Alta de preços agrícolas deve injetar até R$ 12 bi na renda de produtores
Governo e consultorias revertem estimativa de queda de 7% e dizem que a renda do campo pode ser igual à de 2008
Márcia De Chiara – O Estado SP
A alta recente dos preços dos produtos agrícolas deve injetar pelo menos R$ 6 bilhões de renda no campo neste ano, segundo os cálculos do Ministério da Agricultura. Consultorias privadas preveem um acréscimo de até R$ 12 bilhões na receita em relação às previsões iniciais, que apontavam queda de 7%. Nos últimos 30 dias, as cotações de soja, algodão e açúcar, por exemplo, subiram 13%, 22%, 18%, respectivamente, nas bolsas internacionais. A recuperação de preços trouxe de volta otimismo ao campo e abriu perspectivas mais favoráveis para o plantio da próxima safra.
Em setembro, com o agravamento da crise financeira, os preços das commodities desabaram e as projeções da receita agrícola para este ano também. O Ministério da Agricultura chegou a projetar no início do ano que a renda das lavouras poderia chegar a R$ 150 bilhões em 2009. Agora, prevê que a receita atinja R$ 156 bilhões, resultado apenas 3% menor do que o obtido em 2008, revela um estudo do Ministério da Agricultura a que o Estado teve acesso e será divulgado amanhã.
“A tendência é de que a renda agrícola de 2009 não sofra uma queda tão grande quanto se previa inicialmente e possa até se igualar à do ano passado, que foi recorde”, afirma o coordenador-geral de Planejamento do Ministério da Agricultura, José Garcia Gasques. Em 2008, a renda de 20 produtos agrícolas somou R$ 161,1 bilhões.
Segundo Gasques, o que está puxando para cima a receita são os preços. Ele observa que os dados da receita de abril refletem apenas parcialmente esse movimento porque as cotações consideradas são as de março e a escalada das commodities ganhou força em abril.
Consultorias privadas que consideram em seus cálculos os preços deste mês têm projeções mais otimistas. A RC Consultores, por exemplo, refez as contas e prevê que a renda obtida com a venda de grãos, cana, café e laranja atinja R$ 186,9 bilhões em 2009, ante estimativas iniciais que indicavam R$ 174,5 bilhões. A nova projeção é praticamente a mesma receita recorde obtida no ano passado. “A percepção de renda futura da agricultura mudou”, diz o diretor da consultoria, Fabio Silveira. Ele acredita que esse resultado possa até ser superado.
“Estamos contentes, mas preocupados”, afirma o presidente da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso, Glauber Silveira. Ele explica que a receita com soja pode ser corroída pela valorização do real ante o dólar, apesar de o preço atual do grão, que passa de US$ 11 por bushel na Bolsa de Chicago, superar a média histórica e o esperado diante do cenário de recessão global. O dólar fechou a semana em R$ 2,068, a menor cotação desde outubro do ano passado.
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celso.ming@grupoestado.com.br
A depender das estimativas oficiais e dos analistas independentes, o tombo da safra 2008/2009 não será tão grande quanto se esperava há apenas um mês. É mais um elemento que parece mostrar que as condições da economia brasileira não estão tão ruins como pareciam há dois meses.
Terça-feira, tanto o IBGE como a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) reviram suas expectativas de produção para cima. Passaram de uma queda de 7,3%, estimada em março, para 6,5%, no caso do IBGE, e de 6,1% para 4,5%, nos números da Conab.
Isso parece indicar que a economia do interior deve se recuperar mais rapidamente do que se esperava, o que também deverá reanimar tantas administrações municipais afundadas na redução da arrecadação.
Para o analista de mercado da Agroconsult, Marcos Rubin, o pico das projeções mais pessimistas se deu nos primeiros dois meses do ano porque havia muita incerteza sobre os efeitos da forte estiagem que atingiu as plantações em novembro e dezembro passados, principalmente na Região Sul do País. Calculadas as perdas das safras de verão, o produtor pode ter visto nas culturas de inverno (milho e trigo) uma oportunidade de recuperação.
No caso do milho, que possui importante ciclo de inverno, a soma de preços melhores e de uma redução nos custos incentivou os produtores a aumentar a área de plantio, mas que, ainda assim, é inferior à registrada na safra passada. “O cenário geral, em comparação ao que se viu no início deste ano, está melhor”, diz Rubin.
E há outro fator positivo: os custos médios de produção, que, no caso da soja cultivada na região de Mato Grosso, tiveram um aumento de 82% na safra 2008/2009 em relação à anterior, já começam a cair.
O analista da Agroconsult calcula que, para a próxima safra, a redução do custo médio dos fertilizantes para a soja será de 13% e a do custo total de produção, de 8%. O milho, cujo aumento médio nos custos de produção nesta safra foi de 25%, terá queda de 11% na próxima.
Os dados da Associação Nacional para a Difusão de Adubos (Anda) mostram que a relação de troca do milho (quantidade de sacas de 60 quilos do produto necessária para a compra de uma tonelada de fertilizante) caiu de 51,0 em 2008 para 47,7 no primeiro bimestre deste ano, e a da soja, de 26,3 para 24,6.
O analista Pedro Collussi, da AgraFNP, aponta outros motivos para o otimismo: “Em março, os produtores, influenciados por um relatório mais otimista de estimativa de produção de milho nos Estados Unidos, resolveram plantar de última hora.” A estimativa da redução de área cultivada, que era de 18%, passou a 9,5%.
Em relação ao trigo, cujo plantio se inicia agora, poucas mudanças devem ocorrer. Rubin explica que, por se tratar de uma cultura de rotação, sua decisão de plantio é técnica, também por causa da antecipação dos contratos de venda. “Mesmo com a quebra de produção na Argentina, os preços não mudaram aqui. Pode ser que, no período de colheita, que deve ocorrer no terceiro trimestre, eles estejam mais altos.”
Apesar da queda desta safra, ela ainda deverá ser a segunda maior da história, perdendo apenas para a 2007/2008, que somou 144,1 milhões de toneladas.
COLABOROU NÍVEA TERUMI
Confira
Melhora – Ainda é cedo para afirmar que a crise já passou. Mas esta já é uma boa aposta, com base em alguns indícios. Aqui vão três:
As vendas de produtos que não dependem de crédito parecem bem melhores. Os supermercados, por exemplo, faturaram 1,7% a mais nos dois últimos meses. E o consumo físico de energia elétrica cresceu 3,3% no mesmo período.
E, anteontem, a Associação Brasileira de Papelão Ondulado comunicou que as vendas do produto, muito usado em embalagens, cresceram 16,4% em março, quando comparadas com os números de fevereiro.
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IBGE eleva previsão para a safra 2009
SEGUNDA REVISÃO
O IBGE elevou de novo a estimativa para a safra 2009. Segundo o levantamento de março, a produção agrícola do País vai somar 136,4 milhões de toneladas. A projeção é 0,8% superior à de fevereiro, na segunda revisão consecutiva para cima. Apesar da queda prevista de 6,5% ante o ano passado, a produção esperada será a segunda maior da história do País, e só perde para 2008, de 145,9 milhões toneladas.
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Assis Moreira, de Genebra – VALOR
O Brasil indicou ontem na Organização Mundial do Comércio (OMC) que uma proposta de aumento da Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul para produtos lácteos, de couro, têxteis e de madeira, se for aprovada e implementada terá “abrangência muito limitada e para resolver situações muito específicas”. A proposta está em discussão no bloco desde novembro e vários parceiros comerciais pediram esclarecimentos sobre sua aplicação, durante o exame da política comercial brasileira, encerrada ontem com a entrega de 316 páginas de respostas de Brasília.
Segundo o mediador do exame, o embaixador húngaro Istvan Major, o sentimento geral dos parceiros foi de que o Brasil, apesar da desaceleração econômica, “tem muito boas chances de resistir muito melhor na crise do que os outros”. Para ele, “o Brasil é um modelo a ser seguido”.
Uma “apreciação generalizada” foi manifestada sobre a decisão do país de “resistir a pressões protecionistas” ao não expandir a abrangência de licenças de importação não-automáticas. Mas várias delegações questionaram demandas atuais de licença. O Brasil respondeu que está tomando medidas para minimizar o impacto das licenças e que não tem intenção de impor novas exigências sobre uma lista maior de produtos.
Países pobres se manifestaram em peso elogiando o Brasil, mas também cobraram a promessa de acesso livre de cotas e tarifas para seus produtos no mercado brasileiro, feita no âmbito da Rodada Doha, que está longe de terminar.
O relatório dos economistas da OMC, que inclui o brasileiro Alberto Bueno, apontou o aumento da presença do Estado nos financiamentos e a suspeita de que as taxas de juros cobradas pelos bancos oficiais embutem subsídios que atropelariam as regras internacionais. Mas a reação foi bem tímida, no rastro da crise atual. Segundo o mediador, poucos países indagaram sobre os programas de financiamento à exportação que teriam “algumas distorções no comércio”.
Em relação ao exame realizado em 2004, a conclusão foi de que a política comercial hoje é mais aberta, que a burocracia persiste, mas diminuiu, e a modernização está em curso nas aduanas. Sobre a pouca transparência em regulações técnicas e medidas sanitárias e fitossanitárias, o mediador disse que “são problemas não só do Brasil, mas de outros países também”.
O exame do Brasil provocou 800 questões, muitas delas refletindo preocupações bem específicas. A China recusa há meses prorrogar um acordo com o Brasil pelo qual restringe voluntariamente exportações de têxteis e vestuário para o país. O resultado é que aumentarão as medidas antidumping contra os chineses. Assim, sem surpresas Pequim indagou sobre uma suposta cláusula de “interesse nacional” que a Câmara de Comércio Exterior usaria para decisão final nos casos de dumping. O Brasil respondeu que as sobretaxas só visam combater o dumping que causa prejuízos à indústria nacional.
Os Estados Unidos, o Canadá e o México, sócios no Nafta, apareceram com um extenso comentário sobre a importância de países produtores de aço “não influírem nas exportações”, nem limitarem as importações. O Brasil retrucou que só monitora o preço do aço importado. E que está preocupado com a implementação do “Buy America” aplicado aos siderúrgicos.
Entre as inúmeras perguntas da União Europeia, uma foi sobre o que o Brasil está fazendo para assegurar produção sustentável de biocombustível, incluindo respeito a padrões trabalhistas e implicação na mudança do uso da terra. A resposta foi de que a ocorrência de “práticas de trabalho ilegal em plantações de açúcar são residuais”, que a expansão da cana de açúcar é em áreas degradadas e que o governo tem um plano agroecológico que dirá onde o cultivo de cana será proibido, autorizado ou encorajado.
A UE quis saber em detalhes também o estado e as condições de negociações de acordos do Mercosul com a Índia, a África do Sul e outros países. E perguntou se o bloco pretende incluir cláusulas sociais e trabalhistas nos acordos. A resposta foi “não”.
Cingapura, um paraíso fiscal, quis saber porque o Brasil cobra 25% na repatriação de ganhos para países com baixos impostos, comparado a 15% para outros países. O Brasil explicou que carrega mais na taxa no fluxo de capital com os paraísos fiscais para prevenir evasão fiscal.
O Canadá, um dos grandes exportadores agrícolas, perguntou sobre o impacto da crise atual sobre os produtores agrícolas brasileiros. A delegação brasileira respondeu que a liquidez está melhorando, mas a produção de grãos cairá 6,4% e há preocupações sobre a demanda e preços externos.
A Nova Zelândia, um dos maiores exportadores de lácteos, quis saber a racionalidade de o Mercosul, hoje exportador desses produtos, aplicar taxa bem maior na importação, de 18,8%. O Brasil respondeu que enquanto persistirem os subsídios para lácteos no comércio internacional, a taxa não diminuirá.
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Alysson Paulinelli e Antonio Licio – O Estado SP
O mundo parece finalmente reconhecer o fenômeno do aquecimento global, embora ainda discuta as proporções de suas origens, entre antrópicas e naturais, e suas reais dimensões. A Agência Internacional de Energia (AIE) estima em 28 bilhões de toneladas as emissões de gases de efeito estufa – GEE – em 2006, enquanto o Departamento de Energia dos EUA (DoE) mensura de 11 bilhões a 12 bilhões. A primeira diz que o Brasil emite 303 milhões de toneladas, o DoE estima em 294 milhões e nosso Ministério do Meio Ambiente fala em 1,02 bilhão, diferença supostamente atribuída às queimadas de matas. Provavelmente as primeiras não consideram os GEE derivados de queimadas porque esses vegetais já sequestraram CO2 quando em crescimento, e a queimada simplesmente zera a contabilidade das emissões.
Se as origens e dimensões do fenômeno mostram-se tão controvertidas, maior ainda é a confusão sobre como atacar o problema que poderá, nas hipóteses mais pessimistas, aquecer a Terra em até 3°C, com consequências imprevisíveis. Ninguém aponta perspectivas concretas de solução, nem mesmo o respeitado Al Gore. Somente agora os EUA concordam em fazer algo, não se sabe exatamente o quê. A União Europeia anunciou uma política de 3 vezes “20%?s”: 20% de aumento de eficiência da matriz energética, 20% de redução de emissões de CO2 e 20% de participação de energia limpa até 2020. Será isso possível?
