17/03/2009 - 09:14h Eleito por ex-guerrilha, salvadorenho acena aos EUA

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Mauricio Funes chega à Presidência do país centro-americano após décadas de governos conservadores e prega “reconciliação nacional”

DA REDAÇÃO FOLHA SP

O presidente eleito de El Salvador, Mauricio Funes, da ex-guerrilha de esquerda FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional), prometeu ontem fazer um governo de reconciliação nacional e de estreitos laços com os EUA, um dia após pôr fim nas urnas a duas décadas de gestão conservadora no país.
“Desejo uma política exterior independente. Quero a integração centro-americana e o fortalecimento da relação com os EUA”, disse Funes a milhares de apoiadores no discurso de vitória, anteontem à noite.
Pouco antes, a Arena (Aliança Republicana Nacionalista), no poder desde 1989, admitira a derrota -51,27% dos votos para Funes contra 48,73% do engenheiro e ex-chefe de polícia Rodrigo Ávila.
Foi uma vitória histórica da ex-guerrilha FMLN, convertida em partido político em 1992, com o acordo de paz que encerrou 12 anos de guerra civil na qual lutou contra o governo, apoiado militarmente por Washington. Cerca de 75 mil pessoas morreram no conflito no país centro-americano.
Funes citou o bispo da Teologia da Libertação Oscar Romero, ícone da resistência na guerra civil, morto a tiros por paramilitares em 1980 enquanto rezava uma missa. “Monsenhor Romero disse que a igreja tinha uma opção preferencial pelos pobres. Isso eu farei: favorecer os pobres e os excluídos.”
Tanto no discurso quanto nas primeiras entrevistas como presidente eleito, o jornalista Funes, 49, seguiu a cartilha de pragmatismo da campanha. “Este não é um tempo de vingança. É de entendimento.”
O Departamento de Estado parabenizou Funes pela vitória e reiterou que Barack Obama cooperará com o novo governo, que toma posse em 1º de junho. A campanha governista havia inflado temores de que seu triunfo atrapalharia as cruciais relações com a Casa Branca -em 2004, essa foi a mensagem da gestão Bush.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que conhece o salvadorenho há anos, também telefonou para felicitá-lo. Funes é próximo do PT e casado com a advogada paulistana Vanda Pignato. Sua campanha foi dirigida por João Santana, marqueteiro petista.

Desafios
Funes assumirá um país com mais da metade da população abaixo da linha de pobreza e, como os vizinhos de América Central, profundamente dependente da economia americana, hoje em crise.
Cerca de 18% do PIB do país vem de remessas enviadas pelos mais de 2 milhões de salvadorenhos que vivem nos EUA. Também enfrentará a maior taxa de homicídios do continente -63 para cada cem mil habitantes- e quadrilhas ligadas aos cartéis mexicanos.
No front político, o presidente eleito também terá de fazer alianças. A FMLN elegeu a maior bancada da Assembleia Legislativa, em janeiro, duas cadeiras a mais que a direita. Para maioria qualificada, porém, terá de fazer acordos com partidos de centro, como o Democrata Cristão.

01/03/2009 - 11:36h Política de impostos é a espinha do projeto

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DO “NEW YORK TIMES”, EM WASHINGTON

A história da economia dos EUA nos últimos 70 anos pode ser dividida a grosso modo em dois períodos: as décadas imediatamente seguintes à Segunda Guerra, quando a desigualdade diminuiu muito, e as últimas três décadas, quando as forças econômicas globais e a política governamental a fizeram aumentar em ritmo vertiginoso. Barack Obama se prepara para iniciar um terceiro período, mais semelhante ao primeiro do que ao segundo.

A agenda começa com os impostos. Nas últimas três décadas, a renda pré-impostos das famílias ricas subiu muito mais que a das demais, enquanto as alíquotas dos setores que mais ganham foram as que mais caíram, segundo o Escritório Orçamentário do Congresso. Como resultado, a renda média pós-imposto do 1% das famílias mais ricas saltou aproximadamente US$ 1 milhão desde 1979 (contada a inflação), chegando a US$ 1,4 milhão. Já a renda média geral subiu apenas um pouco mais que a inflação. Antes de tornar-se o principal assessor econômico de Obama, Lawrence Summers dizia que, com o aumento na desigualdade, era como se cada família que integrava os 80% inferiores do bolo de renda na prática estivesse remetendo anualmente um cheque de US$ 10 mil ao 1% mais rico. O Orçamento de Obama reflete essa percepção. Os especialistas ainda estão estudando os detalhes, mas parece que os vários cortes e créditos tributários voltados à classe média e aos pobres vão aumentar a renda final da família média em cerca de US$ 800.

Enquanto isso, o aumento dos impostos sobre o 1% mais rico provavelmente custará a eles US$ 100 mil por ano. “O código fiscal ficará mais progressista, com índices relativamente altos cobrados dos ricos e relativamente mais baixos da classe média e dos pobres”, disse Roberton Williams, membro sênior do Centro de Política Tributária, em Washington. “Isso é uma inversão da política de Bush.” E, assim como o aumento de taxação sobre os ricos imposto por Franklin Roosevelt se seguiu a um crash da Bolsa, que já tinha deprimido a renda deles, as propostas de Obama, se forem aprovadas, farão o mesmo.

Essa combinação tem o potencial de reverter uma parte importante da tendência de desigualdade das últimas décadas. Mas, para que o país repita o padrão pós-Segunda Guerra, será preciso que a renda da maioria das famílias também suba mais rápido do que tem subido desde a década de 70. Essa hipótese ainda é incerta. Economistas dizem ser pouco provável, nos próximos anos, que a economia americana cresça como nos anos 50 ou 60.

Saúde e educação

Obama pretende elevar a renda da classe média e dos pobres por dois canais principais. O primeiro é reformar a saúde para reduzir o valor gasto com seguro -hoje uma parcela grande a pesar nos salários. O outro canal é a educação. Nas últimas três décadas, os salários de profissionais com formação universitária subiram muito mais que os dos trabalhadores menos instruídos. Obama quer levar os trabalhadores para a primeira categoria, ampliando a assistência financeira federal e simplificando os programas de assistência.

E, nos últimos anos, os EUA perderam a posição como país em que mais adultos jovens se formam na universidade. “Os jovens de famílias de renda baixa e média frequentemente não aspiram a fazer faculdade”, disse o diretor do Escritório de Administração e Orçamento, Peter Orszag. “Eles ouvem falar das “taxas anuais de US$ 40 mil” e acham impossível.”

Tradução de CLARA ALLAIN – FONTE FOLHA SP

01/03/2009 - 11:09h Novo Orçamento americano enterra a era conservadora

Ideia central é reverter rápido crescimento da desigualdade iniciado nos anos 80 com Reagan

Com plano, Obama quer reescrever código tributário e tentar sanar parte das causas do desaquecimento da renda da classe média

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DAVID LEONHARDT DO “NEW YORK TIMES”, EM WASHINGTON – FOLHA SP

O Orçamento que Barack Obama propôs na última quinta aos EUA não é nada menos que uma tentativa de pôr fim a três décadas de política econômica dominada pelas ideias de Ronald Reagan e seguidores.

A proposta de Obama -uma mudança radical em relação à história recente- prevê forte elevação dos impostos sobre os ricos, para além do patamar para o qual Bill Clinton os elevara. E reduz os impostos sobre o resto da população para menos do que estavam sob Clinton e George W. Bush. O Orçamento ainda deita as bases para mudanças amplas na saúde e na educação, entre outras áreas.

Mais que qualquer outra coisa, a ideia é reverter o crescimento rápido da desigualdade econômica verificado nos últimos 30 anos. Isso deve ser feito, primeiro ao reescrever o código tributário e, no longo prazo, ao tentar resolver algumas das causas do desaquecimento da renda da classe média, como os altos custos médicos e a queda nos ganhos educacionais.

Depois de Obama ter passado boa parte de suas primeiras cinco semanas na Presidência tratando da crise financeira, seu Orçamento traz de volta para a mesa as prioridades nas quais ele baseou sua campanha.

Seus esforços vão aumentar um déficit já inchado pelas políticas de Bush e a recessão, criando o maior déficit desde a Segunda Guerra. Eliminá-lo vai exigir escolhas difíceis -como cortes extras de gastos e aumentos nos impostos- que Obama evitou tratar por ora.

Apesar disso, ele fez escolhas. Buscou eliminar subsídios corporativos que os economistas criticam há muito tempo, pagos a seguradoras de saúde, bancos e empresas agrícolas. Propôs taxar a emissão de carbono, para desacelerar o aquecimento global, e depois refinanciar a maior parte da receita obtida com esse programa, por meio de cortes amplos nos impostos.

Pediu cerca de US$ 100 bilhões por ano em aumentos dos tributos sobre os ricos -em sua maioria adiados até 2011, quando se presume que a recessão terá terminado- e US$ 50 bilhões por ano em cortes líquidos para os não-ricos.

Há ainda muitas perguntas em aberto sobre a proposta, a começar pelas chances de o Congresso aprová-las. Os planos para saúde e educação também esbarram em resistência, e, se a economia continuar fraca até 2010, os republicanos no Congresso vão tentar atribuir a culpa por isso ao aumento dos impostos para os ricos.

Aconteça o que acontecer, porém, faz muito tempo que nenhum presidente tentava usar seu Orçamento para moldar o governo e a economia tanto quanto Obama tentou. Nesse ponto, ele e Ronald Reagan têm algo em comum.

15/02/2009 - 19:35h Sobre os prémios World Press Photo 2008


Yannis Kolesidis/Reuters, Grécia, 2º prémio People in the News

O crítico do Público Eduardo Cintra Torres é um espectador atento à criação fotográfica contemporânea e ao fotojornalismo em particular.
Eis o texto que escreveu para o Arte Photographica sobre os prémios World Press Photo 2008 ontem divulgados:

Não há luz ao fundo da porta do fundo das nossas casas

O Iraque e o Afeganistão desapareceram dos prémios World Press Photo relativos a 2008. Não há entre as fotografias premiadas nada da guerra no Iraque (mas ainda há guerra no Iraque? Esta semana, em Badgad, o movimento do anti-american radical cleric Al-Sadr, como lhe chama a imprensa americana, patrocinou uma boa exposição de pintura contemporânea iraquiana). Do Afeganistão, nada também. E do Médio Oriente, onde ocorreram duros combates entre Israel e o Hamas, chega apenas uma fotografia, anterior ao conflito. É uma imagem de perturbadora beleza: quatro manifestantes palestinos procuram abrigar-se debaixo de uma oliveira isolada enquanto pelo chão se espalha uma nuvem de gás lacrimogéneo; a mancha branca do gás é bela, igual aos farrapos de nuvens verdadeiras no céu azul com que parece misturar-se, o nevoeiro lacrimoéneo quer esconder o mal que alberga; e a oliveira, tão bonita, símbolo de paz, no meio da pequena clareira onde o gás ainda não chegou, parece o antídoto contra o gás venenoso, mas, na sua velhice, enrosca-se em si mesma, dando um movimento adicional à imagem que nos diz como a paz é torta e difícil naquele lugar. A fotografia não ganhou o primeiro prémio, nem as fotografias do conflito mais ilustrado deste ano, o da guerra na Geórgia, que aos tanques e militares preferiram gente que chora mortos: o fotojornalismo, como a pintura desde pelo menos a Segunda Guerra Mundial, não quer saber de vitórias militares, apenas vê derrotas humanas.

É o caso das guerras tribais no Quénia, que motivaram imagens premiadas, fotografias extraordinárias que mostram que não há ali diferença entre vencidos e vencedores, os que matam e os que morrem são intermutáveis, é terrivelmente difícil sentir pena, apenas se sente horror pelo grau zero a que chega o valor da vida: aquela criança que à porta de casa agita as mãos quando chega o assassino de cacete na mão tem o horror da morte espelhado no gesto.

Há ainda outras guerras destacadas pelos prémios deste ano. São as guerras da natureza contra o homem, a que chamamos catástrofes naturais: um terramoto na China premiou um instantâneo com o primeiro lugar nessa categoria e originou um outro segundo prémio para uma fotografia que parece caótica por nos transmitir o caos da destruição em Beichuan; um ciclone em Myanmar arrancou o terceiro prémio de reportagem; um vulcão no Chile transmitiu toda a beleza da explosão ao primeiro prémio na categoria Natureza. Há também as guerras nas favelas, as guerras de gangues, o terrorismo em Bombaim. E sobra sangue: sangue no desporto (no judo, no boxe), sangue nos chãos de zonas de conflito e sangue que escorre debaixo da manga dum manifestante em Atenas, numa fotografia de impressionante composição: em primeiro plano, à direita, a manga dum blaser, o sangue que escorre pela mão, a mão que segura um dossiê, mão de professor. À sua frente, os escudos da polícia de choque: o sangue é o índice da violência e da irredutibilidade das posições.

