06/04/2009 - 09:27h A morte do consenso

Sergio Leo – VALOR

Foram discretas, até agora, as comemorações, no governo, pela declaração do chanceler britânico, Gordon Brown, sobre a morte do chamado Consenso de Washington, regras aceitas como indispensáveis ao bom funcionamento do sistema capitalista, compiladas em 1989 pelo economista John Williamson. Reservadamente, não foram poucos os que comemoraram, entre os conselheiros do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas Brown, que expediu o atestado de óbito durante a reunião do G-20, na semana passada, pode ter se precipitado.

A crise não matou, por exemplo, a crença da abertura de mercados como instrumento de desenvolvimento. Mantém-se, nesse campo, a atitude cínica ou esquizofrênica anterior ao colapso das finanças mundiais: os governos anunciam comprometimento com o fim das barreiras comerciais, avançam gradualmente na queda de tarifas de importação, mas asseguram os interesses de setores “sensíveis” com os instrumentos que têm à mão, sejam eles mecanismos de controle não-tarifário de importações, subsídios aos produtores, ou incentivos perversos a exportadores ineficientes.

Antes de o mundo descobrir que era ameaçado por “ativos tóxicos” criados pela mente fértil de operadores do mercado financeiro, já fracassava a rodada de liberalização da Organização Mundial de Comércio (OMC), a chamada Rodada Doha. Um dos resultados da cúpula do G-20, na semana passada foi um apelo por mais, e não menos, abertura de mercados, com a retomada da rodada na OMC. Os líderes podiam marcar uma data para isso, mas não o fizeram. Sabem que o apelo, por enquanto, é mera declaração de intenções. Isso não impede que a abertura de mercados seja eleita como prioridade defendida enfaticamente pelo próprio presidente Lula – líder classificado como “o cara” pelo presidente Barack Obama.

Um dos principais motivos para o atolamento da rodada da OMC é o fato de que o consenso pela abertura de mercados não era tão consensual assim nos próprios centros do capitalismo mundial. O Congresso americano resistia, como ainda resiste, a eliminar as altíssimas tarifas remanescentes sobre produtos industriais em que não é competitivo, como o etanol. Os EUA e outros países de gente loura de olhos azuis também relutam, sempre, em reduzir significativamente subsídios agrícolas que dão competitividade desleal aos produtores locais e distorcem o comércio mundial.

Ambiguidades na lista de John Williamson já levaram analistas como Moisés Naim, editor da especializada “Foreign Policy”, a falar em “Confusão de Washington”, ao mostrar que a quantidade de exceções, adaptações e contradições nas políticas baseadas no Consenso de Washington tornavam esse receituário bastante flexível. E que, como notou o economista Joseph Stiglitz quando ocupava o posto de economista-chefe do Banco Mundial, “instituições são importantes”: nenhum modelo de política econômica pode ter êxito sem o controle de instituições fortes e bem equipadas para atender ao interesse público.

A morte decretada por Gordon Brown não foi a do Consenso de Washington, mas a da crença fundamentalista em apenas um de seus dez itens, a desregulamentação como ferramenta para promover a melhor alocação dos recursos e o desenvolvimento. O novo consenso global estabelece que o mundo pós-crise terá instituições mais fortes e ativas no controle dos agentes de mercado.

Como todo consenso econômico internacional, o novo consenso não é levado integralmente em conta pelos países mais poderosos, no momento de formulação de suas políticas. Entre as medidas recém-editadas por Obama, está a permissão aos bancos para fixar, sem fidelidade às regras rígidas de contabilidade, o valor dos “ativos tóxicos”, os papéis que serão vendidos com generosa ajuda do governo americano para socorrer as instituições financeiras. Analistas como o próprio Stiglitz já alertam para o “capitalismo artificial” de Obama, que mantém o jogo de ficção do mercado, em transações pouco transparentes.