A matriz energética mundial tem a seguinte distribuição, em termos de energia primária: 34% de petróleo, 26% de carvão mineral, 21% de gás natural, somando 81% de combustíveis fósseis, ou “sujos”. Os demais 19% “limpos” originam-se em nuclear (6,2%), hidrelétrica (2,2%), 10,1% de combustíveis renováveis (lenha e biocombustíveis) e somente 0,6% de “outras limpas” (eólica, solar, geotérmica, etc.). Na geração de eletricidade, 41% advêm do carvão; 20% do gás natural; 15% de hidráulica; 15% de nuclear; 6% do petróleo; e 2% de outras fontes, segundo a mesma AIE.
A simples observação desses dados revela a enorme rigidez para se alterar esta matriz, de “suja” para “limpa”. Mais: nos grandes países emergentes – Índia e China – e nos EUA só restarão fontes sujíssimas de carvão mineral no futuro. As fontes hidráulicas já estão comprometidas em 70% de seu potencial, o restante é inviável econômica e ambientalmente. Em suma, a perspectiva concreta de geração elétrica virá, infelizmente, de usinas nucleares e a carvão mineral, cujas fontes ainda serão abundantes por mais de uma centena de anos, e do gás natural, menos sujo, mas fóssil e finito.
Por sua vez, o petróleo, principal fonte de energia para transportes, nos oferece o seguinte dilema: ou se extingue na metade deste século – e nesse caso sua contribuição para o aquecimento global é um falso problema – ou continuará “sujando” a matriz. Em qualquer situação há que se viabilizar substitutos.
Despontam aqui os biocombustíveis, curiosamente pouco estudados, tratados mesmo por alguns como inviáveis como solução de larga escala, tal como foi no início do Pro-álcool há 34 anos. Achamos que falta conhecimento agrícola-econômico sobre o assunto, pois a partir do preço do petróleo de US$ 40 a US$ 50 o barril, os biocombustíveis, álcool de cana e biodiesel de dendê são absolutamente viáveis mesmo sem programas ambientais de governo de utilização compulsória.
O mundo consome hoje 1,2 trilhão de litros de gasolina e 1,3 trilhão de litros de diesel anualmente (DoE, 2005), que requereriam, respectivamente, ao redor de 180 milhões e 220 milhões de hectares de cana-de-açúcar e dendê, únicas plantas atualmente com tecnologias capazes de produzir álcool e biodiesel em volumes significativos e competitivamente. Existiriam essas áreas disponíveis no mundo?
No caso da cana, grosso modo, somente com substituição de atuais áreas de pastagens ou de grãos, considerando seu especial requerimento de clima: tropical, sem excessos nem déficits hídricos. No Brasil há mais de 100 milhões de hectares neste clima, inclusive áreas impróprias, como Pantanal, e montanhosas. Parte desses pastos poderá ser empurrada para regiões mais secas. Internacionalmente, a exceção fica por conta de regiões da África Meridional onde ainda há terras ociosas com clima adequado (savanas), mas de difícil mobilização empresarial.
Não se considerou aqui o uso do etanol de milho nem a biomassa de capim para queima e geração termoelétrica, dado o alto custo de oportunidade em desviar áreas alimentícias, nem as perspectivas de etanol de celulose, incógnita bioquímica e econômica, que uma vez equacionada resolverá também o problema alimentar mundial: folhas, galhos e capins poderão ser comidos pelo homem.
No caso do dendê, as perspectivas são bem mais promissoras, pois o clima exigido é o equatorial superúmido (latitudes 10° norte e sul) onde a produção mecanizada de grãos é inviável e sobram áreas com baixo ou nenhum aproveitamento agrícola (somente na Amazônia brasileira há 73 milhões de hectares desmatados, 17 dos quais degradados). Enquadram-se aí toda a Amazônia (450 milhões de hectares), a África úmida (350 milhões de hectares) e partes da Ásia (Indonésia, Filipinas, Bornéu e Papua-Nova Guiné, com 300 milhões hectares), onde certamente os atuais subaproveitamentos agrícolas darão lugar a florestas energéticas. Milhões de empregos poderão ser gerados em áreas pobres.
Dessas regiões virão os necessários combustíveis líquidos do futuro, além de ser a única perspectiva concreta para ajudar a “limpar” a atual matriz energética mundial, alterando ainda profundamente a geografia econômica e a geopolítica mundial.
*Alysson Paulinelli, engenheiro agrônomo, foi ministro da Agricultura e Antonio Licio, economista, foi diretor do Ministério da Agricultura. Ambos participaram da concepção e implantação do Proálcool entre 1975-79
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Javier Blas, Financial Times, de Washington – VALOR
As cotações das commodities alimentícias deverão permanecerão acima de níveis históricos em 2009, afetando os países pobres pelo terceiro ano consecutivo, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
A previsão da conferência anual do USDA em Washington aponta para preços mais baixos do que no primeiro semestre do ano passado, quando commodities como milho, trigo, soja e arroz atingiram máximas históricas. Joseph Glauber, economista-chefe do USDA, disse que o impacto da crise econômica sobre o consumo de alimentos deprimiu temporariamente os preços das commoditie agrícolas, mas advertiu que os preços deverão permanecer bem acima da média nos oito anos desde 2000.
Glauber disse que as perspectivas são “de um retorno de preços mais altos”, pois algumas das pressões que motivaram os aumentos no ano passado e um crescimento relativamente forte em mercados emergentes “voltarão a desempenhar um papel importante” neste ano ou no início de 2010. “Este será novamente um ano difícil [para países pobres]“, disse ele.
O USDA prevê que os preços do trigo na porteira, nos EUA, ficarão abaixo do nível recorde em 2008, mas acima da média do biênio 2006-2007, quando as cotações começaram a subir e chegaram a desencadear uma crise alimentícia mundial.
A perspectiva de preços mais altos era uma particular preocupação para países em desenvolvimento exatamente no momento em que a crise econômica impactou suas perspectivas, foi dito à conferência. Os comerciantes de alimentos advertiram que alguns países africanos estão defrontando-se com dificuldades para garantir suas importações de commodities alimentícias em meio a um crédito apertado.
Christopher Delgado, um consultor para políticas agrícolas no Banco Mundial, advertiu a conferência que, apesar de uma queda nos preços dos alimentos, os preços do milho estão pelo menos 40% acima da média do período 2003-2006, e os preços do arroz estão 100% mais altos. “A crise de alimentos não foi embora”, disse ele. “Na realidade, ela está voltando”.
O número de pessoas famintas no mundo, no ano passado, saltou para quase 1 bilhão, devido ao impacto da crise mundial de alimentos, quando foram registrados preços recordes para commodities agrícolas e manifestações de protesto nas ruas contra a falta de alimentos em vários países – do Haiti a Bangladesh. O impacto de longo prazo da crise de alimentos deverá induzir os países a adotarem políticas alimentícias mais protecionistas.
Uma preocupação central continua a ser com as proibições a exportações que alguns grandes vendedores de commodities agrícolas impuseram nos últimos 18 meses. O Vietnã, segundo maior exportador de arroz do mundo, anunciou na na semana passada uma proibição de quatro meses à vendas de arroz no exterior. Na Argentina, cresceram as especulações de que o governo poderá criar um “diretoria de comércio” para grãos e sementes oleaginosas, visando assumir maior controle sobre um setor da economia crucial na geração de receitas e permitir ao governo estabelecer pisos para os preços.
Wayne Jones, diretor de mercados agrícolas e alimentícios na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCED), disse que os países em desenvolvimento estão migrando “de importação para terceirização” da produção em terras agrícolas, e de “intervenções privadas para públicas nos mercados”. “Para países de baixa renda e importadores de alimentos, essa [transição rumo a preços mais altos de produtos agrícolas] é assustador”, disse ele.
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Menor apetite chinês vai tirar US$ 1,5 bi da exportação brasileira
Raquel Landim, de São Paulo – VALOR
Um dos países mais beneficiados pelo voraz apetite chinês por commodities, o Brasil vai sofrer com a desaceleração do gigante asiático. O país deve perder pelo menos US$ 1,5 bilhão em vendas de apenas três produtos – soja, minério de ferro e petróleo – para os chineses este ano. Especialistas em comércio exterior acreditam que a China está trocando os banquetes de commodities por uma dieta mais equilibrada. Por isso, além desta perda, investimentos futuros com alvo no mercado chinês devem ser bem estudados, dizem os analistas.
Conforme a estimativa do Conselho Brasil-China, as exportações para o país asiático de soja, minério de ferro e petróleo vão cair 12%, de US$ 12,7 bilhões em 2008 para US$ 11,2 bilhões em 2009. Essas commodities representam 77% da pauta de exportação do Brasil para a China. As projeções apontam queda de 19,4% nas vendas de soja para a China em 2009, 46,4% no petróleo, e alta de 13,7% no minério de ferro. O conselho parte da premissa que as exportações serão prejudicadas apenas pela queda de preços, porque os volumes de soja e petróleo vão se manter constantes, enquanto o do minério pode subir 10% graças ao pacote de estímulo fiscal chinês . A hipótese é considerada otimista por outros analistas, para quem a queda das exportações para a China pode ser ainda mais significativa.
“A corrente comercial entre os dois países inevitavelmente vai cair. Vamos enfrentar uma redução substancial em valor com a queda dos preços das commodities, mas o volume dificilmente será afetado”, disse Rodrigo Tavares Maciel, secretário-executivo do conselho. Maurício Moreira Mesquita, economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), discorda e avalia que a tendência é de queda para as exportações brasileiras para a China, não apenas em preço, mas também em volume. “Se a desaceleração da economia chinesa se aprofundar, o impacto para a América Latina vai ser severo”, ponderou.
Em seis anos, os chineses quintuplicaram a compra desses produtos no Brasil. As exportações brasileiras de soja para a China saltaram de US$ 1,3 bilhão em 2003 para US$ 5,3 bilhões em 2008. No minério de ferro, as vendas saíram de US$ 765 milhões para US$ 4,9 bilhões no período. O petróleo – que sequer aparecia entre os principais produtos de exportação para a China em 2003 – rendeu US$ 1,7 bilhão ao país em 2008.
Dois fatores aplacaram a sofreguidão dos chineses por commodities brasileiras: a desaceleração do crescimento da economia do país – provocada pela crise global e pela fraqueza das exportações – e a consolidação da sua indústria pesada. O ritmo de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da China desacelerou de 13% em 2007 para 9% em 2008 e deve ficar em 8% em 2009 nas expectativas otimistas. A indústria pesada chinesa está contaminada pelo excesso de produção, o que vai exigir a consolidação em empresas maiores e mais competitivas e limitar a construção de novas plantas. A preocupação do país com a poluição também deve desestimular investimentos.
“A posição de exportadores de commodities como o Brasil é mais forte que uma década atrás, mas planos de expansão baseados no ritmo de crescimento dos últimos anos têm que ser revistos”, disse ao Valor Arthur Kroeber, diretor-executivo da Dragonomics, consultoria especializada em economia chinesa, sediada em Pequim. Kroeber avalia que a “chave” é que a demanda da China por commodities brasileiras vai seguir forte, mas a taxa de crescimento será bem menor, derrubando preços.
É o contrário do ciclo que levou as commodities às alturas. Entre 2003 e 2007, o crescimento da China saltou de 8% para 12% e a capacidade da indústria intensiva em recursos naturais aumentou muito. Como resultado, os preços de commodities como soja e petróleo saltaram 115% e 213%, respectivamente, entre 2003 e 2007, mas parte desses ganhos já foi devolvida. Desde 2008, as cotações da soja e do petróleo caíram 20,5% e 58,2%. No minério de ferro, que subiu mais de 70% só no ano passado, as siderúrgicas chinesas e a mineradora brasileira Vale estão travando uma queda-de-braço para definir o preço de 2009. A expectativa é de pelo menos 30% de queda.
O minério de ferro é bom exemplo das mudanças que estão ocorrendo na China e vão atingir o Brasil. Em 2000, a China produzia 100 milhões de toneladas de aço. Graças ao forte crescimento da economia local, chegou a um ritmo anualizado de 570 milhões de toneladas no início de 2008, quatro vezes mais do que em 2000. Preocupado com a inflação, o governo chinês introduziu medidas para desacelerar a economia. Em conjunto com a crise global, as medidas derrubaram a produção de aço para 420 milhões de toneladas no fim de 2008. Os analistas estimam que a China vai seguir produzindo entre 420 milhões e 450 milhões de toneladas de aço por ano, volume acima do de 2000, mas praticamente estável na comparação com o fim de 2008.
A demanda chinesa por soja – outro importante item da pauta de exportação do Brasil pela China – deve ser menos afetada. Para Trevor Houser, pesquisador do Instituto Peterson para Economia Internacional, o consumo de commodities agrícolas não sofre como as metálicas, já que a dieta alimentar da população varia muito menos que os ciclos de investimento. A soja é um produto importante na alimentação chinesa e sua substituição por outros alimentos é complicada. Os preços do grão, porém, devem permanecer baixos por conta da crise financeira, que reduziu a liquidez dos mercados.
O pacote de estímulo fiscal da China e a recuperação do mercado imobiliário local podem ajudar a sustentar o consumo de aço, cimento e cobre em 2009, evitando uma queda mais brusca da demanda pelo minério de ferro brasileiro. Mas o tamanho do impacto depende da eficácia do pacote, o que divide os analistas. O governo chinês anunciou US$ 586 bilhões em gastos para estimular a economia. Boa parte do investimento será destinado à infraestrutura, à recuperação das áreas afetadas pelo terremoto de Sichuan e à construção de casas populares.