Todavia, dentre todas as imagens, o júri escolheu para fotografia do ano a imagem de um polícia dentro de uma casa desocupada. Ele está armado, aponta a arma para uma divisão da casa que não podemos ver. O chão da divisão em que nos encontramos com ele está caótico: caixotes espalhados, lixo, papéis, mobílias velhas. Na parede ao fundo, um aplique torto; na casa de banho pela porta aberta em frente, a mesma desarrumação. Só a legenda nos pode explicar esta imagem marcada por uma violência que já passou (a desarrumação) e por uma violência que poderá chegar (o polícia que se precavê de arma apontada). Esta guerra é outra, diz a legenda: “Economia dos EUA em Crise: depois dum despejo, o detective Robert Kole tem de garantir que os moradores saíram da sua casa. Cleveland, Ohio, 26 de Março”.

Esta guerra chegou ao interior dos Estados Unidos. É mesmo uma guerra, vê-se os indícios dela. E é um drama, vê-se pela composição: a parede do fundo é como um pano de teatro paralelo aos espectadores (nós que vemos a fotografia), há portas como no teatro, há um movimento subtil do polícia, como os dos actores no palco. Há suspense: que poderá acontecer na outra divisão da casa? Estará alguém lá? Imaginamos que a família saiu, de rastos pela miséria que sobre ela se abateu, e vingando-se, deixando o lixo para quem vier a seguir: mas será que a família desesperada se esconde ainda no quarto ao lado?

A composição como de um palco de teatro favorece a organização harmónica, fornecendo a compreensão estética que compensa o caos dos elementos soltos. E essa harmonia é reforçada por um elemento paradoxal: o polícia, que parece estar do lado direito da imagem, por já ter ultrapassado a porta do fundo, está afinal exactamente no centro geométrico da imagem: o colt que traz à cintura marca o ponto em que as diagonais se intersectam.

Lemos as imagens da esquerda para a direita, e aqui essa narrativa só nos promete incerteza e a hipótese de conflito e de medo. Como nos quadros, a luz vem da esquerda, do passado, dos tempos alegres em que a família viveu nesta casa; a escuridão está à frente do polícia e por isso à nossa frente, do lado direito, é o negro para lá da porta, o Adamastor da crise. É para lá que o polícia aponta a arma: para o futuro, para a crise, para uma guerra em potência dentro das nossas casas — aquele vazio negro é o túnel sem luz ao fundo que nos ameaça a todos. Esta fotografia é um ícone da crise que chegou, da crise que está, da guerra das famílias contra a crise, o Adamastor, o monstro negro. É o ícone do fim da era Bush e das suas guerras pelo mundo fora, é o ícone do início da era Obama, da guerra interior com que se vêem a braços milhares de milhões de famílias, empresas, polícias e policiados da América e de cada país do mundo.

Eduardo Cintra Torres

15/02/2009 - 17:57h Cartier-Bresson: o olhar do século 20

O jornalista Pierre Assouline escreveu a biografia, agora lançada no Brasil pela editora L&PM, sobre o fotógrafo francês

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Luiz Zanin Oricchio – O Estado SP

Você com certeza já deve ter visto algumas dessas imagens: Sartre na Pont des Arts, Gandhi, um casal se beijando em Paris, um garoto sorridente carregando duas garrafas de vinho na Rue Mouffetard, o rosto trágico de Edith Piaf. São de Henri Cartier-Bresson (1908-2004), sinônimo de fotografia no século 20. Contra sua vontade, ele fundou uma escola e um estilo. A teoria do “instante decisivo”, a opção pelo preto-e-branco, a Leica, a recusa ao uso do flash – tudo isso constituiu uma mitologia em torno do homem que elevou a fotografia à condição de arte (teve exposições em Nova York e no Louvre num tempo em que a fotografia era considerada apenas registro técnico). Ao mesmo tempo, com Robert Capa, fundou o fotojornalismo. Virou ícone e mito mas fez questão de manter sua vida pessoal numa zona de sombra. Seu biógrafo Pierre Assouline tenta levantar o véu de mistério que cerca esse personagem em Cartier-Bresson – O Olhar do Século, que sai agora pela L&PM (tradução de Julia da Rosa Simões, 352 págs., R$ 56).

Assouline não se contenta em fazer uma biografia convencional. Além de reconstruir a vida de Cartier-Bresson (designado, na França, pela sigla HCB), procura compreender seu processo de trabalho, entender o que faz de uma foto dele algo único, singular, inimitável. Assouline tem prática na coisa. Entre outros, já biografou personalidades como Georges Simenon, Gaston Gallimard e Hergé, o criador de Tintin. É jornalista cultural do Le Monde e mantém no ar o blog literário de maior sucesso em seu país (http://passouline.blog.lemonde.fr/), com milhares de acessos e centenas de comentários por dia. Certo, é na França, mas mesmo assim, invejável.

Compreensão implica entendimento do contexto. HCB vem de família rica. Essa contingência, independente da vontade do sujeito pois ninguém escolhe o berço em que nasce, pode conduzir à soberba, à indiferença ou a nada disso. Já a riqueza do jovem Henri fazia-o sentir culpa em relação às classes desfavorecidas. Menino, recortou do jornal L?Echo de Paris o artigo intitulado De Onde Vem o Dinheiro? e o pregou em cima do espelho, para vê-lo todas as manhãs. A culpa é elemento importante na motivação, ensinou Freud (”Não é a fé, é a culpa que remove montanhas”, dizia).

Isso pode em parte explicar a escolha de temas, mas de onde vem a “estética” das fotos de HCB, sua incomparável noção de volume, os retratos famosos, instantâneos que parecem resumir toda uma vida dos fotografados? Nesse caso é preciso lembrar que a primeira vocação de Cartier-Bresson foi a pintura – ele ama Cézanne, em particular. Mas também a literatura, tendo Proust como guia de toda a vida. “São suas verdadeiras referências culturais”, escreve Assouline. “São seus ?fotógrafos? de cabeceira.” O jovem Henri cuida também da parte “técnica” e se matricula na escola de André Lothe, onde trabalha a pintura e, em especial, o desenho. Vai com regularidade ao Louvre e copia obras dos mestres. De Lothe apanha o “vírus” da geometria. Adota como seu o lema da Academia de Platão: “Quem não for geômetra, não entre.”

O curioso é que, na composição da personalidade de HCB, o espírito de geometria tenha de se afinar com o que parece ser seu oposto – a convivência com Breton e Aragon, e portanto com o surrealismo, seu flerte com o inconsciente, o acaso e o desejo. Dessas exigências contrárias ele tira a síntese que seria a grande lição de Lothe: não existe liberdade sem disciplina. Na verdade, o que acontece nesses anos de formação é menos a aquisição de uma técnica ou o aprendizado de um ofício do que a formação de um olhar. Olhar que, por sua vez, encontra na flexibilidade de um aparelho fotográfico alemão o seu veículo perfeito. Esse é um dos casamentos do século: HCB e a sua Leica.

União que poderia ser menos fértil caso HCB fosse um artista de gabinete. Pelo contrário, ele se mostrou viajante incansável, tendo morado em vários países. Além disso, buscou sempre fazer-se presente onde as coisas aconteciam, ou poderiam acontecer. Esteve na guerra civil na Espanha, foi feito prisioneiro durante a 2ª Guerra Mundial, escapou e assistiu à Liberação de Paris. Registrou, com terror, a caça aos colaboracionistas. Estava na Índia quando Gandhi foi assassinado e foi dos últimos a vê-lo com vida. Em contato com o inesperado da experiência, era insuperável na escolha daquele momento único no qual o obturador deve ser disparado para captar uma imensidão de vida em uma fração dela. Toda a arte da fotografia está na escolha desse momento, que HCB definiu como o “instante decisivo”. Por isso, um dos seus personagens, Sartre, pôde defini-lo como “o homem que fotografou a eternidade”.

Em tempo: o próprio Henri Cartier-Bresson odiava ser fotografado. Só deixou sua imagem ser captada em raras e especiais ocasiões.

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”Tive toda a liberdade, esse era nosso pacto”

Assouline fala sobre seu biografado, de quem foi amigo

Luiz Zanin Oricchio


Você é biógrafo e era amigo de Cartier-Bresson. Essas duas condições não se contradizem?

Não há contradição, mas complementariedade. Eu tinha toda a liberdade e jamais refreei meu espírito crítico. Caso contrário eu não poderia escrever e teria renunciado ao projeto. Era nosso pacto.

No fim do volume você escreve que o livro é produto de cinco anos de conversas, correspondência, pesquisas, etc. Como organizou o material?

Exatamente da mesma maneira que as outras nove biografias que escrevi. Recolhi material durante alguns anos e, em seguida, coloquei tudo no chão, olhei as peças do quebra-cabeça, ajeitei-as e escrevi.

Duas reaparições constantes na vida de HCB, que fazem pensar no “rosebud”, de Welles: a frase “de onde vem o dinheiro” e sua faca de estimação Opinel.

A frase é seu rosebud escrito, Opinel, seu rosebud objeto. Isso guiou sua vida. A frase o influenciou porque ele era complexado pelo fato de ser filho de família rica.

A trajetória de HCB parece surpreendente – da pintura à foto e da foto de volta à pintura. Como compreendê-la ?

Nem tão surpreendente assim, porque se trata menos da pintura do que do desenho. Ele formou seu olhar de fotógrafo no Louvre e na Academia Lothe. O importante não é nem o material e nem a técnica. É o olhar.

Em todo caso, essa formação parece bastante paradoxal: da pintura (da educação com Lothe, vem o senso de geometria e a admiração por Piero della Francesca); da convivência com os surrealistas, o trabalho com o inconsciente, o amor pelo acaso, etc. Como conciliar tudo isso?

O surrealismo é a sua juventude. A geometria é seu ser profundo. É o ying e o yang, o surrealismo e a geometria. Ele é produto dos dois. Da loucura na razão, a emoção que corrige a regra, é isso a irrupção permanente do surrealismo em seu espírito de geometria. Pode-se mesmo dizer, em alusão a Pascal, que HCB é o encontro entre o espírito de fineza e o espírito de geometria.

HCB era um viajante, cobriu guerras, esteve em vários países em momentos importantes como o assassinato de Gandhi, por exemplo. Você o imagina fora do contexto de um século tão violento e cheio de contradições como o século 20?

Não imagino. Eu o tomo como ele é e no tempo em que ele viveu. Imaginar um outro HCB seria da ordem da ficção científica.

Alguns aspectos técnicos são interessantes em sua carreira. Por que o preto-e-branco e não as cores? Por que a Leica e não outra câmera?

Abaixo a técnica! O preto-e-branco correspondia à sua sensibilidade. Quanto à Leica, era o aparelho que melhor correspondia, por sua leveza, sua manejabilidade, sua discrição, ao seu desejo de ser repórter.

A teoria do instante decisivo, o preto-e-branco, etc. – para HCB tudo isso diz respeito a uma estética ou a uma ética da imagem.

Uma somada à outra.

Entre as viagens de HCB notei a ausência de América Latina, com exceção de Cuba. Por quê?

Uma vida não é suficiente para esgotar o mundo. Ele era europeu antes da guerra. Com uma longa permanência no México. Em seguida, voltou-se para a Ásia.

As relações de HCB com o cinema são muito interessantes, em especial sua colaboração com Jean Renoir. Por que ele não seguiu esse caminho?

Porque ele compreendeu que seria melhor fotógrafo que cineasta. A foto é o individualismo, a solidão, a liberdade. O cinema é o coletivo, o grupo, o peso.

Muitas vezes os biógrafos tentam esgotar o assunto. Notei que você preserva um lado “misterioso” de HCB…

Concordo plenamente. Guardemo-nos da tentação de tudo explicar.

Por que as biografias e como explica o sucesso de seu blog sobre literatura?

Em relação ao blog é a fidelidade dos leitores a um blog que, por sua vez, lhes é fiel porque temos um encontro marcado em torno de um novo artigo a cada dia. E depois há a questão da credibilidade. Quanto ao porquê da biografia, eu precisaria escrever um tratado para lhe responder. Tenho uma nova biografia em preparação, sobre um personagem em relação ao qual ninguém pensa e com uma forma que pretende revolucionar o gênero…

11/02/2009 - 20:03h Obama revê o embargo que proíbe a divulgação de imagens dos caixões de soldados mortos no Iraque e no Afeganistão

Blog Images&Visions

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© Fotos de Todd Heisler. Caixões de soldados norte-americanos mortos no Iraque são enviados de volta para os EUA.

Na última terça-feira, dia 10/02, o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, anunciou que o governo de Barack Obama vai rever o embargo imposto pelo ex-presidente George W. Bush que proibia a divulgação de imagens dos caixões de soldados mortos no Iraque e no Afeganistão pelos veículos de comunicação nos EUA. Segundo o jornal Washington Post, o atual governo decidiu analisar quais seriam as conseqüências do fim do embargo. Bush defendia que a divulgação das imagens invadiria a privacidade e aumentaria os custos das famílias das vítimas, pois atrairiam mais pessoas aos velórios, além de atrasar o regresso dos corpos dos soldados. Para alguns, o embargo serviria para esconder os custos humanos das guerras dos Estados Unidos. Segundo John Ellsworth, presidente da Millitary Families United (associação de famílias de soldados mortos), a decisão de permitir imagens dos caixões cabe aos familiares.

10/02/2009 - 14:24h É hora de romper o círculo vicioso

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Amos Oz, International Herald Tribune* – O Estado SP

Ehud Olmert, premiê israelense, declarou que Israel dará uma resposta “desproporcional” a qualquer novo ataque do Hamas contra seus civis. Acho que uma resposta desproporcional é uma resposta imoral. Uma punição desproporcional é uma punição imoral.

Essa desproporcionalidade fortaleceria os candidatos extremistas nas eleições israelenses e atenderia aos objetivos dos fanáticos na Faixa de Gaza e no mundo árabe.

Operações militares desproporcionais nada mais são do que vingança. E vingança nada mais é do que a satisfação de instintos primitivos básicos.

Vejo o Hamas como um bando de criminosos que, há muito tempo, direciona sua ação contra civis israelenses. Nos últimos anos, nada menos do que 10.000 foguetes foram lançados pelo grupo contra cidades e povoados dentro de Israel.

O Hamas também é um bando de criminosos porque usa civis palestinos como escudos humanos e porque, cinicamente, esconde-se atrás de mulheres e crianças.

Mas matar mais civis palestinos não vai levar a nada, já que os radicais islâmicos não se importam absolutamente com essas mortes.

Como o líder do grupo na Síria, Khaled Meshal, disse recentemente, “a atual geração de palestinos pode ser sacrificada”.

A única resposta eficaz é um ataque bem calculado, proporcional, contra os criminosos do Hamas, que tente ao máximo poupar a vida de palestinos inocentes. O Egito está intermediando um cessar-fogo e Israel tem de dar uma chance a essa mediação.

Não devemos nos esquecer que o maior revés para o Hamas seria um eventual acordo de paz entre o governo de Israel e a Autoridade Palestina do presidente Mahmud Abbas. Um acerto desse tipo entre palestinos e israelenses é possível – e talvez até mesmo iminente.

* Amos Oz é escritor israelense

08/02/2009 - 09:35h Israel: eleição é o epílogo da guerra em Gaza

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Gilles Lapouge* – O Estado SP

Na terça-feira teremos eleições em Israel. Será o epílogo da guerra contra Gaza e o Hamas, que matou um grande número de civis palestinos. Não devemos esquecer que o conflito foi arquitetado pelos trabalhistas (Ehud Barak é ministro da Defesa) e pelo Kadima (Tzipi Livni é chanceler) para tentar derrotar o Likud de Benjamin Netanyahu e seus aliados da direita religiosa e secular.

A operação contra Gaza alcançou o objetivo? Os trabalhistas e centristas conseguirão derrotar Netanyahu? No início, acreditou-se que sim, pois a operação foi um sucesso. Agora, porém, os israelenses se perguntam se o triunfo militar não foi um fracasso político.

O Hamas continua de pé. Os túneis por onde recebiam foguetes e armas foram destruídos, mas já estão sendo reconstruídos. No plano internacional, a violência foi desaprovada. Até Yagil Levy, um israelense especialista militar, se disse chocado com o número de palestinos mortos.

A proporção, que durante a Intifada foi de seis palestinos para cada israelense, desta vez foi de 60 para um. Levy acredita que alguns militares do alto escalão devem ser levados a tribunais internacionais. Aqueles que lançaram o bombardeio (trabalhistas e Kadima) não melhoraram sua posição. Netanyahu está tão certo da vitória que, no início, nem se preocupou em fazer campanha. Há alguns dias, contudo, resolveu sair de sua “torre de marfim” e participou do debate eleitoral.

Por que? Porque sua liderança diminuiu, mas apenas ligeiramente. O Kadima, partido fundado por Ariel Sharon, uma figura carismática, cresceu. Além disso, surgiu em cena um personagem inesperado: Avigdor Lieberman. De origem russa, ele lidera o partido ultranacionalista Israel Beiteinu.

Orador eloquente, ele aproveitou-se do mal-estar em Israel para ampliar seu eleitorado. Segundo pesquisas, seu partido está na frente dos trabalhistas. Portanto, ele será fundamental na formação do próximo governo. Likud e Kadima estão de olho nele. Netanyahu já lhe prometeu um cargo importante. Além disso, temendo ver mais um a sua direita, endureceu seu discurso e afirmou que o Likud manterá Jerusalém unida sob a soberania de Israel.

Livni não ficou para trás. Sabe que há uma rivalidade entre os dois líderes da direita – Netanyahu e Lieberman – e tenta atrair o Israel Beiteinu. Ela não está desesperada para chegar lá, mas alguns observadores acham que ela está se iludindo.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

01/02/2009 - 12:28h ”Solução de dois Estados só depende de Israel”

http://www.chinadaily.com.cn/world/2007-05/21/xin_18050421084960260554.jpghttp://arrastao.org/ficheiros/800px-israel_and_palestine_peace.png

Jimmy Carter: ex-presidente americano; segundo Carter, medida não foi adotada até agora porque israelenses rejeitam se retirar da Cisjordânia

 

Reza Aslan, Global Viewpoint – O Estado SP

 


O ex-presidente dos EUA Jimmy Carter debate as perspectivas para uma solução de dois Estados para a crise palestino-israelense, bem como a política externa americana diante do Irã.

Segundo os argumentos do seu novo livro, “Podemos chegar à paz na Terra Santa: Um plano que vai funcionar”, a imensa maioria dos israelenses e palestinos já aceita os parâmetros de uma solução de dois Estados. Então por que a solução de dois Estados ainda parece tão longe de se tornar realidade?

Até o momento isso se deveu ao fato de os israelenses não estarem dispostos a dar um passo fundamental, que é a retirada da Cisjordânia. Isso é central para a solução do conflito, e Israel não apenas continuou a aumentar o número de assentamentos no território como também construiu uma muralha na área palestina da Cisjordânia. Se os israelenses aceitarem a solução, terão de se retirar da Cisjordânia e eles ainda não demonstraram disposição em fazê-lo.

Parece que durante cerca de 40 anos o status quo beneficiou Israel. Mas agora parece que ocorreu uma virada, em termos demográficos. Não falta muito tempo para que haja mais árabes do que judeus entre o Mediterrâneo e o Rio Jordão. Esta não é a verdadeira ameaça à existência de Israel?

Exato. Logo haverá uma maioria árabe naquele território de um único Estado, o que significa que Israel terá apenas três opções completamente inaceitáveis. Uma delas é o que se pode chamar de limpeza étnica, coisa que ninguém deseja, e isto significa obrigar os palestinos a deixar o território. A segunda opção seria ter um país dentro do qual houvesse duas classes de cidadãos: uma delas seria composta pelos judeus, que teriam direito ao voto; a outra seria formada pelos árabes sem direito ao voto. E isso seria equivalente ao apartheid sul-africano.

A terceira e última opção é deixar que os árabes detenham a maioria dos votos, e com alguma divisão entre os judeus, e os árabes votando em bloco, eles controlariam todo o governo e não haveria mais um Estado judaico. Estas são as opções, excluída a solução de dois Estados.

Parece que a opinião pública e a mídia americanas estão mais dispostas a criticar Israel após a guerra em Gaza.

As pesquisas mostram que isso é verdade. Acho que veremos grandes mudanças, e a demonstração mais concreta é a eleição de Barack Obama. Desde sua primeira semana na presidência, ficou claro que a paz no Oriente Médio será uma de suas prioridades. E o enviado especial escolhido por ele, George Mitchell, é muito mais qualificado do que muitos de seus predecessores.

A maioria dos israelenses está disposta a abrir mão da Cisjordânia em troca da paz, e os palestinos desejam a mesma coisa. A poderosa voz do presidente dos EUA terá um imenso impacto sobre a opinião pública, não somente no seu país, mas também nos territórios palestinos e em Israel.

Qual seria a principal lição que o presidente deveria aprender a partir da sua experiência nas tentativas de encerrar o conflito no Oriente Médio?

Os EUA precisam desempenhar um papel forte desde os primeiros momentos de seu governo, sendo enfáticos nos esforços para conduzir as negociações até a sua conclusão. É necessário agir logo, demonstrar comprometimento profundo e ser persistente.

Este processo começa com o reconhecimento do papel desempenhado pelo Hamas nas negociações?

Ainda é cedo para isto. O Hamas se comprometeu a aceitar qualquer acordo negociado com Israel, desde que seja submetido ao povo palestino em um plebiscito, ou se for eleito um governo de unidade e os representantes do governo aprovarem o acordo. Este é um importante passo a ser dado quando chegar o momento nas negociações com o Hamas.

Talvez agora tenhamos a oportunidade de reconsiderar os últimos 30 anos de política externa americana em relação ao Irã. Que conselho daria a Obama a respeito do melhor modo de tentar uma aproximação com o Irã?

Ele já prometeu, antes e depois de ser eleito presidente, que abrirá todas as formas de comunicação com o Irã. Se você descartar o presidente Mahmud Ahmadinejad e se aproximar de membros mais responsáveis do governo do Irã, penso que, quando Obama enviar alguém para explorar as possibilidades de negociação, acho que essa pessoa será bem recebida. Meu conselho para Obama é simplesmente fazer o que prometeu que faria: abrir um canal de comunicações com o Irã.

O senhor é otimista com relação à situação no Irã e no Oriente Médio daqui a oito anos?

Sim, comparando com as circunstâncias atuais, de onde partimos. O melhor meio de restringir os movimentos potenciais do Irã para aumentar sua capacidade nuclear é conseguir a paz entre israelenses e palestinos, acabar com a guerra oficial entre Israel e Síria, Israel e Líbano. Acho que isso eliminaria, e muito, a ameaça da qual os iranianos sentem que precisam se defender. E de uma maneira mais geral, debilitaria a influência de Teerã e seu prestígio, que cresceu por causa da guerra do Iraque. Assim, o fim da guerra no Iraque e a paz no Oriente Médio seriam duas coisas que colocariam o Irã de volta a uma posição em que sua influência negativa em prol do terrorismo diminuiria, e o país sentiria menos necessidade de ter armas nucleares para se defender.

23/01/2009 - 20:27h Os dois povos devem viver juntos

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Muamar Kadafi*, The New York Times – O Estado de São Paulo


A chocante intensidade da última onda de violência entre israelenses e palestinos nos impele a considerar a extrema urgência de uma solução final para a crise do Oriente Médio. É vital não apenas romper este ciclo de destruição e injustiça, mas também negar aos radicais religiosos que se alimentam do conflito uma desculpa para promover suas próprias causas.

Mas para onde quer que olhemos, entre os discursos e as iniciativas da diplomacia, não há um caminho concreto para um avanço. Uma paz justa e duradoura entre Israel e palestinos é possível, mas deve ser procurada na história do povo dessa terra em constante conflito, e não na desgastada retórica das soluções que apontam para a criação de dois Estados.

Embora seja difícil de perceber, depois dos horrores que acabamos de testemunhar, entre judeus e palestinos nem sempre existiu um estado de guerra. Na realidade, muitas das rupturas ocorridas entre os dois povos são recentes. O próprio nome “Palestina” era usado comumente para definir toda a região, até mesmo pelos judeus que viviam ali, até 1948, quando começou a ser usado o nome “Israel”.

Judeus e muçulmanos são primos e descendem de Abraão. Ao longo dos séculos, ambos sofreram cruéis perseguições e, muitas vezes, se ajudaram mutuamente. Os árabes ofereceram guarida aos judeus e os protegeram quando estes sofriam sob o governo de Roma e quando foram expulsos da Espanha, na Idade Média.

A história da região é marcada por governos transmitidos entre tribos, nações e grupos étnicos, que resistiram a muitas guerras e a ondas migratórias de povos vindos de todas as direções. É por isso que a questão se torna tão complicada quando uma das partes reivindica o direito de ser dona dessa terra.

O cerne do moderno Estado de Israel é a inegável perseguição ao povo judeu, que foi escravizado, massacrado, perseguido por egípcios, romanos, ingleses, babilônios, cananeus e, mais recentemente, pelos nazistas. O povo judeu merece uma pátria, mas os palestinos também têm uma história de perseguições e consideram as cidades de Haifa, Acra, Jafa como a terra de seus ancestrais, transmitida de geração em geração, até pouco tempo atrás.

Portanto, os palestinos acreditam que o que agora se chama Israel é parte de sua nação, mesmo que fiquem com Cisjordânia e Gaza. E os judeus acreditam que a Cisjordânia é a Samaria e a Judeia, parte da sua pátria, mesmo que ali venha a estabelecer-se um Estado palestino.

Com o cessar-fogo em Gaza ressurgiram os apelos para uma solução de dois Estados, que nunca funcionará. Essa solução criará uma ameaça para a segurança de Israel. Um Estado árabe armado na Cisjordânia daria a Israel menos de 16 quilômetros de profundidade estratégica em seu ponto mais estreito. Além disso, um Estado palestino na Cisjordânia e em Gaza não solucionaria o problema dos refugiados. Qualquer situação que mantenha a maioria dos palestinos em campos de refugiados e não ofereça uma solução dentro de suas fronteiras históricas não é uma solução.

Pelas mesmas razões, a divisão da Cisjordânia em áreas judaicas e árabes, com zonas-tampão entre elas, não funcionará. As áreas palestinas não teriam condições de abrigar todos os refugiados e as zonas-tampão simbolizariam a exclusão e alimentariam tensões.

Em termos absolutos, os dois movimentos terão de permanecer em um perpétuo conflito ou chegar a um compromisso: o da criação de um Estado único para todos, uma “Isratina”, que permita que as pessoas de cada lado sintam que podem viver em toda a região.

Um requisito fundamental da paz é o direito dos palestinos refugiados de regressarem para as casas que suas famílias deixaram, em 1948. É uma injustiça que os judeus que não viviam originalmente na Palestina, nem seus antepassados, venham do exterior para se estabelecer ali, enquanto essa permissão é negada aos palestinos que foram obrigados a fugir dali há relativamente pouco tempo.

É um fato incontestável que, até recentemente, os palestinos viviam nessa terra, eram donos de fazendas e casas, mas tiveram de sair com medo da violência dos judeus após 1948. Por isso, somente o território total da Isratina poderá abrigar todos os refugiados e favorecer a justiça, que é o elemento fundamental da paz.

A assimilação é um fato concreto da vida em Israel. Mais de 1 milhão de árabes muçulmanos vivem no país. Eles têm nacionalidade israelense, participam da vida política e constituem partidos. Por outro lado, há assentamentos israelenses na Cisjordânia. As fábricas israelenses dependem da mão-de-obra palestina e há intercâmbio de produtos e serviços. Essa assimilação, por seu sucesso, pode ser um modelo para Isratina.

Se a atual interdependência e o fato histórico da coexistência de judeus e palestinos servirem de orientação a seus líderes, e se, na busca de uma solução de longo prazo, eles olharem além da violência recente e da sede de vingança, perceberão que a coexistência debaixo de um único teto é a única opção para uma paz duradoura.

*Muamar Kadafi é presidente da Líbia

20/01/2009 - 11:40h O New Deal e Keynes

http://www.businessweek.com/magazine/content/04_15/art04_15/0415_20innova.jpgfranklin_d_roosvelt.gif
Keynes e Roosevelt

Antonio Delfim Netto – VALOR

http://acertodecontas.blog.br/wp-content/uploads/2008/05/delfim-netto-thumb1.jpgAs discussões sobre os problemas macroeconômicos são intermináveis. Até hoje, quase 80 anos depois do evento, os economistas discutem qual a “causa” (ou as “causas”) da crise de 1930. E há ainda sérias dúvidas sobre as políticas (ou os acidentes!) que a resolveram. Dúvidas completamente ignoradas por quem procura nelas inspiração para a solução da crise atual. Glamorizou-se posteriormente a solução de 1933 como “keynesiana”. O pequeno problema é que Roosevelt sempre teve pavor do “déficit público”. Como governador do Estado de Nova York, em plena crise (na presidência de Hoover), ele aumentou os impostos para dar ênfase à necessidade de manter o equilíbrio orçamentário…

Para se ter uma idéia da magnitude do problema dos anos 30 nos EUA é conveniente observar o gráfico abaixo, onde se registra o nível do PIB real dos EUA a partir de 1929 (suposto = 100) e a taxa anual de inflação.

Roosevelt fez sua campanha eleitoral com duras críticas ao sistema financeiro e produtivo dos EUA apoiado em números dramáticos. No final de 1932 (ano da eleição) a situação era a seguinte:

1) queda acumulada do PIB (1929/32) – 26%; 2) queda acumulada dos preços (1929/32) – 33%; 3) taxa do desemprego (1932) – 25%.

Para a crise atual as mais dramáticas previsões falam de uma queda do PIB entre 2007 (quando começou a crise) e 2009, da ordem de 2% ou 3%. No primeiro ano da grande crise (1930), o PIB americano caiu 9% e no segundo, mais 6,5% (1931), perfazendo uma queda de 16%! O quadriênio de Hoover é conhecido por sua ortodoxia, pelos equívocos da política monetária, pelo seu respeito irracional ao padrão ouro que o obrigou a aumentar a taxa de juros (em plena recessão!) para impedir a fuga do metal e pelo desastre das medidas protecionistas incorporadas à lei Smoot-Hawley. Esta aumentou as tarifas de importação de quase 1.000 produtos. Não há dúvida que ela produziu uma política protecionista mundial e estimulou um pernicioso “nacionalismo” que reduziu, em quase 2/3, o comércio internacional. Isso acabou restringindo as próprias exportações dos EUA agravando ainda mais o seu problema.

Roosevelt entendeu claramente que, diante da quebra de confiança que interrompera o “circuito econômico” e da perspectiva de continuidade da deflação, precisava de medidas dramáticas. Foi isso que o fez decretar um feriado bancário e o controle do movimento de capitais no primeiro dia do governo. Nos seus famosos “100 primeiros dias”, entupiu o Congresso com os projetos que constituíram o “New Deal”, com duas vertentes: reformar o sistema bancário e introduzir o controle governamental sobre a estrutura produtiva. A primeira ele atendeu com Ato Bancário de 1933 (a lei Glass-Steagall) que separou (vejam só!) os bancos de investimentos dos comerciais, criou o seguro de depósitos, o Fomc (Federal Open Market Commitee) e entregou o controle de todo o sistema ao FED. Foi este, em 1986, que voltou a permitir a confusão entre bancos comerciais e de investimento. E terminou como já sabemos…

A intervenção no sistema produtivo concretizou-se no National Industrial Recovery Act (Nira) de Junho de 1933. Ele criou a National Recovery Administration (NRA) e o Agricultural Adjustment Act (AAA). Numa larga medida estes substituíram o “mercado” por um ensaio de Estado “corporatista” que aliou empresários e trabalhadores na eliminação da concorrência e estimulou o aumento simultâneo de salários e preços (inflação para corrigir expectativa deflacionária como se vê no gráfico). Esse “corporatismo” só foi modificado em meados dos anos 80 do século passado. Suspeito que esta espécie de coordenação pelo Estado tenha mais inspirado Keynes do que resultado de seus conselhos. O ponto importante é que a execução dessas medidas foi acompanhada pela efetiva desvalorização do dólar em abril de 1933. Assim, a quieta ação econômica de Hoover foi radicalmente apagada pela agressiva e mediática política de Roosevelt. E isso mudou a expectativa de deflação e iniciou a volta da confiança que fez trabalhar o “circuito econômico”. Até hoje, com sua reconhecida miopia, a direita americana o considera um “traidor de sua classe e introdutor do socialismo nos EUA”.

A prova que há muito pouco keynesianismo no “New Deal” é que o desemprego se manteve em torno de 15% até 1939, às vésperas da 2ª Guerra Mundial. Quando em 1937 houve um aumento da receita (derivado da recuperação do PIB), a política fiscal foi contracionista (superávit). No mesmo ano o aumento dos meios de pagamentos levou o Fed a subir a taxa de juro, aumentando o depósito compulsório dos bancos (também contracionista). Os dois fatos produziram a pequena recessão de 1938 que se vê no gráfico.

Com Keynes ou sem Keynes (deixem-no em paz!), a lição que sobrou é clara: 1º ) foi a agressiva política de Roosevelt que destruiu a expectativa deflacionária, restabeleceu a confiança e colocou para rodar o circuito econômico; 2º ) os investimentos públicos foram importantes, mas não suficientes para eliminar o desemprego que, entre 1936 e 1939, continuou no nível de 15%; e 3º ) o “corporatismo” induzido pela aliança de empresários (que defendem seus lucros) e sindicatos (que defendem o salário de quem está empregado) para reduzir a competição, provavelmente diminuiu a velocidade da recuperação.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras.

E-mail contatodelfimnetto@terra.com.br

19/01/2009 - 14:20h No que tenha a ver com Gaza, deixem a II Guerra Mundial fora disso

http://images.ig.com.br/publicador/ultimosegundo/274/23/23/1315399.ataque_na_faixa_de_gaza_252_399.jpg
Exercito de Israel bombardeia Gaza

Fonte vi o mundo – blog de Azenha

  Robert Fisk, 17/1/2009, The Independent, UK

  http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/fisk/robert-fiskrsquos-world-when-it-comes-to-gaza-leave-the-second-world-war-out-of-it-1418270.html

Detesto exageros. Comecei a detestar há anos, nos anos 70s, quando o Provisional IRA (Provisional Irish Republican Army, grupo de ação armada ativo a partir de 1969, na Irlanda e na Inglaterra) declarou que a prisão de Long Kesh seria  “pior que Belsen[1]“. Não que houvesse algo de bom em Long Kesh – a prisão Maze, como depois foi rebatizada, polidamente. Simplesmente, não foi pior que Belsen. Agora, começou outra vez. Passando por Paris, essa semana, vi, numa manifestação pró-Palestina, cartazes em que se lia “Gaza é Guernica” e “Gaza-sur-Glane”.

Guernica, como se sabe, foi a cidade basca destruída pela Luftwaffe em 1937; Oradour-sur-Glane, a vila francesa cujos habitantes foram massacrados pela SS em 1944. A selvageria de Israel em Gaza também tem sido descrita como “genocídio” e – claro –, como um “holocausto”. A União Francesa das Organizações Islâmicas descreveu-a como “genocídio sem precedentes” –, o que vale uma medalha, quando até o Papa “ministro para paz e justiça entre os homens” comparou Gaza a um “grande campo de concentração”.

Antes de pôr-me a escrever o óbvio, gostaria, só, de que a União Francesa das Organizações Islâmicas chamasse o genocídio dos armênios de genocídio. Não chamam porque não têm coragem, de medo de ofender os turcos e, além disso, quero dizer… eh… o milhão e meio de armênios massacrados em 1915, eh… eram, quero dizer… cristãos.

Aliás, vejam só, o mesmo acontece com George Bush, porque também não pode ofender os generais turcos de cujas bases aéreas os EUA precisam muito para continuar em guerra no Iraque.  E nem Israel jamais chamou o genocídio dos armênios de genocídio, de medo de perder o único aliado muçulmano que ainda lhe resta no Oriente Médio. Não é estranho? Quando acontece um verdadeiro genocídio – o genocídio dos armênios – ninguém usa a palavra. Quando não há, imediatamente a palavra aparece em todas as bocas.

Sim, sim, sei o que tantos estão tentando fazer: construir uma conexão direta entre Israel e a Alemanha de Hitler. Muitas entrevistas por rádio, essa semana, ao mesmo tempo, já condenam tais comparações. Como sentem-se, sobreviventes do holocausto, ao ser chamados de nazistas? Ora. Como alguém tem coragem de comparar o exército de Israel à Wehrmacht? Fácil: porque a comparação é ato de anti-semitismo.

Já, várias vezes, estive sob fogo do exército de Israel. Nessa condição, não estou convencido de que o exército de Israel seja “exército nazista”. De fato, não entendo por que bombardear as estradas do norte da França em 1940 foi considerado crime de guerra… e bombardear as estradas do sul do Líbano não foi considerado crime de guerra.

O massacre de mais de 1.700 palestinenses nos campos de refugiados de Sabra e Chatila – perpetrado pela Falange Libanesa aliada de Israel, e assistido por soldados de Israel que nada fizeram – pode ser mais bem comparado à II Guerra Mundial. O número de mortos estimado por Israel – vergonhosos 460 – só perde por nove para o massacre nazista da cidade tcheca de Lidice, em 1942, quando quase 300 mulheres e crianças foram mandadas para Ravensbrück (esse, sim, verdadeiro campo de concentração). Lidice foi destruída por Reinhard Heydrich, para vingar a morte de agentes aliados.

Os palestinenses foram chacinados, em Sabra e Chatila, depois que Ariel Sharon disse ao mundo – de fato, mentiu ao mundo – que um palestinense havia assassinado o falangista libanês Bashir Gemayel.

E foi o valente Professor Yeshayahu Leibovitz, da Hebrew University (e editor da Encyclopaedia Hebraica) quem escreveu que o massacre de Sabra e Chatila “foi feito por nós. Os Falangistas são mercenários pagos por nós, exatamente como os ucranianos e os croatas e os eslovacos foram mercenários de Hitler, que os organizou em exército e como soldados, para trabalharem para ele.

Exatamente do mesmo modo, nós, os israelenses, organizamos os assassinos libaneses para assassinar palestinenses”. Lição que foi saudada por Yosef Burg, então ministro do Interior e Assuntos Religiosos, com uma pergunta inolvidável: “Cristãos matam muçulmanos… E a culpa é dos judeus?!”

Há muito tempo enfureço-me contra quaisquer comparações que envolvam a II Guerra Mundial – seja na vertente Arafat-é-Hitler, já encenada por Menachem Begin, seja na vertente “os pacifistas-estão-pacificando-os-anos-30″, encenada recentemente por George Bush & Lord Blair de Kut al-Amara[2].

Os manifestantes pró-Palestina bem poderiam pensar duas vezes antes de pôr-se a falar sobre genocídio, porque o Grande Mufti de Jerusalém apertou a mão de Hitler e disse – em Berlin, dia 2/11/1943, exatamente – “Os alemães sabem como livrar-se de judeus. Definitivamente, conseguiram resolver o problema judeu.” O Grande Mufti, para quem não saiba, era palestinense. Repousa hoje, num túmulo escuro, aqui, a poucos quilômetros do meu apartamento em Beirute.