Há quem fale na derrubada de outro princípio do Consenso de Washington, o que entroniza a disciplina fiscal como regra de ouro nas economias sérias. Os EUA nunca respeitaram essa regra, nem pretendem fazê-lo agora. Os europeus, apesar das manifestações em favor de estímulo fiscal, continuam firmes na crença de que muita generosidade agora pode acabar em descontrole inflacionário mais à frente. Os programas de socorro do FMI, agora turbinado com mais US$ 750 bilhões, não eliminaram a exigência de sustentabilidade fiscal.

Heresias ao Consenso de Washington defendidas agora nos países ricos, como a possível estatização de bancos americanos, ou generosidades fiscais, são apontadas como soluções de emergência, a serem descartadas assim que passar o pior da crise. Nem Gordon Brown defende o contrário, o que leva a crer que, se crê na morte do Consenso de Washington, ele não descarta a ideia de reencarnação.

Autoridades brasileiras lembram, como signo da mudança, a criação do novo mecanismo financeiro no FMI para empréstimos, sem condicionalidades ou monitoramento, para países com políticas sólidas. Não lembram que os países considerados aptos a lançar mão desse socorro são só aqueles que mostram um histórico de respeito ao… Consenso de Washington. Boa parte do êxito de Lula no G-20 é exatamente o respeito devotado pelo governo brasileiro a boa parte dos princípios sacramentados pelo Consenso.

Ao lado do respeito às políticas ortodoxas, herdado do governo anterior, a contribuição nada desprezível de Lula foi a obstinação em realizar uma política ativa de transferência e distribuição de renda, com programas sociais e o forte aumento do salário mínimo. Conseguiu fazer isso sem romper o consenso washingtoniano de fazer as despesas caberem nas despesas. Intuitivo, ele deve saber que será sua credibilidade quem estará morta, se acreditar, mesmo, que se encerrou a era da disciplina fiscal para os países de gente morena.

Sergio Leo é repórter especial em Brasília e escreve às segundas-feiras

E-mail: sergio.leo@valor.com.br

01/02/2009 - 15:26h Governo britânico adverte contra greves ‘protecionistas’

Miles de trabajadores británicos se manifiestan contra los trabajadores extranjeros

AE-AP – Agencia Estado

LONDRES – Diante de uma onda de greves e protestos, o governo da Grã-Bretanha afirmou hoje que entende a frustração dos trabalhadores do setor de energia com a contratação de estrangeiros, mas advertiu contra o protecionismo. O secretário (ministro) dos Negócios, Peter Mandelson, disse que compreende a preocupação dos trabalhadores quanto a seus empregos num momento de recessão, mas ressalvou que o protecionismo “seria uma maneira certa de transformar uma recessão numa depressão”. “Seria um grave erro recuar de uma política na qual, pelas normas, as companhias britânicas podem operar na Europa e empresas europeias podem operar aqui.”

Dezenas de milhares de trabalhadores britânicos do setor de energia fizeram greves-relâmpago e manifestações em vários lugares da Grã-Bretanha nos últimos dias, em protesto contra a contratação de trabalhadores portugueses e italianos para a construção de uma refinaria de US$ 280 milhões, da empresa petrolífera francesa Total, no nordeste da Inglaterra.

Os protestos começaram quando foi anunciado que a construtora Irem, da Itália, estava contratando apenas trabalhadores italianos e portugueses, num momento em que a taxa de desemprego no Reino Unido alcançou 6,1%. “Não se deveria permitir que nenhuma empresa discriminasse contra qualquer um com base em onde as pessoas nasceram. Não se pode simplesmente dizer que somente italianos e portugueses podem se inscrever para empregos, como aconteceu neste caso”, disse Paul Kenny, secretário-geral do sindicato GMB, dos petroleiros britânicos.

Ontem, cerca de 700 funcionários da refinaria de Grangemouth, na Escócia, fizeram uma paralisação de protesto. Cerca de 400 trabalhadores e simpatizantes fizeram uma manifestação do lado de fora da refinaria da empresa suíça Petroplus em Wilton, no norte da Inglaterra. Na usina de energia elétrica de Aberthaw, em Gales, cerca de 50 pessoas fizeram um ato de protesto. Também houve manifestação na usina de energia de Kilroot, em Carrickfergus, na Irlanda do Norte.

Em Londres, um porta-voz do primeiro-ministro Gordon Brown disse que o contrato com a construtora Irem foi feito “há algum tempo, quando havia falta de trabalhadores especializados no setor de construção no Reino Unido”. “Obviamente esse não é o caso agora e nós vamos falar com a indústria nos próximos dias para assegurar que ela está fazendo tudo o que pode para apoiar a economia britânica”, disse.

27/11/2008 - 21:48h Farewell, New Labour

Nov 27th 2008
From The Economist print edition

Gordon Brown’s fiscal stimulus has set the agenda for the next election

Getty Images

ONCE they started falling, the totems toppled like ninepins this week. For 11 years, New Labour preached the gospel of fiscal prudence: money would be borrowed only for investment, and public net debt kept below 40% of GDP. Economic boom and bust were over; steady prosperity was the shape of things to come. Against this benign background, Britain’s rulers felt “intensely relaxed” about the prospect of people getting filthy rich: in three elections Labour pledged not to raise the top rate of income tax, set at 40% in 1988.

Not one of these pillars has survived the revelations in this week’s £20 billion ($31 billion) fiscal-stimulus plan. Borrowing will hit 8% of GDP in 2009-10 and debt 57% of GDP in 2012-13, even on the government’s optimistic assumptions. The Treasury predicted in March that the economy would grow by 2.5% next year; it now thinks output will shrink by 1%. And a new 45% tax rate for the rich will be imposed from 2011. New Labour’s compact with the aspiring middle classes has collapsed, and what happens next is anyone’s guess.

The package that Gordon Brown, the prime minister, and his chancellor of the exchequer, Alistair Darling, have come up with will cut value-added tax (VAT) temporarily, give income-tax and other relief mainly to those on lower incomes or struggling with precarious jobs and mortgages, support small businesses and bring forward capital spending (see article). All this is to be paid for by a later squeeze on public spending, an increase in national-insurance (social-security) contributions and higher income taxes for the rich—after, needless to say, the next election. Will the package work, and what will it do to the political landscape?

The government’s economic ambition—shaving up to half a percentage point off a recession that looks set to be the rich world’s grimmest—is hardly vaulting. By itself, the stimulus seems modest, equal to about 1% of GDP rather than the 2% the IMF urged on countries that could afford it, and far less than the Americans are now contemplating. The cut in VAT may hardly be noticed amid the flurry of retailers’ frantic price-slashing—and many of the benefits will be felt abroad as Britons buy more foreign goods. Extra help for those with children and for pensioners is rightly targeted on those likely to spend most, but the amounts involved per family are peanuts. And the prospect of heavier national-insurance contributions from 2011 will surely put firms off hiring people.

Yet this modesty must be put into context. Tax revenues are set to plunge faster in Britain than in many other rich countries, thanks to a collapse in receipts from finance and property. Add in the spending, on unemployment benefits and so forth, that increases in a recession, and Britain will get a hefty rise in the budget deficit—and a commensurate fiscal boost—without the government lifting a finger. British manufacturers have already been helped by sterling’s slide. And the Bank of England still has more room to cut interest rates than many of its peers.



Soak the rich; it was such a success last time

The politics revolve around how to pay for the stimulus—and both parties have made fundamental errors of judgment. The Tories’ decision to oppose all unfunded tax cuts is a classic example of cutting off your nose to spite your face. Yes, fiscal discipline is important; but in times as dire as these stimulus is needed and stimulus, if it is to have any effect, has to be unfunded, at least in the short term. The Tories should have accepted that—and reminded people that the boost could have been bigger if Labour had not blown so much cash earlier.

Mr Brown’s error may be still graver. New Labour came to power in part because it persuaded upwardly mobile Britons that it had given up the politics of envy and resentment. Since then business has put up with ever more red tape and stealth taxes (Britain’s state is now bigger, as a share of the economy, than Germany’s). Mr Brown could have balanced the books in the medium term by slimming this bloated monster. Instead, he is playing to the gallery with the new 45% tax rate for the rich. This will affect only 1% of earners, raising at most £1.6 billion a year—and it runs directly against the enterprise culture Mr Brown once sought to foster. This looks like gesture politics of the class-war sort. Farewell, New Labour.

12/11/2008 - 18:00h Brown aboga por estímulos fiscales coordinados para afrontar la recesión

Gordon Brown
Gordon Brown- AP

El primer ministro británico esgrime como ejemplos a China y España

WALTER OPPENHEIMER – Londres – El País

El primer ministro británico, Gordon Brown, defenderá en la cumbre global del próximo fin de semana en Washington que las grandes economías del planeta pongan en marcha “estímulos fiscales” de manera coordinada para afrontar la recesión. Brown citó como ejemplo a seguir los paquetes de ayudas fiscales aprobados en países como China y España, pero no explicó cuáles son sus planes específicos para el Reino Unido.

Los estímulos fiscales se han convertido en la panacea para los tres grandes partidos políticos británicos. Los liberales-demócratas hace ya semanas que defienden recortes de impuestos y ayer se sumaron también los conservadores. Su líder, David Cameron, presentó un plan de recorte de impuestos a las empresas de 2.500 libras (algo más de 3.000 euros) por cada trabajador que contraten que lleve más de tres meses desempleado. De esta manera, aseguró, se podrían crear 350.000 nuevos empleos sin coste para el Estado porque las ayudas fiscales se compensarían mediante ahorros en el pago del subsidio de paro.

Los “estímulos fiscales” defendidos por el primer ministro se conocerán cuando la semana que viene, o quizá la siguiente, el ministro del Tesoro y canciller del Exchequer, Alistair Darling, presente en el Parlamento el tradicional minipresupuesto de otoño. Entre las medidas que se barajan están el incremento de las ayudas para gasóleo de calefacción, un nuevo aplazamiento de las nuevas tasas que gravan el gasóleo y una extensión de las vacaciones fiscales de determinadas tasas.

Pero esas medidas parecen insuficientes para tener un impacto serio en la actual situación, y el Gobierno podría estar preparando un anuncio más impactante. Algunos analistas especulan con la posibilidad de un recorte del IVA, dado el alarmante parón del consumo. Ayer se supo que las ventas al detalle han sufrido en octubre su caída más pronunciada en cuatro años y que el gasto de las familias está a niveles históricamente bajos debido al miedo al desempleo.

El primer ministro ha esbozado las ideas que piensa presentar en la cumbre de Washington. “Mi mensaje es que tenemos que ser internacionalistas, no proteccionistas; intervencionistas, no neutrales; progresistas y no reactivos; tener visión de futuro, no quedarnos congelados por los acontecimientos”.

Allí desbrozará los cinco puntos que, en su opinión, hay que tener en cuenta a la hora de reformar las estructuras financieras internacionales: la recapitalización de los bancos y la reactivación del crédito a negocios y familias; mejor coordinación internacional de la política fiscal y monetaria; un nuevo fondo de rescate para el FMI; un nuevo acuerdo comercial y mayor transparencia.

El secretario de Estado español para la UE, Diego López Garrido, dijo ayer en Londres que España coincide con las propuestas que llevará Brown a la cumbre de Washington en cuanto a la regulación de los mercados

Gordon Brown irá a Washington con un ojo puesto en la crisis financiera y otro en los réditos políticos domésticos que puede sacar de ella. Una encuesta de Populus publicada ayer por el diario The Times confirmaba su resurrección política: los laboristas, que hace un mes estaban a 15 puntos de los conservadores, están ya a sólo seis (41% a 35% ahora, 45% a 30% hace cuatro semanas).

14/10/2008 - 09:56h Gordon agiu bem

Paul Krugman – O Globo

http://wonkette.com/assets/resources/2008/02/krugman1.jpgTerá Gordon Brown, o premier britânico, salvo o sistema financeiro mundial? Tudo bem, a pergunta é prematura — ainda não sabemos a forma exata do pacote de resgate financeiro na Europa ou até mesmo nos EUA e se vai funcionar de fato. O que sabemos, no entanto, é que Brown e Alistair Darling, o chanceler de Exchequer (o equivalente ao nosso secretário do Tesouro), definiram o caráter do esforço global de resgate, com outras nações ricas correndo atrás deles.
Isso é uma virada inesperada.
Afinal, o governo britânico é um sócio júnior no que se refere a assuntos de economia mundial. É verdade que Londres é um dos grandes centros financeiros do mundo, mas a economia britânica é bem menor que a americana, e o Banco da Inglaterra não tem nem de perto a influência tanto do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) quanto do Banco Central Europeu.
Assim, ninguém esperava ver a Grã-Bretanha desempenhando o papel de líder.
Mas, o governo britânico tem demonstrado disposição para pensar claramente, e agir com rapidez. E essa combinação de clareza e decisão não foi ainda vista em nenhum outro governo ocidental, muito menos os EUA.
Qual é a natureza da crise? Os detalhes podem ser confusamente complexos, mas o básico é bastante simples. A explosão da bolha imobiliária levou quem comprou ativos baseados no pagamento de hipotecas a grandes perdas; essas perdas deixaram muitas instituições financeiras com muitas dívidas e pouco capital para prover o crédito de que a economia necessita; as instituições financeiras afetadas tentaram honrar seus débitos e elevar seus capitais vendendo ativos, mas isso fez com que os preços dos ativos caíssem drasticamente, reduzindo ainda mais seus capitais.
O que pode ser feito para conter a crise? Ajudar os mutuários, embora desejável, não pode evitar grandes perdas sobre maus empréstimos e, de qualquer maneira, vai demorar muito para fazer efeito em meio ao pânico atual. A coisa natural a fazer, portanto — e foi a solução adotada em crises anteriores — é lidar com o problema do capital financeiro inadequado, com os governos provendo as instituições financeiras com mais capital em troca de participação.
Essa espécie de meia estatização temporária, que tem sido chamada de “injeção de ações”, é a solução da crise, segundo muitos economistas — e fontes disseram ao “NYT” que é essa também a solução preferida por Ben Bernanke, o presidente do Fed.
Mas, quando Henry Paulson, o secretário do Tesouro dos EUA, anunciou o pacote de US$ 700 bilhões para salvar o sistema financeiro, ele rejeitou esse caminho óbvio. Em vez disso, sugeriu que o governo comprasse papéis podres das hipotecas, baseado na teoria de que… bem nunca ficou claro qual é a sua teoria.
Enquanto isso, o governo britânico foi direto ao coração do problema — e se mobilizou para enfrentá-lo com presteza. Na quarta-feira, assessores de Brown anunciaram um pacote de injeção de dinheiro nos bancos britânicos, garantia para as dívidas dos bancos para estimular a volta dos empréstimos interbancários, um passo crucial do mecanismo financeiro.
Numa reunião de cúpula no domingo, as principais economias da Europa continental se declararam prontas a seguir a liderança da Grã-Bretanha, injetando centenas de bilhões de dólares nos bancos e garantindo suas dívidas. E, quem diria, Paulson — depois de perder várias semanas preciosas — também mudou de curso, e agora pretende comprar participações nos bancos em vez de papéis podres (embora ele ainda pareça estar se movendo com uma dolorosa lentidão).
Como disse, ainda não sabemos se essas iniciativas funcionarão. Mas, finalmente, há uma política movida pela visão clara do que precisa ser feito. O que levanta a seguinte questão: por que essa visão clara teve que vir de Londres em vez de Washington? É difícil evitar a sensação de que a resposta inicial de Paulson foi distorcida por ideologia. Lembre-se, ele trabalha para um governo cuja filosofia de governo pode ser resumida a “privado é bom, público é ruim”, o que deve ter tornado difícil de enfrentar a necessidade de participação acionária do governo no setor financeiro.
Também imagino o quanto o esvaziamento do governo sob a gestão Bush não terá contribuído para a hesitação de Paulson. Em todas as áreas do Executivo, profissionais de renome foram empurrados para fora; pode ser que não tenha sobrado ninguém no Tesouro com estatura e experiência para dizer a Paulson que ele não estava fazendo sentido.
Sorte da economia mundial, porém, que Gordon Brown e seus assessores estejam fazendo sentido. E eles podem até ter nos mostrado o caminho para sair dessa crise.