“O declínio da demanda chinesa não será tão forte quanto alguns especulam, mas não é razoável esperar que os preços permaneçam no mesmo patamar dos últimos anos, porque os fundos de investimento inflaram as commodities”, disse Li Gang Liu, economista-chefe do BBVA do departamento de pesquisa econômica da China e ex-funcionário do Banco Central de Hong Kong. Para Houser, o Brasil deve se preocupar mais com o colapso dos preços nos últimos seis meses do que com uma eventual queda de demanda, que levaria à redução do volume exportado. “Os preços devem continuar fracos até que o apetite chinês se recupere, o que ainda pode demorar um ano.”
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Fernando Lopes e Mônica Scaramuzzo, de São Paulo – VALOR
Com forte influência dos chamados fundamentos, todas as oito principais commodities agrícolas negociadas pelo Brasil no mercado internacional encerraram o mês de janeiro com preços médios superiores aos de dezembro de 2009.
Tal “alinhamento positivo”, exposto por cálculos do Valor Data baseados nas médias mensais dos contratos futuros de segunda posição de entrega (normalmente os de maior liquidez) transacionados nas bolsas de Chicago (soja, milho e trigo) e Nova York (açúcar, café, cacau, suco de laranja e algodão), não era visto desde junho de 2008, em plena inflação global dos alimentos.
Ainda que o nervosismo nos mercados mundiais tenha sido muitas vezes exacerbado pelas notícias de desaceleração econômica tanto em países desenvolvidos quanto em emergentes em janeiro, provocando movimentações financeiras que ajudaram a influenciar as commodities, o resultado não foi negativo para as cotações como muitos analistas temiam no fim de dezembro, em meio a um cenário de muitas incertezas.
Tragadas pelo aprofundamento da crise americana a partir de setembro, as cotações internacionais dos produtos agrícolas registraram queda ab-rupta até o fim do ano passado. Especialistas já alertavam que as relações de oferta e demanda não justificavam tamanha desvalorização, apesar da tendência de desaceleração. Com os fundamentos em geral “altistas” do mês passado, houve espaço para correções.
Vinícius Ito, analista da Newedge, corretora baseada em Nova York, lembra que um forte movimento de desova de posições por parte de investidores até o fim de 2008 colaborou sobremaneira para as fortes quedas observadas. Em janeiro, diz, muitos deles renovaram as apostas, fortalecidas pelos fundamentos.
No caso dos grãos negociados em Chicago, pesaram as quedas de produção na América do Sul por causa da seca, principalmente na Argentina, e o aquecimento da demanda de países consumidores importantes como a China, que decidiu recompor seus estoques com os preços mais em conta do que nos três primeiros trimestres do ano passado.
Nesse cenário, as cotações da soja foram as que mais subiram. Segundo o Valor Data, a média de janeiro atingiu US$ 9,9745 por bushel, 14,29% acima que a média de dezembro. A valorização do trigo, por sua vez, chegou a 9,49% na mesma comparação, e o bushel foi negociado, em média, por US$ 6,0168. O preço médio do milho subiu 7,11%, para US$ 4,0179 por bushel.
Ito acredita que, se depender apenas dos fundamentos, as cotações dos grãos poderão se estabilizar em torno desses patamares. Pelo critério dos preços médios, soja e milho estavam em baixa em Chicago desde julho de 2008; o trigo, desde agosto.
Não foram muito diferentes as equações que definiram as cotações das chamadas “soft commodities” em Nova York em janeiro. Os fundamentos prevaleceram também para esses produtos. “Se fizermos uma análise do mercado, nada efetivamente mudou muito. O mercado de crédito continua limitado, ainda sem fluir como deveria. A volatilidade também se manteve em janeiro e o dólar ficou mais firme, o que ajuda a pressionar as cotações”, explicou Rodrigo Costa, da Newedge.
No entanto, os preços das commodities fecharam firmes em janeiro, respaldados pelos fundamentos já conhecidos de cada commodity. Nenhum fator novo modificou o rumo do açúcar, café, suco, algodão e cacau. Para o açúcar, os preços refletem o primeiro déficit global depois de três anos de superávit mundial. A média de janeiro atingiu 12,62 centavos de dólar por libra-peso, 6,41% acima que a média de dezembro.
No café, a menor colheita no Brasil em 2009, resultado da bianualidade da safra (produtividade baixa a cada dois anos) também tem dado sustentação aos preços. O grão acumulou valorização de 7,22% em janeiro, com preços médios de US$ 1,1871 por libra-peso. A queda da produtividade dos países da América Central também tem ajudado a dar suporte às cotações.
As previsões de geadas sobre os pomares da Flórida, segundo maior produtor mundial de suco de laranja, embora não tenham ainda provocado danos às regiões produtoras dos EUA, deram sustentação ao produto no mês passado. Os riscos de estragos não se concretizaram, mas foram suficientes para elevar os preços do suco, que em janeiro acumularam alta de 2,61%, com preços médios de 76,88 centavos de dólar por libra-peso.
O algodão também subiu, apesar da baixa demanda global por têxteis. Segundo Fernando Martins, da Newedge, a menor área plantada para a pluma nos EUA sustentou as cotações. No mês o produto acumula alta de 8,68%, com preço médio de 49,57 centavos de dólar. O cacau subiu 6,06% no mês, negociado a US$ 2.591,20 a tonelada, por conta dos problemas na produção na Costa do Marfim e Gana e atraso da chegada da amêndoa até os portos.
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As exportações do agronegócio do Brasil totalizaram recorde de US$ 71,9 bilhões em 2008, alta de 23% em relação a 2007, informou o Ministério da Agricultura. O superávit da balança comercial do setor também obteve recorde, de US$ 60 bilhões, e a participação do agronegócio nas exportações totais brasileiras foi de 36,3%. O complexo soja (óleo, farelo e grão) registrou crescimento de 58% e o setor de carnes teve alta de 29%.
Tags: agricultura, carne, exportações, grãos, óleo, soja
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Lauren Etter, The Wall Street Journal – VALOR
Num momento em que o mundo precisa de mais comida, os efeitos da crise global do crédito sobre o Brasil aumentam o risco de falta de alimentos.
Muitos produtores brasileiros tinham a esperança de que a alta no mercado de grãos os ajudaria a pagar as dívidas e se tornarem mais competitivos em relação aos produtores americanos, que há muito são os líderes mundiais em produtividade agrícola. Agora, porém, com falta de capital, os brasileiros estão reduzindo o tamanho das plantações e até deixando de pagar dívidas. A acentuada a queda nos preços de diversos produtos no mercado mundial e o aumento no custo dos suprimentos agrícolas, combinados com o aperto no crédito, estão reduzindo o ritmo de um dos fornecedores de alimentos que mais cresce no mundo.
O desaquecimento do cinturão agrícola brasileiro pode afetar toda a economia do país, a maior da América Latina e que vinha, ao lado de Rússia, China e Índia, puxando o crescimento do mundo emergente.
Nos últimos anos, com o aumento da demanda global por grãos, os produtores brasileiros cultivaram a terra a um ritmo febril para plantar soja; estradas foram abertas no interior do país para transportar a produção. O aumento no preço dos grãos em todo o primeiro semestre de 2008 acelerou essa expansão.
Agora, os produtores estão tendo dificuldade de conseguir empréstimos para cobrir o alto custo dos fertilizantes, pesticidas e sementes. Para esses empréstimos, eles sempre dependeram muito de um punhado de cerealistas multinacionais, como Archer-Daniels-Midland Co., Bunge Ltd. e Cargill Inc.
Ao contrário dos Estados Unidos, onde os fazendeiros dependem de empréstimos do governo e de bancos privados, no Brasil até 40% do financiamento vêm de empresas agrícolas. Essa porcentagem pode cair para até 25% este ano, segundo o ex-ministro da Agricultura Marcus Vinicius Pratini de Moraes, hoje conselheiro independente do JBS SA.
Agora que a volatilidade no mercado de commodities e a crise financeira global aumentaram os riscos e os custos de fazer negócios no Brasil, as grandes empresas cerealistas estão freando o os empréstimos.
“Cada empresa está tentando garantir o máximo possível de capital (para suportar) os efeitos de longo prazo da crise do crédito”, diz Stefano Rettore, gerente-geral da CHS Brasil. “Isso está deixando menos capital disponível para financiar a agricultura brasileira.”
Esse aperto deve contribuir para uma queda de 2% na produção brasileira de soja para a safra de 2008-2009, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA.
Na última quarta-feira, a fabricante americana de equipamentos agrícolas Deere & Co. divulgou sua previsão de que as vendas desses equipamentos na América do Sul cairão em até 20% no ano que vem, em parte devido à “difícil situação do crédito no Brasil”, diz Susan Karlix, diretora de comunicações, em uma teleconferência com os investidores.
A Bunge, um dos maiores processadores mundiais de soja, cortou em 70% os pagamentos adiantados em dinheiro aos produtores agrícolas brasileiros desde o final do ano passado, segundo informes da empresa. A Bunge, tal como outras cerealistas, concede empréstimos e pagamentos adiantados em dinheiro aos produtores, em troca de entregas futuras de cereais.
“Basicamente, estamos sendo mais seletivos”, disse Stewart Lindsay, porta-voz da Bunge, “a fim de gerir melhor nosso capital de giro em um nível global, e sermos prudentes em termos de risco, em um ambiente de preços que já demonstrou ser volátil”.
As americanas ADM e Cargill informam que aumentaram o volume total de crédito disponível para os produtores brasileiros. Mesmo assim, os fazendeiros dizem que os empréstimos não bastam para cobrir seus custos cada vez maiores.
Na última década, o financiamento privado para os fazendeiros incentivou o rápido crescimento da agricultura e da infra-estrutura na região Centro-Oeste, ajudando o país a tornar-se um dos maiores produtores agrícolas mundiais. Hoje o Brasil é o maior produtor de soja depois dos EUA, respondendo por uma quarta parte da produção mundial desse grão.
Ao longo dos anos, os fazendeiros brasileiros acumularam vultosas dívidas depois de uma série de colheitas fracas e de taxas de câmbio desfavoráveis, no início da década. Essas dívidas estão fazendo com que muitos encontrem dificuldade para tomar novos empréstimos.
O custo total da produção das três principais lavouras de Mato Grosso – soja, milho e algodão – deve aumentar 42% este ano em relação ao ano passado diz Michael Cordonnier, presidente da consultoria americana Soybean & Corn Advisor.
Agora, além de economizar com fertilizantes e insumos – o que aumenta o risco de redução da safra -, muitos produtores estão deixando de pagar dívidas e equipamentos importantes para garantir produtividade estão sendo retomados pelos bancos. Mais de cem máquinas como tratores e colheitadeiras confiscadas nos últimos dias no Mato Grosso, o campeão nacional da produção de soja, diz Glauber Silveira, presidente da Aprosoja, Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso.
(Colaborou Tony Danby)
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Sergio Leo – VALOR
O Brasil tem dois tipos de preocupações em relação à China, que, apesar do tamanho, é um participante discreto das reuniões de cúpula convocadas para evitar uma ameaçadora recessão mundial. Analistas buscam na peculiar macroeconomia chinesa pistas da reação do país à crise e da capacidade de ajudar o mundo a atravessá-la. Ao mesmo tempo, o Brasil debate a melhor estratégia para lidar com a crescente voracidade chinesa no mercado internacional.
Em Brasília, as autoridades esperam receber neste mês um sinal de como a China vai combinar a retração dos mercados consumidores e as sensibilidades afetadas pelo apetite dos exportadores chineses. Vence em dezembro o prazo combinado na OMC para que os países sócios pudessem impor salvaguardas contra produtos têxteis chineses. Com a extinção das salvaguardas hoje aplicadas pelo Brasil, estará liberada a entrada de têxteis da China no mercado brasileiro, o que apavora os concorrentes nacionais. O governo brasileiro sugeriu uma alternativa às salvaguardas; os chineses fazem mistério.
O Brasil quer um “mecanismo de consultas” entre os setores privados dos dois países, sob a supervisão dos governos: sempre que houver alta muito forte nas vendas chinesas ao Brasil, se não houver acordo privado para evitar danos sérios aos concorrentes nacionais, o governo brasileiro poderia adotar “medidas administrativas” contra as “distorções” no comércio.
“É um mecanismo muito mais suave do que existe hoje”, defende o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Ivan Ramalho, que não dá detalhes sobre as “medidas administrativas” cogitadas. Os chineses temem criar precedentes contra as próprias importações e estão calados desde meados de outubro, quando receberam respostas a pedidos de esclarecimento sobre a proposta brasileira.
Neste ano, haverá déficit recorde no comércio com a China. As compras de produtos chineses vão superar em mais de US$ 2 bilhões as vendas do Brasil àquele país. Até outubro, mesmo com menor ritmo de crescimento, o déficit já chegou perto do alcançado em 2007 (US$ 1,87 bilhão): as importações brasileiras foram quase US$ 1,8 bilhão superiores às vendas para aquele mercado. “Precisamos diversificar a pauta de exportações para a China, que importa muitos manufaturados, mas não do Brasil”, diz Ramalho.
No último trimestre, houve aumento forte no ritmo de aumento das vendas à China, e uma redução do ritmo de crescimento das compras. Mas os negócios com grãos e óleo de soja são os maiores responsáveis pelo melhor desempenho, e representam, sozinhos, 42,5 % das exportações brasileiras à China. Com as exportações de minério, somam 70% do total. No caso da soja, pelo menos, é boa notícia o fato de que se destinam ao mercado consumidor interno, como reflexo da melhoria nas condições locais de alimentação e urbanização – algo que a recessão mundial não abalará muito..