Mas, de fato, a razão mais importante pela qual o paralelo “Gaza-Genocídio” é perigoso é porque é um falso paralelo.

O 1,5 milhão de refugiados de Gaza são tratados com brutalidade terrível, mas não estão sendo mandados para câmaras de gás ou empurrados para marchas da morte.

Que o exército de Israel é uma horda, é, não há dúvida – e achei engraçado que, semana passada, um dos correspondentes regulares da revista Newsweek o tenha descrito como “esplêndido exército” –, mas isso não implica dizer que todos os soldados israelenses sejam criminosos de guerra.

E tudo faz crer que, sim, cometeram-se crimes de guerra em Gaza. Bombardear escolas da ONU é ato criminoso, que fere todos os protocolos da Cruz Vermelha Internacional. Não há atenuante possível para o assassinato de tantas mulheres e crianças.

Devo acrescentar que fui tomado por sincera emoção de simpatia pelo ministro do Exterior sírio o qual, essa semana, perguntou por que já se organizara em Haia um tribunal internacional inteiro para investigar a morte de um único homem (o ex-primeiro ministro do Líbano, Rafiq Hariri)… mas ainda não se organizara nenhum tribunal em Haia para julgar a morte de mais de 1.000 palestinenses.

Contudo, devo acrescentar que bem pode acontecer de algum tribunal de Haia apontar o dedo para a Síria… e será minha vez de perguntar por que não se organiza nenhum tribunal em Haia para julgar os sírios responsáveis pelo massacre de Hama, em 1982, quando milhares de civis foram mortos a tiro, por soldados das forças especiais de Rifaat al-Assad. O retro-referido Rifaat, sou obrigado a acrescentar, vive hoje em perfeita segurança, dentro da União Européia.

E que tal outro tribunal internacional em Haia, para julgar os soldados da artilharia de Israel que massacraram 106 civis – mais da metade dos quais crianças – na base da ONU em Qana, em 1996?

O xis da questão é a legislação internacional. O xis da questão é a punibilidade. O xis da questão é a administração da justiça – justiça sempre inalteravelmente mal distribuída e que os cidadãos palestinenses jamais receberam – e trata-se de levar bandidos a julgamento. Todos os bandidos, sejam os criminosos de guerra árabes sejam os criminosos de guerra israelenses, o bando todo.

E que ninguém diga que é impossível. É possível – o que ficou bem demonstrado no tribunal ioguslavo. Vários assassinos não foram condenados? Foram. A II Guerra Mundial nada tem a ver com nada disso.

[1] Campo de concentração de prisioneiros dos nazistas, na Baixa Saxônia. Sobre Belsen, ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Bergen-Belsen.

[2] Sobre Kut-al-Amara, ver http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&q=Kut+al-Amara&meta=

18/01/2009 - 15:50h NÃO MATEM O LEITOR

Como um romance, de Daniel Pennac, pode ser um grande aliado na dura tarefa de formar bons leitores

Antonio Carlos Viana • Aracaju – SE (Fonte Rascunho)

Como um romance
Daniel Pennac
Trad.: Leny Werneck
Rocco / L&PM
150 págs.

Nenhuma leitura deve ser obrigatória, salvo uma, a de Como um romance, de Daniel Pennac, que sai agora em edição de bolso pela L&PM, em associação com a Rocco, que o publicou pela primeira vez quinze anos atrás. Todas as comissões de vestibular deviam ser obrigadas a ler esse pequeno grande livro de apenas 150 páginas. Depois de sua leitura, talvez deixassem de se preocupar com as tão temidas listas de livros que os vestibulandos devem ler para responder àquelas perguntinhas muitas vezes sem sentido. Prestariam, assim, um grande serviço à formação de leitores no Brasil.

Pennac abre seu livro com uma afirmação que não nos abandonará mais:

O verbo ler não suporta o imperativo. Aversão que partilha com alguns outros: o verbo “amar”… o verbo “sonhar”…

Bem, é sempre possível tentar, é claro. Vamos lá: “Me ame!” “Sonhe!” “Leia!” “Leia logo, que diabo, eu estou mandando você ler!”

 - Vá para o seu quarto e leia!

Resultado?

Nulo.

Assim começam os problemas de um ex-futuro leitor. Leitura obrigatória não cria leitores. Pelo contrário, afasta-os dos livros. Quantos alunos continuarão lendo com voracidade poesia e ficção depois do vestibular?

Para evitar a incidência no erro, nada melhor do que ler esse livro de título tão intrigante: Como um romance. De que romance fala Pennac? Logo, logo, o entenderemos. Sua linguagem aliciadora nada tem da monotonia dos livros de intenção pedagógica. Ele nos pega desde o primeiro instante, pois logo entendemos que ele fala da relação entre a criança que se inicia na leitura e a de seus iniciadores, os pais. Desde as primeiras historinhas, cria-se entre eles uma relação amorosa, que cresce a cada noite, antes do sono. O primeiro contato do menino com o livro se dá através dessas leituras que o deixam em permanente estado de excitação:

Sejamos justos. Nós não havíamos pensado, logo no começo, em impor a ele a leitura como dever. Havíamos pensado, a princípio, apenas no seu prazer. Os primeiros anos dele nos haviam deixado em estado de graça. O deslumbramento absoluto diante dessa vida nova nos deu uma espécie de inspiração. Para ele, nos transformamos em contador de histórias. (…) Na fronteira entre o dia e a noite, nos transformávamos em romancista, só dele.

Os pais, a criança e o livro, a trindade perfeita. Não há criança que não espere com ansiedade a hora em que os pais sentam ou deitam com ela na cama e começam a desfiar histórias, algumas lidas, outras inventadas. É um tempo de prazer, sem compromisso outro que o de viajar nas palavras. E ela quer mais, sempre mais, até que o pai ou a mãe, exaustos, a convencem a dormir. Até esse momento somos pedadogos, mas sem nenhuma preocupação com a pedagogia.

Eis que chega o dia em que a trindade se desfaz. O menino vai para a escola. Ele se entusiasma com aprender as letras, é quase um milagre juntá-las e dali sair um nome de seu mundo concreto. A primeira palavra escrita: Mamãe! “Esse grito de alegria celebra o resultado da mais gigantesca viagem intelectual que se possa conceber, uma espécie de primeiro passo na lua, a passagem da mais total arbitrariedade gráfica à significação mais carregada de emoção!“. Mas, eis que de repente…

Luta solitária
Sim, não mais que de repente, parece que tudo se esfuma: a alegria de aprender, a alegria de ler. O que todo pai ou professor observa é que a relação do menino com os livros vai se enfraquecendo. Onde foi parar aquele que gostava tanto de ouvir histórias? A leitura, que fora até então fonte de prazer, sofre uma mutação rápida, começa a se transformar num peso a carregar. Uma vez desfeita a trindade, ele terá agora de lutar solitário com um livro que parece rejeitá-lo.

Jogado o menino na escola, os pais se sentem liberados da obrigação de ler para ele como sempre faziam. Que alívio! Mal sabem que perderam seu ouvinte mais atento. Nessa hora é que deviam estar por perto, mas não estão, pois o menino cresceu, não precisa mais de sua ajuda. Finalmente, ele é capaz de se virar sozinho. Até que notam que alguma coisa não vai bem, algo está acontecendo com aquele que foi um dia leitor tão exigente. Vêm os diagnósticos: um desatento, um preguiçoso que não consegue ler um livro em quinze dias. Nunca levam em conta que o que o torna preguiçoso, desatento, é a obrigação de ler, e ler para responder a fichas de leitura, que são a morte do livro. De seu lado, os professores cobram, e caro, uma leitura que não é do interesse daquele leitor e que só faz perdê-lo. Pennac mostra o caminho:

Ele é, desde o começo, o bom leitor que continuará a ser se os adultos que o circundam alimentarem seu entusiasmo em lugar de pôr à prova sua competência, estimularem seu desejo de aprender, antes de lhe impor o dever de recitar, acompanharem seus esforços, sem se contentar de esperar na virada, consentirem em perder noites, em lugar de procurar ganhar tempo, fizerem vibrar o presente, sem brandir a ameaça do futuro, se recusarem a transformar em obrigação aquilo que era prazer, entretendo esse prazer até que ele se faça um dever, fundindo esse dever na gratuidade de toda aprendizagem cultural, e fazendo com que encontrem eles mesmos o prazer nessa gratuidade.

O que antes era prazer vira obrigação. O menino não vê mais o livro, vê o número de páginas que tem de enfrentar, sempre num prazo curto demais para ele e, o pior de tudo, para fazer uma prova. Um temor o assalta: “Como se sair bem se não o entender?” Ele está só, sente-se mais só que nunca, não há ninguém para salvá-lo. O livro passa a ser visto com inquietação, um antagonista do qual ele tem de se livrar o mais rápido possível.

Um livro não pode ser escolhido por outrem, a escolha devia ser sempre nossa. Mas há o cânone. Parece que, sem ele, as portas do futuro não se abrirão. O menino terá de ler o que professor acha que ele deve ler. O mais comum, então, é vê-lo adormecer com o livro aberto sobre o peito e, perto da prova, pedir a alguém um resumo ou, mais fácil ainda, percorrer a internet. Algo está errado. Não, não pode ser assim. Ler por obrigação nunca dará certo. Ou se chega ao livro espontaneamente ou ele será logo abandonado.

A leitura para ser boa tem de ser gratuita. Deve servir de “trégua ao combate entre os homens”, mas a escola a transforma numa guerra em que o perdedor é sempre o leitor forçado e, por conseguinte, a própria literatura. Ler devia ser sempre um presente, “um momento fora dos momentos”, um hiato de distensão dentro de um cotidiano tedioso. Quem sabe o valor da leitura não força ninguém a ler. O melhor caminho é o incentivo, ter lido e motivar o outro a procurar o livro que tanto nos entusiasmou e encheu nossas horas por dias e meses.

Daniel Pennac parte do pressuposto de que é o prazer de ler que preside todo ato de leitura e que, se ele existe, “não teme imagem, mesmo televisual e mesmo sob a forma de avalanches cotidianas”. Não adianta culpar a vida moderna, a televisão, a internet. Nada disso é empecilho para quem se habituou naturalmente à leitura. O que devemos sempre nos perguntar é : “O que fizemos daquele leitor ideal que ele (o menino) era?”. Não foi gratuitamente que o livro mágico da infância cedeu lugar ao livro hostil.

Qual a saída?
Pais, não se desesperem! Daniel Pennac traz um pouco de alento àqueles que já perderam a esperança de ver de novo o filho com um livro nas mãos, não os didáticos, mas o de um Thomas Mann, de um Dostoiévski, de um Flaubert. Se seu filho gostava de ler e não lê mais, o prazer de ler não desapareceu assim, de uma hora para outra, não se perdeu, apenas desgarrou-se e um dia será reencontrado.

Uma criança não fica muito interessada em aperfeiçoar o instrumento com o qual é atormentada; mas façais com que esse instrumento sirva a seus prazeres e ela irá logo se aplicar, apesar de vós.

A leitura deve ser algo que se oferece como ato liberador da vida insípida. Uma viagem em que não se exige nada. “A gratuidade, a única moeda da arte.”

Estimular o desejo de aprender, o entusiasmo pelo saber, seria esse o papel da escola. Ler sem cobranças, nos contentarmos em ler apenas. Abandonemos o dogma do “é preciso ler”. Ler sem alegria é não ler. As palavras pesam, o livro em breve estará fechado e, só fato de vê-lo sobre a mesa, assusta. Quando se sugere um livro é para partilhá-lo, é uma prova de amor, você quer que o outro leia aquilo que foi importante para você em certo momento da vida. A gente dá a ler aquilo que nos é mais caro. Antes de tudo, reconciliar o jovem com a leitura. Jamais fazê-lo sentir-se um pária dela.

A escola parece proscrever o prazer de seu espaço. Como se todo conhecimento fosse feito de sofrimento. Há uma dissociação entre vida e escola. “A vida está em outro lugar”, relembrando Rimbaud. Para contrariar isso, Daniel Pennac conta a história de um professor que nunca mandou um aluno ler um livro. O que ele fazia? Todo dia chegava e lia um trecho de alguma obra importante. A turma inteira ficava em suspenso, envolvida por sua leitura. Foi assim que ele despertou aqueles adolescentes para os livros. Nunca a mais leve sugestão de que fossem correndo à biblioteca, mas eles iam, voluntariamente, em busca do autor que mais os tinha tocado.

Uma aluna desse professor assim o descreve:

Ele chegava desgrenhado pelo vento e pelo frio, em sua moto azul e enferrujada. Encurvado, numa japona azul-marinho, cachimbo na boca ou na mão. Esvaziava uma sacola de livros sobre a mesa. E era a vida. (…) Ele caminhava, lendo, uma das mãos no bolso e, a outra, a que segurava o livro, estendida como se, lendo-o, ele o oferecesse a nós. Todas as suas leituras eram como dádivas. Não nos pedia nada em troca.