PAUL KRUGMAN é colunista do “New York Times” e prêmio Nobel de Economia de 2008

14/10/2008 - 09:42h O mundo caminha para um novo Bretton Woods?

Premiê britânico defende nova arquitetura financeira. Para alguns economistas brasileiros, ainda não é hora

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Gordon Brown, Primeiro-ministro británico defende um novo acordo para a economia mundial 

Liana Melo* – O Globo

RIO e LONDRES. O primeiroministro britânico, Gordon Brown, pediu ontem que os líderes mundiais se encontrem para tentar estabelecer um novo acordo de Bretton Woods. A primeira vez em que o mundo se encontrou para discutir uma nova ordem monetária foi há 64 anos. Desta vez, é a Grã-Bretanha quem está liderando o pedido — em 1944, foi capitaneado pelos Estados Unidos. Ainda que alguns economistas brasileiros concordem com a gravidade da crise financeira global, muitos consideram que a idéia de Brown é precipitada.

— Às vezes, torna-se uma crise concordar com o que é óbvio e que o que deveria ter sido feito há anos não pode mais ser adiado. Mas, agora, nós devemos criar a nova arquitetura financeira para uma nova era global — defendeu Brown.
O primeiro-ministro pretende defender amanhã sua idéia junto aos líderes da União Européia (UE). Cada um dos 15 países da zona do euro se comprometeu a lançar, nesse dia, um pacote de medidas para enfrentar a crise financeira global. O acordo foi feito no último domingo, quando, numa reunião em Paris, os países da Comunidade Européia garantiram que não permitirão que os bancos europeus venham a quebrar.

Países mais preocupados em ‘apagar incêndio’

Reinaldo Gonçalves, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acredita que os países ainda estão mais preocupados em “apagar o incêndio” provocado pela crise do que em discutir um novo arranjo monetário mundial: — Pode ser que no futuro, mas não agora.
Quando o acordo de Bretton Woods foi assinado, o mundo tentava se reerguer da II Guerra Mundial. Liderados pelos Estados Unidos, os signatários do acordo concordaram que o dólar passaria a ser uma moeda forte e a principal referência do sistema financeiro mundial.
Hoje, segundo Gonçalves, o mundo está carecendo de uma moeda que tenha o mesmo poder que teve o dólar naquela época: — Os países mais industrializados não têm condições de estabelecer acordos internacionais, porque eles estão sendo obrigados a resolver problemas de curtíssimo prazo.
O economista Pedro Paulo Zaluth, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), afirma que, hoje, ao contrário do ocorreu nos anos 40, o mundo dificilmente poderá contar com o apoio dos Estados Unidos para uma futura reedição do acordo de Bretton Woods. Em primeiro lugar, porque os Estados Unidos ainda são o principal centro financeiro internacional, além de um dos mais importantes exportadores de serviços financeiros da atualidade.

