necessitarão ajuda da comunidade internacional. A concessão de empréstimos pelo FMI e por bancos de desenvolvimento mundial, e a manutenção de ajuda de doadores nos níveis atuais, serão essenciais para que evitemos novas tragédias humanas.

A dinâmica do medo é potencialmente catastrófica, mas essa dinâmica pode ser rompida. Quaisquer que sejam os problemas no sistema financeiro, as enormes melhorias, ao longo dos anos, em tecnologia, produtividade e progresso social – os verdadeiros fundamentos – são uma genuína prova do poder da globalização como uma força benigna. Pode ser tarde demais para evitar uma recessão nos países avançados e um desaquecimento da economia em países emergentes e de baixa renda. Mas não é tarde demais para evitar uma depressão mundial.

Dominique Strauss-Kahn é diretor-gerente do FMI. © Project Syndicate/Europe´s World, 2008. www.project-syndicate.org

06/11/2008 - 10:25h Equilíbrio entre negros e brancos

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Mestiço com raízes em vários continentes, Obama enfrentou acusações sem negar sua origem

Gilles Lapouge* – O Estado SP

O 44º presidente dos Estados Unidos é negro. E o planeta inteiro, das choupanas do Quênia e das favelas do Senegal, até os círculos mais seletos de Paris, está maravilhado.

Os rostos que desfilaram pelas telas no mundo inteiro eram belos, com risos e soluços ao mesmo tempo. Eram dos negros de Chicago, do Harlem, encantados e incrédulos ao mesmo tempo. Às vezes, os olhos de uma velha senhora negra que parecia recém-chegar dos campos de algodão do Alabama perdiam-se naquele mar de gente, como se sua memória revivesse o sofrimento de seu povo, desde os tempos do pelourinho até o momento da chegada de um negro à Casa Branca.

A fisionomia de outros negros, aqueles de Dacar ou do Quênia, dos subúrbios agressivos de Paris ou Londres, narra uma outra história. Eles estão orgulhosos e radiantes, como se o acesso desse homem negro ao topo do país mais poderoso do mundo fosse uma “redenção”, abrindo a porta da História a povos que jamais foram “sujeitos da História, mas objetos, vítimas, espectadores passivos e martirizados da História”.

Mas o verdadeiro triunfo de Obama é que sua vitória foi também a dos latinos e dos brancos dos Estados Unidos. Obama evitou, com elegância, com a leveza de uma borboleta, todas as armadilhas. Mestiço, teve de manter um equilíbrio quase impossível entre dois precipícios: o de ser um mestiço renegando sua parte branca ou um mestiço rejeitando sua parte negra.

O exercício não era simples. No início, ele quase caiu: os líderes negros históricos não viram com bons olhos o jovem elegante, ágil como um felino, um intelectual chique, formado nas melhores universidades brancas. Não era nem mesmo um descendente de escravos. Além do mais, ainda pretendia se tornar o primeiro negro presidente dos EUA. Que arrogância! No começo da campanha, ao final de uma reunião, e sem saber que o microfone ainda estava ligado, o reverendo Jesse Jackson, um personagem valioso, mas um veterano do “black power” e do “black is beautiful”, perguntou: “De onde saiu esse sujeito? Vamos cortar os seus colhões.”

Mas não cortaram. Primeiro, por causa de sua virtuosidade. Obama ziguezagueou como se estivesse num esqui, com essa agilidade de felino, entre os obstáculos colocados no seu caminho. E se definiu não como mestiço, mas como negro. Ao mesmo tempo, soube guardar os laços com as duas margens do seu destino e estabelecer uma ponte entre as duas.

Obama é uma genealogia da espécie humana. Sua família vem de quatro continentes. Filho de pai queniano e muçulmano, educado na Indonésia, depois no Havaí, seus avós estavam um pouco por toda a parte. Ele representa, tão somente pelo seu nascimento, um tipo humano inédito, da modernidade.

O planeta entrou na era da globalização não só no campo da economia, mas sobretudo no plano das mentalidades, das culturas. E caminha na direção da aldeia planetária profetizada por McLuhan. Nessa aldeia global, Obama ocupa um posto avançado. Ao mesmo tempo, permite que seu país, tão preso na sua “brancura agressiva”, volte a ocupar seu lugar no coração da modernidade. Essas são verdades que Barack Obama soube fazer americanos e o mundo compreenderem. O momento crucial da sua campanha foi em março, quando foi atacado pelo campo adversário, tentando apresentá-lo como o “candidato contrário aos brancos” e chamando atenção para suas relações com o pastor Jeremiah Wright, conhecido por suas posições racistas.

O ataque foi terrível. Atingido no ponto mais vulnerável, Obama reagiu de imediato. Em 18 de março, pronuncia um discurso na Pensilvânia e aborda o tema da raça, que até então tinha cuidadosamente evitado.

Nesse dia, vimos que Obama era um grande intelectual e, sem dúvida, o melhor orador político da história dos EUA. Ele condenou o “bloqueio racial” que paralisa e corrompe o país (e o mundo), dividido entre a agressividade branca e o “comunitarismo” das minorias negras e outras. Teria sido arrancado, nesse dia, o sinistro ferrolho que parecia fechar para sempre a livre circulação entre a comunidade negra e as outras? Seis meses depois, os brancos expressaram seu apoio entusiasmado ao negro Obama.

O desempenho impecável de Obama no campo minado do racismo não diz respeito apenas aos EUA. Foi ao povo negro em sua totalidade, e além das fronteiras americanas, que ele dirigiu seu discurso de 18 de março. Nada será mais terrível do que uma falsa interpretação, pelos negros fora dos EUA, da ascensão de um negro à Casa Branca.

Um novo capítulo da História se inicia. Mas não vamos nos iludir: o caminho será difícil, repleto de ardis, armadilhas e minas, muitas vezes prestes a se afundar. Será preciso muita prudência e talvez de um pouco de genialidade para Obama e os Estados Unidos não caírem no abismo. O fantástico salto dado pelos Estados Unidos que, depois de oito anos de descrédito, bobagens e vergonha, que foram os dois mandatos de George W. Bush, coloca um negro na sua presidência e deixa a porta aberta para a esperança.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris