04/06/2008 - 13:24h Ciganos são bode expiatório

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Gilles Lapouge* - O Estado de São Paulo

Tempos horríveis estes para os ciganos italianos, principalmente os chamados “romas”, de origem romena. O premiê italiano, Silvio Berlusconi, acaba de conceder poderes extraordinários para os chefes de polícia de Roma, Nápoles e Milão fazerem um novo censo dos ciganos e expulsarem os que têm problemas com a Justiça.

Será que Berlusconi tem o direito, na União Européia, de perseguir as pessoas desse modo? Os romas são três quartos romenos e um quarto italianos. Portanto, são cidadãos da UE e não podem ser detidos ou expulsos. Mas Berlusconi não está nem aí com isso. Bruxelas se comoverá com a sorte deles? Isso não é tão certo, embora seja desejável.

As medidas contra os ciganos têm precedentes assustadores. Em 1939, sob o nazismo, eles foram tachados de “raça inferior”. Cerca de 30 mil foram expulsos para o Leste e começaram os massacres e o confinamento em guetos. Em 1942, Heinrich Himmler, chefe da SS, deportou os ciganos alemães para campos de concentração.

As medidas de Berlusconi não têm nenhuma relação com tais horrores. Mas não podemos deixar de nos sentir chocados ao ver as mesmas pessoas perseguidas pelo mesmo “crime”: o de pertencer a uma determinada etnia. Pode-se até explicar o gesto de Berlusconi: a Itália padece. A crise é feroz. Nápoles, incapaz de administrar o próprio lixo, apodrece ao sol. Em casos semelhantes, todo líder procura um bode expiatório. O que Berlusconi tinha à mão era o povo cigano.

Sem desculpar Berlusconi, é preciso reconhecer que tal comportamento não é exclusivo dele: em 2007, seu predecessor, Romano Prodi, que não é de direita, mas de centro-esquerda, baixou um decreto que lhe permitiu expulsar ciganos.

A maldição que recai sobre os ciganos também é antiga. Eles deixaram seu berço, a Índia, na Antigüidade, e espalharam-se pela região do Mediterrâneo. Tinham uma fama detestável: os gregos os apelidaram de “intocáveis”.

Nas sociedades modernas, a sorte dos romas italianos mostra que o problema da imigração não pára de se agravar. A crise intensifica o ódio pelos imigrantes, esses sujeitos que vêm “tirar o nosso emprego”. Os países europeus endurecem suas leis, expulsam, separam as famílias, desprezam. Hoje, a Europa, que por muito tempo deu lições de direitos humanos, não exibe um rosto bonito. Ela é feia. Em todas as capitais, afiam-se as armas contra os imigrantes. O código civil é reformulado. A imigração é tratada como crime.

Evidentemente, não podemos esquecer que a imigração em massa representa um desafio. Mas a solução não é lotar aviões fretados, como faz o presidente francês, Nicolas Sarkozy. É necessária na Europa uma política de imigração firme, coerente, diferente das histerias anticiganas de Berlusconi. Uma política que tenha dois pilares: no interior, a solidariedade e a integração; no exterior, acordos de cooperação com os países de emigrantes.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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12/05/2008 - 15:11h Morre Irena Sendlerowa, polonesa que salvou milhares no Gueto de Varsóvia

VARSÓVIA - A polonesa Irena Sendler, que salvou milhares de crianças judias durante a Segunda Guerra Mundial ao retirá-las do Gueto de Varsóvia, morreu na segunda-feira aos 98 anos, após uma prolongada doença, segundo o site do jornal Gazeta Wyborcza.

Ela estava internada no hospital Rua Plocka, que não quis comentar o fato, de ampla repercussão na imprensa local.

Como assistente social, Sendler fazia visitas regulares ao gueto, o que lhe permitiu retirar 2.500 crianças escondidas em caixas, malas ou carrinhos.

As crianças eram então entregues a famílias polonesas fora do gueto, criado em 1940 pela Alemanha nazista para reunir os cerca de 500 mil judeus de Varsóvia. Fora dali, as crianças recebiam novas identidades.

Sendler chegou a dirigir o departamento infantil da organização Zegota, que ajudava judeus durante a guerra. Mas em 1943 ela foi presa e torturada pela Gestapo.

Só escapou da execução porque a Zegota conseguiu subornar autoridades nazistas, que a deixaram inconsciente e com braços e pernas quebradas numa mata.

Em 1965, Sendler recebeu uma condecoração do governo de Israel, e posteriormente foi declarada cidadã honorária do Estado judeu. No ano passado, foi indicada ao Nobel da Paz. Apesar da sua bravura, rejeitava o rótulo de heroína.

Fonte Agencia Estado

29/04/2008 - 19:51h Brasileiros vão registrar em livro e documentário marcha para lembrar Holocausto

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Auschwitz

Luisa Guedes, O Globo Online

RIO - A partir desta terça-feira, cerca de 10 mil pessoas vão repetir uma manifestação realizada há 20 anos para lembrar o Holocausto, cruzando a Polônia e seguindo para Israel na chamada Marcha da Vida. Dessa vez, a reconstituição da trilha de muitos judeus - na morte ou na terra prometida - será registrada em livro pelo publicitário Márcio Pitliuk e o fotógrafo Márcio Scavone, dois dos 400 brasileiros que embarcaram para a viagem por antigos campos de concentração e locais sagrados para o povo judeu. Parte do trabalho que será publicado no fim do ano poderá ser acompanhada no GLOBO ONLINE durante os oito dias de marcha.

O percurso da “morte à vida” também será registrado em documentário dirigido por Jéssica Sanders, indicada ao Oscar e vencedora do Sundance Festival. Idealizador do projeto, orçado em R$ 3 milhões, e único judeu na equipe de 20 pessoas que embarcou para a Polônia, Márcio Pitliuk, que será responsável pelos textos do livro, conta que ficou impressionado com a reação da equipe durante a preparação para o trabalho.

” Auschwitz é uma fábrica da morte. É um pesadelo que não tem tamanho. Achei que não ia conseguir voltar lá, mas vou ter que encarar agora “

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- Quando eu levei (à Polônia) o pessoal da equipe que não é judeu e não tem tanta vivência com o Holocausto, vi o choque deles ao descobrir o tamanho da coisa. A gente fala em três milhões de pessoas, mas parece um número qualquer. Quando chega num campo como o de Treblinka, onde 800 mil pessoas foram mortas em 10 meses, a pessoa se dá conta de que 800 mil pessoas é uma cidade grande - contou Pitliuk, ainda em São Paulo, onde vive, antes de enfrentar de novo o terror dos campos de concentração. - Auschwitz é uma fábrica da morte. É um pesadelo que não tem tamanho. Achei que não ia conseguir voltar lá, mas vou ter que encarar agora - acrescentou.

A excursão ao passado começa em Cracóvia, onde será realizada uma cerimônia que relembra o fim do Holocausto. Em seguida, os participantes refazem a caminhada de três quilômetros entre o campo de concentração de Auschwitz e Birkenau, campo de extermínio. A marcha passará ainda pelos campos de Treblinka e de Majdanek e pelo Gueto de Varsóvia. Da Polônia, o grupo segue para Israel.

A manifestação foi criada em 1988 por Abraham Hirshson, um sobrevivente do Holocausto. Seu objetivo era, principalmente, fazer com que jovens estudantes pudessem conhecer os locais do “shoah”, como é chamado em hebraico o assassinato de milhões de judeus pelo regime nazista. A marcha, que acontece todos os anos desde a primeira edição, é aberta a todos. Agora, a organização fica a cargo da ONG internacional March of the Living .

Estima-se que 20% dos participantes não sejam judeus. Entre os brasileiros, 200 são estudantes de escolas judaicas que receberam subsídios para a viagem. Os outros 200 são adultos que arcaram com os custos por conta própria.