Eleições americanas vão deixar EUA fora do debate

A decisão sobre o tema, acredita o economista, somente terá condições de avançar depois que os Estados Unidos elegerem seu novo presidente.
Ele também tem certa dúvida quanto à adesão do democrata Barack Obama à idéia.
O historiador Márcio Scalécio, professor de História Econômica da Pontifícia Universidade Católica carioca (PUC-Rio) e da Cândido Mendes, acha que a proposta de Brown é totalmente “fora de propósito”. Ele não acredita que os países venham a concordam com a idéia de uma “regulação única”, como ocorreu no passado, porque é exatamente a falta dela que garante o “fluxo de capital internacionalmente”.

— Estamos vivendo o fim de uma onda liberalizante e devemos entrar num período mais intervencionista — acredita Scalécio, para quem o mundo vai até definir novos arranjos, mas não se submeter a uma regulação única.
O acordo de Bretton Woods vingou até o anos 70, quando a crescente pressão pelo ouro obrigou o então presidente americano Richard Nixon a suspender, unilateralmente, a conversibilidade direta do dólar em ouro. Além de definir regras para a política econômica internacional, o acordo criou o Banco Mundial (Bird) e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

(*) Com agências internacionais

Medidas históricas contra crises

NEW DEAL
Foi um programa econômico criado pelo então presidente americano Franklin Delano Roosevelt para combater os efeitos da Grande Depressão, nos Estados Unidos. Lançando mão de um audacioso plano de obras públicas em 1933, o objetivo do governo era atingir o pleno emprego. É que a crise de 1929 levou um quarto da população americana a ficar desempregada.
A decisão era claramente intervencionista, o que contrariava a histórica tradição liberal dos Estados Unidos. Como definiu o próprio Roosevelt na época, ele queria enfrentar o problema da crise como se enfrenta uma guerra. A nova política estendeu-se a toda a atividade econômica, que significou, entre outras medidas, o controle do sistema financeiro do país, o embargo do ouro e a desvalorização do dólar para estimular as exportações. Os opositores do New Deal, que protestavam contra o crescimento dos gastos públicos, interromperam a expansão do programa em 1937 para definitivamente aboli-lo a partir de 1943. Os estudiosos de história econômica divergem se o New Deal de fato ajudou os Estados Unidos a saírem da crise. Outros consideram que várias das medidas já tinham sido adotadas pelo presidente anterior, Herbert Hoover.

ACORDO DE BRETTON WOODS
Foi uma tentativa de reconstruir o capitalismo mundial, antes do fim da II Guerra.
Reunidos no Mount Washington Hotel, na pequena cidade de Bretton Woods, no estado americano de New Hampshire, os 730 delegados de todas as 44 nações aliadas acertaram um novo gerenciamento econômico mundial. Era julho de 1944. Foi a primeira vez em que o mundo negociava uma nova ordem monetária. A acordo foi liderado pelos Estados Unidos, e ficou decidido no encontro que o dólar passaria a ser a moeda forte do sistema financeira mundial. Ficou definido também um conjunto de regras para regular a política econômica internacional, além da criação do Banco Mundial (Bird, que nasceu com o nome de Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em 1971, diante de pressões crescentes na demanda global por ouro, o então presidente americano Richard Nixon suspendeu unilateralmente o sistema de Bretton Woods, cancelando a conversibilidade direta do dólar em ouro.

PLANO MARSHALL

Foi o programa criado pelo secretário de Estado americano George Marshall para recuperar a Europa, após o fim da II Guerra.
O objetivo era reconstruir, com a ajuda financeira dos Estados Unidos, a economia européia arruinada pela guerra. Aprovado durante a Conferência de Paris, em 1947, o plano contou com o apoio dos 16 países presentes ao encontro. No ano seguinte à reunião, foi criada a Organização para a Cooperação Econômica Européia. Os maiores beneficiados pelos US$ 11,5 bilhões liberados pelos Estados Unidos foram Inglaterra (24%) , França (20%), Alemanha Ocidental (11%) e Itália (10%). O socorro financeiro não foi apenas em empréstimos, mas também em equipamentos. A ajuda durou até 1952, mas mesmo depois disso os Estados Unidos continuaram a resolver problemas de balanço de pagamentos dos países e problemas de escassez de dólares mundo afora.