O governo prepara um esforço de exportação para a China e, baseado nas estatísticas de comércio, já identificou setores como máquinas para têxteis e couros, autopeças e motores, preparações alimentícias e equipamentos diversos que os chineses compram de outros países. “Estamos na fase de identificar, no caso de máquinas e equipamentos, que produtos são comprados, de quem e por quê”, relata Ramalho. No próximo ano, missões comerciais para vender manufaturados serão enviadas à China.
O secretário-executivo da Câmara de Comércio Brasil-China, Rodrigo Maciel, argumenta que o principal fator responsável pelo aumento de importações de produtos da China são as compras feitas pela própria indústria brasileira, de máquinas e equipamentos. Essas importações de bens de capital representam, há anos, mais de 50% do total das importações, e o crescimento até setembro de 2008 chegou a 78% em relação ao mesmo período do ano passado, lembra ele.
As vendas chinesas de têxteis ao Brasil aumentaram 50%, mas perderam espaço no total das importações originadas na China, pela primeira vez nos últimos anos, de 7,9% para 7%. As de brinquedos também decresceram de 2% do total para 1,2% do total (o aumento das exportações de brinquedos em relação a 2007 foi de quase 35%). Maciel desdenha dos temores de uma invasão potencial de produtos chineses deslocados pela recessão dos mercados desenvolvidos. “O esforço estratégico das exportações chinesas para diversificar mercados já aconteceu e eles ocuparam o que podiam”, argumenta. “O Brasil foi um dos países para os quais mais cresceram as vendas da China.”
“Os chineses estão aumentando o valor agregado dos produtos vendidos para cá e isso preocupa cada vez mais setores industriais”, responde o presidente do Conselho d e Comércio Internacional da Fecomercio, Mario Marconini, que, amanhã, promove um seminário em São Paulo dedicado às conseqüências da crise para a China e o Brasil. “Todos precisamos da China, para dar fôlego ao mercado mundial. A a questão é como irão reagir à crise”, acrescenta.
Muito do que acontecerá no comércio com os chineses dependerá da reação da China ao desaquecimento na economia mundial. Até setembro, apesar da redução no ritmo de crescimento, as exportações chinesas aos EUA continuam firmes, e mesmo os bancos mais expostos a maus negócios no mercado americano mostraram bons resultados no terceiro trimestre, segundo a consultoria GaveKalDragonomics. O setor imobiliário contraiu-se com as medidas oficiais de restrição de crédito, e a produção industrial perde fôlego, mostrando sinais de acúmulo de estoques.
Ainda não se sabe se são estoques de bens intermediários, sinal de gestão de preços nas indústrias, ou de bens finais, que mostrariam preocupante retração na demanda tradicional por mercadorias chinesas. Na semana passada, as autoridades locais anunciaram liberação de quase US$ 600 milhões para incentivar o mercado interno. Mas a resposta chinesa ainda é um dos maiores enigma da crise.
Sergio Leo é repórter especial em Brasília e escreve às segundas-feiras
E-mail: sergio.leo@valor.com.br
Tags: autopeças, Bancos, Brasil, China, crédito, Crescimento, crise, demanda, desenvolvimento, estoque, EUA, exportações, grãos, imobiliário, importações, Indústria, Internacional, Mercados, negócios, óleo, OMC, produção, recessão, Sergio Leo, soja, Têxteis
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Estudos mostram que exercícios físicos melhoram o funcionamento dos neurônios
Antônio Marinho – O Globo
Ter um corpo com músculos definidos é sinal de inteligência. Pesquisas americanas indicam que os exercícios de força associados a treinamento aeróbio ativam os neurônios e retardam o envelhecimento do cérebro. Um dos motivos é que a atividade física estimula genes que regulam o órgão. Os dados foram apresentados este fim de semana no III Congresso Brasileiro de Nutrição Esportiva Funcional e IV Congresso Internacional de Nutrição Clínica Funcional, na sede da Fecomércio, em São Paulo. Especialistas discutiram ainda como usar os alimentos para prevenir e controlar desequilíbrios do organismo.
De acordo com estudos, a prática de exercícios aumenta a oxigenação no cérebro. Este é apenas um dos benefícios da malhação.
Segundo o pesquisador Michael Colgan, do American College of Sports Medicine e da British Society for Nutritional Medicine, o esforço produz novas mitocôndrias, organela responsável pela produção de energia.
Para fabricar mais mitocôndrias, o cérebro acaba estimulando a formação de neurônios, a neurogênese.
— Antes se dizia que isso era impossível, que as pessoas nasciam com certo número de neurônios e eles morreriam com os anos. Hoje sabemos que o cérebro cria novas células o tempo todo — diz Colgan, autor de livros sobre o tema, como “Save your brain” (Salve o seu cérebro), ainda não lançado no Brasil.
É por essa razão que o foco da pesquisa em atividade física tem sido quais genes ela regula e como eles afetam a expressão de DNA, a síntese de RNA, entre outras reações.
— Não se trata apenas de oxigenar o cérebro, mas como os exercícios afetam a base de nosso código genético e a sua expressão — afirma Colgan.
Malhação, portanto, é um dos melhores combustíveis para os neurônios. Se a pessoa tem pouca massa muscular tem dificuldade em oxidar as gorduras.
— Quando se perde músculos, há aumento de peso e maior risco de doenças, como diabetes, síndrome metabólica, problemas cardiovasculares, mal de Alzheimer e outros males crônicos. Os músculos são os principais órgãos capazes de oxidar a gordura.
Má nutrição afeta a libido e causa impotência
Colgan recomenda o equilíbrio nas séries para obter mais vantagens. Os músculos têm duas fibras básicas: a de contração rápida, que oxida carboidratos, e a lenta, que oxida gorduras. Exercícios aeróbicos, como caminhada, corrida, ciclismo e natação, aumentam o número de fibras de contração lenta.
Já exercícios de força aumentam a massa muscular e o número de fibras de contração rápida, de explosão. Estas ajudam a queimar os açúcares (carboidratos). Se a pessoa pratica muito exercício de força, perde fibras lentas. Ao exagerar no treino aeróbico, perde massa muscular.
Outros estudos confirmam a teoria de que exercício físico é bom para o cérebro. Pesquisa realizada com 138 voluntários na Universidade de Melbourne, na Austrália, e publicada no “Journal of the American Medical Association”, indicou que a atividade física melhora a função cognitiva de pessoas acima de 50 anos e com leve falha de memória.
Porém, só malhar é pouco. Colgan e especialistas reunidos no congresso recomendam a nutrição funcional, que visa a recuperar o equilíbrio bioquímico nas células. A partir de uma boa história clínica, de exames laboratoriais, mapeamento genético e polimorfismo enzimático — quando necessários — é possível traçar o perfil nutricional de cada um. Os exames são feitos no exterior, principalmente nos Estados Unidos, por meio de laboratórios conveniados no Brasil (cobram a partir de R$ 800). Há testes que avaliam a hipersensibilidade a nutrientes, numa lista de 94 a 270 alimentos.
Essa hipersensibilidade muitas vezes é responsável por doenças crônicas, alergias, fibromialgia, obesidade, hiperatividade e até depressão e demência. A idéia da nutrição funcional é regular os desequilíbrios orgânicos de acordo com a individualidade bioquímica e controlar o estresse oxidativo.
Nem sempre é necessário se submeter a exames caros para descobrir isso. O mineralograma, por exemplo, muito usado em medicina ortomolecular não é reconhecido pelo Conselho Federal de Medicina e só mostra a contaminação por metais tóxicos.
— Não há exame específico que aponte a necessidade exata de nutrientes em cada organismo.
O acompanhamento clínico permite observar a reação do organismo a determinados alimentos. Isto leva tempo e requer adesão do paciente. Até o aspecto das unhas revela deficiência ou excesso de nutrientes.
Há pessoas com testes laboratoriais normais que se sentem mal, o que pode ser causado por nutrição inadequada — diz Valéria Paschoal, diretora da VP Consultoria Nutricional e organizadora do Congresso de Nutrição Clínica Funcional.
Má nutrição afeta até a vida sexual. Valéria explica que a disfunção erétil e a frigidez ou falta de desejo sexual podem piorar ou serem desencadeadas por falta de nutrientes que produzem óxido nítrico, como alimentos ricos em arginina (soja e oleaginosas, por exemplo) que melhoram o fluxo de sangue.
Fontes de resveratrol, como chocolate amargo, suco de uva e vinho (sem excessos) e magnésio, encontrado em vegetais de folhas escuras, frutos do mar e peixes, são outros bons alimentos para produzir o óxido nítrico.
A frigidez na mulher pode estar associada à deficiência de zinco, que atua em hormônios. Mas a nutricionista lembra que um alimento bom para uma pessoa, pode fazer mal a outra.
— As dietas que focam apenas na contagem de calorias e açúcares não fazem mais sentido. É preciso escolher os alimentos de acordo com as características individuais. Até as queixas menos graves, como cansaço e falta de ânimo, são resultado de um estresse oxidativo por do desequilíbrio nutricional — diz Valéria.
Receitas para vida saudável
Nos dois congressos de nutrição especialistas discutiram ainda o uso de nutrientes no controle do estresse, no bem-estar físico e mental, na prevenção do envelhecimento precoce e em tratamentos de beleza
CORPO EM FORMA: Para o organismo funcionar bem é preciso consumir 54 nutrientes variados todos os dias, e muita gente não segue esta recomendação, segundo o pesquisador Michael Colgan.
Uma parcela grande da população ingere pouca quantidade necessária de todas as vitaminas e minerais. Por isso, a Academia Nacional de Ciências dos EUA e o Instituto de Medicina recomendam que a maioria dos americanos tome suplementos vitamínicos diariamente. Esses suplementos também devem ser usados pelas crianças e por mulheres durante a gravidez.
MENOS ESTRESSE: O estresse físico e emocional causa desequilíbrio hormonal e gera um processo chamado fadiga adrenal, no qual as glândulas supra-renais funcionam mal. Hábitos alimentares e dieta inadequada pioram a situação, segundo a nutricionista Patrícia Davidson. Ela recomenda evitar produtos industrializados e com agrotóxicos, consumo exagerado de adoçantes (têm alta carga tóxica e não auxiliam a supra-renal a produzir hormônios), baixo consumo de alimentos ricos em vitamina C e de gorduras (deve-se evitar as saturadas) — os hormônios da suprarenal são obtidos a partir de colesterol —; pouco consumo de vitaminas do complexo B (principalmente B5 que ajuda na produção de hormônios e está presente em cereais integrais e leguminosas) e de alimentos ricos em magnésio (encontrado em maior quantidade em cereais integrais, leguminosas, folhas verdes escuras), importante para produzir os hormônios adrenais. Deve-se evitar abuso de carboidratos de alto índice glicêmico (pão francês, biscoito, massas, açúcar, arroz branco, batata, mel e doces) que elevam rapidamente a glicose e causam perda de energia. O álcool reduz a capacidade de o fígado lidar com as toxinas, fazendo com que elas permaneçam no sistema e levem ao acúmulo de gordura no coração e ao enfraquecimento do sistema imunológico. Para aliviar o estresse, Patrícia recomenda alimentos como aipo, gengibre e grãos integrais, que auxiliam na absorção de nutrientes, reduzem a liberação de hormônios estressantes e melhoram a concentração.
PLANTAS ANTIOXIDANTES: Uma maneira de neutralizar o dano oxidativo é fazer dieta rica em fitoquímicos com propriedades antioxidantes, encontrados em vegetais. A nutricionista e bioquímica Lucyanna Kalluf explica que o alho, por exemplo, previne o envelhecimento cerebral e a demência por ser rico em fitoquímicos antioxidantes. O chá verde tem potencial antiinflamatório e anticâncer graças ao componente EGCG. Ela destaca ainda a linhaça, que tem alto teor de lignanas que agem no equilíbrio dos receptores hormonais e diminuem a agregação de placas.
CÉREBRO SAUDÁVEL: O cientista Colgan diz que existem cerca de 20 nutrientes essenciais na prevenção do mal de Alzheimer. Os mais importantes são o ácido glicólico, o aminoácido L-carnitina, o ácido retinóico e a acetilcisteína. Deve-se consultar nutricionista ou médico para saber como consumir essas substâncias de forma saudável.
REJUVENESCIMENTO: A nutrição influencia diretamente a saúde da pele, ao modular a síntese do colágeno e de hormônios. Segundo a nutricionista Eliane Tagliari, a recomendação diária deve ser de acordo com individualidade bioquímica de cada um, mas há nutrientes com um papel mais importante, como silício, selênio, coenzima Q10, ácido alfalipóico, quercetina, resveratrol, silimarina, magnésio, cálcio e complexo B. Mesmo os idosos podem se beneficiar, quando melhoram a absorção desses nutrientes através da recuperação da flora intestinal e da produção de enzimas digestivas. Uma boa hidratação é fundamental.
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PIB supera expectativa e cresce 6,1%
Fernando Dantas – O Estado de São Paulo
A força da economia brasileira surpreendeu no segundo trimestre e o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) veio no topo da expectativa dos analistas, e bem acima da maioria dos prognósticos. O PIB cresceu 6,1% em relação ao mesmo período de 2007 e 1,6% – ou 6,6% em termos anualizados – ante o trimestre anterior, na série expurgada de variações sazonais (dessazonalizada).