14/04/2008 - 13:10h El día en el que los judíos se enfrentaron a los nazis

Polonia celebra el 65 aniversario del levantamiento del gueto judío de Varsovia

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EFE - Varsovia

Los habitantes de Varsovia recuerdan mañana el 65 aniversario del levantamiento de los judíos del gueto contra los alemanes, un acto de desesperación para evitar la solución final nazi que suponía una muerte segura en los campos de concentración.

El presidente de Israel, Simón Peres, presidirá los actos conmemorativos junto con el jefe del Estado polaco, Lech Kaczynski, y una representación internacional que incluye al ministro francés de Asuntos Exteriores, Bernard Kouchner.

La presencia de Peres es especialmente importante en esta celebración, ya que el mandatario israelí regresa al país en el que nació en 1923, aunque a los diez años se trasladó con su familia a Tel Aviv.

El momento principal de estos actos tendrá lugar cuando Kaczynski y su esposa depositen un ramo de flores en el monumento dedicado a los héroes del gueto, mientras que la comunidad hebrea de Varsovia recitará el Kaddish, la oración judía para honrar a los muertos.

Marek Edelman, el último superviviente de los líderes del levantamiento, que aún vive en Varsovia, acompañará a los dirigentes en los homenajes de unos acontecimientos de los que él mismo fue testigo y actor principal.

La salvadora de 2.500 niños judíos

El programa también prevé un encuentro de Kaczynski y Peres con la heroína Irena Sendler, la anciana de 98 años que durante la II Guerra Mundial arriesgó su vida en cientos de ocasiones para salvar a 2.500 niños judíos, a los que sacaba a escondidas del gueto a pesar de la férrea vigilancia alemana.

Sendler fue propuesta para recibir el último premio Nobel de la Paz, que finalmente recayó en el norteamericano Al Gore, después de que su historia de heroísmo saliera a la luz tras permanecer durante años escondida entre los pliegues de la Historia dictada por el régimen comunista polaco.

La ciudad también ha preparado una serie de actos culturales para celebrar el 65 aniversario del levantamiento judío, incluyendo un concierto a cargo de la filarmónica israelí bajo la dirección de Zubin Mehta.

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De 3,5 millones de judíos a unos miles

Antes de la II Guerra Mundial, Polonia era uno de los países europeos con más población judía, estimada en alrededor de 3,5 millones, aunque tras el Holocausto llevado a cabo por los nazis la comunidad hebrea quedó reducida a apenas unos miles.

En 1940 las fuerzas alemanas de ocupación obligaron a los más de 400.000 habitantes judíos de Varsovia a concentrarse en una zona concreta del centro de la ciudad que pasó a llamarse gueto, y que fue aislada por un muro tras el cual apenas se disponía de alimentos, medicinas o ropa de abrigo.

Muchos murieron de hambre y enfermedad por las pésimas condiciones del gueto, mientras el resto aguardaba su traslado a los campos de concentración, donde también les esperaba una muerte segura en las cámaras de gas.

En el resto de la ciudad la situación no era mucho mejor, con continuos enfrentamientos entre la resistencia polaca y la guarnición nazi, en una guerrilla permanente que el director Roman Polanski describió en la premiada película El Pianista.

El levantamiento del Gueto de Varsovia se produjo el 19 de abril de 1943 y fue un acto de resistencia de los jóvenes judíos frente a la liquidación sistemática llevada a cabo por los alemanes, que planeaban reducirlo todo a cenizas.

Un enfrentamiento con 14.000 víctimas hebreas

En esta lucha perdieron la vida alrededor de 14.000 judíos, mientras otras decenas de miles fueron transportados por los nazis a los campos de concentración, donde fueron exterminados.

Los escasos supervivientes del gueto se unieron a la resistencia polaca para participar en otro sangriento levantamiento, que meses después pondría en jaque a los alemanes a costa del sacrificio de 200.000 ciudadanos y la destrucción del 90 por ciento de Varsovia.