FONTE: Novíssimo Dicionário de Economia

26/06/2007 - 09:50h Quem é Gordon Brown?

Por Ian Davidson*
26/06/2007

Por fim, Gordon Brown está assumindo o cargo de primeiro-ministro do Reino Unido de Tony Blair, alcançando, assim, a ambição de toda a sua vida, como se por direito. Este é seu primeiro problema. Ele não foi eleito por ninguém – nem pelo Partido Trabalhista e nem pelos eleitores britânicos; simplesmente recebeu uma herança que há muito tempo imaginava ser seu direito.

Como, então, Brown adquirirá legitimidade como novo líder do Reino Unido? Uma coisa que está clara é que ele não conquistará legitimação se apenas oferecer mais daquilo que Blair tem nos servido nos últimos dez anos.

O segundo problema de Brown é reflexo do primeiro. Na condição de membro do alto escalão do governo, Brown, ao longo do seu mandato, compartilha a responsabilidade por tudo o que Blair fez. Comentaristas políticos às vezes alegam detectar diferenças importantes nas suas atitudes políticas latentes. Na prática, porém, Brown permaneceu nas sombras, habilmente gerindo a economia, mas se manteve calado e enigmático em torno de temas políticos vitais e aparentemente endossando tudo o que Blair fez.

Se Brown quiser conquistar legitimidade, precisará oferecer algo novo. Entretanto, ele só poderá fazer isso distinguindo-se do legado de Blair de formas claramente perceptíveis e, portanto, bem radicais. Esta será uma proeza difícil de executar.

Possivelmente a questão doméstica isolada mais importante que Brown enfrenta diz respeito à sua posição na balança entre o livre mercado e as exigências de política social.

O governo de Blair fez o Partido Trabalhista percorrer um longo caminho à direita das suas prioridades tradicionais de proteção aos desprivilegiados e, para justificar a mudança, ele mudou o nome do partido para “Novo Partido Trabalhista”.

Sob muitos aspectos, o apoio do governo Blair às políticas de livre mercado acabou se transformando em uma mudança produtiva e perspicaz. A economia do Reino Unido cresceu mais regularmente e mais velozmente do que tem feito por várias gerações, e a receita de impostos gerada por esse crescimento permitiu ao governo canalizar dinheiro para a Educação e para o Serviço Nacional de Saúde. Mas isso foi obtido a um preço, ou melhor, vários preços.

Primeiro, a desigualdade aumentou nos dois extremos da escala de renda. Na parte de baixo, a proporção da população com renda abaixo da linha de pobreza aumentou de 13% no começo do governo Blair para 20% agora. Esta situação é muito mais grave entre minorias étnicas. Além disso, apesar dos esforços do governo, a pobreza infantil também aumentou sob Blair.

Não se sabe se Brown entende que existe diferença entre ser amigo próximo dos EUA e entrar numa guerra ilegal e desastrosa para agradar George W. Bush

No topo, as rendas dos mega-ricos dispararam, com repercussões previsíveis, especialmente no mercado imobiliário. A preocupação pública em torno desta questão foi agravada por afirmações de que os ricos enriquecem mais pagando menos impostos.

Houve uma época em que se acreditava que Brown seria um entusiasta dos valores tradicionais do Partido Trabalhista. Era verdade? É verdade agora? O que ele dirá sobre a desigualdade? Leia mais no jornal Valor (para assinantes)

*Ian Davidson é consultor e colunista do Centro de Política Européia em Bruxelas e ex-colunista do “Financial Times”. Seu livro mais recente é “Voltaire in Exile” (Voltaire no Exílio). © Project Syndicate/Europe´s World, 2007. www.project-syndicate.org