Em quatro trimestres, ou no ano terminado em junho, o avanço foi de 6%, idêntico à expansão no primeiro semestre de 2008. Foi o maior crescimento registrado pelo PIB em 12 meses desde o início da série, em 1996, e a maior expansão no primeiro semestre desde 2004.
O desempenho do PIB no segundo trimestre foi puxado pelo setor agropecuário e pelos investimentos, que cresceram 16,2% na comparação com o mesmo trimestre de 2007 – foi o 18º aumento trimestral consecutivo. Nos 12 meses até junho, os investimentos registraram expansão de 15,5%. Em ambos os casos, também são as maiores altas desde 1996.
“É um período bastante grande de crescimentos elevados, só equivalente a 2004”, disse Roberto Olinto, coordenador de Contas Nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O PIB trimestral foi divulgado ontem, no Rio.
Outro fator positivo para o PIB, destacado pelo IBGE,foi o impulso dado pelas contratações e pelas obras do setor público em ano eleitoral (concentradas no primeiro semestre, por causa das restrições no segundo).
A agropecuária cresceu 3,8% de abril a junho, ante o trimestre anterior, na série dessazonalizada. Na comparação com o mesmo trimestre de 2007, o crescimento foi de 7,1%. Em ambas as medidas, foi o setor que mais cresceu. A agropecuária foi puxada pelo café em grão e pelo trigo, que têm safra no segundo trimestre, e com estimativa de crescimento de respectivamente 27,7% e de 12,8% no ano. “São produtos com crescimento da produção e ganhos de produtividade”, explicou a gerente de Contas Nacionais Trimestrais do IBGE, Rebeca Palis.
Na indústria, o crescimento foi de 0,9% na comparação dessazonalizada com o primeiro trimestre, e de 5,7% ante o primeiro trimestre de 2007. O grande destaque foi a construção civil, que cresceu 9,9% ante igual período de 2007, acumulando uma alta de 9,4% no semestre. A construção civil no segundo trimestre foi puxada pelo aumento de 26,7% no crédito habitacional. Também houve uma alta de 5% na população ocupada na construção.
A indústria de transformação cresceu 4,8% no segundo trimestre, a extrativa mineral, 5,3%, e o setor de utilidades públicas (eletricidade, gás e água), 4,5%. Os serviços cresceram 5,5%, com destaque para a atividade financeira, com expansão de 14%, na esteira da forte expansão do crédito. O PIB do segundo trimestre atingiu R$ 716,9 bilhões.
Tags: agropecuária, café, construção, crédito, Crescimento, eletricidade, grãos, IBGE, Indústria, investimentos, PIB, produção, Produtividade, safra, serviços
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Celso Ming – O Estado de São Paulo
A cúpula das duas cúpulas (G-8 + G-5) que terminou ontem no Japão mostrou, como se esperava, mais palavrório do que determinação no ataque aos grandes problemas globais.
Essa impotência ou, melhor expressado, essa falta de vontade política de fazer algo mais consistente talvez mostre que os problemas ainda precisem piorar para então começarem a melhorar.
Subjacente aos grandes temas há um fato inegável. Enquanto apenas os ricos consumiam, a poluição ambiental aumentava e os suprimentos eram desperdiçados, mas o processo não produzia escassez. As crises do capitalismo eram de superprodução. O problema era escoar as montanhas de estoques.
A partir do momento em que duas dezenas de países pobres passaram à condição de emergentes e iniciaram o processo de consumo com o objetivo de alcançar o padrão dos ricos, a escassez se acentuou. Passaram a faltar energia, matérias-primas e alimentos. E os preços dispararam.
Em conseqüência da falta de alimentos (e de outras matérias-primas), um grande número de países acionou seu arsenal de medidas defensivas, como a imposição de restrições a exportações ou o aumento das posições compradas nos mercados futuros. Isso, por sua vez, acentuou a escassez e a alta de preços. E, é claro, há os especuladores, que sempre puxam a corda mais esticada.
No caso da escassez de alimentos, os comunicados oficiais não evitam troca de acusações. Os países pobres, carregados de razão, argumentam que ela é, em grande parte, conseqüência da política protecionista dos países ricos, que há décadas despejam subsídios na produção de grãos e, assim, tiram competitividade da agricultura em países pobres.
Os países ricos, por sua vez, argumentam que o crescimento do consumo nos emergentes vem acontecendo rapidamente demais e que por isso precisa ser contido por meio de políticas macroeconômicas, como a valorização das moedas nacionais, o aumento dos juros e a adoção de critérios trabalhistas que, na prática, aumentam os custos de produção dos países emergentes.
Em apenas dez anos, cerca de 400 milhões de asiáticos, antes excluídos dos mercados de trabalho e de consumo, foram incorporados ao sistema global. No momento, seu objetivo é alcançar uma fração do padrão de consumo dos ricos, o que é suficiente para acentuar os desequilíbrios.
Um tanto dispersas e pouco sistematizadas, há pelo menos três posições que tentam a superação da escassez.
Há aqueles para os quais é preciso atacar os sintomas. Sugerem mais controles nos mercados futuros ou mais supervisão por parte de instituições estatais para coibir a especulação.
A segunda posição é a dos otimistas, que entendem que este é o jeito pelo qual a economia mundial avança, aos trancos, a partir da superação natural dos desequilíbrios. É a posição dos que desprezam a limitações dos recursos naturais e entendem que tudo se resolve com mais investimentos e mais produtividade.
E, em terceiro lugar, há aqueles para os quais não há saída senão mudar o padrão global de consumo. Se o povão espalhado pelas grotas do planeta passar a consumir, não haverá o que chegue e a vida, tal como conhecemos hoje, ficará impossível.
Talvez a saída seja uma mistura dessas duas últimas posições. Mas, decididamente, não é coisa para já.
Tags: agricultura, alimentos, capitalismo, Competitividade, consumo, Crescimento, energia, estoque, grãos, Mercados, poluição, preços, Produtividade
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ENTREVISTA
La crisis alimentaria JOSÉ MARÍA SUMPSI Subdirector general de la FAO
M. M. / M. G. – Roma – El País
El número dos de la FAO, el catalán José María Sumpsi, cree que el mundo será un poco menos desigual en unos pocos años. El colapso de la agricultura ha devuelto a la FAO al primer plano y Sumpsi vio ayer señales de un cambio histórico. “Francia y España ya se han despertado, la ONU también, Ban Ki-moon va a liderar este proyecto y en unos años se notará el cambio”.
Pregunta. Hay 820 millones de hambrientos. Como hace 15 años. ¿Han fracasado ustedes?
Respuesta. Lo ha dicho Sarkozy, nos hemos equivocado. Pensábamos que la agricultura era un asunto resuelto, había excedentes hace 15 años, y ahora vemos que no. La demanda ha crecido y el sistema no ha aguantado.
P. ¿Un tema clásico de oferta y demanda?
R. Sí. No se esperaba que los países emergentes -China, India, Indonesia, Brasil- creciesen tanto, y han crecido a un ritmo anual del 10%-12%. Eso ha producido una explosión de la demanda. No estábamos listos. Ese mundo nuevo ha empezado a comer y de repente no hay comida para todos.
P. ¿Así que los factores que explican el aumento de los precios son una fábula?
R. En una situación de oferta y de demanda muy ajustada, cualquier circunstancia (un ciclón, el precio del petróleo) produce un cataclismo. Lo primero que hay que hacer es salvar la vida de la gente. Repartir comida. Lo segundo, crear reglas internacionales de comercio agrícola que eviten que cada país haga lo que quiera.
P. Pero acabar con el proteccionismo no será fácil.
R. Ésa es la clave. Si el Primer Mundo empieza a quitar los subsidios agrícolas será el principio de un mundo distinto. Francia y España ya han abogado por la regulación y esa idea se debe imponer. Algunos países dan signos de levantar las barreras a la exportación. Si China, Japón y Vietnam exportaran sus reservas de arroz, gran parte del problema se resolvería. De Roma no saldrá un gran acuerdo, pero sentará las bases para el futuro inmediato.
P. La estructura de la ayuda internacional debe cambiar.
R. Y lo va a hacer. Ban Ki-moon está liderando un plan de acción y en abril puso firmes a las agencias. No va a permitir solapamientos ni descoordinación. La ONU trabajará de forma coordinada con el Banco Mundial, el Fondo Monetario y la Organización Mundial de Comercio.
P. ¿Y las ONG?
R. Se hará un plan global de acción y en los 45 o 50 países prioritarios se formarán equipos entre Gobiernos, sector privado y ONG para llevar la ayuda.
P. Así que estamos ante una revolución de la cooperación.
R. En unos meses se verá. Estamos en el revulsivo. En poco tiempo habrá menos hambrientos.
P. ¿Lula tiene razón en su defensa del etanol?
R. En buena parte. Y su hallazgo del etanol bueno y el etanol malo, como el colesterol, es genial. El bueno es el suyo, claro. Pero es verdad; es innovador y parece que realmente ecológico.
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Selon les projections du Food and Agricultural Policy Research Institute (Fapri), un centre de recherche américain, le monde aura besoin de 200 millions de tonnes de céréales supplémentaires dès 2015 – il en a produit 2,1 milliards en 2007.
Le Monde
Comment le monde assurera-t-il sa sécurité alimentaire, alors que la demande explose, que les prix s’affolent et que le réchauffement climatique complique toute volonté d’augmenter la production ? La question est discutée lors de la conférence internationale de l’Organisation des Nations unies pour l’alimentation et l’agriculture (FAO), du 3 au 5 juin à Rome.
Selon les prévisions, il sera nécessaire de doubler la production agricole d’ici à 2050, au regard de la croissance démographique et de l’évolution des habitudes alimentaires. Avec l’élévation du niveau de vie, la consommation de viande augmente, et donc les besoins en céréales pour nourrir le bétail également.
Les émeutes contre la “vie chère” ont fait prendre conscience qu’il fallait produire plus et vite. Selon les projections 2007 du Food and Agricultural Policy Research Institute (Fapri), un centre de recherche américain, le monde aura besoin de 200 millions de tonnes de céréales supplémentaires dès 2015 – il en a produit 2,1 milliards en 2007.
Pour produire plus, deux leviers existent : l’augmentation des surfaces et celle des rendements. Selon la FAO, il y a 1,5 milliard de terres cultivées à l’échelle mondiale, et 4 milliards de cultivables. Avec plus ou moins de potentiel néanmoins, car celles cultivées aujourd’hui sont les meilleures et les plus accessibles.
“Il est certes possible d’augmenter le nombre de terres cultivées, mais cela se fera au détriment des forêts ou des pâtures, des surfaces importantes pour le stockage du carbone et la biodiversité”, explique Bruno Dorin, chercheur au Centre de coopération internationale en recherche agronomique pour le développement (Cirad).
Tout cela est donc question d’arbitrages. “Les pâtures servant à l’alimentation animale, ne vaut-il pas mieux laisser brouter le bétail que de cultiver des céréales pour le nourrir?”, interroge l’économiste. Deux autres points font également question : le développement des agrocarburants et la culture des OGM.
Le niveau élevé des prix agricoles devrait constituer l’une des principales incitations à produire davantage, estime l’institut technique Arvalis. Dans sa revue Perspectives agricoles, cet organisme vient de publier une carte des marges de manœuvre pour augmenter rapidement la production mondiale. Si les potentiels existent, il pointe les limites spécifiques à chaque région.
Amérique du Sud. La zone constitue un important potentiel des terres à mettre en culture, hors région amazonienne et prairies, principalement au Brésil. “Cependant, plus on y défriche, plus on se dirige vers le centre du pays, donc loin des zones de consommation et des ports. La logistique reste un frein puisqu’il y a peu d’infrastructures routières”, explique Crystel L’Herbier, économiste chez Arvalis. En Argentine, il existe plutôt une possibilité d’accroître les rendements, à condition que la trésorerie des agriculteurs puisse leur permettre d’investir.
Amérique du Nord. Un changement d’affectation des terres au profit des céréales est envisageable au Canada et aux Etats-Unis, selon les “Perspectives agricoles 2008-2017″ de l’Organisation de coopération et de développement économiques (OCDE) et de la FAO, publiées jeudi 29 mai.
Si les surfaces disponibles sont peu nombreuses, il s’agit de bonnes terres (13 millions d’hectares en jachères aux Etats-Unis). Côté rendements, des innovations sont escomptées pour le maïs. Mais, pour l’instant, les Américains misent sur les agrocarburants.
Union européenne. Selon la Commission, l’UE pourrait dans les dix ans augmenter sa production de céréales de 50millions de tonnes (256 millions en 2007). Elle envisage d’en gagner 38 millions par une hausse de 1 % des rendements par an, le reste provenant d’hectares supplémentaires. La jachère pourrait être supprimée.
C’est dans les nouveaux Etats membres que les rendements peuvent réellement progresser. Dans les pays à forte productivité comme la France, l’Allemagne ou la Grande-Bretagne, ils plafonnent désormais. Selon une étude du ministère de l’agriculture publiée vendredi 30 mai, le blé s’est stabilisé depuis dix ans en France autour de 70 quintaux par hectare, contre moins de 30 au début des années 1960.
Russie et autour de la mer Noire. Il existe là un important potentiel d’anciennes terres agricoles qu’il serait possible de remettre en culture. En Russie, selon Arvalis, plus de 20 millions d’hectares de céréales ont disparu ces quinze dernières années. Si les prix restent incitatifs, des investisseurs pourraient s’y intéresser. Les freins majeurs restent le délai et le coût de la remise en culture, ainsi que les problèmes de propriété foncière qui peuvent se révéler dissuasifs.