Cuando los soviéticos decidieron entrar en la capital polaca se encontraron con un panorama desolador, que aprovecharon para tomar el control del país e imponer otra ocupación que sería mucho más prolongada y que se extendería hasta la caída del muro de Berlín, en 1989.

Partizanenlied -Chant des Partisans

Ne dis jamais que c’est ton denier chemin
Malgré les cieux de plomb qui cachent le bleu du jour
Car sonnera pour nous l’heure tant attendue
Nos pas feront retentir ce cri : nous sommes là

Le soleil illuminera notre présent
Les nuits noires disparaîtront avec l’ennemi
Et si le soleil devait tarder à l’horizon
Ce chant se transmettra comme un appel

Ce chant n’a pas été écrit avec un crayon mais avec du sang
Ce n’est pas le chant d’un oiseau en liberté :
Un peuple entouré de murs qui s’écroulent
l’a chanté, nagan* à la main

Du vert pays des palmiers jusqu’au pays des neiges blanches
Nous arrivons avec nos souffrances et nos douleurs
Et là où est tombé la plus petite goutte de sang
Jaillira notre héroïsme et notre courage

C’est pourquoi ne dis jamais que c’est ton dernier chemin
Malgré les cieux de plomb qui cachent le bleu du jour
Car sonnera pour nous l’heure tant attendue
Nos pas feront retentir ce cri : nous sommes là

*nagan, pistolet de l’armée rouge
Partizanenlied -PARTISAN’S SONG
Zog nit keynmol az du gayst dem letzten veg,
Ven himlen blayene farshteln bloye teg;
Vayl kumen vet noch undzer oysgebenkte shuh,
Es vet a poyk tun undzer trot - mir zaynen do!

Es vet di morgenzun bagilden undz dem haynt,
Un der nechten vet farshvinden mitn faynt;
Nor oyb farzamen vet di zun in dem ka-yor,
Vi a parol zol geyn dos leed fun door tzu door.

Geshriben iz dos leed mit blut und nit mit bly,
S’iz nit keyn leedl fun a foygel oyf der fry;
Dos hut a folk tzvishen falendi-ke vent,
Dos leed gezungen mit naganes in di hent.

Fun grinem palmenland biz land fun vaysen shney,
Mir kumen un mit undzer payn, mit undzer vey;
Un voo gefalen iz a shpritz fun undzer blut,
Shpritzen vet dort undzer gvure, undzer mut.

Zog nit keyn mol az du gayst dem letzten veg,
Ven himlen blayene farshteln bloye teg;
Kumen vet noch undzer oysgebenkte shuh,
Es vet a poyk tun undzer trot — mir zaynen do!
Music:Dmitri and Daniel Pokrass - Yiddish Words:Hirsh Glik

שיר הפרטיזנים

ביצוע: שמעון ישראלי
מילים: הירש גליק
לחן: לא ידוע
גירסה עברית: אברהם שלונסקי

אל נא תאמר הנה דרכי האחרונה
את אור היום הסתירו שמי העננה
זה יום נכספנו לו עוד יעל ויבוא
ומצעדינו עוד ירעים אנחנו פה

מארץ התמר עד ירכתי כפורים
אנחנו פה במכאובות ויסורים
ובאשר טיפת דמנו שם נגרה
הלאינוב עוד עוז רוחנו בגבורה

עמוד השחר על יומנו אור יהל
עם הצורר יחלוף תמולנו כמו צל
אך אם חלילה יאחר לבוא האור
כמו סיסמא יהא השיר מדור לדור

בכתב הדם והעופרת הוא נכתב
הוא לא שירת ציפור הדרור והמרחב
כי בין קירות נופלים שרוהו כל העם
יחדיו שרוהו ונגאנים בידם

04/04/2008 - 14:06h Segregação presente, mas sob outra roupagem

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Marília Martins - O Globo

Correspondente

NOVA YORK. Quando alguém pergunta sobre as conquistas e as frustrações do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, a professora Lillian Williams costuma responder citando sua própria trajetória pessoal como exemplo.
Ela é hoje coordenadora de estudos afro-americanos na Universidade Estadual de Nova York, em Buffalo. Nos anos 60, a área de estudos afro-americanos simplesmente não existia e o posto de pesquisadora universitária era praticamente impossível de ser alcançado por mulheres negras.