Ao final do ano, os alunos somavam: Shakespeare, Kafka, Beckett, Cervantes, Cioran, Valéry, Tchecov, Bataille, Strindberg. A lista era imensa. E ela continua no seu depoimento emocionado:

Quando ele se calava, esvaziávamos as livrarias de Renner e de Quimper. E quanto mais líamos, mais, em verdade, nos sentíamos ignorantes, sós sobre as praias de nossa ignorância, e face ao mar. Com ele, no entanto, não tínhamos medo de nos molhar. Mergulhávamos nos livros, sem perder tempo em braçadas friorentas.

O gosto pela leitura – é o que se depreende de Como um romance – depende do professor. Antes de tudo, ele tem de ser um apaixonado por livros. Falar que os jovens não gostam de ler é simplificar demais. Então se parte para o oposto: obrigam-nos a ler o que não querem. O resultado não podia ser outro: distância dos livros.

Então alguém se pergunta: o que fazer para colocar o livro na mão dos jovens? Se for para continuar fazendo o que estamos habituados a fazer, a melhor resposta é: NADA. Pelo grau de rejeição que eles desenvolvem em relação à leitura, vemos que as estratégias postas em prática até agora não deram resultado. Insistir nisso é burrice. O que se pode fazer é preparar melhor os professores para que transmitam sua paixão pelos livros de forma natural. Professor que não tem nos livros sua forma de viver não deveria ensinar. Professor que não tem paixão pela escrita não deveria ensinar a escrever. É preciso que sua fala transmita uma verdade que vem de dentro, nunca de fora. Sobre aquele professor do qual falei mais acima, Pennac diz:

(Ele) não inculcava o saber, ele oferecia o que sabia. Era menos um professor do que um mestre trovador (…) Ele abria os olhos. Acendia lanternas. Engajava sua gente numa estrada de livros, peregrinações sem fim nem certeza, caminhada do homem na direção do homem.

O papel do professor é o de alcoviteira. É ele que vai fazer o elo entre o aluno e o livro, casá-los para sempre. Facilitar o ato de ler, contabilizar páginas, convencê-lo de que lendo cinco páginas por dia, ao final da semana são 30 (dispensemos o domingo); no final do mês, são 120. Que lucro para quem não conseguia ler nada! O professor se transforma, assim, num estrategista da leitura.

Daniel Pennac termina seu livro listando os “direitos imprescritíveis” do leitor. Um deles é o de não ler. Não obstante, os professores de literatura e as comissões dos vestibulares ficam proibidos de exercê-lo em relação a Como um romance. Só assim será possível evitar a morte de mais leitores.

O AUTOR
Daniel Pennac
nasceu em Casablanca, Marrocos, em 1944, a bordo de um navio, filho de um oficial francês servindo nas colônias do país. É professor de língua francesa, em Paris, e um apaixonado pela pedagogia. O sucesso na literatura chegou com a série de romances sobre o personagem Benjamim Malaussène – O paraíso dos ogros, A pequena vendedora de prosa, Senhor Malaussène e Frutos da Paixão. Na década de 1980, Pennac morou por dois anos em Fortaleza (CE).

18/01/2009 - 14:39h “La capacidad de hacer el mal que tiene el periodista es devastadora”

REPORTAJE: MAESTROS DEL PERIODISMO Jean Daniel Fundador de ‘Le Nouvel Observateur’

JUAN CRUZ – El País

Jean Daniel tiene su estudio lleno de fotografías, y entre todas destaca las que guarda de su maestro, Albert Camus, que es para él no sólo un paisano (Argelia les une, la guerra de Argelia les dividió) sino una fuente constante de inspiración. Le acaba de dedicar un libro, Camus a contracorriente (Galaxia Gutenberg), que es al tiempo un homenaje al periodista e intelectual que fue premio Nobel de Literatura, sino que es también un libro de estilo para ejercer este oficio.

El periodista, Jean Daniel
“La fascinación del poder no debe hacer caer en la complacencia, la indulgencia y la corrupción”
“Puede ocurrir que los periódicos de hoy sean mañana suplementos de Internet”
“Hemos perdido los instrumentos de previsión. Obama es la confirmación total de ello”
“La filosofía de la transparencia, cuando se lleva al extremo, viola la vida privada”

En ese libro hay una imagen, de la que no hay fotos, en las que se ve a Camus entrando en una boîte, con sus colegas del periódico Combat, resistente contra la ocupación nazi de París; habían hecho un buen periódico ese día, Camus estaba exultante y al entrar a la sala de copas exclamó: “¡Vale la pena luchar por una profesión como esta!” Jean Daniel tiene una larga trayectoria como periodista, acaso el más influyente de Francia en algún momento, sobre todo como director y cabeza pensante de Le Nouvel Observateur, una revista elitista que él decidió convertir en un magazine de gran tirada sin disminuirle su ambición cultural.

En esa abigarrada colección de fotos que son las cuatro paredes de su estudio parisino hay alguna muesca de ese éxito, por ejemplo una información que le recuerda que en 1978 fue elegido el mejor periodista francés, el premio Príncipe de Asturias que le concedió la Fundación Príncipe de Asturias, y otras señales de su gran influencia, cerca, por ejemplo, del presidente Mitterrand. Es complicado escribir (en prensa) sobre los amigos políticos, pero en libros lo hace y lo hará, “porque ahí me puedo detener en detalles”.

Ya tiene 88 años, mantiene alertas todas sus facultades, escribe sus artículos (también para EL PAÍS), viaja, presenta libros, y está en permanente contacto con la revista. Y con la realidad. Detrás de su asiento está la portada del New York Times del último 5 de noviembre; en primera página, el gran periódico norteamericano le cita como un referente izquierdista europeo que ha glosado “la épica” gloriosa de Barack Obama, y él está feliz con ese recorte, que tiene enmarcado. Su aversión a las fotos, dicen, es una cuestión de coquetería de un galán que ya ha juntado demasiados años como para que no haya caído alguno sobre su rostro, pero Mordzinsky le sacó unos retratos a los que él accedió con su buen humor cansado. ¿Y aquella frase de Camus? ¿Vale la pena luchar por este oficio? De eso le preguntamos, pero antes hablamos de él, de cómo empezó.

Pregunta. Empezaré por una pregunta que usted le hizo a Albert Camus. ¿Cómo ha llegado usted a ser periodista?

Respuesta. Por casualidad. En mi generación los jóvenes con posibilidades de escribir no diferenciaban entre la filosofía, la literatura, el compromiso político y el periodismo; eran cuatro tentaciones. Los dioses de esta época, los maestros del pensamiento de estos jóvenes, eran americanos: Hemingway, Dos Passos, Steinbeck…; en Francia, Malraux, que hizo aquel reportaje sobre la guerra en Teruel… Era gente que lo hacía todo: el compromiso político, la literatura, la filosofía -no siempre-, y el periodismo. Así que cuando se es joven y se han cursado estudios de humanismo no es necesario hacer una elección entre los cuatro. Si se elige uno se eligen también los otros, no se sacrifica nada. Cuando empecé a escribir siempre fue con la idea de que si hacía un artículo podía hacer un libro. ¿Y qué lo decidió todo? En primer lugar, encontrar a Camus.

P. Un encuentro trascendental.

R. Yo era muy, muy joven, y fue una suerte encontrar a Camus; yo hacía una revista, Caliban, y él me quiso conocer. Otra de las causas de nuestro encuentro fue la guerra de Argelia… Si no hubiera existido esa guerra, que fue tan importante para Francia, para el mundo árabe y para el mundo en general, no hubiera escrito sobre Argelia, probablemente, y quizá no hubiera tenido con él una relación tan intensa… Y desde que me hice periodista nunca he dejado de estar poseído por la necesidad de los libros. He escrito unos veinticuatro libros, y eso distribuye mis anhelos. Pero ha sido muy difícil hacerlos siendo director de periódico. Ser director de periódico no es lo mismo que ser periodista, en absoluto. A menudo es incluso peor. Está la presión de tener a jóvenes a tu lado; hay que animarles, hay que crear con ellos, la gente te concede poderes.

P. ¿Y qué papel le gusta más, periodista o director?

R. No tienen nada que ver. Siempre me han gustado mucho los grandes reportajes. Los reportajes míos que han tenido más éxito son como pequeñas novelas. Sin quererlo, salieron espontáneamente. Me gustaba descubrir un país, interesarme por unos hombres, unas situaciones… Elegía países donde habían vivido hombres que admiraba. Ese fue un gran momento. La dirección me ha apasionado porque tenía la ambición, quizá pretenciosa, de crear otra cosa, no hacer lo mismo que los demás. Siempre se quiere hacer algo diferente, y yo quería crear periodismo cultural. En este sentido la dirección me interesaba. Pero, ¿cuál es el problema? El periodismo es un equilibrio entre la imagen y la rentabilidad del periódico. Un periódico cultural no es para el público en general. Me he rodeado de las personas más competentes y he tenido uno de los mejores equipos de Europa. Y todos han destacado; algunos están en la Academia francesa, otros en la de Bellas Artes, todos han conseguido algo, y el periódico ha destacado sin romper su imagen ni su rentabilidad. De ese equilibrio estoy orgulloso.

P. Se interesa por las personas. Y por el poder. ¿Cómo debe ser la relación del periodista con el poder?

R. El poder fascina. Fascina a los periodistas muy a menudo porque si tienen el gusto por la literatura quieren saber cómo se hace la historia… La historia: los pueblos la sufren, los dictadores (o los poderosos) la hacen, y los periodistas la contemplan para describirla. Los periodistas están entre el poder y la historia. Y han de saber cómo funciona el poder, con la condición de que la fascinación no caiga en la complacencia, la indulgencia y la corrupción… Con esas condiciones es muy interesante ver cómo funciona un hombre que detenta todos los poderes. En este momento hay que desconfiar de todo, hasta del más mínimo detalle. A mi siempre me invitaban, siempre, y tenía un método: o rechazaba la invitación o la aceptaba haciéndola notar. Una vez me invitó el Rey de Marruecos a un gran hotel de Marrakech, y me dijeron que sería ofensivo si pagaba yo la cuenta. Acepté la invitación e hice un donativo por ese importe para obras benéficas de la ciudad, e hice público el gesto… Es muy difícil juzgar con rigor y objetivamente a gente que tienes frente a ti. Tiene que haber una disciplina, sobre todo si estás muy interesado en esas personas; y debes cuidar en todo momento cada detalle.

A mi me han ofrecido de todo: una casa en México, en Túnez también querían ser muy amables conmigo… He tenido la tendencia a ser más crítico cuanto mejor me recibían. Pero la relación del poder con la prensa es un problema en los dos sentidos. He conocido periodos en que había corrupción de los periodistas, pero he conocido periodos en los que existía acoso de los periodistas. Un hombre con poder es un hombre que esconde algo y hay que descubrirlo. Hay que descubrir el crimen. ¿Qué crimen? No se sabe, pero hay que descubrirlo. Es una actitud equivocada pensar que siempre hay un crimen. Existen los dos excesos, y ahora existe el exceso de la transparencia: no se sabe qué crimen hay pero hay que descubrirlo.

Es cierto que un dictador lo esconde todo, y nuestro papel es descubrir qué esconde. Pero se han pasado los límites: la filosofía de la transparencia, cuando se lleva hasta el extremo, por virtud o por vicio, llega hasta la violación de la vida privada. Y existe una intromisión nueva, la intrusión de la fotografía en la vida íntima… Cuando se traspasan los límites se llega a aberraciones. Mire lo que ha pasado ahora con Milan Kundera, el gran novelista checo, acusado de haber denunciado a un compañero… En aquel tiempo él tenía veinte años, ahora tiene setenta. No había pruebas. Los periodistas se fueron a Praga y no encontraron pruebas. Pero hubo un titular junto a una gran foto de Kundera: Kundera habría sido… Y con ese condicional, la enorme foto y el titular ya Kundera es… El texto en sí era honesto, pero el lector se fija tan solo en la imagen, y en la fuerza del condicional. El fin del periodismo es escribir, el texto. Pero en esa información existe sólo la fuerza de la imagen, la fuerza del título y la fuerza del condicional. Quizá el periodista fuera honesto, pero mire usted el resultado.

P. Es el principio de la calumnia.

R. Absolutamente, salvo que la calumnia ahora se apoya en las nuevas tecnologías.

P. En la dispersión de los rumores.

R. No es exactamente eso. Hace algunos años sí se producía la difusión del rumor, un término que arranca de Beaumarchais. Pero ahora lo nuevo es la presentación de las noticias. Enciendes la televisión y ves una cara. ¿Qué ha hecho? Y después de la cara alguien dice: “Ha sido acusado de …” Sin pruebas. No es sólo la difusión del rumor, es la fuerza que se da a la presentación del rumor.