Afrique. Près de 210 millions d’hectares sont cultivés, alors que plus de 1 milliard pourrait l’être, dont 400 millions de très bonnes terres. Mais les experts d’Arvalis ne comptent pas sur l’Afrique pour augmenter d’ici à 2015 la production mondiale. “Nous y imaginons certes un développement, mais escomptons des résultats plutôt pour la décennie suivante”, explique MmeL’Herbier.
“Nombreux sont ceux qui ont une vision catastrophiste de l’agriculture africaine. Pourtant, en vingt-cinqans, l’Afrique de l’Ouest a doublé voire triplé sa production en consommant des surfaces sur le mode de l’exploitation extensive”, plaide Roger Blein, coauteur d’une étude sur la question publiée en février par la Fondation pour l’agriculture et la ruralité dans le monde (FARM).
Il reconnaît cependant que les sols africains sont fragiles et peu fertiles. Selon lui, les freins au développement de la production résident dans le manque d’accès aux intrants, à la formation, au crédit, au stockage et aux marchés urbains du fait de l’inexistence de routes. “Si la production de riz augmente de 50 %, tout le monde aura sa marchandise sur les bras, ce sera catastrophique”, estime-t-il.
Asie et Australie. Il y a peu de potentiel d’augmentation des rendements en Australie, sauf à trouver des variétés résistantes à la sécheresse. Le manque d’eau constitue aussi un problème en Inde et en Chine, où l’urbanisation grignote notamment les meilleures terres agricoles. C’est aussi en Asie que les rendements ont le plus progressé, notamment en Inde, grâce à la révolution verte. “Il sera difficile d’y intensifier la production, d’autant plus que l’on y pratique déjà plusieurs cultures par an sur une même terre”, explique M.Dorin.
Pour produire plus et vite, l’OCDE et la FAO tablent plutôt sur les gains de productivité que sur les terres. Mais le recours aux engrais sera moins avantageux qu’avant, car leurs prix flambent, emportés par l’envolée du pétrole. Et, surtout, l’intensification de la production a causé des dégâts sur l’environnement désormais bien connus. A moyen terme, l’espoir réside dans l’“intensification écologique” de l’agriculture, mais “la recherche en est encore à la préhistoire”, explique M. Dorin.
Laetitia Clavreul – Le Monde
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Davilym Dourado/Valor
Reichstul: ataques contra o etanol não afetarão os planos de investimentos da Brenco, de R$ 5,5 bilhões até 2015
Eugênio Melloni – VALOR
O álcool combustível produzido a partir da cana-de-açúcar virou, recentemente, alvo de intensos ataques de autoridades européias, que vêem na expansão da produção de biocombustíveis ao redor do mundo a razão de uma elevação da inflação dos alimentos. A própria Organização das Nações Unidas (ONU) deu o tom da condenação aos biocombustíveis, com as declarações do relator especial da organização para o Alto Comissariado de Direitos Humanos, Jean Ziegler, de que a sua produção em massa representa um crime contra a humanidade por seu impacto nos preços mundiais dos alimentos.
O presidente da Companhia Brasileira de Energia Renovável (Brenco), Philippe Reichstul, afirma que os ataques desferidos contra o etanol não afetarão os planos de investimentos da empresa, de R$ 5,5 bilhões até 2015 – dos quais R$ 4,5 bilhões serão aplicados na construção de usinas e R$ 1 bilhão para logística e comercialização. “O foco dos ataques é o etanol produzido a partir de grãos”, diz Reichstul. “O etanol é cada vez mais uma idéia acertada, se se levar em conta que o preço do barril do petróleo já atingiu o patamar de US$ 129″, diz.
A expectativa da Brenco – que conta além de Reichstul com acionistas do porte do ex-presidente americano Bill Clinton, Steve Case, ex-AOL Time Warner, o investidor Vinod Khosla, um dos fundadores da Sun Microsystems, o empresário Ricardo Semler e James D. Wolfensohn, o ex-presidente do Banco Mundial – é erguer oito novas usinas dedicadas à produção de etanol, com o objetivo de atingir uma capacidade de processamento de 44 milhões de toneladas de cana por ano em 2015. Com tal capacidade, a Brenco produzirá cerca de 3,8 bilhões de litros de etanol por ano, 15% da produção nacional e 4% da produção mundial.
Para o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, há de tudo nesses ataques ao etanol: interesses comerciais, desinformação e má-fé. Segundo ele, “estão misturando o etanol produzido no Brasil com o etanol fabricado nos Estados Unidos sem considerar que um é feito de cana, que não afeta a produção de alimentos, e o outro, de milho, que afeta”.
Geraldine Kutas, assessora internacional da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), afirma que as pressões que ocorrem na Europa poderão influenciar a legislação relativa a energias renováveis que está sendo discutida pela União Européia, que deverá ser definida até o fim. As discussões envolvem, por exemplo, a definição da obrigatoriedade da mistura de 10% do etanol à gasolina até 2020. “Se, por exemplo, não for obrigatória a mistura, o mercado para o álcool brasileiro tende a crescer pouco”, diz Geraldine.
Segundo a assessora, o álcool brasileiro desfruta de grande competitividade no mercado europeu, suprindo 30% do consumo mesmo pagando uma taxa de importação de ? 0,19 centavos de euros por litro. Atualmente, são exportados para o continente cerca de 800 milhões de litros de álcool combustível.
“Esse movimento na Europa não afetará o ímpeto do álcool brasileiro, mesmo porque o grande mercado para o álcool combustível produzido no Brasil é o doméstico”, diz o diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), Adriano Pires. Segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), estatal que cuida do planejamento do setor energético, o consumo doméstico de álcool hidratado teve aumento de 46,1%, chegando a 10,4 bilhões de litros em 2007.
Pires considera que as pressões, que ele julga terem embasamento mais político que técnico, tendem a ser superadas com o passar do tempo. “São as barreiras típicas de quem ainda não tem uma tecnologia e deseja barrar ou retardar a entrada no mercado de quem tem”, avalia Pires. “Mas os biocombustíveis vieram para ficar”, acrescenta.
Segundo o Balanço Energético Nacional (BEN) 2008, publicado pela EPE em maio, os produtos derivados de cana apresentaram participação de 16% na composição das fontes primárias usadas no país em 2007, superando pela primeira vez a energia hidráulica, que teve participação de 14,7%. A cana só foi superada na matriz energética pelo petróleo e seus derivados, com participação de 36,7%.
Também no exterior, a escalada dos preços do petróleo e a manutenção de elevados índices de crescimento de economias importantes, influenciaram para que biocombustíveis conquistarem espaço. Segundo dados da Renewable Energy Network for the 21th Century e WorldWatch Institute, a produção de biocombustíveis ao redor do mundo ultrapassou 53 bilhões de litros em 2007, aumento de 43% frente a 2005. A produção mundial de etanol representou cerca de 4% dos 1,3 trilhão de litros de gasolina consumidos no planeta no mesmo ano.
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João Sampaio* – O Estado de São Paulo
Embora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faça declarações pontuais quanto à incorreção de se imputar culpa à bioenergia pelo aumento do preço dos alimentos, o governo brasileiro precisa adotar providências eficazes para disseminar o conceito. Isso exige esforços nas áreas da comunicação e da diplomacia, e a hora é agora, aproveitando-se as oportunidades abertas pela reunião realizada em Berna, na Suíça, na qual diretores de agências das Nações Unidas, do Banco Mundial (Bird) e da Organização Mundial do Comércio (OMC) avançaram na discussão do problema e o abordaram com mais lucidez do que se observava anteriormente.
O aspecto positivo do encontro foi o reconhecimento de que os biocombustíveis, em especial o etanol, não são os únicos fatores responsáveis pela redução da oferta de alimentos. Apontaram-se causas muito mais caracterizadas e graves, como a falta de investimentos no setor agrícola, os subsídios da União Européia e dos Estados Unidos, que distorcem o comércio, as más condições climatológicas e a degradação ambiental. Também foi muito pertinente a criação, pela ONU e pelo Bird, de força-tarefa para combater a alta sem precedentes dos preços de produtos alimentares.
Cabe à comunidade internacional atender ao chamado, contribuindo para a rápida adoção das medidas, dentre elas a doação de US$ 2,5 bilhões, destinados ao enfrentamento da crise. Os recursos, gerenciados por fundo específico do Bird, anunciado em Berna por seu diretor, Robert Zoellick, serão aplicados no financiamento da agricultura dos países pobres. Outra proposta do encontro que todas as nações deveriam acatar é o fim das restrições às exportações de alimentos, pois esses limites têm provocado majorações nos preços. Caso que demonstra isso claramente ocorre com os pães no Brasil, por causa da paralisação da venda externa de trigo pelos argentinos.
As medidas anunciadas na Suíça respondem à preocupação quanto à quebra de safras e estoques baixos, externada por Jacques Diouf, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). O dirigente vem, há tempos, alertando que a forte expansão econômica em países em desenvolvimento e a crescente demanda por energia são outros fatores que impulsionam os preços dos alimentos, cujos estoques globais estão no nível mais baixo desde 1980. Nesse contexto, é assustador o dado de que as reservas são suficientes para atender a uma demanda de apenas 8 a 12 semanas.
A situação é mesmo preocupante, mas não se justifica que se virem todas as baterias para o programa brasileiro do etanol, que tem sido um dos alvos prediletos de algumas organizações internacionais. Nessa discussão, deve-se salientar que, independentemente das declarações de seu diretor, o acervo de informações técnicas da FAO contém dado emblemático e conclusivo: “O Brasil é o país com a maior área agricultável ainda disponível.”
Esse reconhecimento tácito do principal organismo multilateral da área da agricultura e alimentação atesta a capacidade brasileira de conciliar a produção de alimentos com os biocombustíveis. Além disso, aumenta a responsabilidade do País de ser mais proativo neste momento. Afinal, o reconhecido “celeiro do mundo” não pode ficar fora dessa discussão. É premente mostrar que a agropecuária brasileira cobre 235,1 milhões de hectares, dos quais a cana-de-açúcar ocupa somente 6 milhões de hectares, ou 2,5%. Cinqüenta por cento de sua cultura se destina à produção de açúcar e a outra metade, à produção de etanol. Este, portanto, utiliza apenas 1,25% de toda a área, para uma produção atual de 20 bilhões de litros por ano.
Esses são os números que o Brasil precisa tornar conhecidos e reconhecidos na ONU, na FAO, no Bird, na OMC, nas instâncias de decisão e opinião pública internacional. Nosso governo não pode aceitar de maneira passiva os ataques ao etanol. Seu preço mais baixo e menor grau de poluição configuram diferencial competitivo de alto valor agregado, numa economia global que paga US$ 120 por barril de petróleo e num ecossistema planetário saturado de monóxido de carbono. Ademais, combustível mais barato também tem impacto no preço dos alimentos, inclusive no transporte da safra recorde de grãos que colheremos este ano!
*João Sampaio, economista, é secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo
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Coluna Ciencia em Dia
Folha de S.Paulo
A fundação norte-americana Pew Charitable Trusts é conhecida por apostar fundo na produção de conhecimento e ferramentas de análise para resolver problemas contemporâneos e aperfeiçoar políticas públicas. Na semana passada, publicou um relatório duro da comissão que trabalhou dois anos e meio sobre o sistema industrial de produção de carne (bois, porcos e aves). É de tirar o apetite.
O estudo de 124 páginas recebeu o título de “Pondo a Carne na Mesa” e pode ser baixado da página da Pew na internet (www.pewtrusts.org). Vai direto ao ponto: “O sistema atual para produção de alimentos de origem animal nos Estados Unidos não é sustentável e representa um inaceitável nível de risco para a saúde pública e de dano ao ambiente, assim como traz malefício desnecessário aos animais que criamos para comer”.
O relatório lista “n” fatores em apoio a essa conclusão. Um dos preponderantes, que acabou se tornando muito atual, é a dependência da agropecuária americana dos preços baixos do milho, base da ração usada para o animal ganhar peso em confinamento. A demanda pelo grão para produzir álcool combustível está pulverizando essa fonte barata de proteína, justamente no momento em que o preço do petróleo – de onde saem combustíveis para máquinas e matérias-primas para fertilizantes e defensivos – também bate recordes.
No quesito água, o estudo fornece uma informação preocupante: metade do aqüífero Ogallala já foi exaurida. Com mais de 450 mil quilômetros quadrados, o reservatório debaixo dos Estados de Nebraska, Kansas, Colorado, Oklahoma, Novo México e Texas fornece 20% de toda a água usada em irrigação nos EUA. Não demora em acabar, pois está baixando cerca de um metro por ano.
Chocantes, mesmo, são as conclusões na área dos efeitos sobre a saúde pública. Das 12 recomendações do capítulo, metade diz respeito ao abuso de antibióticos na agropecuária. Além de prevenir e tratar infecções nos animais, antibióticos também são empregados como aditivos na ração, para aumentar o ganho de peso.
Quanto mais se usam antibióticos, em humanos ou animais, pior se torna o problema da resistência. A maior parte das bactérias expostas a esses remédios morre. As poucas que tiverem resistência ao composto, porém, ganham uma enorme vantagem competitiva e se reproduzem rapidamente, passando a infectar os organismos sem que o antibiótico em questão possa eliminá-las. Com o tempo, surgem cepas terríveis de micróbios, que deixam os médicos sem ação.