Lillian Williams reconhece que, nos últimos 40 anos, a sociedade americana mudou radicalmente.Mas a professora não considera que a pauta de reivindicações do movimento pelos direitos civis esteja esgotada.

Ao contrário, para ela ainda há muito por fazer para reduzir as tremendas desigualdades raciais que ainda persistem nos EUA. Segundo a acadêmica, nestes 40 anos muita coisa mudou, como o surgimento de uma classe média negra, que antes não existia. Ela cita as leis sobre os direitos civis, de 1964, e sobre a garantia do direito de voto, de 1965, como fundamentais para que estas mudanças acontecessem, assim como as ações afirmativas dos anos 70, que garantiram, por exemplo, cotas para professores e estudantes de minorias raciais nas universidades.

Apesar disso, a acadêmica mantém suas ressalvas.

— Mas mesmo assim, 40 anos depois do assassinato de Luther King, não se pode dizer que os EUA sejam uma democracia racial. Não é verdade.

As escolas de ensino fundamental, por exemplo, tornaramse ainda mais segregacionistas, e as oportunidades em termos de trabalho, educação e saúde não são iguais. As minorias raciais ainda são segregadas economicamente — analisa ela. — Chegamos a um ponto em que não se trata mais de conquistar direitos legais, e sim de garantir a implementação dos direitos existentes.

O conflito agora é econômico, e nesse sentido se pode pensar numa coalizão ampla de todas as minorias.

Bairros pobres ainda são guetos para moradores Um dos aspectos que chamam a atenção é o fato de as escolas públicas fundamentais serem, nos EUA de hoje, mais segregacionistas que as dos anos 60. Lillian explica que o sistema escolar público americano divide as escolas de acordo com a vizinhança: escolas de bairros negros têm hoje apenas alunos negros, e assim por diante. Há pouca mistura de alunos de raças diferentes na mesma classe porque as cidades americanas têm divisões raciais que são superpostas a divisões geográficas.

Por isso, os bairros pobres continuam a ser guetos para seus moradores, sem oportunidades de educação e de trabalho que se equiparem aos bairros ricos, onde mora a maioria branca. O mesmo acontece com as universidades.

Para a professora, as cotas facilitaram o acesso de alunos negros aos cursos universitários, mas não resolveram o problema da discriminação.

Ela explica que as universidades estaduais têm menos verbas para ensino do que as ricas universidades particulares, ainda redutos da elite branca.

— É verdade que universidades ricas, como Harvard, têm programas de inclusão social e de diversificação do seu quadro docente, mas os centros de decisão ainda permanecem nas mãos de uma elite branca, e por isso persistem as desigualdades de oportunidades — critica Lillian Williams. — Outra vez voltamos ao ponto que é central no debate racial de hoje nos EUA: é preciso garantir a todos oportunidades iguais de educação e de trabalho, e nisto os EUA ainda estão longe de ser uma democracia racial.

Como a pesquisadora, muitos lembram que o movimento dos direitos civis nos EUA ganhou uma outra realidade com o aparecimento, nos anos 90, de uma alta classe média negra, antes inexistente.

Segundo o Censo americano, 25% dos domicílios de famílias negras são hoje de classe média, mas nos números que revelam a ascensão social dos negros ainda há forte índice de concentração: apenas 5% dos negros americanos têm renda superior à de 85% dos domicílios de famílias brancas. Nomes como o da apresentadora de TV Oprah Winfrey ou o do primeiro CEO negro americano, Stanley O’Neal, da Merrill Lynch, tornaram-se símbolos desta nova possibilidade de ascensão social, que antes não havia.

Timothy Nelson, da Universidade de Harvard, considera que a abertura das universidades para os negros teve um papel importante nisso, permitindo a formação de um contingente de profissionais liberais que hoje disputa postos de trabalho com a elite branca.