P. Internet es un instrumento que difunde rápidamente todo lo que toca.

R. Sí, es una posibilidad de multiplicación del rumor.

P. ¿Cuál es su posición sobre el porvenir de la prensa a partir de la aparición de este poderoso instrumento?

R. ¡Si yo lo supiera! Saberlo es muy importante para mucha gente, también para los editores de periódicos. Es verdad que existe una crisis de la prensa; puede ocurrir que los periódicos de hoy sean suplementos de Internet. La realidad será Internet. Es una posibilidad. Con el libro no va a pasar lo mismo. Se ha demostrado que la gente quiere tener algo en las manos, un objeto como este. Hay algo de mágico en el libro, la forma, las páginas…

P. ¿Y qué aporta Internet al periodismo?

R. A los periodistas les aporta el gusto por la velocidad. La posibilidad de que cualquiera pueda contestar a cualquiera. El hecho de que todo el mundo pueda ser un periodista, y, en este caso, que los propios periodistas ya no crean en ellos mismos, porque se les cuestiona en todo momento. Se está produciendo un descrédito de la función del periodista.

P. Que se preparó para ser periodista.

R. Todo ese itinerario de preparación, que terminaba con un estatuto de prestigio y de autoridad del periodista, es destruido por la repentina aparición de alguien que ha encontrado una foto y la pone en Internet. Y esa foto puede destruir a alguien. Hay ventajas, no son para el periodista, pero hay ventajas. Es el sueño de la opinión pública, es verdad que se le abre una posibilidad infinita a la capacidad de expresarse. Pero lo que le decía con respecto al peligro que hay en esta situación supone una preocupación para mi.

P. Camus decía que el periodismo era la información crítica. Acaso la velocidad puede cambiar esa definición de periodismo.

R. No es forzosamente malo reaccionar ante las opiniones. Además, esa velocidad proporciona una impresión inmediata del sentir popular. Todo no es malo, no. Se puede saber de manera instantánea si lo que uno escribe suscita interés… Pero es cierto que todo el mundo tiene miedo. Y hay gente que explota ese miedo y piensan que Internet va a acabar con la prensa escrita, que cada vez va a haber más prensa gratuita, y que los periódicos serán suplementos de Internet. Yo no estoy capacitado para hacer una predicción. ¡Y además no soy un magnate de la prensa! Soy tan solo director de Redacción, y soy el único director de periódico que no tiene ni una acción de la compañía. ¿Se da cuenta de lo que esto supone?

P. Debe ser muy bueno para un periodista… Balzac decía que si la prensa no existiera había que procurar no inventarla…

R. ¡Lo decía porque ya existía, existió siempre! En el sentido moderno existe desde Gutenberg y desde la invención del correo. Pero antes de todo eso había personas que repetían las cosas, gente que distribuía gacetas, libelos…, existía la necesidad de repetir lo que pasaba. ¿Qué es el periodismo? Es decir a otro lo que uno sabe y el otro desconoce. Es tratar de saber algo incluso con riesgo de tu vida, como el corredor de Maratón que va a llevar la noticia de la victoria de los atenienses. ¿Hay porteros en España?

P. Sí, y hubo serenos.

R. Pues cuando un portero va a contarle a otro qué pasa en su casa, eso es el principio del periodismo.

P. En su libro sobre Albert Camus usted recoge cuatro pautas sobre las obligaciones de un periodista: “Reconocer el totalitarismo y denunciarlo. No mentir y saber confesar lo que se ignora. Negarse a dominar. Negarse siempre y eludiendo cualquier pretexto a toda clase de despotismo, incluso provisional”. ¿Cuáles son para usted las obligaciones de un periodista hoy?

R. La lista de Camus sigue vigente. ¿Qué hay que agregar a esa lista? Probablemente, la capacidad de conocer las nuevas trampas de la tecnología. Cuando Camus enumera esas obligaciones no existía aun la televisión. Y el reino de la imagen lo ha cambiado todo, incluso la forma de escribir. Imagine un novelista que escribe una novela y en cada párrafo alguien le dijera que su nivel de audiencia baja o sube. ¡Escribir en función de la reacción inmediata del lector! La gran innovación que ha incrementado los temores enunciados por Camus es la simultaneidad, la ubicuidad, el hecho de que cuando alguien habla faltan segundos para que lo sepa toda la Tierra. Es algo extraordinario.

P. Esa simultaneidad afecta también a la vida privada, otra de sus preocupaciones. Dice usted que la amenaza a la vida privada es el peor defecto del periodismo actual.

R. Somos muchos los que pensamos eso; hay mucha gente que piensa que la transparencia es algo muy importante, y que si la vida pública se ha mezclado con la vida privada el lector tiene derecho a conocer ésta. Es una postura, y no es la mía en absoluto. Pero hay gente de alto nivel que piensa eso. Piensan que si Berlusconi mezcla su vida pública con sus intereses privados tenemos derecho a conocer detalles de esos hechos. Hay gente que no es deshonesta que piensa eso. Y eso nos puede llevar muy lejos.

P. Por eso dice usted que el periodista tiene un poder injusto.

R. Naturalmente, muy a menudo es así. La capacidad de hacer el mal que tiene el periodista es devastadora. En un día o en una hora se puede deshacer una reputación, se puede transformar a alguien que tiene fama de ser honesto en un terrible malhechor. Es un poder terrible.

P. ¿Y cómo se puede limitar ese poder sin llegar a la censura?

R. Es una apreciación difícil que depende en primer lugar del director de Redacción, del redactor jefe, del jefe de departamento, de la forma como se concibe el periódico. Esto pasa de paredes para adentro, no hace falta una ley para eso.

P. Usted advierte, como Camus, contra la primicia: es mejor verificar que lanzarse con una noticia que está segura, no hace falta ser los primeros…

R. Es mejor ser el segundo pero verídico que el primero pero equivocado. Todo el mundo quiere ser el primero… En la época de Camus había un gran asunto, la violencia, y él quería ahondar más en eso, el asunto de las primicias estaba en segundo lugar… Hablé con él muchas veces de eso: cuándo acabará el Mal, cómo se da respuesta a la agresión, ¿se llega a imitar al enemigo? ¿Qué porvenir tendrá nuestra Causa si empleamos las mismas armas que nuestros enemigos? ¿Y el periodista, es honesto utilizando medios que considera inaceptables para otros? Ahora tenemos preguntas parecidas. ¿Qué hacemos con Irán? ¿Tenemos que hacer como Irán para ir contra Irán? La pregunta es si hoy estamos condenados a imitar los medios de los enemigos. Camus me interesó y me sigue interesando porque su gran preocupación tiene que ver con el modo que el periodismo tiene de enfrentarse al gran tema de nuestro tiempo, la violencia. Cada texto fundamental sobre el periodismo debería de ir acompañado por una filosofía de la violencia.

P. “Sueño con un periódico que destierre todo tipo de mentira, en el que la virtud fue, no obstante, divertida, y en donde se defendieran encarnizadamente tres principios: los de la Justicia, el Honor y la Felicidad”.

R. Muy de Camus… ¡El honor, tan castellano! No sé si hoy habría un periódico como ese que soñaba Camus. Él iba muy lejos, y era un puritano. Cortó una serie de reportajes porque estaba harto de que comiéramos del dolor de las mujeres. Un puritano. El mundo ha cambiado. El día en que el Times de Londres puso una foto en portada el mundo periodístico cambió radicalmente.

P. Usted dice que el periodismo consiste en vivir la historia mientras ésta se hace. ¿Cómo ve la historia haciéndose ahora?

R. Hemos perdido los instrumentos de previsión; eso es lo más novedoso. No hay ciencia económica, no hay conocimiento analítico financiero: se han equivocado todos. Desde hace diez años se han equivocado todos. Hemos perdido los instrumentos de previsión y nos faltan paradigmas. Estoy rodeado de jóvenes economistas, muy seductores y muy simpáticos, pero si los reúno no saco nada en claro. Primero, porque no están de acuerdo entre ellos y cuando están de acuerdo no saben qué va a pasar. Levi-Strauss me lo ha dicho y lo he escrito: la ciencia es importante, todo el mundo se alegra de ello, pero nada es verdadero porque el mundo se ha vuelto imprevisible. Eso decía.

R. ¿Incluso con Obama?

R. Sobre todo con Obama. ¿Quién había previsto a Obama? Es la confirmación total de lo anterior. La historia de Obama es increíble. Uno de mis mejores amigos es un gran economista americano. Le conozco desde hace treinta años, es un banquero. La semana pasado hablamos por teléfono y al cabo de un rato me dice: “No sé quién será el secretario de Estado; cualquiera, menos Hillary Clinton”. ¡Ese era el hombre en quien yo confiaba más desde hace décadas! Y al día siguiente llega la noticia del nombramiento de Hillary Clinton… Y él está allí, en ese mundo. Imprevisible.

P. Usted recuerda esa escena: Camus llega a una boîte, está feliz por la edición del último número de Combat y exclama: “¡Vale la pena luchar por una profesión como esta!” ¿Usted diría lo mismo hoy?

R. [Después de un largísimo silencio] Merece la pena. Sí, creo que merece la pena. He tardado en responderle porque me he vuelto muy preocupado y hasta un poco pesimista. Pero digamos que merece la pena luchar. Él decía: “Vale la pena”. Yo digo que merece la pena luchar.

17/01/2009 - 13:27h Chega de horror. Cessar-fogo já!

Uma TV israelense transmitiu ao vivo o desespero de um médico palestino, Dr. Abu El-Aish, pacifista que trabalhou em Israel e acabara de ter sua casa bombardeada. Era comum sua participação pelo telefone contando a situação em Gaza. Suas três filhas morreram e outras duas foram feridas. O vídeo é do Youtube e está legendado em espanhol. Tem uma versão legendada em ingles.

17/01/2009 - 10:19h “Insanidade” pede reforma na ONU, diz Lula

Foto: AFP

FABIANO MAISONNAVE – FOLHA SP

ENVIADO ESPECIAL A EL DILÚVIO (VENEZUELA)

Em visita à Venezuela, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva qualificou o conflito israelo-palestino de “insanidade” e defendeu a reforma da ONU como um dos passos para resolver a violência na região.
“O Brasil é um exemplo de convivência pacífica entre árabes e judeus. Nós temos aproximadamente 10 milhões de árabes no Brasil e temos algumas centenas de milhares de judeus, que não têm nenhuma culpa da insanidade daqueles que tomam decisões de atirar em gente inocente”, disse, durante discurso ao lado do presidente Hugo Chávez.
Ao defender a reforma do Conselho de Segurança -o Brasil postula um assento permanente-, Lula disse que a ONU está “enfraquecida e debilitada” por não ter tido força para impedir a Guerra do Iraque nem a ofensiva em Gaza.
Lula mencionou a recente visita do chanceler Celso Amorim ao Oriente Médio e disse ser necessário “mudar os interlocutores”. “Não pode ser apenas os EUA ou um outro país. E a primeira coisa que temos que fazer é que sejam resolvidos os conflitos internos. A Autoridade Nacional Palestina não pode negociar a paz se o Hamas não concorda com a paz.”
Depois que Chávez se queixou de que o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, repete a retórica de George W. Bush ao vinculá-lo às Farc colombianas, Lula disse esperar que ocorra logo um encontro entre o venezuelano e Obama. “Espero que Obama não veja aqui a região dos anos 60, mas uma região que aprendeu a viver em democracia”, disse.

16/01/2009 - 14:04h Perspectiva de paz torna a guerra ainda mais desumana

http://www.jornalmudardevida.net/wp-content/uploads/2008/02/gaza2_72dpi.jpg

Gilles Lapouge* – O Estado SP

O primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, reconheceu: aviões israelenses bombardearam o complexo da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos (UNRWA) em Gaza. O Hospital Al-Quds também foi atingido. Qual a razão desses ataques? Respostai: havia 700 palestinos refugiados no complexo. Era preciso atingi-los. É a lógica. Ataca-se onde os inimigos se encontram.

Alguns objetam, porém, que é igualmente lógico que civis, nas circunstâncias com alguns combatentes entre eles, presos em sua cidade, e correndo como um bando de ratos perseguidos por um caçador, procuram escapar da morte forçando as portas dos lugares pretensamente protegidos pelo direito. O direito? Por duas vezes, nos últimos dias, verificou-se que é uma péssima ideia esconder-se em lugares neutros. É a melhor maneira de atrair o raio. Cerca de 40 mortos numa escola da ONU, na semana passada, deram prova disso.

Mas a verdadeira razão desse ato deve ser procurada em outro lugar. As negociações entre Israel e o Hamas, com intermediação do Egito, haviam progredido de tal forma que, na manhã de ontem, a expectativa era de que as armas parassem de troar em um ou dois dias. Foi, portanto, na véspera desse evento que Israel empreendeu ataques de uma violência sem precedente, incluindo a destruição no complexo da ONU de assistência a uma população que morre de fome quando escapa da morte que vem do céu .

A ideia aponta, portanto, para um quadro duplo. De um lado, a paz é vislumbrada. De outro, a guerra se torna mais desumana. Ora, essas duas faces, longe de se contradizerem, se completam. “No último minuto”, disse um diplomata da região, “tenta-se obter progressos no terreno antes de a paz se impor. É a estratégia clássica de Israel”. Será o caso admitir que se multiplique o número de mortos para aumentar a chance de viver? Estranha dialética! E se, em vez de preparar a paz, esses excessos dessem uma nova chance à guerra?