O relatório diz que o fenômeno da resistência já se tornou “epidêmico”. Propõe, por isso, uma medida radical: banir todo uso não-terapêutico de antibióticos na pecuária. Ou seja, essas drogas só poderiam ser empregadas para tratar animais com infecção ou para prevenir infecções naqueles que comprovadamente tenham sido expostos a elas. Quanto ao uso terapêutico, propõe tornar obrigatória a regra de excluir do tratamento de animais aqueles antibióticos classificados como importantes para a saúde humana.
A Suécia baniu os antibióticos não-terapêuticos em 1986. A Dinamarca, em 1998. A União Européia, em 2006. Como resultado, vem diminuindo o reservatório de genes para resistência que poderia armar os germes capazes de atacar humanos (bactérias trocam material genético a torto e a direito).
E você, já ingeriu a sua ração diária de antibióticos?
Escrito por Marcelo Leite
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Correio braziliense – João Tenório – Senador (PSDB/AL), presidente da Subcomissão de Biocombustíveis do Senado Federal
Já era mais do que tempo. Os países desenvolvidos, que durante séculos acumularam riquezas à custa da exploração predatória de suas colônias e que hoje abusam de subsídios agrícolas para proteger o próprio mercado, parecem finalmente despertar para uma das maiores tragédias do planeta: a fome. Uma tragédia que atinge hoje 854 milhões de pessoas e mata uma criança a cada cinco segundos, pelos cálculos das Nações Unidas.
O fantasma do desequilíbrio ambiental — que traça cenário de seca e miséria para o final do século — foi o primeiro a assombrar as grandes potências. Agora, é a explosão no preço das commodities agrícolas que parece tornar cada vez mais remota a meta de reduzir a fome no mundo pela metade até 2015 — um dos objetivos do milênio pactuado por 191 países oito anos atrás.
Se é um avanço o fato de a escassez de alimentos ser foco das atenções dos principais organismos e centros de decisão política e econômica, jogar a culpa do problema no avanço dos biocombustíveis é não querer colocar o dedo na ferida: a injusta distribuição de renda e riqueza e o absoluto descaso com as nações mais pobres. Autoridades internacionais que vêm atacando os biocombustíveis também minimizam o fato de que o petróleo, com o barril beirando os US$ 120, tem sobrecarregado cada vez mais o custo final dos alimentos.
O preço da comida subiu porque, além de condições climáticas desfavoráveis e do encarecimento significativo do frete e dos fertilizantes, o consumo de países emergentes, como China e Índia, aumentou. O que é positivo. Equilibrar demanda e oferta — com políticas públicas que garantam melhor uso da terra e incentivos à agricultura familiar, por exemplo — é desafio de cada governo. Mas também deve ser compromisso do mercado internacional, hoje distorcido por políticas protecionistas injustificáveis. É preciso questionar, ainda, até que ponto as nações mais ricas e os organismos financeiros internacionais têm se empenhado na tarefa de reduzir a pobreza mundial.
Mais do que falta de alimentos, o nó da questão nos países mais pobres é a total falta de condições econômicas para o acesso a esses alimentos. Vale lembrar que, pelos dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o mundo produz comida para alimentar 12 bilhões de pessoas, o dobro da população do planeta.
O crescimento econômico que tanto festejamos no Brasil certamente tem pressionado a demanda — e os preços. Precisamos, sim, assegurar uma política agrícola mais eficaz, garantir o equilíbrio fiscal e econômico, menores impostos e taxas de juros. Mas os biocombustíveis, no nosso caso, só somam. Temos terras agricultáveis de sobra — para alimento e energia. O álcool produzido a partir da cana não ocupa mais que 3,5 milhões dos 400 milhões de hectares de terras agricultáveis e tende a avançar em áreas de pastagens degradadas — cerca de 60 milhões de hectares. Mesmo com o avanço invejável na produção de etanol, nossa safra de grãos bateu novo recorde em 2007: 133 milhões de toneladas. Este ano, a previsão é de uma safra de 139,3 milhões de toneladas.
O álcool de cana é, sem dúvida, a alternativa hoje mais viável — do ponto de vista tecnológico e econômico — aos combustíveis fósseis. E a liderança brasileira na produção de etanol assusta os europeus, aferrados à própria política protecionista. Por isso mesmo, a disseminação de mitos absurdos, como a potencial ameaça à Amazônia. A floresta é totalmente inadequada para o cultivo da cana, que, avançando sobre áreas de pastagens, também não corre o risco de empurrar outras culturas para a região.
Esclarecer a comunidade internacional e vencer as resistências do mercado europeu é um desafio enorme, que exige postura firme por parte do governo brasileiro. É nossa única chance de transformar o etanol em commodity mundial e afirmar nossa liderança no novo cenário energético.
A Frente Pró-Etanol anunciada pelo presidente Lula só terá resultado se congregar todos os envolvidos com a produção de biocombustíveis — no Executivo, no Legislativo, na iniciativa privada, na área de pesquisa e meio ambiente. Divergências políticas devem ficar de lado neste momento: o etanol é estratégico; é fonte de energia limpa e renovável, capaz de gerar emprego e renda em regiões hoje absolutamente carentes, como a África. Não é só o Brasil, mas o mundo todo que vai sair ganhando.
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Plantação dedicada a produzir biocombustível na Inglaterra
Estudo realizado pela União Européia sugere que um aumento no consumo de biocombustíveis nos 27 países do bloco não faria subir o preço final dos alimentos e não distorceria o mercado internacional.
Em março a UE determinou que 10% dos combustíveis consumidos pelos automóveis do bloco até 2020 deverá ser de origem biológica. Para suprir esse novo mercado estima-se que a indústria européia precisará de 59 milhões de toneladas de cereais –18% da produção interna – e ainda terá de importar 20% do biocombustível necessário.
A conclusão vai no sentido contrário do que defendem a FAO (Organização da ONU para Agricultura e Alimentação) e a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em relatórios publicados nos últimos dois meses.
Segundo especialistas das duas organizações, a maior demanda por grãos e óleos vegetais, que servem de matérias-primas para os biocombustíveis, já está causando um aumento nos preços internacionais desses produtos.
Como os grãos são muito utilizados na alimentação animal, esse aumento se refletiria nos custos de criação de animais e seria indiretamente transferido para os preços de produtos de origem animal.
“Estamos de acordo em que o preço dos grãos subirá. Mas eu afirmo que isso não se refletirá no preço final dos alimentos”, explicou Wolfgang Munch, autor do estudo europeu.
Ele defende que FAO e OCDE não levam em conta fatores que equilibrariam a ascensão no preço dos grãos e, paralelamente, impediriam que fosse transferida para os custos de criação animal.
Soja deve seguir os passos da canola
“A produção de biocombustíveis a partir de sementes oleaginosas dá origem a um subproduto rico em proteínas, que também é usado na alimentação de animais. Então, se por um lado a ração a base de grãos ficará mais cara, por outro lado a ração a base de oleaginosas ficará mais barata, porque a maior produção de biocombustíveis aumentará a oferta desse subproduto.”
Segundo o especialista, a pasta de canola –subproduto da fabricação de biodiesel a partir de sementes de canola– custa atualmente 60% menos em relação há dois anos.
“O mesmo acontecerá com a soja no futuro. O preço da semente aumentará, mas óleo e pasta obedecerão o caminho contrário. Haverá tanta quantidade desses subprodutos que talvez os fazendeiros até recebam incentivos para usá-los”, estima.
Biocombustíveis de segunda geração
Munch também ressalta que o desenvolvimento de biocombustíveis de segunda geração aumentará em até 40% o aproveitamento das terras cultivadas.
“Essa nova geração usará não apenas as sementes, mas a palha, o grão, toda a planta para gerar energia. Com isso, economizaremos área e reduziremos significativamente a concorrência entre alimentos e energia”, explica.
Essa tecnologia deverá alcançar dimensão industrial e ser competitiva por volta de 2015.
Na UE, prevê o especialista, outro fator que contribuirá para manter estável o preço dos alimentos é o movimento demográfico previsto. “Como a população européia diminuirá até 2020, também diminuirá a demanda por alimentos, ao mesmo tempo em que sabemos que a extensão de terra cultivável está aumentando entre 1% e 2% ao ano. Ou seja: a produtividade está crescendo mais que o consumo”, afirma o autor.
Fonte jornal expressão.com
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Produção americana de biocombustível de milho é o que causa a alta no preço dos grãos, e não o etanol de cana, diz economista
Lourival Sant’Anna – O Estado de São Paulo
Roma – O secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, prometeu criar um grupo de estudos sobre a crise dos alimentos. Na ONU, a pessoa a ouvir sobre isso é o economista Abdolreza Abbassian, secretário do Grupo Intergovernamental sobre Grãos da Organização das Nações Unidas para Alimentos e Agricultura (FAO): “Quando falamos da influência dos biocombustíveis na economia dos grãos, estamos falando do milho dos Estados Unidos, não da cana-de-açúcar do Brasil”, diz Abbassian, um iraniano de 49 anos, há 17 na FAO.
“Não temos nada contra o etanol brasileiro”, garante o economista, que antes trabalhou na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e no Fundo Monetário Internacional (FMI). Entretanto, pondera, isso não quer dizer que, no futuro, não possa haver relação, ainda que indireta, entre a produção de etanol no Brasil e a redução de terras para a criação de gado e, com ela, o avanço dos pastos na Amazônia.
Em entrevista ao Estado, na sede da FAO em Roma, Abbassian reconhece que os subsídios nos EUA e na Europa inviabilizam projetos de biocombustíveis em países pobres. Mas estima que, independentemente dos subsídios, com exceção do Brasil e outros poucos que podem produzir álcool da cana, é “discutível” que países da África ou a Índia venham a ter produção comercialmente viável de biocombustíveis, como quer o presidente Lula.
A partir da revolução verde, há 30 anos, dizia-se que o mundo passou a produzir alimentos mais que suficientes para a população mundial, e o problema era de distribuição e de renda. Isso deixou de ser verdade?
Não. O problema principal, seja no Haiti ou no Egito, continua sendo o mesmo: acesso. A fome existia antes do boom de biocombustíveis e segue existindo com ele.
O fato de os asiáticos estarem comendo mais não mudou isso?
Não. A produção mais do que triplicou nesses 30 anos, acompanhando o crescimento da população e da renda e a mudança na dieta tanto na Ásia quanto no resto do mundo.
A produção de biocombustíveis pode prejudicar a de alimentos?
Pode. Os biocombustíveis introduzem uma nova demanda. Mas nossas afirmações têm sido tiradas do contexto e por isso estamos nessa confusão. Em junho, quando expusemos nossa posição sobre a influência dos biocombustíveis na economia dos grãos, não mencionamos açúcar. Quando citamos etanol, estávamos falando do derivado do milho.
Mas fomos alvo de um bombardeio do Brasil: “O que vocês têm contra o nosso etanol?”
Nada. Leiam o relatório. Não falávamos do Brasil, que tem uma história de 30 anos de produção sustentável de álcool de cana-de-açúcar. Quando falamos de grãos, estamos falando dos Estados Unidos – o maior produtor, consumidor e exportador de milho. É lógico que, quando uma demanda tão forte de grãos emerge tão depressa, terá de ter implicações. Quem disser que não, deve morar em Marte. No ano passado, 84 milhões de toneladas de milho foram destinadas ao etanol. O comércio mundial de milho é de cerca de 90 milhões de toneladas. Em quatro anos, a produção dobrou. Os fazendeiros americanos foram capazes de aumentar a produção tão rapidamente que não só houve milho suficiente para a expansão dos biocombustíveis, mas os EUA ainda exportaram mais, destinaram mais milho à ração de animais e aumentaram ligeiramente seu estoque.
Então, qual o problema?
Os EUA tiveram de reduzir sua produção de soja e de trigo na mesma proporção em que aumentaram a de milho. A partir de março do ano passado, há um gargalo de suprimento de soja. A produção de trigo dos EUA e de outros países também caiu. Resultado: os preços dos dois grãos subiram. E o milho, apesar da produção recorde nos EUA, começou a subir também. Na safra 2007-2008, os biocombustíveis foram um dos principais fatores, não o único. Houve seca também. Na próxima safra, os biocombustíveis podem ser o fator determinante, se os preços continuarem altos.
A soja brasileira pode entrar substituindo o milho para alimentar rebanhos?
O aumento da demanda do milho para o etanol (nos EUA) pressionará o preço da soja. O Brasil é um dos poucos países com potencial de crescimento da produção de praticamente qualquer coisa, e talvez aumente a produção de soja, para atender à demanda da China e dos EUA, que têm capacidade limitada de expandir o uso da terra. O que acontecerá com as terras destinadas ao pasto? Se elas se deslocarem, irão para onde? Muitos ambientalistas têm nos dito que terão de avançar na floresta. Sabemos que o desmatamento não é para plantar cana. Essa é a cadeia que torna o biocombustível responsável. O grau de influência dele é assunto para futuras pesquisas. É um fenômeno recente demais para fazermos análises estatísticas. O que não se pode dizer é que o biocombustível é irrelevante.
No Brasil se argumenta que há terras improdutivas suficientes para a expansão da produção.
É possível. Mas, com o crescimento da demanda por grãos, as terras para pasto vão encolher, o preço da terra vai subir e a fronteira agrícola subirá para o norte. Não será do dia para a noite, não há relação direta e depende de quanto crescerá a demanda por soja e biocombustível no mundo.