Mas ele ressalta que ainda resta um largo contingente de negros, hispânicos, asiáticos e outras minorias raciais que permanecem à margem da sociedade, vivendo segregados em bairros que se transformam em guetos sociais.

— É possível pensar, hoje, em pontos comuns que unem todas essas minorias socialmente marginalizadas. Mas, para que esta realidade mude, seria preciso que houvesse uma nova maioria no poder interessada em priorizar a redução das desigualdades sociais. Num momento em que a economia americana caminha para a recessão, esta promessa parece difícil de ser alcançada — diz.

04/04/2008 - 13:54h O sonho não se realizou*


Senador Edward W. Brooke, primeiro senador negro dos Estados-Unidos - Bill Crandall for The New York Times

*Edward W. Brooke - O Globo

Os Estados Unidos têm muito sobre o que refletir com os 40 anos de eventos inter-relacionados como a Comissão Kerner, o assassinato de Martin Luther King e a onda de protestos que ocorreram depois do crime em mais de cem cidades em todo o país. Ouvimos o inteligente discurso do senador Barack Obama sobre a questão da raça, e as reações que ele provocou. Hoje, infelizmente, o sonho do Dr. King ainda não se realizou.

O ex-senador Fred Harris e eu somos os únicos membros ainda vivos da Comissão de Aconselhamento sobre a Desordem Civil (o nome do grupo liderado pelo governador Otto Kerner) do presidente Lyndon Johnson. Ela concluiu que a frustração dos negros cresceu a partir da sub-representação no sistema político, na polícia, na mídia e em todos os aspectos da vida americana. Exortamos novos investimentos em empregos, escolas e habitação.

Declaramos que a pobreza, a desigualdade e a segregação no gueto racial criaram um ambiente destrutivo desconhecido para a maioria dos americanos brancos. Dissemos que a América branca criara e mantivera o gueto e que fazia vista grossa. Foram palavras duras, mas a verdade precisava ser dita.

Pensei que o presidente Johnson aplaudiria nossa análise e apoiaria nossas recomendações.

Mas o presidente que tanto fizera para os direitos civis se distanciou das descobertas.

Não nos convidou à Casa Branca para o lançamento do relatório, como era costumeiro, nem acolheu nossas recomendações.
Retrospectivamente, vejo que o relatório era forte demais para ele aceitar: sugeria que suas conquistas — a Lei dos Direitos Civis, o programa antipobreza — eram só um começo.

Pedimos, num ano eleitoral, que ele endossasse a idéia de que a América branca tinha grande responsabilidade pela rebelião negra.

A comissão dificilmente poderia prever os avanços que os afro-americanos fariam desde o relatório, ou o aumento populacional, o progresso e a influência dos hispânicos. Com a ascensão de um afro-americano na disputa presidencial, observadores imparciais poderiam engasgar com o quanto avançamos.

Ainda assim, apesar da visibilidade de afroamericanos e hispânicos bem-sucedidos e do progresso nas relações raciais, para os pobres dos EUA — aqueles que não sabem o que é assistência médica, porque, para eles, ela não existe; para quem a prisão é um futuro mais possível do que a faculdade; os que foram abandonados nos centros urbanos decadentes devido à fuga da classe média — o futuro é tão sombrio quanto nos anos 1960.

As condições-chave identificadas pela comissão são tão atuais, mesmo que não tão violentas, hoje como há 40 anos. A ausência de moradias e a falta de emprego ou de esperança no futuro confinaram um número ainda maior de cidadãos num mundo assustadoramente familiar, que não muito tempo atrás fez com que as cidades ficassem em chamas.

Realizar o sonho do Dr. King requer segurança econômica e de saúde, geração de empregos e educação de qualidade para a minoria pobre, para a negligenciada classe trabalhadora e para a ansiosa classe média.

*EDWARD W. BROOKE , republicano, foi o primeiro senador negro dos EUA

06/12/2007 - 19:04h Canções de luta e esperança

Musicas do Gueto de Varsóvia