Não se trata de fazer um julgamento, favorável ou indignado, sobre a guerra lançada por Israel. As provocações do Hamas, seus bombardeios cínicos das cidades israelenses, eram ignóbeis. No entanto, são muitos os que se escandalizaram com a maneira como essa guerra foi conduzida. A Federação Internacional dos Direitos Humanos pediu ao Conselho de Segurança da ONU que investigue “crimes na Faixa de Gaza que devem ser qualificados como de guerra, se não forem crimes contra a humanidade”. As bombas de fósforo Dime (Dense Inert Metal Explosive) são aceitas pelo direito internacional, é verdade, mas são abjetas. A agência Associated Press cita testemunhas que viram os efeitos dessas bombas: “Viu-se a fumaça branca vinda do céu descolar a pele do rosto e dos membros.” Eis a questão: para restaurar a paz, seria realmente necessário primeiro bombardear as instalações da ONU, um hospital, e atingir civis com bombas capazes de descolar a pele dos rostos e dos membros?


*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

12/01/2009 - 15:32h Um blog no meio da zona de conflito

SAMEH A. HABEEB 23 anos, blogueiro e jornalista palestino de Gaza


DIVULGAÇÃO
PERIGO – Por causa do blog, Sameh (acima) recebeu ameaças de morte

Blogando, jovem torna-se olhos dos principais veículos do mundo sobre o lado palestino do bombardeio à Gaza

 

Filipe Serrano – O Estado SP – Caderno Link

 

A voz do jovem palestino e blogueiro Sameh Akram Habeeb, de 23 anos, soava cansada no telefone ao falar com o Link pela segunda vez na última semana enquanto o 13º dia da ofensiva de Israel contra o Hamas na Faixa de Gaza chegava ao fim, na noite de quinta-feira. “Está tudo bem por aqui… Só que os bombardeios ainda não acabaram (suspiro). Você já escreveu meu nome no jornal?”, ele pergunta, curioso, mas sem entusiasmo.

É que, desde o início do cerco a Gaza, há duas semanas, Sameh teve poucas horas de descanso. Ele se dispôs a reportar voluntariamente, pela internet, a situação na Cidade de Gaza, onde vive com seus pais, irmãos e irmãs.

Sua casa está sem eletricidade e, a cada dia, ele percorre quatro quilômetros até um local onde pode recarregar a bateria de seu notebook. Nas horas seguintes, telefona para hospitais, ouve as notícias pelo rádio do seu celular e tira fotografias do caos que tomou a região. Em casa, na região leste da cidade, se conecta à internet usando uma precária conexão discada.

Ela é lenta, mas, desde que a banda larga deixou de funcionar, tem sido a única opção para atualizar seu blog Gaza Strip, the Untold Story (http://gazatoday.blogspot.com) e o álbum virtual de fotografias que mantém no site http://picasaweb.google.com/sameh.habeeb.

No blog, que em português quer dizer Faixa de Gaza, a História Não Contada, Sameh descreve as dificuldades pelas quais os palestinos habitantes de Gaza têm passado nos últimos dias. Falta de água potável, energia, comida, gasolina, gás e assistência média são alguns dos problemas citados na página. Ele também enumera os acontecimentos do dia com uma sobriedade de manchete jornalística: “A casa da família Bawadi, em Jabalia, foi destruída”, dizia uma das atualizações de quinta-feira.

A sobriedade não é à toa. Sameh é formado em Língua Inglesa em 2008, mas também faz trabalhos como jornalista independente. Por isso, a cobertura em seu blog tem um tom objetivo, mesmo que ele, pessoalmente, tenha opiniões contrárias às ações de Israel.

Blogueiros palestinos como Sameh têm feito um papel importante durante a ofensiva israelense porque nenhum jornalista estrangeiro teve permissão de Israel para entrar na Faixa de Gaza até sexta-feira. Israel informou à organização Repórteres Sem-Fronteira que um cinegrafista da BBC entrou acompanhado do Exército. Com informações de pessoas como Sameh, a mídia internacional conseguiu dizer o que ocorria dentro da Faixa de Gaza.

Sameh é um caso especial porque, além de ter experiência como jornalista, deixa todos os seus contatos no blog. “Estou disponível 24 horas para atender jornalistas. Você pode me ligar a qualquer hora em minha casa”, avisa ele no blog.

Sua primeira entrevista para um jornalista estrangeiro foi em março, depois de um ataque na Faixa de Gaza. O palestino foi encontrado por causa do blog, que já publicava desde o início de 2008. Nas últimas duas semanas, porém, ele foi procurado diversas vezes para contar sua experiência como um palestino vivendo em meio aos ataques. “Muitas emissoras me procuraram, como CNN, ABC, CBS, Skynews, e jornais grandes, como USA Today, New York Times, Libération e Le Figaro”, diz.

“Meu telefone toca como o de um escritório cheio. Tenho um celular que fica ocupado toda hora também. Imagino que recebi umas 200 ligações nas últimas duas semanas. Não foram só jornalistas, mas algumas pessoas ligaram para dar apoio, dizer boa sorte e essas coisas”, afirma.

O blogueiro não esconde seu orgulho pessoal de ter recebido tantas ligações do mundo todo. “Tenho uma boa experiência já. Sou um bom fotógrafo, um fotógrafo fantástico. Você viu minhas imagens no site Skynews? Fotos fantásticas”, gaba-se.

A vontade de ajudar e de contar a situação de Gaza trouxe consequências perigosas. Na quinta-feira, Sameh recebeu três ligações anônimas ameaçando-o de morte se não parasse de escrever no blog. Ele diz não ter medo e que apenas não quer que sua família seja machucada. “Vou continuar escrevendo mais e mais. Não vou parar. Sinto que preciso mandar notícias sobre esta guerra”.

Após a declaração, Sameh conta que adora o Brasil e quer visitar o País quando tiver férias. Fica curioso para saber se é o custo de vida aqui é alto e ainda diz que em Gaza há muitos fãs de Ronaldo, o jogador. “Sabia que ele já esteve em Ramallah (cidade palestina próxima a Jerusalém)?”

A conversa é interrompida e ele diz “Look, breaking news (olhe, últimas notícias): um jornalista de Gaza foi morto em sua casa. Era um cinegrafista. Acho que foi atingido por um foguete. Nossa, agora estou com medo.”

11/01/2009 - 10:38h É hora de reconhecer os emergentes

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Obama deve olhar além da guerra na Faixa de Gaza para reformar o sistema multilateral global

James Traub* – O Estado SP

Antes mesmo de Israel lançar os ataques a Gaza há duas semanas, a equipe de segurança nacional de Barack Obama compreendeu que as crises poderiam facilmente eclipsar a agenda de transformação que o presidente eleito adiantou durante a campanha.

Guerras no Iraque e no Afeganistão, instabilidade no Paquistão e ameaça de proliferação nuclear no Irã seriam mais do que suficientes para desalojar qualquer ideia de planejamento de longo prazo. Agora, o Oriente Médio está em chamas de novo. No entanto, um amplo leque de especialistas em política externa insiste para o futuro presidente olhar além da fumaça e do derramamento de sangue para reformar as estruturas governantes mundiais.

Essas estruturas – como a ONU – datam do fim da 2ª Guerra, quando os vitoriosos tinham o monopólio do poder econômico e político, e o sistema de Estados parecia sólido. Não vivemos mais nesse mundo. Uma prova disso veio em novembro, quando George W. Bush reuniu o G-20 para tratar da crise financeira.

Até então, a diretoria executiva do planeta era conhecida desde que se reuniu pela primeira vez, em 1975, como G-7 (ou G-8 quando a Rússia participava). Robert Hormats, ex-funcionário do Departamento de Estado, presente naquela primeira reunião, observa que, por muito tempo, as potências ocidentais “podiam gerir a economia global sozinhas”. Agora, diz ele, “isso é inconcebível”.

A reforma está no ar. Em janeiro de 2008, o premiê britânico, Gordon Brown, fez um pronunciamento em Nova Délhi no qual observou que a globalização havia trazido novas potências para o primeiro plano. Ele pediu um novo momento de “criação” que incluiria mudanças na composição das instruções do pós-guerra e novos mecanismos para lidar com mudança do clima, pobreza, energia e não-proliferação nuclear.

Bem mais provocativo para o mundo em desenvolvimento é a composição do Conselho de Segurança da ONU, cujo rol de membros permanentes com direito de veto não mudou desde a sua criação. Obama, diferentemente de seu antecessor, vê a ONU como um instrumento fundamental para a política externa americana, mas poderá ter algumas iniciativas bloqueadas pela antipatia do Terceiro Mundo à influência desproporcional do Ocidente. Especialistas dizem que ele angariaria uma enorme boa vontade se apoiasse abertamente assentos no conselho para os atuais aspirantes: Índia, Brasil, Alemanha, Japão e África do Sul.

Será que um Conselho de Segurança ampliado ajudaria Obama a cortar o nó górdio no Oriente Médio? Infelizmente, não. A ONU desempenha hoje um papel apenas secundário de mediação entre Israel e palestinos, para os quais a Casa Branca e potências selecionadas do Oriente Médio continuarão sendo os interlocutores preferidos. Um novo Conselho de Segurança não poderia resolver tampouco as tensões criadas por um de seus membros permanentes, como uma Rússia, cada vez mais impaciente e belicosa.

No entanto, da última vez que a ONU fez uma iniciativa séria para ampliar o conselho, em 2005, cada candidato tinha seu próprio inimigo jurado – geralmente, um vizinho. Alguns defensores sugeriram que Washington se concentrasse primeiro na limitação do uso do veto e, só depois, no acesso de novos membros.

EFICIÊNCIA

Ademais, tornar uma organização mais representativa não a torna necessariamente mais eficaz. A crise financeira demonstrou a necessidade de novos mecanismos regulatórios globais. Esses serão agora reunidos segundo instruções de ministros da economia do mundo em desenvolvimento e do Ocidente.

Isso as tornará mais sólidas? Considerando a resistência de muitos membros do G-20 a padrões mais rígidos de contabilidade, a resposta é: “Não necessariamente.” Então, qual será a alternativa? O Ocidente quer que China, Rússia e as economias emergentes se vejam como atores globais responsáveis. Isso significa dar-lhes participação no sistema e esperar que essa participação os torne partes interessadas melhores.

Os defensores da reinvenção parecem ter os méritos do seu lado. Qual a importância de criar e reformar essas novas estruturas em comparação com a administração da crise? Essas perguntas foram feitas a elementos da equipe de transição de Obama, que não quiseram comentar.

É evidente que a ONU pode esperar, ao passo que a paz no Oriente Médio, não. Mas existe outra maneira de olhar para a questão: um governo que queira trabalhar via instituições, e não por meio de coalizões, terá de escolher entre reformar essas instituições ou vê-las cair na irrelevância.

Em outras palavras, a mudança virá, de um jeito ou de outro. Segundo David Rothkopf, especialista em segurança nacional, a questão é: “Permitiremos que ela avance no seu próprio ritmo, descoordenada, aos poucos, ou veremos isso como uma oportunidade e produziremos uma nova visão de um sistema que promova interesses americanos assim como a visão do pós-guerra fez por 60 anos?”

*James Traub é direto de políticas para o Global Center for the Responsibility to Protect

10/01/2009 - 14:10h A opinião pacifista de Israel manifesta


CESSAR-FOGO JÁ!

Os Amigos Brasileiros do PAZ AGORA – PAZ AGORA|BR manifestam seu apoio à interrupção imediata da ação militar em Gaza, e o restabelecimento de condições humanitárias básicas para a população da Faixa.

A continuação da ofensiva militar israelense é contrária aos melhores interesses do seu próprio povo. Só acrescenta mais ódio, mais perdas civis e mais terror.

Ao mesmo tempo em que defendemos com firmeza que o Estado de Israel deve proteger seus cidadãos, também reafirmamos que a segurança permanente do país só será conseguida através da paz com seus vizinhos, que será obtida por meio de negociações.

Apoiamos todos os esforços diplomáticos que possam levar a um cessar-fogo, especialmente a mediação oferecida pelo governo brasileiro. As gestões do Itamaraty unirão nossas comunidades árabe e judaica – que aqui sempre conviveram em perfeita harmonia -  na busca de uma solução justa e pacífica no conflito do Oriente Médio.

Um imediato cessar-fogo é vital para minorar o sofrimento de milhões de seres humanos – israelenses e palestinos – que merecem vidas normais, sem foguetes, sem violência e sem ocupação.

É HORA DE PARAR

PAZ AGORA !

 

  

 

HOJE - Grande Manifestação do PAZ AGORA

sábado - 10|01 - 19h30 

em frente ao Ministério da Defesa em Tel Aviv

 

Continuamos convencidos, apesar das ações dos grupos terroristas que pregam a destruição do Estado de Israel, de que a única forma de resolver o conflito na região é através de ações políticas e pela concretização da solução de dois Estados.

 

As últimas guerras mostraram claramente que é impossível vencer grupos terroristas apenas com o uso me meios militares

 

Mesmo que a guerra contra o Hamas seja justificada, é impossível ignorar a terrível mortandade, destruição e sofrimento que ela vem causando ao povo de Gaza.

 

Chamamos a população de Israel às ruas para pressionar o governo por um cessar-fogo

imediato.

 

“É HORA de PARAR e PENSAR !”