O governo brasileiro se defende dizendo que os subsídios e barreiras americanos e europeus prejudicam muito mais o acesso dos pobres aos alimentos do que o biocombustível, porque impede a venda de produtos agrícolas aos seus mercados, que aumentaria a renda dos países em desenvolvimento. O que o senhor acha desse argumento?
Os subsídios foram a causa dos preços baixos no passado. De repente, o mundo está tentando ver esses preços baixos com simpatia, mas é uma falácia. Eram preços artificialmente baixos, que prejudicaram os países em desenvolvimento, que não puderam aumentar sua produção por causa desse dumping. Seus preços eram sempre mais altos. Mas isso tem mudado sob a Rodada Doha (da Organização Mundial do Comércio) nos últimos dez anos. Não vamos chegar a nenhum lugar discutindo o que é pior: subsídios ou biocombustíveis. Ambos são prejudiciais.
E quanto à possibilidade de os países pobres gerarem renda produzindo biocombustíveis?
Há cerca de um ano, a FAO recebeu propostas de projetos nesse sentido. Isso nunca foi adiante porque os EUA, a União Européia e mais alguns países desenvolvidos começaram a dar enormes subsídios para seus fazendeiros produzirem grãos. Se não fosse isso, seria válido pensar em estimular a produção de grãos na África e na Índia, que fixaria o homem no campo e geraria renda. Quando começou esse boom, houve muita discussão sobre o volume de recursos necessário para criar as condições de os países pobres produzirem biocombustíveis para os EUA e a Europa. Eu mesmo tenho três pequenos projetos de sorgo na Ásia, mas o que existe são projetos-piloto para fixar agricultores aqui e ali. Nada na escala do Brasil ou dos EUA. E provavelmente continuará assim, porque os subsídios e todos os mecanismos de dedução de impostos que os EUA colocam na produção de milho tornam impossível para esses países competir. Se é a isso que o presidente Lula se refere, faz sentido. Mas há outra questão: faz sentido para os africanos e indianos destinar a sua terra e água à produção exclusiva de matéria-prima para biocombustíveis? Isso tem implicações econômicas e ambientais, e ainda está em estudos. A economia terá a palavra final, e não a emoção ou o interesse nacional.
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Antônio Márcio Buainain* – O Estado de São Paulo
Nesta temporada de final de campeonatos estaduais vem à mente aquela imagem da bola roubada quando o gol já estava praticamente feito para caracterizar a polêmica global sobre inflação de alimentos, que coloca o biocombustível – visto até então como uma virtuosa contribuição para reduzir o aquecimento global e como alternativa para a escassez do petróleo – no papel de vilão. As declarações de personalidades mundiais (“o biocombustível é crime contra a humanidade”, Jean Ziegler, consultor da ONU; “é problema moral”, Strauss-Khan, diretor-geral do FMI) indicam o potencial explosivo do debate, cujos efeitos sobre o futuro deste promissor segmento não podem ser negligenciados.
É possível contra-atacar afirmando que “problema moral” é manter o “bolsa-vaca”, que distribui em média US$ 3,50 por dia às vacas européias, enquanto 75% da população africana vive com menos de US$ 2 por dia, e que “crime contra a humanidade” é praticar políticas protecionistas que impedem o desenvolvimento dos países mais pobres, ou destinar bilhões de dólares a guerras com pretextos mentirosos. Ainda que válidos, é provável que esses argumentos encontrem ouvidos de mercador pelo mundo afora e não sejam suficientes para evitar os efeitos negativos imediatos sobre o negócio do biocombustível.
Os fatos são relativamente claros. Os preços das commodities já se vinham elevando desde 2002, em resposta, antes de tudo, à elevação da demanda associada às mudanças estruturais na geografia comercial, à conjuntura favorável da economia mundial e ao crescimento da renda nos países em desenvolvimento. Outros fatores, como a elevação do preço do petróleo – insumo básico para a cadeia da produção e comercialização de alimentos – e a instabilidade financeira, também contribuíram. Só a partir de em 2006, e de forma mais forte em 2007, a demanda de grãos para a produção de biocombustível nos EUA e na Europa entra para reforçar a tendência de alta.
Tradicionalmente a oferta agrícola responde quase de imediato aos estímulos de mercado. A evolução recente da oferta mundial não acompanhou o ritmo da demanda, devido, entre outras razões, à incerteza que caracteriza o mercado agrícola mundial, sujeito a forte protecionismo e suscetível à influência das políticas americana e européia. Uma simples decisão da política agrícola dos EUA ou da União Européia pode mudar radicalmente o mercado, a favor ou contra, como comprova a decisão de produzir biocombustível de grãos. A agricultura moderna exige investimentos relevantes dos produtores e dos países. Como investir sem garantias de acesso aos mercados, sem recursos fiscais e sem financiamento internacional? O economista brasileiro Otaviano Canuto, vice-presidente executivo do BID, já tinha chamado a atenção para a seriedade da agflation e da assimetria dos impactos sobre a balança comercial, inflação doméstica e pobreza dos países da América Latina e do mundo (Global agflation, energy security and bio-fuels, in www.rgemonitor.com).
Também é fato claro que o vínculo entre aginflação e biocombustível se deve à decisão americana de produzir etanol a partir de grãos, e que pouco ou nada tem que ver com a produção brasileira à base de cana-de-açúcar. Ao contrário do que ocorre no EUA, a produção do etanol no Brasil vem crescendo juntamente com a de grãos e alimentos em geral. O dinamismo do agronegócio brasileiro contribuiu para conter a elevação de preços, que teria sido maior sem soja, carne, milho, açúcar, algodão e frutas brasileiros.
Os fatos precisam ser analisados e discutidos exaustivamente. Mas não é suficiente. Aqui estamos diante da “dimensão político-cultural dos mercados”, cuja importância o sociólogo Ricardo Abramovay, professor da USP, ressalta ao analisar o papel da ciência e das inovações tecnológicas (Bem-vindo ao mundo da polêmica, jornal Valor, 1º/11/2007). A racionalidade econômica e verdades científicas precisam ser sancionadas pela sociedade para se afirmarem como inovações e romperem paradigmas. E para isso uma comunicação adequada – não confundir com propaganda – é muito importante. O estrago está feito. Basta ver a imprensa européia ou a opinião cética ou contrária do cidadão nas principais capitais do mundo. Sem presunção, será preciso reconquistar corações e mentes para o biocombustível e para isso não podemos fechar os olhos para a questão alimentar. Nossa melhor resposta terá de vir do dinamismo do nosso agronegócio.
*Antônio Márcio Buainain é professor do Instituto de Economia da Unicamp. E-mail: buainain@eco.unicamp.br
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ANTONIO PALOCCI – O GLOBO
O relator especial da ONU para o direito à alimentação, o suíço Jean Ziegler, encontrou uma inusitada explicação para a alta do preço dos alimentos: é culpa da produção de biocombustíveis, “um crime contra a humanidade”.
Outras autoridades européias se ocuparam, nas últimas semanas, num violento tiroteio contra o etanol. O argumento básico utilizado por eles é que a produção do etanol está ocupando áreas de plantio dos alimentos e de pastagens, encarecendo os produtos alimentícios.
Se estivessem seriamente preocupados com as reais razões para a onda altista dos alimentos eles poderiam se perguntar por que o Brasil, maior produtor mundial de etanol de cana-de-açúcar nas últimas três décadas, se tornou, ao mesmo tempo, o maior exportador de soja, açúcar, café, milho, laranja e carne bovina e de frango. Não se fazem tal pergunta porque ela desmontaria suas apressadas conclusões.
A bem da verdade, os únicos casos em que os biocombustíveis pressionam preços acontecem exatamente nos países onde eles recebem fortes subsídios, inclusive na Zona do Euro, por decisões das próprias autoridades que agora atacam o etanol.
Mas mesmo se considerarmos a produção americana de etanol, com altos subsídios e baixa produtividade energética, e tendo como insumo o milho, causando alguma pressão sobre o preço dos grãos, ainda assim teríamos apenas uma explicação parcial. Serviria mais para demonstrar um claro exemplo de alocação ineficiente de recursos do que para justificar o comportamento do preço dos alimentos.
Mais recentemente verifica-se um movimento de caráter mais especulativo em direção aos mercados de futuros das commodities, com investidores financeiros buscando ativos aparentemente mais robustos diante da crise financeira em curso. Mas se esse movimento colabora com a alta de preços, também não é suficiente para justificá-la.
Parece claro que o principal fator explicativo para a alta dos alimentos é um desequilíbrio entre uma oferta que cresceu pouco nos últimos anos e uma demanda que tem crescido exponencialmente nos países emergentes, principalmente naqueles com grandes populações.
Como disse o presidente Lula de forma simples e direta, o fato é que o povo pobre dos países emergentes está comendo mais e a produção não está acompanhando.
Outro fator importante é a escalada do preço do petróleo, cujo patamar mais que dobrou nos últimos cinco anos. É bastante conhecido o efeito do preço dos combustíveis para produtos de baixo valor agregado, que têm no transporte uma parte importante de seu custo.
Mas ainda há, além desses fatores conjunturais, problemas crônicos, estruturais, que têm contribuído com o baixo crescimento na produção de alimentos: o protecionismo e os subsídios praticados pelos países ricos contra os alimentos produzidos nos países em desenvolvimento.
Essa prática anticoncorrencial tem desestimulado os países emergentes a investir mais na produção de alimentos, tendo em vista as fortes barreiras que encontram nas exportações.
E é exatamente essa questão que as autoridades européias tentam camuflar com seus insistentes ataques ao etanol.
É a velha arma do diversionismo.
Enfim, é de se esperar que os inimigos de ocasião dos biocombustíveis continuem sua cruzada, pois o protecionismo, quando posto em questão, sempre é sustentado por argumentos dramáticos. Mas pelo menos seria recomendável que estas autoridades não acreditassem na sua própria mentira. Se continuarmos aceitando diagnósticos pobres, interessados e simplistas sobre tendências de preços, talvez acordemos tarde demais para buscar soluções efetivas para a ampliação na produção de alimentos. Soluções que dependem de ações coordenadas dos países e das instituições multilaterais.
Sem isso sobrará aos Bancos Centrais a triste tarefa de aumentar juros e compulsórios para conter as pressões inflacionárias já presentes em todos os continentes. O preço dos alimentos é, antes de tudo, o preço da omissão.
Biocombustíveis só pressionam preços nos países onde recebem fortes subsídios
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Celso Ming – O Estado de São Paulo
Até agora, a disparada dos preços dos alimentos era encarada como um problema econômico, um entre tantos que exigem respostas econômicas. Agora está sendo vista como questão moral e estratégica. E isso é sério, pois sugere respostas morais e estratégicas, sabe-se lá de que qualidade.
Os observadores têm repisado que acabaram as montanhas de trigo, leite em pó e manteiga que entulhavam os armazéns da Europa. E, de fato, os estoques estão baixando (veja o gráfico). Até aí, um fato econômico.
Há alguns meses, o presidente Lula afirmou que “no mundo, comida não é problema; problema é falta de renda”, portanto, provocada por fator econômico.
Há apenas algumas semanas, os analistas internacionais concentravam suas denúncias contra a ação dos especuladores nas bolsas de commodities, outro fator econômico. E a alta dos grãos era reconhecida como conseqüência do aumento do consumo de alimentos pelos asiáticos; das secas que há seis anos atingem a Austrália; e do uso de grãos alimentares para a produção de biocombustíveis – enfim, também derivados de fatores fundamentalmente econômicos.
Mas, há cerca de um mês, a ONU pareceu ter comprado o diagnóstico do consultor suíço Jean Ziegler, para o qual a crise dos alimentos passou a ser um “crime contra a humanidade”.
E, sexta-feira, foi a vez do diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Khan. Ele afirmou que “o FMI está muito preocupado” e fez duas advertências: “a crise dos alimentos pode estar apenas começando”; e “se a alta das commodities alimentares continuar, pode derrubar governos e provocar novas guerras”. E arrematou com uma declaração grave: “A produção de biocombustíveis é um problema moral”.
Argentina, Egito, Índia e Paquistão impuseram barreiras às exportações de alimentos. No Haiti, caiu o governo, e em Bangladesh a população está sublevada. Analistas começam a martelar que a falta de comida é um risco para a democracia.
Até agora, Strauss-Khan eximiu a cana-de-açúcar brasileira do problema moral. E o presidente Lula tem defendido o etanol nacional com argumentos fortes. Primeiro, cana-de-açúcar não é alimento e, por isso, a produção de álcool no Brasil não está desviando comida para a produção de biocombustíveis, como nos Estados Unidos (com o milho) e na Europa (com a colza e o girassol). Segundo, a produção de cana ocupa áreas que em princípio são pastagens degradadas. E, terceiro, o produtor de cana aumenta a produção de alimentos na medida em que, a cada cinco anos, faz a rotação de culturas, substituindo-a por soja ou amendoim.
O problema é que, certo ou errado – não importa aqui -, se esse questionamento moral prevalecer, vai ser difícil justificar a destinação de tantas terras agricultáveis brasileiras para a produção de cana. Da mesma forma como reclamam que o milho americano está sendo desviado para a produção de etanol, vão disparar que o brasileiro está usando criminosa e imoralmente suas terras para alimentar os motores dos veículos.
O Brasil não está preparado para ataques dessa ordem. Tem de preparar-se.
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